Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Reinado em Ritápolis

Transcorreu com grande animação, mais uma vez, o festejo do Reinado de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, em Ritápolis/MG, Brasil, concluído com o dia maior no último domingo, dia 1º de outubro de 2017. 

Na Igreja do Rosário concentraram-se os congadeiros _ além dos dois ternos locais, compareceu também um do distrito da Restinga, um de São João del-Rei (Bairro Matosinhos) e o Moçambique Santa Efigênia, que mescla componentes de São João del-Rei e Santa Cruz de Minas. Dois mastros estavam fincados no adro, um de cada lado, dedicados à Virgem do Rosário e a São Benedito. 

As celebrações foram primorosamente presididas pelo pároco, Padre Nélio José dos Santos, que trata aos participantes com notável respeito e carinho, sendo seu apoio fundamental ao êxito dos festejos. Além disto, a festa se constrói com o apoio da Prefeitura Municipal, da incansável comunidade e sobretudo dos congadeiros. 

Como de costume, houve grande fartura alimentar, ofertada aos irmãos do rosário dançantes nos ternos de congado: café da manhã, almoço e lanche da tarde. 

O reinado foi recolhido a partir da Igreja de São Pedro e São Paulo, até a do Rosário, chamando em especial a atenção o esmero das vestimentas e a dignidade da corte. Destaque para a Rainha Conga, Dona Sebastiana, uma verdadeira pérola, com seus sessenta anos de reinado segundo informações orais de congadeiros ritapolitanos. 

A procissão foi por demais concorrida e por longo trajeto transitou por ruas adornadas, ao troar de tambores, sob cânticos devotos e espoucar de fogos de artifício. 

Ritápolis se destaca nas tradições culturais com seus congados e folias, a banda de música, a tradição das queimas de judas na zona rural e um animado carnaval, que se encerra com chave de ouro com o Enterro do Zé Pereira. Situada no Campo das Vertentes, banhada pelo Rio das Mortes, é localidade surgida nas primeiras décadas do século XVIII, à margem da Picada de Goiás. Sob as bênçãos de sua padroeira, Santa Rita de Cássia, a cidade recebe anualmente uma multidão de devotos em seu jubileu de maio; preserva ainda parte significativa do casario antigo e com suas tradições e povo acolhedor, merece ser visitada. 

Fazemos votos que as festas congadeiras perserverem por anos ilimitados, mantendo firme a tradição dos antepassados. 

Igreja do Rosário de Ritápolis, vendo-se os dois mastros nas laterais do adro. 

Congadeiros da Restinga cantam agradecendo almoço. 

Capitãs Adelita e Juliana, do Congado Divino Espírito Santo e Nossa Senhora do Rosário,
de Ritápolis, ladeando a Rainha Conga Dona Sebastiana. 

Moçambique Santa Efigênia, sob o comando dos Capitães Tadeu e Danilo.
 
Congado São Benedito e Nossa Senhora do Rosário, de Ritápolis,
durante a procissão, adiante do Reinado. 

Andores de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito após a procissão. 

Prefeitura Municipal (imóvel à esquerda da foto), casario
e Santuário de Santa Rita de Cássia.

Igreja de São Pedro e São Paulo. 

Créditos

- Texto e fotografias: Ulisses Passarelli

Notas 

- Revisão: 05/09/2025. 

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Festa de São Benedito no Bonfim

Concluiu-se na noite de ontem na Igreja do Senhor  Bom Jesus do Bonfim, em São João del-Rei, a festividade em honra a São Benedito. Ao final da tarde apresentou-se diante da antiga igrejinha e ao pé do mastro o Moçambique Santa Efigênia e o Catupé São Benedito e São Sebastião e ambos entoaram seus louvores e animaram bastante o local. 

A celebração da Santa Missa foi muito concorrida, ganhando destaque a participação do tradicional Grupo de Inculturação Afro-descendentes Raízes da Terra. Foi realizada com grande empolgação e valores culturais, em clima de forte apelo religioso. Estiveram também presentes os senhores e senhoras reis e rainhas de São Benedito. 

O andor com a imagem do santo festejado estava muito enfeitado e seguiu em procissão acompanhado pelos congados presentes e grande número de fieis, em longo percurso pelo Bairro do Bonfim. A saída foi da igreja nova e chegada na igreja velha. Os grupos tocaram ininterruptamente durante todo o itinerário procissional. A chegada foi empolgante, com intenso foguetório e dobres de sino. A bênção do Santíssimo Sacramento foi extremamente respeitosa e participativa. Na entrada do andor uma chuva de pétalas de rosas caiu sobre a imagem, entremeio muitas palmas, vivas e rufados de caixas. 

Os grupos se recolheram, recebendo antes um farto e saboroso lanche.

As comemorações sociais continuaram no adro com movimento de barraquinhas e música. 


Igreja antiga. Ao lado do cruzeiro luminoso o mastro de São Benedito. 

Igreja nova com movimentação de devotos. 

Uma das guardas presentes à festa. 

Bênção do Santíssimo Sacramento. 

