Por todas as regiões nacionais existem crenças acerca das aves. Algumas se estendem por vastidões geográficas, outras se mostram restritas.
Perscrutando as obras dos estudiosos vamos encontrar diversas referências a superstições sobre pássaros ou sua presença inspiradora nas trovas populares, mormente as aves canoras, como sabiás e canários. Eurico Santos em sua vasta obra zoológica, notadamente em "Pássaros do Brasil" e "Da Ema ao Beija-flor", registrou soberbamente uma vasta galeria desse folclore. Helmut Sick, na monumental obra "Ornitologia Brasileira - uma introdução", também nos brindou com amostras significativas das tradições populares sobre as aves. E mais especificamente na folclorística, destacamos a obra de Hitoshi Nomura (Avifauna no Folclore), de uma grande amplitude nesse tema.
Quem não conhece a lenda setentrional do célebre uirapuru, que quando canta todas as demais aves da floresta se calam para ouvi-lo?
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Garrincha sobre um mandacaru em São João del-Rei.
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Por aqui não seria diferente a impressão sobre as aves. Algumas tem voz agourenta, como o pio lúgubre das corujas (stringiformes) e ou canto macabro do acauã, nome onomatopaico do gavião Herpetotheres cachinnans, interpretado outrossim por "Deus quer um...", que teria o poder de anunciar uma morte. Outros pássaros dão azar a quem matá-los, como a garrincha (passeriformes, troglotidae, Troglodytes musculus), a lavadeira (passeriformes, tyrannidae, Fluvicola nengeta) ou a saracura (gruiformes, rallidae, Aramides sp.). O caso dessas duas últimas liga-se à devoção mariana. Dizem em São João del-Rei que quando Nossa Senhora fugia para o Egito com muito medo da perseguição de Herodes, foi ajudada pela saracura, que ciscando pelo caminho, apagava as pegadas da Sagrada Família para não ser rastreada pelos centuriões. Já a lavadeira, que gosta de ficar na beira da água, foi o passarinho que carinhosamente lavou para a Virgem Maria os paninhos do Menino Jesus, na beira do rio. Por isto foram abençoados por ela. Sobre a saracura, também se diz, que, quando canta com insistência é sinal que vai chover, principalmente Aramides cajaena, cuja interpretação onomatopaica soa como "quebrei três potes".
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Uma lavadeira na zona rural de São João del-Rei. |
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Gavião-acauã, Serra de São José, Santa Cruz de Minas / MG. |
Sabiá (passeriformes, turdidae, Turdus sp.) cantando muito durante o dia, na hora de sol quente, chama chuva. Isto porque de hábito prefere cantar nos extremos do dia, pela aurora e ao crepúsculo. Inspira muitos versinhos do folclore, como:
"Sabiá cantou,
lá na laranjeira,
vamos levantar
a nossa bandeira!"
(Marujos, Barbacena/MG, 2002)
Outro que chama chuva é o joão-bobo (galbuliformes, bucconidae, Nystalus chacuru), teimosamente pousado nos galhos do cerrado, segundo perspicaz observação dos boiadeiros. Seu canto é considerado infalível. Ao menos anuncia uma mudança rápida do tempo.
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Saracura se banhando no Ribeirão da Água Limpa, Bairro Matosinhos, São João del-Rei. |
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Saracura na margem do Rio das Mortes, São João del-Rei. |
Urubu (cathartiformes, cathartidae, Coragyps atratus) se pousar sobre o telhado ou lage de uma casa indica que breve alguém dali vai morrer. Na magia de astral inferior a pena do urubu é usada para feitiçarias capazes de matar a pessoa a cujo nome for amarrada. Um senhor conterrâneo, cujo nome me abstenho de anunciar, dizia-me a mais de dez anos atrás que este trabalho espiritual mata porque o urubu é a ave que voa mais alto, perto do céu, levando embora a alma da pessoa. Não é porque tem hábito carniceiro... Dizem ainda que a longevidade do urubu é extraordinária e que sua franga só começa e botar ovos aos cem anos de idade! Acredita-se que o urubu tenha uma defesa orgânica excepcional, para resistir aos alimentos putrefatos que ingere. Suas fezes dão sorte se acaso defecar sobre alguém por acidente. Dá azar matar urubu. O Código Municipal de Posturas de São João del-Rei, de 1887, no art.48, sob pena de 15$000, proibia a matança de urubus.
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Urubus aninhados na Serra de São José, Santa Cruz de Minas/MG.
