Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




Mostrando postagens com marcador Coronel Xavier Chaves. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Coronel Xavier Chaves. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 17 de julho de 2024

A tradicional quadrilha junina de Coronel Xavier Chaves

O município de Coronel Xavier Chaves está localizado no centro-sul do estado de Minas Gerais, na Mesorregião Campo das Vertentes, Microrregião e Região Imediata de São João del-Rei, Região Intermediária de Barbacena. Área territorial de 140.954 km2, população 3.486 habitantes (senso IBGE/2022). Seus primórdios remontam à primeira metade do século XVIII, com histórico de mineração aurífera e atividades de fazendas. 

Nos dias atuais a sede municipal se destaca pelo patrimônio edificado bem cuidado, ruas extremamente limpas, boa arborização, tradição consolidada na produção de esculturas em pedras ("Cidade das Pedras"), notável artesanato de bordados e rendas de abrolhos, eventos culturais concorridos e bem organizados, grupos da cultura popular bem ativos e genuínos (Boi de Caiado, Folia de Reis, Congado, Quadrilha), além de Banda de Música em plena atividade e um grupo de trabalhos de inculturação com valores afro, que trabalha fortemente na conscientização contra o racismo e a discriminação. Afamados são os torresmos dessa terra e a produção de cachaça tem muita relevância, com destaque para a existência de um engenho que remonta ao século XVIII (considerado como o mais antigo em funcionamento no país).

Nesta postagem o Blog Tradições Populares das Vertentes focará suas atenções no grupo de quadrilha junina local, batizado "Arraiá dos Fundos", sediado no bairro Vila Mendes, abordando um pouco da história oral de seu surgimento. 

Os grupos de quadrilha junina na região se rarefizeram com os anos, diluídos diante de novas influências aportadas nas festas de inverno, onde habitualmente ocorrem (junho-agosto). Neste sentido, os grupos independentes, com organização de base comunitária são poucos nesta região atualmente. Entretanto são mantidas as danças de quadrilhas juninas no contexto das escolas e feiras, mais ou menos improvisadas e sujeitas aos modismos impostos pela cultura massiva, muitas vezes se aproveitando dos ritmos em voga a cada época (sertanejo, country, funk, etc), com estilizações acentuadas de figurino e coreografia, que as distanciam imensamente de suas raízes. 

No entanto, o Arraiá dos Fundos se comporta como uma exceção neste cenário regional, pois se mantém como uma quadrilha independente de outra instituição, algo que até quarenta anos passados era relativamente comum. Tanto mais, conserva o figurino típico, marcação e coreografias tradicionais. Para falar deste grupo cultural irremediavelmente é preciso mencionar que, de um modo geral, o povo xavierense participa de seus aspectos culturais com muita autenticidade e afinco. Destaca-se no campo cultural por cultivar diversas manifestações populares em plena autenticidade.  

Num segundo aspecto é preciso referenciar com louvores o papel do marcador da dança de quadrilha aqui abordada: Rosnei José Silva, mestre de obra de profissão. Natural de Coronel Xavier Chaves, nascido na Canoa de Cima, em 1966. Sua sensibilidade para os movimentos culturais e sociais o torna muito ativo na participação na banda (tocando pratos) ou na folia (pandeiro). Já organizou um time de futebol infantil, batizado Ypiranga, entre 1993 e 1996. Mas é na quadrilha que expande suas potencialidades, na qual, de fato tornou-se um mestre. 