Bênção do Santíssimo Sacramento. 

Andor de São Benedito. 

Notas e Créditos

* Texto e fotografias: Ulisses Passarelli

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

São Sebastião e São Benedito: festa em São João del-Rei

São João del-Rei, cidade pródiga em festividades, prepara-se no Bairro de Matosinhos para a realização de mais uma comemoração em honra ao "Santo Mártir Guerreiro", São Sebastião, na Avenida Santos Dumont, co-festejado com "Binidito Santo", o São Benedito (*).

A comemoração se realiza desde o ano de 2001 e conta com a participação das folias de São Sebastião e congados, além do levantamento de mastros. 

A comunidade local é um importante centro de promoção dos valores da conscientização contra o racismo e a discriminação. O movimento de inculturação afro-brasileira local é bastante significativa. No cartaz abaixo anexado como fotografia pode-se avaliar maiores detalhes do evento. 


Cartaz em papel-couché, 40 x 60cm. 

Notas e Créditos

* As expressões entre aspas são habituais nos versos de folia e congado na região das Vertentes para se referir a estes santos.
** Texto: Ulisses Passarelli
*** Leia também: OUTRAS DEVOÇÕES E FESTAS 

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Moçambique de Ribeirão Vermelho


Moçambique "São Benedito" (jomba), de Ribeirão Vermelho/MG,
durante a Festa do Rosário em Ibituruna/MG. 30/06/2013.

Notas e Créditos

* Texto, vídeo e acervo: Ulisses Passarelli


quarta-feira, 15 de abril de 2015

O demônio logrado por São Benedito

Nesta postagem o popularíssimo São Benedito volta à cena, agora no contexto da literatura popular oral. Exemplo de homem cristão, querido pelos escravizados no passado, padroeiro dos congadeiros de ontem e de hoje, de origem humilde e descendência africana, é extensamente presente em diversas manifestações folclóricas em todo o Brasil.

Os dois contos aqui expostos trazem em seu bojo uma série de elementos tradicionais e típicos do gênero do "demônio logrado", como por exemplo, a forma de desaparecimento do capeta, sob uma explosão, deixando um rastro fedorento de enxofre e fumaça. Ainda cita a tripa do Judas, outra simbologia, significando a entranha do mal, o âmago daquilo que é ruim.

Quantas vezes ouvimos em São João del-Rei a estória do Homem do Pé de Pato... Não é do mesmo gênero mas compartilha elementos. A moça que abusasse e na quaresma se atrevesse a ir em um baile, seria abordada por um moço desconhecido, de grande beleza, muito bem vestido, com requinte e elegância, que a convidaria para dançar. No meio da dança, enlevada pela sedução do jovem, a moça cairia em si estupefata, em crise de desespero ou desmaio, porque ao olhar para os sapatos de seu par via para seu espanto, que eram pés de pato... O moço era o demônio, que então sumia num repentino estouro de fumaça e fedor, ou apenas se esvaía como neblina. Noutra versão corrente na mesma cidade, com o mesmo desenvolvimento e mudança só no desfecho, o belo jovem comete a deselegância de dançar de chapéu à cabeça e só pelas tantas o tira, quando acontece o mesmo choque, posto que tem chifres.

Aqui também vemos o repisamento da tentação, o diabo laçando pela aparência física, o flerte, a sedução sobre a jovem incauta.

Típico dos contos do demônio logrado é a solução inesperada para o caso, uma situação que supera a sagacidade do mal: no conto A Velha do Chinelo, por exemplo, exposto neste blog, o demônio também se materializa como cavaleiro e a solução é pela armadilha do falso testemunho; já nos dois casos abaixo, a solução se dá por um atoleiro e ainda pelo mesmo artifício do jovem sedutor, bonito, charmoso, só que desta feita pelo lado do bem, impedindo a aproximação do mal.

A didática ou antes catequese desses contos é notória. Usando de uma linguagem ao agrado da cultura popular e de uma dramatização folclórica, contextualizada em um ambiente que simula ou sugere o rural antigo, ambos os contos de alguma forma alinham pelo exemplo os elementos devoção-tentação x racismo-discriminação.

Tem que ser entendidos e lidos à luz do folclore, a cujo campo pertencem. O ensinamento transmitido é que o racismo e a discriminação não são de Deus. São obras do mal, demoníacas. A beleza e o caráter do homem preto superou o do homem branco e cativou a moça devota. Sua devoção era tamanha que o santo, pressentindo seu perigo, veio em socorro, sem precisar que ela pedisse. A lealdade dela ao grande taumaturgo garantiu que saísse ilesa.

Em momento algum os contos transmitem mau exemplo, nem pelo linguajar. Pelo contrário, combatem o racismo e a discriminação. Provam que a virtude sob a forma de um homem preto foi muito mais forte que a artimanha do contrário. Com seu enredo atraente passam o recado da necessidade de forte devoção, do valor e beleza da negritude, do poder do santo, da retidão de conduta do fiel e da malícia que o diabo possui e usa.

