Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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sábado, 2 de julho de 2016

Coração Ferido

Nesta septingentésima postagem, expomos um conto religioso colhido em Santa Cruz de Minas, meados da década de 1990, cujo roteiro versa sobre ciúme, crime e milagre. Na simplicidade e objetividade da narrativa, uma série de valores do ideário cristão são expostos, em linguagem acessível ao plano catequético não oficial. Em outras palavras, através da narrativa, o narrador transmite o horror à violência, o peso do machismo, a doença do ciúme, a cegueira da imaginação patológica e por fim, coroando tudo, o milagre, em cuja reticência deixa antever a possibilidade da conversão e do arrependimento, que em similitude à redenção dada pelo próprio Cristo, vem a preço de sangue. 

Interessante observar, que a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, tão difundida durante o período romanizador, pós Concílio Vaticano I, é relativamente nova na cultura popular e ainda deixa em seu contexto poucas manifestações visíveis, como é o caso deste exemplar da literatura oral.

Os contos religiosos são profundamente arraigados ao cotidiano do povo, como parte de seu universo de saberes e como elemento simbólico de transmissão da moral cristã, como modelo necessário de vida em sociedade, contra o qual, tudo que se insurge, cai por terra, de uma forma ou de outra. Através do conto popular, nos intervalos do trabalho doméstico, ou no campo, ou na oficina, ou na noitinha, hora de tranquilidade, à beira do fogão à lenha, ou da fogueira no rancho de boiadeiros e tropeiros, o mais velho transmitia ao mais novo, o pai ao filho, a mãe à filha, a madrinha ao afilhado e assim por diante, dentro deste código de linguagem, o saber inerente ao comportamento padrão, que agrada a Deus e que por conseguinte é premiado com o poder sobre-humano da graça e do milagre, quando tudo parece perdido e insolúvel. 

Sem dúvidas, o conto contrapõe em dicotomia humildade/lealdade de um lado e violência (feminicídio)/domínio de outro, tendo a devoção como fulcro e fator decisivo para o desfecho da estória, que, em suma, tem um objetivo catequético e educador, quando analisada no contexto familiar e comunitário em que ocorrem estes tipos de narrativas. 

* * *

Havia uma mulher devota, dotada de espírito de bondade, direita, corretíssima, piedosa, benevolente, de fé inabalável. Vivia muito bem com seu marido, na paz do matrimônio consagrado; mas este, secretamente, desconfiava que a esposa o traía. 

Certa vez, o homem disse que ia viajar e despediu-se da mulher; mas era mentira. Tinha uma plano para provar a si mesmo, que a esposa era infiel, conforme injustamente acreditava. Escondeu-se no quintal e ficou observando se algum homem entrava em sua casa. 

E ficou o dia todo oculto e nada viu. A noite decidiu entrar em casa. Seu coração maldoso o impulsionava... Sua mente doentia imaginou um amante em sua cama. Quem sabe, talvez, algum homem teria entrado na casa pelo lado oposto e estava deitado com ela? 

Pegou uma faca, entrou pé ante pé, em absoluto silêncio, levantou rápido o lençol e fincou a arma no coração da mulher. Mas ela estava sozinha na cama. Não havia mais ninguém e o peso de seu crime hediondo sacrificou-lhe imensamente a consciência. Aturdido, saiu desesperado a chorar, sem rumo, para longe dali. 

No dia seguinte voltou cabisbaixo. Qual não foi sua surpresa, quando viu a esposa viva, normal, sem qualquer marca do golpe que dera! O fato milagroso e inexplicável o deixou ainda mais apalermado, quando viu a faca do crime cravada na imagem do Sagrado Coração de Jesus, que estava sobre a cômoda do quarto, bem em seu peito, do qual escorria sangue vivo... 

Detalhe da bandeira da Folia do Sagrado Coração de Jesus.
Colônia José Teodoro (São João del-Rei/MG), junho/2012. 

Créditos

- Texto, fotografia e acervo: Ulisses Passarelli.
- Informante do conto religioso: Elvira Andrade de Salles, Santa Cruz de Minas, 1996.

Notas 

- Revisão: 11/04/2025. 

quinta-feira, 24 de março de 2016

Duas lendas do ouro são-joanense

Várias localidades da Mesorregião Campo das Vertentes, em Minas Gerais, surgiram da mineração do ouro ou a vivenciaram durante um período de sua história. O ciclo do ouro deixou fortes impressões na cultura popular [1]. Ainda hoje, passados tantos anos, corre na boca do povo diversas estórias alusivas àquela atividade econômica que foi, muitas vezes, o embrião de um núcleo urbano. O ouro é parte importante de nosso folclore. 

Contam [2], por exemplo, que o ouro de São João del-Rei foi descoberto nos arredores da atual Igreja de Nossa Senhora do Carmo, por três rapazes, que localizaram um veio enorme. Começaram a extração às escondidas mas tiveram de parar por causa da grande quantidade de água subterrânea que aflorou. A Igreja do Carmo teria sido construída bem em cima das principais 'panelas' de ouro descoberta pelos três rapazes. Corre também a narrativa que esse famoso veio começaria na Beta do Tanque aos fundos do Barracão da Prefeitura, e, como um túnel, passaria por baixo da Rua Marcondes Neves, da Rua Gomes Pedroso e da Praça Augusto das Chagas Viegas, ficando as principais galerias por baixo do templo carmelita, onde imensas riquezas ainda existiriam. Dizem que a mineração naquele ponto era tão intensa que demandava centenas de escravizados. Um desmoronamento, certa feita, soterrou trezentos trabalhadores braçais e alguns feitores. Depois disto, a escavação parou e construíram a Igreja do Carmo em cima, marcando o local da tragédia. 

A história contudo ensina que o ouro de São João del-Rei não foi descoberto nos arredores do Carmo, embora essa região da urbe também tenha sido escalavrada pelos almocafres, picões e alavancas. Os primeiros descobertos teriam se dado em 1704, por Lourenço da Costa, no no Ribeirão São Francisco Xavier e quase concomitantemente no Alto das Mercês, pelo português Manoel João de Barcelos na encosta do morro. 

Outro conto [3] diz que certo homem comprou uma velha bêta, praticamente improdutiva. Seu objetivo era reativá-la e ficar rico. Tinha uma ganância desmedida. Como a produção fosse baixa, querendo enriquecer, fez um trato com o capeta prometendo-lhe em troca da riqueza a própria filha como pagamento.

Certo dia a mocinha estava caminhando quando por acidente escorregou e caiu na bêta pedregosa. Lá no fundo o rabudo [4] a possuiu sexualmente, confirmando assim o pacto. Correram para resgatá-la e de forma impressionante foi retirada de lá sem nenhuma lesão, algo inexplicável, pois qualquer um que ali caísse morreria, sem dúvidas. 

Naquele mesmo dia acharam grandes pepitas de ouro e também nos dias consecutivos se achava do nobre metal em abundância. Lavraram o veio rochoso, como muito sucesso para riqueza do proprietário. 

Mas assim como o dono da bêta enriqueceu de repente, dado um prazo começou o infortúnio. O ouro sumiu da mina, nada se achava. O que tinha guardado foi perdido em gastos sucessivos e rápidos, até a miséria absoluta. O rico minerador terminou seus dias como um mendigo. 

Serra do Lenheiro no Alto das Mercês, São João del-Rei, 12/08/2013:
vestígios de mineração - à esquerda um mundéu em quadra; aos fundos, escavações e cascalheiras.

 Créditos

Texto e fotografia: Ulisses Passarelli.

Notas

[1] A exemplo desta afirmação, leia também neste blog: OURO: UM CICLO CULTURAL
[2] Informante: Sr. Aluísio dos Santos, 05/01/1994, Centro, São João del-Rei.
[3] Informante: Sr. Luís Santana, 19/01/1994, Bairro São Dimas, São João del-Rei.
[4] Rabudo: um dos muitos sinônimos do demônio... Tinhoso, cão, bruto, capiroto, pemba, encardido, cramunhão, diabo, coisa ruim, etc. 

- Revisão: 26/10/2025. 

terça-feira, 15 de março de 2016

A Morte do Quilombola

Segue o registro de mais um conto popular, desta feita na modalidade "causo", narrando a passagem de um escravizado fugido, de idade avançada. Paralelo à sabedoria do homem simples, a nota maior é a reflexão sobre a salvação da alma. Foi relatado em São João del-Rei, como sendo muito antigo... 