Narrou que em sua infância (aos 12 anos de idade) havia uma antiga quadrilha de adultos na sua cidade. Ele ia com a irmã para dançar. O organizador da época não consentia a participação de crianças, mas a irmã podia dançar, pois já era maior um pouco. Rosnei nutria grande desejo de ingressar nas fileiras de dançadores, mas ante a proibição, sentava-se nos degraus do salão paroquial a observar a dança, gostando do que via, mas, decepcionado por não poder fazer parte, jurava a si mesmo que um dia ainda marcaria uma quadrilha. Desta passagem inicial, que reflete o sonho de uma criança, o vislumbre de planejamento do futuro, Rosnei fez um desenho, muito representativo, aqui exposto: 


Segundo sua narrativa, certa ocasião faltou um par na dança e o marcador o chamou a participar. Foi quando começou. Uma vez, numa quadrilha da escola estadual, o marcador não foi ensaiar e Rosnei se candidatou, dizendo à professora que marcaria a quadrilha. Continuou marcando na escola desde os 13 anos e seguiu. Aos 18 anos intensificou a atividade já fora da escola, em quadrilhas improvisadas. Até que um dia, no povoado da Água Limpa, o convidaram a marcar e foi então a primeira vez que marcou uma quadrilha oficial de adultos, e desde então continuou. Desta quadrilha marcada na Água Limpa, em 1991, é que  Rosnei conheceu Maria Aparecida  Silva (conhecida Cida), que se tornou sua esposa e ela é a atual Presidente do grupo, nos seus dizeres, seu braço direito em tudo, no sentido do protagonismo. Destacou também o papel do sr. Benedito Trindade da Silva,  conhecido Bené, Vice Presidente. 

Mais tarde, porém, resolveu fundar um outro grupo. Isto foi nos idos de 1993. Os ensaios aconteciam na rua, diante da sua residência, como organizador, à Rua Geraldo Passarini, nº267, no bairro Vila Mendes. Inicialmente ele marcava um pouco da quadrilha, e um senhor idoso, José Catarino, marcava outro tanto, intercalando ambos para cumprir as quatro partes. Nos ensaios não havia sanfoneiro, dançavam ao som mecânico (disco de vinil), mas no dia da apresentação iam com sanfoneiros. A ausência de cobertura levou-os num segundo momento a transferir os ensaios para a sede do salão comunitário do bairro, onde ainda permanecem. Rosnei informou, que ao contrário do antigo marcador de quadrilhas que não consentia a participação das crianças ele incentiva sua presença, como aposta na semente da continuidade da tradição pela força do aprendizado e prática, sem excluir ou menosprezar os adultos e idosos. Desta disposição decorre que em 2018 o grupo tinha participantes na faixa etária dos 10 aos 84 anos. Sua paixão pela quadrilha se revela também pela afirmação que, a serviço, residiu por dez anos na capital mineira, donde vinha aos finais de semana para ensaios e apresentações da quadrilha. Ao longo dos anos muitas pessoas passaram pelo Arraiá dos Fundos como participantes, que se tornou um grupo de convívio, prática cultural e aprendizado. 

Com o passar dos anos o grupo adotou uma bandeira e um hino, em 2014. A primeira bandeira  foi pintada por Romulo, irmão de Rosnei, a atual foi pintada pelo próprio Rosnei. 

Rosnei e o autor deste texto segurando a bandeira da quadrilha Arraiá dos Fundos. 
Foto: Betânia Nascimento Resende, 12/09/2022. 

Trajes da quadrilha, no salão onde ensaiam, fotografados durante a pandemia de COVID-19. 


O hino foi uma criação conjunta de Rosnei, sua esposa Maria Aparecida; Rosiana - irmã do marcador, Tamara e Márcio Natal.  É cantado na mesma melodia da conhecida música sertaneja "Moreninha linda!" (canção da dupla Tonico e Tinoco). Rosnei também desenha e corta parte dos figurinos dos vestidos. 



Conjunto de bonecas vestidas com manequins da quadrilha. 

O grupo ensaia alguns meses antes do período de apresentações (junho a agosto). Formado por voluntários e sem fins lucrativos, atende aos convites do poder público e da iniciativa privada para suas exibições coreográficas, bastante variadas e bem ensaiadas, caracterizadas por movimentos bem sincronizados e marcação irreverente. O grupo sobrevive de doações para custeio geral das despesas, sobretudo do figurino. Faz se acompanhar por músicos populares, tocando acordeon, violão, pandeiro e caixa, com grande animação.

