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Bem vindo!Esta página está sendo criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

São João del-Rei: 304 anos de patrimônios

Ninguém o sabe ao certo. Documento exato não se apresentou. Cogita-se... estima-se... a data inicial. Mas é certo que essa única São João del-Rei ultrapassa os trezentos anos. Já no anoitecer da era dos seiscentos, bandeirantes aventureiros passavam para lá e para cá pelo vale do Rio das Mortes, perseguindo índios e caçando riquezas. Até que um resolveu ficar com família e escravos. Fez morada no Porto Real da Passagem e em 1701 se tornou a primeira autoridade, como guarda-mor. Tomé Portes del-Rei era seu nome. Nosso fundador e patrono. Tudo começou ali pras bandas de Matosinhos, que sempre foi e ainda é São João del-Rei. Mas o mérito não é tentação para essas linhas discorrerem. O foco é outro. 

O núcleo cresceu e se multiplicou, desdobrou; e em 08 de dezembro de 1713 um arraial miúdo e dourado, entre montanhas mineiras e mineradoras foi elevada a vila e batizada com o pomposo nome de São João del-Rei. Por isto hoje comemoramos seu aniversário: 304 anos que na verdade são mais. É como uma pessoa que depois de vários anos de nascida fosse então tirar a certidão de nascimento, sem data retroativa. Tal aconteceu com esta urbe. 

A cidade expandiu e hoje é reconhecida por sua cultura e patrimônio, inseparáveis. Tem uma cara, uma fisionomia, um modo de ser, de viver, uma identidade. E isto, em plenitude, compõe seu mais tenro patrimônio, o humano. São João del-Rei não é nada sem o são-joanense. O maior patrimônio é a pessoa e ponto final. Terra de personalidades eminentes, artistas, mestres, sábios, estudiosos, músicos, ferroviários, operários. Povo acolhedor. Gente simples e culta. Quem cultua sua cultura é culto. 

São João é uma cidade poética. Cada novo ano de sua história é um verso a mais em sua poesia em permanente construção. Ao se passear pelas ruas antigas ou pelas novas, pelo núcleo histórico ou pelos arrabaldes, em caminhada em qualquer bairro que seja, se observa a velha e a nova cidade, cada uma de per si com sua característica, que no todo é a mesma São João del-Rei multi-facetária. Não se pode equiparar o todo só pela identidade do núcleo histórico. Ele é absolutamente fundamental, mas a cidade de fato palpita também além dele. Por toda parte tem seus problemas, mas ainda assim a amamos. 

O tão decantado patrimônio são-joanense pode ser entendido noutra dimensão, aquela que de fato vivifica as cidades. O valor do patrimônio imaterial ou intangível vem sendo alvo de atenções a bastante tempo; contudo, parece inegável que num grau bem menos intenso que o do material ou tangível. Quase que automaticamente, acostumamos a nos referir às edificações como patrimônio, mas às manifestações... não. A observação deve ir além das belas construções. 

O casario, o largo, as ruas e os templos formam o cenário; a paisagem, como a esplêndida Serra do Lenheiro, forma a moldura. Mas uns e outros seriam como uma bela vitrine se não houvesse o patrimônio imaterial. A cidade, por mais preservada que esteja ou que estivesse, sem sua vida cultural é como uma cidade cenográfica. Os cidadãos compõe o mosaico dessa cultura riquíssima. Nas lendas e mitos refletem suas crenças, medos e interpretações do mundo. Na sua fé, nos seus ritos e cerimônias se sintonizam com o sagrado. Nas simpatias e benzeduras buscam alívio. Nas diversões se confraternizam e socializam. É preciso andar por aí com todos os sentidos aguçados, e porque não dizer, até com o sexto sentido aflorado... naquela esquina contam que viram uma assombração. Se lembrar disso e passar por lá, pode até sentir um arrepio!  

A cultura perpassa desde a visão focal de um detalhe arquitetônico até a visão global da vida contida no lugar. Enfim, no todo, o que o bem contemplado proporciona para a identidade daquela comunidade. A partir dessa perspectiva a cultura e o patrimônio podem ser entendidos com o sentimento e este com os sentidos: 

Olfato: a contemplação das manifestações passa pelo aroma dos temperos típicos, da culinária tradicional; da identificação de ervas de tempero ou medicinais pelo odor característico; pelo fedor da pólvora queimada nos foguetórios das alvoradas e procissões; o ar olorífico dos templos de piso revestido de folhas de rosmaninho; das ervas de Oxalá de um amassi; das folhas de guiné e arruda que fervem num banho de descarrego; da madeira serrada pelo carapina que repara um telhado; um cheiro do rapé trazido numa latinha no bolso ou do fumo do cigarro de palha; das misturas de um garrafada para bronquite;  da cachaça que da roça veio à cidade ...

Tato: o devoto não se limita a orar diante de uma imagem; tem que passar a mão nela, tocar, beijar-lhe a fita atada ao seu corpo; esfregar a bandeira da folia de Reis sobre uma parte doente do corpo para Santos Reis trazer o alívio e a cura; passar a bandeira do congado em volta da cabeça para limpar a aura; é preciso bater a testa no mastro para buscar forças, ou o pé esquerdo na encruzilhada para afastar malefícios. A mão corre sobre a lápide como se assim o saudoso estivesse mais perto do ente querido sepultado. Um giz ou um pincel risca o chão para esquadrejar o jogo da amarelinha. Sentir a serragem correr entre os dedos na elaboração de um tapete de rua. Pessoas se cumprimentam, estendem a mão. Um abraço fraterno... um toque gentil no ombro... 

