Padiola é um estrado ou maca, improvisada de
tábuas com varais para se carregar algo, à semelhança de um andor [1]. Conforme o peso do material a se carregar e a dimensão da padiola, é carregada por duas pessoas (uma adiante outra atrás) ou por quatro (duas adiante e duas atrás). Nas roças era usado para
transportar cadáveres amortalhados (féretro) até a entrada da cidade ou da vila próxima, em cuja
entrada era baixada e o morto descido a um caixão para assim entrar na zona
urbana ou núcleo populacional. A padiola era então jogada fora no mato, ou abandonada à beira do caminho.
Em São Gonçalo do Amarante (antigo Caburu), distrito
de São João del-Rei, existia [2] um indivíduo arbóreo de árvore de óleo-vermelho, árvore de óleo ou pau d'óleo (Copaifera langsdorffii / fabaceae), tido como de avançada idade, na saída para o
Caxambu, imediações da travessia da estrada pelo Córrego da Passagem, conhecida como “Árvore da
Padiola”, pois à sua sombra, outrora, mudavam o cadáver para o caixão e descartavam a
padiola. Segundo narram antigos moradores, quando alguém morria em algum sítio, fazenda ou povoado nas imediações, um cavaleiro se apressava por vir até o Caburu para trazer a notícia ao carapina (carpinteiro), que fazia a preparação de um caixão. Preparava-se também a ornamentação que fosse possível improvisar, com flores dos quintais. O cortejo fúnebre seguia até a entrada do Caburu em padiola, onde então, junto à árvore mencionada, o carapina já aguardava com o caixão para trocar o corpo de lugar. Era posto no caixão, recebia as flores, e o cortejo seguia à igreja para as preces e despedidas de praxe. A padiola ficava abandonada sob a sombra da árvore, como uma lembrança macabra, tornando-a parte de um lugar de memórias, funestas em verdade, mas relatado como um ambiente de energia densa, atmosfera triste, meio assombroso ou assombrado.
Vencido esse costume pelas facilitações da vida atual, no qual o deslocamento foi facilitado pelas estradas melhoradas e a presença de mais automóveis, a árvore ficou como uma lembrança na paisagem, um marco cultural.
Essa narrativa faz a árvore da padiola ser enquadrada na categoria das árvores míticas. Muito embora fisicamente seja uma realidade, culturalmente se encaixa no universo mítico da comunidade, enquanto ponto de narrativas e memórias. Nisso assemelha-se a outras árvores de diversas regiões, vgetais emblemáticos na paisagem, singulares em seus contexto intangível, ainda que diverso do que é observado no Caburu. Mas outras narrativas não invalidam o valor agregado de patrimônio imaterial a essas árvores gigantes [3]
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1- Árvore da Padiola, na estrada Caburu-Caxambu. Distrito de São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei/MG). 09/10/2011
2- Árvore da Padiola já com adoecimento avançado, percebendo-se perda das folhas. Data: 2022. 3- Árvore da Padiola já morta, em razão da patologia que atingiu suas raízes e parte do tronco. Data: 2022.
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Referências
- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografias: 1- Iago C.S. Passarelli; 2 e 3- autor (a) não identificado (a).
Notas
[1] Obs.: na construção civil é também usada para carregar material de obra, por dois trabalhadores. O mesmo que banguê (Região Nordeste). No Nordeste do país e área norte mineira o costume dos enterros rurais adotava sobretudo a rede trespassada a um pau para carregar o defunto, em vez da padiola.
[2] Infelizmente, a velha Árvore da Padiola pereceu por uma doença que gerou apodrecimento de parte de seu tronco e raízes, vindo a cair naturalmente no período chuvoso, de janeiro de 2022. Quando este este texto foi publicado no blog, ela ainda estava de pé, aparentemente saudável.
[3] Alguns exemplos de indivíduos arbóreos que se destacam por sua inserção paisagística e patrimônio imaterial agregado: Figueira Encantada (Dores de Campos, 2024); o grande jequitibá
próximo à Cava Amarela (Coronel Xavier Chaves, 2026); figueira sob cuja sombra Dom Pedro II descansou, em Lagoa Dourada - tombada pelo Decreto nº1005/2002 (Lagoa Dourada, 2022); a árvore de óleo em uma praça de Minduri, tombada em 2004, Decreto nº670 (Minduri, 2026); a frondosa gameleira da ruína
da igreja da Barra do Guaicuí, em Várzea da Palma (IPatrimônio, 2026), dentre
outros exemplos.
- Revisão, ampliação textual, acréscimo de fontes e fotografias: 15/09/2026.