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Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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terça-feira, 31 de maio de 2016

Retalhos para a colcha da história - parte 3

Coletânea de notas hemerográficas de São João del-Rei e cercanias (1900-1938)



A história se constrói de pouco em pouco, pedacinho por pedacinho. O pesquisador busca nos documentos as informações desejadas como um garimpeiro remexe as areias e cascalhos. Depois de revirar um grande monte de material aparece algo...

No mesmo sentido é o título desta série de postagens, alusão ao tradicional artesanato de costura de quadrados de retalho de pano para compor uma colcha colorida.

É bem assim esta história que está se esboçando nestas postagens: por alusão é garimpada e costurada a partir de retalhos hemerográficos.

A ideia surgiu a partir de uma pesquisa de uma tema único, ligado ao Bairro de Matosinhos, que rendeu matéria para uma monografia, hoje também convertida em postagens de blog. Mas enquanto anotava a parcimoniosa informação, outras surgiam que se mostravam de interesse e às vezes se revestiam de verve, ou traziam em si mesmas o pitoresco da linguagem de época. Assim, para não perdê-las, aproveitava-se o ensejo para anotá-las. E assim foram rendendo motivos para novas postagens meramente provocativas de pesquisas mais aprofundadas nos temas que afloravam.

Dando, pois, prosseguimento às pesquisas da história regional em velhos jornais publicados nesta cidade, este blog apresenta mais uma remessa selecionada a partir da coleta de assuntos variados. A ideia é tal como o título sugere, compor uma malha de informações.

As notícias se revestem de especial interesse por revelar aspectos simples e cotidianos da vida urbana e em parte rural, que por serem muito próxima ao viver do povo, muitas vezes não vem sob o formato nu e cru, engessado e frio, de um documento formal, fonte indubitável e fundamental da história.

Assim seguem dados da cidade de São João del-Rei (que perfazem a maioria), alguns do seu distrito São Gonçalo do Amarante (ex Caburu e primitivo São Gonçalo do Brumado), além de uma notícia de Tiradentes e outra da Estação de Nazareno (à época abordada, Nazareth, então distrito de São João del-Rei).

Nos trechos em itálico transcrevemos o original com respeito à grafia de época.

As transcrições estão expostas em ordem crescente de data e diante de cada uma consta o jornal de origem, número e data da edição.

"Caixinha" - estação elevatória inaugurada em 1930 para abastecimento de água 
do Bairro Senhor dos Montes, São João del-Rei. A sigla C.M. na fachada indica
a "Câmara Municipal", responsável pela obra à época. Fotografia: 12/08/2013. 

1900:
- “S. Gonçalo Garcia. Não há sanjoannense que desconheça a precariedade dos cofres da Confraria de S. Gonçalo, desta cidade, não há quem ignore as dificuldades com que lucta a administração do templo, e não há quem não deseje a conclusão das obras da Igreja; pois bem, tem todos esses a que nos referimos ensejo de darem um obulo para as obras de S. Gonçalo. O espectaculo de Quinta Feira, amanhã, da Companhia Chilena, com um programma variado cheio de attraentes novidades _ é em beneficio da Igreja de S. Gonçalo. Em beneficio, mesmo, não teem os pessimistas de dizer que o beneficio é dividido com a Igreja e com a Companhia, não; a empreza vendeu o espectaculo por preço razoavel e tudo quanto exceder, é em favor dos cofres da Igreja, tão pobre. Invocamos os sentimentos religiosos e patrioticos do povo e pedimos uma esmola indirecta, dando em troca a diversão de amanhã, Quinta-feira _ ao CIRCO.” (O Combate, n.11, 12/09/1900)

- “Edital. De Ordem do exm. Sr. Dr. Secretario do Interior, faço publico que se acham em concurso, com o prazo de 60 dias, a contar da presente data, as cadeiras de instrucção primaria em seguida declaradas: cadeira mixta do districto de Conceição do Formoso, município de Palmyra, e a do sexo feminino do districto de S. Gonçalo do Brumado, de S.João d’El-Rey. Os exames deverão ser processados de accordo com as instrucções que baixaram com o decreto n.1400 de 6 do corrente mez, perante a directoria da Escola Normal, desta cidade, e os requerimentos de inscripções instruídas com os documentos de que trata o art.  6º, n. I, II, III e IV das mesmas instrucções deverão ser dirigidas ao diretor da mesma escola. Quaesquer esclarecimentos de que necessitarem os candidatos, poderão obtel-os nesta Secretaria, em todos os dias uteis, das 10 horas da manhã á 3 da tarde. Secretaria da Escola Normal de S.João d’El-Rey, em 21 de Agosto de 1900.” (O Combate, n.16, 14/10/1900)

-“S.Gonçalo. Por acto de 7 do corrente, foram nomeados os cidadãos Antonio Francisco de Paula, Luiz Cardoso Rabello e Tobias Raphael dos Santos para subdelegado, 1º e 2º suplentes do districto de S. Gonçalo do Brumado d’este município. Entre as autoridades dimitidas figura o celebre João Barulho, que, pela segunda vez, foi despedido do cargo policial _ por causa de seus máos precedentes de desordeiro conhecido. Foi a este que o Major Pimenta confiou força para ir a S. Gonçalo. Felizmente ele confiou a força ao Barulho, em um dia e no dia seguinte _ rodou Barulho, rodou Pimenta, rodou o resto.” (O Combate, n.25, 15/11/1900).

1906:
- Resolução n.343, de 26 de abril de 1906, da Câmara Municipal, autoriza concessão de pena d’água na região da Bica da Prata: “Fica o Agente Executivo auctorisado a permittir que o cidadão Bernardo Antonio da Paixão derive para sua chácara uma penna d’agua colhida nas sobras das aguas do Padre Faustino” (art.1º), através do seguinte artifício: “o concessionário fará uma pequena caixa, convenientemente cimentada, saindo a penna de um orificio aberto nesta, colocado em plano superior ao da servidão publica.” (art 2º). A Câmara porém se reservava ao direito de... “rehaver essa agua, sem indemnização, caso a julgue necessária para lavagem da futura rede de esgotos” (artigo 3º). (O Repórter, n.14, 13/05/1906)

- "O ilustrado sr. padre Nicoláo Badarioti, muito competente e muito dado ao estudo dos phenomenos scismicos, observou na noite de 10 para 11 do corrente, das 10 para 11 horas, dois tremores de terra, bastante violentos, isto no local onde está situado o colegio, sob a sua competente direcção (*). O mesmo phenomeno foi observado no arraial da Conceição, o que nos foi communicado pelo proprio observador que é homem de inteiro credito." (O Repórter, n.14, 13/05/1906)

- “Interessante e attrahente festa foi, no mesmo genero, no domingo, improvisada pelo revdo. Frei Candido, com os seus meninos, que constituem a associação por ele criada _ Associação da Juventude _ e constou de representação de diversos monólogos, num ligeiro theatrinho, levantado em um dos espaçosos salões da magnifica vivenda dos revdos. Franciscanos. Exhibiram-se os inteligentes meninos: João Adalberto de A. Viegas, João Braga, Marcial Maciel, Paulo Campos, Oscar Pereira, José e Luizinho Rodarte e Henrique de Souza.” (O Repórter, n.26, 05/08/1906)

1907:
- Lei municipal nº152, de 19/12/1906, autoriza várias desapropriações na Biquinha, “desde a casa de José Martins Penna até São Caetano, as quaes se achão fóra do alinhamento, approvado pela Câmara”. A mesma lei prevê para a antiga Rua da Prata (rua Padre José Maria Xavier), desapropriação por utilidade pública do imóvel nº6, de propriedade de Martiniano Ribeiro Bastos e outros, além do nivelamento daquela via. (O Repórter, n.50, 13/01/1907).

- “Theatro. Hoje haverá espectaculo com inauguração do panno de bocca. O trabalho de pintura foi feito pelo hábil e conhecido scenographo Alexandre Poggio, e segundo nos affirmaram, está um trabalho primoroso.” (O Repórter, n.23, 27/06/1907).

1917:
- A Câmara Municipal projetava abrir uma nova via pública interligando a avenida principal à Rua da Misericórdia, sobre o Córrego do Segredo, que seria canalizado. Tal obra despertou questionamento pelo elevado custo aos cofres públicos, julgada desnecessária. Corresponde à atual Avenida Andrade Reis. (A Nota, n.16, 21/05/1917).

- “24 de maio. Passa amanhã o 51 anniversario da batalha de Tuyuty. Em comemoração desta grandiosa data os alumnos do gymnasio S.Antonio formarão com um effectivo de cem alumnos, fazendo uma passeata pela cidade, ás 16 horas.” (A Nota, n.18, 23/05/1917)

- “Gravissimo. Até que afinal o celebre pontilhão da E.F. Oeste na zona das Fabricas vai ser dotado de uma parte de taboas, elegante e solidamente construída, para a passagem exclusiva de pedestres. Esta providencia que vai prestar grandes serviços áquella parte da cidade e que evitará d’ora avante acidentes graves como o sucedido com duas senhoritas que ainda não se restabeleceram, já foi ordenada pelo sr. Dr. Agostinho Porto, sympathico diretor da Oeste, a quem esta cidade deve innumeros favores. Revogamos, pois, o pedido que fizemos a nossa zelosa Câmara: não é mais necessario alli mandar os seus engenheiros, fiscais e trabalhadores acompanhados de maquinas e materiaes. A Oeste vai construir e o povo ficar sossegado, pois o melhoramento virá mesmo para breve, muito breve. E é ao Director da Oeste que enviamos os nossos agradecimentos por mais este serviço prestado á Municipalidade.” (A Nota, n.22, 28/05/1917)

- “S. Gonçalo Garcia. Nesta egreja, celebrar-se-ão, no dia 20 do corrente, os seguintes actos religiosos: ás 9 horas missa com musica; á noite profissão de irmãos, posse da nova mesa, rasoura e Te-Deum.” (A Nota, n.70, 21/07/1917)

1923:
-“Caburú. Realiza se, solemnemente, com a presença dos (... ilegível) da P.M.M. e grande numero de correligionários, a instalação do districto de Caburú, antigo S.Gonçalo do Brumado, a 1º de janeiro de 1924.” (A Tribuna, n.505, 30/12/1923)

