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Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




domingo, 12 de fevereiro de 2017

Nomenclatura geográfica popular

Na ocupação ambiental, o homem no convívio com a natureza e uso de seus recursos, à medida que foi desbravando o imensidão continental, tratou logo de denominar os lugares para facilidade de localização. Tais nomes se fixaram como topônimos e tem elevado valor cultural: Serra das Vertentes, Rio Carandaí, Morro do Vento, Fazenda do Pombal, Povoado do Biongo, Cruzeiro do Pau d'Angá, Ponte da Província, Pedreira da Divisa, Lagoa do Cará, Córrego do Lenheiro, Ribeirão São Francisco Xavier, Gruta do Caititu, Cachoeira dos Gamelões, etc. Muitas vezes os topônimos são vitimados por mudanças indevidas de nomes, num flagrante desrespeito ao seu significado histórico. A toponímia já foi alvo de postagem neste blog (*). 

Ora este texto se dedica a uma outra classe de denominações: a dos acidentes geográficos, que tem íntima correlação coma a toponímia. Independente do topônimo individual existem alguns elementos paisagísticos de orografia, hidrografia e vegetação, que por se repetirem daqui e dali, mereceram uma nomenclatura específica. Alguns termos são assaz conhecidos e até dicionarizados; outros, nem tanto... No mais, existem diferenças regionais de significação. Assim, o quê aqui nas Vertentes denominamos "restinga" em nada corresponde à restinga litorânea, como forma de vegetação (**). 

A nomenclatura geográfica popular nunca teve nenhum compromisso com as formas acadêmicas. É como o povo vê a natureza e isto lhe basta. 

É sobretudo nos meios rurais que sobrevivem estas expressões que aos ouvidos urbanos soam estranhas. O sitiante delas precisa quando vai campear uma rês tresmalhada: 

_ "Você viu aquela minha vaca moira (***), compadre? Ela sumiu desde ontem...
_ Vi, compadre, lá detrás daquele boqueirão rio abaixo". 

É o bastante como indicativo. No local, além da acuidade visual, o sitiante observará sinais como fezes no caminho, vegetação pisoteada pela criação, ramos quebrados pela trilha. Logo acha a vaca. E se não achar, reza para Santo Antônio, que esse santo não falha na busca de gado perdido...

Serve-lhe de posicionamento de limites: 

_ "minha divisa, sô Zé, passa lá no espigão daquela serra". 

Ouvir um tropeiro, ou dialogar com o boiadeiro, observar a fala do retireiro... é uma aula maravilhosa de saberes do nosso mundo rural, é mergulhar num universo de cultura popular muitas vezes menosprezado pelos compêndios. 

Os termos abaixo listados em glossário foram sumariamente pinçados da memória. Natural que existam omissões de outros... Lembrando mais uma vez que noutras regiões poderão existir mais designações ou que estas tenham outro significado. Além da nomenclatura geográfica, aproveitando o ensejo, foram acrescidos outros termos correlatos que indicam certas características de um terreno. 


Glossário


Aba - a vertente de uma serra; encosta. 

Areado - regato com considerável quantidade de areia no leito. 

Baiacu - lama finíssima e escorregadia, imediatamente à margem dos rios. Na costa o conceito é outro: baiacu é o nome dado pelos pescadores aos peixes oceânicos da família tetraodontidae

Baiacu na margem do Rio das Mortes, na localidade do Brumadinho
(São João del-Rei/MG). 24/08/2014. 

Banqueta - degrau ou base de um barranco; talude ao sopé de um morro. Nas margens do Rio das Mortes, na Colônia do Bengo, em São João del-Rei, logo após a antiga "Parada do Patronato" (km 103 da Estrada de Ferro Oeste de Minas, extinta "Linha do Sertão") uma curva leve do rio, em corredeira, tem o nome de Banqueta. É tida por mal assombrada. Aí, a muitos anos, relatam, o famoso benzedor sr Emídio do Bengo teria visto à noite uma cobra gigantesca atravessando a linha férrea rumo ao rio. Decerto, seria uma sucuri (anaconda). 

Barra - o mesmo que "encontro": é a foz de um córrego ou rio. 

Barra de um regato no Córrego do Brumado de Cima.
São João del-Rei. 25/07/2009. 

Bocaina - vale, abertura entre duas montanhas. 

