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Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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sexta-feira, 14 de abril de 2017

Costumes populares na Paixão do Senhor

Nas cidades históricas existe uma atmosfera tão peculiar nesse dia, que não há palavras que a defina. Além dos ritos sagrados da Igreja, das celebrações, muitos costumes populares se observam neste dia.

Aqui em São João del-Rei e arredores, uma antiquíssima tradição leva muitos à serra, madrugadinha, famílias inteiras, até o alto dos montes pedregosos, onde o reencontro com o Deus acontece. Desafoga-se o peito... preces, entretenimento, apreciação da natureza, colheita de ervas medicinais _ que valem para o ano inteiro, tidas por bentas. Diz a crença que a colheita de arnicas, rosmaninhos, alecrins, congonhas e outras deve ser antes do sol secar o orvalho das folhas, pois esta umidade consideram sagrada. Uma senhora dizia-me que é como o suor de Jesus Cristo... sagrado. Neste dia tudo é assim.

Nas roças não se vende leite na Sexta-feira Santa. Nos currais os retireiros esgotam as vacas e doam o leite às pessoas. É costume fazer doce com este leite. Em São João del-Rei, muitas pessoas saem do Tijuco e vão pelo caminho das Águas Gerais até o Cunha, Brumado de Baixo, Chapada e São Gonçalo do Amarante, do outro lado da Serra do Lenheiro buscar leite, bem cedo. 

Por força de uma prescrição inquebrantável não se deve trabalhar na busca do lucro. É dia de preceito. Mexer com ferramentas de carpintaria nem pensar... martelo? De jeito nenhum! Não se bate um prego neste dia, não se imita o gesto ignóbil de pregar o Salvador.

Não xingar, não cuspir, não beber, não comer carne, não ouvir música por mero entretenimento, não assoviar nem cantarolar, não demonstrar alegria, não contar piadas, não caçar, não pescar, não jogar futebol, baralho ou qualquer outro jogo, etc... A tradição não recomenda. Não é tempo de mostrar alegria. Deve-se concentrar na memória da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nem os sinos batem. Só as matracas nas portas das velhas igrejas: "_ para a cera do Santo Sepulcro!" _ clamam os meninos quando recolhem um óbolo, matraqueando estrepitosamente.

Três da tarde é hora do máximo respeito, 15 horas, quando o Messias fechou os olhos. Nos quintais, fura-se um buraco pequeno no chão e se cospe três vezes dentro e enterra-se (os males...). Depois se bebe um copo de chá (de congonha, de erva-cidreira ou outra). 

Junto aos templos algumas pessoas vendem arnicas, congonhas e rosmaninhos. Outros mais, milho verde cozido, cartuchos de amêndoas, beijo quente e maçã do amor. Alimentos de valor cultural. 

Enquanto isto, outros tantos manipulam areias e serragens tingidas e preparam os típicos tapetes de rua que logo mais, à noite, receberá a Procissão do Enterro. Arte efêmera, de construção coletiva, criatividade pura, dinâmica e de baixo custo, sacralizando as vias públicas. 





Aspectos da confecção dos tapetes de rua. 

Jovens na entrada da Igreja de São Francisco com matracas recolhem
donativos anunciando a característica frase:
 "_ Para a cera do Santo Sepulcro!"


Comércio de arnica e outras plantas medicamentosas e aromáticas.

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotografias: Iago C.S. Passarelli, 14/04/2017, São João del-Rei

sexta-feira, 1 de maio de 2015

São José Operário, padroeiro do Tijuco

De novo o devoto são-joanense e em especial o tijucano, se reuniu  na Igreja de São José Operário, no Bairro Tijuco, em São João del-Rei/MG, para a grande festa do padroeiro do bairro. A novena foi concorrida. 

Hoje, dia maior, desde cedo um burburinho de fiéis agita a Rua General Osório, a São José, a São João, as imediações da Ponte das Águas Férreas, o largo fronteiro à igreja. Gente indo e vindo das missas, varrendo beiradas de passeio, enfeitando fachadas de estandartes, balões, toalhas de renda, flores em abundância.  

O dia está com um clima duvidoso, ora frio, ora calor, ora aberto, ora nublado... mas o tijucano continua a se preparar. Na esquina da Rua Operário Luís Andrade por nada menos que três décadas um casal se esforça, com ajuda de alguns cooperadores e abnegados meninos e meninas, na confecção dos tapetes de rua. Sr. Geraldo Elói de Lacerda [1] e D. Júlia Lacerda se dedicam a construir sobre o asfalto um grande coração de serragem, rodeado de borra de café e areia branca quartzítica, todo salpicado de flores. Não poderia haver simbologia maior, reveladora do amor ao santo e à própria tradição. O esforço é grande, mas o resultado compensador. 

A missa vai concluindo. A cerimônia está lotada, bela, concentrada. A banda vem chegando. É a centenária e respeitada Teodoro de Faria, que desceu da Rua Santo Antônio. Os sineiros estão lá em cima, na torre, olhando o largo cheio de visitantes. Os pipoqueiros estão pelos cantos com seus carrinhos típicos, os vendedores de algodão doce, maçã do amor, beijo quente e churrasquinho também dividem o espaço.

