Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




terça-feira, 5 de maio de 2015

Ouro: um ciclo cultural

(Ofereço ao amigo de longas caminhadas, Luiz Antônio Sacramento Miranda)

              O ouro é um metal de transição de grande densidade, considerado nobre, de propriedades extraordinárias, resistente ao ataque de muitos reagentes químicos e à oxidação. Conserva seu aspecto de pureza e por isso mesmo é símbolo da durabilidade, da permanência. Não é por acaso que as alianças de casamento são feitas deste metal.

Na tabela periódica de elementos químicos é simbolizado por Au, iniciais de seu nome em latim, aurum, donde derivam palavras como auréola, áureo, aurora, aurificação, aura, todas alusivas à cor dourada luzidia.

Seu uso pela humanidade vem de tempos imemoriais, nas mais diversas civilizações e o encanto do ser humano por ele, atrelado à cobiça, não esmorece com o tempo. Ouro sempre enche os olhos. O homem comete loucuras por este metal, povoa regiões inóspitas e longínquas em espírito aventureiro movido pelo desejo desenfreado do poder, do enriquecimento, à custa de sua extração.

Influenciou as mitologias, as lendas e as crendices, desde os tempos pré-bíblicos. Do mundo grego ouvimos as histórias do Rei Midas, que tudo que tocava tornava-se em ouro, verdadeira maldição; ou ainda o Velocino de Ouro, uma pele ovina cuja lã era toda de ouro, de uma riqueza imensurável, procurada por Jasão e os Argonautas; ou o ouro dado por um dos Magos a Jesus, conforme o texto bíblico do Evangelho de Mateus. De geração em geração a cultura do ouro chegou ao Novo Mundo e ganhou esperança sobre velhos sonhos de riqueza, como o El Dorado, ou a nossa Vapabuçu, cobiçada pelos bandeirantes, ou a Serra Pelada da década de 1980. O ouro reluzente nas igrejas coloniais é ainda a antevisão desse esplendor tão sonhado, sacralizado e dramatizado. Retrato fiel do céu idealizado, como um palácio esplendoroso, promessa de futuro para o fiel seguidor.

Tal se deu nessas minas, que em geral tinham de tudo. Não poderia ter nome mais propício: Minas Gerais! Batida a força da resistência indígena, sob a atroz descarga dos velhos arcabuzes e bacamartes, a terra foi tomada à força, rasgada, ferida, escalavrada como quem risca um ancinho no solo... O ouro de aluvião girou em voltas centrípetas até dourar o fundo da bateia. A notícia correu. Aqui no Morro das Mercês se achou ouro pela raiz do capim! Assim o disse José Mattol. Logo ali, numa lagoa em Tiradentes, pepitas grandes como grãos de canjica... Gente veio de todo lado: de mais ao norte, das bandas fluminenses, do reino... Povo emboaba, em refrega com os paulistas descobridores pelo domínio minerador e político. Guerra dos Emboabas.

Essas velhas cidades mineiras viram isso tudo. Leitos de córregos foram remexidos na busca do fulvo metal. As pedreiras serranas foram alvo de escavações: ponteiros, talhadeiras, almocafres, picões, alavancas, picaretas cortaram rochedos com muito sacrifício do braço do homem escravizado para enriquecimento do senhorio e pagamento do maldito imposto da coroa portuguesa, o quinto, gatilho que disparou o movimento da Inconfidência Mineira. Betas, mundéus, regos pequenos ou gigantes como o Canal dos Ingleses na Serra do Lenheiro, cascalheiras (também numerosas na Serra de São José), grupiaras, canoas, socavões, são ainda hoje testemunhos daquele tempo, estruturas do patrimônio minerário, coetâneas para são-joanenses, tiradentinos e pradenses. Também em localidades vizinhas, no século XVIII, o ouro foi o foco da economia: Conceição da Barra de Minas, Lavra do Córrego do Cravo (em Nazareno), Córrego (em Santa Cruz de Minas), Bichinho - atual Vitoriano Veloso (em Prados), Cuiabá e Canjica (em Tiradentes). Ouro se tirou em São Miguel do Cajuru, São Gonçalo do Amarante, Brumado de Cima e até no Bairro Matosinhos (em São João del-Rei). Ouro saiu do Tanque – atual Vila Fátima (em Coronel Xavier Chaves) e de Lagoa Dourada _ o próprio nome um atestado da riqueza encontrada pelos pioneiros.

O ouro foi a semente da qual brotaram essas localidades e muitas outras. Se não a semente, o adubo que impulsionou o crescimento. A atividade em redor de sua intensa e rude exploração centralizava tudo. A terra foi varrida do amarelo, e logo se esgotava. Outros rumos foram tomados para a sobrevivência. Novas vocações os habitantes tiveram que descobrir para romper até o dia de hoje. Quando ele escasseou, o povo descobriu novas fontes para mover a economia e outros mais, migraram, foram povoar as vastidões a oeste (nas cabeceiras do São Francisco), para lidar com o gado, ou para a Zona da Mata e interior fluminense, derrubar florestas virgens e plantar café. E junto levaram a cultura das Vertentes, que naquelas novas terras se mesclava ao que lá já havia e gerava variantes magníficas do rico folclore brasileiro.

Mas se a febre do ouro passou há mais de dois séculos, a marca dourada ficou na cultura mineira e nessa Microrregião de São João del-Rei de maneira muito especial. E se revela em sutilezas. 

Ourivesaria é o ofício de trabalhar o ouro, fazer joias. Divulgadíssimo outrora é hoje bem menos comum. Seu praticante é o ourives. Verdadeiros artistas, profissionais habilidosos que fizeram joias esplendorosas com técnicas artesanais, ainda hoje visíveis como relíquias familiares e como adornos de imagens de santos dos séculos XVIII e XIX, sobretudo _ coroas, resplendores e cetros. É natural que fosse mais frequente nas regiões tradicionalmente mineradoras, como no Campo das Vertentes. O serviço equivalente em prata é a prataria, também conhecido por aqui, que alcançou desenvolvimento considerável em Tiradentes.

Quando alguém ao andar tropeça sem razão aparente, crê-se que naquele exato local há ouro não explorado. Diz então o povo em tom meio reticente: "tem ouro aí...", ou como pergunta: "tem ouro escondido?" (subentendido: nesse lugar).

O velho costume de usar "dentes de ouro" arrefeceu diante da odontologia estética, desenvolvendo em tempos hodiernos resinas compostas e compômeros que reproduzem com elevada perfeição a aparência dentária original. Porém, a incrustação, a faceta ou mesmo a coroa de liga de ouro ainda tem seu lugar e muitos ainda se comprazem em sorrir largamente ostentando um laivo dourado. É o ponto extremo: o ouro no próprio corpo toma parte do ser.

"Dentinho de Ouro!

Adornado de marfim!

Negro velho gosta de congo, 

morena gosta de mim, ai, ai"

Ainda hoje, assim cantam nossos congadeiros do catupé, como observado em São João del-Rei e imediações. Dançantes, aliás, que tem uma expressão curiosa, "é ouro só", que equivale a um demonstrativo de qualidade extrema, caráter irrepreensível, excelência:

"_ Ô rainha de ouro ...

_ É ouro só!

_ Toda roupa que senta nela ...

_ É fita só!

Êêêh... marra a fita no tundá,   BIS

pro cabelo o moço dá!"

Tundá era parte da vestimenta feminina de outrora: um enchimento discretamente posto pelas sinhazinhas na parte de trás do vestido, para salientar a sensualidade do traje; anquinha, acima das nádegas. Sua referência no verso testemunha a antiguidade deste canto [1]

Ainda dos congados regionais:

"Estrela d'alva alumiô,

a coroa do rei é ouro só!"  [2]

"_ A coroa do rei ... 
_ é ouro só! [3]

 _ A da rainha ...
_  é prata só!"

Ainda sobre a linguagem é corrente uma expressão negativa, que indica rejeição absoluta: "nem pintado de ouro!" Ou seja: é usada para indicar que tal pessoa não agrada ou não é desejada, mesmo com “boa aparência” e nem revestida de riquezas materiais.