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Porém o presente texto reservou um momento particular para os cucos do Brasil, digo, os seus parentes próximos, cuculiformes, aves de sua família, cuculidae, que abaixo estão discriminadas.
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Peixe-frito – Nome popular da Tapera naevia, que
acreditam encantado, posto que, supostamente, se faz invisível. Só se houve seu canto
repetitivo e de tempo bem marcado, de dois assobios, que interpretam nas
Vertentes como a expressão “peixe-frito”. Em outras regiões a onomatopéia soa
como “sa-ci” ou “sem-fim”. Em muitos lugares é chamado saci, aproximação ao mito do saci-pererê, que acreditam ser o responsável por assobios misteriosos. Não se vê a ave na ramagem mesmo quando canta bem
perto da gente. Por isto, no sul, o chamam “mandrião”. Ocorre que sendo muito
dissimulado, vale-se de excelente mimetismo.
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Alma de gato. Glória (Ritápolis/MG). |
Alma-de-Gato - Ave da espécie
Piaya
cayana, conhecida desde o México até a Argentina. Na área Amazônica há
outras duas espécies congêneres. Também chamada rabo-de-palha, chincoã, tincoã
e coã. De hábitos esquivos, raramente é vista. Trai a sua presença pelo vôo de
uma árvore à outra, balançando a longa cauda, piando matraqueado. Tem fama de
ser debochada, seja por imitar outras aves seja por se esconder muito bem. O
nome vem do gosto em assaltar ninhos de outros pássaros, comendo os filhotes,
como um felino. Seu ninho é muitíssimo escondido, de tal sorte que a
ornitologia pouco lhe conhece dos hábitos reprodutivos. O povo logo esclarece o
mistério: o ninho é tão escondido porque entre os ovos há uma pedrinha de ouro,
que deve guardar a todo custo. No Nordeste origina
crenças agoureiras com sua presença e canto. No boi-calemba (= bumba-meu-boi) do Rio
Grande do Norte, motivou uma cantiga com refrão e quatro quadras, na série dos
“bailes de sala”, entoados para entrar na casa do anfitrião (Baile da Coã). .
Anu(m) - Nome de algumas aves
cuculiformes:
Crothophaga ani ani, Crothophaga ani sulcirrostris (ambos chamados
anu-preto), Crothophaga major
(anu-de-enchente, anu-coroca, anu-guaçu ou anu-peixe, também de plumagem negra)
e Guira guira (anu-branco).
Acredita-se darem grande azar a quem os mata, tal como levar um coice de cavalo
(que não se levaria se não tivesse matado o pássaro...), ser reprovado numa
avaliação escolar, tomar uma queda, etc. A restrição de não matá-lo ligar-se-á
talvez ao fato dos anus serem queridos dos criadores de gado, por andarem
sempre junto destes animais, catando-lhes parasitas. Seria uma crendice
educativa. Matar anus aumentaria a população de carrapatos. Lembro de um verso
do boi-de-mamão ( = bumba-meu-boi), de Sambaqui (Florianópolis/SC, 1996), durante o entremeio do urso (um dos
personagens), dizendo:
“Nosso urso vem
dançando,
vem dançando devagarzinho,
vem pedir pra todo povo
pra não
prendê passarinho.”
É possível por outro lado que se prenda ao fato dos
cuculídeos no Brasil serem pássaros motivadores de várias superstições.
Tem uma mesma silhueta corporal, semelhante à do cuco europeu (
Cuculus canorus), ave que deu nome ao
grupo, já mencionada na famosa
carta de William John Thoms, de 1846, onde criou
a palavra folclore, exemplificando-o para dar melhor entendimento ao seu então
neologismo. Nos Estados Unidos há a seguinte sentença meteorológica popular:
“Cuco cantando todo dia, ano frio anuncia.”
Será que o colonizador branco, trazendo as superstições sobre o cuco europeu, ao
ver o cuco americano (anu, etc.) lhe transferiu tais crendices? Com o tempo
outras faces foram se agregando. É corrente em São João del-Rei a crença espiritualista que a chegada de um grupo de anus diante de uma casa indica ali a presença de
eguns (almas penadas). No sul e sudeste do Brasil é o nome de uma das muitas danças que compõe as suítes folclóricas chamadas fado e fandango.
* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotografias: alma de gato, saracura, lavadeira e garrincha - Iago C.S. Passarelli; urubu e acauã - Ulisses Passarelli
Revisão: 23/08/2024
Ata.me ajudou muito.:D
ResponderExcluirNo norte do Paraná, quando criança, morávamos em uma zona ural, e, por lá, os meninos diziam que se pegássemos o bico do anú, torrássemos o mesmo, e, de alguma forma, déssemos para uma garota ingerir (comer, ou beber com algo), ela "dava pra gente". KKK. Mas a lenda corria por lá mesmo.