Diante do exposto, segue-se dois contos desse gênero, coligidos há década e meia, em Santa Cruz de Minas. 

São Benedito: pintura de arte popular numa bandeira de congado (catupé),
de São Sebastião da Estrela (Santo Antônio do Amparo/MG), 30/06/2013. 

1) Uma moça muito bonita ia se casar e o diabo quis atrapalhar. Tomou a forma humana e montou um cavalo muito bem arreado, com fivelas metálicas brilhantes. Vinha como um rapaz bastante elegante na vestimenta, belo e charmoso. 

A noiva era muito devota de São Benedito e pediu a benção dele para seu casamento. O santo ouviu a súplica e vendo-a em perigo pela armação de satanás, tratou de impedi-lo. Fez o cavalo dele tomar outro rumo e atolar num brejo de forma que não pudesse sair. Não podia descer para não sujar a roupa de barro. Pelejou para desatolar e não conseguiu. 

Enquanto isto, o casório aconteceu. Terminado o casamento, voltando os convidados, ao passarem pela estrada, o demônio disfarçado de jovem perguntava: 

"_ Vocês viram o Benedito?" 
  _ Não ..."

 E o coisa ruim resmungava palavras ofensivas.

Quando os recém-casados estavam em segurança o santo finalmente apareceu ao tinhoso [1] e deu ordem de desatolar. O cavalo saiu do brejo na hora e o santo falou:

"_ Não vai atrapalhar ninguém! Vai-te estourar nas tripas do Judas e feder a enxofre nas profundas dos infernos!"

Então aconteceu um estouro fumacento, com cavalo e capeta, sumindo tudo para o inferno. 

Andor de São Benedito. Festa do Rosário, Ramos (Ritápolis/MG), 24/09/2000. 

2) Uma moça era bastante devota de São Benedito. Ela gostava muito de baile, danças. Era ocasião de uma quadrilha, tempo de festas juninas. O diabo estava por perto, na espreita, espiando por umas gretas [2]

Ela dançava de forma inocente e ele cismou de perverter a moça. São Benedito, pressentindo o perigo que a jovem corria e considerando sua grande devoção, apareceu no baile para protegê-la. Veio na forma de um rapaz preto e o demônio por sua vez como um rapaz branco. 

O jovem preto logo se aproximou da moça e a pediu para dançar, se não tivesse preconceito. Ela agradando muito dele, aceitou de imediato e assim bailaram a noite toda. O diabo nada pode fazer e o santo, através de seu poder, afastou dali o capeta, que logo foi embora do baile e assim a moça foi salva. 

Créditos

-Texto e fotografias: Ulisses Passarelli. 
- Informante: Elvira Andrade de Salles, Bairro Córrego, Santa Cruz de Minas/MG, 27/08/2000.

Notas

[1] Tinhoso: o demônio. Talvez o ódio do povo contra ele, a vasta mítica desenvolvida pela cultura popular ao seu redor, geraram uma vasta sinonímia, acrescida por novos termos em cada região: bruto, encardido, capiroto, pemba, coisa ruim, "malino" (maligno), cramunhão,cariá, etc.

[2] A informante dizia que o diabo tem licença para atentar em três situações: no ato de uma jogatina (jogos de azar), numa dança de quadrilha e onde tem cisco parado. Nesta última situação se a pessoa ao varrer juntou o lixo num canto e não pôs na lixeira ou para fora numa pá, surgem inesperadamente, discussões, desentendimentos sem qualquer motivo. É o maligno atentando. 

- Revisão: 17/06/2026. 

- Leia também neste blog:

O GLORIOSO SÃO BENEDITO 
GUNGA SERENA!

terça-feira, 17 de março de 2015

O glorioso São Benedito

O patrono dos congadeiros

Benedito é um santo católico, muito querido e popular, festejado a 04 de abril, data de sua morte, no ano de 1589. Já recebeu as honrarias da canonização popular (sobretudo dos escravizados) antes mesmo da oficial da Igreja, que se deu em 1807. Há controvérsias sobre sua história. Narram alguns que era mouro, capturado como escravo no norte africano e trazido para a servidão no sul da Itália. Outros, porém, o consideram natural da Ilha da Sicília, cidade de Palermo, filho de pais escravos, naturais da Etiópia, na África. Nasceu em 31 de março de 1524, mas existem divergências que apontam para o ano 1526. 

Ingressou muito jovem na vida religiosa, em mosteiro franciscano, fazendo votos de castidade, pobreza e obediência. Extremamente humilde e bondoso, profetizava e era muito procurado como conselheiro. Levava alimento do convento aos pobres escondido dos superiores nas dobras de seu manto de capuchinho. Certa vez, saindo com os alimentos, foi abordado de surpresa pelo superior do convento que lhe indagando o que levava, respondeu serem flores, rosas. Abrindo o manto de fato apareceram flores, milagrosa transmutação que livrou o Irmão Benedito de castigos. 