*  *  *

Diz que foi no tempo do cativeiro, a cento e tantos anos atrás... Certo padre em longa jornada, ao passar à cavalo em um ermo de serra, beirando umas grotas, avistou uma tapera e nela um velho fugitivo das correntes do cativeiro. O quilombola estava em agonia de morte. O padre imaginou que não haveria outra oportunidade e querendo salvar a alma do quilombola, pediu para ele: 

_ Fala: "Jesus, Maria e José!"

Mas o moribundo já muito idoso, pleno em humildade, simplório ao extremo, só conseguiu com dificuldade dizer: 

_ "Cará na maromba tá que nem fubá..."

Tantas vezes o sacerdote pediu ao preto idoso que falasse o nome de Jesus, tantas ele repetia a mesma frase, refletindo sua única ambição, que nem sequer tinha força física para cumprir: colher cará [1] na maromba, um cercado improvisado com varas, pois o alimento estava no ponto da colheita, sequinho, igual fubá. 

E assim entregou-se à morte. O padre, certamente, entendeu que apesar de não ter dito o nome do Salvador aquela alma estaria salva pela misericórdia do Pai, em virtude das agruras que a vida lhe proporcionou e a pureza que conservou consigo. 

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Informante: Aluísio dos Santos, São João del-Rei, jan./1994.

Notas 

- Cará: conhecido por cará-do-ar, cará-de-cerca ou cará-de-pedra é uma planta trepadeira que produz tubérculos comestíveis. Pertence ao gênero Discorea. 
- Revisão: 09/05/2025. 

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Tradições acerca do gato

O gato na cultura popular é o símbolo da esperteza e da rapidez, mas também é entendido como uma criatura sonsa e traiçoeira, capaz de repentinamente mudar de gênio, de calmo para agressivo.

Acreditam alguns congadeiros em São João del-Rei/MG, que o tamborim, se revestido por couro de gato terá uma força muito maior que se fosse com o de boi, garantindo ao capitão que o usa, sagacidade no vencimento das demandas. O gato então é citado num ponto de catupé um tanto provocativo, coligido mesmo nesta cidade, em 1992:

"Eu quero vê!
Eu quero vê!
O pulo do gato, 
caxinguele-lê!"

O sentido é o seguinte: quem canta propõe um desafio ao terno visitante que chega em terra alheia sem a devida humildade _ quem pula melhor, com maior desenvoltura no congado? O "gato" é o congadeiro da terra, de casa, anfitrião; o "caxinguelê" é o congadeiro de fora, do mato, que não é do lugar, que veio de fora. O caxinguelê ou serelepe é um roedor extremamente ágil em seus movimentos.

No campo da crendice é assaz conhecido que gato preto dá azar a quem o ver atravessando o caminho adiante do observador. Igualmente difundido que o gato teria sete vidas, ou seja a faculdade de resistir à morte extraordinariamente. O povo também acredita que o gato transmita bronquite ou mais acertadamente a asma. Por isto não recomendam o contato muito próximo com o animal. Deixar o gato dormir na cama junto com a pessoa facilitaria essa transmissão. No mais há quem coma gatos, reputado como um bom tira-gosto, mas segundo se diz, não se deve chupar seus ossos como se faz com a carne de galinha, por exemplo, posto que a pessoa ficaria com "chieira" igual ao gato, ou seja, com o peito cheio, congestionado, gerando um som semelhante ao ronronado.

A figura do gato como animal doméstico propiciou o surgimento da crença que ele é um animal que teria uma ligação com o mal, o capeta. Talvez esta ideia tenha surgido de sua astúcia, dissimulação, tocaias, enfim, técnicas de sua própria natureza que objetivam sucesso na caça de suas presas naturais. Mas fato é que o povo interpreta estes atributos como sinais negativos [1]

No causo abaixo, de fundo anedótico, esta fama aflora e serve de motivo para o desenrolar da narrativa. Mais uma tradição popular corrente em São João del-Rei. Desta mesma cidade segue ainda uma versão da fábula assaz conhecida "O Pulo do Gato", que também reflete a esperteza do animal. 


O padre ludibriado pelo sacristão

Conta-se que um certo padre criava muitos gatos e o sacristão era encarregado de alimentá-los, mas o fazia muito a contragosto, pois odiava o serviço e mais ainda aqueles animais. Não via a hora de se livrar deles, que lotavam a casa paroquial. 

Fazia de tudo para convencer o sacerdote a acabar com os bichanos, mas sem êxito. Assim sendo, adotou nova estratégia e passou a afirmar que o gato não era bicho de bem, não era de Deus, mas do demônio. Mas o padre não acreditava e mantinha sua criação. 

Certa ocasião o padre precisou fazer uma longa e demorada viagem e deixou a gataiada [2] a cargo do sacristão como de costume. Era exatamente o que ele esperava...Todo dia, o sacristão aproveitando a ausência do vigário, juntava os gatos num cômodo pequeno, todo fechado e começava a gritar forte: "cruz, credo!", "cruz, credo!", "cruz, credo!" E enquanto gritava, batia violentamente com um chicote nos bichos que ficavam apavoradíssimos. Assim fez por vários dias. 

O padre então voltou da viagem e veio logo saber de seus queridos gatos. O sacristão de imediato falou que tinha avisado que os gatos eram do diabo. O vigário desacreditando, supondo uma bobagem, ouviu do sacristão que era só eles ouvirem a expressão "cruz, credo" [3] que fugiam apavorados... O padre quis tirar a prova e o juntou os gatos; o sacristão logo gritou: "cruz, credo!" Os gatos já condicionados pelo mal trato, se desesperaram e fugiram apavorados por todos os lados, miando em tom de desespero. E o padre, crente que o sacristão tinha razão, livrou-se dos gatos, para alegria de seu ajudante.

O pulo do gato

A onça admirava muito o gato por sua grande habilidade em dar saltos. Foi conversar com ele sobre isto e pediu que ele ensinasse a pular de todo jeito, pois precisava dessa habilidade para as suas caçadas. O gato, gentilmente, ensinou.

Passaram dias de aulas até que a lição chegou ao fim. A onça, muito astuta, resolveu armar um bote para pegar e devorar o gato, achando que já sabia de tudo e usando um dos saltos aprendidos com ele. Esperou de tocaia e pulou sobre o gato, com um habilidoso salto mortal. O gato, com extrema agilidade deu uma pirueta espetacular para trás e a onça perdendo o golpe que dera, ficou boquiaberta. Sem ter o que fazer, disse:

_ Ôh, compadre gato, que salto maravilhoso! Esse você não me ensinou...
_ Se eu te ensinasse esse pulo, você me comia!

Assim o gato se foi, deixando a lição que nem tudo a gente ensina...



Grafite inspirado em gatos, pintado sobre parede externa de residência à
Rua Alexina Pinto, na Bela Vista, em São João del-Rei. 03/07/2016. 

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.

Notas 

[1] Estas características despertaram também sua aproximação a alguns terreiros. Nalgumas quimbandas e umbandas o gato é animal votivo dos exus. Há vinte e poucos anos tivemos oportunidade de ver uma caveira de gato no interior de uma casa de força, de um desses terreiros, no Bairro São Dimas em São João del-Rei, como firmeza da linha esquerda. Um ponto cantado alude a esta aproximação:

"Exu ganhou um gato, 
mas não quis comer sozinho, 
dividiu com os camaradas,
pedacinho por pedacinho!
Aí chegou, seu Lucifer,
e a Pombogira,
era homem, era mulher..."

[2] Gataiada: muitos gatos. O sufixo "ada" na formação de um vocabulário popular é sempre de efeito superlativo: "chuvarada" (muita chuva), "dinheirada" (muito dinheiro), "peixaiada" (muitos peixes), etc. 
[3] Cruz, credo!: expressão popular de natureza exorcisória, esconjuro, fórmula verbal de catarse.

- Informantes: José Camilo da Silva, Bairro São Dimas, São João del-Rei, 1992 (caso do padre; ponto do gato com caxinguelê), Luís Santana, Bairro São Dimas, São João del-Rei, 1995 (fábula do pulo do gato). 
- Revisão: 26/10/2025. 
- Leia neste blog outros contos tematizados na suposta negatividade do gato, clicando nos links abaixo:

O GATO MALDITO: UM CONTO DO DEMÔNIO LOGRADO

UM CONTO POPULAR DE FIM TRÁGICO



domingo, 2 de agosto de 2015

São Pedro aprende uma lição

Existem vários contos populares que apresentam São Pedro por personagem principal, sempre figurando-o com certa verve como um santo turrão, mas ao mesmo tempo querido, através do qual o Cristo transmite lições que servem aos demais apóstolos.  Em algumas narrativas aparece também a mãe de São Pedro, verdadeira megera, invejosa dos poderes de Cristo.