ResponderExcluirNo norte do Paraná, quando criança, morávamos em uma zona ural, e, por lá, os meninos diziam que se pegássemos o bico do anú, torrássemos o mesmo, e, de alguma forma, déssemos para uma garota ingerir (comer, ou beber com algo), ela "dava pra gente". KKK. Mas a lenda corria por lá mesmo.
ResponderExcluirKkkkkkkkkk
ExcluirPois aqui no nordeste não precisava matar ANÚ, bastava uma boa lábia, depois mostrar a POMBA. rsrs
ResponderExcluirQual o significado de ver um anu andando em seu quintal , devagar e observador? ( to falando espiritualmente)
ResponderExcluirRespondendo espiritualmente: presença de eguns (almas penadas segundo a designação da cultura popular).
ExcluirAlma penada ?
ResponderExcluirMeu pai sofreu um acidente e nesse acidente morreu um "akma de gato" era pra ser um acidednte terrivel e com muio risco mais o carro não capotou e achei ele morto, vim da uma olhda nos signficados.
ExcluirO folclore é encantador, e as vezes confortador! Leituras assim de fato acalentam nossas almas...verdade ou não. Os pássaros são criaturas maravilhosas que merecem todo nosso respeito e amor!
ExcluirHoje encontramos um filhote de anu branco no chão, ja bem fraquinho . Cuidei dele mas não resistiu. Sou muito grata a eles porque além de tudo, comem as lagartas que judiam das palmeiras.
Muito obrigada por compartilhar sua sabedoria!
Vi um anu no meu quintal canto sinistro me assustou
ResponderExcluirJá aki no fundo da minha casa apareceram varios anus brancos brancos cantando alto fiquei assustada... o que será que pode ser?
ResponderExcluirTô perdida então estou criando um anu branco dentro de casa 🤪😂😂
ResponderExcluirSempre aparecem anus brancos e pretos no meu quintal, pois sempre coloco alimentos para eles, aparecem também, bem-te-vis, sabiás laranjeiras, sabiá barranco, cambacicas de olho nas pinhas do quintal, e as lindas lavadeiras , que todo dia vem banhar no início do dia e no fim da tarde , lá pelas 18:00 (minhas preferidas são muito lindinhas)
ResponderExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ExcluirQuando vivi uma tragédia muitos Anuns passaram a frequentar o local depois do ocorrido!Fui diagnosticada com Esquizofrenia Sonambuliforme,uma época da qual não me recordo com nitidez!Entretanto,muitos conhecidos e até meus parentes mais próximos juraram que alguém vivia em mim!Uma donzela culta estrangeira,refinada,eles asseveravam que não era Eu verdadeiramente que se encontrava neste invólucro corporal!E para complicar mais ainda,os Anuns Brancos e outros animais sempre estavam na companhia daquela "nova eu".Os pais biologicos desta jovem se tornaram meus mecenas,a madrasta dela,uma senhora de origem húngara não me deixou partir enquanto aquele fenômeno persistia.Isto durou 7 longos anos,até que em 2002,eu recobrei completamente a minha consciência e me surpreendi que havia me formado na Universidade e feito coisas que jamais imaginei!Hoje avistei um Anun Branco que me fitou como se soubesse de algo!Será que tudo foi um torpor no qual meu subconsciente se imergiu para sopitar as amissoes sofridas ou deveras fui hospedeira desta entidade tão sábia,poderosa e protetora das fauna e flora do planeta?!
ResponderExcluirEu salvei um hoje, me olhou agradecido, senti algo diferente naquele olhar.
ExcluirAqui no quintal de casa tem aparecido alguns, eles cantam já estou assustada alguém pode me dizer o q significa espiritualmente?
ResponderExcluirSignifica que a natureza é bela , contemplem o canto dos pássaros
ResponderExcluirHoje sonhei com anu branco entrando e saindo na minha casa...no meu local de trabalho... Me sinto bem e em paz.
ResponderExcluirAcabei de salvar um Anu preto aqui em casa, estava se debatendo no vidro da sacada e minha gata queria pegá-lo. Ele me olhou tão agradecido.
ResponderExcluirMoro num lugar há mais de 50 anos e nunca vi tantos rabo-de-palha sobrevoando a área. Vim aqui dar olhada pra ver se descobria alguma coisa.
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