Existe uma prática sagrada, firmeza por poucos revelada, que é fazer um furo em um bastão ou bengala, de congado, por exemplo, e esconder no seu interior uma pedrinha de ouro, pequena pepita que dará uma força extra ao seu portador. Brilhará para ele qual uma luz.

A crença varia conforme a própria diversidade religiosa, a cada região e denominação. O ouro é especialmente consagrado a Orixá Oxum, senhora das fontes e das cachoeiras. No processo de sincretismo religioso pelos quais passaram em grande parte as religiões de matriz africana, e suas múltiplas derivações em terra brasileira, houve sincretismos com Santa Efigênia, Nossa Senhora da Conceição e Nossa Senhora Aparecida. Ainda no processo de abrasileiramento, se identifica uma falangeira de Oxum denominada "Oxum do Ouro". Em outro nível hierárquico do panteão de alguns terreiros de umbanda, o ouro é consagrado aos guias (entidades espirituais) da linha dos ciganos e ciganas. Há inclusive este ponto cantado (zuela ou curimba): “Cigano é de ouro! / É de ouro só!” (bis)

Um mito conhecidíssimo e por tantos relatado é o da mãe do ouro, aparição aérea, brilhante, luminosa, áurea, como um cometa que risca o céu. Simula na aparência um astro desconhecido. A mãe do ouro estoura tem movimento e se choca contra rochedos, indicando que ali está oculta farta riqueza. As fagulhas que caem durante sua passagem pelo céu, ao atingirem o solo se transformam em fios de ouro, conforme crença popular. Mas é mortal! Ai daquele que for tocado pela mãe do ouro... Morre torrado como quem é fulminado por um raio [4].

Na toponímia, o ouro deixou também sua marca: Lagoa Dourada, conforme já citado, município alcandorado na Serra das Vertentes; Rua do Ouro, no Alto das Mercês, em São João del-Rei; Córrego do Ouro, que nasce na Serra de São José e deságua na margem esquerda do Rio Carandaí, em Coronel Xavier Chaves; Lavrinha, na zona rural são-joanense – pequena área de extração aurífera (território distrital cajuruense); Córrego do Garimpo, na Serra do Caiambola [5], em Coronel Xavier Chaves; Serra do Ouro Grosso, em Itutinga; Córrego do Ouro Fino, pelos lados do Bairro Tijuco, em São João del-Rei. 

Ouro de tolo é o nome que habitualmente se dá à pirita, um minério à base de dissulfeto de ferro, com brilho amarelo-dourado, que pode criar a ilusão de ser ouro verdadeiro.

Vale ainda ressaltar a questão do linguajar garimpeiro, suas técnicas e crenças. A larga experiência entre as rochas à busca dos veios produtivos, ou nas margens dos riachos à cata do ouro de aluvião, lhes dá um olhar clínico e alto poder de observação das características de cada terreno. Ele sabe identificar o ouro de moita, raso, que surge entremeio o raizame, o ouro de veio, dos filões de quartzo, as composições rochosas chamadas aglomerados, as quais denominam de cascorão, com frequência trazendo partículas áureas; o ouro encapado, que corresponde ao clássico ouro preto, assim chamado pela associação ao ferro. A tradição garimpeira, fortemente marcada pelos saberes afro, tem uma cultura própria, marcante, que passa por via oral, de geração em geração e vai desde as crenças místicas até as técnicas de abertura de uma beta.

O complexo cultural desenvolvido em torno do ciclo do ouro é tão intenso e vasto que um simples texto sobre este assunto chega ser algo pretensioso. Uma crônica extraída da memória, que não passa de um panorama sobre o assunto. O ouro merece uma investigação cultural, uma abordagem acadêmica, como de um garimpeiro diante de um veio de quartzo, no meio das areias caçando o brilho. Precisa um trabalho investigativo, de envergadura, para perscrutar as suas influências desde o nosso barroquismo até a cultura popular dos dias atuais. 


Bateias, 2010, acervo do autor. 

Antigas ferramentas de mineração: 
à esquerda, picão; à direita, almocafre (acima) e enxadinha de veio (abaixo).
São João del-Rei/MG. Acervo: MMTPDR - Museu Municipal Tomé Portes del-Rei.

Ouro de tolo.

 Créditos

Texto e fotografias: Ulisses Passarelli

Notas

- Revisões: 28/03/2024 (com ampliação) e 19/08/2025.  

- Este texto foi também publicado (sem fotografias) em: PASSARELLI, Ulisses. Ouro: memórias e tradições populares de um ciclo cultural. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, v.17, 2025. 190p. p.40-46. 


[1] - Informante: Capitão de Congado (Catupé), José Camilo da Silva, Bairro São Dimas, São João del-Rei, 1992. Segundo o mesmo, este canto era da guarda de moçambique do Capitão "Barão", que houve nas primeiras décadas do século XX em Ritápolis, então distrito são-joanense outrora chamado Santa Rita do Rio Abaixo.

[2] - Cantoria de Congado (Congo), distrito São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei), 1998, cantado pelo Capitão José Francisco Sales (“Faixa Preta”), parte ainda constante no repertório do grupo.

[3] - Catupé, Conceição da Barra de Minas, Capitão Vicente Cirilo Ribeiro. Muito embora os exemplos acima e outros que se poderia garimpar, é mister frisar que a expressão em questão não é exclusividade da Mesorregião Campo da Vertentes. Pode ser encontrada alhures e existe até mesmo uma já rarefeita modalidade de reisado no Vale do Rio São Francisco, ao norte de Minas e sul da Bahia que se chama Mulinha (ou Burrinha) de Ouro, da estirpe do Bumba-meu-boi. Nele dança a figura alegórica de um muar, animada por um folião, sob o insistente refrão: "_ A mulinha é de ouro! / _ é de ouro só!"

[4] - O mito da mãe do ouro pode ser explicado pelo raro fenômeno meteorológico chamado raio-bola ou raio globular.

[5] - Caiambola ou Canhambora: os dois nomes correm em sinonímia na designação desta elevação do relevo, além do Vale do Carandaí, em Coronel Xavier Chaves, próximo à divisa são-joanense. "Caiambola" é o mesmo que quilombola, o escravizado fugido, amoitado na serrania; "Canhambora" permite outra interpretação: é palavra de origem indígena que se poderia traduzir como o "espírito malfazejo que mora no mato": caá (mato) + anhanga (diabo) + bora (morador). Portanto, nesta acepção, seria referência a um espectro, assombro espiritual.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

São José Operário, padroeiro do Tijuco

De novo o devoto são-joanense e em especial o tijucano, se reuniu  na Igreja de São José Operário, no Bairro Tijuco, em São João del-Rei/MG, para a grande festa do padroeiro do bairro. A novena foi concorrida. 

Hoje, dia maior, desde cedo um burburinho de fiéis agita a Rua General Osório, a São José, a São João, as imediações da Ponte das Águas Férreas, o largo fronteiro à igreja. Gente indo e vindo das missas, varrendo beiradas de passeio, enfeitando fachadas de estandartes, balões, toalhas de renda, flores em abundância.  

O dia está com um clima duvidoso, ora frio, ora calor, ora aberto, ora nublado... mas o tijucano continua a se preparar. Na esquina da Rua Operário Luís Andrade por nada menos que três décadas um casal se esforça, com ajuda de alguns cooperadores e abnegados meninos e meninas, na confecção dos tapetes de rua. Sr. Geraldo Elói de Lacerda [1] e D. Júlia Lacerda se dedicam a construir sobre o asfalto um grande coração de serragem, rodeado de borra de café e areia branca quartzítica, todo salpicado de flores. Não poderia haver simbologia maior, reveladora do amor ao santo e à própria tradição. O esforço é grande, mas o resultado compensador. 

A missa vai concluindo. A cerimônia está lotada, bela, concentrada. A banda vem chegando. É a centenária e respeitada Teodoro de Faria, que desceu da Rua Santo Antônio. Os sineiros estão lá em cima, na torre, olhando o largo cheio de visitantes. Os pipoqueiros estão pelos cantos com seus carrinhos típicos, os vendedores de algodão doce, maçã do amor, beijo quente e churrasquinho também dividem o espaço.