1926:
- “Caburú. Por ocasião de uma festa em Caburú, o sr. Affonso Ribeiro Guimarães, enérgica autoridade policial daquele districto, prendeu e fez recolher á cadeia desta cidade a Américo de Oliveira, que estava promovendo desordens e procurando desrespeitar os representantes da lei. Americo de Oliveira esteve detido durante algumas horas, sendo, depois, posto em liberdade por ordem do sr. dr. Archimedes Camisão, integro e activo delegado de policia de S.João del Rey.” (A Tribuna, n.744, 29/04/1926)

- “Escrivão de Caburu. Há já um mez que é serventuário vitalício do officio de escrivão de paz do districto de Caburu o nosso amigo sr. Antonio Jose Alves de Oliveira. O sr. Presidente do Estado, provendo-o naquele posto, investiu um acto plenamente acertado. O sr. Antonio José Alves de Oliveira, além de competente para o cargo, é um dedicado soldado do P.M.M. local.” (A Tribuna, n.780, 02/09/1926)

1930:
- “Agua em Senhor dos Montes. Estão de parabéns os habitantes daquelle subúrbio, com a resolução da sua mais justa aspiração. Já chegou lá a água, questão difícil por que vem se batendo de ha muito aquella laboriosa população. É um serviço, que muito recomenda a administração municipal e sabemos que por elle muito se interessava o vereador, sr. João de Almeida Magalhães e o sr. Alfredo Candido, sendo como é, uma das partes mais bellas e altas da cidade, justo é, que para alli a edilidade volte suas vistas, tornando-a habitável, com os contornos necessários para seu desenvolvimento. Aproveitamos o ensejo, para lembrar, respeitosamente, ao sr. agente executivo da Camara Municipal, a conveniência de acentar os canos conductores de agua para aquelle suburbio, na passagem pela ponte do Theatro Municipal em vez de passar de lado da ponte e seguir a parede interna do caes até o logar onde ganha a direcção da rua do Café Republica, passar por baixo da ponte, sair logo na avenida Ruy Barbosa e descer por ella margeando passeio ate o ponto onde saia do caes. Livra assim da má impressão, que causa aos que chegam, e até mesmo a nós, vendo-os amarrados arame e enfeiando o caes. Fazemos esta observação na intenção única de contribuir para o beneficio da cidade, pois sabemos, que para beneficial-a também se acha da melhor boa vontade o sr. agente executivo.”  (A Tribuna, n.1.043. 05/10/1930)

1932:
- “Na Fabrica de Louças (**) - “Fabrica de louças” é a pitoresca denominação que recebeu a praça fronteira a Avenida Cristovão Colombo, banda de Chagas Doria. Pois ali vão ser construidos vários e elegantes prédios que conhecido construtor vendera a prestações. Como o sistema em apreço, já adotado em todos os grandes centros tem dados os melhores resultados, principalmente como elemento, propulsos de dilatação urbana, faremos votos para que aqui tal se dê dentro em breve.” (Folha Nova, n.8, 24/04/1932)

1936:
- Sob a responsabilidade de Hugo Bassi, a Ponte do Porto passa por uma completa obra de reforma, com troca do assoalho e feitura de corrimão. (O Correio, n.502, 23/05/1936).

- A imprensa são-joanense divulga os clamores populares sobre o péssimo estado de conservação da Ponte das Águas Férreas, no Bairro Tijuco, “que dá passagem há todos que chegam ou sahem, via Rio das Mortes”. Esta ponte se situa na principal via do Tijuco, sobre o Córrego das Águas Férreas, tributário da margem esquerda do Lenheiro, pouco acima de sua foz. (A Tribuna, n.1.333, 12/07/1936).

- A imprensa são-joanense divulga o início das obras de construção das duas torres da Igreja de Nossa Senhora do Rosário no centro histórico de São João del-Rei (A Tribuna, n.1.333, 12/07/1936).

1938:
- “Vacinação contra a febre amarela – Segue hoje para o Rio das Mortes a Caravana da “Fundação Rockfeller”. Conforme noticiamos ontem encontra-se na cidade uma caravana da “Fundação Rockfeller”, para o fim de vacinar a população do município, principalmente a população rural, contra a febre amarela silvestre. A população da cidade não está ameaçada pela febre amarela, conforme nos declararam os médicos da Fundação Rockfeller e o dr. Olavo Caldas, chefe do Centro de Saúde de S. João del-Rei. O seu estado sanitário é ótimo e o seu índice de (... ilegível) é zero. As populações dos distritos devem, porem, se precaver contra a febre amarela silvestre, em vista de residirem próximos ás grandes matas, que facilitam a existencia do mosquito transmissor da doença. É bom esclarecer que a vacina é absolutamente indolor e não provoca reação de espécie algumas. Para os demais distritos de S. João vai ser observada a seguinte ordem: Onça, dia 10, de 10 às 16 horas; Cajuru, dia 11, de 10 às 16 horas; Caburú, dia 12, de 10 às 16 horas; Ibitutinga, dia 13, de 10 às 16 horas; Conceição da Barra, dia 14, de 10 às 16 horas.” (Diário do Comércio, n.53, 07/05/1938)

- Foi aberto ao tráfego o ramal do Penedo, da Estrada de Ferro Oeste de Minas, partindo do km110, na parada do Pombal. Antes mero desvio destinado ao embarque de minério vindo daquela localidade, a abertura como ramal foi assaz elogiada e relembrou o velho plano de interligação por via férrea a Resende Costa, lamentavelmente, nunca concretizada. Este ramal teve curta duração, de cerca de uma década. Transpunha o Rio das Mortes por um pontilhão e no lado oposto margeava o seu afluente, o Rio Santo Antônio (Diário do Comércio, n.124, 06/08/1938)

- Um caminhão carregado de lenha caiu na Ponte do Patronato, que afundou com seu peso. (Diário do Comércio, n.124, 06/08/1938). No ano seguinte ela voltou a ser alvejada por certa polêmica em virtude de atrasos nas reformas: a Prefeitura de São João del-Rei executou obras de reparos na ponte sobre o Ribeirão São Francisco Xavier, na Colônia do Bengo, “nas proximidades do Patronato Agricola, na estrada que nos liga a Santa Rita.” (O Correio, edição extra, 07/01/1939)

- “Festa do Rosário – Especial para Tiradentes – Para as festas de N.S. do Rosario, a realizar-se hoje em Tiradentes, correrá um trem especial para aquela cidade, partindo daqui ás 16.40 minutos, regressando ás 21 horas, ao preço de 1$200 rs, ida e volta.” (Diário do Comércio, n.194, 01/11/1938)

- “Capela São Geraldo. Realizou-se com as cerimonias de praxe, o lançamento da pedra fundamental da capela dedicada a S.Geraldo, na estação de Nazaré, em terreno generosamente oferecido pelo sr. Francisco Ernesto de Carvalho. O digno e virtuoso vigário da freguezia revmo. conego Heitor da Trindade organizou a comissão encarregada de levar a bom termo empreendimento merecedor dos mais calorosos louvores, a qual ficou constituída de cidadãos prestigiosos e de elaventado espirito religioso e que saberão, certo, se desobrigar, com firmeza, tenacidade, confiança e fé, da missão que lhes foi confiada. Fazemos os melhores votos para que o povo daquela zona corra pressuroso ao encontro de tão louvável iniciativa.” (O Correio, n.627, 05/11/1938)

Igreja de São Gonçalo Garcia. 17/11/2013.
São João del-Rei/MG.  

Referências Hemerográficas

Jornais editados em São João del-Rei; acervo da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d’Almeida, desta cidade

Notas e Créditos

* Colégio: Liceu São Luis, situado no km 139 da EFOM (Estrada de Ferro Oeste de Minas), extinta e erradicada Linha do Sertão, do qual só restam ruínas. O citado padre aparece em várias notícias estudando tais fenômenos naturais. Os tremores eram recorrentes na região, até Bom Sucesso. O arraial da Conceição citado na nota jornalística é a atual cidade de Conceição da Barra de Minas. 
** Fábrica de Louças era o cognome da área urbana oficialmente denominada Praça Pedro Paulo, desde 1901. A este respeito ver: PRAÇA PEDRO PAULO ANTIGAMENTE  
*** Texto e fotografias: Ulisses Passarelli
****Leia também as postagens anteriores, sob o mesmo título: 



terça-feira, 1 de março de 2016

Retalhos para a colcha da história - parte 2

Coletânea de notas hemerográficas de São João del-Rei e cercanias (1900-1948)

O que foi dito como introdução à primeira parte desta postagem (acesso por link ao final deste post) serve exatamente a esta segunda parte. Portanto, por questão de praticidade, para não repetir as palavras, vamos direto à exposição da nova coletânea de notícias avulsas e independentes. É recomendada a leitura das notas de rodapé, que contém alguns comentários sobre as notícias.

Poço do Olho d'Água no Ribeirão São Francisco Xavier,
Serra do Lenheiro, São João del-Rei/MG

1900:
- Reforma na Igreja das Mercês – “Estão muito adeantados os reparos que, na Igreja das Mercês, estão sendo feitos pela actual Mesa Administrativa. O forro já está decorado, tendo sido estampado um retrato da Virgem das Mercês, ladeado pelos seus servos S.Pedro Nolasco e S.Raymundo Nonato. As obras restantes prosseguem.” (O Combate, n.10, 05/09/1900)

1901:
- “Praça Pedro Paulo – A Camara Municipal, reconhecendo os relevantes serviços prestados pelo illustre Coronel Pedro Paulo da Fonseca Galvão, em sua sessão, do 28 do passado, deu o nome do benemerito militar, á Praça, que se estende, da ponte das Officinas[1] ao Ribeirão d’Água Limpa. Foi um acto de justiça. Apresentamos ao Coronel Pedro Paulo os nossos parabéns.” (O Combate, n.76, 03/07/1901)

- “Mercado Municipal – Dentre as medidas redundantes em economia ao Thesouro Municipal, está o arrendamento do nosso Mercado e sabemos que está no animo da nossa Municipalidade por em hasta publica o arrendamento d’aquelle edifício publico. Ultimamente a fiscalização do Mercado Municipal tem ficado bastante despendiosa para os Cofres Publicos municipaes e por esse motivo quer e pretende a Camara arrendal-o e para isso estão sendo estudadas as bazes respectivas.” (O Combate, n.104, 21/09/1901)