Boqueirão - vossoroca grande, abertura erosiva larga de um terreno. 

Capão - o mesmo que capoeira. Mata pequena. Ficou célebre na história da Guerra dos Emboabas (1707-1709) o episódio de uma chacina próxima à atual cidade de São João del-Rei, num local que ficou conhecido por "Capão da Traição". 

Capoeira - Pequena mata, isolada de outras áreas florestais. Conjunto relativamente fechado de árvores pequenas. 

“Falei contigo 
no cordão do quarentão, 
quando eu roçava capuêra 
minha cumida era mamão, 
eu pegava com São Jorge, 
santo da minha divução! etc.” 
(Calango, Guilherme [Bias Fortes/MG], 1996). 

O mesmo que capão. Se acaso tem árvores um tanto maiores mas ainda não chega a ser uma mata típica (de aspecto florestal), dizem "capoeirão". O terreno onde o mato vai crescendo desordenadamente, tampando-o, diz-se que está "encapuerado".

Chapada - vale amplo e relativamente plano ou com inclinação moderada entre duas cadeias montanhosas. Em São João del-Rei exite a localidade da Chapada, junto à Serra do Lenheiro, no distrito de São Gonçalo do Amarante e a ainda a Chapada do Diogo, entre os distritos de Emboabas e São Miguel do Cajuru. 

Chapadão. Serra de São José, em Santa Cruz de Minas e Tiradentes/MG. 23/10/2009. 

Desbarrancado - qualquer vossoroca; área de desmoronamento; terreno com deslizamento de solo. 

Espigão - crista que culmina uma montanha ou sequência de morros. Linha imaginária que tangencia as partes mais elevadas de uma serra. 

Facão - passagem em barreira horizontal entre duas montanhas, mais ou menos escarpada. 

Facão visto ao fundo, entre as montanhas, a partir do Chuveirinho
(Santa Cruz de Minas). Serra de São José, 12/02/2011.

Fervedouro - nascente borbulhante, como se a água estivesse fervendo. Fonte natural onde a emanação de água produz bolhas. Existe um canto de catupé, coligido em São João del-Rei, que diz: 

"Quem nunca viu, vem vê:
caldeirão sem fundo, fervê!"

Dizem os congadeiros que é uma referência o fervedouro, mas na prática se aplica aos momentos festivos de relativa tensão, quando surgem demandas entre os grupos de congado. Diz-se então que a Festa do Rosário está "fervendo"... 

Fio d'água - local onde a água de um rio corre com aspecto linear, devido à interposição de uma pedra submersa, galho, ou ponta de barranco das margens, sendo via de regra mais impetuosa que a água em derredor. 

Garganta - passagem em barreira vertical entre duas montanhas, mais ou menos escarpada, sempre estreita. A forma faz analogia à garganta anatômica (orofaringe).

Grota - abertura estreita numa encosta, maior que a garganta, ou ao contrário dela, sem constituir uma passagem. Vão num morro, coberto de densa vegetação, sombrio, úmido. Quando a dimensão é maior chamam-lhe grotão. Grota tem o sentido de recôndito, selvagem. É neste contexto que os umbandistas cantam o ponto de um célebre guia caboclo, do qual segue transcrito este fragmento:

(...)
Ubirajara,
mora lá nas matas,
lá na grota funda, 
lá no fim do mundo!"

Uma pequena grota na Serra de São José,
Santa Cruz de Minas. 20/02/2017. 

Lagrimal - encosta ou porção de terreno com grande quantidade de nascentes muito próximas da qual a água escoa em vários fluxos que depois se unem. Por analogia, é como se uma lágrima escorresse. 

Loca - pequena caverna; grota entre pedras grandes. Covil, lura. A nomenclatura também é usada para formações semelhantes submersas em rios. 

Mina - nascente; fonte de água natural.

Noruega - brejo de campo ou brejo de altitude, em oposição ao brejo de baixadas. Alagadiço de partes altas ou de encostas, lugar úmido, sombrio. A argila encontrada nas noruegas é em geral acinzentada, preferida como matéria prima para trabalhos de cerâmica popular por sua resistência. Vasilhames feitos com esta argila não deixam gosto de barro, dizem os oleiros experientes, tais como filtros, talhas e potes. Ao contrário, se usarem a argila de brejo comum (de baixada) o gosto de barro não sai e prejudica a qualidade da peça. Não é rara a pronúncia "norôega". Em Minas Gerais há uma antiga cidade do ciclo do ouro chamada Catas Altas da Noruega, nome oriundo desta nomenclatura tradicional. 