Através destes contos o povo também reinterpreta os ensinamentos cristãos com muita liberdade, facilitando o entendimento. A citação específica à figueira estabelece uma analogia com o episódio bíblico da maldição da figueira (Mt 21, 18-22; Mc 11, 12-14, 20-26), uma alegoria da esterilidade daqueles que não frutificavam o ensinamento de Jesus. 

Paralelamente, o povo tem seus tabus com a figueira; não exatamente a produtora de figos com os quais se fazem doces na quadra natalina anual, mas a figueira-brava ou gameleira branca, árvore ligada às entidades espirituais da linha esquerda, árvore da magia e também ao inquice Kitembo.  

Outro curioso paralelo ou quiçá mera coincidência é o caso da orelha [1], que se verá a seguir, é uma plausível aproximação do santo com o episódio da orelha decepada quando da prisão de Jesus: "Um dos circunstantes tirou da espada, feriu o servo do sumo sacerdote e decepou-lhe a orelha" (Mc 14, 47). "Embainha tua espada, porque todos aqueles que usarem da espada, pela espada morrerão." (Mt 26, 52). Outro versículo diz que foi a orelha direita e que Jesus disse: "Deixai, basta. E tocando na orelha daquele homem, curou-o" (Lc 22, 51). Por fim, é o Evangelho de São João que detalha a cena: "Simão Pedro, que tinha uma espada, puxou dela e feriu o servo do sumo sacerdote, decepando-lhe a orelha direita. (O servo chamava-se Malco). Mas Jesus disse a Pedro: Enfia a tua espada na bainha! Não hei de beber eu o cálice que meu Pai me deu?" (Jo 18, 10-11). 

Pois bem. Em minha infância em São João del-Rei, meu avô materno (Aluísio dos Santos, 1923-2004) contava-me em livre interpretação esta mesma passagem, dizendo que São Pedro cortara a orelha do guarda com uma dentada. Foi repreendido por Cristo, que a colou de volta com saliva [2]. Nessa colcha de retalhos se destaca então a animosidade atribuída a São Pedro e os complexos culturais desenvolvidos em torno de temas bíblicos.

* * *

Dizem que um dia, no tempo que Jesus Cristo andava pelo mundo com seus apóstolos, que o Divino Mestre passando por uma figueira, pegou um de seus frutos para comer. Porém, notou que estava podre e então o Messias amaldiçoou a árvore, que imediatamente secou e morreu. São Pedro, indignado, o repreendeu: 

_ "Mas Mestre... por causa de um só figo estragado o Senhor condenou todos os outros bons?!"
_ "Pedro _ disse Jesus _  já não ouviste dizer que os justos pagam pelos pecadores?"

O apóstolo não aceitou o ensinamento, mas também não retrucou mais. Calou-se e foram embora pelo caminho afora. 

Adiante, junto a uma árvore, um marimbondo picou São Pedro bem na orelha, que ficou inchada, vermelha, doendo muito. Repleto de raiva, ele pegou uma vara comprida e prendeu em sua ponta uns panos velhos, providenciando desta forma uma tocha. Com ela, meteu fogo no vespeiro e assim matou todos os marimbondos da colônia. Jesus, vendo aquilo, disse:

_ "Uma só vespa te ferroou e mataste a todas! Não te disse, Pedro, que os justos pagam pelos pecadores..."

E assim , partindo em jornada, São Pedro aprendeu mais uma lição. 

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Informante do conto: Joaquim Maia Filho, São João del-Rei/MG, 20/04/2000. 

Notas 
- Revisão: 07/09/2025. 

[1] A orelha na cultura popular indica simbolicamente longevidade. Ter orelhas grandes é sinal de vida longa. Se na noite de São João, ao se contemplar o reflexo de si mesmo nas águas de alguma fonte ou rio, se avistar apenas uma orelha, é sinal de vida curta ou de morte de alguém muito próximo, até da família mesmo. Orelha mole, com arcabouço cartilaginoso flácido é indicativo de preguiça no entendimento do povo. Já no campo do pejorativo, orelha grande é alegoricamente imagem da burrice, lentidão de raciocínio. Assim é corrente em São João del-Rei, mas certamente são tradições conhecidas em muitas outras terras.
[2] Saliva é o elemento mágico por excelência, tido como de alto poder curativo nas crenças populares, a qual seria capaz até mesmo de gerar curas, conforme a maneira como é aplicada. A saliva contém parte da energia do hálito criador. Assim também, uma magia inferior feita contra alguém utilizando-se de gotas de sua saliva, gera profundos transtornos na vítima. Para isto utiliza-se de talheres e copos que a pessoa usou, antes de serem lavados, pois ainda contém resíduos de sua saliva no ponto onde colocou a boca. 

domingo, 14 de junho de 2015

Canta, canta, meu surrão!

O picuá e o Homem do Saco

O mineiro, muito desconfiado por natureza, tem receio dos andarilhos. Deduz que possam ter cometido algum delito em terras distantes e fugido, aparecendo localmente como um pobre coitado, pedinte, mas na verdade pode ser um criminoso.

Em vista deste temor logo se ensina às crianças para afastarem-se dele, pois faria mal a elas e em sua figura, mitificou um personagem do imaginário popular chamado Homem do Saco. Numa visão mais ao viés da folclorística, o Homem do Saco é um mito que pertence ao Ciclo da Angústia Infantil. As narrativas o descrevem andrajoso, sujo, cabelo e barbas grandes, ensebados e desgrenhados, olhar sombrio, quase sem vida, andar lento e trôpego, fala pouca ou nenhuma... Jogado sobre os ombros e pendente nas costas, um saco encardido cheio de trastes, no meio dos quais mete crianças teimosas, "rueiras" (que só gostam de ficar fora de casa), desobedientes. Leva a criança no saco, para algum lugar ermo, onde a mata e devora. Eis o mito. E que pavor provoca nos pequeninos! Quando suas peraltices extrapolam, logo surge alguém para falar do tal homem do saco que já vem pegar o pequeno. E logo como que uma sombra se abate sobre o semblante pueril e os ânimos esfriam. Foi então muito fácil personificar o mito na figura do pobre mendigo, ainda que o fato em si só aumente a discriminação. 

Independente de ser um morador de rua, qualquer estranho andando com um bolsa às costas já é alvo de suspeitas e temor por parte do povo interiorano. "Cuidado com esses homem de picuá nas costas...", logo sentenciam. Picuá é um saco pequeno, cuja boca tem uma corda de correr, embainhada, que faz fechar sua entrada e serve também para se pendurar às costas para transporte, à tiracolo ou em diagonal, trespassando o peito. Viajantes sem rumo certo, vindo de terras distantes carregam os poucos pertences no picuá, daí se ter cisma de acudir pedidos de homem com picuá às costas, símbolo de gente suspeita, quiçá de má índole. A roupa boa ou razoável, a higiene e a boa prosa não enganam: homem de picuá nas costas não merece confiança ... É o que reza a cartilha da cultura popular. 

E no afã de ensinar essas coisas aos filhos, netos, sobrinhos, qualquer criança enfim, os mais velhos saíam com narrativas lendárias. Uma delas, assaz conhecida Brasil afora é a do "homem do surrão" (surrão valendo saco ou picuá; bolsa rude), aliás muito antiga. Frade (1986) publicou duas versões do Estado do Rio de Janeiro. Rodrigues (1977) registrou uma versão a mais de um século, com o nome de "A menina dos brincos de ouro", dizendo-a conhecida na Bahia e Maranhão, que em linhas gerais é a seguinte: uma menina ganhou da mãe uns brincos de ouro. Quando ia na fonte se banhar e buscar água numa cabaça, tirava-os e os deixava sobre uma pedra, até que um dia, ao chegar em casa, deu pela falta dos brincos. Havia esquecido na pedra. Com medo da mãe xingar pois era brava, voltou à fonte para buscá-los, mas foi capturada por um velho mal, que a meteu num saco (surrão), costurou a boca do mesmo para ela não fugir e disse-lhe que ganharia dinheiro com ela. De casa em casa, dizia que seu surrão era mágico, que cantava sozinho quando ameaçado de pancadas com o bordão (porrete, bengala, escora do velho). A menina no interior, com medo das batidas do bordão cantava. Então o homem do surrão ganhava algum dinheiro pela apresentação "mística" e partia para outra paragem. A sua fala era a seguinte: 

"Canta, canta, meu surrão, 
senão te meto este bordão."

