Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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quinta-feira, 11 de setembro de 2025

Queima do Judas no Caburu em 2025

A Queima do Judas já foi tratada com maiores detalhes em outras postagens deste blog. Observa-se em toda Mesorregião Campo das Vertentes que arrefeceu acentuadamente. Poucos lugares ainda a conservam; cenário de declínio, intensificado desde o início do século XXI. No próprio distrito em tela, incluso no município de São João del-Rei/MG, onde é muito tradicional, foi realizada anualmente até o ano de 1999, a partir do qual se descontinuou. Somente em 2014 (ver links no final desta postagem) foi reativada, depois de muito incentivo, totalmente à custa da comunidade local e sob o seu formato tradicional. Mas foi uma iniciativa isolada e nos anos subsequentes a manifestação cultural não aconteceu. Mais uma vez houve uma reativação, em 2025, quando no Sábado da Aleluia transcorreu a Queima do Judas e o Boi Malhado saiu no largo, conforme mostram as fotografias desta postagem. 

A versão de 2025, em linhas gerais, seguiu ao mesmo formato daquela de 2014: 

- organização estritamente comunitária, sob a gestão de algumas lideranças do lugar, que se prontificaram livremente a assumir os desafios dos preparativos; 

- o boneco Judas de estrutura artesanal, recheado de bombas e palha de bananeira para enchimento, vestido de roupa velha, cabeça moldada em papel machê (nitidamente mais aprimorada que a de 2014, graças a um artista local); 

- boneco pendente em uma árvore de embaúba, conforme reza a tradição, afixada a propósito ao centro do largo; 

- brincadeiras para as crianças, a guisa de gincana: corrida do saco, pau de sebo mirim e pegada de balas; 

- outro pau de sebo, bem mais alto, para os adultos; 

- presença do Boi-malhado (versão local do Rancho do Boi) vindo da Travessa Cava Funda para o largo, ao som de pandeiro, caixas e acordeom, pivô de muitas brincadeiras com as crianças, de avanços e recuos, simulacros de ataques marcados por rodopios e corridas; 

- leitura do Testamento do Judas, produzido sob o anonimato, obedecendo a um formato fixo, de rimas simples, distribuindo a herança do Judas, coisas que ele deixa para as pessoas do lugar, sempre com muita verve e ironia, não raro em sentido chulo; 

- explosão do boneco, a partir da queima do pavio, concluindo-se com foguetório. 

Em relação a 2014, não houve em 2025 o artefato pirotécnico chamado "avião" ou "aviãozinho", que consiste em um longo arame (que parte do coreto até o boneco) e serve de guia que conduz pendente um mecanismo que imita de maneira simplista a forma de uma aeronave, e contendo um pavio, quando aceso, corre pelo fio de arame e ateia fogo no Judas. Por outro lado, as brincadeiras com as crianças foram muito mais aprimoradas, o que se mostra uma medida importante pelo efeito lúdico e de aprendizado, estimulando o senso de pertencimento. A leitura do testamento teve também o adicional cômico do personagem vestido de terno completo, pasta de documentos à mão, imitando um tabelião de cartório, que despertou risos na assistência. 

Segundo informações orais de populares que participavam da manifestação cultural, no passado o boi era muito mais agressivo. Hoje é um ataque simulado; mas era de fato uma corrida de pega, valendo chifrada e cabeçada, que mandavam ao solo a criança ou jovem que abusava no desafio e provocação. Contaram que houve época de ser um boi bastante grande, que era movido por dois dançantes ao mesmo tempo. Mas as narrativas confluem para afirmar que tanta animação, no passado, tinha por combustível a cachaça... Inclusive, certa vez, os dois colegas metidos debaixo do boi, encontrando-se muito embriagados, caíram com o boi dentro de um valo, sob a zoada dos circunstantes! E não dando conta de retirá-lo, saíram do valo com muita dificuldade, deixando o boi lá dentro. E naquele ano acabou a brincadeira. Hoje, entretanto, a realidade é outra: o boi dança com mais tranquilidade, sem derrubar ninguém e sem a bebedeira dos dançantes, o que preserva a brincadeira de forma sadia e sem riscos. 

1- O boneco Judas enforcado na árvore de embaúba.

2- Programação da festividade afixada na porta de um bar local, 
como forma de divulgação e convite aos moradores. Elemento de folkcomunicação.


3- Crianças correm para pegar balas e confeitos, lançados em pegada.
 
4- Tentativas de subir o pau de sebo e ficar com o prêmio. 

5- Crianças aguardam a largada da corrida do saco.
 

6- Detalhe do Boi Malhado.
 
7- Largo em festa. 

8- Boi Malhado, os tocadores e o Judas na árvore.


9- Um representação bem humorada de um "Tabelião do Cartório",
responsável pela leitura do Testamento do Judas.


10- Leitura do Testamento do Judas, do alto do coreto. 


11- Momento da explosão do Judas. 

12- Fogos de artifício em comemoração ao bom êxito da festividade. 


Créditos

- Texto e fotografias 2, 4, 7 e 10: Ulisses Passarelli.
- Demais fotografias: Betânia Nascimento Resende.  

Notas

- Revisão: 14/07/2026. 
- Sobre este mesmo festejo em sua edição anterior, de 2014, ver:

domingo, 10 de maio de 2015

Queima do Judas em Santa Cruz de Minas

Nas tradicionais queimas de judas os testamentos são manuscritos importantes no mecanismo de folk-comunicação. Através deles o povo, anonimamente e com muita verve, anuncia em versos, em leitura a alta voz, a herança deixada por Judas Iscariotes, o traidor de Jesus, representado a cada ano por um boneco grotesco, que é explodido em praça pública por meio de bombas inseridas em seu enchimento. 

Assim é que em quase todo o país (*), no Sábado de Aleluia ou no Domingo da Páscoa, lá surge o boneco para opróbrio do fato nefasto da traição, qual um mecanismo coletivo de catarse, expurgo dos males sociais. Na mordaz herança que deixa em seu testamento versificado, as figuras polêmicas, populares ou indesejadas do lugar _ sobretudo os políticos,os ranhetas, as fofoqueiras _ vão ganhando presentes imprestáveis anunciados pelos versos, sob o apupo da platéia: a dentadura do judas, suas botas surradas, seu pinico imundo e outros trastes simbólicos. Os "agraciados" são referenciados pelo primeiro nome, ou por uma referência familiar ("João do Antoninho", ou seja, João, filho do Antoninho; "Teresa do Zé", ou seja, Tereza, esposa do Zé), ou pelos apelidos. É uma forma engraçada de dizer também sobre o conceito público que a pessoa goza naquela sociedade.

"O sr. Zé Bicho é festeiro
divertido do lugar,
deixo o pau de angu
ele pode vir buscar."