- Hotel Oeste de Minas[2] (anúncio): “Attenção – Hotel Oeste de Minas – Valentim e Santos Martinelli – aposentos arejados, salões, bilhares, parques, banheiros, duchas e carro para conducção de hospedes, isto gratis. Não aceitam tuberculosos. Diarias: adultos...7$000 Creanças e creados pagarão um preço razoável, na occasião combinado. As famílias ou grande numero de pessoas gozarao do abatimento que sera convencionado. S.João d’El-Rey”. (O Combate, n.128, 30/11/1901)

1905:
- “Quaresma – Ao que consta, ouviremos, pela Quaresma e semana santa, o Stabat Mater de Rossini, o de Calvo, o de Pergolesi e o de nosso inolvidável conterrâneo Presciliano Silva; as missas e credos de Giorza, de Salvi e de Bellini; e, na sexta-feira maior, a majestosa composição de L.Perozi: Ceia e Morte de Christo. É uma excelente nova para os amantes da boa musica, nada sendo preciso accrescentar acerca do desempenho reservado a taes composições, que está confiado á orchestra do maestro Ribeiro Bastos.” (O Repórter, n.2, 05/02/1905)

- “Relógio – Já sahiu da Europa um excelente regulador, que a Mesa da Irmandade do Sacramento, com auxilio da Camara, destina a nossa egreja Matriz, em substituição ao velho relógio que, pelo seu incessante trabalhar, já tem as molas principaes estragadas, regulando mal.” (O Repórter, n.2, 05/02/1905)

1906:
- Reforma do Mercado– “Estão muito adeantadas as obras, que estão sendo realisadas no Mercado Municipal e destinadas a receberem a nova grade de ferro, que a Camara manda colocar ali, levando mais esse acto para o activo de seus serviços a esta cidade e no Municipio.” (O Repórter, n.25, 29/07/1906) [3]

- “Nuvem de gafanhotos – Como em Juiz de Fora, no mesmo dia 9, segundo telegramma transmitido dessa cidade para a imprensa carioca, seguindo o mesmo rumo de norte a sul, cerca de 2 horas da tarde, atravessou aqui uma grande nuvem de gafanhotos, em certos pontos tão intensa que conseguiu encobrir os raios solares. Alguns eram de tamanho nunca aqui visto, não deixando de causar um certo temor na população. Felizmente a travessia dos terríveis insectos foi de uma hora, mais ou menos.” (O Repórter, n.37, 14/10/1906)

1907:
- “Ramal de Pitanguy – Por estes três meses, diz telegrama do snr. Dr. Chagas Doria ao snr. Ministro da Viação, deverá ser inaugurado o ramal de Pitanguy, melhoramento importante, que, desde muito tempo, está a reclamar a sympathica cidade sertaneja.” (O Repórter, n.22, 23/06/1907)[4]

- Problemas sanitários – “O dr. F. Catão realmente precisa de tomar um destes trens, mas não para se ir de vez, mas para voltar o mais breve possível, e trazer em sua companhia gente que nos ajude a fazer reclamações contra a agua suja, a praia [5] suja, o matadouro sujo, as ruas sujas que temos nesta hospitaleira, e salubre cidade.” (O Grypho, n.10, 24/11/1907)

1917:
- “Chuva Providencial – Parece que alguém lá das alturas, attendendo ás reclamações do povo, delle condoeu-se e mandou, no segundo dia de festas em Mattosinhos, uma chuvinha miúda incumbida de aplacar o pó que era barbaro e inclemente. Ninguém lá de cima tem obrigação de mitigar os soffrimentos dos que estão cá em baixo; compete somente á Câmara mandar irrigar o Largo de Mattosinhos e trazer-lhe uma capina em regra, porque só ela tira proventos do povo com pesados impostos e taxas absurdas. Os negócios de nossa Câmara vão de mal a pior. É o povo queixar-se ao bispo.” (A Nota, n.24, 30/05/1917)[6]

- “Apparecem os gafanhotos – Lá pelos lados de Aguas Santas e nas imediações do estribo do Brighentti, começam a aparecer densas nuvens de gafanhotos, pondo em polvorosa o pessoal por onde passam os bandos dos danninhos insectos. Quem nos trouxe a noticia affirma-nos que durante a passagem dos terríveis orthopteros nota-se uma escuridão qual a da noite; afirma-nos mais o nosso informante que o espectaculo é medonho e quem o presencia tem a impressão perfeita do barulho de uma hélice de aeroplano em franca rotação. É bem provável que, devido a nossa cidade achar-se nas proximidades onde os gafanhotos estão aparecendo tenhamos dentro em breve de observar também tão terrível espectaculo. Caso apareça tão terrível flagello entre nós, como providenciará a nossa Câmara? É ir-se preparando desde já...” (A Nota, n.25, 31/05/1917)[7]

- “Voluntários de manobras – No quartel do 51º batalhão de Caçadores encerrou-se hontem a inscripção para o voluntariado de manobras. A mocidade de S.João d’El-Rey acaba de dar mais uma prova de seu nunca desmedido civismo. Alistaram-se 213 voluntarios, dos quaes 202 foram considerados aptos, 9 julgados incapazes e 2 não compareceram á inspecção medica. Podemos dizer com orgulho que S.João d’El-Rey é a cidade de Minas que maior numero de reservista tem dado ao exercito; com o contingente de agora esse numero attinge acerca de quatrocentos homens.” (A Nota, n.70, 21/07/1917)[8]

1923:
- Aquisição de terreno – a Resolução Municipal nº481, de 31/03/1923, autoriza o executivo à compra de um terreno, “por quantia não excedente á da compra effectuada ao sr. Francisco Messias da Silveira, a parte pertencente a d. Ermelinda da Silveira Milward no immóvel chamado “Olhos de Agua”, junto ás vertentes da represa velha do abastecimento desta cidade.” (A Tribuna, n.468, 15/04/1923)[9]

1926:
- “Estação de Caburu – É justo salientarmos nesta folha os constantes esforços com que contribuiu para a construção da estação de Caburu o sr. cel. Antônio Balbino de Sousa. Aquelle nosso prezado amigo desdobrou-se em boa vontade e atividade para a consecução do importante “desideratum”, tornando-se, portanto, merecedor dos mais effusivos louvores.” ( A Tribuna, n.751, 28/05/1926)[10]

- Escola distritais – a lei municipal nº496, de 27/11/1926, autoriza a criação de uma escola noturna na Colônia José Teodoro e outra em “Nazareth”, atual cidade de Nazareno. (A Tribuna, n.814, 30/12/1926)[11]

- Estrada de Turvo – por força da lei municipal nº497, de 27/11/1926, a Câmara Municipal de São João del-Rei autorizou a despesa de 10:000$000 (dez contos de réis), como subvenção parcelada para o exercício financeiro do ano seguinte, para construção da estrada de automóveis interligando esta cidade a Turvo, atual Andrelândia, no Sul de Minas Gerais. (A Tribuna, n.814, 30/12/1926)

1932:
- Festa no Albergue – “Encerraram-se com a procissão de domingo último, dedicada a S.José, as tradicionais festividades que se realisam na Capela do Albergue Santo Antonio. O préstito religioso de domingo esteve brilhante, comparecendo elevado numero de fieis. A banda do 11º R.I. abrilhantou todas as festividades, quer aos tríduos, quer a procissão. De ordem da Prefeitura foi iluminado o morro do Albergue, oferecendo este agradável impressão”. (Folha Nova, n.8, 24/04/1932)[12]

1938:
- “Missa dos Alfaiates - A comissão de alfaiates encarregada de promover a missa em honra à S.Geraldo, o protetor da classe, pede-nos avisemos que por falta de sacerdote não pode ser celebrada hoje, dia do milagroso santo, ficando por isso transferida para amanhã, ás 7 horas na Igreja Matriz. A referida comissão faz um apêlo para que todos os alfaiates compareçam a esse ato religioso, afim de ganharem graças para o constante progredir religioso desta tão numerosa classe operária.” (Diário do Comércio, n.181, 16/10/1938)[13]

- “Nova rodovia de S.João del-Rei á Barbacena – As empresas de transporte desta cidade, estando á frente o Expresso S.João e o fazendeiro Abel Carlos Moreira Campos, do distrito de Padre Brito, projetaram a construção de uma linha rodoviária, ligando o distrito de S. Francisco do Onça ao Ponto Chique, quilometro 27 da estrada de Ibertioga, ficando desse modo S.João del-Rei ligada a Barbacena por uma nova via, num percurso de 80 quilometros certos. Essa rodovia destina-se principalmente ao tráfego de caminhões pesados e de ônibus com as rampas em gráca necessários a tais transportes.” (Diário do Comércio, n.212, 23/11/1938)

1948:
- “De Prados - Natal dos pobres - Consoante o costume, realizou-se nesta cidade, a 25 de dezembro, o já tradicional almoço ajantarado oferecido pelas exmas. familias aos pobres da localidade. Devido ao mau tempo reinante, essa interessante refeição coletiva não teve a mesma concorrência dos anos anteriores, tendo dela participado uns 200 pobres. As respeitáveis irmãs de caridade da Santa Casa serviram o almoço, com a cooperação de distintas jovens do nosso escol social.” (Diário do Comércio, nº2.975, 04/01/1948)

Placa indicativa improvisada no distrito de Emboabas (ex São Francisco do Onça)
indicando o entroncamento para Ponto Chique. 

Referências Hemerográficas

Jornais editados em São João del-Rei; acervo da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d’Almeida, desta cidade
Referência Bibliográfica

Prontuário Geral das Estações Ferroviárias, 1945. 2.ed. Belo Horizonte: Departamento de Estatística, 1947.
VIEGAS, Augusto. Notícia de São João del-Rei. 3.ed. Belo Horizonte: [s.n.], 1959.