Finda a celebração o sino deslancha e vão passando em fila os irmãos com  suas opas vermelhas, varas prateadas, andadores de bastão à mão, legionárias de Maria com seu belo estandarte abre-alas, anjinhos de procissão, até relativamente numerosos. 

Surge o primeiro andor. É de Nossa Senhora da Conceição, primeiro orago daquele templo. O sacerdote ao microfone convoca os fiéis à homenagem, prece e concentração na sagrada caminhada. O tempo pesa, respinga e esfria. A procissão vai assim mesmo e São José aponta no portal, muito florido em seu andor: o povo aplaude em profusão, grita vivas, se compraz ante o patrono. 

O cheiro de pólvora dos fogos de artifício se esparrama. Os acordes da banda se misturam aos do sino e o cortejo serpenteia pelas ruas, qual penitência, debaixo da chuva que se torna torrencial. Mas não para, só acelera a marcha e encurta o trajeto. Alguns o deixam, mas muitos o seguem e concluem a marcha como peregrinos da fé, certos que este sacrifício foi visto pelo santo que lá de cima mandará uma justa recompensa. 

Tapete de rua na entrada da Rua Operário Luís Andrade.

Antes da procissão, anjinhos comem pipoca.

O jovem sineiro observa o largo em festa e espera sua hora de entrar em ação. 

A missa transcorre com grande concorrência de fiéis. 

Aspecto da igreja no dia maior de sua festa. 

A chuva não esfria a devoção. 

O florido andor do padroeiro, sob a escolta das tradicionais lanternas.

 Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografias: Iago C.S. Passarelli, 01/05/2015. 

Notas 

[1] Infelizmente, Sr. Geraldo Elói faleceu em 2024.  
- Leia também: A PROCISSÃO DE SÃO JOSÉ OPERÁRIO     
- Revisão: 23/11/2025. 

quinta-feira, 1 de maio de 2014

A Procissão de São José Operário

... e os tapetes de rua das Águas Férreas

No Dia do Trabalhador, o Bairro Tijuco, em São João del-Rei, vivencia o momento culminante de um festejo católico da maior relevância, preparado por animada novena: a Festa de São José Operário, centrada da igreja matriz desta invocação. 

Igreja Matriz de São José Operário no dia da festa de seu patrono.
 
O grande bairro participa intensamente. Após as cerimônias internas o povo vem às ruas para uma concorrida procissão cuja parte musical fica a cargo da centenária e respeitada Banda Theodoro de Faria, sediada na Rua Santo Antônio, nesse mesmo bairro. 

A Irmandade do Santíssimo Sacramento local encabeça as duas longas fileiras com suas lanternas e ao centro vai o cruciferário, concentrado em sua função. Pelo centro vem um considerável número de crianças vestidas de anjos, uma antiga tradição, além de importantes corporações do catolicismo, como a Legião de Maria, o Apostolado da Oração, o Terço das Mulheres, os Ministros da Eucaristia e os Coroinhas. Então surgem os esperados andores e os fiéis se aglomeram ao redor. Estão muito enfeitados de flores: primeiro o de Nossa Senhora, depois o de seu festejado esposo. Antecedendo-os vem os sacerdotes. 

Aspecto da procissão de São José Operário.

As fachadas das casas se encontram enfeitadas de jarras de flores e as melhores toalhas da casa. Janelas recebem cordões de bexigas coloridas de ar (balões de aniversário). Altares improvisados expõe imagens. O aspecto é festivo e o povo sacraliza as vias por onde passará o cortejo. 

Na esquina das Águas Férreas (Rua Operário Luís Andrade com Rua São José), imediatamente após a ponte, moradores desenvolvem um tapete desde a metade da tarde, sob a liderança de um casal: Geraldo Elói e Júlia Lacerda. Há 29 anos cuidam desta tarefa. A confecção do tapete de rua é uma missão árdua, que sacrifica a coluna pela posição inclinada que se fica para confeccioná-lo, além da limitação do sistema circulatório das pernas, mas ninguém reclama. É feito pelo senso religioso e traz a satisfação e a certeza de se estar agradando ao santo.

Tapetes de rua, altares improvisados e adornos de fachada para a passagem da procissão.
 
Sua produção em verdade começa meses antes. Não bastando a serragem e areia como outros tapetes e o enriquecimento de muitas flores conseguidas a pedido nos jardins de vários colaboradores, o casal junta ainda borra de café durante muito tempo, para detalhar o contorno escuro e o que é bastante trabalhoso; tampinhas de garrafas de cerveja, pedidas para se juntar nos bares de conhecidos. Com elas montam figuras simples, variadas a cada ano, mas de uma característica muito peculiar. Juntam ainda pétalas e papel picado para jogar no andor. 


Tapetes de tampinha de garrafa de cerveja.

O cuidado do casal é tamanho com esta tradição, que colhem uma boa quantidade do aromático manjericão para esparramar no asfalto. Quando o povo pisoteia os ramos à passagem da procissão o forte cheiro desta erva exala por todo o ambiente. 

São João del-Rei é uma terra de fé. Esforços como este, sem que ninguém mande, peça ou aconselhe, por simples vontade própria, do fundo do coração, ainda que para um resultado efêmero, o provam sobejamente. 

Créditos 

- Texto: Ulisses Passarelli
- Fotos: Iago C.S. Passarelli, 01/05/2014.

Notas 

- Revisão: 01/05/2026.