Uma curiosidade interessante destes testamentos é que entremeados aos versos propriamente de herança, por vezes surgem outros contendo avisos e ironias (**):

Em alguns casos o testamento inicia diretamente com os versos da herança, em outros é precedido por um termo de abertura (***) ou palavras iniciais, como as que se reproduz abaixo, da primeira metade da década de 1990, de quando Santa Cruz de Minas ainda era distrito de Tiradentes (****):

"Ilmo. Sr. Prefeito de Tiradentes e os demais da Câmara municipal desta comarca; ilmo.sr. Comandante do destacamento de polícia sediado em Santa Cruz de Minas e as demais autoridades presentes... caros colegas e amigos: para vocês é um dia de festa, dia de muita alegria, pois nesta data comemora-se em todo o Brasil a queima do judas. Para iniciar o nosso testamento vou deixar a herança que lhes pertence."

Também dessa cidade, procedem do mesmo período, alguns versos de herança escritos sob a forma de sextilhas, bem incomuns na região. No testamento (*****) estavam manuscritos com letra diferente daquela do texto principal, ao seu fim, deixando a entender que era um complemento escrito por pessoa diferente do autor:

"O Rui diz que é meu amigo
eu escuto ele falar,
o judas deixou comigo
para ele eu entregar
uma bacia furada
pros pãezinhos amassar.

Pra mim restou uma corda
pra poder me enforcar,
pro Rui o judas deixou
somente um velho emborná
pra ele fazê remendo
nas calças quando rasgar.

O Rui aqui nesta vila
é um caboclo respeitado,
o judas deixou pra ele
um piniquinho furado
pra por embaixo da cama
quando ele estiver deitado.

Ainda resta pro Rui
um terno e um guarda-chuva,
o judas deixou também
a aliança e um par de luva
deixando ordem pra ele
casar-se com a viúva."

Isto fica claro à menção repetitiva nas estrofes à conhecida figura do saudoso "Rui da Padaria" (Ruy Vale), comerciante local muito popular que escrevia os testamentos, a quem se deve o reconhecimento dos esforços na manutenção desta tradição. Comentava-se, que na proximidade do festejo, deixava sobre o balcão papel e caneta e quando os fregueses mais afeitos à brincadeira chegavam, tinham a liberdade de escrever um verso de herança, configurando assim um caso muito interessante de construção coletiva deste pasquim. 

Impresso de divulgação, em papel ofício, 
anunciando queima do judas.
Santa Cruz de Minas, 2001.
Em 1999 em Santa Cruz houve uma queima na Praça do Cruzeiro, num lote vago, onde se fincou uma embaúba da qual se pendia o boneco, com um trailer aproveitando da oportunidade comercial do evento, incrementando as vendas. Caixas de som tocavam em alto volume música popular em voga, som mecânico. Não havia nenhum enfeite no local, nem mesmo a famosa chácara do judas, construída com folhas de bananeira e talos de cana, mas a criançada se divertia com o pau de sebo e o espiribol. No mesmo dia aconteceu um outro judas, na Cava, organizado pela sra. Helena. Havia poucos enfeites, música mecânica, um barraca improvisada com bambu vendendo comes e bebes. O boneco estava enforcado numa embaúba fincada em pequeno barranco. Não havia chácara. Soltaram fogos de artifício.

No ano seguinte, na Praça do Cruzeiro a animação se deu com um conjunto musical tocando música ao vivo; já noutro judas numa rua fechada na região da Caixa d'Água, o som foi mecânico. Mais uma vez não houve a chácara, embora o testamento estivesse presente. Em ambas a novidade ficou por conta da "mulher do judas", uma boneca enforcada em embaúba separada, vestida de saia, seios postiços bem evidentes, cabeleira loura. Chamavam-lhe "a juda", em oposição a "o juda". Os bonecos foram acesos pelo artefato pirotécnico do avião. O pau de sebo foi muito disputado pela criançada.

A tradição das queimas de judas continua na região embora bem mais arrefecida que no passado, quando tinha imensa popularidade e era sempre muito concorrida.

Judas numa embaúba. Rua Oswaldo Lustosa,
Santa Cruz de Minas, 2004. 
Notas e Créditos

* Em 1999 na região mais circunvizinha houve queimas de judas em Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, São Miguel do Cajuru, São Gonçalo do Amarante e São Sebastião da Vitória - todas estas vilas, distritos de São João del-Rei; na sede do município nos bairros São Dimas e Tijuco (Águas Gerais e dois no Barro Preto), além de notícias não confirmadas para o Largo do Carmo (Centro); Prados; Ritápolis e seu distrito, Penedo; Santa Cruz de Minas. Informantes: dois fogueteiros de São João del-Rei, fabricantes de judas, indicando os locais que lhes encomendaram os bonecos no ano da informação. 
** No Glória (Ritápolis), por exemplo, no testamento de 1997:


"Meu amigo Lisnei,
que trabalha no caminhão do leite,
preciso aconselhar,
fique esperto com Wilson pra não tomar seu lugar."

"Meu amigo David,
que é neto do Pazinha,
não põe a mão no bolso
nem pra jogar tampinha."

"Meu amigo Edmar,
que é um grande companheiro,
está com um nó na garganta
chamado Atlético Mineiro."

*** Por exemplo, num testamento de uma queima em São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei), em 20/04/2014, o termo de abertura era o seguinte: "Minha gente hoje é dia de queimar o judas que traiu Nosso Senhor. Como ele não tem filho, deixa a herança para os amigos. No mais termino. Os organizadores agradecem a todos que colaboraram."
**** Emancipação em 21/12/1995. 
***** Exemplar gentilmente cedido por Luthero Castorino da Silva em 29/03/1999. 
****** Texto e fotos: Ulisses Passarelli 
******* Leia mais sobre o assunto neste blog: 

JUDAS, JUDEU ERRANTE E TESTAMENTOS  
O BOI MALHADO E A QUEIMA DO JUDAS  
BOI & JUDAS 
QUEIMA DO JUDAS 
QUEIMA DO JUDAS: CAJURU

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Nossa Senhora do Desterro

Na hagiografia popular, a imagem de Nossa Senhora do Desterro é muitas vezes referida como "Fuga para o Egito". Representação estampada, pintada ou em forma de imagem de gesso, madeira, argila, etc., do episódio bíblico da fuga da Sagrada Família para o Egito, após São José, o Carpinteiro, ter sido avisado em sonho por um anjo, que Herodes mataria os inocentes (Bíblia Sagrada, 1965: Mt 2, 13-22). 

Figura assim numa viagem: a Virgem Maria com o Menino Jesus ao colo, sobre um jumento e São José puxando-o por uma corda, tendo na outra mão o farnel, como viajante. Os evangelhos canônicos não descrevem a viagem em si, seguindo a narrativa direto para o batismo e início da vida pública de Jesus. Assim se desconhece os feitos de sua infância. Porém os textos apócrifos narram a infância de Jesus, os temores dessa viagem e os fatos acontecidos. 