Notas e Créditos

*Texto, pesquisa e fotografias: Ulisses Passarelli
** Leia também neste blog a primeira parte desta postagem como mais notícias históricas:



[1] - Ponte das Officinas: o sentido exato não está claro e pode se referir a duas pontes: 1- havia uma ponte sobre o Córrego do Lenheiro interligando a Rua Antônio Rocha à Paulo Freitas, em frente às oficinas da Estrada de Ferro Oeste de Minas. Esta ponte não existe mais. Ficava exatamente entre as atuais pontes Inácio Zózimo de Castro e Monsenhor Tortoriello; 2- pequeno pontilhão da via férrea sobre o Córrego da Tabatinga, na saída da estação, entrada do Bairro São Judas Tadeu (antiga Caieira). É possivelmente a esta ponte que se refere o texto, pois dela à Ponte do Ribeirão da Água Limpa ainda hoje é o logradouro conhecido por Praça Pedro Paulo, popularmente, “PPP”, outrora chamada “Estrada da Tabatinga”. Era o caminho antigo de acesso a Matosinhos.
[2] - O Hotel Oeste de Minas sofreu terrível incêndio em 1919, que representou o seu fim. O prédio, contudo, construção muito sólida, foi mantido e hoje em excelente estado de conservação, sedia o CESC (Centro Social e Cultural), do 11º BI, Regimento Tiradentes, do Exército Brasileiro.
[3] - O mercado naquele tempo ficava exatamente ao lado da Prefeitura Municipal, no terreno onde mais tarde foi construído o Fórum, prédio que hoje serve à Câmara Municipal.
[4] - O ramal referido era um trecho de via férrea de cerca de 45 km, que interligava a cidade de Pitangui à “Linha do Sertão” da Estrada de Ferro Oeste de Minas, com a qual se encontrava exatamente na Estação de Velho de Taipa, km 436,928. A inauguração se deu em 23/11/1907.
[5] - Praia: nome corriqueiro que os são-joanenses dão ao Córrego do Lenheiro, que entrecorta a cidade.
[6] - Tradicionalmente, desde o século XVIII, eram três dias de festejos subsequentes: Domingo de Pentecostes consagrado ao Divino Espírito Santo, segunda-feira (o segundo dia), consagrado ao Senhor Bom Jesus de Matosinhos e a terça a Nossa Senhora da Lapa.
[7] - Até 1930 a Câmara Municipal congregava todos os poderes. Um dos vereadores era escolhido para ser o agente executivo, cargo que corresponde ao atual de prefeito. Daí, em todas estas notícias antigas, os pedidos de providências e as referências a autorizações, sempre partem da Câmara. Somente com o Estado Novo de Getúlio Vargas se estabelece o regime de prefeituras, separando o executivo do legislativo.
[8] - Notar que este fato ocorre no período coincidente com o da 1ª Guerra Mundial.
[9] - Ainda hoje a região do Olho d’Água, no Ribeirão São Francisco Xavier, em área do Parque Ecológico Municipal da Serra do Lenheiro, é fornecedora de água para abastecimento público.
[10] - Este Sr. Antônio Balbino de Sousa, foi Imperador da Festa do Divino no ano de 1923, salvo caso de engano por se tratar de um homônimo. A este respeito veja a postagem: AS FESTAS DE 1923. Estação de Caburu: ficava no distrito são-joanense de São Gonçalo do Amarante, ex Caburu. Esta notícia é intrigante pela data (1926), porque consta que a estação deste distrito só foi inaugurada quatro anos depois, em 1930 (A Tribuna, n.1.012, 16/02/1930), com o nome de Mestre Ventura. Seria a mesma plataforma férrea? Antigos moradores de São Gonçalo referem-se a uma primitiva parada do trem no km 123, contudo, a Estação de Mestre Ventura ficava no km 127,137. Seriam as mesmas plataformas de embarque e desembarque? Ou a inaugurada em 1926 era a parada do Km 123, depois substituída pela estação de 1930 no km 127? Para aumentar a controvérsia, o “Prontuário Geral das Estações Ferroviárias”, referenciado nesta postagem, dá para a Estação de Mestre Ventura a data de 07/09/1931... Seria ainda uma remodelação daquela de 1930? Eis um campo aberto a pesquisas de confirmação. A estação foi demolida após a erradicação dos trilhos e dela só restam vestígios das pedras da plataforma e a caixa d’água.
[11] - Nazareno emancipou-se de São João del-Rei em 1953. A escola da colônia não existe a muito tempo e está arruinada.  
[12] - A Capela de Santo Antônio, do Albergue Santo Antônio, nos limites entre a Rua Frei Cândido e Praça Dom Silvério, no Bairro das Fábricas, data de 1912.
[13] - Outra notícia da Festa de São Geraldo promovida por alfaiates surge no jornal A Tribuna, n.692, de 25/10/1925, que diz que o santo é “protetor da laboriosa classe”. Daria motivo para um oportuno estudo a hipótese da construção da capela deste santo no alto do morro que ganhou seu nome, ter sido ou não sob a influência ou iniciativa dos alfaiates, haja vista estar nos limites do Bairro das Fábricas, onde se situavam várias fábricas de tecidos, estabelecidas a partir do final do século XIX. Afirmou Augusto Viegas que a Capela de São Geraldo foi “erigida em 1914, graças principalmente aos esforços de Lúcio Justino de Andrade, modesto operário” (p.262). Qual a real importância que o estabelecimento das tecelagens teve na urbanização daquela área da cidade?

domingo, 8 de novembro de 2015

Cidade das Pontes

São João del-Rei goza de características específicas perante as demais cidades da região, razão pela qual recebeu cognomes tais como São João dos Queijos (devido à alta produção de queijos excelentes), Terra da Música, Cidade onde os Sinos Falam, A Mais Barroca Cidade de Minas, etc. A urbe se desenvolveu num vale entre serras e as condições geográficas impuseram córregos ao seu centro, vertendo das encostas dos morros. As casas se formaram em ambas as margens que se fizeram interligar por meio de inúmeras pontes. Diante do fato supra, bem caberia outra alcunha, respeitosa, claro: "Cidade das Pontes".

No século XIX, o militar português Cunha Matos em seu estudo sobre Minas Gerais, relatou:

"Há poucas pontes de pedra lavrada e algumas de madeira são cobertas de telha. As pontes mais notáveis são: a do Rio Grande, perto da Vila de São João del-Rei; (...) As pontes de pedra da Vila de São João del-Rei são as melhores da Província." (MATOS, 1981, p.44).

As pontes começam a surgir no sopé da Serra do Lenheiro, no final do Bairro Tijuco, região que outrora era conhecida por Betume, por causa do barro preto untuoso ali abundante. É o atual Residencial Lenheiro. Segue o Córrego do Lenheiro transposto por muitas pontes à medida que adentra mais pela cidade. Algumas são humildes como a que liga o Residencial Lenheiro e o Barro Preto, outras suntuosas como as de pedra; ou charmosa, afrancesada, como a do Teatro; de ferro como a da Biquinha, a dos Suspiros e a da Estação; velhas obras de alvenaria como a Benedito Valadares, inaugurada no centenário de elevação à cidade (1938), até hoje importantíssima no trânsito da cidade. 

Outras pontes ficaram na lembrança, como a que havia possivelmente na Rua Direita (imediações do Museu de Arte Sacra) sobre o ínfimo Córrego da Muxinga, datada de 1745; a que aparece na citação de SOBRINHO (2010) de um recibo da Câmara Municipal de 1719 (recibo 168, pg.17): "Por quatorze oitavas de ouro que deu a Manoel Ferreira do conserto que fez na Ponte do Aterrado que vai para a Igreja Matriz por ordem de que se lhe passou mandado em 29 de dezembro de 1719" (p.35) - Igreja Matriz que a esse tempo ficava no Morro do Bonfim; ou a ponte na antiga "Rua da Misericórdia", sobre o Córrego do Segredo, a conhecida Ponte da Misericórdia, da qual sem qualquer misericórdia, foi feito drástico aterramento, substituída por sistema de galerias. A Ponte da Misericórdia era de pedra, como as da Cadeia e do Rosário, porém de um só arco. Foi construída em 1798 pelo Mestre-canteiro Aniceto de Sousa Lopes (CINTRA, 1982).

Mais que isto, além do fluxo mais central, do Lenheiro, mais pontes se multiplicam pelo Rio Acima, entremeio o Guarda-mor e a Vila Maria; no Bairro de Matosinhos, existem várias, ao longo do Ribeirão da Água Limpa, já abordadas em postagem intitulada "Pontes de Matosinhos"; e tantas, tantas outras pela zona rural, algumas ainda em estrutura de tabuado de madeira.

Não seria má ideia um estudo multidisciplinar de envergadura sobre essas pontes todas, mapeando-as e marcando-as por georreferenciamento; estudo histórico, fotografias em ângulos variados, qualificação estilística, tecnicamente relato do estado de conservação que seria importante base de referência para a administração municipal planejar manutenção, e, quiçá, visionariamente, até as roteirizando como atrativo turístico: "Roteiro das Pontes"... Por que não?!

Doravante segue em rápidos tópicos algumas de nossas pontes, novas e antigas, com indicativo ao término de cada item, o nome do jornal de onde a notícia foi extraída. Em geral as notícias confluem para problemas de manutenção destas benfeitorias públicas. Não há qualquer outra intenção neste post além de juntar numa só cesta as frutas dispersas em muitos galhos. É apenas um amontoado de informação que poderá, talvez, um dia, contribuir para quem queira aprofundar no assunto.

1- Córrego do Lenheiro com vista parcial em sequência das pontes da Cadeia,
do Teatro e Benedito Valadares, em São João del-Rei.
 

- Em 1877 foram feitos reparos na Ponte do Porto e a fonte jornalística clamava que outras pontes do município, sobre o mesmo rio, necessitavam de consertos urgentes. (Arauto de Minas, n.1, 08/03/1877). 

- A ata da sessão 38 da Câmara de Vereadores, de 12/03/1887, consta, segundo Sobrinho (2010), a leitura de um "ofício assinado pelo Sr. Teófilo Reis e Joaquim Ramalhão declarando terem, com o auxílio de vários cidadãos, construído um pontilhão tosco de madeira em frente à Estação da Oeste e sobre o ribeirão que atravessa esta cidade a bem do interesse público e comercial" (p.140). Outra notícia da Ponte da Estação no século XIX é uma subscrição visando reconstruí-la, datada de dezembro de 1888 (A Verdade Política, n.14, 21/12/1888). [1]

- Conserto da Ponte do São Caetano (Bairro Tijuco), com substituição de dois pés direitos e uma tesoura; diversos consertos na Ponte do Pedro Alves (sobre o Córrego das Águas Férreas, entre a Gameleira e as Águas Gerais, no Bairro Tijuco); substituição das guardas e de todo o assoalho da Ponte da Água Limpa (em Matosinhos), ao valor de 1: 854$710. (São João d’El-Rey, nº3, 22/02/1899).

- A Ponte da Estação, ou como também era dita, Ponte da EFOM, foi construída sobre o Córrego do Lenheiro, com trilhos e estabelecida acima das máximas enchentes, permitindo franca passagem. Foi originalmente assoalhada com pranchões, até a largura de 2 metros e o comprimento de 35 metros. (S.João d’El-Rey, nº3, 22/02/1899).

