Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.
Elementos artísticos e interpretação do sagrado[1]
Em geral as principais representações materiais do Paráclito são em forma de pomba e de língua de fogo, inspiração livre nas escrituras bíblicas. Pomba e fogo aparecem artisticamente aplicados sobre uma pintura em estandarte, bandeira, flâmula, quadro, painel, medalhão ou escudo e em especial a pombinha branca aparece esculpida ou moldada sob a forma de imagem. É tal como o vemos no retábulo ou no forro de várias capelas e igrejas e ainda, na arte popular, figurando airosa nos estandartes de procissões e nas bandeiras de grupos de folia do Divino e alguns ternos de congado .
Perpassando estes elementos vemos que o artista executor da imagem ou da pintura, nas mais diferentes flâmulas e na imaginária, se vale de alguns artifícios para fixar a simbologia agregada ao Espírito Santo. Muitas vezes é acrescida de elementos simbólicos que reforçam as impressões populares pela adição de efeitos. Na tentativa de um entendimento, os elementos artísticos podem ser contemplados sob a forma de efeitos:
efeitos luminosos: halo, fachos, raiadas, línguas de fogo, brilho, clarão;
efeitos de santidade: auréola, resplendor;
efeitos de poder: coroa, cetro;
efeito de pacificação e esperança: ramo verde no bico, interpretado como de uma oliveira;
efeitos sacramentais: 1- figuração de água – lembrança do batismo de Cristo no Rio Jordão; 2- pombinha ao centro de uma custódia – representação bastante generalizada;
efeitos de divindade: 1- pintura de nuvens se afastando para aparição da pomba; 2- nuvens em torvelinho ao seu redor, acinzentadas, em cataclismo; 3- céu se abrindo como se tragado de um plano superior donde emana luz, representado em gradação branca-amarela-laranja;
efeito de efusão: vento representado como tracejado paralelo branco-azulado-cinzento, saindo da pomba em direção à Terra;
efeito de movimento: quase sempre a pomba está de asas abertas, voando em graciosa lateralidade ou em fase de descida. Por estar suspensa em voo, confere a ideia de estar acima de nós, de um ser superior.
O lado místico se revela pela própria condição de uma devoção não antropomórfica, ou seja, existe uma dificuldade em confeccionar uma imagem do Divino ou pintá-lo, pois que o Espírito Santo não apareceu sob forma humana; não é como os santos, que foram gente. Daí o artista buscar os artifícios acima enumerados para melhor fixá-lo a partir da abstração natural.
A imagem do Divino Espírito Santo existente no Santuário Diocesano do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em São João del-Rei/MG, é extremamente significativa como arte religiosa, por sua origem e elementos simbólicos. Ela é do século XIX. Traz a estética de seu tempo, mas ainda que tardiamente, está impregnada pelo barroquismo típico da cultura do Ciclo do Ouro em Minas Gerais. O simbolismo da vivência religiosa do período colonial nas "cidades históricas" reverberou além de sua duração formal. Foi doada pelo Imperador do Divino Tomaz Antônio Gonçalvez. Tem a forma de custódia. Atrás dela existe a seguinte inscrição: “Feita nesta cidade de São João del-Rei, em maio de 1868, por Manoel Pereira Maya, natural de Piracatu, por mandado do Imperador do Espírito Santo Thomaz”. Piracatu, ao que parece, é uma corruptela de Paracatu, cidade do noroeste mineiro. A inscrição foi descoberta numa restauração. Naquela ocasião foram retiradas dezesseis lâmpadas coloridas, com as respectivas boquilhas, que de forma inconsequente se fixara nas raiadas da imagem, descaracterizando-a. O acréscimo de gosto duvidoso fora realizado na segunda metade do século XX. Atrás, sobre a dita inscrição, um terrível emaranhado de fios punha a peça sacra sob o risco de incêndio, por um muito plausível curto-circuito. Considere-se que é feita de madeira. Retomou sua autenticidade.
Nela vemos a pombinha presa à peça principal por um pequeno gancho nas costas, o que a torna pendente de fato, pelo que, em procissão, conforme o balancear do andor, parece mesmo que está voando... Como plano de fundo existe o recorte de um triângulo equilátero, simbologia representativa da Santíssima Trindade, da qual o Espírito Santo é a Terceira Pessoa. Acima dela está esculpida uma coroa e dois cetros cruzados, elementos da realeza simbólica, poder, reinado, império, súditos que são os fiéis do Espírito Santo, o povo de Deus. O fato de serem dois cetros talvez ultrapasse a pura estética da composição: lembremos que se hoje temos apenas o Imperador do Divino, na festa do passado também tínhamos a Imperatriz. É plausível que os dois cetros possam ser alusão ao casal imperial.