Finda a celebração o sino deslancha e vão passando em fila os irmãos com  suas opas vermelhas, varas prateadas, andadores de bastão à mão, legionárias de Maria com seu belo estandarte abre-alas, anjinhos de procissão, até relativamente numerosos. 

Surge o primeiro andor. É de Nossa Senhora da Conceição, primeiro orago daquele templo. O sacerdote ao microfone convoca os fiéis à homenagem, prece e concentração na sagrada caminhada. O tempo pesa, respinga e esfria. A procissão vai assim mesmo e São José aponta no portal, muito florido em seu andor: o povo aplaude em profusão, grita vivas, se compraz ante o patrono. 

O cheiro de pólvora dos fogos de artifício se esparrama. Os acordes da banda se misturam aos do sino e o cortejo serpenteia pelas ruas, qual penitência, debaixo da chuva que se torna torrencial. Mas não para, só acelera a marcha e encurta o trajeto. Alguns o deixam, mas muitos o seguem e concluem a marcha como peregrinos da fé, certos que este sacrifício foi visto pelo santo que lá de cima mandará uma justa recompensa. 

Tapete de rua na entrada da Rua Operário Luís Andrade.

Antes da procissão, anjinhos comem pipoca.

O jovem sineiro observa o largo em festa e espera sua hora de entrar em ação. 

A missa transcorre com grande concorrência de fiéis. 

Aspecto da igreja no dia maior de sua festa. 

A chuva não esfria a devoção. 

O florido andor do padroeiro, sob a escolta das tradicionais lanternas.

 Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografias: Iago C.S. Passarelli, 01/05/2015. 

Notas 

[1] Infelizmente, Sr. Geraldo Elói faleceu em 2024.  
- Leia também: A PROCISSÃO DE SÃO JOSÉ OPERÁRIO     
- Revisão: 23/11/2025. 

quarta-feira, 29 de abril de 2015

O amor nos versos de congado

Via de regra os congados são manifestações da cultura popular de natureza laudatória. Seu fundo religioso é inegável, e mais que isto, é sua própria diretriz. Não obstante este fato inconteste, entremeado aos louvores, nas horas de intervalo entre as obrigações maiores da Festa do Rosário, a do Divino ou a de São Benedito, o congadeiro por vezes canta outras temáticas. 

Nesta postagem seleciona-se algumas cantorias que aludem de forma singela ao amor. Dito assim porque a forma da abordagem nos versos refere-se ao amor de maneira um tanto simples ou mesmo brejeira, bem alinhado ao folclore construído ao redor deste tema. 

Em um importante registro fonográfico existente dos congados de Oliveira, fora das Vertentes, na Mesorregião Oeste de Minas, onde o congado tem grande vitalidade, há este canto de catupé [1]: 

"Ai, pavão,
bateu asa e avuô-ôh ...  BIS
Ai, ai, moreninha,
Foi embora me deixou!" BIS

Nesta quadra bem se nota o que foi dito acima acerca do aspecto singelo do amor. Mas também aqui na Mesorregião Campo das Vertentes os congados cantam o amor. No extinto congo do Capitão João Lopes, da Rua das Flores (atual Maetro Batista Lopes), em São João del-Rei [2]: 

"Quatro horas da tarde
quando o vapor chegô, [3]
carregado de fazenda
pra morena do dotô..."

E no ainda ativo congo do Caburu, atual distrito de São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei): 

"Hoje vai chover,
lá na minha horta,
eu nos braços dela
chuva grossa não importa!"

Congo do Caburu, São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei/MG).
Festa do Rosário, 11/10/1998.

Nos dois casos existe uma ponta de ironia ou antes verve na composição. A morena do doutor parece se referir a uma concubina; "vapor" pode ser tanto barco a vapor quanto locomotiva, maria fumaça, neste caso mais ajustável à tradição local. Já na segunda quadra corre a expressão popular "vai chover na minha horta" que equivale ganhar uma vantagem, sair no lucro, ter uma recompensa. 

Mas dos congados, os catupés parece mesmo que se sobressaem no assunto. No Bairro São Dimas, em São João del-Rei o Capitão Luís Santana cantava: 

"Oi, pepino maduro, que dá semente, - bis
menina bonita que mata a gente!"       - bis

"Segura a peteca, não deixa cair,   - bis
segura a menina, não deixa fugir ..."  - bis

Catupé, Bairro São Dimas, São João del-Rei/MG.
Festa do Divino, 31/05/1998.

Ainda mais uma vez nota-se os aspectos provincianos dos cantos e a pitada de ironia no segundo dístico, que usa igualmente de uma expressão popular: segurar a peteca é não perder o controle da situação, ter o domínio, não ficar sem ter ou sem conseguir. 

Já no grupo da Restinga (Ritápolis) o amor era abordado assim, na voz do Capitão Ernani, 1996: 

"Leva eu, morena,
leva eu pra lá...  BIS
morrerei apaixonado
se você não me levar!"  BIS

"Dói, saudade,
dói, paixão!  BIS
Vai dizer aquela ingrata
que amar é muito bão ... "  BIS

"Dói, paixão,
dói, saudade!  BIS
dói de dia, dói de noite,
dói até de madrugada!"  BIS

Catupé, Restinga (Ritápolis/MG). 24/09/2000.
Festa do Rosário, Ramos (Ritápolis/MG).  

De memória uma informante cantou um peça do congado da zona rural de Bias Fortes [4]:

"Morena bonita,
balão de fulô, [5]
chega pra cá
tá fazendo calor..."

Por fim, como último exemplo, uma cantiga dos marujos de Barbacena:

"Chorei, chorei,
a nossa separação,  BIS
Madalena ficou chorando
com o lenço branco na mão."  BIS

Marujos, Barbacena/MG. 18/08/1996.
Festa do Rosário, Bairro São Geraldo, São João del-Rei.


O canto parece usar o nome Madalena em relação à conhecida expressão "Madalena arrependida", um tanto sarcástica a bem da verdade, para se referir às pessoas que erram, perdem por isto e depois lastimam sua falha. Menção à mulher bíblica que ia ser apedrejada por adultério e foi salva pela célebre frase de Jesus: "quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra" (Jo 8, 1-11). Esta pecadora a tradição popular considera que foi Maria Madalena. 

 Créditos

- Texto e fotografias: Ulisses Passarelli.

Notas 

[1] Os Negros do Rosário. Belo Horizonte: Trem da História, 1987. Long Playing (LP), gravação em disco de vinil.
[2] Informante: Antônio Geraldo dos Reis, 1993, Rua Operário Luís Andrade, Águas Férreas, Bairro Tijuco. 
[3] Uma variante ainda em voga no congo do Caburu, diz com menos naturalidade: "Quatro horas da tarde / quando o papai chegô, / carregado de fazenda / pra morena do dotô..."
[4] Elvira Andrade de Salles, Santa Cruz de Minas, déc.1990.
[5] Balão de fulô: balão de flor, referência à saia-balão, modelo de vestimenta feminina de estampa figurando flores. 

- Revisão: 14/06/2025. 

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Velhas notícias distritais - parte 2

Continuando o trabalho de levantamento da história dos distritos de São João del-Rei, segue mais uma postagem contendo uma breve coletânea de dados, em disposição cronológica, abarcando o período de 1905-1906. As informações procedem do jornal são-joanense "O Repórter" e a fonte de consulta é o site da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida


Igreja de Santo Antônio de Pádua, cruzeiro e mastro do Rosário.
Distrito de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, 15/10/2011.

- Lei municipal nº133, de 24/08/1905, autoriza a criação e manutenção de uma escola pública em São Sebastião da Vitória até que o estado faça uma. A escola seria dedicada a alunos do sexo masculino e o nome do professor contratado seria submetido à aprovação da câmara. A despesa total autorizada foi de um conto de réis. (O Repórter, n.36, 24/09/1905).