- Resolução nº 148, de 22/04/1899, autoriza reparos na estrada da Colônia do Marçal entre a Ponte Pequena e o lote nº 147. (S.João d’El-Rey, nº17, 13/05/1899).

- Reconstrução da ponte sobre o Ribeirão Santo Antônio, na Fazenda do Ribeirão entre Lage e a Estação de Santa Rita, na Oeste de Minas. A obra foi posta em hasta pública, orçada em 2:801$594. (O Combate, n.13, 26/09/1900).

- A imprensa denunciava que a Ponte do Carandaí estava caída a 3 ou 4 anos e já matara um colono italiano. O texto jornalístico noticiava o abandono das pontes da cidade, que só seriam, vistas às vésperas eleitorais e "então ficará tudo como antes e como está a Ponte de Santa Rita, a de Mattosinhos e todas as outras publicas, bem como as ruas da cidade." (O Resistente, nº351, 1-3/11/1900). [2]

- Notícias indicam a reconstrução da ponte rural diante da Estação Ferroviária do Rio das Mortes (depois Estação João Pinheiro e finalmente, Congo Fino), ora no município de Conceição da Barra de Minas, mas a esse tempo pertencente a São João del-Rei (O Combate, n.90, 20/08/1901). Foi construída graças aos esforços do Vereador Tenente Euzébio de Resende. O construtor foi o Major Carneiro Felipe (O Combate, n.95, 31/08/1901). [3]

- Referência a um gasto de quinhentos mil réis como auxílio para a construção da Ponte do Carandaí, segundo registro numa ata de 28/09/1901. (O Combate, n.159, 19/03/1902).

- Inauguração da ponte sobre o Rio das Mortes no dia 28/10/1900 no distrito de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno. Houve missa e bênção pelo Padre Neves Parreira. Dentre os discursos, destacou-se o Dr. Leite de Castro, agente executivo municipal (equivalente ao atual prefeito), que entregou oficialmente a obra de forma simbólica ao sr. Olympio Moreira de Carvalho, presidente do conselho distrital. “A banda de musica do arraial que em alegres toques abrilhantou a festa _ tocou o hymno nacional, ouvido de pé, e todos de chapéo na mão.” (O Combate, n.21, 31/10/1900).

- Resolução nº318, da Câmara Municipal, de 25/02/1905, autoriza consertos nas pontes de Matosinhos e Porto, além de aterro no cemitério público (Quicumbi). (O Repórter, n.25, 02/07/1905).

- O problema da falta de cuidado com as pontes vinha de muitos anos. Então, o sarcástico jornal são-joanense, “The Smart”, assim manifestou com verve na edição nº8, em 1909: “Segundo as últimas observações astronômicas, calcula-se que os candelabros da ponte Roque Balbi serão inaugurados no anno de 3963, ao meio dia.” Já na sua décima edição, no mesmo ano de 1909 ironizava a situação de várias pontes: “Ponte da Estação _ Eu sou os escombros de Sicilia e Messina; aqueles postes são as pirâmides sobreviventes. Idem da Cadeia _ Eu sou o patíbulo: este candelabro é o signal da forca. Amen. Idem do Rosario _ Eu sou procurada só de noite e sirvo de capa ... Coro (em tom de terço) _ Nós todas somos um ninho de pulgas... Illuminae-nos... Evitae-nos...” (The Smart, n.8, 01/01/1909; The Smart, n.10, 17/01/1909).

- Lei municipal nº214, de 05/06/1909, autoriza mudança da ponte de frente da estação ferroviária para a Rua Cristóvão Colombo. (A Opinião, n.2, 14/07/1909). Existiu naquele local, interligando-a à Praça Pedro Paulo, uma passarela de ferro, que se alinhava à Rua Aureliano Pimentel. A mesma foi profundamente danificada pela grande enchente de 1982 e passou por reparos. Outras enxurradas também deixaram seus danos e vieram reparos até que foi interditada e mais tarde removida. Por uns tempos foi improvisada um "pinguela", assim chamada a passarela provisória em madeira. Depois foi também retirada e o local ficou um tempo sem estrutura de travessia. A ponte atual veio na década de 1990.

- Operários da Ferrovia Oeste de Minas socorrem a ponte de madeira que interligava a Rua Antônio Rocha ao trecho médio da Paulo Freitas. A fortíssima enchente de 1917, que causou grandes danos na cidade, também a atingiu; mas, no dia seguinte, os referidos operários já promoveram os reparos. (O Zuavo, n.99, 21/01/1917). Esta ponte não existe nos dias atuais. Ficava entre as atuais ruas Ignácio Zózimo de Castro (Praça Raul Soares/Rua Antônio Rocha) e Padre Tortorielo (Praça Afonso Dalle/Avenida Leite de Castro/Rua Antônio Rocha).

- Em 1932 um hebdomadário exibia em suas páginas o seguinte apelo: “A ponte fronteira a estação está exigindo novo tablado, principalmente em alguns trechos, onde aquilo mais parece armadilha de onça. Sendo aquela uma passagem só de pedestres, transito obrigatório de muitas creanças era o caso do concerto não se fazer esperar, pois a falada e (trecho ilegível) da ponte da Rua Maria Tereza parece que vai demorar mais uns dias...” (Folha Nova, n.10, 08/05/1932).

- Acerca do mau estado de conservação da Ponte da Estação clamava-se para a necessidade de reforma urgente. (O Diário do Comércio, n.1276, 02/06/1942).

- A Ponte do Teatro foi alvejada por críticas por parte da imprensa em razão de reparos inconclusos aos quais foi submetida. (Diário do Comércio, n.2144, 03/05/1945).

- O tráfego de veículos sobre a Ponte do Teatro se dava de um por vez, devido à sua pequena largura. O fechamento dessa ponte ao tráfego de veículos automotores gerou muita polêmica (Tribuna Sanjoanense, n.189, 02/09/1977; O Sabiá, n.7, set./1977).

- Foi inaugurada em 1985 a Ponte Padre Tortoriello, durante a administração municipal do Dr. Cid Valério. Interliga a Rua Antônio Rocha (Centro) à Avenida Leite de Castro (Bairro das Fábricas), no lugar exato onde situava-se o pontilhão da via férrea da Estrada de Ferro Oeste de Minas da chamada "Linha do Sertão". Ficou conhecida por "Ponte do Zé Abrão".  (O Raio, n.399, 21/09/1985).

- Em abril de 1990 é inaugurada a Ponte Ignácio Zózimo de Castro, nome que homenageava um comerciante que tinha uma mercearia na Rua Paulo Freitas/Praça Raul Soares. Esta ponte substituiu outra que havia no mesmo lugar, menos robusta e que havia sido sucessivamente danificada por enchentes, sobretudos por trombas d'água da década anterior: o famoso e medonho temporal de 1982 causou-lhe profundos danos. Apesar dos reparos não foi mais a mesma... Chegou a estar um tempo interditada ao tráfego. A gestão municipal que veio após a inauguração, alargou a sua pista de rolamento.

- A calçada da Ponte da Cadeia é alargada através da remoção de uma faixa de pavimentação de paralelepípedos para extensão dos passeios em 40 cm de ambos os lados. Com isto ganhou-se segurança para os pedestres e a pista de rolamento tendo ficado mais estreita, impossibilitou o trânsito de veículos de grande porte, protegendo este patrimônio da cidade. Apesar da lei municipal nº2.487, de 1989 proibir o trânsito de veículos pesados no centro histórico, o desrespeito por parte dos motoristas e a fiscalização insuficiente  levaram a esta medida (Gazeta de São João del-Rei, n.263, 30/08/2003). Contudo, na Ponte do Rosário, a medida de alargamento das calçadas com o mesmo intuito só viria uma década depois, em julho de 2013.

- Servidores da Secretaria de Obras trabalharam para fazer reparos na cabeceira da Ponte da Rodoviária, que cedeu em 17/01/2005. A fotografia estampada na fonte jornalística mostra os trabalhadores batendo estacas, mas as obras previam também aplicação de concreto armado, aterro, "abertura de passagens de água e reforma nos passeios." (Gazeta de São João del-Rei, n.334, 22/01/2005).

- Um homem que passou mal caiu de uma ponte na entrada do Bairro Tijuco, ao tentar escorar numa das suas muretas, já que a mesma estava quebrada (ausente em parte) e veio a falecer. A reportagem revelou o estado crítico de algumas pontes da cidade. O fato se deu na Ponte Chafy Moyses Hallak. (Gazeta de São João del-Rei, n.560, 23/05/2009). [4]

- Depois de longo processo judicial, guardas de balaustre de cimento da Ponte Sírio-libanês foram trocadas por guardas de canos de ferro em janeiro e fevereiro de 2010, mais adequadas ao entorno de bem tombado que é o patrimônio da EFOM. A ponte foi inaugurada em 1996, estabelecida diante da estação ferroviária e ficou conhecida por "Ponte de Mão Inglesa", por ser a única da cidade com mão de direção invertida (Folha das Vertentes, 144, fev./2010).

- A Ponte do Athletic, entre a Praça Pedro Paulo e Rua General Aristides Prado teve o tráfego interrompido por vários dias em razão do afundamento de parte da cabeceira em janeiro de 2014. Foi devolvida à normalidade em 07/02/2014.


2- Queda da ponte de madeira sobre o Córrego do Limpa-goela, na Colônia do José Teodoro,
que dá acesso à centenária Capela do Sagrado Coração de Jesus, após as fortes chuvas de fevereiro de 2004.


3- Ponte diante da praça, na intercessão das avenidas Nossa Senhora do Pilar
e Andrade Reis, aparente durante o afundamento da galeria após temporais, em fevereiro de 2004. Discussões

sobre o fato indicam, contudo, que a verdadeira Ponte da Misericórdia está aterrada imediatamente a jusante,
no cruzamento das vias. Esta seria uma ponte interna  do Colégio Nossa Senhora das Dores, que o interligaria ao
seu então anexo próximo à Igreja de São Gonçalo. A área era fechada mas foi aberta com a construção da Avenida
Nossa Senhora do Pilar, na área do Segredo (Centro). 

Referências Hemerográficas

Coleção de jornais antigos de São João del-Rei, acervo da Biblioteca Pública Municipal Baptista Caetano d'Almeida.

Referências Bibliográficas

CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. 2.ed. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1982. 2v.