E a menina muito triste cantava dentro: 

"Neste surrão me meteram,
neste surrão hei de morrer,
por causa duns brincos d'ouro
que na fonte eu deixei."

Ocorre que um dia ele foi levar o surrão para cantar justo na casa da mãe da menina, que reconheceu a voz dela. Usou então do estratagema de agradar ao estranho, dando-lhe de comer e beber com toda hospitalidade e sendo tarde o convenceram a dormir naquela casa. Durante seu sono pesado, abriram o saco, tiraram a menina já muito debilitada e encheram o surrão de excrementos. Logo cedo ele acordou, pegou o surrão, pôs nas costas e se foi. Na primeira casa que parou, mandou o surrão cantar e nenhuma voz saiu. Mandou de novo. Nada de cantar. Meteu o porrete no surrão repetidas vezes até rebentá-lo e o estrume caiu no chão revelando como fora ludibriado, o que o deixou furioso.

Pois bem, também aqui foi conhecido este conto, a que Nina Rodrigues creditava a procedência africana. Tem uma versão local, ouvida em Santa Cruz de Minas [1]. A estória se processa de forma quase idêntica, diferenciando apenas por alguns detalhes. A menina ganhara dos pais uma pulseira de contas de ouro e ao esquecê-la na pedra da fonte, teimou com a mãe e foi buscá-la, apesar da hora já imprópria. Então o restante se processa igual. Apenas os dizeres dos personagens é que mudam. Assim, o homem anuncia: 

"Canta, canta, meu surrão,
meu bordão eu te darei..." [2]

E a criança no saco (surrão) cantava lamuriosamente: 

"Continhas de ouro... vidinha,
que lá na fonte deixei!"

O excremento da versão nordestina com que enchem o saco ao tirar a menina, aqui é expressamente citado como esterco seco, de cavalo.

Referências 

RODRIGUES, (Raimundo) Nina. Os africanos no Brasil. 5.ed. São Paulo: Nacional, 1977. Coleção Brasiliana, v.9. 283p.il. p.191-192.

FRADE, Cáscia. (Coordenação). Cantos do Folclore Fluminense. Rio de Janeiro: Presença / Secretaria de Estado de Ciência e Cultura / Departamento de Cultura / INEPAC / Divisão de Folclore, 1986. 234p. 

 Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.

Notas 

[1] Informante: Maria Aparecida de Salles, 08/06/2015, lembrança fragmentária, de narrativa ouvida na infância por meio de sua mãe, Elvira Andrade de Salles. 
[2] Obs.: outra informante local descreveu o dístico do velho do surrão nessa variante: "Toca, toca, meu surrão, / bom bordão eu te darei..."

- Revisão: 19/07/2025.  

quarta-feira, 15 de abril de 2015

O demônio logrado por São Benedito

Nesta postagem o popularíssimo São Benedito volta à cena, agora no contexto da literatura popular oral. Exemplo de homem cristão, querido pelos escravizados no passado, padroeiro dos congadeiros de ontem e de hoje, de origem humilde e descendência africana, é extensamente presente em diversas manifestações folclóricas em todo o Brasil.

Os dois contos aqui expostos trazem em seu bojo uma série de elementos tradicionais e típicos do gênero do "demônio logrado", como por exemplo, a forma de desaparecimento do capeta, sob uma explosão, deixando um rastro fedorento de enxofre e fumaça. Ainda cita a tripa do Judas, outra simbologia, significando a entranha do mal, o âmago daquilo que é ruim.

Quantas vezes ouvimos em São João del-Rei a estória do Homem do Pé de Pato... Não é do mesmo gênero mas compartilha elementos. A moça que abusasse e na quaresma se atrevesse a ir em um baile, seria abordada por um moço desconhecido, de grande beleza, muito bem vestido, com requinte e elegância, que a convidaria para dançar. No meio da dança, enlevada pela sedução do jovem, a moça cairia em si estupefata, em crise de desespero ou desmaio, porque ao olhar para os sapatos de seu par via para seu espanto, que eram pés de pato... O moço era o demônio, que então sumia num repentino estouro de fumaça e fedor, ou apenas se esvaía como neblina. Noutra versão corrente na mesma cidade, com o mesmo desenvolvimento e mudança só no desfecho, o belo jovem comete a deselegância de dançar de chapéu à cabeça e só pelas tantas o tira, quando acontece o mesmo choque, posto que tem chifres.

Aqui também vemos o repisamento da tentação, o diabo laçando pela aparência física, o flerte, a sedução sobre a jovem incauta.

Típico dos contos do demônio logrado é a solução inesperada para o caso, uma situação que supera a sagacidade do mal: no conto A Velha do Chinelo, por exemplo, exposto neste blog, o demônio também se materializa como cavaleiro e a solução é pela armadilha do falso testemunho; já nos dois casos abaixo, a solução se dá por um atoleiro e ainda pelo mesmo artifício do jovem sedutor, bonito, charmoso, só que desta feita pelo lado do bem, impedindo a aproximação do mal.

A didática ou antes catequese desses contos é notória. Usando de uma linguagem ao agrado da cultura popular e de uma dramatização folclórica, contextualizada em um ambiente que simula ou sugere o rural antigo, ambos os contos de alguma forma alinham pelo exemplo os elementos devoção-tentação x racismo-discriminação.

Tem que ser entendidos e lidos à luz do folclore, a cujo campo pertencem. O ensinamento transmitido é que o racismo e a discriminação não são de Deus. São obras do mal, demoníacas. A beleza e o caráter do homem preto superou o do homem branco e cativou a moça devota. Sua devoção era tamanha que o santo, pressentindo seu perigo, veio em socorro, sem precisar que ela pedisse. A lealdade dela ao grande taumaturgo garantiu que saísse ilesa.

Em momento algum os contos transmitem mau exemplo, nem pelo linguajar. Pelo contrário, combatem o racismo e a discriminação. Provam que a virtude sob a forma de um homem preto foi muito mais forte que a artimanha do contrário. Com seu enredo atraente passam o recado da necessidade de forte devoção, do valor e beleza da negritude, do poder do santo, da retidão de conduta do fiel e da malícia que o diabo possui e usa.

Diante do exposto, segue-se dois contos desse gênero, coligidos há década e meia, em Santa Cruz de Minas. 

São Benedito: pintura de arte popular numa bandeira de congado (catupé),
de São Sebastião da Estrela (Santo Antônio do Amparo/MG), 30/06/2013. 

1) Uma moça muito bonita ia se casar e o diabo quis atrapalhar. Tomou a forma humana e montou um cavalo muito bem arreado, com fivelas metálicas brilhantes. Vinha como um rapaz bastante elegante na vestimenta, belo e charmoso. 

A noiva era muito devota de São Benedito e pediu a benção dele para seu casamento. O santo ouviu a súplica e vendo-a em perigo pela armação de satanás, tratou de impedi-lo. Fez o cavalo dele tomar outro rumo e atolar num brejo de forma que não pudesse sair. Não podia descer para não sujar a roupa de barro. Pelejou para desatolar e não conseguiu. 

Enquanto isto, o casório aconteceu. Terminado o casamento, voltando os convidados, ao passarem pela estrada, o demônio disfarçado de jovem perguntava: 

"_ Vocês viram o Benedito?" 
  _ Não ..."

 E o coisa ruim resmungava palavras ofensivas.

Quando os recém-casados estavam em segurança o santo finalmente apareceu ao tinhoso [1] e deu ordem de desatolar. O cavalo saiu do brejo na hora e o santo falou:

"_ Não vai atrapalhar ninguém! Vai-te estourar nas tripas do Judas e feder a enxofre nas profundas dos infernos!"

Então aconteceu um estouro fumacento, com cavalo e capeta, sumindo tudo para o inferno. 

Andor de São Benedito. Festa do Rosário, Ramos (Ritápolis/MG), 24/09/2000. 

2) Uma moça era bastante devota de São Benedito. Ela gostava muito de baile, danças. Era ocasião de uma quadrilha, tempo de festas juninas. O diabo estava por perto, na espreita, espiando por umas gretas [2]

Ela dançava de forma inocente e ele cismou de perverter a moça. São Benedito, pressentindo o perigo que a jovem corria e considerando sua grande devoção, apareceu no baile para protegê-la. Veio na forma de um rapaz preto e o demônio por sua vez como um rapaz branco. 