Foi célebre cozinheiro do convento, mestre de noviços, superior e depois de novo cozinheiro, sendo considerado patrono da classe e protetor das cozinhas domésticas. É comum ver sua imagem nas cozinhas. Em São João del-Rei às vezes aparece com oferendas, tais como vasilhas postas na frente da imagem com um punhado de grãos de cereais ou um copo com um tanto de café. A crença diz que estes agrados garantem a fartura doméstica. O santo multiplica o alimento, tornando-o farto, bem cozido, bem temperado e saboroso. 

O nome Benedito evoca o sentido de bendito, abençoado. O pesquisador Antônio Gaio Sobrinho esclareceu:

"Seus pais eram escravos negros e haviam feito voto de não gerarem filho, enquanto não obtivessem de seu senhor a promessa de libertá-lo no dia do nascimento. Obtida essa, ao nascer-lhes o filho, exclamaram: 'Benedetto!', palavra que, em italiano, significa felizardo. E assim o menino se chamou Benedito. Benedito de São Filadelfo." (SOBRINHO, 1997). 

Seria a expressão que seus pais usaram para glorificar a Deus no ato do nascimento de seu filho, que ganhou a liberdade ao nascer. O nome Benedito nos terreiros de umbanda é conhecidíssimo não só pelo santo em si que é muito querido e venerado, mas também por nominar diversas entidades espirituais da linha africana; pretos-velhos: Pai Benedito Sanfoneiro, Pai Benedito da Cruz Vermelha, ... do Engenho, de Angola, das Almas, da Calunga, do Cruzeiro, da Guiné. 

Entre os dançadores de jongo e caxambu no Sudeste do país é grande a devoção a este santo. As bandas de congos do Espírito Santo, bem como os ticumbis nutrem por ele uma devoção de dimensão agigantada. Em São Paulo e no sul mineiro goza também de grande prestígio, sobretudo entre as congadas [1]. Aliás, por toda parte, pode-se generalizar, São Benedito é protetor dos congadeiros. É co-festejado com a Senhora do Rosário e é patrono de muitas guardas de congado. Daí ser comum sua figuração em bandeiras, estandartes, quadros de mastros, no nome dos grupos e nas cantigas: 

"Meu São Benedito,
já foi cozinheiro,
Meu São Benedito,
que abençoa seus tempero..."
(Agradecimento de almoço às cozinheiras da Festa do Rosário, 
Coronel Xavier Chaves e São João del-Rei)

Em São João del-Rei, Mestre Luís Santana, memorável capitão de congado, sempre erguia seu mastro nas Festas do Rosário, ladeando o de Nossa Senhora. Dentre seus cantos, não esquecia então deste dístico, curto, mas expressivo:

"Benedito santo,
Benedito é nosso rei!"  BIS

Outro canto dessa guarda, e aliás, difundido por muitas outras da região, reiteradamente cantado todos os anos nos festejos de congadeiros, diz de forma enfática: 

"Benedito santo,
filho de Nossa Senhora, 
ei, Capitão Benedito, 
essa é nossa hora!"

Tem a seguinte variante, no mesmo sentido:

"Benedito santo,
filho da Virgem Maria,
ei, Capitão Benedito,
hoje é nosso dia!"

A expressão "Capitão Benedito", Luís Santana explicava com muita naturalidade, dizendo que São Benedito é o mais verdadeiro de todos os capitães de congado, ou que é o capitão de todas as guardas. Capitão de carne e osso, dizia, era só por imitação do santo. 

Na zona rural de São João del-Rei existe uma capela a ele consagrada no povoado da Vendinha. Em Laje (Madre de Deus de Minas) também existe uma. Tem animada festividade na Igreja do Senhor do Bonfim, em São João del-Rei, não raro com a presença de congado na procissão, convidado de algum outro bairro. Merece destaque especial a festa centenária consagrada a este santo em Aparecida/SP, que reúne todos os anos uma imensa quantidade de congados do interior paulista e de Minas Gerais (oeste, sul, centro, centro-sul, etc).

Congado 'São Benedito', um catupé de Resende Costa/MG, chegando na Festa do Divino
no Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em São João del-Rei/MG, 11/06/2011.

Moçambique 'São Benedito'.
Ribeirão Vermelho/MG, 30/06/2013. 

Referências 

Benedito, o Mouro. Wikipédia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Benedito,_o_Mouro (acesso em 16/03/2015, 18h e 10min)

GAIO SOBRINHO, Antônio. Santos Negros Estrangeiros. São João del-Rei: [s.n.], 1997. 153p. p.37-8.

Retirada dos caiapós acontece neste sábado. Prefeitura Municipal de Poços de Caldas: http://www.pocosdecaldas.mg.gov.br/site/?p=8490 (acesso em 17/03/2015, 06h e 55 min)

Créditos

-Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografias: Iago C.S. Passarelli. 

Notas


[1] Em Ouro Fino/MG, sul de Minas Gerais, por exemplo, em sua igreja, as animadas festividades contavam com apresentações de congada, caiapó e bumba-meu-boi (LEITE, Aureliano. Ouro Fino de minha meninice. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, Belo Horizonte, 1964. v.11. p.47-51). Em Poços de Caldas a congada e o caiapó se encontram na festa desse santo num interessante entrecho dramático, que representa a saída do mato, quando os congos vão para a retirada dos caiapós escondidos na vegetação, para juntos festejarem São Benedito.