SOBRINHO, Antônio Gaio. São João del-Rei através de documentos. São João del-Rei: UFSJ, 2010. 260p.

MATOS, Raimundo José da Cunha. Corografia Histórica da Província de Minas Gerais (1837). Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: USP, 1981. v.2, 337p.  

Créditos

- Texto, pesquisa, acervo e fotografias 2 e 3: Ulisses Passarelli.
- Fotografia 1: Iago C.S. Passarelli, 24/09/2014. 

Notas 

[1] Devido a um temporal ruíram 50 metros do cais em construção, abaixo da Ponte da Estação, com a chuva noturna de 13 de dezembro de 1907 (A Opinião, n.47, 14/12/1907).
[2] A Ponte Vitório Tarôco sobre o Rio Carandaí, na Colônia do Giarola, liga este bairro às colônias do Felizardo e Recondengo (ainda em São João del-Rei) e ao povoado do Barreiro (município de Coronel Xavier Chaves), sitos do outro lado do mesmo rio. A que atualmente se encontra instalada foi inaugurada em abril de 1995, pelo Prefeito Nivaldo José de Andrade, em substituição à anterior, que era de madeira e estava muito precária. Na verdade muito antiga. A Ponte de Santa Rita citada no texto jornalístico é a ponte sobre o Rio das Mortes no povoado de Ibitutinga, no acesso ao então distrito de Santa Rita do Rio Abaixo, hoje município de Ritápolis. Situa-se ao longo da Rodovia Federal BR-494.
[3] Para saber mais sobre a construção desta ponte leia também a postagem RETALHOS PARA A COLCHA DA HISTÓRIA. 
[4] A Ponte Chafy Moyses Hallak é uma das três que leva popularmente o cognome de "Ponte da Biquinha". Ela se situa sobre o Rio Acima (nos tempos coloniais conhecido como Córrego das Barreiras) e acessa a Praça da Biquinha à Avenida Eduardo Magalhães. A outra, é uma pequena ponte de ferro rebitado, piso cimentado, tendo uma cruz de ferro trabalhado, suspensa em cada cabeceira, sendo que a do lado do Tijuco se encontra desaparecida. Situa-se entre a Praça e a Rua Rossino Baccarini; e, finalmente a terceira, está imediatamente à montante desta e tem o nome oficial de Ponte Braz Camarano Primo, datada de 1994, obra criticada por causa de sua altura mínima. Contudo, informações dão conta de uma ponte inaugurada em 1968 com o nome de "Padre José de Anchieta", durante a administração Milton Viegas, que interligou a Rua Padre José Maria Xavier à Praça Fausto Mourão. Seria esta uma ponte anterior à Chafy Moyses Hallak ou apenas seu nome anterior? Ou seria a pequena passarela de ferro sita a montante no Rio Acima? O assunto exige pesquisa nos arquivos municipais e antigos jornais são-joanenses.

- Revisão: 09/07/2025. 

sábado, 20 de junho de 2015

Retalhos para a colcha da história - parte 1

Coletânea de notas hemerográficas de São João del-Rei e cercanias (1900-1939)

(ofereço com gratidão a Francisco José de Rezende Frazão)


Diz uma velha máxima que a história se constrói sobre documentos. É bem verdade e assim vão sendo pesquisados editais, testamentos, ordens, ofícios, declarações, procurações, recibos, processos, etc. Mas a despeito da incontestável importância da história assim edificada, muitas vezes outros aspectos ficam para trás.

O presente texto almeja apenas contribuir com referências esparsas para futuros estudos maiores. Uma mera citação abaixo transcrita pode ser o gatilho que dispara uma pesquisa específica sobre um dado tema. A história não oficial e aspectos de cultura geral podem estimular o leitor pelo interesse à pesquisa. Foram perscrutados antigos jornais publicados em São João del-Rei, disponíveis para consulta pública no site da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d’Almeida, a cujo acervo pertencem.

Sem menosprezar a metodologia acadêmica, mas à guisa de complemento, a pesquisa pelo viés aqui proposto mostra uma informação mais aproximada do povo ou refletindo diretamente seus elementos culturais e é neste sentido que tem um interesse especial para os objetivos deste blog, enquanto parte do processo de reunião de elementos que contribuam na identificação das características regionais.

As notícias foram colhidas despretensiosamente, quando se fazia outras pesquisas temáticas específicas. Então, em si, não guardam qualquer vínculo umas com as outras. É tão somente uma colheita e exposição em ordem de data para facilitar a consulta, merecendo alguns comentários de rodapé. A maioria das notícias foi transcrita na íntegra, respeitando a grafia original. Ao fim de cada tópico existe a indicação imediata da referência ao jornal pesquisado, número e data da edição.

Desta forma sucedem-se notícias de festas, circo, teatro, cinema, personalidades, obras públicas, carnaval, leis e resoluções, denúncias, reclames comerciais, etc. Estes fragmentos, qual uma colcha de retalhos, embora de cores e texturas diferentes, compõe no todo uma peça que ajuda a traçar o cenário da vida da sociedade naquela época (1900-1939). Revelam aspectos propriamente históricos e outros até pitorescos aos olhos de hoje, mas que ao seu tempo foram importantes na construção da identidade do são-joanense, da sua mineiridade e igualmente de algumas comunidades vizinhas citadas por estarem em condição distrital ou sob influência cultural imediata.

Sem mais delongas eis o novo conjunto de notícias, na mesma linha e objetivo do que já fizemos parcialmente para os distritos (*).

Fortim dos Emboabas. Alto das Mercês, São João del-Rei/MG. 

1900:
- “Festa do Carmo. Terminaram, no dia 16, as festas do Carmo desta cidade. Nesse dia houve missa solemne, as 11 horas da manha. A tarde teve logar a procissão de N.S. do Carmo, que percorreu diversas ruas da cidade, acompanhadas pelas bandas de musica do 28º Batalhão e Lyra S.Joannense[1]. A entrada da procissão pregou o Revmo.Pe.Gustavo Ernesto Coelho, digno commissario da Ordem. Em todas as solemnidades houve sempre a maior concurrencia de fieis, reinando a maior ordem.” (O Combate, n.2, 18/07/1900)

- “7 de setembro, a data da nossa emancipação politica, foi aqui festejada com festiva alvorada ao amanhecer, pela esplendida banda do 28 Batalhão, com um TE DEUM na Matriz, abrilhantado com a orchestra Ribeiro Bastos, com embandeiramento em varios edifícios públicos e particulares durante o dia e finalmente com iluminação de varios edifícios públicos e particulares á noite.” (O Combate, n.11, 12/09/1900)

- “Circo Chileno. Com animadora concurrencia e agradando cada vez mais, continua n’esta cidade a dar excelentes espectaculos a Companhia Chilena, que conta no seu elenco artistas de mérito incontestável e que nas suas sortes tem sido irreprehensiveis. A musica nesses ultimos espectaculos tem agradado bastante, tudo enfim está concorrendo para o bom renome da Companhia Chilena, por cuja prosperidade fazemos votos.” (O Combate, n.11, 12/09/1900)

- A Confraria de São Gonçalo Garcia lança na imprensa um pedido de ajuda financeira e aos confrades o pagamento de anuidades atrasadas, visando arregimentar fundos, pois a igreja “vai entrar em importantes obras”[2]. (O Combate, n.13, 26/09/1900)

- “12 de outubro. Com as notas festivas do costume passou ante-hontem a data nacional da comemoração da descoberta da America. Os estabelecimentos tiveram içadas as bandeiras da nação, e a banda do 28º Batalhão ao amanhecer e a tarde abrilhantou as festas.” (O Combate, n.16, 14/10/1900)

1901:
- No evento em homenagem ao Alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, em São João del-Rei, no ano de 1901, a imprensa ressaltou a destacada presença do Sr. Major José Moreira Carneiro Fellipe[3], Presidente da Associação Beneficente Portugueza e do Sr. Dr. Francisco de Paula Moreira Mourão, Presidente da Companhia Agricola e Industrial Oeste de Minas. (O Combate, n.59, 27/04/1901)

- “Theatro de fantoches. Como estava annunciado, realizou-se sabado ultimo, mais um explendido espectaculo, pela interessante companhia de Fantoches, com a chistosa comedia – os dois surdos e o entre-acto Mulher nervosa, que foram habilmente ensaiadas pelo sympatico Camargo. Domingo repetiu-se o mesmo espectaculo e tal foi a concurrencia, neste dia, que muitas famílias que ali foram tiveram de voltar por já se achar completa a lotação do Theatrinho. O publico que ali esteve aplaudiu enthusiasmado o bom desempenho das peças tendo sido chamados a scena o ensaiador Camargo, o sempre querido Lulú e os mechanicos irmãos Panain, V.Guerra e os dois irmãos Humberto e José. A orchestra Ribeiro Bastos muito concorreu para o brilhantismo das funcções. Felicitamos ao empresario de tão interessante companhia, o nosso particular amigo Juca Pimentel pela merecida acceitação que tem tido a sua feliz ideia.” (O Combate, n.76, 03/07/1901)

- “Asylo de S. Francisco[4]. Neste importantissimo estabelecimento, dirigido pelo virtuoso e desinteressando sacerdote Padre João Baptita do Sacramento, acha-se estabelecida e funccionando uma grande fabrica de sabão e sabonetes, que pode abastecer a toda esta zona. O gênero é de primeira qualidade, podendo rivalizar com os melhores vindos do estrangeiro.” (Etc.) (O Combate, n.79, 13/07/1901)

- A lei n.83, de 29/01/1901 prorrogou por um ano o prazo de concessão da exploração de manganês, mica e areias, em São João del-Rei, concedido a Geraldo Rodrigues da Fonseca, para fazer a instalação definitiva. Não há citação ao local exato da atividade. (O Combate, n.87, 13/08/1901)

- A lei n.86, de 29/04/1901 ratificou o contrato da luz elétrica firmado entre o agente executivo municipal e o cidadão Dr. Francisco de Assis Fonseca, em, 23 de fevereiro do mesmo ano. (O Combate, n.87, 13/08/1901)

- A resolução s/nº, de 23/06/1901 dispensou pagamento de licença para realização de um espetáculo equestre realizado a 02 de abril daquele ano em benefício da Igreja do Rosário. (O Combate, n.87, 13/08/1901)