O Evangelho Apócrifo da Virgem Maria, por exemplo, descreve a penosa viagem repentina até Alexandria, com o burrico passando imperceptível em meio à profusão das caravanas de mercadores. O Evangelho do Pseudo-Mateus narra fatos extraordinários e prodígios acerca desse desterro, com feras ao lado do Menino Jesus como se fossem animais mansos, a altíssima palmeira se reclinando sob sua ordem para abastecê-los de frutos, dentre outros fatos lendários. Já o Papiro Bodmer e o Proto-evangelho de Tiago oferecem uma versão diferente: ante o massacre dos inocentes, não citam a fuga em si, mas relatam que a Virgem Maria enrolou o Messias em faixas e o ocultou dos soldados de Herodes numa manjedoura de bois (Moraldi, 1999). 

Considerados sagrados pelo povo, os textos apócrifos contribuíram sobremaneira para a composição de várias lendas relacionadas a este episódio bíblico. Do amálgama de fontes antigas e tradições seculares brotou a crença. São correntes na região por exemplo, fatos lendários relacionados à saracura, ao gambá e à embaúba, relacionados à Fuga para o Egito, em parte já narrados neste blog, conforme indicam os links. A árvore da embaúba (família urticaceae, gênero Cecropia) ficou marcada na crendice: durante a fuga, atrás de uma velha árvore dessa espécie, muito grossa, ocultou-se Nossa Senhora dos olsdados romanos que os perseguiam. Menino Jesus estava ao seu colo maternal. Muito mais tarde, teria sido numa embaúba que Judas Iscariotes se enforcou. A biologia não consente tal afirmação, pois o mapeamento botânico indica Cecropia como vegetal da América e não do Oriente Médio, onde não existe. Para algumas vertentes da umbanda a embaúba é uma árvore consagrada a exu. 

Da Fuga para o Egito surgiu também a imagem de São José de Botas, o viajante, de cajado à mão, botas de canos altos aos pés. Nos tempos coloniais nas Minas Gerais, como aqui em São João del-Rei, donde procedem estas observações, São José de Botas foi muito querido como uma espécie de patrono emboaba, por sua figura de peregrino, à procura de uma nova terra. Sua imagem aparece nalgumas igrejas. Protegeria os aventureiros que de longe vieram às nossas betas à cata do ouro, também eles, de alguma forma, desterrados... 

Desterrar é retirar, sair, expatriar. Então, crê o povo, que quando se reza para Nossa Senhora do Desterro, os males são desterrados de nossa vida, da casa, do trabalho, do caminho. É sob a força dessa invocação sagrada que fogem espavoridos os maus espíritos, as assombrações, as potências malignas que perturbam os seres humanos. Sua prece e invocação tem o poder de um expurgo, uma catarse, um livramento. Daí ser tão querida e respeitada. A analogia se faz pela imagem: assim como a Sagrada Família teve de sair de sua terra e fugir dos maus, hoje, em estado glorioso, tem o poder de fazer o contrário, fazendo os maus fugirem. 

Diante desse entendimento é que sabiamente, diz o povo em tom exclamatório ao ver ou ouvir um fato assombroso: "Nossa Senhora do Desterro!" É o que basta para isolar o devoto daquele malefício. Mas há sempre os mais supersticiosos, que na oportunidade complementam automaticamente com três batidas da mão direita fechada sobre uma superfície de madeira, dizendo: "isola!"

Fuga para o Egito. Cerâmica figurativa artesanal do Vale do Paraíba.
Acervo do autor. Artesã: Ismênia. Taubaté/SP. Déc. 2000.

Referências Bibliográficas

Bíblia Sagrada. 6.ed. São Paulo: Ave Maria, 1965. 1602 p. + anexos.

MARTÍN, Santiago. O Evangelho Secreto da Virgem Maria. 24.ed. São Paulo: Paulus, 2012. 223 p. 

MORALDI, Luigi. Evangelhos Apócrifos. São Paulo: Paulus, 1999. 393 p.

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografia: Iago C.S. Passarelli.

Notas

- Revisão: 18/06/2026. 

sexta-feira, 20 de março de 2015

Quinta-feira de Trevas

"Trevas" é como popularmente se chama a quinta-feira da Semana Santa à guisa de um sombrio epíteto. Quinta-feira Santa. O nome é um corolário de todo o ideal de terror que se infundia entre os fiéis durante a quaresma. 

Foi o dia no qual Cristo foi aprisionado pela traição de Judas Iscariotes. Em São João del-Rei, é o dia tradicional da “visitação das igrejas”, quando os devotos à partir das 18 horas vão aos antigos templos do centro histórico visitar um por um, fazer suas orações e ver as montagens cênicas alusivas aos últimos dias de Jesus como humano. Cada templo se esvazia de seus bancos ou os arreda; o assoalho é recoberto por muitas folhas de rosmaninho, que exalam odor característico, muito intenso; todas as imagens dos altares estão recobertas por panos roxos; a luz está atenuada para melhor efeito da montagem, pois é sobre ela que se focaliza a iluminação; como fundo musical se ouve música barroca. Na porta da igreja, meninos batem matracas de tempo em tempo. Quando chegam fiéis, apresentam-lhes uma sacolinha para recolher o óbolo, gritando mecanicamente ao estendê-la: “para a cera do Santo sepulcro!” e matraqueiam alto. Sem dúvidas, é uma cena característica. As ditas montagens são compostas por grandes painéis pintados com figuras bíblicas, ou, mais comumente, por manequins vestidos à imitação de apóstolos, judeus, etc., ou com a mesma função, santos de roca, despidos das vestes habituais e trajados com roupas e adereços que os fazem representar personagens. Vasos de flores, objetos variados, túnicas, barbas postiças, candelabros, cântaros, etc., vão compondo o cenário. Numa igreja se representa a cena da última ceia; noutra, por exemplo, o calvário; ainda outra, a ressurreição de Lázaro, além de outros episódios marcantes. A porta de cada igreja, adultos e crianças vendem cartuchos de amêndoas, arnica, alecrim de horta, manjericão e rosmaninho, considerados bentos nessa época. Aliás, os altares também se revestem dessas ervas medicinais. Os passinhos estão também abertos à visitação, inclusive o oratório de Nossa Senhora da Piedade e do Bom Despacho. 

Mais tarde, terminadas as visitas, aos fundos da Catedral do Pilar, num grande palanque, tendo por fundo um painel com a pintura da mesa da Santa Ceia, realiza-se a solene cerimônia do Lava-pés, quando o bispo com uma bacia, água e uma toalha, lava e enxuga os pés de doze padres, fazendo lembrança do gesto humilde de Jesus para com seus apóstolos. Grande multidão assiste à tocante cerimônia. Em muitas cidades ela é realizada, com maior ou menor pompa. O clima barroco e da música sacra são-joanenses a fazem em tudo especial. 

Nas roças, ocorre ou ocorria, nessa noite, um interessante costume, agora, caso ainda existente, banido para os locais mais recônditos: indivíduos, valendo-se do escuro e calada da noite, vagam pelos quintais alheios, roubam coisas fúteis, objetos de pequeno valor. Em alguns lugares o produto roubado era anunciado à vítima, que nada fazia, como se permitisse a ação. 