- Revisão: 01/09/2025. 

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Aroeira, árvore brava

Aroeira é o nome dado a várias espécies de árvores das quais o povo guarda certo temor pois causariam uma suposta reação alérgica nas pessoas sensíveis, marcando fortemente a pele com eritemas, pápulas, vesículas, vergões, prurido, ardência. O vigor das reações dermatológicas varia conforme o tipo de aroeira e a sensibilidade da pessoa. 

Aqui na região algumas árvores anacardiáceas recebem o nome de aroeira: 

- Aroeira-salsa (Schinus molle): espécie muito usada em arborização urbana.
- Aroeira-branca (Schinus terebinthifolius): também chamada aroeira-mole (por causa da madeira fraca), aroeira-fria (porque causa irritações de pele de menor intensidade) e aroeira-mansa; 
- Aroeira-preta (Lithraea molleoides): conhecida ainda por aroeira-brava e aroeira-quente (causa irritações fortes e grande queimor na pele, com empolados que por vezes deformam a fisionomia da pessoa temporariamente);
- Aroeira do sertão (Myracrodruon urundeuva): árvore antes classificada no gênero Astronium, muito ameaçada pelo corte excessivo. Fornece madeira de excelente qualidade para várias benfeitorias rurais, tais como esteios, postes, moirões, peças de mecanismos hidráulicos e pilares de ponte, como as que sustentavam a Ponte do Porto Real da Passagem, construída a mando de Marçal Casado Rotier, sobre o Rio das Mortes, de que ainda se podem ver vestígios, mergulhados nas águas desde 1735. Sobre esta aroeira, disse Eurico Santos: "a madeira, quando seca, é difícil de ser trabalhada, cegando a ferramenta. Madeira imputrescível, rija, pesada. (...) Imune ao cupim." (p.82)

Tocos de aroeira do sertão dentro do Rio das Mortes entre São João del-Rei e Santa Cruz de Minas
revelam vestígios dos pilares da primitiva Ponte do Porto. Foto durante a estação seca de 1998. 

Em torno da aroeira desenvolveram-se algumas manifestações do folclore brasileiro. Num calango recolhido em 1996 em Barbacena, saiu esta quadrinha cantada: 

“Embaúba é pau do mato, 
aroeira é do sertão
dei um tapa no caixote
esfolei a minha mão!” 

No mesmo ano, de um calango em São João del-Rei:

"O meu carro é de aroeira, 
eixo é de jacarandá,
uma junta é de boi preto, 
outra de boi-araçá."

É uma referência à espécie urundeúva, dura e de secular duração. As outras duas aroeiras (preta e branca) dão pouco uso, sobretudo lenha e escora de pouca duração. A preta é usada para mourão.

A dermatose alérgica que causam, o povo chamada "sapecado", que se trata com benzeção nos meios folclóricos, ao modo do cobreiro. Se não benzer não sara, diz o povo. As lesões vão se ampliando e tomam conta da pessoa gerando grande sofrimento e comprometendo o aspecto físico. Na verdade exigem intervenção médica especializada.

Crê-se que galho seco não sapeca e pode ser usado como lenha sem dano a quem o carrega. 

Outrora havia grande temor pela "surra de aroeira", quando o castigado era submetido a açoites leves com ramos de aroeira, que contudo rendiam grandes lesões de pele.

Pessoa sensível não pode nem passar perto da aroeira. Já a certa distância é acometido. Se passar inadvertidamente debaixo de uma árvore dessas é certo ser afetado. Para não ser sapecado, deve-se chamar a árvore de "madrinha", com a fórmula: "dá licença, minha madrinha!". Outros receitam dar uma surra de vara no tronco da aroeira e com este castigo ela não sapecaria.

Na crença congadeira a aroeira é consagrada a São Benedito. A árvore é dele, como ouvi em Coronel Xavier Chaves em 1997:

"Êh, aroeira-ah!
Aroeira é de São Benedito"


No seu pé rezam para ele, pedindo ajuda para o bom andamento do congado, ou acendem velas a São Benedito junto ao seu tronco.

Já na tradição umbandista a aroeira é votiva dos exus (*). Por causa deles a pessoa é sapecada. É por força e influência deles, atingindo a quem não respeita sua árvore cortando ou quebrando galhos sem pedir licença primeiro ("dá licença, compadre!"); ou um castigo àqueles que transgrediram normas religiosas, que estão em dívida espiritual, que não receberam "agô", "malême" (perdão, digamos assim). Na aroeira se oferenda a exu. Na aroeira se faz trabalho de amarração, com fitas de cetim em número tal (3, 7, 9, dependendo do pedido), dando-se a volta no tronco e fechando com nó cego, sempre pronunciando o nome da pessoa que se quer afetar: "(fulano), na aroeira amarro teus caminhos!"