- Um ladrão arrombou na calada da madrugada o cofre do cruzeiro do largo da igreja do Rio das Mortes levando seu conteúdo, e ainda, abrindo a porta lateral direita do mesmo templo, igualmente surrupiou o conteúdo dos cofres do Coração de Jesus, Senhora Aparecida, Almas e Senhora do Parto, arrancando-os da parede. Os cofres vazios foram jogados pelo “gatuno audaz” no largo da igreja. A nota jornalística se intitula “Sacrilegios”. (O Repórter, n44, 26/11/1905).

- Festa de Santa Cecília no Rio das Mortes, com bênção do estandarte da corporação musical do lugar. Houve missa e a procissão foi prejudicada pelo mal tempo. A Banda Lira do Oriente saiu em tocata pelas ruas e se deteve especialmente na residência do Padre Francisco Rocha. “Foram feitos e erguidos vários brindes pelo Padre Rocha, pelo dr. Paulo Teixeira e outros.”. A mesma nota traz a seguinte informação sobre obras na igreja: “o reverendo Padre Francisco Rocha, auxiliado por bons amigos, trata de obter meios para augmentar a Capella de Santo Antonio do Rio das Mortes mais trinta palmos. É uma ideia louvável, visto como a igreja já e pequena para acolher o numero de fieis. No dia 17 do próximo mez deve partir daqui um mestre de obras encarregado de fazer o orçamento respectivo e Deus queira que não appareçam obstáculos a generosa ideia.” (O Repórter, n.45, 03/12/1905).

- A tradição dos laticínios de São Sebastião da Vitória se mostra mais uma vez na seguinte nota: “simplesmente esplendida, uma das melhores que vem ao mercado desta cidade, é a manteiga “Victoria”, da fábrica do sr. Carlos Alberto Alves, estabelecido no arraial de São Sebastião da Victoria, deste município.” A nota prossegue ressaltando o asseio da fabricação e recomendando seu consumo. (O Repórter, n.46, 10/12/1905).

- Um edital da Câmara Municipal, assinado pelo presidente da mesma, Dr. João Salustiano M. Mourão, datado de 1º de fevereiro de 1906, convoca a população do Rio das Mortes para eleição do 1º, 2º e 3º juízes de paz daquele distrito, pois os anteriores não haviam tomado posse. A votação foi marcada para as 11 às 12 horas, no cartório de paz do distrito. (O Repórter, n.3, 18/02/1906).

- Resolução da Câmara Municipal de São João del-Rei, nº337, de 04/01/1906, autoriza o agente municipal a fazer reparos na Ponte de Moinhos, no limite distrital entre a sede e São Miguel do Cajuru, sob as águas do Rio das Mortes Pequeno (O Repórter, n.12, 29/04/1906). Os trabalhos na ponte foram autorizados também pela lei municipal nº142, de 27 de julho do mesmo ano, que se refere a construção de uma ponte e não reforma. (O Repórter, n.39, 28/10/1906).

- “Estão no Cajurú deste município, pregando missões e presidindo os exercícios quaresmaes, três illustres sacerdotes da Congregação do Sagrado Coração de Maria. Já estiveram em Victoria, Nazareth e do Cajurú seguem para Conceição da Barra.” (O Repórter, n.8, 25/03/1906).

- “S.Francisco do Onça. Está contractado o futuroso enlace do sr. capitão José Carvalho de Rezende, filho do sr. coronel José Teixeira de Rezende com a exma. sra. d. Maria José de Andrade, dilecta filha do sr. major Jose Tiburcio de Andrade Reis.” (O Repórter, n.17, 03/06/1906).

- Resolução n.316 da Câmara Municipal, de 28/06/1906, autoriza o agente municipal a reparar “a estrada que vai dessa cidade ao Rio Grande, especialmente no logar denominado Picada”. (O Repórter, n.22, 08/07/1906).

- Resolução n.317 da Câmara Municipal, de 28/06/1906, autoriza o agente municipal a passar a subvenção de ajuda de vinte mil réis para a escola primária particular da Colônia do Bengo, desde que pudesse provar matrícula de pelo menos vinte alunos e participação efetiva de pelo menos quinze, e ainda, que abrisse vaga gratuita para cinco alunos indicados pela vereança. A escola seria fiscalizada pelos vereadores. O professor regente era o sr. Manoel José Florêncio. (O Repórter, n.22, 08/07/1906).

- Santas Missões acontecem no Rio das Mortes, coincidindo com os festejos de Santana. A festa religiosa foi precedida por novena e contou também com missa cantada, sermões, Te Deum Laudamus e leilões de prendas. A vila foi enfeitada e recebeu um cruzeiro novo. (O Repórter, n.24, 22/07/1906).

- Santas Missões transcorrem no Onça (atual Emboabas) por oito dias com grande empolgação dos fiéis. Os missionários eram da Congregação do Sagrado Coração de Maria: padres Francisco Ozamir e Nicoláo Gomes, recepcionados festivamente pela banda de música local. Foram mais de mil comunhões contabilizadas. Fizeram instalar mais um cruzeiro na vila, em um morro circunvizinho, com pregação do padre-mestre José Pedro da Costa Guimarães e do missionário Nicoláo. De volta à igreja, o padre Francisco deu a bênção papal. Houve também uma procissão do Sagrado Coração de Jesus com pregação. (O Repórter, n.25, 29/07/1906). O Padre José Pedro era capelão da Santa Casa de Misericórdia e pouco depois das missões foi agraciado com o título de monsenhor. (O Repórter, n.37, 14/10/1906).

Serra do Caxambu, vista da estrada do Mestre Ventura.
Distrito de São Gonçalo do Amarante, São João del-Rei. 03/08/2014.

Notas e Créditos

- Leia também a primeira parte desta postagem: VELHAS NOTÍCIAS DISTRITAIS
- Texto e pesquisa: Ulisses Passarelli
- Fotografias: igreja - Ulisses Passarelli; serra - Iago C.S. Passarelli


domingo, 19 de abril de 2015

Expedito: o santo da hora!

Dezenove de abril é o dia dedicado a Santo Expedito. Tal como muitos santos dos períodos mais remotos do cristianismo, quase nada se sabe sobre ele, oscilando os seus feitos numa linha tênue entre a história e a lenda; até mesmo sua própria existência deixa margens à contestação. Não existe certeza sobre a origem de seu nome e respectivo significado, que contudo alude à ideia de rapidez. 

Mas estas questões que aguçam estudiosos, não impedem ao povo devoto de confiar no santo. Não há empecilho à crença. Com isto se quer dizer que o fiel acredita pela força da fé e não dos dados históricos.

Acredita-se que tenha sido martirizado por não deixar o cristianismo, sendo decapitado à espada em 19 de abril de 303, em  Melitene, na Armênia, onde servia ao exército romano como comandante de uma legião, defendendo aquela zona do império da invasão de bárbaros do leste (WIKIPÉDIA, 2025). 

É apontado como santo das causas urgentes, patrono das necessidades imediatas, daquilo que está em situação de desespero, que não pode esperar para ser resolvido, do que se espera de solução naquela hora de angústia. Tal aproximação se deve ao fato creditado à sua conversão instantânea ao cristianismo, que o demônio tentou adiar aparecendo-lhe sob a forma de um corvo, que gritava: "cras! cras!" (amanhã! amanhã!), à qual o santo, pisoteando-o, gritou em resposta: "hodie!" (hoje!). 

Então, com este santo é para hoje, para agora. Chegou a se cunhar a expressão já consagrada _"Santo Expedito, santo do último pedido" _ ou seja, quando o caso não se resolveu por nenhum outro mediador, se entrega para este santo que ele resolve. É nisto que o fiel acredita.

Nos anos oitenta a devoção começou a ganhar força, mas foi mesmo na década seguinte que se difundiu rápido e desde então ganha vigor. Pois de fato, não está entre as devoções antigas no Campo das Vertentes. A dinâmica devocional faz velhas devoções coloniais arrefecerem por não serem talvez, mais representativas dos anseios do povo. Da mesma sorte, as mudanças sociais erguem ao pedestal outros santificados que suprem aquelas lacunas. Assim, na crise financeira, nos tempos de desemprego e opressão econômica, santos padroeiros de causas urgentes, impossíveis e desesperadas... dos desempregados, das complicações que parecem nunca se resolverem, logo ganham um vigor que antes não se via: São Judas Tadeu, Santa Rita de Cássia, Nossa Senhora Desatadora de Nós, Santa Edwirges e Santo Expedito.