No Sábado da Aleluia, tudo quanto fora roubado surgia no interior da Chácara do Judas e ninguém o retomava para si, mesmo reconhecendo o seu objeto que sumira. Quando da leitura do Testamento do Judas, ao ser citado fulano ou sicrano nos versos, o mesmo recebia por herança o próprio objeto que lhe fora furtado. 

Esse roubo consentido, não traz assim prejuízo material e em si contém uma crítica por ser ao seu próprio dono, aos olhos da comunidade, um presente devolvido pelo traidor de Cristo; portanto, uma farpa moral. O sentido simbólico é profundo. 

Em alguns lugares essa quinta-feira é justamente chamada “Dia da Judiaria”, pois além da ação dos larápios, fazem ainda travessuras a horas mortas, como abrir porteiras e galinheiros, comportas de moinhos, etc. Tudo é permitido nesse dia “sem lei”, pois a lei maior do mundo, o Messias, foi preso por traição. Judiaria é termo que remete aos atos dos judeus que condenaram o Filho de Deus, como também aos profetas que lhe prenunciaram. Essas questões ligadas aos judeus são constantes na cultura popular cristã. Com base nisso é que existe até o verbo “judiar”: fazer maldades, e daí, judiado, judiação, judiaria. Muito embora no presente, novas correntes de pensamento ou outras visões sobre as palavras condenem seu uso e estimulem o abandono dessas expressões, por representar uma discriminação contra esse povo, no entanto, tal discussão permanece mais nos meios intelectuais, enquanto nos populares o uso persiste arraigado. 

Uma quaresmeira (melastomatácea) da Serra de São José,
flor muito representativa do período em questão.
O roxo é a cor símbolo da quaresma.

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografia: Iago C.S. Passarelli, 2015.

Notas

- Revisão: 19/03/2026. 

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Judas, Judeu Errante e testamentos

A cultura popular, vasta e complexa, é como uma colcha de retalhos. O folclore de um tema se constrói com pedacinhos de história, com impressões de interpretação livre de fatos, com reminiscências de ritos antiquíssimos, com novos elementos de cores regionais vivenciados na comunidade. Destrinchar os componentes dessa fórmula não é tarefa fácil. 

O costume quaresmal de queimar ou malhar a porrete um boneco chamado Judas é bastante arraigado na Península Ibérica, de onde foi transposto para a América Latina. Ocorre em boa parte do Brasil e a Mesorregião Campo das Vertentes o conhece desde longa data e ainda o pratica. A aparência imediata evoca o apóstolo traidor de Cristo, o Iscariotes, que o entregou por trinta moedas de prata (Mt 26, 14-16), mas a queima de bonecos ou manequins é em verdade um ritual pagão difundido na Europa, típico da entrada da primavera e sofreu ao longo dos anos cristianização resultante na queima do Judas. 

O contexto de primeiro plano revela por detrás toda uma concepção popular de rancor contra o judeu. Séculos de catequese cristã repisaram a oposição dos fariseus a Jesus, a perseguição a profetas, aos precursores na pregação como São João Batista, ou a sucessores, como Santo Estevão e tantos outros. Na alma do povo foi criado como que um opróbio à palavra: "judeu" se tornou símbolo de ruindade, usurário. "Judiar" é fazer mal a um bicho ou pessoa, um verbo criado em cima desta concepção; donde provém "judiação", "judiaria" _ maldade, injustiça. Se o sujeito se configura como traidor, infiel, desleal, logo é alcunhado com desdém: "judeu!" ; "Judas!". 

“Quem quiser comprar eu vendo
um amor que já foi meu: 
é bonito como cravo 
é falso como um judeu” 

A quadrinha acima, colhida em Santa Cruz de Minas [1] é reveladora dessa impressão de falsidade atribuída no folclore ao judeu. 

Autores tem revelado o valor do judeu para a composição de nossa cultura popular. MARTINS (1991), perscrutando os componentes culturais do folclore mineiro, não se esqueceu deles: "outra fonte notável em Minas Gerais refere-se aos cristãos-novos ou judeus renegados, que transmitiram ao mineiro notáveis experiências, também sincréticas, pois chegaram a nós via Portugal." MEGALE (s/d) também revelou sua influência no capítulo "Influências Estrangeiras no Folclore Brasileiro", dizendo: "Muitos israelitas chegaram ao Brasil no período da Invasão Holandesa, fugindo dos tribunais da Inquisição (...) As maiores influências judaicas que tivemos são: o conformismo com o destino, o saudosismo messiânico e o "pão-durismo" do mineiro". (p.27 e 28). LIMA JR. (1965) forneceu importantes subsídios para a compreensão dessas influências. Seu trabalho dá conta, dentre outros, dos rituais mortuários, do hábito da sangria e de costumes em torno do recém-nascido que dos cristãos-novos passou ao folclore mineiro. 

No final dos anos setenta, em São João del-Rei, narrava-se as estórias de um homem muito velho, taciturno, barbudo, vestes tristonhas, que por ter ofendido Nosso Senhor andava pelo mundo sem rumo e sem paradeiro. Era o Judeu Errante [2].

É uma lenda das mais conhecidas que a tivemos da Europa. A leitura do verbete correspondente na obra de CASCUDO (s/d) é fundamental pela erudição do resumo que apresenta. Seria um homem da época de Cristo, Ahasverus, sapateiro de Jerusalém, que teria humilhado o Salvador no momento que carregava a cruz, quando disse em tom de motejo: "vai andando!". Recebeu então o castigo e ir andando até a volta de Jesus, sem morrer, sem rumo, sem destino. "A lenda apareceu em Constantinopla, no séc. IV, e apareceu na Europa em 1228", passando por variações de detalhes conforme o país onde se estabeleceu. Ainda hoje se diz, quando um sujeito anda demais, caminhando sem parar: "cruz-credo! Parece Judeu Errante!"

Texto de José Bellini do Santos inspirado no Judeu Errante,
publicado no jornal 'Diário do Comércio', São João del-Rei, n.181, de 16/10/1938. 

Acervo: Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida. 

Foi fácil e natural para o povo confluir as concepções criadas em torno do judeu sobre o personagem Judas, fustigado com porretes, varas, bombas, vaias, impropérios durante a quaresma, trazendo sobre si a maldição do traidor do Messias. 

Contrariando a tradição popular, em 2006 divulgou-se a existência do Evangelho de Judas, manuscrito descoberto em 1978 no deserto do Egito. Sua idade é estimada em cerca de 1700 anos. O mais notório deste apócrifo é a afirmação de que Judas Iscariotes teria traído Jesus a pedido do próprio, para que se cumprisse a necessidade de seu martírio. Judas teria então obedecido a uma ordem de Cristo, que o escolhera para dar início à sua Paixão. A Igreja logo respondeu que esta é a visão gnóstica do fato, não correspondendo à verdade histórica.

No Campo das Vertentes o costume era queimar o Judas no Sábado da Aleluia, como ainda corrente nas décadas de 1970 e 1980. O recorte jornalístico abaixo o demonstra. Ultimamente os Judas tem aparecido no Domingo da Páscoa.