Troncos de aroeira: preta (esquerda) e branca (direita). 
São João del-Rei, dez./2014. 

Aroeira é árvore de respeito. Porrete, bastão ou manguara dessa madeira é firmeza forte para se ter em segredo, guardada num canto fora da vista dos curiosos, para livrar de todo malefício.


Referência Bibliográfica

SANTOS, Eurico. Nossas Madeiras. Belo Horizonte: Itatiaia, 1987. 313p.il.

Notas e Créditos

* Além da aroeira-preta, também são árvores votivas dos exus: sete-casacas e gameleira (figueira-brava).
** Texto: Ulisses Passarelli.
*** Fotos: Iago C.S. Passarelli (aroeiras) e Ulisses Passarelli (tocos no rio).
**** Informantes de calango: Barbacena, "Dona Josefina"; São João del-Rei, Bairro São Dimas, Luís Santana.
***** Leia também a postagem APADRINHAMENTO

terça-feira, 22 de julho de 2014

Benedito é nosso rei!

No Bairro São Dimas, em São João del-Rei, desde 1958, o Congado São Benedito e Nossa Senhora do Rosário, um catupé, ecoa seus louvores e lamentos ritmados pelos tambores artesanais. Foi fundado e mantido por quarenta anos pelos esforços do Capitão Luís Santana (*), com ajuda e participação de filhos, parentes, amigos e vizinhos. 

Com participação em muitos festejos, dentro e fora desta cidade, o capitão havia aprendido a tradição com antigos e renomados chefes de congado, sobretudo em Coronel Xavier Chaves, Ritápolis e no Bairro Tijuco. Seu próprio grupo foi escola para muitos congadeiros, alguns começados na infância e que se mantiveram como membros até a fase adulta. 

Além do aspecto devocional e folclórico, o congado de Luís Santana carregou durante anos a bandeira de lutas contra o racismo e a discriminação, sendo ele um ativista na área. 

Sua última saída na dianteira do grupo foi em 1998. Esteve com o catupé na Festa do Divino de Matosinhos e depois na do Rosário do São Geraldo, quando então, questões de saúde o afastaram de conduzir o terno de dançantes. Foi nomeado Capitão de Honra do Jubileu do Espírito Santo e como tal, ficava sentado numa cadeira à entrada do adro, empunhando a bandeira de seu grupo, com sua farda congadeira, altivo e respeitoso na tarefa de recepcionar cada congado visitante. Honrou este posto até o falecimento, em 2002. 

Felizmente o grupo se manteve de pé. Depois do turbilhão da perda do grande mestre, seu filho Moacir Santana, com a ajuda da esposa e a fidelidade de animados congadeiros, persevera na dianteira do congado em plena atividade, sendo sem dúvidas o grupo mais antigo da zona urbana de São João del-Rei. 

Aproveitando este ensejo segue como registro um conjunto de trinta cantigas tomadas de uma gravação em fita cassete de 1997, que fiz na Festa do Rosário do Bairro São Geraldo, do grupo em questão. Os dísticos dominam os cantos, como é típico nos catupés regionais e retratam os momentos iniciais da festa, de visita aos mastros (Rosário, S.Benedito, Sta.Efigênia e N.S.Aparecida) e à capela, com louvores ao redentorista São Geraldo. Entre eles destaque para as expressões curtas, mas de uma intensidade dramática e devocional de forte apelo identitário, tais como... "Benedito é nosso rei!"

Congado indo para a Festa do Rosário do Bairro São Geraldo em 1997, tendo o Capitão Luís Santana à frente, no reco-reco. A fotografia flagra a chegada à Capela do Rosário do Bairro São Dimas, para tomar a bênção, antes de partir para a festa no São Geraldo, batucando rua afora. 

1- A bandeira é santa, meu Deus! 
A bandeira é santa, meu Deus! 

2- Céu, céu, céu! BIS 
Esse mundo é enganador ... 

3- Oh, louvado seja, meu Deus! 
Oh, louvado seja, meu Deus! 

4- Ô quem manda no mundo é Deus, 
ai, Nossa Senhora! - bis 

5- O barulho no beco está fervendo! 
Quando eu penso que pago estou devendo ... 

6- Tira o pé da poeira, Mané! - bis 
Marimbondo te morde no pé ... (oi!) – bis 

7- Quando chega a hora é hora! – bis 
Vamos com Deus e Nossa Senhora! – bis 

8- Lá no céu Adão, 
ao romper do dia, 
quero ir lá no céu, BIS 
nos pés da Virgem Maria! 

9- Êh, Santana! – bis 
Abre a porta do céu, São Pedro! – bis 

10- Êh, capitão daná! – bis 
eu vim pra cumprimentar! – bis 

11- Oh, meu Deus, que viva, ah! - bis 
Ora viva quem sabe ler ... – bis 

12- Seja noite, seja dia, 
o rosário é de Maria! 

13- Deus te salve, ó cruz santa 
oi, neste campo sereno, 
onde Cristo foi pregado, 
meu Jesus de Nazareno! 