Desde o ano de 2017 o grupo ocupa o restante do ano que não há apresentações e ensaios da quadrilha com práticas de teatro amador, promovendo ensaios e apresentações.


Desenhos de Rosnei, alusivos à tradição da quadrilha junina. 

Ao comentar sobre esta quadrilha, quando de uma participação em festa junina acontecida na cidade de São João del-Rei, Sacramento (1999) afirmou: "Aquela quadrilha, com seus trajes típicos representou, com a maior autenticidade e valor folclórico, o Casamento Caipira e, em meu modesto entendimento, está apta a animar qualquer Festa Junina que tenha o desejo de ser eminentemente autêntica."

Recorte de jornal contendo matéria de autoria de SACRAMENTO (1999), colada em caderno,
conservada pelo Marcador e Coordenador da Quadrilha Junina, Rosnei. 


O grupo de Quadrilha Arraiá dos Fundos, da Vila Mendes, foi formalmente constituído em cartório no ano de 2002, contando com diretoria e é um bem inventariado (ano 2019) e por este mecanismo reconhecido formalmente como patrimônio cultural do município de Coronel Xavier Chaves.



Fotografias da Quadrilha Arraiá dos Fundos, apresentando-se na festa de Santo Antônio,
no povoado do Sumidouro (Coronel Xavier Chaves). Fotos: Ulisses Passarelli, 15/06/2024. 


Referências

Coronel Xavier Chaves. Portal do IBGE - panorama.  (Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/coronel-xavier-chaves/panorama - acessado em 23/06/2024) 

Prefeitura Municipal de Coronel Xavier Chaves / Prefeitura / Patrimônio Cultural / Lista de Bens Protegidos. (Disponível em: https://coronelxavierchaves.mg.gov.br/prefeitura/wp-content/uploads/2021/12/CXC_Divulgacao-1.pdf  - acessado em 11/07/2024) 

SACRAMENTO, José Antônio de. Festas Juninas: tradições ainda vivem! Gazeta de São João del-Rei, 03/07/1999; Tribuna Sanjoanense, n.986, 06/07/1999. São João del-Rei. (Disponível em: https://patriamineira.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Tradicoes-das-Festas-Juninas-Sao-Joao-del-Rei-1.pdf - acessado em 11/07/2024) 

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.

- Fotografias: conforme legendas. As legendas sem informação autoral são de fotos do acervo do Marcador e Coordenador da quadrilha

- Rosnei José Silva: informações pessoais e via aplicativo Whats App - a quem agradecemos inclusive por ceder para esta postagem, as fotos das bonecas e de seus desenhos. 

                                                                                Notas

- Sobre esta quadrilha, ver: 

Quadrilha Arraiá dos Fundos, Lei Aldir Blanc, 2020  

Quadrilha Arraiá dos Fundos na Festa do Sumidouro, 2023 

Grupo de Quadrilha Arraiá dos Fundos da Vila Mendes - Coronel Xavier Chaves/MG  

Quadrilha Junina, Coronel Xavier Chaves/MG, 2023

- Sobre a música instrumental de quadrilhas antigas (não juninas), ver: 

A música para quadrilhas no arquivo musicográfico da Orquestra Lira Sanjoanense 

- Revisão: 12/05/2025. 

terça-feira, 5 de março de 2019

O Bloco do Boi de Caiado: uma ferramenta do resgate do tradicional carnaval de Coronel Xavier Chaves

Faz certo tempo surgiu na cidade de Coronel Xavier Chaves um evento pré-carnavalesco, que muito se afamou e cresceu. A proposta de tal evento acertou em cheio na visibilidade e atrativo de visitantes, tornando-se um dos grandes momentos do ciclo do momo na região das Vertentes. Não obstante este aspecto e a diversão que proporcionava, logo a expansão trouxe consigo os problemas de um carnaval de massa.