Oca - (pronúncia aguda, "óca") barranco ou afloramento de latossolo numa encosta, amarelo ou vermelho (o termo piçarra se aplica mais ao latossolo acinzentado). 

Olho d'Água - nascente; fonte de água natural.

Pirambeira - despenhadeiro, ravina, descida extremamente íngreme e inacessível. 

Praia - córrego de margens arenosas; ribeiro com acúmulo de areia marginal; praia fluvial. Na região tem-se na toponímia o Córrego do Espraiado (São João del-Rei e Ritápolis), Três Praias (São João del-Rei), "Praia" (alcunha do Córrego do Lenheiro em São João del-Rei), Prainha (distrito de Ritápolis). 

Rebojo - área de remanso de um rio onde o fluxo movido por força de águas mais profundas retorna a montante, fazendo um giro das águas. O mesmo que "reboio". Rodeio de águas fluviais.

Vista de um rebojo no trecho do baixo Rio das Mortes, entre a Ponte do Inferno
e Aureliano Mourão (Bom Sucesso/MG). Notar que o canal do rio passa em
corredeira à esquerda da fotografia e à direita, no grande remanso, pedaços de
galhos boiam em giro indicando circularidade das águas. 01/01/2003. 

Restinga - faixa de vegetação alta entre a vegetação baixa. Entremeio de capoeiras num cerrado. 

Saco - volta acentuada de um rio, cuja curvatura simula o reencontro dos extremos do fluxo. Na toponímia fixou-se no Rio Grande num distrito de Carrancas/MG: Capela do Saco. A característica que deu nome ao local está hoje submersa na Represa de Camargos. O saco se diferencia da baía por ter uma faixa de terra interna. Próximo à Capela do Saco existe a localidade denominada Baía, no lado são-joanense. 

Saivá - área de mato ralo e relativamente alto numa pastagem; "pasto sujo" (arborescente). 

Serrote - pequena serra, serrinha, serrota. Pequenos morros com blocos rochosos. 

Serrote, no início da Serra de São José.
Santa Cruz de Minas. 28/11/2011. 

Sumidouro - desaparecimento de um fluxo d'água sob a terra; passagem subterrânea de águas fluviais; poço de grande profundidade num rio onde o torvelinho puxa para o fundo, gerando muitos afogamentos. 

Tijuco - brejo, pântano, atoleiro, paul. É também corrente a grafia "tejuco". Tem outrossim a variante no feminino. Em São João del-Rei existe o Bairro do Tijuco, às margens do Córrego do Lenheiro, outrora obrigando o Caminho Geral do Sertão a passar na parte mais alta (atual Rua Santo Antônio), para sair da área alagada de suas margens; há também o pequeno povoado do Tijuco, no distrito de São Sebastião da Vitória, antiga passagem junto ao atalho do mesmo caminho, surgido no começo do século XVIII a partir de Encruzilhada (hoje Cruzília, no sul mineiro). 


Notas e Créditos



** Restinga: igualmente acontece com a palavra "mangue", aqui aplicado a uma espécie arbórea que nasce junto aos cursos de água. Na Serra de São José existe inclusive a "Cachoeira do Mangue", referência a este vegetal. No litoral é uma árvore completamente diferente, que domina áreas salobras sob influência das marés e constitui o elemento preponderante do bioma manguezal. 

*** Vaca moira: bovino com pelagem branca, intermediada por malhas largas em preto e entre elas, salpicados escuros difusos, maculando o fundo branco. Para consultar outras denominações de cores de animais leia neste blog: CARACTERÍSTICAS DOS ANIMAIS

**** Texto e fotografias: Ulisses Passarelli 

Um comentário:

  1. Caro Ulisses,
    Seu trabalho é fantástico e nos emociona.
    Essas denominações são impregnadas de memória e sabedoria. Transmitem a relação Homem e Meio Ambiente, em sua forma mais próxima da realidade e por isso Poética.
    Parabéns e gratíssimo por compartilhar conosco suas aventuras pelo meio rural.
    Um grande abraço do seu admirador Luiz Cruz

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