14- Oi, segura a peteca, 
não deixa cair, 
segura a menina, 
não deixa fugir ... 

15- Ô não joga poeira, olha lá! 
Ô não joga poeira, olha lá! 

16- Eu vim de longe 
estou chegando agora, 
com o favor de Deus 
e Nossa Senhora! 

17- Benedito é nosso rei! 
Benedito é nosso rei! 

18- Ê Nossa Mãe do Rosário! 
Ê Nossa Mãe do Rosário! 

19- Ê Nossa Senhora! 
É nossa Mãe do Rosário! 

20- Pai de Deus é criador! 
De Nossa Senhora! 

21- Olha lá, olha lá! 
Olha lá Nossa Senhora. 

22- Ê Nossa Senhora, 
eu cheguei agora! 

23- Ê Santa Efigênia, 
demorei, cheguei agora! 

24- Ê nossa padroeira, 
a Senhora Aparecida! 

25- Viva Deus, que viva, ah! 
A Senhora Aparecida! 

26- Padroeira do Brasil, 
a Senhora Aparecida! 

27- Também é da raça negra, 
a Senhora Aparecida! 

28- Ô seu padre abre a porta, BIS 
negro velho quer entrar! 

29- Ora viva Nossa Senhora! 
Mãe de Deus, acode cá! 

30- Êh, meu São Geraldo! - bis 
Êh, Nossa Mãe do Rosário! - bis 


* Era natural do povoado do Pombal, São João del-Rei,onde nasceu em 1929, filho do respeitado sr. Afonso Santana. 
**Texto, foto e acervo: Ulisses Passarelli  

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Gunga serena!

Chocalhos moçambiqueiros

Uma manifestação cultural bastante frequente em Minas Gerais é o chamado moçambique, uma modalidade de congado que, na ausência do candombe, tem no contexto das Festas do Rosário, a primazia de escoltar o reinado. É fato típico que dentre seus instrumentos musicais os moçambiqueiros usem certos tipos de chocalhos atados às pernas, de modo que no ritmo da pisada durante a dança faça um efeito idiofônico.

O uso desses instrumentos já era conhecido na África, atesta Cascudo (1984), sobre a cultura dos naturais de Manavane, da etnia Macambane. O bailado guerreiro ao som de timbas se fazia destacado pelos "tschivangos nos tornozelos, enfiadas de barulhentos bugalhos, e sevandos nas pernas vivas e fortes". Também os indígenas do Brasil o conheciam, pois os registra em verbete de seu Dicionário do Folclore Brasileiro, com o nome de zuzá: "de frutos secos do piqui fazem chocalhos, zuzá, que atam aos tornozelos, como guizos para dançar." (baseado em Roquete Pinto, Rondônia).

Em alguns lugares da América do Sul, em países que passaram pela colonização espanhola, existe como jarreteiras, atadas aos tornozelos. 

A forma desse chocalho é variável. Alguns são guizos, de fatura artesanal ou industrial, presos a correias e fivelas. São chamados simplesmente guizos ou por vezes paiás (sul de Minas, Vale do Paraíba paulista).

Outros são feitos de latinhas cilíndricas vedadas nos extremos, contendo grânulos de chumbo, contas, sementes de finalidade mística. São chamados gungas. Com frequência trazem desenhos simbólicos (astros, cruzes, pontos), abreviaturas de nomes de santos padroeiros, perfurações alinhadas para sair o som, mas o alinhamento dos furos segue a forma de uma cruz ou estrela de cinco pontas, com objetivo de proteção. Por vezes são confeccionados em folha de flandres ou outro tipo de chapeado, outras, pelo aproveitamento de embalagens de enlatados industriais, tais como latinhas de extrato de tomate, milho verde e ervilha, portanto, um processo de reciclagem.

Gungas e paiás são os modelos padrões. Mas por vezes surgem variações, combinando os dois, como observado em uma guarda de moçambique de Divinópolis. O moçambique "São Bernardo", de Macaia (Bom Sucesso/MG) tinha entre seus dançantes um moçambiqueiro cuja gunga era confeccionada com chifres de boi, um material alternativo que também remete à ideia de firmeza, elemento natural que traz consigo a força energética do próprio animal e tem vasta simbologia. 

Outro modelo é a maçaquaia, usada pelo moçambique da cidade de Osório/RS. A maçaquaia gaúcha é uma gunga trançada, como um pequeno cesto cuja foto aqui incluída (abaixo) é de autoria e gentileza do folclorista pernambucano Roberto Benjamim (set.2000).