1- Bandeira de congado, Moçambique "Divino Espírito Santo", Piracema/MG durante do jubileu em Matosinhos, São João del-Rei, 28/05/2012.
2- Medalhão aplicado a um estandarte de procissão. Acervo da Comissão Organizadora da Festa do Divino, Matosinhos, São João del-Rei/MG, 28/05/2012.
3- Quadro de mastro fincado diante da Igreja de Santa Teresinha, Matosinhos, São João del-Rei, durante a Festa do Divino.
4- Imagem do Divino, Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, São João del-Rei/MG, 18/05/2013.
5- Bordado representativo do Divino numa antiga dalmática. Acervo do Santuário Diocesano do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, São João del-Rei/MG, 25/03/2012.
6- Bordado representativo do Divino numa antiga dalmática. Acervo do Santuário Diocesano do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, São João del-Rei/MG, 25/03/2012.
7- Pintura do Divino de autoria do artista sacro Osni Paiva, na bandeira da Folia do Divino "Embaixada Santa", São João del-Rei/MG, 04/04/2012.
8- Bandeira de Congado. Marujos "Divino Espírito Santo", Conselheiro Lafaiete/MG, durante o Festival de Congados daquela cidade. Foto: Ulisses Passarelli, 18/07/1999.
9- Estandarte conduzido por rainhas de congado, Caboclos "Divino Espírito Santo", Vespasiano / MG, durante o Jubileu do Divino em São João del-Rei / MG, 03/06/2001.
10- Bandeira de congado, Caboclos "Divino Espírito Santo", Raposos / MG, durante Encontro de Congados em Tiradentes / MG, 26/07/2015.
11- Bandeira da Folia do Divino "Embaixada do Bom Pastor", Bairro Bom Pastor, São João del-Rei / MG, sobre a cama de um devoto durante a visitação do lar promovida pelos folieiros. 06/06/2014.
12- Bandeira de uma Folia do Divino da década de 1960, já recolhida (grupo extinto), então sob a guarda de seu folião, Sr. "Geraldo Teixeira". A folia era situada no povoado do Brumado de Cima, distrito de São Gonçalo do Amarante, São João del-Rei/MG. Março/1999. Créditos
Texto e fotografias (5-10, 12): Ulisses Passarelli.
Demais Fotografias: Iago C.S. Passarelli.
Notas
[1] - Texto adaptado para este Blog; originalmente publicado no Informativo do Jubileu do Espírito Santo, n.19, maio/2016, São João del-Rei, Comissão Organizadora da Festa do Divino Espírito Santo.
Via de regra os congados são manifestações da cultura popular de natureza laudatória. Seu fundo religioso é inegável, e mais que isto, é sua própria diretriz. Não obstante este fato inconteste, entremeado aos louvores, nas horas de intervalo entre as obrigações maiores da Festa do Rosário, a do Divino ou a de São Benedito, o congadeiro por vezes canta outras temáticas.
Nesta postagem seleciona-se algumas cantorias que aludem de forma singela ao amor. Dito assim porque a forma da abordagem nos versos refere-se ao amor de maneira um tanto simples ou mesmo brejeira, bem alinhado ao folclore construído ao redor deste tema.
Em um importante registro fonográfico existente dos congados de Oliveira, fora das Vertentes, na Mesorregião Oeste de Minas, onde o congado tem grande vitalidade, há este canto de catupé [1]:
"Ai, pavão,
bateu asa e avuô-ôh ... BIS
Ai, ai, moreninha,
Foi embora me deixou!" BIS
Nesta quadra bem se nota o que foi dito acima acerca do aspecto singelo do amor. Mas também aqui na Mesorregião Campo das Vertentes os congados cantam o amor. No extinto congo do Capitão João Lopes, da Rua das Flores (atual Maetro Batista Lopes), em São João del-Rei [2]:
"Quatro horas da tarde
quando o vapor chegô, [3]
carregado de fazenda
pra morena do dotô..."