O jovem preto logo se aproximou da moça e a pediu para dançar, se não tivesse preconceito. Ela agradando muito dele, aceitou de imediato e assim bailaram a noite toda. O diabo nada pode fazer e o santo, através de seu poder, afastou dali o capeta, que logo foi embora do baile e assim a moça foi salva. 

Créditos

-Texto e fotografias: Ulisses Passarelli. 
- Informante: Elvira Andrade de Salles, Bairro Córrego, Santa Cruz de Minas/MG, 27/08/2000.

Notas

[1] Tinhoso: o demônio. Talvez o ódio do povo contra ele, a vasta mítica desenvolvida pela cultura popular ao seu redor, geraram uma vasta sinonímia, acrescida por novos termos em cada região: bruto, encardido, capiroto, pemba, coisa ruim, "malino" (maligno), cramunhão,cariá, etc.

[2] A informante dizia que o diabo tem licença para atentar em três situações: no ato de uma jogatina (jogos de azar), numa dança de quadrilha e onde tem cisco parado. Nesta última situação se a pessoa ao varrer juntou o lixo num canto e não pôs na lixeira ou para fora numa pá, surgem inesperadamente, discussões, desentendimentos sem qualquer motivo. É o maligno atentando. 

- Revisão: 17/06/2026. 

- Leia também neste blog:

O GLORIOSO SÃO BENEDITO 
GUNGA SERENA!

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Coelho: o esperto bicho de nossas fábulas

Os coelhos são mamíferos da ordem Lagomorpha, família Leporidae. O coelho doméstico não é nativo do Brasil. São animais introduzidos a partir do Velho Mundo, pertencendo a vários gêneros [1] não existentes no Novo Mundo. A criação pelo homem selecionou raças de interesse comercial. No Brasil o coelho nativo é outro roedor, que embora da mesma ordem e família, pertence ao gênero Sylvilagus, com 17 espécies e várias subespécies nas três Américas, sendo a nossa Sylvilagus brasiliensis. Obviamente que sua semelhança ao coelho domesticado trazido pelo europeu, fez com que de imediato fosse também batizado igualmente pelos portugueses. Virou, então, "coelho do mato". Mas da língua indígena herdou o nome de "tapiti", que significa "barriga branca", alusão a uma característica da pelagem do animal [2]. Também é conhecido por "candimba", um africanismo, derivado do idioma quimbundo, kandemba [3].

Coelho do mato, tapiti ou candimba, na cultura popular é o animal símbolo da esperteza, da sagacidade. Nas fábulas, vence a força brutal e a ferocidade da onça e do lobo-guará e até mesmo as armadilhas humanas. Figura lépido em inúmeras estórias, gerando um ciclo temático no fabulário, corrente aliás noutras partes do mundo com os demais coelhos e lebres. 

Está também no canto do jongo-de-roça, entoado durante os mutirões de capina, como estes exemplos do município de Resende Costa [4]

"Chorei, mamãe! 
Ai, chorei, papai! 
Candimba, vai! 
Candimba, vai!” 

Outra: 

“Ô candimba! 
Arruma a mala 
vai embora, 
ô candimba!” 

A cantiga como se vê celebra o fim da capina: o coelho vai embora para outra paragem onde o cuidado com a roça não chegou, pois esta foi capinada!

Assim a cultura popular vai construindo com singeleza seu saber no convívio com a natureza. Por meio de cantos e fábulas, uma geração transmite à outra as características de um animal, contextualizadas à criatividade do imaginário folclórico.

Coelho do mato, tapiti ou candimba.

Créditos

-Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografias: Iago C.S. Passarelli, 27/09/2014.

Notas 

[1] Wikipédia, verbete "Coelho" (acesso em 13/01/2015). Para apreciação dos gêneros ver também: Mamíferos do Mundo.
[2] Eurico Oliveira ensina que o nome procede do tupi-guarani, de "ta"= pelo, "pi" (pia) = barriga, "ti" (tinga), branco. In: Entre o gambá e o macaco. Belo Horizonte: Itatiaia, 1984. Coleção Zoologia Brasílica, v.6.
[3] Wikipédia, verbete "Tapiti" (acesso em 13/01/2015).
[4] Originários da comunidade de Cubango. Informante: José Camilo da Silva, 1993.

- Confira pelos links abaixo algumas fábulas já publicadas neste blog, que envolvem o coelho:
- Revisão: 24/10/2025. 

sábado, 29 de novembro de 2014

Duas lendas da Lagoa dos Cordões

Na margem do Rio das Mortes, ao longo de sua várzea, formam-se algumas lagoas nos rebaixamentos, anualmente renovadas pela invasão das águas fluviais da cheia do rio. Em Santa Cruz de Minas algumas aparentemente menos significativas não receberam nomes próprios; mas outras, por peculiaridades específicas, foram nominadas: Lagoa do Cará (nome de várias espécies de peixes ciclídeos), Lagoa Vermelha, Lagoa Comprida, Lagoa do Cascalho e Lagoa dos Cordões (ou dos Sete Cordões), esta, a maior e mais profunda.

As margens da Lagoa dos Cordões eram pontos de lazer, sempre frequente de se ver banhistas e pescadores. Também difundida no meio popular duas narrativas assombradas para aquelas águas, além das tradicionais estórias do caboclo-d'água, que dizem surgir ali também.

Vejamos, resumidamente, as duas lendas: 

A Noiva Encantada

Dizem que, vez por outra, alguém vê, de repente, uma noiva andando cabisbaixa na beirada da Lagoa do Cordões. É logo reconhecida por seu vestido branco matrimonial. Sua fisionomia expressa tristeza e em breve desaparece como uma bruma matutina. 

Narra-se que, certa feita, fazem muitos anos, uma jovem fora obrigada pela família a se casar com um homem que não gostava de jeito nenhum. Muito contrariada, fugiu correndo do altar e no auge do desespero atirou-se na Lagoa dos Cordões, onde morreu afogada. 

Sua alma infeliz vagueia por lá, entre água e terra, entre dois mundos, aparecendo eventualmente como se pedisse socorro através de sua tristeza.  

Tropa do Além

O povo acredita que nas margens da Lagoa dos Cordões, a altas horas da noite, aconteça uma assombrosa manifestação: ouve-se ao longe cavalos relinchando, muitos, e um intenso tropel, e um homem a gritar como que campeando os animais.

Os cavalos se aproximam e se reconhece pelo aumento da nitidez do barulho a sua chegada, cada vez mais marcante. O corpo então arrepia, anunciando que aquilo é coisa de outro mundo...

E surge a visagem: uma tropa de cerca de quarenta cavalos, absolutamente brancos, tangidos pela alma de um só peão, que brada tocando animais fantasmagóricos.

 Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.

Notas 

- Informante: diversos, Santa Cruz de Minas, 1994.
- Revisão: 13/10/2025. 

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O Lençol da Falecida

Antigamente, nos enterros de roça, não usavam caixão, como hoje. Quando morria alguém nos sítios e localidades humildes, um parente ou amigo mandava um mensageiro sair às pressas até um carapina para encomendar um caixão. Pela noite os homens trabalhavam na banca - faziam o caixão e o revestiam de pano roxo e galão amarelo ou dourado. O defunto vinha da zona rural de padiola, espécie de estrado improvisado sobre varais de madeira, coberto por um lençol, sempre branco. 

Na entrada da cidade ou vila onde houvesse cemitério, os fabricantes do caixão estavam esperando com o macabro produto de seu trabalho. Ali o cortejo fúnebre parava e transferiam o corpo respeitosamente para o caixão. A padiola era jogada fora no mato e o falecido entrava na área urbana mais bem posicionado no caixão. 

Ocorreu certa vez, fazem muito anos, que na zona rural de Bias Fortes faleceu uma mulher já madura de idade, por nome ... Naquele dia um cavaleiro tinha ido à cidade e voltava já tarde para a roça, fora de hora, se guiando pelo caminho graças ao clarão da lua cheia. 

Em dado ponto do caminho, próximo à casa da falecida, viu um lençol branco estendido no chão do caminho. Estranhou... Foi chegando perto, o lençol alçou voo, rente ao solo, caminho afora, aparentemente lento. Mas o homem era abusado. Queria tirar a limpo aquele caso misterioso: impôs galope à montaria e tanto mais corria, mais rápido o lençol voava tremulando. A ideia do cavaleiro era açoitar o lençol.