Crítica humorística com personagens velados evocando
a queima de judas no Sábado da Aleluia. Jornal 'O Grypho', São João del-Rei, nº24, 25/04/1908.
Acervo digital da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida. 

VALE (1985) registrou em Prados uma referência oitocentista sobre a queima do judas terminada em tragédia no ano de 1888. O costume era de, na véspera, uma turma de rapazes e homens andar pelos sítios e casas roubando pequenas coisas e arvoredos para compor a chácara do Judas. Este roubos eram comuns na Sexta-feira da Paixão, a partir das 23 horas, porque "naquele dia tudo pertencia a Judas" (sic). Ocorre, que a rapaziada naquele ano, extrapolando os limites do antigo costume, tomara o carro de bois de uma fazenda e acabaram por submergi-lo na Lagoa da Atalaia. No exaustivo trabalho de remoção do rude veículo, dois homens morreram afogados. Segundo o autor, "quando foi proclamada a República, o arraial de Prados foi elevado a categoria de vila. O Presidente da Câmara, no mesmo ano, formulou um decreto preliminar, abolindo as festas do celebérrimo Judas."

Em alguns lugares mineiros o testamento do Judas (herança imaginária do boneco, cômica e aguçada, distribuída a certas pessoas da comunidade por meio de versos escritos) é conhecido por pasquim do Judas ou pela corruptela, "pisquim"(por exemplo, em Antônio Carlos e Bias Fortes, no limite sudeste das Vertentes). Os pasquins típicos eram folhetos improvisados à guisa de informativo anônimo, contendo notícias críticas, denúncias, revelações de falcatruas políticas. Em verso ou prosa, se escrevia e distribuía no total anonimato, temendo-se represália e punição. Legítimos elementos da folk-comunicação, em São João del-Rei, os pasquins eram legalmente proibidos pelas posturas municipais. Aos infratores era previsto no art.122, parágrafo 3º, multa de 5$000, além de três dias de cadeia: “o que distribuir pasquins manuscriptos ou impressos, gravuras de desenhos ofensivos á moral ou á descência, alusivos a qualquer fato da vida privada” (SÃO JOÃO DEL-REI, 1887)Um interessante estudo a respeito dos pasquins foi coordenado por LIMA (1981).

Obviamente que a semelhança de objetivos do pasquim típico com o testamento do Judas [3] ou ainda com o testamento do João do Mato, induziu o uso das expressões "pasquim do Judas" e "pasquim do João do Mato", este, restrito ao complexo dos mutirões de lavoura, não é assunto para esta postagem. Na região de São João del-Rei o termo "pasquim" sobrevive como alcunha pejorativa aplicada a algum jornal ou informativo considerado pelo povo como de má qualidade.

Judas em São Gonçalo do Amarante
(Caburu), São João del-Rei/MG, 20/04/2014.

Referências 

- SÃO JOÃO DEL-REI. Código de Posturas da Câmara Municipal da cidade de São João d’El-Rei. Ouro Preto: Província de Minas, 1887.

- LIMA JÚNIOR, Augusto de. A Capitania das Minas Gerais: origens e formação. 3.ed. Belo Horizonte: Instituto de História, Letras e Arte, 1965. p.138-142.

- LIMA, Rossini Tavares de et all. Folclore do Litoral Norte de São PauloRio de Janeiro: MEC / FUNARTE / INF; São Paulo: SEC / Univ. de Taubaté, 1981. 317p.il.

- MARTINS, Saul. Folclore em Minas Gerais. 2.ed. Belo Horizonte: UFMG, 1991. 126p.

- MEGALE, Nilza Botelho. Folclore Brasileiro. Petrópolis: Vozes, 156p.

- VALE, Dario Cardoso. Memória Histórica de Prados. Belo Horizonte: [s.n], 1985.

Créditos

- Texto e fotomontagens de jornais: Ulisses Passarelli.
- Fotografia do Judas: Iago C.S. Passarelli.  

Notas

- Revisão: 14/07/2026. 

[1] Quadrinha de Santa Cruz de Minas: informante - Elvira Andrade de Salles, década de 1990.

[2] São João del-Rei, Bairro Centro. Informante: Maria de Carvalho Santos. 

[3] Para leitura de exemplares de Testamento do Judas, acesso o seguinte link: https://folclorevertentes.blogspot.com/p/judas.html

domingo, 1 de junho de 2014

Boi & Judas

Boi Malhado da zona rural de São João del-Rei.
Foto: Iago C.S. Passarelli, 20/04/2014.


Assista ao novo vídeo do Boi Malhado e da Queima do Judas em São Gonçalo do Amarante (ex Caburu), distrito de São João del-Rei/MG, clicando no seguinte link: 

quinta-feira, 24 de abril de 2014

O Boi Malhado e a Queima do Judas

Um Festejo Popular em São Gonçalo do Amarante

Por muitas regiões do Brasil é bastante arraigado o costume de queimar, explodir ou malhar a varas e porretes um boneco grotesco chamado Judas, personificação do Traidor de Jesus. Este evento de ordinário acontece arrematando o ciclo quaresmal, em alguns lugares no Sábado de Aleluia, noutros pela páscoa, como o caso em questão. 

No distrito de São Gonçalo do Amarante (ex-Caburu), em São João del-Rei, a queima do Judas é uma tradição muito antiga, que passa por tempos de ocaso. Informações de campo indicaram que a última vez que aconteceu foi em 1999, já simplificada. Relatos de informantes mostram que anteriormente o costume era mais animado e contava também com a participação de um folguedo semelhante ao bumba-meu-boi, localmente chamado "Boi Malhado", que há cerca de vinte anos, segundo alguns, trinta, segundo outros, não saía às ruas. 

Felizmente, porém, neste Domingo da Páscoa, de 2014, o festejo transcorreu novamente, revestido de grande animação graças à junção de esforços de lideranças comunitárias como Miro, Sininho e outros, além do Mestre Vavá, que não mediu esforços para por o boi de volta na brincadeira. 

Confeccionado sobre um grande balaio emborcado, debaixo do qual se mete o homem que lhe dá vida em movimento de avanço e recuo, se faz acompanhar de vários tocadores locais, de pandeiro, caixa, violão, bandolim, acordeom e xique-xique, sendo todos eles congadeiros do lugar. 

O Boi Malhado faz a alegria da criançada. Com suas pegas pela rua afora, põe os pequenos a correr, mas que logo voltam para puxar o rabo do bicho ou fazer-lhe provocações na dianteira, fingindo-se pequenos toureiros.  

Na praça da matriz outro brinquedo chama a atenção: o pau de sebo. Pequenos e grandes fazem a farra no escorregadio madeiro, pelejando grimpá-lo em escalada para alcançar o prêmio tão cobiçado em seu topo. 