E no ainda ativo congo do Caburu, atual distrito de São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei):
"Hoje vai chover,
lá na minha horta,
eu nos braços dela
chuva grossa não importa!"
Congo do Caburu, São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei/MG). Festa do Rosário, 11/10/1998.
Nos dois casos existe uma ponta de ironia ou antes verve na composição. A morena do doutor parece se referir a uma concubina; "vapor" pode ser tanto barco a vapor quanto locomotiva, maria fumaça, neste caso mais ajustável à tradição local. Já na segunda quadra corre a expressão popular "vai chover na minha horta" que equivale ganhar uma vantagem, sair no lucro, ter uma recompensa.
Mas dos congados, os catupés parece mesmo que se sobressaem no assunto. No Bairro São Dimas, em São João del-Rei o Capitão Luís Santana cantava:
"Oi, pepino maduro, que dá semente, - bis
menina bonita que mata a gente!" - bis
"Segura a peteca, não deixa cair, - bis
segura a menina, não deixa fugir ..." - bis
Catupé, Bairro São Dimas, São João del-Rei/MG. Festa do Divino, 31/05/1998.
Ainda mais uma vez nota-se os aspectos provincianos dos cantos e a pitada de ironia no segundo dístico, que usa igualmente de uma expressão popular: segurar a peteca é não perder o controle da situação, ter o domínio, não ficar sem ter ou sem conseguir.
Já no grupo da Restinga (Ritápolis) o amor era abordado assim, na voz do Capitão Ernani, 1996:
"Leva eu, morena,
leva eu pra lá... BIS
morrerei apaixonado
se você não me levar!" BIS
"Dói, saudade,
dói, paixão! BIS
Vai dizer aquela ingrata
que amar é muito bão ... " BIS
"Dói, paixão,
dói, saudade! BIS
dói de dia, dói de noite,
dói até de madrugada!" BIS
Catupé, Restinga (Ritápolis/MG). 24/09/2000. Festa do Rosário, Ramos (Ritápolis/MG).
De memória uma informante cantou um peça do congado da zona rural de Bias Fortes [4]:
"Morena bonita,
balão de fulô, [5]
chega pra cá
tá fazendo calor..."
Por fim, como último exemplo, uma cantiga dos marujos de Barbacena:
"Chorei, chorei,
a nossa separação, BIS
Madalena ficou chorando
com o lenço branco na mão." BIS
Marujos, Barbacena/MG. 18/08/1996. Festa do Rosário, Bairro São Geraldo, São João del-Rei.
O canto parece usar o nome Madalena em relação à conhecida expressão "Madalena arrependida", um tanto sarcástica a bem da verdade, para se referir às pessoas que erram, perdem por isto e depois lastimam sua falha. Menção à mulher bíblica que ia ser apedrejada por adultério e foi salva pela célebre frase de Jesus: "quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra" (Jo 8, 1-11). Esta pecadora a tradição popular considera que foi Maria Madalena.
Créditos
- Texto e fotografias: Ulisses Passarelli.
Notas
[1] Os Negros do Rosário. Belo Horizonte: Trem da História, 1987. Long Playing (LP), gravação em disco de vinil.
[2] Informante: Antônio Geraldo dos Reis, 1993, Rua Operário Luís Andrade, Águas Férreas, Bairro Tijuco.
[3] Uma variante ainda em voga no congo do Caburu, diz com menos naturalidade: "Quatro horas da tarde / quando o papai chegô, / carregado de fazenda / pra morena do dotô..."
[4] Elvira Andrade de Salles, Santa Cruz de Minas, déc.1990.
[5] Balão de fulô: balão de flor, referência à saia-balão, modelo de vestimenta feminina de estampa figurando flores.
O mineiro é alvo de muita anedota por causa de sua vida interiorana, distante do mar. A primeira vez que o natural de Minas Gerais vê o mar e nele entra para um banho é motivo de piadas. Em nosso grande estado, o quarto em dimensão territorial, o único "mar" conhecido é "o de morros": montanhas e mais montanhas, ondulando a linha do horizonte a perder de vistas.
O que dizer então da tradição mineira em torno dos marujos, em pleno interior continental?
Fato é que nos meios folclóricos, talvez um tanto pelo desejo do mar, outro tanto pela influência dos colonos portugueses, que deixaram aqui fortíssima marca cultural (e eram grandes povos navegadores), várias tradições se construíram sobre a figura dos marinheiros.