- A resolução n.259, de 29/04/1901 autorizou despesas no conserto da ponte em frente à estação do Rio das Mortes. (O Combate, n.87, 13/08/1901). A edição seguinte do mesmo jornal, datada de 15 de agosto, fala em reconstrução da dita ponte. O valor orçado era de 6:498$100. A obra foi arrematada pelo Major Carneiro Felippe[5], único concorrente. A provocação da necessidade de construir uma nova "ponte do Rio das Mortes, chamada do Congo Fino", partiu do Vereador Tenente Euzébio de Rezende, representante distrital de Conceição da Barra. (O Combate, n.95, 31/08/1901). Alguns meses depois a imprensa noticia sobre o andamento da obra: "está sendo realizada por arrematação do Major Carneiro Fellipe, cujas habilitações, como diretor da construção, é uma garantia de perfeição e segurança da obra". (O Combate, n.119, 02/11/1901). A bênção e inauguração da Ponte do Congo Fino, na Estação do Rio das Mortes, a 49km ferroviários da cidade de São João del-Rei, se deu no dia 25 de novembro de 1901. Pelas 8 horas partiu um trem especial, com um vagão de primeira conduzindo as autoridades. Foram recebidos pela banda do arraial e por descargas de fogos de artifício. A ponte estava enfeitada. A bênção foi dada pelo Padre João Trindade. Dr. Leite de Castro, Presidente da Câmara e Agente Executivo Municipal (cargo equivalente ao de Prefeito) entregou simbolicamente a ponte aos cuidados do conselho distrital, ante vivas da assistência. (O Combate, n.128, 30/11/1901).  A qualidade dessa ponte foi testada pouco depois pela força da natureza: três semanas depois, ela resistiu fortemente a enchentes imensas, ficando submersa por três dias, sem sofrer danos. (O Combate, n.133, 18/12/1901)

- No dia 17 de setembro de 1901, o operário José dos Santos, da Ferrovia Oeste de Minas, teve a mão direita esmigalhada na plaina a vapor nas oficinas ferroviárias, resultando em amputação. (O Combate, n.103, 19/09/1901)

- “Botequim do Theatro. Segundo deliberação da Câmara, em sua última sessão, vae ser posto em hasta publica o arrendamento annuo do Botequim do Theatro. A base do preço é de seis mil réis (6$000) por dia ou parte do espetaculo, sem mais pagamento algum." (O Combate, n.121, 07/11/1901)

- “Rio das Mortes. Realisa-se a 24 do corrente mez no districto do Rio das Mortes, arrojada festa de Santa Cecilia. Segundo nos informaram há muitas confissões e communhões n’esse dia. Damos a agradavel nova que tanto deve alegrar aquelles que se satisfazem com os progressos e diarias conquistas da Religião, a que pertencemos.” (O Combate, n.123, 12/11/1901)

- “Bento Luiz Frazão[6]. Após longos e dolorosos padecimentos, faleceu n’esta cidade o estimado cavalheiro  snr. Bento Luiz Frazão, homem muito bem quisto n’esta cidade, onde, ao que consta, não tinha uma única antypathia  siquer. Portuguez de nascimento, brasileiro de coração, sanjoanense pela família, o snr. Bento Luiz Frazão, veio a esta cidade, a anos, aqui casou-se e aqui tinha a rêde de todas as suas relações. A sua morte foi geralmente sentida e as provas disso teve-as ele durante a sua molestia e por occasião de seu fallecimento. O O Combate, que sempre considerou o sr. Frazão um homem trabalhador, honesto e de bem, cumpridor exacto de seus deveres. O Combate lamentando essa morte que vem roubar-nos um pae de família exemplar e um cidadão distinctissimo, pranteando a falta que nos vae fazer e a família e aos amigos, envia sentidos pezames a sua digna e virtuosa esposa e aos seus desolados filhos.” (O Combate, n.123, 12/11/1901)

- A Câmara Municipal lança edital para serviços, pondo em hasta pública o serviço de limpeza urbana, "e para o transporte de carnes verdes, devendo as carroças de lixo trazer tampa de madeira ou de zinco." (O Combate, n.132, 14/12/1901)

- Morre na Santa Casa de São João del-Rei o sr. João Pinto Alves, "o Coronel", tipo popular, "crioulo honrado e digno de confiança", sineiro de São Francisco. "Era muito estimado e todos tinham-lhe dó pelas maneiras afáveis. Julgava-se rico embora morasse no telheiro da Igreja de São Francisco. A morte de João Pinto abre um claro na phalange dos typos de rua." (O Combate, n.134, 21/12/1901)

1902:
- O carnaval de 1902 correu desanimado. No coreto da esquina da Rua Direita, armado no meio da rua, tocou a banda militar do 28º Batalhão durante três dias. Foi feito um passeio para o desfile dos mascarados, pouco numerosos naquele ano. No Club Sanjoannense o baile à fantasia esteve ótimo, tocando a Orquestra Ribeiro Bastos. (O Combate, n.149, 12/02/1902).

- "Em Carrancas, districto da cidade de Lavras, preparam-se grandes festas em Junho e para ellas estão se apromptando os populares divertimentos das Cavalhadas[7]. Ha grande animação para taes festas." (O Combate, n.160, 22/03/1902, nota sem título)

- “Festa de Ramos. Com a pompa de sempre, realisou-se no Domingo, o officio de Ramos e a noite teve logar a Procissão do Triumpho que fez o gyro costumado entrando na Matriz, de onde havia sahido." (O Combate, n.161, 26/03/1902)

1905:
- Resolução nº317, 25/02/1905, assinada pelo Diretor da Câmara Dr. João Salustiano Moreira Mourão[8], autoriza o agente executivo municipal despender a despesa necessária para concerto, melhoramento ou remoção do atual matadouro municipal com os valores colhidos do imposto de sangue. (O Repórter, n.12, 09/04/1905)

1906:
- Nos jardins do Largo de São Francisco a Câmara manda instalar na praça duas lâmpadas de arco voltaico, melhoramento deveras aplaudido. (O Repórter, n.6, 11/03/1906)

- Aniversário. “Hoje, é o Sr. Coronel José Moreira Carneiro Felippe, illustre capitalista e provedor do Asylo de São Francisco de Assis, desta cidade. Portuguez de nascimento, mas s.joannense de coração, porque aqui reside elle a longos annos; aqui constituiu família, e aqui trabalha, com esforço sempre, pelo desenvolvimento de nossa cidade, empregando seus capitaes, muita vez, sem outro fim, que não seja contribuir para o progresso e o adiantamento desta terra. Gosa o sr. Carneiro Felippe, entre nós, de muita estima, e, certamente, hoje terá mais um ensejo de testemunhar o que acabamos de referir. Ao sr. Coronel Carneiro Felippe e demais aniversariantes as nossas felicitações.” (O Repórter, n.14, 13/05/1906)

- “Cinematographo fallante. Tivemos a visita do sr. Antonio de Souza Machado, que pretende dar uma serie de sessões de cinematographo falante. Possuindo machinismo os mais aperfeiçoados e modernos, no gênero, acreditamos que deverão ser bem concorridas as suas sessões, dado o bom gosto do publico s.joannense, que sabe auxiliar sempre os artistas de mérito.” (O Repórter, n.25, 29/07/1906).

- “Club Dramatico Familiar. Deve ser no dia 12 a partida deste excellente club, que constará de uma excellente comedia de costumes Lisbonenses, de um entreato especialmente escripto para esta partida, pelo sr. coronel Severiano de Rezende e escolhidos intermedios pelos amadores e amadoras.” (O Repórter, n.25, 29/07/1906).

- “Theatro Infantil 15 de Novembro. A directoria deste club teve a gentileza de nos convidar para assistir a representação, dedicada ao Club Dramatico Familiar e que se effectua hoje, as 9 horas da noite, no prédio n.16, á rua de S.Antonio. Vem o convite assignado pelos intelligentes meninos Antonio Guerra, Marcondes Neves e Altamiro Neves. Agradecemos o convite.” (O Repórter, n.25, 29/07/1906).

1907:
- O carnaval de 1907 reuniu grande multidão de mascarados na esquina da Rua Arthur Bernardes (ex- Moreira César) e Getúlio Vargas (ex- Duque de Caxias e primitiva Rua Direita), onde um coreto foi armado e nele se alternaram as bandas de música do Asilo de São Francisco e a da Oeste de Minas, que "estiveram esplendidas, executando bonitos e festivos dobrados, saltitantes polkas, ternas valsas e magnificos tangos." Não desfilou o famoso Clube X, aliás, nem no ano anterior, embora prometido para o ano seguinte; os "Dominós Fúnebres" fizeram um desfile de destaque. "O tiroteio de confetti, bisnagas e lança perfumes esteve fortissimo, entretanto, tudo na melhor ordem." (O Repórter, n.3, 17/02/1907)

- “Cooperação Operaria Oeste de Minas. No mez passado foi organizada, nesta cidade, uma associação de auxílios mútuos da classe operaria, com a denominação acima, cujos principais fins são: promover a união dos operários, defender legalmente os direitos da classe, criar escolas e bibliotecas, fundar cooperativas, etc. A sua directoria é a seguinte: Presidente, Manuel da Cunha Lima; Vice-presidente, João Francisco A. Ferber; 1º Secretario, Augusto Marques dos Santos; 2º Secretario, Gregorio Barcellos; Thesoureiro, Osvaldo Sichert; Procurador, Raphael T. da Costa Moreira.” (O Repórter, n.3, 17/02/1907)

- “13 de maio. Corre, amanhã, mais um aniversario da Lei aurea, que extiguiu a escravidão no Brasil. Segundo disposição municipal, de 19 de Setembro de 1906, o commercio deve, ao meio dia, cerrar suas portas, em comemoração ao grande acontecimento.” (O Repórter, n.14, 12/05/1907).