Emparelhado à casa donde saíra a falecida, o lençol desceu morro abaixo e pairou na frente da porta da cozinha. Ali, como que por encanto desapareceu, deixando estupefato o cavaleiro, que enfim se certificou que o lençol não era uma brincadeira de algum gaiato que o puxava amarrado a um cordão, mas sim, uma aparição sinistra da alma daquela mulher que morrera e que ainda não fora encaminhada para a salvação.

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli
- Informante: José Cândido de Salles, Santa Cruz de Minas, setembro/2000.

Notas 

- Obs.: o causo do lençol branco que voa, simbolizando uma alma, tem difusão além da área desta narrativa. Na estrada do Caburu, por exemplo, em São João del-Rei, quase chegando na vila de São Gonçalo do Amarante, existe, à beira da estrada, à direita de quem vai para aquele distrito, uma antiquíssima passagem de uma velha cava, caminho de outrora, trilhado por cavaleiros, boiadeiros e tropeiros. Ali existe a "Porteira da Volta", com fama de assombrada, onde, dizem, os incautos são perseguidos por um lençol esvoaçante (inf.: Dorival Caim de Paula, outubro/2014). Esta cava é parte do caminho antigo de São João a São Gonçalo, via Águas Gerais e possivelmente um trecho do Caminho Geral do Sertão, contemporâneo do movimento sertanista. 

- Revisão: 08/04/2026. 

terça-feira, 11 de novembro de 2014

A lição da miserável

Ela era muito sovina. A fulana se comportava como uma mulher usurária, que não aceitava dar nada a ninguém; "garrafinha", como se diz. Nem ao seu cachorro de estimação deixava uma migalha. O que o pobre animal angariava era apenas um pouco de comida que comia às escondidas de sua dona, além do que catava de comer pelas ruas. 

Certa ocasião a mulher estava amassando angu para comer e o seu cão muito magro, logo abaixo da mesa, babava e fazia expressão de muita fome, com os olhos esbugalhados na direção do prato. Mas sua dona não percebia nem compadecia. Amassava o angu mecanicamente, olhando para fora pela janela. 

Quando enfim voltou os olhos ao prato, se assustou muito: ela deu um salto para trás e deixou cair o garfo... O prato estava banhado de sangue! Como um aviso divino para frear seu mau hábito de mesquinharia, os olhos do cachorro tinham saltado fora das órbitas para dentro do prato, de tanta vontade de comer, e a mulher os havia amassado junto com o angu...  

O vira-latas. 

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografia: Iago C.S. Passarelli, 2014.
- Informante: Elvira Andrade de Salles, Santa Cruz de Minas, 1995.

Notas 


- Revisão: 03/02/2026. 
- Obs.: outra narrativa colhida na região assemelha-se a esta ao envolver um dono mesquinho e o cachorro de estimação, com um aviso sobrenatural, que partiu do próprio animal. Leia em:

LUGAR ONDE O CACHORRO FALOU


sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Causos sobre vacas

Nesta postagem expõe-se dois curiosos causos envolvendo vacas.

O primeiro é uma transcrição jornalística [1] de matéria publicada em São João del-Rei, 112 anos atrás. Teria acontecido no distrito de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno. A grafia foi atualizada. Narra o castigo divino que caiu sobre um sitiante que usurpou a vaca de outro. É explicitamente o reflexo do pensamento da cultura popular acerca da justiça divina. Estórias assim se repetem como exemplo moralizante, uma lição, e como tal, assumem finalidade quase catequética.

O segundo causo é anedótico e se passa com uma Folia de Reis rural, que rumou à casa de um potentado político do sertão, um "coronel", como se dizia outrora, título não militar, de cunho honorífico, aplicado a ricos comerciantes e latifundiários, em geral poderosos e violentos, impondo seu domínio pela força de armas na mão de capangas. Sabe-se que essa narrativa em pequenas variantes aparece noutras regiões [2].  

Detalhe de uma pintura popular sobre um latão de leite de 50 litros.
São Miguel do Cajuru (São João del-Rei/MG).

1- "Deu-se há dias neste distrito um fato, que muito tem impressionado esta população. Eis o caso: um sitiante vizinho foi a casa de outro e lá, com extrema brutalidade, insultou-o muito, insultou a própria família do mesmo, contando com o gênio excessivamente pacifico do insultado. Tudo isto fez por causa de uma vaca que dizia ser sua e que afinal de contas não era. Ao retirar-se garboso, tocando a vaca que dizia ser sua, o fazendeiro insultado disse-lhe apenas estas palavras: "a vaca não é sua mas pode levá-la que Deus cobrará por mim." Em tal hora essas palavras foram ditas que os anjos disseram _ "amém". Dois dias depois disso, sem chuva alguma, céu claro e sem nuvem, estronda um corisco e cai uma faísca no meio do gado do sitiante, e dessa feita, morreram seis vacas, das melhores. O sitiante vai mudar o gado de pasto e outra rês cai num desbarrancado. Dias depois morrem mais duas vacas atoladas, quase em frente à casa do sitiante usurpador. A providência cobrando as injúrias lançadas à família do outro! E assim vai o bruto pagando, e com juros a vaca tirada. Este fato verdadeiro e real muito nos tem impressionado aqui."

Fotomontagem contendo recorte do jornal O Combate,
n.154, 01/03/1902, que narrou o causo da vaca no distrito. 

2- Aí por esses ermos entre montanhas, foi há muito tempo, que uma Folia de Reis, simplória, própria das roças, estava em jornada por léguas, visitando sitiantes e fazendeiros, tendo à frente sua bandeira sagrada. A bandeira era muito humilde, feita de um pequeno pedaço de pano vermelho, já surrado pelo tempo, com alguns enfeites e o registro (estampa) dos Santos Reis. Vinha presa numa vareta de bambu, pela qual o bandeireiro a carregava respeitosamente. Iam de visita à casa de um "coronel", onde todo ano passavam com a folia e pousavam. Ele gostava demais e se sentia muito ofendido se sua casa não fosse visitada. Como era muito bravo e influente, ninguém ousava desagradá-lo, como manda-chuva do sertão que era. Deu-se, que o calor cruel e o cansaço da longa caminhada os fez prostrar sob uma frondosa árvore no meio de um pasto. Tinham almoçado de pouco e não teve jeito... Amontoaram os instrumentos junto ao tronco e puseram a bandeira por cima para abençoar, como de costume. Deitaram na grama mesmo, se acomodando como deu. Cochilaram. Por ali pastavam umas reses e não é que, com o paradeiro dos folieiros, naquele mormaço, foram se aproximando e uma vaca mais afoita, atiçada pelo pano da bandeira balançando a ponta ao vento, meteu-lhe a boca e começou a comer a bandeira da folia. Quase no fim, ao puxá-la com os dentes, a vareta de segurar derrubou os instrumentos e foi aquela barulhada de pandeiro rolando, caixa tombando, cavaquinho estatelado na macega. Os folieiros acordaram assustados e um gritou: "a vaca  tá comendo a bandeira!" e correu para acudir, mas como só estava uma ponta de fora, ainda fez cabo de guerra com a vaca, mas ela levou a melhor e acabou engolindo tudo. Só sobrou o pauzinho de segurar, ou melhor, o bambu, com umas fitinhas desbotadas na ponta. Entreolhando-se decepcionados e preocupadíssimos, logo se puseram a discutir o que fazer, ante tão embaraçosa situação: "vamos embora para casa", diziam uns; "não, vamos ao coronel assim mesmo, que se faltar lá ele manda até capanga perseguir a gente...", diziam outros. Não havendo consenso, ordenou o folião: "o jeito é ir na fazenda do coronel. Lá não pode faltar... A gente explica com jeitinho." Pois, foram. Na chegada, o homem que estava de espera, olhou espantado para o grupo, dando pela falta da bandeira, situação inimaginável para uma folia... O bandeireiro na dianteira, muito sem graça, cabeça baixa, segurava a vareta com fitas. O mestre, com a viola em punho, sem saber como explicar em seus versos o acontecido, se saiu com este improviso: 

"Meu senhor dono da casa, 
não repara o que aconteceu: 
dai esmola pra vareta,
que a bandeira a vaca comeu..."


Créditos 

- Texto e fotografia (2013): Ulisses Passarelli.

Notas

- Revisão: 07/08/2025. 
____________________________________________________________

[1] Fonte: O Combate, n.154, 01/03/1902, São João del-Rei. Acervo da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida.