Assim, a cultura popular enumera entre as modalidades de congado, uma, que se liga pela temática às lides marítimas. Chamam-lhe conforme a região e a variante de marujos, marujos do rosário, marinheiros e ainda marujada. O congadeiro participante deste tipo de guarda é via de regra chamado "marujeiro".
A extensão territorial de sua presença é vasta no Brasil e longe deste texto está a pretensão de historiá-los no país, pois desde autos quinhentistas de Portugal e vilancicos espanhóis de séculos atrás é possível rastrear suas origens. As matrizes temáticas e textuais trazidas ao Brasil sofreram aqui influências regionais, sobretudo pela força do elemento cultural afro-brasileiro, que adequou o costume das danças de marinheiros ao ciclo festivo do rosário e dos reis negros.
No Pará é típico e tradicionalíssimo o grupo de marujada da região de Bragança; pelo imenso Nordeste do país, marujadas e suas versões mais desenvoltas, os fandangos e cheganças, estes mantendo mais fortemente o elemento ibérico, foram conhecidos desde o Piauí à Bahia, sobretudo ao longo da costa, já em franco ocaso. Em alguns estados sua força adentrou pelo seco sertão, a exemplo de Sergipe. Pelas terras são-franciscanas da Bahia, ao longo do vale do grande Rio da Integração Nacional, as marujadas são ainda vivas e vivazes, com sua rítmica característica e chapéus multicores.
Daí para baixo, Minas é o grande celeiro, desde o norte do estado, da zona de Montes Claros, e mais além até Itamarandiba, daí ao vale do São Francisco e deste rumo sul às cabeceiras, posto que no sudoeste é frequente para as bandas de Passos, Itaú de Minas e Guaxupé. No centro-oeste também é conhecido, como se depreende de vários grupos a partir da área de Itapecerica. No centro do estado até o meio-norte também é muito difundido, de Congonhas do Norte, São Gonçalo do Rio Preto, Diamantina, Serro para a área metropolitana (Roça Grande, General Carneiro, Vespasiano, etc.), onde se emenda com os numerosos grupos do Quadrilátero Ferrífero até bem abaixo, esbarrando no limite leste do Campo das Vertentes, em Carandaí, Caranaíba e Barbacena. Conselheiro Lafaiete é um grande centro das guardas de marujos. Pelo interior das Vertentes o destaque é o grupo de Dores de Campos.
Este congado, ora com e ora sem entrecho dramático com cenas de lutas de espadas e disputas de poder entre personagens de nomes militarizados, varia de indumentária à marinheiro, vestidos com roupas brancas, quépis, casquetes, caxangás, palas com debruns azuis e pequenas âncoras aplicadas, até uma farda distinta, como prevalece no citado Quadrilátero Ferrífero até as Vertentes: de quépi, muito enfeitado em belos padrões de desenhos de lantejoulas e outros bordados de vidrilhos, com um longo jogo de fitas caindo pela nuca quase até os pés, cujo balançar confere um efeito visual ímpar; roupa branca em geral, mas não obrigatoriamente; longas faixas de crochê de cores variegadas trespassadas do ombro ao peito, presa na cintura do lado oposto e de pontas soltas e pendentes, terminadas com pompons ou franjas quase rente ao solo.
Por aqui nas Vertentes os marujos tem a percussão por base musical, com muitos tambores. São três filas de dançantes que trabalham com várias coreografias ensaiadas e mormente balançam o corpo em sincronia como se imitassem o movimento de um navio ao sabor das ondas.
A temática dos versos alude como todo congado aos santos protetores, Nossa Senhora do Rosário, São Benedito, Santa Efigênia e Nossa Senhora Aparecida, aos reis e rainhas, como também a assuntos que evocam o oceano. É comum ouvir cantos que falam em remar, areia, sereia, mar, embarcações ...
Fato é que mesmo nos grupos de congado que não são marujos os temas correlatos se apresentam eventualmente:
"Marinheiro do mar,
que brinca bem,
puxa fieira,
reinado en'vém!"
(congo, Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno (São João del-Rei), 2014)
"Ôh, marinheiro,
que leva nessa canoa?
Leva ouro, leva prata,
leva muita coisa boa!"
(moçambique, Passa Tempo, 2011)
"Ôh, marinheiro!
Marinheiro na beira do mar..."