Um exemplo bastante significativo daquilo que representa para seu devoto, percebe-se na transcrição abaixo, que respeitou a grafia original: "Divino Espirito Santo e São aspedito me dai a graças da aposentadoria da minha irmã e do meu irmão conversa com Nosso Senhor para mim faz um pedido de amigo confio, muito em vós." (sic) Trata-se de um pedido anônimo, escrito em um papel avulso, depositado na Gruta do Divino em São João del-Rei, onde o localizamos a 10/04/2000. Neste elemento da folk-comunicação percebe-se claramente a relação de profunda intimidade com o sagrado e a força de uma esperança depositada no santo. Pelo conteúdo se espera que ele tenha um contato tão forte com Jesus (Nosso Senhor), que faça intermediação do pedido de graça apresentado na condição de "um pedido de amigo". 

A imagem de Santo Expedito representa-o como um homem branco, jovem, com trajes de militar romano, legionário, segurando numa das mãos a palma símbolo do martírio e na outra uma pequena cruz, com a inscrição "hodie". Esmaga um corvo sob os pés, de cujo bico sai uma legenda com o escrito "cras". O capacete militar está no chão, deposto ao lado do santo. 

É tradicional na região seus festejos em Coronel Xavier Chaves, no mês de abril.

Na zona rural de São João del-Rei, no povoado de Goiabeiras (de Baixo) é igualmente comemorado, na Igreja de Nossa Senhora Aparecida. Sua procissão segue até a localidade de Goiabeiras de Cima e depois retorna.

Já na zona urbana de São João del-Rei as comemorações acontecem na Igreja de São Gonçalo Garcia, graças aos esforços da dedicada Confraria de São Gonçalo, com a tradicional presença da afinada e experiente Banda Municipal Santa Cecília. Acontece no adro um movimento de barraquinhas e a procissão a cada ano ganha mais fiéis [1]

Por fim é mister dizer que as características atribuídas a este santo facilitaram sua aproximação religiosa sincrética às entidades guerreiras chefiadas pelo Orixá Ogum. Assim, na concepção de alguns terreiros regionais, Santo Expedito é sincretizado com o prestigiado falangeiro Ogum de Ronda; noutros, porém, ao Orixá Logunedé. 

Santo Expedito.
Igreja de São Gonçalo Garcia, São João del-Rei. 

Referências 

WIKIPÉDIA. Expedito de Melitene. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Expedito_de_Melitene  Acesso em 19/04/2014. 

 Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografia: Iago C.S. Passarelli, 17/04/2014.

Notas 

- [1] Sobre sua festa na Igreja de São Gonçalo, ver a postagem: SANTO EXPEDITO, SANTO DO ÚLTIMO PEDIDO!
- Revisão: 27/07/2025. 

sábado, 18 de abril de 2015

Peladas e pelados

A palavra "pelada" e seu masculino, ou ainda "péla", possibilita algumas concepções na cultura popular. 
"Péla-saco" é expressão corriqueira usada para se referir de forma desdenhosa à pessoa indesejável, chata, desagradável. "Fulano é um péla-saco!" Já o péla-égua é um alimento à base de milho, servido quente. Desgraça pelada é o nome de um mito assombroso, ser das trevas, que o povo teme e respeita. Pinto pelado é outro espectro, demoníaco, aparição do mal, sobretudo na quaresma. 

Existe também uma doença de cães caracterizada pela queda dos pelos e enrugamento da pele. É a pelada ou peladeira. Diz-se que pode passar para humanos. Nos meios populares é tratada com uma mistura de óleo automotivo “queimado” (retirado do motor pelo uso excessivo) de mistura a uma porção de pó de enxofre. Pincela-se na área afetada, repetindo de duas a três vezes com intervalos de poucos dias. É assim que, sem fazer consulta a veterinário, o povo cuida dessa doença.

Diz que o Brasil é o país do futebol. No jogo de futebol informal, de regras mais ou menos flexíveis, a chamada "pelada" é que reside a popularíssima escola do esporte mais querido do país. A pelada não exige uniforme (não é raro jogar o time “com camisa” contra o “sem camisa”), nem chuteira (vale descalço e na roça até de botina). O campo serve de qualquer tamanho e a distância entre as traves é subjetiva. Estas aliás marcadas com dois paus fincados em geral, apenas dois chinelos e pedras nos piores campos e uma armação de bambu ou eucalipto nos melhores. Irregularidades no campo são comuns, pois se improvisa nos pastos e várzeas, por vezes em terra batida levantando grande poeira ou gerando escorregões. Correm estórias engraçadas de campos com moitas, cupinzeiros e buracos de tatu.

Os jogadores não tem necessariamente time fixo e por vezes a equipe é montada na hora, escolhendo cada líder por sua vez um jogador, de praxe equilibrando-se um bom para cada lado, e da mesma forma compartilhando os ruins (chamados “pernas de pau’, “pelonha” ou "café com leite"). O par ou ímpar decidi quem escolhe primeiro e daí, perdida a oportunidade da primeira sorte que pode garantir o mais habilidoso, os demais são escolhidos um por vez, por cada lado. Assim hoje pode o jogador estar neste time, amanhã naquele e depois voltar, indiferentemente. Não implica amor à camisa. De qualquer lado se joga com garra. Vale bola de borracha ou de couro (“bola de capota”, artesanal). Apesar do improviso e falta de condições a pelada é esporte querido e muitas vezes revela jogadores talentosos. 

Campo de pelada. Águas Gerais, Bairro Tijuco.
São João del-Rei/MG, 18/06/2017. 

Campo de pelada. Caieira, Bairro São Judas Tadeu.
São João del-Rei/MG, 04/09/2017. 

Créditos

- Texto e fotografias: Ulisses Passarelli.

Notas 

- Revisão: 02/06/2025.  

quarta-feira, 15 de abril de 2015

O demônio logrado por São Benedito

Nesta postagem o popularíssimo São Benedito volta à cena, agora no contexto da literatura popular oral. Exemplo de homem cristão, querido pelos escravizados no passado, padroeiro dos congadeiros de ontem e de hoje, de origem humilde e descendência africana, é extensamente presente em diversas manifestações folclóricas em todo o Brasil.

Os dois contos aqui expostos trazem em seu bojo uma série de elementos tradicionais e típicos do gênero do "demônio logrado", como por exemplo, a forma de desaparecimento do capeta, sob uma explosão, deixando um rastro fedorento de enxofre e fumaça. Ainda cita a tripa do Judas, outra simbologia, significando a entranha do mal, o âmago daquilo que é ruim.

Quantas vezes ouvimos em São João del-Rei a estória do Homem do Pé de Pato... Não é do mesmo gênero mas compartilha elementos. A moça que abusasse e na quaresma se atrevesse a ir em um baile, seria abordada por um moço desconhecido, de grande beleza, muito bem vestido, com requinte e elegância, que a convidaria para dançar. No meio da dança, enlevada pela sedução do jovem, a moça cairia em si estupefata, em crise de desespero ou desmaio, porque ao olhar para os sapatos de seu par via para seu espanto, que eram pés de pato... O moço era o demônio, que então sumia num repentino estouro de fumaça e fedor, ou apenas se esvaía como neblina. Noutra versão corrente na mesma cidade, com o mesmo desenvolvimento e mudança só no desfecho, o belo jovem comete a deselegância de dançar de chapéu à cabeça e só pelas tantas o tira, quando acontece o mesmo choque, posto que tem chifres.

Aqui também vemos o repisamento da tentação, o diabo laçando pela aparência física, o flerte, a sedução sobre a jovem incauta.

Típico dos contos do demônio logrado é a solução inesperada para o caso, uma situação que supera a sagacidade do mal: no conto A Velha do Chinelo, por exemplo, exposto neste blog, o demônio também se materializa como cavaleiro e a solução é pela armadilha do falso testemunho; já nos dois casos abaixo, a solução se dá por um atoleiro e ainda pelo mesmo artifício do jovem sedutor, bonito, charmoso, só que desta feita pelo lado do bem, impedindo a aproximação do mal.