[2] Informante da versão local, transcrita nesta postagem: Sebastião Teodoro da Silva ("Tião Domingos"), 2004, Vila João Lombardi - Bairro das Fábricas, São João del-Rei. Era folião, natural do distrito de Emboabas (in memoriam)

domingo, 26 de outubro de 2014

O gato maldito: um conto do demônio logrado

Certo dia, um homem apareceu em casa com um gato e estava muito feliz por ter encontrado o bicho. Entregou-o à esposa e pediu que tratasse dele. Foi trabalhar. A mulher cuidava do felino e o gato sempre comia a fartar, mas todos os dias quando o marido chegava da labuta, o gato vinha ronronando, se esfregava na calça do dono e miava muito como se estivesse com fome. 

O homem começou a se chatear com a mulher, acusando-a de não alimentar o animal, pelo qual tinha tanta estima. Achava uma covardia deixar o bichano passar fome e ela se defendia dizendo que o tinha alimentado bastante. O marido não acreditava porque o comportamento do gato era de quem estava com muita fome. Assim a discórdia do casal aumentou dia a dia por causa do gato, a ponto do marido agredir a mulher. 

Foi então, que, certo dia, o homem passando por baixo de uma ponte escura e deserta ouviu vozes debaixo da mesma. Foi espiar e admirou ao ver vários capetas em reunião, contando os seus feitos malfazejos daquele dia. E ouviu um dos diabos dizer: 

"_ ultimamente tomei a forma de um gato e causo brigas entre um casal, porque o homem, ao voltar do serviço, acha que a esposa não deu comida para mim."

O homem trabalhador voltou apavorado para casa e foi se preparar para o gato maldito. Empilhou lenha para fazer uma fogueira e arranjou um cordão bento de São Francisco. Quando o gato apareceu ele o pegou de repente e amarrou as patas com o cordão. Jogou o gato ao fogo dizendo firmemente à mulher que não interferisse que ele sabia o que estava fazendo. Foi então que se ouviu um forte estouro que marcou o desaparecimento do tentador. A partir de então o casal voltou a viver bem, com paz e união. 


Demônio. Parte de um painel pintado na parede direita da nave
da Igreja de Santo Antônio. Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno
(São João del-Rei/MG)

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografia: Iago C.S. Passarelli, 19/10/2014.

Notas 

- Informante: Elvira Andrade de Salles, Santa Cruz de Minas, 1994.

- Obs.: este conto se enquadra na categoria das narrativas do "demônio logrado", quando as artimanhas malignas são superadas pela sagacidade humana. Conserva elementos folclóricos tradicionais, quais sejam, temas e fórmulas típicas: o gato como animal negativo (paralelo com sua preguiça e dissimulação - atributos do mal); satanás atentando um bom casamento para destruir a união; o cordão bento de São Francisco de Assis como amuleto capaz de amarrar e rebater o malefício; o fogo como elemento de catarse, purificação; a explosão como fórmula clássica de desaparecimento do demônio expulso. Em seu bojo, o conto transmite o ensinamento religioso de que a tentação vem muitas vezes sob aparências inocentes e chega sem avisar, sendo necessário, como ensinou o Divino Mestre, vigiar e orar. 

- Revisão: 03/08/2025. 

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Os três irmãos

Era uma vez um homem rico e já velho que tinha três filhos, por nome Antônio, Pedro e Joãozinho. Resolveu repartir a herança ainda em vida para atender ao pedido de Pedro. Arrumou a papelada, vendeu os terrenos e apurou o dinheiro. Nisto, os filhos já conversavam entre si sobre viagens, pensando em correr o mundo.

O pai os chamou à beira da cama e perguntou a cada um se queria muito dinheiro e pouca bênção ou muita bênção e pouco dinheiro. Joãozinho respondeu: _eu quero dinheiro também, mas eu quero mais é benção.

Aí perguntou ao Pedro, que respondeu: _ benção eu quero muito pouco, eu quero mais é cobre.

Antônio ficou equilibrado, no meio a meio: _ o senhor me dá dinheiro e um bocado de benção.

Seguiram os três, mundo afora. Num certo ponto da trilha depararam com uma encruzilhada, que dividia em três caminhos. Ali se despediram, combinando parceria de ajuda em qualquer questão e em todo tempo, bastando chamar. Cada um tomou um rumo diferente.

Joãozinho carregava um cavaquinho encantado. Seu som irresistível punha todos a dançar. Chegou num alto de morro, já bem distante, resolveu afinar o instrumento musical. Experimentou, começou a tocar animadamente e seu som ecoava muito longe. Tinham umas lavadeiras numa bica d’água. Largaram de lavar roupa e começaram a dançar. Em redor da cidade as mulheres dançavam; até no palácio, a filha do rei rodava no salão, empolgada a dançar. Sua majestade dançou com a rainha. E o cavaquinho mágico lá, naquela distância, do topo de um morro tinindo as cordas ...

Então o Joãozinho entrou na cidade com seu cavaquinho. Muito bem vestido, a princesa logo gostou dele. Rapaz simpático, alegre, tocador. Ela quis casar com ele. O pai fez gosto, mas impôs três condições, que se cumprisse permitia o casamento, caso contrário, mandaria degolar Joãozinho.

O rei falou ao pretendente: _ Vou te dar uma empreitada: hoje, às seis horas da tarde eu vou ajeitar tudo. É um negócio para você separar...

Chamou um jagunço e pediu para trazer muita areia e nela mandou misturar bem uma porção de ouro fino e entregou para o Joãozinho escolher. Tinha de separar tudo, grão por grão de ouro. A tarefa parecia impossível, mas o rapaz tinha seu recurso: toda vez que ia comer alguma coisa, sempre que via uma formiguinha punha um tanto de comida para ela. E sempre dizia para toda formiga que ele tratava: _ óh, formiga, o dia que eu precisar de você, vê se me vale, viu?

 Daí ele se lembrou das formigas e depois que o rei deitou, que bateu aquele silêncio, era nove horas, ele entrou em serviço. Joãozinho resolveu chamar as formigas como de costume e conversou com elas: _ ôh, rei das formigas, pelo amor de Deus, ajuda escolher esse ouro aqui da areia! E as formiguinhas começaram rápido. Carrega daqui, carrega dali; quando clareou, estava tudo separado em dois monturos.

O rei veio olhar o serviço, admirou: _é ... vai dar casamento com a minha filha. Mas agora tem outro serviço. Tem uma mata ali e dentro uma pedreira e atrás dela tem uma cidade. Do meu palácio eu não avisto a cidade por causa das árvores. Para casar com a minha filha você tem de descobrir aquela cidade para mim. Quando eu levantar nove horas do dia eu quero avistar aquela cidade tudo lá...

Joãozinho ficou pensativo: “Nossa Senhora, sô...”, aí lembrou dos irmãos. Tinham tratado de um ajudar o outro. Chamou Pedro e Antônio e eles vieram montados nos seus cavalos encantados, que se chamavam Arranca-toco e Ventania. Explicou o serviço para os irmãos e ficou combinado assim: o cavalo Arranca-toco dava cabeçada nas árvores, derrubando-as e o Ventania soprava, soprava... e as pedras rolavam. Um irmão falou para o outro: _ calma, gente, devagar! Senão agente acaba muito cedo...

O rei levantou cedo e a cidade estava lá... : _ Nossa Senhora! O homem casa com a minha filha mesmo... Não tem jeito não.

Mas tinha um casal de feiticeiros e o rei tratou com eles de dar um jeito no Joãozinho. Eles pensaram e então resolveram encarangar ele. Fizeram uma magia porque era noite de São João. Foram na fogueira do santo e lá o feiticeiro abanou o chapéu, abaixando a aba. Naquilo, branqueou tudo em volta da fogueira e caiu uma chuva de gelo que cercou o Joãozinho. Ele endureceu de friagem. Chegou um irmão dele, ficou com pena e foi derretendo o gelo até soltá-lo.

Amanheceu. Quando o rei viu o rapaz solto do gelo, viu que não tinha jeito de ficar livre dele e teve de empenhar a palavra. O casamento foi no mesmo dia e teve uma grande festa, onde mataram boi e porco, e teve carne para todos os convidados, bastante pão, vinho e cachaça.  