(catupé, Coronel Xavier Chaves, 1998)
A presença dos marujos no conjunto dos congados é entendida e justificada pelos congadeiros em geral, em razão das tenebrosas histórias dos navios negreiros, como uma memória coletiva; mas localmente surgem outras explicações.
Além do significado supra, o tema dos marinheiros também aparece noutro campo: nos trabalhos religiosos dos terreiros de matriz africana. Uma das sete linhas da umbanda é a de Iemanjá e sob seu comando uma das sete falanges é a dos marinheiros, conjunto de espíritos de antigos marinheiros (de fato!), perscadores, estivadores, peixeiros, marisqueiros, trabalhadores de estaleiro. São guias da direita, que quando incorporam no médium e se manifestam com modos próprios. Gostam de dançar passos de marujada e de danças antigas, em voga nas tabernas portuárias de antanho. Fumam charuto ou cigarro comum, de papel, tomam cerveja, vinho, rum ou outras bebidas, tendo a toalha branca de trabalho enrolada na garrafa. A oferenda inclui um peixe frito num prato branco, sem tempero algum. É frito sem sal, que só se põe na hora da entrega sob a forma de um delicado filete, salpicado sobre o peixe na longitudinal, desde a cabeça ao rabo. O chefe da falange dos marinheiros é Tarimá (ordenança de Iemanjá), coordenando as ações de vários outros marinheiros: Zé da Proa, Martim Pescador, Martim Parangolá, Maresia, etc. Um ponto de abertura de sua linha:
"Vou por meu barco n'água,
para navegar,
vou pedir licença a Zambi,
proteção de Iemanjá!
Iemanjá!
Ôh, Iemanjá!
Rainha das Ondas,
Sereia do Mar!"
(São João del-Rei, 1999)
Por fim, embora o assunto dos marinheiros seja vasto e contemple muito mais considerações e conteúdo, aqui apenas passado em breve revista, resta dizer que aqui em São João del-Rei o termo "marinheiro" tem ainda um emprego inusitado, no âmbito do linguajar popular: chama-se assim aos grãos escuros de arroz, destoando de imediato do visual dos grãos típicos, alvos, quando se vai escolher no processo de limpeza, antes de lavar para o cozimento. Diz-se: "achei um marinheiro..." Existe ainda a palavra "amarujo", uma referência ao sabor amargo não intenso. Assim, em referência à conhecida fruta cítrica: "a lima tem um amarujo..."
1- Marujos "Santa Efigênia" de Barbacena/MG, 18/08/1996. Festa de N.S.do Rosário, Bairro São Geraldo, São João del-Rei/MG.
2- Marujos "Sereia do Mar" de Congonhas/MG, 11/06/2011. Festa do Divino, Bairro Matosinhos, São João del-Rei/MG.
3- Marujada de São Brás do Suaçuí/MG, 30/05/2004. Festa do Divino, Bairro Matosinhos, São João del-Rei/MG.
4- "Guarda de Marinheiro de São Jorge", de Vespasiano/MG, 30/06/2013. Festa do Rosário, Ibituruna/MG.
5- "Guarda de Marujos São Sebastião", General Carneiro (Sabará/MG), 09/01/2010. Festa do Rosário, Padre Faria (Ouro Preto/MG).
6- "Banda de Congado São Francisco de Assis e Nossa Senhora Aparecida", Ouro Branco/MG, 09/01/2010. Festa do Rosário, Padre Faria (Ouro Preto/MG).
7- Marujos, Santana dos Montes/MG, julho/1992. Festival de Congado de Conselheiro Lafaiete/MG.
8- Marujos, Alto Rio Doce/MG, julho/1992. Festival de Congado de Conselheiro Lafaiete/MG.
9- Marujos, Gajé (Conselheiro Lafaiete/MG), julho/1992. Festival de Congado de Conselheiro Lafaiete/MG.
10- Marujos, Caranaíba/MG, julho/1992. Festival de Congado de Conselheiro Lafaiete/MG.
11- Marujos, Barra do Itaberaba/MG, julho/1992. Festival de Congado de Conselheiro Lafaiete/MG.
12- Marujos, Catas Altas da Noruega/MG, julho/1992. Festival de Congado de Conselheiro Lafaiete/MG.
13- Marujos, Miguel Burnier (Ouro Preto/MG), julho/1992. Festival de Congado de Conselheiro Lafaiete/MG.