Neste ano contudo, a municipalidade apostou de forma arrojada numa outra forma de carnaval. O tradicional. Não que ele não existisse, mas focou-se nele em detrimento do evento massivo. A proposta foi de um carnaval para dentro e não para fora; para o xavierense, com o que ele tem de melhor e assim o vimos claramente in loco. É de se imaginar o dilema de tal decisão, que decerto não agrada a todos, mas certamente beneficiou aos milhares de moradores. Foi visto um verdadeiro resgate do carnaval tradicional, da cultura popular autêntica, não só um mero ato de economia, mas efetivamente de ação planejada de valorização do que há no município. 

Entendemos como atitude de coragem, que também abre discussões. Entretanto é sempre bom perguntar que tipo de turismo se quer, chamar isto à reflexão. Por toda parte há inúmeros exemplos que os eventos gigantes trazem consigo problemas proporcionalmente enormes e chega a hora de rever se de fato isto é bom ou é o que se quer.

O carnaval típico, tradicional, tem também o seu potencial turístico. Não atrai o grande volume de visitantes, mas a qualidade dos visitantes. O próprio povo fez o seu carnaval, de corpo e alma, com plenitude de sua criatividade e lavor artístico. No palco, os artistas da terra tiveram voz e vez, com toda capacidade e sucesso. Na grande tenda, moradores e visitantes se irmanaram indistintamente dançando com alegria e relembrando os carnavais dos velhos tempos, com muita tranquilidade. O boi-de-caiado, manifestação folclórica de raízes muito antigas e típicas do lugar ganhou as ruas sob a liderança do grande Mestre Zé Carreiro, verdadeiro ícone da cultura local. A comunidade mostrou seu valor afro pelas danças, vestimentas e pela afirmação de identidade na participação conjunta e harmônica, demonstrando empoderamento do território onde está inserida. O bloco veio bem mais forte que no ano anterior, por exemplo, conforme observamos. 

Ruas limpas, seguras, bem cuidadas, praças impecáveis, patrimônio cultural preservado, gente receptiva, pacífica e alegre. Carnaval típico do interior mineiro. Boa infraestrutura de evento. 

A opção de olhar para si e enfrentar as adversidades é uma atitude de responsabilidade social e de amor à cultura. Apostar na raiz de saberes do lugar e no potencial dos moradores é uma proposta louvável para uma administração pública, mesmo que não agrade por unanimidade.









* Neste blog, leia também: BOI DE CAIADO: O BLOCO DO BOI EM CORONEL XAVIER CHAVES     
** Fotografias (04/03/2019) e texto (05/03/2019): Ulisses Passarelli
*** Revisão: 12/02/2024

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Boi de Caiado: o Bloco do Boi em Coronel Xavier Chaves

(Oferecido muito respeitosamente ao grande Mestre Zé Carreiro, 
ícone e baluarte da cultura xavierense)




Em todo o Campo das Vertentes o carnaval põe nas ruas o povo do lugar e os turistas, na agitação das baterias, batucadas, blocos e escolas de samba. A maioria segue a um padrão, guardadas as devidas proporções da dimensão de cada agremiação e de suas próprias peculiaridades. Mas alguns... verdadeiramente se destacam pelo desenvolvimento singular.  

Entre estes está o boi de caiado, um boi de carnaval ou bloco do boi, variante simples do bumba-meu-boi, que sobrevive na cidade de Coronel Xavier Chaves, com típicas características folclóricas. Atualmente seu organizador é o Mestre Zé Carreiro (*), alcunha do sr. José do Rosário Anacleto, natural daquela cidade, 82 anos. Mestre no sentido exato que a palavra comporta no campo da cultura popular. Alma límpida e bondosa, memória notável, caráter ilibado. É capitão do congado local, responsável pela folia de Reis, canta calangos e se orgulha da longa experiência com carros de bois, que justamente lhe valeu a respeitosa alcunha. Informou ter aprendido o boi no povoado da Cachoeira, no mesmo município, ainda criança, aos oito anos de idade, quando sua mãe o levava na época do frio para acompanhar as festas juninas. Lá o boi de caiado dançava para alegria da petizada. 