Paladar: a culinária típica e seus inúmeros desdobramentos _ o quentão da festa junina com seu sabor marcante de gengibre, o cafezinho que o cidadão comum toma no bar da esquina como parte de sua rotina urbana, o bolinho de feijão que ali mesmo abrevia o tempo de espera do almoço, o sabor da amêndoa encartuchuda ou o doce de leite mexido num velho tacho, segundo receita ancestral; as frutas típicas de cada estação, algumas incomuns, que o mercado  tem à venda, as peculiaridades de sabor dos queijos regionais (frescos, meia-cura e curados ou os saborizados com temperos), o almoço festivo da Festa do Divino, o delicioso café da manhã das Festas do Rosário entre os irmãos congadeiros; o torresmo, o coquinho que se quebra com pedra para extrair a amêndoa, a pipoca comprada no carrinho típico na porta do cinema ou do teatro, o algodão doce espetado numa haste, apregoado com o fon-fon de uma buzina ... 

Audição: cidade sonora! Veículos, cães vadios ladrando pela rua, bêbados proferindo impropérios, acordes de um piano extravasam por uma vidraça, pois lá dentro alguém executa uma peça que ouvimos ao passar pela calçada. Batucadas ensaiam um bloco. Foguetes anunciam a chegada da procissão; fiéis gritam "viva!"; a menininha pede a mãe para comprar um balão colorido; o pedinte implora um óbolo pelo amor de Deus; os sinos convocam os devotos à celebração; a sanfona harmoniza o canto do calangueiro; na folia de Reis a viola caipira geme louvores; no congado, tambores troam resistência. Nos coros, vozes e violinos saúdam ao Criador. Sobre velhos paralelepípedos, marcha a banda, soprando partituras. Matraca bate estrepitosa na quaresma. Maria fumaça, vai partir, o apito já anunciou; a sirene da fábrica de tecidos marca o horário dos trabalhadores e até por extensão dos afazeres domésticos. Passa um vendedor empurrando um carrinho: "ao picooooo...lééé!" Lá no morro zoa "atabaca": é seu Tranca-ruas que vai arriar!

Visão: pipas colorem o céu, bailam ao vento, se esquivam para lá e para cá; as árvores da praça se pintam de flores em cada estação própria. O telhado velho ondula curvas de barro. A imagem do santo aponta o dedinho para o céu. Torres sacras verticalizam a cidade. O anjinho barroco de bochecha gorda sorri para nós e nós com indiferença não sorrimos de volta, o cumprimentando. Sô padre vem pela calçada, de sisuda batina preta... "_ a bênça! _ Deus te abençoe, meu filho!"  Na porta do bar se vê os mesmos de sempre, contando lorotas e xingando o juiz de futebol. Fitas esvoaçam no estandarte do cortejo imponente. A jovem passa fantasiada para compor uma ala de escola de samba. As fachadas se sequenciam, coladas como gêmeos siameses. Montanhas emolduram a urbe. Na aurora as ruas estão enevoadas, o casarões históricos se revestem de mistério, como se mergulhados em brumas de um passado inimaginável. A cidade é movimento: passa uma carroça; vai um ciclista;  talvez um cavaleiro, ou, quem sabe!, um anjo de procissão. Evangélicos seguem concentrados para o culto ao Senhor. Vem um trabalhador de volta da faina, carregando sacolas de compras. Tudo e todos compõe esta cidade. 

Páginas e páginas se encheriam de exemplos, cada qual mais poético que o outro. Nunca lembraríamos de tudo. Sempre alguém diria que isto ou aquilo é mais importante. O fato é que a cidade vive! Transborda vida! Renasce todo dia, recria seu modo de viver e reviver; o cidadão fornece identidade à cidade e é por ela também identificado. Uns e outros se completam.

Para entender isso é preciso sentir. Para sentir é preciso amar.

Parabéns, São João del-Rei, por seus três séculos bem vividos!

1- "O casario, o largo, as ruas e os templos formam o cenário".

2- "A esplêndida Serra do Lenheiro, forma a moldura".

3- "As árvores da praça se pintam de flores em cada estação própria."

4- "Lá no morro zoa "atabaca": é seu Tranca-ruas que vai arriar!"

5- "A culinária típica e seus inúmeros desdobramentos".

6- "O algodão doce espetado numa haste, apregoado com o fon-fon de uma buzina ... "

7- "Um giz ou um pincel risca o chão para esquadrejar o jogo da amarelinha"

8- "São João del-Rei não é nada sem o são-joanense" 

9- "É preciso bater a testa no mastro para buscar forças"

10- "Esfregar a bandeira da folia de Reis sobre uma parte doente do corpo para Santos Reis trazer o alívio e a cura"

11- "A observação deve ir além das belas construções."

12- "Para entender isso é preciso sentir. Para sentir é preciso amar".

13- "Quem cultua sua cultura é culto".

14- "É preciso andar por aí com todos os sentidos aguçados"

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotografias: 3, 5, 6, 7, 9, 10, 12 Ulisses Passarelli; demais fotos, Iago C.S. Passarelli

Um comentário:

  1. Belíssimo texto! Homenagem sensível e percepção amorosa e precisa de São João del-Rei. Parabéns ao autor e à cidade que o inspirou. Grande abraço!

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