14- Marujos, Senhora de Oliveira/MG, julho/1992. Festival de Congado de Conselheiro Lafaiete/MG.
15- "Banda de Congada N.S. do Rosário", Dores de Campos/MG,23/10/2010. Festa do Rosário em Dores de Campos/MG.
16- "Guarda Nossa Senhora da Guia", Carandaí/MG, 23/10/2010. Festa do Rosário em Dores de Campos/MG.
Créditos
- Texto: Ulisses Passarelli - Fotografias: 3- David Passarelli; 2- Maria Aparecida de Salles; demais fotografias - Ulisses Passarelli
O que sabemos de Santa Efigênia procede da "Legenda Áurea", trabalho hagiográfico da Idade Média, devido ao Arcebispo de Gênova, o dominicano Giacomo de Varazze. Esta santa foi uma princesa africana do primeiro século do cristianismo, da Núbia (atual Etiópia), ao nordeste daquele continente. Era filha do Rei Eggipus e da Rainha Eufenisa. Seu país era considerado politeísta e pagão aos olhos do cristianismo. Foi então, que poucos anos após a crucificação de Jesus, o Apóstolo São Mateus, acompanhado de dois discípulos, fez pregações em Noba, capital daquele reino. Não teve grande êxito, mas a Princesa Efigênia converteu-se fortemente ao cristianismo. Por esta razão foi condenada à morte na fogueira, mas salvou-se milagrosamente deste terrível sacrifício, fato que fez com que outras pessoas se convertessem. Fundou um mosteiro para virgens. Mais tarde, com a morte de seu pai, o trono foi assumido pelo tio Hirtacus, que o usurpou do irmão de Efigênia, Efrônio, herdeiro legítimo. Pondo-se a desejá-la e persegui-la, o tio ateou fogo ao convento, mas novamente, por forças milagrosas o fogo não a vitimou: apagando-se no convento, reacendeu misteriosamente no castelo de Hirtacus, colocando-o em fuga e pondo fim ao seu governo. Efigênia viveu e faleceu em absoluto estado de graça, sendo festejada a 21 de setembro. Seu nome teria origem grega, significando "nascida forte". Em latim, "Ephigenia", e em português também grafada como Ifigênia e, popularmente, “Santa Figêna”. Uma antiga tradição a considera santa carmelita, sem contudo haver um embasamento convincente. Em razão disto é comum sua imagem mostrá-la com vestes na cor daquela ordem religiosa. Segura nas mãos uma casinha saindo fogo pelas janelas e porta, ou na dianteira, representação simbólica de sua história acima narrada.
GAIO SOBRINHO (1997) registrou uma narrativa de lamentável cunho racista, contra a qual se manifestou contrariamente, tal qual este Blog também se posta contra toda forma de racismo. Segundo o dito autor, "conta-se, sem fundamento, que Ifigênia era branca e muito formosa. Por despertar a cobiça de muitos pretendentes, rogou a Deus que lhe mudasse a fisionomia. Tornou-se, então, negra e de olhos esbugalhados, como a vemos na imagem." Sobre tal discriminação o notável autor escreveu e com ele comungamos: "Fora o conteúdo racista que transparece neste particular, com certeza inverídico, e que denuncio, cabe-me acrescentar que feiura não é sinônimo de negritude, muito pelo contrário". Existe representação hagiográfica desta santa como uma mulher branca, exemplificada por uma fotografia anexa nesta postagem. Sendo preta,
foi desde longa data tomada como padroeira dos escravizados e por conseguinte de
suas expressões culturais. O viajante austríaco Johann Baptiste Emmanuel Pohl assistiu ao congo de
Traíras (atual Niquelândia, em Goiás) num festejo em honra a esta santa, no ano de
1819. Em Barbacena/MG tem igreja própria e nomina um bairro, local de festa
congadeira. É cantada e recantada pela guarda de marujos local. Nestas festas encontram-se mastros dedicados a ela, como todo ano
se via no Bairro São Geraldo, em São João del-Rei. Igualmente, em Passa Tempo, oeste do Estado. Os
congados a louvam:
“Viva meu São
Benedito!
Viva Santa Santa Efigênia!
Viva a Senhora do Rosário
e Maria
Madalena!”
(Marinheiros, Passos, 1997)
“Esse
toco é meu,
querem me tomar ...
minha Santa Efigênia
vai me ajudar!”