Passados os anos formou-se o grupo da cidade, com períodos mais e menos ativos e sob direção de outras pessoas até que o assumiu. Dele participam na instrumentação sobretudo seus companheiros de folia e congado, e outros amigos, que se desdobram em mais esta função. A bateria é formada por tarol, bumbo, surdos e caixas. A percussão forte e bem compassada, vai em batucada pelas ruas e cantam sambas e marchinhas típicas do carnaval, sem canto específico.

Saem do bairro Vila Fátima, antigo Tanque. O nome primitivo se referia a um tanque ou dique (mundéu) que retinha a água usada para mover a roda d'água do engenho de cachaça e para serviços de faiscagem de ouro. Tradicionalmente é uma comunidade com características de quilombo urbano, que conserva intensamente uma parcela importantíssima e fundamental da cultura xavierense e que merece toda atenção. 

Os instrumentistas formam o âmago do bloco, após os quais seguem foliões, enfeitados ou não, que aderem à batucada rua afora. Os bois em si tem posição totalmente livre, com movimentação ampla pelas laterais, ora na dianteira correndo atrás das crianças ora de recuo vão à retaguarda como se numa ronda. Fazem mesuras para os adultos, salamaleques graciosos e despertam a empatia das pessoas. A alegoria de boi é movida por um animado brincante, que põe em polvorosa a criançada, que corre espavorida das investidas do bicho. O boi é bravo e sonso. Finge de manso e quando as crianças se aproximam confiantes, avança, mas logo recua. Faz volteios, corrupios. Não é agressivo. Correr atrás faz parte da brincadeira e em verdade é sua maior graça. Já por isto, dentro dessa regra, as próprias crianças provocam bastante o boi, estimulando-o à perseguição. Não há violência alguma. Tudo transcorre de forma espontânea, eivada de alegria e harmonia. 

O boi em si é simples, no estilo de feitura do chamado "boi mole" (sem arcabouço), cabeça natural (caveira do animal), presa a um pau de suporte. Cobertura por tecido estampado, tipo chita, relativamente curto, o que deixa visível as pernas do brincante que se mete debaixo da alegoria. O boi dança e corre em postura verticalizada. 

O bloco vai se encorpando pelo caminho rumo à área central da cidade. Mais gente vai aderindo ao seu balanceio contagiante. Seu ritmo não deixa ninguém parado...

Quanto ao nome, explicou Zé Carreiro que desde sua infância o nome já era este, boi de caiado, como se dizia na Cachoeira. Não soube explicar a origem. Apenas disse que é tradicional e foi mantido (*). 

No geral o boi de caiado se assemelha a outros bois de carnaval que ocorrem no sudeste brasileiro, independente de seu nome específico. Mas guarda em si o atrativo individual do seu modo de ser. Ele se aclimata às velhas ruas da antiga cidade mineira; ele se contextualiza à vivência comunitária. O boi de caiado é um patrimônio imaterial de Coronel Xavier Chaves e merece todo o prestígio. 

1- Boi de caiado: manifestação tradicional da cultura popular xavierense. 

2- Mestre Zé Carreiro no interior do salão comunitário explica sobre o boi. 

3- Aspecto do Salão Comunitário da Vila Fátima, de onde sai o boi. 

4- Gruta de Nossa Senhora de Fátima, ao lado do salão. 

5- Boi do outro grupo do lugar, também guardado no salão. 
6- Bloco do boi na rua, numa ladeira da Vila Fátima. 
7- "Boi Marchetado" (esquerda) e "Boi Marchante" (direita): os dois bois do bloco.  
  