O sistema de som instalado no coreto toca músicas nos intervalos do boi e logo se fazem animações com as crianças. Do lado oposto foi fincada uma árvore de embaúba, símbolo da forca do Judas, patíbulo improvisado. O boneco é trazido e pendurado. Vestido de roupas velhas é recheado de bombas interligadas por um pavio. Entre o coreto e a embaúba, um arame liso é esticado e nele se prende um artefato pirotécnico em forma de avião. Na hora certa será ele a acender o pavio do Judas. 

Logo o povo se agita. Vai começar a leitura do testamento do Judas, um pasquim anônimo, que alguém do lugar escreve deixando em nome do Judas, uma herança indesejável para várias pessoas do lugar. Em tom de brincadeira, mas também de crítica, em versos, vai o boneco distribuindo heranças indesejáveis, por vezes oferecidas em tom crítico e chulo, mas que faz as alegrias do povo: 

"Deixo para aqueles que não ajudô,
um pinico de cocô..."

Concluída a leitura é hora do clímax. O aviãozinho recebe fogo e corre cuspindo fagulhas pelo fio de arame rumo ao Judas. A ansiedade é enorme e se escuta o burburinho das pessoas. As crianças ficam agitadíssimas! Adoram esta festa.

O fogo sobe pelo pavio do boneco e logo lhe atinge a primeira bomba, que arrebenta uma perna com grande estrondo; depois a outra e assim, estoura membro a membro, depois a cabeça e, por fim, uma explosão mais forte, lhe arrebenta por completo o tronco, sob as vaias, aplausos, gritos, vivas, xingamentos, gargalhadas, cachorros latindo e crianças agitadas. 

Então, um foguetório explode no ar, marcando o fim da festa. O Boi Malhado volta ao recolhimento, tocando rua afora, até para o ano se Deus quiser. O povo vai embora, cada um para sua casa, alegre, comentando as heranças, satisfeito com a festa e sentindo justiça feita pelo destino do mau apóstolo. 

O Boi Malhado brinca com as crianças na Praça da Matriz.

Os músicos que acompanham o Boi Malhado.

Tentando subir o pau-de-sebo. 

O aviãozinho.

O Judas.


Créditos


- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografias: Iago C.S. Passarelli, 20/04/2014. 

Notas

- Assista ao vídeo desta festa em: BOI & JUDAS  
- Revisão: 14/07/2026. 

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Pai João

Das heranças culturais do período econômico e histórico da produção escravocrata, uma das mais arraigadas é a dos "pretos velhos". Com esse nome passou para a cultura popular a imagem do africano ou seu descendente, já idoso, trazendo no corpo os estigmas dos castigos das senzalas, as cicatrizes, o andar trôpego, o olhar desconfiado, a fala engrolada mesclando a linguagem popular com palavras dialetais; imensa sabedoria, inteligência, calma para alcançar os objetivos. Pertinaz, goza também da fama de curandeiro, sabedor dos mistérios espirituais, grande devoto do rosário, senhor absoluto dos congados e folias e mestre dos saberes ancestrais. A cultura banto foi a principal responsável por este legado. Este estereótipo passível de mais qualificativos, goza de tremendo respeito nos meios populares e é sempre muito querido, não raro tratado carinhosamente pelo cognome de "vô" ou "vovô".

Muitas são as estórias que lhes rodeiam e tematizam. Algumas singelas revelam o sofrimento dos escravizados; outras, pendem a revelar a perspicácia em vencer obstáculos. Neste contexto folclórico que ora se aborda, as questões racistas e discriminadoras felizmente passam longe. O conteúdo valoriza a sua contribuição étnica, cultural, humana, religiosa, social e moral.

Não é raro que estes personagens venham com o epíteto de "pai", que tal como o de avô, já citado, denota carinho, proximidade, confiança, parentesco, proteção, filiação, ligação e sintonia.

Dentre tantos nomes um dos mais populares dentre os chamados pretos velhos é o de Pai João, tema desta postagem. Há pelo menos quatro sentidos para a denominação em foco. Passemos em rápida revista cada um deles.

01- Guia de umbanda, entidade espiritual de terreiro de matriz africana:

Espírito protetor; ser imaterial guardião de um lugar ou pessoa. Em alguns terreiros de umbanda, Pai João é o nome de diversas entidades espirituais da chamada Linha Africana, que vem acrescidos de qualificativos de identificação: Pai João de Angola, Pai João do Congo, ... de Minas, da Bahia, da Mata, da Calunga, Serrador, do Cruzeiro, etc. Vem aos terreiros incorporar nos médiuns e exercer trabalhos espirituais em favor dos filhos de fé. Mas ora não é objetivo traçado enveredar por esse viés [1]. É comum representá-lo em forma humana, esculpido ou modelado, como uma imagem de aspecto masculino, no geral sentado, com vestimentas que evocam características rurais antigas. 



Imagens artesanais de Pai João, em argila não queimada (em cima) e em madeira pintada em policromia (em baixo). 
São Gonçalo do Amarante, antigo Caburu (São João del-Rei/MG). Autor: Iago C.S. Passarelli, 09/10/2016.


02- Personagem de algumas Queimas de Judas: 

Apenas de passagem é mister recordar que existe também um personagem humano, cômico, mascarado, espécie de guardião da Chácara do Judas e do próprio boneco malhado ou queimado no Sábado de Aleluia ou no Domingo da Páscoa. Veste-se com roupas velhas, rasgadas, remendadas, puídas, vestida do lado avesso, alpercatas ou descalço, botinas em frangalhos, chapéu de palha, máscara no rosto, relho na mão. Pai João impede que as crianças invadam a chácara e roubem as prendas do Judas, antes do boneco estourar. Uma vez estourado pelas bombas, libera à agitação da petizada, que pega todos os pertences do Judas. Pai João aborda os presentes, falando com voz disfarçada e cavernosa, pede dinheiro, bebida, cigarro. Para os automóveis e com a desculpa de angariar algum dinheiro, faz-se de guarda de trânsito, inspecionando as condições do veículo e pedindo para ver os documentos, fazendo sempre comentários jocosos. Por vezes surgem dois ou três destes mascarados na festa da queima do boneco. Costume hoje raríssimo só encontra refúgio em pouquíssimas localidades rurais. Ainda é tradicional no arraial do Glória (Ritápolis) e também houve em São João del-Rei, cidade e no distrito de São Miguel do Cajuru. Nesta acepção o Pai João encontra par nos “caboclos”, mascarados que cercam o Judas no Alto Oeste Potiguar (Major Sales), e os “caretas” do sertão cearence central, Piauí e Tocantins.

Pai João tomando conta da Chácara do Judas. São João del-Rei, Centro.
Foto: Maria Aparecida de Salles, 1999. 


03- Personagem de certas Folias de Reis: 

Pai João é ou era ainda outro personagem mascarados que acompanhava as folias de Reis da zona rural, compondo com o palhaço (bastião) e a catirina, um animado trio de bufões, que, para além do sentido místico, tramavam os diálogos e recitativos com o anfitrião que recebia o grupo. Como tal foi conhecido desde a região das Vertentes ao sul mineiro e daí na área serrana limítrofe do Rio de Janeiro e São Paulo.