A didática ou antes catequese desses contos é notória. Usando de uma linguagem ao agrado da cultura popular e de uma dramatização folclórica, contextualizada em um ambiente que simula ou sugere o rural antigo, ambos os contos de alguma forma alinham pelo exemplo os elementos devoção-tentação x racismo-discriminação.

Tem que ser entendidos e lidos à luz do folclore, a cujo campo pertencem. O ensinamento transmitido é que o racismo e a discriminação não são de Deus. São obras do mal, demoníacas. A beleza e o caráter do homem preto superou o do homem branco e cativou a moça devota. Sua devoção era tamanha que o santo, pressentindo seu perigo, veio em socorro, sem precisar que ela pedisse. A lealdade dela ao grande taumaturgo garantiu que saísse ilesa.

Em momento algum os contos transmitem mau exemplo, nem pelo linguajar. Pelo contrário, combatem o racismo e a discriminação. Provam que a virtude sob a forma de um homem preto foi muito mais forte que a artimanha do contrário. Com seu enredo atraente passam o recado da necessidade de forte devoção, do valor e beleza da negritude, do poder do santo, da retidão de conduta do fiel e da malícia que o diabo possui e usa.

Diante do exposto, segue-se dois contos desse gênero, coligidos há década e meia, em Santa Cruz de Minas. 

São Benedito: pintura de arte popular numa bandeira de congado (catupé),
de São Sebastião da Estrela (Santo Antônio do Amparo/MG), 30/06/2013. 

1) Uma moça muito bonita ia se casar e o diabo quis atrapalhar. Tomou a forma humana e montou um cavalo muito bem arreado, com fivelas metálicas brilhantes. Vinha como um rapaz bastante elegante na vestimenta, belo e charmoso. 

A noiva era muito devota de São Benedito e pediu a benção dele para seu casamento. O santo ouviu a súplica e vendo-a em perigo pela armação de satanás, tratou de impedi-lo. Fez o cavalo dele tomar outro rumo e atolar num brejo de forma que não pudesse sair. Não podia descer para não sujar a roupa de barro. Pelejou para desatolar e não conseguiu. 

Enquanto isto, o casório aconteceu. Terminado o casamento, voltando os convidados, ao passarem pela estrada, o demônio disfarçado de jovem perguntava: 

"_ Vocês viram o Benedito?" 
  _ Não ..."

 E o coisa ruim resmungava palavras ofensivas.

Quando os recém-casados estavam em segurança o santo finalmente apareceu ao tinhoso [1] e deu ordem de desatolar. O cavalo saiu do brejo na hora e o santo falou:

"_ Não vai atrapalhar ninguém! Vai-te estourar nas tripas do Judas e feder a enxofre nas profundas dos infernos!"

Então aconteceu um estouro fumacento, com cavalo e capeta, sumindo tudo para o inferno. 

Andor de São Benedito. Festa do Rosário, Ramos (Ritápolis/MG), 24/09/2000. 

2) Uma moça era bastante devota de São Benedito. Ela gostava muito de baile, danças. Era ocasião de uma quadrilha, tempo de festas juninas. O diabo estava por perto, na espreita, espiando por umas gretas [2]

Ela dançava de forma inocente e ele cismou de perverter a moça. São Benedito, pressentindo o perigo que a jovem corria e considerando sua grande devoção, apareceu no baile para protegê-la. Veio na forma de um rapaz preto e o demônio por sua vez como um rapaz branco. 

O jovem preto logo se aproximou da moça e a pediu para dançar, se não tivesse preconceito. Ela agradando muito dele, aceitou de imediato e assim bailaram a noite toda. O diabo nada pode fazer e o santo, através de seu poder, afastou dali o capeta, que logo foi embora do baile e assim a moça foi salva. 

Créditos

-Texto e fotografias: Ulisses Passarelli. 
- Informante: Elvira Andrade de Salles, Bairro Córrego, Santa Cruz de Minas/MG, 27/08/2000.

Notas

[1] Tinhoso: o demônio. Talvez o ódio do povo contra ele, a vasta mítica desenvolvida pela cultura popular ao seu redor, geraram uma vasta sinonímia, acrescida por novos termos em cada região: bruto, encardido, capiroto, pemba, coisa ruim, "malino" (maligno), cramunhão,cariá, etc.

[2] A informante dizia que o diabo tem licença para atentar em três situações: no ato de uma jogatina (jogos de azar), numa dança de quadrilha e onde tem cisco parado. Nesta última situação se a pessoa ao varrer juntou o lixo num canto e não pôs na lixeira ou para fora numa pá, surgem inesperadamente, discussões, desentendimentos sem qualquer motivo. É o maligno atentando. 

- Revisão: 17/06/2026. 

- Leia também neste blog:

O GLORIOSO SÃO BENEDITO 
GUNGA SERENA!

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Cangalha

Cangalha [1] é um utensílio arqueado, feito em duas peças interligadas, com dois ganchos de cada lado, todo em madeira, que se adapta ao lombo de um animal cargueiro (burro, besta, jumento, cavalo ou égua, mas quase sempre um muar), sobre uma proteção ou forro para não ferir o animal. Sobre ela se prende um determinado carregamento: pode-se empilhar lenha, cana ou bambus para o transporte. Noutro tipo, não há ganchos mas um detalhe em madeira propício para se prender o jacá [2] ou a bruaca [3].

É um objeto de feitura artesanal, rudimentar. Quando algo está atrapalhado, mal enjambrado, desajeitado, diz a voz popular que está "escangalhado"Um provérbio popular diz: “bater na cangalha pro burro entender”. O sentido é o seguinte: às vezes é necessário uma certa rispidez para que o outro compreenda o que se quer instruir; ou, por vezes é necessário agir por meio indireto para se chegar ao resultado; sugerir; indicar, sem deixar às claras, deixando que o raciocínio e a intuição do próximo descubram o restante. 

Nos congados (catupés) de São João del-Rei aparecem dois pontos cantados com tema neste objeto: 

"Ai, o Rei com a Rainha   BIS
tava muntado na cangaia...” 

(Capitão Luís Santana, 1993. Cangalha no caso é figura de linguagem irônica para indicar uma padiola ou tablado que suspende as figuras reais em destaque, como um dispositivo instalado na praça para ressaltar o reinado.)

“Meu burro morreu, 
e a cangaia ficô; 
num sei pra quem fica 
num sei pra quem dô!” 

(Capitão José Camilo, 1994. Sentido: cangalha sem o burro é imprestável. A sugestão é deixar para o desafeto...)

"Cangalheiro" é o animal treinado a trabalhar com cangalha, ou, o artesão fabricante de cangalhas. 

No passado, a figura dos burros encangalhados era muito comum, graças aos tropeiros. Estes trabalhadores conduziam pelo interior conjuntos de animais cargueiros levando e trazendo produtos entre sertão e cidades, Brasil afora, inclusive nesta região. Foram comuns por exemplo e marcaram época e cultura em Prados e Tiradentes [4].  

Em São João del-Rei, ficou na memória dos idosos que vislumbraram o período anterior ao da comodidade do botijão de gás nas cozinhas, quando a grande maioria, senão todas as casas, tinham fogão à lenha ("fogão de lenha", dizem). Então, naquele tempo, pela rua afora, tropas de burros passavam com as cangalhas carregadas de lenha, trazendo-as já encomendadas ou tentando a sorte. Até cada porta vinha o condutor da tropa de lenha e perguntava ao morador se estava precisando. Em caso afirmativo dava o preço de um cargueiro, ou de meio, correspondente à carga de uma cangalha completa e ou apenas um de seus lados, respectivamente. Em caso afirmativo, desembarcava-se a lenha para o freguês, no ponto que ele queria, recebia-se o pagamento e ia-se à procura de outro comprador do restante do carregamento [5]

Essa lenha vinha sobretudo de nossa histórica Serra do Lenheiro, que não tem este nome à toa, fonte que era de fornecimento de lenha para o arraial, vila e depois cidade de São João del-Rei. Cerrados, carrascais, restingas, saivás e capoeiras foram abatidos e conduzidos em fileiras serpenteantes de muares morro abaixo e morro acima, ardendo nos fornos e fogões, garantindo o pão de cada dia. 