(Catupé, São João del-Rei, Bairro São Dimas, Capitão Zé Camilo, 1994).
Na área do Quadrilátero Ferrífero os congados do tipo 'marujo' sempre a veneram com carinho e respeito. É santa bastante popular:
"Santa Efigênia, BIS
ôh, santa milagrosa!
Eu vi o que ela fez... BIS
Nós viemos louvar!"
(Marujos, Conselheiro Lafaiete, 1995)
Fora deste
âmbito, Santa Efigênia é protetora dos sem teto, dos que vivem de aluguel e
apegando-se a ela consegue-se adquirir casa própria, narra a crença. Em São João del-Rei é comum as pessoas fazerem uma novena a ela para adquirirem uma habitação própria. É uma aproximação à
figuração de sua imagem, com uma casinha ou capela, que carrega numa das mãos.
Imagem de Santa Efigênia, fev.1997. Igreja de Nossa Senhora do Carmo. São João del-Rei/MG. Acervo da Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte Carmelo.
Santa Efigênia em representação iconográfica de mulher branca, em hábito carmelita. Capela de Nossa Senhora das Vitórias, 2013. São Sebastião das Vitória (São João del-Rei/MG).
Bandeira de congado de Resende Costa representando Santa Efigênia em arte popular. 2012.
Referências na Web
Santa Efigênia - Cruz Terra Santa (acesso 13/09/2014, 14:50h) Ifigênia da Etiópia - Wikipédia (acesso 13/09/2014, 14:50h) Jacopo de Varazze - Wikipédia (acesso 13/09/2014, 14:50h)
Referências Bibliográficas
- GAIO SOBRINHO, Antônio. Santos negros estrangeiros. São João del-Rei: [s.n.], 1997.
- POHL, Johann Baptiste Emmanuel. Viagem ao interior do Brasil empreendida nos anos de 1817-1821. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1976.
A cidade de Barbacena, situada na Mesorregião Campos das Vertentes, encabeçando uma de suas três microrregiões (a que leva seu nome), está numa situação geográfica e cultural entre as Vertentes e a Zona da Mata. Justo nesta última, são abundantes as guardas de marujos, aliás, seu tipo mais comum de congado.
Seria então natural que Barbacena tivesse seu terno de marujeiros. Em sua terra seu festejo acontece na Igreja de Santa Efigênia.
Com certa frequência eles em espírito de irmandade e movidos pela devoção viajam até São João del-Rei onde participam da Festa do Rosário no Bairro São Geraldo e da Festa do Divino no Bairro Matosinhos. As imagens abaixo retratam uma destas participações, no Bairro São Geraldo, a 18/08/1996.
Naquele mesmo ano, em Barbacena, uma octogenária, "Dona Josefina", informou-me alguns cantos de marujos dados como muito antigos, que puxara da memória prodigiosa:
Guarda de Marujos "Nossa Senhora da Guia", de Carandaí/MG, durante a Festa do Rosário em Dores de Campos/MG. 23/10/2010. Letra de seu canto de congado neste vídeo:
"A sereia, BIS
ela canta d'outro lado do mar.
Para ver a sereia, marinheiro, BIS
tem que remar!"
Notas e Créditos
* Texto, fotografia, acervo e vídeo: Ulisses Passarelli.
** Obs.: Carandaí é município da Mesorregião Campos das Vertentes, Microrregião de Barbacena. A palavra carandaí tem origem indígena, do tupi "carandá-y", o rio dos carandás _ carandá é uma espécie de palmeira.
Dores de Campos, primitivo Arraial do Patusca, é município da Mesorregião Campos das Vertentes, Microrregião de São João del-Rei, terra que tem extenso domínio sobre o trabalho em couro, selaria, artesanato, produção de renomados calçados.
Além das folias de Reis tem também esta "Banda de Congado Nossa Senhora do Rosário", a única guarda de marujos desta microrregião. Os marujos são mais típicos da área a leste, a partir da Microrregião de Barbacena para a Zona da Mata e área metropolitana.
As festas do Rosário nessa cidade acontecem em outubro.
"Banda de Congada Nossa Senhora do Rosário", guarda de marujos de Dores de Campos/MG, durante a Festa do Rosário nessa cidade.
Notas e Créditos
* Texto e fotografia (23/10/2010): Ulisses Passarelli.