- “No dia 13 do passado mez de maio, no visinho arraial do Rio das Mortes, por iniciativa do liberto Antonio Francisco Tavares, foi festejada de maneira condigna a gloriosa data nacional da libertação dos captivos. Houve missa em acção de graças pelo auspicioso anniversario e por intensão de Izabel, a Redemptora, Terço e Te-Deum, não tendo sido esquecido o velho monarca, que teve requiem por seu descanso eterno. Não é tarde para darmos noticia deste facto que tanto ennobrece os sentimentos dos libertos do Rio das Mortes. Convem salientar que desde muitos annos, é a data ali festejada com suas mesmas festas que estamos agora noticiando.” (O Repórter, n.19, 13/06/1907)

- Lei municipal n.165, de 17/04/1907, muda o nome do tradicional Largo de São Francisco para Praça Dom Pedro II.[9] (O Repórter, n.24, 29/06/1907)

- Anúncio: “Casa de Banhos. Só fica sujo quem quer. 500 rs. um banho frio e 10 tostões um quente. A fregação corre por conta do proprietário. Das 4 da manhã ás 10 da noite. Rua Paysandú, 3. S.João d’El-Rey – Estado de Minas.” (Ten-Ten! n.5, 10/11/1907)

1908:
- “Festa finda. Effectuaram-se com deslumbrante pompa, nesta cidade, os festejos em homenagem ao martyr S.Sebastião. Foi o procurador das festas o Sr. José Trindade, que é merecedor de encômios pela boa organização e solicitude que houve nas novenas; porem, não deixando de nos tirar maldosamente os leilões já tradicionais e imensamente apreciados; por isso quanto a essa parte o José que aguente a piada leviana do Ten-Ten! para não acontecer a mesma cousa no anno vindouro.” (Ten-Ten! n.4, 25/01/1908)

- “O reverendo Padre Francisco Rocha, auxiliado por bons amigos, trata de obter meios para augmentar a Capella de Santo Antonio do Rio das Mortes mais trinta palmos. É uma ideia louvável, visto como a igreja já é pequena para acolher o numero de fieis. No dia 17 do próximo mez deve partir daqui um mestre de obras encarregado de fazer o orçamento respectivo e Deus queira que não appareçam obstáculos a generosa ideia.” (O Repórter, n.45, 03/12/1905)

1917:
- “Carneiro Felippe. Na egreja de S.Francisco realisou-se hontem ás 9 horas da manhã a missa de primeiro anniversario por alma do saudoso coronel Carneiro Felippe. Ao sumptuoso templo compareceu grande numero de amigos do finado que lhe foi mais uma vez tributar a amizade. É mais um preito de gratidão que a população sanjoannense prestou á memoria de quem tanto trabalhou para o engrandecimento desta cidade. Paz à sua alma!” (A Nota, n.11, 15/05/1917)

- “Cemiterio capinzal. Diversas pessoas que ante-hontem acompanharam um enterro ate o cemitério da Matriz não puderam reprimir um gesto de protesto ante o desleixo em que se acha aquella necrópole. O capinzal ali viceja fazendo enveja ás mais cuidadas plantações de “jaraguá”. Pedimos providencias a quem de direito.” (A Nota, n.28, 04/06/1917)

- “O Capim no cemiterio. Cremos que sera necessario appelar para o bispo, como havíamos promettido. A irmandade do S.Sacramento mandou capinar o quadro onde jazem os seus irmãos; mas o cemiterio da Matriz pertence também a três outras irmandades [10] e essas, segundo nos consta, não tomaram ainda nenhuma providencia.” (A Nota, n.70, 21/07/1917)

1925:
- “Momo ahi vem... O Club X, a symphatica agremiação carnavalesca que tantos benefícios vem prestando ás pugnas de Momo nesta cidade, fêz sair, no dia 4 deste um suculento préstito em que o veterano deu provas bem solidas, do quanto se encontra preparado para se apresentar ao publico nos dias de carnaval. Dois lindos carros allegoricos, caprichosamente confeccionados e mais dois de critica e reclame da bôa Bavaria, foram os trophéos em que o Club X, se inscreveu na lista dos que garbosamente entrarão em lucta vencedora nas pugnas do Momo este anno. O Clube X e sua digna directoria, desde já, contem com nossas palmas e parabéns. Os “Egypcianos”, o querido bloco do pavilhão preto e branco, já deu inicio aos seus ensaios, para se apresentarem este anno, no certamen da Folia. Queremos vel-o ganhar o torneio mais uma vez. Avante, pois, Egypcianos!” (A Defesa, n.2, 11/01/1925)

- Uma nota jornalística dá conta de vandalismo na Capela do Bonfim, pintada de pouco tempo e alvejada com frases obscenas escritas por indivíduos inescrupulosos em suas paredes. (A Tribuna, n.648, 21/05/1925)

1932:
- “Fonte luminosa. Já se encontra concluída a “FONTE LUMINOSA”, que a prefeitura vai colocar na Avenida Rui Barbosa. Esse novo ornamento da nossa principal via publica será montada tão logo iniciem os serviços de remodelação da nossa “beira-rio.” (Folha Nova, n.10, 08/05/1932)

1936:
- Alunos do prof. Pinheiro Campos, do Ginásio São Francisco, dentre várias comemorações realizaram "às 13 horas, grande pic-nic [11] no aprazivel local denominado Briguente". Houve também missa, baile e concerto pela Sinfônica no teatro, etc, além de uma visita à usina de eletricidade. (A Tribuna, n.1.331, 28/06/1936)

1938:
- “A demolição do antigo Mercado e a construção do edifício do Forum. A Prefeitura Municipal está construindo no local denominado “Tanque”, sob a direção de Luís Baccarini, chefe do Departamento de Obras Públicas, um amplo barracão, medindo 30 metros de comprimento por 12 de largura, para onde serão transferidos todos os serviços atualmente localizados no antigo Mercado Municipal, que está sendo demolido. No novo prédio a ser inaugurado, serão localizadas as oficinas de marcenaria, carpintaria e ferraria da Prefeitura, além de garage e deposito publico. No terreno onde se encontra o antigo Mercado Municipal, que está sendo demolido seria conveniente a construção do edifício do Forum de São João del-Rei. Os servidores da Justiça da Comarca estão presentemente mal instalados no edifício da Prefeitura Municipal, que não dispõe de acomodações bastantes para atender as necessidades de uma e de outra.” (Diário do Comércio, n.53, 07/05/1938) 

1939:
- Anúncio: “Mijadeira é uma molestia que ataca os burrinhos recem nascidos e os mata em poucos dias. O curso [12] nos bizerros é o maior flagelo dos rebanhos. Para ambas doenças usem o PO BARÃO, o mais eficaz remédio até hoje aparecido. A venda na CASA AZEVEDO. S.João del-Rei.” (Diário do Comércio, n.252, 07/01/1939)

Ponte do Teatro vista da Av.Pres.Tancredo Neves. São João del-Rei/MG.

Notas e Créditos

* Não deixe de ler também outros trabalhos semelhantes clicando nos links seguintes:
** Texto, fotografias (2013) e pesquisa: Ulisses Passarelli
*** Obs.: as fotografias que ilustram esta postagem são de caráter meramente ilustrativo do patrimônio histórico edificado de São João del-Rei com vistas à sua valorização e não guardam qualquer vínculo direto ou indireto com o conteúdo textual abordado. 


Referências Bibliográficas

CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. 2.ed. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1982. 2v.
CINTRA, Sebastião de Oliveira. Nomenclatura de ruas de São João del-Rei. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, n.6, 1988. Separata, 24p.
GUIMARÃES, Fábio Nelson. Ruas de São João del-Rei. Contagem: FUMARC, 1994. 55p.




[1] - A Lira Sanjoanense e a Ribeiro Bastos eram corporações musicais de São João del-Rei que tinham a banda e a orquestra. Desde longa data extinguiram-se as respectivas bandas, permanecendo as orquestras homônimas, bicentenárias.
[2] - Estas obras foram de reestruturação da então capela setecentista, mudando completamente sua configuração arquitetônica para a igreja que atualmente vemos. As obras se concluíram em 1903. Para saber mais leia a postagem: SÃO GONÇALO GARCIA (in Tradições Populares das Vertentes).
[3] - Nas fontes hemerográficas seu sobrenome aparece grafado “Felippe” ou “Fellipe”. Carneiro Felipe foi o nome da principal avenida da cidade de 1907 a 1918, denotando o prestígio deste renomado cidadão na sociedade são-joanense. Seu nome na citada via substituiu a designação anterior, Rua Paisandu, motivado pela Guerra do Paraguai. Em 1918 a avenida foi alterada para “Rui Barbosa”, correspondendo à atual Avenida Presidente Tancredo Neves.
[4] - Funcionava no casarão histórico setecentista da Praça Duque de Caxias, onde nasceu Otto Lara Resende e hoje funciona o DAMAE.
[5] - José Carneiro Felippe, são-joanense, filho deste major e da Sra. Virginia da Trindade Felippe, também seguiu o setor de obras. Um jornal são-joanense noticiou anos mais tarde sua conclusão do curso de engenharia na Escola de Minas de Ouro Preto, destacando seu brilhantismo (A Reforma, n.11, 13/06/1914). Tornou-se uma grande personalidade das ciências no Brasil.
[6] - Sobre este cidadão, de nacionalidade portuguesa, morador de São João del-Rei onde casou e constituiu família, as efemérides de Cintra registram importante nota que dá conta de sua excelência como ferroviário, merecendo uma condecoração pelo Presidente Floriano Peixoto.
[7] - As tradicionais cavalhadas que existiram em São João del-Rei, Tiradentes, Lagoa Dourada, Prados, Conceição da Barra de Minas e Carrancas, estão desaparecidas a muitas décadas. Sobre elas leia a postagem: ELEMENTOS FESTIVOS (item 4; in Matosinhos: história & festas)
[8] - Falecido em 04/08/1906. O jornal O Repórter prestou-lhe intensa homenagem dedicando na sua edição nº27, de 12 do mesmo mês e ano, entre lutuosas tarjas pretas, a primeira e a segunda página completas e quase metade da terceira na cobertura do fato.
[9] - Lei assaz curiosa e até extemporânea, nomeando a mais imponente praça da urbe com o nome maior da monarquia, em pleno regime republicano. Veja-se também o caso da festa do treze de maio no Rio das Mortes, com réquiem para Dom Pedro. São João del-Rei, a tradicionalista cidade que expulsou o republicano Silva Jardim, dava ainda em 1907 sinais de fidelidade à coroa...
[10] - Boa Morte, São Miguel e Senhor dos Passos. Mais tarde foi inclusa a Irmandade de Santo Antônio, fundada em 1939.
[11] - Um dos costumes mais arraigados era o dos piqueniques, acorrendo famílias e amigos ao campo, sempre com inseparáveis atividades musicais e comilança. Os lugares mais queridos eram as paragens serranas (Lenheiro e São José), Casa da Pedra, Senhor dos Montes e Águas Santas. Eram momentos importantes de confraternização e estreitamento dos laços de relacionamento.
[12] - Curso: diarreia forte, na linguagem pecuarista.