Artesanato em madeira da cidade de Prados, figurando burros cargueiros
com jacás e lenha na cangalha. Década de 1990. Acervo do autor. 

Créditos 

- Texto: Ulisses Passarelli. 
- Fotografia: Iago C.S. Passarelli.

Notas 

[1] No estado do Tocantins, próximo à divisa com o Maranhão existe a "Serra da Cangalha", uma cratera de impacto, e nas imediações do Vale do Rio Paraíba, em São Paulo, a "Serra do Quebra-cangalha", contraforte da Serra do Mar. Por aqui também temos o topônimo "Quebra-cangalhas": a Resolução nº330 da Câmara Municipal de São João del-Rei, de 26/08/1905, aprovava as contas e ação executiva de reconstrução de duas pontes no distrito do Rio das Mortes, e ainda, os reparos na estrada que vai desse lugar ao Quebra-cangalhas (jornal O Repórter, n.34, 10/09/1905, São João del-Rei, acervo da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida). 

[2] Jacá: grande balaio de abertura circular, trançado artesanalmente em taquara, usado para carregar espigas de milho, capim picado para tratar do gado, etc. 

[3] Bruaca: mala de couro cru, usada pelos tropeiros no lombo dos burros para carregamento. 

[4] Vide a respeito desta última cidade o excelente registro contido no livro "Memória Tropeira", organizado por Luiz Antônio da Cruz e Maria José Boaventura. Tiradentes: Instituto Histórico e Geográfico, 2015, 70 p.il. 

[5] Informante: Aluísio dos Santos, São João del-Rei, Centro, 1995. 

- Leia também neste blog a postagem LENHEIRAS.
- Revisão: 20/07/2025. 

terça-feira, 7 de abril de 2015

Na minha terra se fala assim - parte 11

Meia-foda – pejorativo: baixinho. Pessoa de pequena estatura, sem ser propriamente anão.

Miquenta  - cheia de luxo, de cerimônias, rapapés, etiquetas.

Molhaceira – umidade, lugar molhado demais.

Na panela das almas – diz-se do que foi adquirido por um preço muito abaixo do que realmente vale; baratíssimo. “Comprou na panela das almas”. Talvez seja referência ao vasilhame que outrora se deixava nos cruzeiros para por oferendas em sufrágio das almas. Referência a dinheiro miúdo, muito trocado.

Não dá ponto sem nó – expressão que indica que uma ação foi meticulosamente planejada para resultar em lucro, benefício, promoção.

Não está no gibi –indicativo do que é incalculável, inimaginável, de alta expressão. Denota espanto e admiração.

Não sei por que cargas d’água – de maneira desconhecida, de forma incógnita, por motivo não informado. “Não sei por que cargas d’água, estava tudo planejado mas deu errado...”

Nem a malho! - de jeito algum, jamais, de maneira nenhuma. Negativa absoluta. Malho é um tipo de marreta usada pelos ferreiro para bater o ferro em brasa sobre a bigorna.

Nem que a vaca tussa! – idem.

Nó cego“picareta”, “morcego”. Sujeito que não assume seus atos. Pessoa escorregadia aos compromissos. Indivíduo não confiável. “Dar nó”: faltar a uma obrigação ou compromisso. Voltar atrás com a palavra, faltar com um acordo verbal; não ir ao serviço.

No cu do cachorro – muito escondido, oculto, onde ninguém acha, sumido, desaparecido. “Sumiu com a chave. Enfiou no cu do cachorro.”

No cu do zé esteves – idem.

No cu do zebedeu – ibidem.

Novinho em folha – novíssimo, muito novo, restaurado, reformado. “O carro voltou novinho em folha da oficina”.

Olho de peixe morto“olho caído”, olhar morteiro; aparência de sonso; cara de sonolento sem de fato estar com sono. Ptose palpebral.

Onti! – desconjuro: de jeito nenhum; para longe de mim; não quero jamais. “não vou lá... onti!”

Outros quinhentos! – Exclamação de melhoras; indicação de excelência. Ótimo. “Depois da pintura nova, a casa ficou outros quinhentos!”

Ovo de Colombo – solução inusitada para um fato que parecia indissolúvel. Resolução simples para um caso difícil. Diz-se que Cristóvão Colombo pôs fim a uma disputa na qual tentavam colocar um ovo em pé mas sempre desequilibrava e caía. Ele dizendo que era fácil, assumiu a questão e a resolveu, batendo na mesa o ovo para que quebrasse uma parte da casca e assim perdendo o arredondamento natural, parou na vertical.

Panaca – idiota, bobalhão, palerma.

Papa-anjo – pejorativo: aquele (a) que se relaciona com pessoas muito mais jovens. Diz-se de quando a disparidade de idades num namoro é grande demais.

Papa-defunto – pejorativo: adepto dos sepultamentos e velórios. Aquele que está presente a muitos enterramentos.

Papa-hóstia – pejorativo: beato. Pessoa que vai demais à igreja. Quem é muito afeito ao sagrado, mas muitas vezes é renegado na sociedade, porque é cheio de iniquidades.

Par de jarrinha – casal ou dupla de hábitos exdrúxulos, pessoas de costumes inusitados, que de imediato chamam a atenção sobre si pelo jeito diferente de ser.

Passar o carro na frente dos bois – adiantar demais a ordem natural das coisas, atropelar o andamento de um caso, excluir etapas, passar uma fase adiante da outra indevidamente.

Patati, patatá“conversa fiada”, “conversa pra boi dormir”. Assunto sem proveito, diálogo de pouca consistência, palavras dispensáveis. “Veio falar comigo: patati-patatá... e não sei o quê... não gostei da prosa dele não”.

Pau de virar tripa – pessoa muito magra. Alusão pejorativa a uma vara que se usa para facilitar a limpeza das tripas (intestinos) do porco abatido, que serão usadas para confecção de embutidos (linguiça, chouriço). A vara, longa e fina, ajuda a ação de virar do avesso a tripa para melhor limpeza dos resíduos.

Pau pra toda obra – multisserviço; o que serve para múltiplas funções. Aquele que domina várias tarefas.

Pé de serra – miserável. Fora dos padrões sociais urbanos.

Pé rapado – pobre, sem propriedades, sem posses. “Não casa com ele minha filha, que é um pé rapado, não tem aonde cair morto...”

Pega pra capar“tendepá”.  Correria, confusão, discussão, desordem, tumulto, algaravia. “A festa terminou num pega pra capar, aquela gritaiada...”

Pegar com a boca na botija – pegar em flagrante. Ver o fato no momento que ele está acontecendo.

Pela madrugada! – expressão sempre exclamativa, indicando espanto, admiração, indignação. “Descobriram mais uma fraude... pela madrugada!” Não quer dizer que foi descoberto de madrugada.

Pendão das almas – indivíduo muito magro e alto, “dispinguelado”. Ver: pinguela.

Perder a tiana – perder a paciência por completo, alterar-se, sem calma, esbravejar. A pronúncia é “tchiana”.

Periquita“p’riquita”. Termo popular de linguagem chula, usado como sinônimo de vagina. “Soltar a periquita”: ter relações sexuais com vários homens. “Periquitinha”: adolescente, moça bem jovem. Neste caso o termo não tem nenhuma conotação sexual ou pejorativa. É antes um apelido carinhoso, aliás, em ocaso.

Pernas pra quem tem!“pernas pra que(m) te quero!” Expressão usada para indicar fuga. Ato de correr muito para escapar. “Viu uma onça no mato, pernas pra quem tem!” Fuga espavorida.

Perrengue – doente. “Perrengado” ou “aperrengado”: adoentado, não muito bem de saúde, convalescente, prostrado, com fraqueza física. “Perrengagem”: o que traz malefício para a saúde: “adoeceu porque caçou perrengagem na chuva; ficou todo molhado...”

Petecar – atrapalhar, estragar, desordenar, dar errado. “Eh, meu amigo... nosso plano petecou tudo!”.