Pai João na Folia de Reis de Cunha/SP, déc.1940. 
Fonte: ARAÚJO, Alceu Maynard. Folclore Nacional. São Paulo: Melhoramentos, 1964.


04- Personagem fictício de uma série de contos populares: 

Por fim nos contos populares, Pai João é um nome tradicional e indefinido para designar qualquer africano ou seu descendente, idoso via de regra, envolvido na narrativa. As estórias de escravos ou forros “Pai Joões” cheios de sabedoria, força religiosa, calma, malícia, bondade, humor, tudo amalgamado num único personagem são tradicionais e difundidas no país, formando mesmo um ciclo temático dentro da literatura oral: 
“Acorda Pai João, 
levanta Mãe Maria; 
pra tomá café, 
que já raiou o dia!” 
(Catupé,Lavras, 2004.
Canto de congado na chegada ao local onde se serve o desjejum.) 

Um exemplar de Pai João tematizando um conto popular colhido em 1997 do saudoso José Cândido de Salles ("Zé Cristino Boiadeiro"), morador de Santa Cruz de Minas, mas natural de uma fazenda na Serra Velha, zona rural de Antônio Carlos. Nesta estória de delicioso sabor popular, Pai João se posta como adivinho e por pouco se livra de uma terrível encrenca. Ei-lo:

Pai João vivia com a Mãe Maria e juntos tinham muitos filhos pequenos. Foi um tempo que ele ficava só encabulado num canto, pensativo, não agia. Trabalhava nada. Parece que tinha desanimado de lutar pela vida. Ela, cheia de preocupações, alertava o tempo todo:

_ Pai João, Pai João... vai caçar modo de trabalhar pra sustentar nossos filhos que os mantimentos tão acabando e agente passa falta!

Foi um dia que Pai João respondeu:

_ Vocês pensam que eu tô à toa? Tô não. Estou trabalhando muito aqui, óh! (apontando para a cabeça). Tô botando a cachola pra trabalhar, que Pai João agora vai fazer adivinhação.
_ O quê?! Adivinhar? Você... Pai João, Pai João... cuidado! Que essa história de adivinhação vai dar em merda de cavalo preto!
_ Pai João vai adivinhar sim, você vai ver. Daí vou ganhar dinheiro...
_ Pai João, Pai João... A porca quando não tem o rabo comprido é rabicha! 

Com aquelas curiosas expressões Mãe Maria sabiamente alertava que adivinhar ele não tinha capacidade e poderia colocá-lo em encrencas. Não ia dar certo. Acabaria mal.

Mas não lhe deu ouvidos. Perto dali era um pouso movimentado de tropas que levavam a produção dos campos para a corte. Pai João começou a agir. Ficou o dia todo vendo a movimentação e se achegou aos tropeiros, ganhou confiança. De ouvidos atentos ouviu eles conversarem que tinham de entregar aquele grande carregamento urgente no dia seguinte, sob pena de severo castigo e prejuízo, fizesse chuva ou sol. Esperou eles dormirem e pôs seu plano em ação.

Correu em casa buscou um cincerro[3] e tirando no mato um pedaço de cipó, com ele amarrou-o ao pescoço da madrinha[4] e saiu juntando os animais cargueiros do pasto vizinho ao pouso para bem longe. Depois se recolheu. Com a barra do dia apontando, logo um tropeiro deu o alerta que os animais tinham sumido. A agitação foi grande e não faltaram comentários sobre os castigos que o rei lhes daria pelo atraso da entrega.

Pai João já estava por ali. Ficou esperando a hora certa até que soltou a sugestão, que era capaz de adivinhar onde a tropa estava. Os tropeiros se assanharam. Mas ele se fez de difícil e os homens lhe ofereceram recompensas: uma boa porção de cada gênero que eles iam carregando. 

Pai João falou assim:

_ Vocês lá vão levando uns rolos de fumo, né? Dá um pedaço pra nêgo véio pitá [5]...

Calmamente, picou o fumo, esmigalhou na palma da mão, carregou o fornilho do cachimbinho feito de toco de raiz de araçá do campo[6], fez que estava concentrando... Os tropeiros desesperados todos olhando para ele.

_ Vocês põe sentido no rumo que a fumaça vai pender. [7]

E de propósito baforou no rumo que tinha escondido os animais, na reta de uma grota erma, para adiante de um espigão. Juntaram todos para lá. Pai João impôs uma condição:

_ Nêgo véio tá cansado, não aguenta andar longe. Precisa de montaria.
_ Mas Pai João, todas sumiram...
_ Sozinho vocês não acham.

Foram agoniados pela redondeza e alugaram um animal para ele montar.

Saíram por ali fora, rompendo o saivá [8]. Depois de muito andar, eles já iam desistindo, quando Pai João, ao sopé do morro detrás do qual tinha soltado a tropa, falou:

_ Chegou.
_ Mas não vemos nada, Pai João.
_ Mas Pai João vê. Sobe no morro e olha pro lado de lá que vocês acha.

E lá estavam. Ficaram alegres, elogiaram Pai João, deram parabéns. De volta, como prometido deram-lhe de tudo um bom tanto e foram embora de viagem. Ele chegou em casa com toda aquela comida e abasteceu a despensa para muito tempo, falando que foi através de seu serviço de adivinhação. Mãe Maria ficou satisfeita com o suprimento mas não deixou de alertar de novo:

_ Pai João, Pai João... Essas adivinhação ainda vai dar em merda de cavalo preto! A porca quando não tem o rabo comprido é rabicha!

O caso é que a fama dele de adivinho esparramou. E um dia, no castelo, três garçons roubaram um tesouro. O rei e a rainha muito apegados à sua fortuna desconfiaram de Deus e o mundo [9], de menos dos três que tinham muita confiança. Começaram um grande interrogatório e até judiaram de estrangeiros que passavam por ali, fazendo torturas que visavam a confissão.

Foi aí que alguém se lembrou das habilidades do africano. Ele seria capaz de adivinhar onde estava a riqueza roubada. O rei mandou um criado lhe chamar sob pena de morte.

_ Eu bem que te avisei Pai João... (disse Mãe Maria).

Diante da majestade saiu essa ordem da boca real:

_ Você tem três dias para me dizer onde está o tesouro. Se adivinhar te dou uma parte dele e você fica rico pro resto da vida; se não, vai pra forca!

Prendeu o adivinho num porão isolado de tudo e de todos, para não interferir na sua concentração e mandou os garçons levarem para ele comida e água à vontade e com fartura. No fim do primeiro dia, depois da janta, o garçom foi levando um bule com café quente e ao entregar, Pai João exclamou:

_ É... já foi um, só faltam dois!

Se referia aos dias do prazo para morrer, pois não sabia adivinhar coisa nenhuma. Mas o garçom entendeu que ele já tinha adivinhado o furto: o um seria ele próprio, ou seja teria adivinhado um dos ladrões. Ficou com muito medo e contou para os outros, pois achava que Pai João tinha mesmo esse poder.