8- Passagem do bloco do boi pelas ruas da Vila Fátima chama à atenção os moradores. 
9- O boi desperta empatia, carisma e alegria. 
10- Mestre Zé Carreiro puxa na dianteira junto aos amigos instrumentistas. 
11- Bloco em marcha. 

12- A criançada fica em polvorosa com a passagem do boi de caiado.
 
13- Outro aspecto da brincadeira de correr atrás das crianças.
 
14- O casario faz plano de fundo compondo a paisagem cultural. 

15- Os bois avançam e deixam a bateria para trás... 

16- Marcha da Vila Fátima ao Centro. 

17- A crianças provocam o boi, incitam alegremente as correrias.
 
18- As crianças não permitem descanso do boi!

19- O bloco animado transcorre em paz e harmonia. Cidade limpa e de jardins bem cuidados. 
  
20- Igreja do Rosário: cartão postal do município. Patrimônio rico e bem cuidado. 

Vídeo
Boi de Caiado, 13 de fevereiro de 2018

Notas e Créditos

* Obs.:
1- Após a publicação deste texto, uma gentil e pertinente observação do Dr. Marcos Paulo de Souza Miranda, levantou a hipótese plausível do nome "caiado" ser corruptela de "gaiado": chifrudo, o que tem gaias (galhas) grandes. Numa segunda interpretação lembrou da designação aplicada ao tipo de pelagem de animal fazendo redemoinhos dos pelos do peito ou pescoço; cavalo-gaiado: o que tem torvelinhos nos pelos. Ambas interpretações são possíveis. Fica explicitada esta observação e com ela nossa gratidão. 
2- agradecimentos especiais ao Mestre Zé Carreiro, pelo gentil acolhimento e pelas informações prestadas.
3- Leia também neste blog a respeito de outro bumba-meu-boi da região:
BOI-MOFADO: pérola do carnaval de Prados  

** Texto e acervo: Ulisses Passarelli.
*** Fotografias: 3, 4, 5, 8, 12, 16 - Ulisses Passarelli; demais fotografias - Iago C.S. Passarelli.
**** Vídeo: Iago C.S. Passarelli.
***** Revisado e ampliado em 31/03/2024.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Festa de São Sebastião em Coronel Xavier Chaves

O dia consagrado a São Sebastião é 20 de janeiro. Contudo, com elevadíssima popularidade, em muitos lugares seus festejos acontecem sem prejuízo de qualidade em outras datas próximas por diversas circunstâncias. Assim é comum que um ou dois finais de semana seguintes ao seu dia votivo ainda aconteçam essas comemorações. Nesse contexto, aconteceu em Coronel Xavier Chaves, município do Campo das Vertentes.

A cidade merece ser visitada. A hospitalidade de sua gente é notável; a produção de cachaça de alta qualidade é uma referência; os trabalhos artesanais em pedra são um marco identidário; a singela e tricentenária Igreja do Rosário, toda em pedra, é um cartão postal inesquecível; as praças e ruas bem cuidadas, floridas e limpas, são um convite a um passeio bucólico e ao descanso; o artesanato em tecidos é uma tradição de longa data (tapetes em tear caseiro, bordados, crochê, abrolhos). A cultura popular não fica atrás com sua congada, a folia de Reis e o boi de caiado (variante do bumba-meu-boi), quadrilha junina, manifestações conservadas e que encontram-se firmadas na prática de muitas e muitas décadas.

Durante a festa de São Sebastião se pode observar a devoção dos xavierenses católicos, tão participativos na celebração e na procissão. A Irmandade do Santíssimo Sacramento na Matriz de Nossa Senhora da Conceição demostrou ativamente excelente coordenação de atividades religiosas. A festa contou com tríduo preparatório e coincidindo com a comemoração de São Brás (03 de fevereiro de 2018), contou com o momento da bênção das gargantas, quando o sacerdote impôs sobre o pescoço dos fiéis as velas cruzadas e atadas com um laço de fita vermelha. Foi muito concorrido este momento, considerado pela fé um ato preventivo e curativo de malefícios da saúde.