Picareta – além de ferramenta de escavações, picareta é, em sentido pejorativo, o indivíduo que não cumpre bem as obrigações do trabalho, “embrulhão”, “morcego”; aquele que falta ao serviço, chega tarde, sai cedo. Também é trapaceiro, desonesto, salafrário, enganador.

Picoco“Cucuruto de terra”, “murundum”, “montinho”. Pequena elevação bem localizada e delimitada de solo, destacando na planura. “Veio correndo e tropeçou num picoco”. Não confundir com “pitoco”, que tem o sentido de pequeno pedaço.

Picuinha – implicância, impor dificuldades desnecessárias, burocratizar. “Não resolveu o caso porque ele tá criando picuinha.”

Pindaíba – 1- nome de algumas árvores anonáceas do sudeste e sul do Brasil, consideradas ameaçadas. De sua casca o povo rural retira uma fibra resistente conhecida por embira, usada para amarrios rústicos. 2- situação de miséria, penúria, endividamento: “ele perdeu o emprego, está na pindaíba...”

Pinguela – 1- pequenina ponte improvisada só para um pedestre de cada vez, para travessia de córregos e valas, feita com um tronco de árvore ou feixe de grande bambus. 2- pessoa magérrima. É uma comparação pejorativa ao primeiro sentido da palavra, por analogia à imagem do que é fino, estreito, magro. 

Pintar o sete “Pintar e bordar”. Quebrar a ordem estabelecida, sair da regra social, aprontar traquinagens, fazer estrepolias, travessura. “O moleque pintou o sete! Ele é da pá virada!”

Pintar os canecos – idem.

Plasta – “prasta”. Pessoa moleirona, inerte, de pouca atividade, sem expediente, preguiçoso. Palerma. “Fulano é um plasta!” Por vezes vem de forma redundante, como num xingo: “plasta mole!”

Pras cucuias – aquilo que está sumido, distante, intangível: “viajou pras cucuias, pro Norte...” Embora não tão incisivo, tem em certa medida o mesmo sentido de “pros quintos das arraias!”: “ah... foi lá pras cucuias...” (lugar indefinido, inimaginável, longe das vistas, onde não incomoda mais).

Pros cocos – mal feito, sem zelo, construído de qualquer maneira, sem critério. “A festa foi feita tudo pros cocos...” (feita de qualquer modo; festa ruim); “o pedreiro construiu a casa pros cocos...” (o serviço profissional deixou a desejar).

Pros quintos das arraias!“pros quintos dos infernos!” Expressão sempre exclamativa e impetuosa, excludente, de catarse, como que expulsando ou renegando algo mal, para longe, para onde ficará neutro. Tem o sentido de expulsão, eliminação: “vou mandar meus inimigos pros quintos das arraias!”

Puaia – pessoa boa, prestativa, virtuosa, honesta, agradável, querida. Expressões em sinonímia: “feijão sem bicho”, “boa praça”, “peça fina”, “gente boa”. Caipirismo em desuso: “o sô Zé é puaia, feijão sem bicho!”

Tiquinho"Tiquin'". Pouquinho, muito pouco. “Um tiquinho de gente”: pouca gente, ou, uma pessoa pequena ("pingo de gente"). “Tiquinho de comida”: almoço parco. 

* Texto: UIisses Passarelli

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Nossa Senhora do Desterro

Na hagiografia popular, a imagem de Nossa Senhora do Desterro é muitas vezes referida como "Fuga para o Egito". Representação estampada, pintada ou em forma de imagem de gesso, madeira, argila, etc., do episódio bíblico da fuga da Sagrada Família para o Egito, após São José, o Carpinteiro, ter sido avisado em sonho por um anjo, que Herodes mataria os inocentes (Bíblia Sagrada, 1965: Mt 2, 13-22). 

Figura assim numa viagem: a Virgem Maria com o Menino Jesus ao colo, sobre um jumento e São José puxando-o por uma corda, tendo na outra mão o farnel, como viajante. Os evangelhos canônicos não descrevem a viagem em si, seguindo a narrativa direto para o batismo e início da vida pública de Jesus. Assim se desconhece os feitos de sua infância. Porém os textos apócrifos narram a infância de Jesus, os temores dessa viagem e os fatos acontecidos. 

O Evangelho Apócrifo da Virgem Maria, por exemplo, descreve a penosa viagem repentina até Alexandria, com o burrico passando imperceptível em meio à profusão das caravanas de mercadores. O Evangelho do Pseudo-Mateus narra fatos extraordinários e prodígios acerca desse desterro, com feras ao lado do Menino Jesus como se fossem animais mansos, a altíssima palmeira se reclinando sob sua ordem para abastecê-los de frutos, dentre outros fatos lendários. Já o Papiro Bodmer e o Proto-evangelho de Tiago oferecem uma versão diferente: ante o massacre dos inocentes, não citam a fuga em si, mas relatam que a Virgem Maria enrolou o Messias em faixas e o ocultou dos soldados de Herodes numa manjedoura de bois (Moraldi, 1999). 

Considerados sagrados pelo povo, os textos apócrifos contribuíram sobremaneira para a composição de várias lendas relacionadas a este episódio bíblico. Do amálgama de fontes antigas e tradições seculares brotou a crença. São correntes na região por exemplo, fatos lendários relacionados à saracura, ao gambá e à embaúba, relacionados à Fuga para o Egito, em parte já narrados neste blog, conforme indicam os links. A árvore da embaúba (família urticaceae, gênero Cecropia) ficou marcada na crendice: durante a fuga, atrás de uma velha árvore dessa espécie, muito grossa, ocultou-se Nossa Senhora dos olsdados romanos que os perseguiam. Menino Jesus estava ao seu colo maternal. Muito mais tarde, teria sido numa embaúba que Judas Iscariotes se enforcou. A biologia não consente tal afirmação, pois o mapeamento botânico indica Cecropia como vegetal da América e não do Oriente Médio, onde não existe. Para algumas vertentes da umbanda a embaúba é uma árvore consagrada a exu. 

Da Fuga para o Egito surgiu também a imagem de São José de Botas, o viajante, de cajado à mão, botas de canos altos aos pés. Nos tempos coloniais nas Minas Gerais, como aqui em São João del-Rei, donde procedem estas observações, São José de Botas foi muito querido como uma espécie de patrono emboaba, por sua figura de peregrino, à procura de uma nova terra. Sua imagem aparece nalgumas igrejas. Protegeria os aventureiros que de longe vieram às nossas betas à cata do ouro, também eles, de alguma forma, desterrados... 

Desterrar é retirar, sair, expatriar. Então, crê o povo, que quando se reza para Nossa Senhora do Desterro, os males são desterrados de nossa vida, da casa, do trabalho, do caminho. É sob a força dessa invocação sagrada que fogem espavoridos os maus espíritos, as assombrações, as potências malignas que perturbam os seres humanos. Sua prece e invocação tem o poder de um expurgo, uma catarse, um livramento. Daí ser tão querida e respeitada. A analogia se faz pela imagem: assim como a Sagrada Família teve de sair de sua terra e fugir dos maus, hoje, em estado glorioso, tem o poder de fazer o contrário, fazendo os maus fugirem. 

Diante desse entendimento é que sabiamente, diz o povo em tom exclamatório ao ver ou ouvir um fato assombroso: "Nossa Senhora do Desterro!" É o que basta para isolar o devoto daquele malefício. Mas há sempre os mais supersticiosos, que na oportunidade complementam automaticamente com três batidas da mão direita fechada sobre uma superfície de madeira, dizendo: "isola!"

Fuga para o Egito. Cerâmica figurativa artesanal do Vale do Paraíba.
Acervo do autor. Artesã: Ismênia. Taubaté/SP. Déc. 2000.

Referências Bibliográficas

Bíblia Sagrada. 6.ed. São Paulo: Ave Maria, 1965. 1602 p. + anexos.

MARTÍN, Santiago. O Evangelho Secreto da Virgem Maria. 24.ed. São Paulo: Paulus, 2012. 223 p. 

MORALDI, Luigi. Evangelhos Apócrifos. São Paulo: Paulus, 1999. 393 p.

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografia: Iago C.S. Passarelli.

Notas

- Revisão: 18/06/2026.