No segundo dia foi o mesmo processo. Na hora do café antes de dormir ele...

_ É... já foram dois, só falta um!

Estava com medo pois faltava um dia para sua execução. Os garçons com mais medo ainda se juntaram e chegaram à conclusão, que, se ele já tinha descoberto dois facilmente, descobriria o terceiro e resolveram se confessar a Pai João. Foram os três ao porão:

_ fomos nós Pai João que roubamos o tesouro, mas pedimos sua ajuda senão o rei mata agente na hora. Óh, temos umas economias aqui que agente tem juntado do nosso trabalho de garçom. É tudo seu se não contar que foi a gente.
_ Mas e o tesouro, onde está? Retrucou Pai João.
_ A gente escondeu, mas vamos aproveitar a madrugada para por no lugar de novo. Temos liberdade e confiança para entrar em qualquer lugar.
_ Então, tá certo.

Assim foi feito. Pai João, vencido o prazo e já tranquilo, foi levado à presença do trono.

_ Seu prazo venceu, disse o Rei. Onde está meu tesouro?
_ Uai, tá no lugar, seu Rei.
_ Está brincado comigo?
_ Não senhor. Essa é a adivinhação de Pai João. O tesouro voltou pro lugar...

Saiu às pressas para conferir e voltou todo alegre, deu os parabéns a ele, elogiou. Mas como gostou das habilidades do adivinho, lhe impôs um novo desafio, agora por pura diversão. Cochichou no ouvido de um servo para soltar suas montarias no pasto e reservar no piquete um animal predileto, o que mais gostava, um cavalo de lustrosa pelagem preta.

_ Pai João: tenho muitos cavalos. Soltei tudo no pasto, só reservei um preso, meu preferido. Que cor que ele é? Se adivinhar aumento sua riqueza, senão você não volta mais pra sua casa.

Ele baixou a cabeça, entristeceu o semblante, se viu em apuros. Como não tinha saída, lembrou de sua esposa:

_ É... Bem me disse Mãe Maria que daria em merda de cavalo preto...
_ Isso mesmo Pai João! Parabéns!!! O cavalo é preto.

A corte toda o aplaudiu. A rainha, muito encrenqueira, para não ficar para trás, chamou também sua ama e fez o mesmo jogo, agora prendendo uma leitoa nabuca [10] e propôs o mesmo a Pai João: aumentar a recompensa ou a prisão. Caiu ele noutra agonia e sem ter saída ...

_ É... bem me disse Mãe Maria que a porca quando não tem o rabo comprido é rabicha...
_ Isso mesmo Pai João! Adivinhou! Ela não tem rabo, é cotó.

E assim, aclamado, aplaudido, respeitado, Pai João voltou cheio de muita riqueza e quando Mãe Maria perguntou o que ia fazer com tanto dinheiro, respondeu:

_ Pai João vai formar os filhos para advogado para defender Pai João ...

 E nunca mais mexeu com adivinhação.

"Cachimbo de escravo". Caquende (São João del-Rei/MG). 

"Cachimbos de escravo". Três Praias - Serra do Lenheiro (São João del-Rei/MG). [2] 

Cachimbos artesanais, feitos por entalhe em raiz de araçá do campo (fornilho) e bambu (pito), sendo o exemplar mais escuro bastante usado e o claro ainda sem uso. Artesão: José Marcos de Oliveira. Procedência: Brumado de Cima (São João del-Rei). Autor: Ulisses Passarelli, 01/08/2025.

Créditos 

- Texto e desenhos de cachimbos: Ulisses Passarelli.  
- Fotografias: conforme consta nas respectivas legendas. 

Notas 
- Revisão: 01/08/2025. 

[1] Um fato digno de nota observamos no distrito de São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei) onde algumas pessoas, a rigor católicas, conservam em suas casas, em geral na estante da sala entre objetos comuns, uma imagem artesanal de um preto velho típico da cultura popular, a que chamam indistintamente de "Pai João". Não é um gongá. A aparência é de um simples bibelô de prateleira, mas contém em verdade e para além superficialidade um sentido simbólico profundo. Dizem: "é bom ter um Pai João em casa. Espanta os males..."

[2] Obs.: os cachimbos desses desenhos foram encontrados ao acaso, como achado de superfície, em antigas áreas de mineração aurífera por Luiz Antônio Sacramento Miranda, em cascalheiras (Três Praias) e grupiara (Caquende). São peças artesanais em barro, preservando apenas o fornilho (falta o pito). Mesmo que não se possa historicamente provar que pertenceram a pessoas escravizadas, na cultura popular, cachimbos deste tipo quando porventura são vistos são imediatamente rotulados de "cachimbo de escravo". Atualmente estes cachimbos encontram-se sob a guarda do Museu Municipal Tomé Portes del-Rei, já com o devido reconhecimento oficial por meio de Inventário de Patrimônio Cultural (Acervo Arqueológico e Paleontológico do Museu Municipal - IPAC/2024; Decreto Municipal nº11.558, 16/12/2024). 

[3] - Cincerro: sineta metálica, em geral de bronze, que se amarra no pescoço dos animais para facilitar a localização no pastoreio e para guiar outros animais como o guia do rebanho.

[4] - Madrinha: a guia do rebanho, quase sempre uma égua muito mansa, que os outros animais sempre acompanham a direção.

[5] - Pitar: fumar.

[6] - Araçá: Psidium, arbusto da família das mirtáceas. A crença popular atribui à sua raiz misteriosos poderes sobrenaturais, que afastam males, daí ser usado para confecção de cachimbos artesanais. Um verso de congado alude a essa madeira: “Casca de buta, / raiz de araçá, / sai do caminho / que eu quero passá!” (Capitão Luís Santana, Bairro São Dimas, São João del-Rei / MG, 1996).

[7] - Prática divinatória tradicional: a fumaça do cigarro, cachimbo, charuto ou fogueira ritual durante a benzeção ou cerimônia vira-se no ar apontando a direção do que se procura e motivou o rito. No norte mineiro, vale do São Francisco, corre que se a fumaça da fogueira de São João direcionar-se rio abaixo indica ano com chuvas regulares, se for rio acima (região da nascente ou cabeceira), muita chuva, se subir verticalmente, ano seco. Sobre isto ver: DIAMANTINO, Dêniston. São João na Roça. Opará Documentários, 1999. In: Dêniston Diamantino, YouTube, 20 jun. 2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=mc6U1alhO2A&t=11s  Acesso em 31 jul. 2025. 

[8] - Saivá: matagal, terreno inculto, pasto sujo de arvoredos e espinhos, densamente vegetado, de passagem difícil. O mesmo que sarandi e restinga (neste sentido exclusivo. Não confundir com a vegetação típica de restinga, que é litorânea).

[9] - “De Deus e o mundo” – expressão popular de amplitude; todos, qualquer pessoa.

[10] - Nabuca – sem cauda ou de cauda excepcionalmente curta. O mesmo que cotó, sura, suruca ou rabicha.