Mereceu elogios a inclusão de um encontro de folias neste evento religioso. Foram cinco grupos ao todo: a anfitriã, vinda do Bairro Vila Fátima, na própria cidade, sob o comando do experiente Mestre Zé Carreiro; uma de César de Pina (Tiradentes), duas de Prados, sendo uma da zona urbana e outra da rural, esta, a conhecida "Folia dos Gaiteiros", muito antiga, vinda da comunidade da Folha Larga; e, por fim, uma de São João del-Rei, Bairro Caieira, a Folia "Embaixada Santa". Reuniram-se na Igreja do Rosário, onde algumas cantaram sua saudação. Foi servido um lanche muito bem preparado com salgados e quitandas. Formaram a seguir um cortejo, cantando rua afora até a Matriz,em cujo interior cada qual fez entrada festiva, louvando com versos e toques instrumentais diante do andor do taumaturgo festejado.

Após a missa, seguiram em procissão, alternando os cantares entre si, tocando nos intervalos da banda de música da cidade, a "Santa Cecília". Na chegada, finda a bênção de São Brás, cada grupo se apresentou individualmente no palco, para satisfação da assistência, que prestigiou intensamente as folias.

Há de se destacar o respeito, atenção e hospitalidade do sacerdote, Padre Antônio Carlos Trindade da Silva, que logo de início saudou as folias participantes enaltecendo seu valor cultural; igualmente, à Secretaria de Cultura e Turismo, que promoveu o encontro, e que na pessoa da Secretária Eliane Longati e do funcionário Eugênio Santos trataram as folias com indescritível respeito e dignidade, atitude exemplar.

Não há dúvidas que tanto para a cultura popular quanto para o evento religioso a vinda da folias foi positiva, ganhando a cultura local já rica, mais um atrativo, que se fortalecerá com a manutenção anual.

1- Igreja de Nossa Senhora do Rosário, século XVIII (c.1717).
2- Bucolismo, tranquilidade: crianças brincam na praça.

3- Um dos Passinhos da Paixão (Capela-passo).

4- Patrimônio histórico: belos imóveis valorizam a história do município.

5- Exemplar preservado: casarão de arquitetura do período do ecletismo. 

6- A Folia dos Gaiteiros toca diante do andor de São Sebastião na Matriz.

7- Reencontro com os amigos: o grande Mestre Zé Carreiro. 

8- Reencontro com os amigos: o Mestre Antônio Marcelo, da Folha Larga.

9- Folieiros de César de Pina durante o lanche. 

10- Folia de Prados canta agradecendo o lanche.  

11- Bandeira da folia de Coronel Xavier Chaves: trabalho artesanal em tapeçaria. 

12- Cortejo rumo à Igreja Matriz.  

13- Folia de Coronel Xavier Chaves rumo à Matriz.  

14- Folia de Prados adentra a Matriz cantando. 

15- Folia "Embaixada Santa", de São João del-Rei, durante a procissão.
 
16- Detalhe do andor de São Sebastião durante a procissão.
 
17- Detalhe da bênção de São Brás.

18- Cartaz da Festa de São Sebastião em Coronel Xavier Chaves, 2018:
papel couché, 21 x 31cm. 

19- Uma das magníficas esculturas em pedra na praça de Coronel Xavier Chaves: estação da Via-Sacra.

20- Coronel Xavier Chaves: uma janela aberta para a história, a arte e a tradição.
 
Vídeos: 

Folia de Coronel Xavier Chaves

Folia da Folha Larga / Carandaizinho

Folia de César de Pina

Folia de Prados


Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotografias (03/02/2018): Ulisses Passarelli: 1-6; Iago C.S. Passarelli: 7-20
*** Vídeos: Iago C.S. Passarelli
**** Revisão em 31/03/2024