Um saudoso capitão de congado (catupé) são-joanense, sr. Luís Santana, do Bairro São Dimas, informou em 1993 que viu um moçambique, certa vez, numa festa, que tinha no meio do grupo um dos dançantes com uma grande gunga achatada amarrada nas costas, como uma mochila. Conforme dançava o instrumento sacudia produzindo o som. O mesmo informante contou, quatro anos mais tarde, que a origem da dança liga-se diretamente a São Benedito. A lenda diz que quando ele foi escravizado, o dono dele amarrou no seu tornozelo uns guizos, porque se ele fugisse era fácil de achar. Um dia procurou ele na cozinha, pois era cozinheiro e ele não estava lá. Tinha saído escondido com um punhado de pães para dar aos pobres. O dono pegou o chicote e foi atrás, seguindo o barulho dos guizos. Quando Benedito viu a chegada do senhor, pediu proteção a Nossa Senhora. Ela apareceu para ele sorrindo e abrindo a capa escondeu ele debaixo do manto. Ele, muito alegre dançava em redor dela. O senhor ouvia o guizo tinir, com o chicote na mão, mas não podia bater pois não via o escravo, que estava invisível. Assim até desistir e voltar para a casa. O moçambique, explicou Luís Santana, é a imitação de São Benedito, dançando com os guizos ao redor da santa e pedindo ajuda.

A gunga e suas variantes é considerada sagrada pelo dançante, um objeto de muito respeito. É como uma sineta ritual (agogô, adjá, campainhas...), que zoando próximo ao solo (terra), invoca as forças para ajuda do dançante. Conecta-o às energias. Interligam-no à mãe-terra. Seu chocalhar saúda o chão.

Eu estava dormindo,
eu estava sonhando,
quando acordei,
gunga está malhando...
(Moçambique, Perdões/MG)

O toque da gunga é como um choro, um lamento, que evoca as agruras do antepassado cativo e o sofrimento do moçambiqueiro de hoje:

Oi, serena. minha gunga, serena!
Serena, serena, serena!
Ei... Deixa a gunga serenar! [1]
Gunga, serena devagar!
(Moçambique, Passos/MG, 1997)

A gunga se torna parte do corpo do moçambiqueiro, uma extensão musical. É como se a música ou ao menos o ritmo emanasse de seu próprio corpo.

01- Moçambique, Santana do Garambéu/MG, durante o Jubileu do Divino
em São João del-Rei. 31/05/1998.


02- Moçambique, Santana do Garambéu/MG, durante o Jubileu do Divino
em São João del-Rei. 14/05/2012.

                                    
03A- Moçambique, Divinópolis/MG, durante o Jubileu do Divino 
em São João del-Rei. 14/05/2012 - Gungas

03B- 
Moçambique, Divinópolis/MG, durante o Jubileu do Divino 
em São João del-Rei. 14/05/2012 - Guizos

04- Moçambique, Macaia (Bom Sucesso/MG),  durante o Jubileu do Divino 
em São João del-Rei. 19/05/2013.

05- Maçaquaia, do moçambique de Osório/RS. Set./2000. Foto: Roberto Benjamim.

06- Gungas convencionais no tornozelo e "maçaquaias" complementando.
Capitão do moçambique de Santo Antônio do Amparo/MG.
Festa do Divino em São João del-Rei, 04/06/2017. 
07- Moçambique "N.S.Aparecida", Passa Tempo/MG, durante o Jubileu do Divino
em São João del-Rei.
05/06/2011.


08- Gungas retangulares flagradas na guarda de Moçambique
"Nossa Senhora do Rosário", de Carmópolis de Minas, durante a
Festa do Rosário em Passa Tempo/MG. 18/10/2015.

09- Gungas atadas na parte de trás da coxa, na guarda de Moçambique
"São Benedito e Santa Isabel", de Santo Antônio do Amparo, durante a 
Festa do Rosário em Passa Tempo/MG. 18/10/2015.

10- Correntes atreladas às gungas flagradas na guarda de Moçambique
"Nossa Senhora Aparecida", de Passa Tempo, durante o Jubileu do Divino
em São João del-Rei/MG. 24/05/2015. 

11- Jarreteira boliviana, de Puerto Aguirre, feita com cascos de cabrito (estojo córneo),
costurado com linha de nylon sobre tecido típico. Peça de 2005, fotografada em 2014.

12- Gungas em ação: Moçambique "Nossa Senhora Aparecida",
Passa Tempo/MG, durante a Festa do Divino no Bairro Matosinhos,
em São João del-Rei/MG. 24/05/2015. 


Referências bibliográficas

CASCUDO, Luís da Câmara. Literatura Oral no Brasil. 3.ed. Belo Horionte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1984. 435p. p.37.

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d]. 930p.


Créditos

- Texto, acervo (exceto foto 5) e fotos 1, 8 e 9: Ulisses Passarelli.
- Fotografias: 2, 3, 4, 6, 10 e 11, Iago C.S. Passarelli; 5, Roberto Benjamim, gentilmente ofertada pelo próprio para esta postagem; 6, Maria Aparecida de Salles.
- Vídeo: Iago C.S. Passarelli

Notas 

[1] Serenar: eufemismo poético-popular equivalendo a chorar. Serenou = chorou.

- Revisão: 01/05/2026; foto adicional (abaixo) acrescida - autora: Betânia Nascimento Resende, 10/06/2025

Gungas contendo inscrição "preto velho", uma referência à ancestralidade 
banto cultuada nos terreiros de umbanda, símbolo de bondade, conselho, cura, superação e sabedoria.