*Texto: Ulisses Passarelli
** Informante: Júlio Prudente de Oliveira, Santa Rita do Ibitipoca, 1996
*** Obs.: conto de encantamento, bastante genuíno na apresentação popular do desenrolar da estória, que registra os fatos principais do enredo sem se preocupar com os detalhes. Por exemplo: não diz como Joãozinho chamou os irmãos, apenas que eles atenderam a seu chamado e a tarefa foi cumprida. No final o irmão que pediu muita bênção casou-se com a princesa e viveu na fartura, reflexo da bênção pedida, também visível ao longo da narrativa, pois em todas as dificuldades recebeu ajuda. Numa variante fragmentada, originária de Antônio Carlos, município vizinho, por informação de Maria Aparecida de Salles (2014), a essência é a mesma mas o desenrolar varia: não aparece o nome dos irmãos, apenas se diz que o mais novo é que pediu mais bênção que dinheiro; ao longo dos três caminhos, sentindo fome, os irmãos depararam com um campo de melancias maduras, que eram mágicas e gritavam: "_ me pega! Me pega! Me pega!" O ganancioso (mais velho), pegou a maior e foi atacado por um enxame furioso de abelhas que o pôs em debandada; o do meio pegou a média, mas só o mais jovem conseguiu comer, por ter pego a menor. Neste caso as melancias que falam se ligam ao ciclo da natureza denunciante, em específico, denunciando a ganância. 

Revisado em 11/02/2025

sexta-feira, 11 de julho de 2014

O Gavião e o Sapo

Diz a fábula que... Um boi pastava numa baixada. Enquanto isto, o gavião que estava pousado no alto de um galho, de lá desceu até o lombo do boi para catar carrapatos e bernes. Cata daqui, bica dali, o rapineiro tirava os parasitas do couro. No meio da grama tinha um sapo e o boi sem avistá-lo, pisou em cima dele. O sapo ficou achatado com o peso sobre ele e os olhos até estatalaram. O gavião perguntou: 

Sapo-cachorrinho (Physalaemus cuvieri).
Leptodactilidae. Serra de São José, Tiradentes/MG.

_ Uai, sapo, o quê que você está fazendo aí?
_ Tô apiando esse boi ... respondeu orgulhoso, fingindo uma força que não tinha.
_ E você lá tem força pra isso?!
_ Justamente. 

Nisso o boi mudou a mão de lugar e soltou o sapo, todo amassado. O gavião olhou bem para ele e falou: 

_ Quer saber de uma coisa? Não vou catar carrapato nesse boi mais não. Eu vou é comer você ...

E de um voo rasante e ligeiro meteu as garras no sapo e carregou ele pelos ares. 

Numa moita de capim logo adiante estava a mulher do sapo. Olhou para cima, viu o gavião passando com o almoço preso nos pés. Gritou: 

_ ôh, marido! Aonde você vai?
_ Eu não vou, ele é que me leva... 
_ Você volta aqui na terra?
_ Só se for cuspido ou escarrado, que eu tô com sete unha no ouvido encravado ...

Sapo-bode (Thoropa miliaris). Leptodactilidae.
Serra de São José, Santa Cruz de Minas/MG.

Créditos

- Texto e fotografias: Ulisses Passarelli.
- Informante: Júlio Prudente de Oliveira, 1996, Santa Rita do Ibitipoca/MG.

Notas 

- Apiando: levantando, erguendo. Estatalaram: tornaram-se arregalados, esbugalhados, salientes. Mulher do sapo: expressão vulgar para se referir à rã (conferir em: Os bratáquios no folclore).

- Revisão: 29/09/2025. 

domingo, 29 de junho de 2014

Tico-tico: passarinho atrevido

Um pequeno pássaro passerelídeo, batizado por onomatopeia "tico-tico", Zonotrichia capensis, de vasta distribuição geográfica no Brasil e outros países da América do Sul, goza de grande popularidade. Nos currais, sempre frequenta o cocho de tratar das vacas, na cata de farelos; as hortas, as beiras de silos, ao redor de moinhos e os pastos são seus locais prediletos.

Tico-tico na Serra de São José.

Na cultura popular ganhou fama de atrevido, topetudo, talvez por sua valentia de investir contra aves bem maiores na defesa de seu ninho. Essa característica ficou registrada em um canto de mutirão coligido no povoado da Restinga (Ritápolis/MG):

Êh... tico-tico,
ai, que bicho atrevido!
Trepa no pau,
vê o mundo como vira ... ah-êêê!

No linguajar congadeiro o seu atrevimento é comparado ao do capitão rival, aquele que não sabe respeitar a individualidade do outro grupo, os limites do equilíbrio entre as guardas na festa. Daí surge uma demanda e o verso vem provocador: 

Eu tenho minha saia, 
de renda de bico, 
apanha laranja
no chão tico-tico!

Seu ninho com frequência é parasitado pelo pássaro icterídeo Molothrus bonariensis, oportunista que deixa ali seu ovos para o pequeno tico cuidar dos filhos adotivos. Molothrus tem muitos nomes populares que variam conforme a região: curro-curro, chupim, mestiço, vira-bosta, gaudério, dentre outros. Desse detalhe há uma expressão coloquial nas Vertentes: "não estou para criar filhos dos outros igual tico-tico" ou "não sou tico-tico para criar filhote de curro-curro...", uma referência desdenhosa à criação de filhos adotivos. 

O passarinho povoa também quadrinhas populares avulsas, do imenso refraneiro, que corre nas Vertentes de Minas, como as quadras paralelísticas expostas a seguir, coletadas em São João del-Rei:

Tico-tico veio de Minas,
calçadinho de botina,
sabiá respondeu,
sai daqui, canela fina.

Tico-tico veio de Minas,
calçadinho de espora,
com a calcinha remendada
e a bundinha de fora.

Há uma fábula por aqui corrente, que ouvi no Bairro São Dimas, nesta cidade, que narra o seguinte: o gavião, rapineiro incorrigível, pelejava para pegar o tico-tico. Toda vez que investia velozmente em voo a pique, o pequeno tico-tico negaceava um esvoaçar para um lado ou outro, com muita habilidade e rapidez. Sempre fugia das garras mortais. O gavião foi desanimando. Pensou numa estratégia e pôs em prática: se fizesse amizade com o pássaro, sem demonstrar agressividade, conquistaria sua confiança e assim, podendo chegar bem perto, daria o golpe fatal. Foi chegando de longe, falou à distância, que nunca mais ia tentar pegá-lo, que estava arrependido, que tinha mudado o jeito de ser, que agora só queria amizade com ele... O tico-tico, muito desconfiado, permitiu a aproximação para observar o verdadeiro comportamento do perseguidor. O gavião, bastante dissimulado, veio com uma "conversa mole" [1] de aprender com o tico aquelas voadas repentinas, escapadas extraordinárias para os lados, para frente, de ré, de todo jeito, pois tinha muitos inimigos maiores e poderia ser útil. O tico-tico sempre "com um pé atrás" [2] ensinou alguma coisa, meio por fora, meio de perto, mas nunca com perfeição e jamais ensinou tudo o que sabia. Correram as aulas. O gavião muito atento era bom aluno, aprendia tudo com rapidez. Afoito, certo dia achou que já sabia o bastante para matar o tico-tico com os próprios ensinamentos dele. Começou a buscar a ocasião propícia. Foi então, que, um dia, viu-o empoleirado a dormir em um galho comprido e retilíneo. Não poderia ter hora melhor. Veio em um voo ágil e rasante pensando em dar uma reviravolta bem por cima dele. Mas não percebeu a tempo, se não em cima da hora, que o pequeno professor estava com um olho aberto. Foi o que salvou o tico... Ele deu uma cambalhota para baixo do galho e o gavião passou direto, embaraçando na ramaria até arrancar um monte de penas. O pássaro voou para um cipoal seguro e de longe o gavião, muito sem graça, gritou para ele: 

_ Uai, amigo tico-tico! Nunca vi ninguém dormir assim, com um olho aberto...
_ É... gavião, quando o amigo não é certo, um olho fechado outro aberto... 

E fugiu para outra região distante.

Créditos 

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografia: Iago C.S. Passarelli, 29/06/2014.
- Informantes: mutirão, Ernane Luís da Silva, Restinga de Baixo (Ritápolis-MG), 23/09/1998; congado, Raimundo Camilo, São João del-Rei, Bairro São Dimas, 2002; quadras, Aluísio dos Santos, São João del-Rei, Centro,1992; fábula, Luís Santana, São João del-Rei, Bairro São Dimas, 1998.

Notas

[1] Conversa mole: expressão popular - assunto bobo, cujo real interesse está oculto
[2] Com um pé atrás: expressão popular - com desconfiança.

Revisão: 01/07/2026.