Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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terça-feira, 24 de junho de 2025

Festa Julina no povoado do Mumberra

O Mumberra é uma comunidade rural situada no município de São João del-Rei, no entorno imediato do Complexo Serra do Lenheiro e contida em sua área de proteção [1]. A distância do centro da cidade, medida a partir do Obelisco é de aproximadamente 11.320 m, a maior parte por via não pavimentada, que segue em direção oeste, através do Bairro Tijuco. Sua economia é baseada na agropecuária de subsistência. Situa-se no distrito de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno a cuja sede se interliga através do leito da Ferrovia do Aço, que passa à margem da comunidade. Há uma capela dedicada a Nossa Senhora Aparecida, benta em 2012 e um salão inaugurado em 2011 (onde aconteceu a dança da quadrilha e show), sob a gestão da Associação Comunitária dos Produtores Rurais e Agricultura Familiar do Mumberra.

No Mumberra acontece uma animada festa julina, fortemente marcada pelas características culturais rurais do lugar. No ano de 2024 ela aconteceu a 13 de julho, especificamente com renda em prol do término da Capela de Nossa Senhora da Conceição, do vizinho povoado do Brumado de Cima. Esteve muito movimentada, mostrando-se com características típicas, dentro dos padrões tradicionais. Teve concorrido jogo de víspora, quadrilha animada ao som de sanfona, pandeiro e percussão, fogueira, além de comes e bebes característicos, tais como os típicos quentão e canjica.

O senso de pertencimento às tradições rurais estava nítido na festividade, pois além da presença dos moradores locais, havia a presença de pessoas dos povoados vizinhos, confraternizando com descontração e harmonia. Tais fatores fortalecem a identidade cultural do povoado e estimulam a formatação de produtos turísticos ligados ao segmento rural.

1- Observando a festa. 

2- Capela de Nossa Senhora Aparecida. 

3- Lenha empilhada para a fogueira. 

4- O jogo da víspora atrai muitos participantes. 

5- Prendas a serem arrematadas na víspora. 

6- Crianças se divertem à vontade, denotando o ambiente familiar e respeitoso.  

7- Sanfoneiro comanda a música da quadrilha junina. 

8- Quadrilha junina no interior do salão. 

9- Mídia de divulgação digital do evento. 

10- Mídia de divulgação digital do evento. 


Créditos

- Texto e vídeo: Ulisses Passarelli.
- Fotografias: Betânia Nascimento Resende (1) e Ulisses Passarelli (2 a 8)

Notas

[1] Proteção municipal: perímetro oficializado pelo Decreto nº10.169, 08/11/2022; tombamento homologado pelo Decreto nº 10.649, 19/09/2023. 

- Revisão: 19/05/2026. 

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

A dama de pedra

(mais uma lenda da Serra do Lenheiro)


De longe, parece ser só mais uma pedra na Serra do Lenheiro, nem tão distante da cidade de São João del-Rei. Entremeio matas e campos e grandes afloramentos rochosos, um rochedo comum traz quase ao rés do chão a escultura de uma face feminina de perfil, coberta a cabeça por um pano, tudo entalhado na pedra dura.

Ao caminhante desatento ou ao afoito passa despercebida a obra de arte. Ao coração poético logo ela chama à atenção. Ninguém sabe sua data exata, ou quem a fez, ou porque entalhou. Tudo reside no campo lendário. Entretanto, onde o fato histórico se perde nas longuras do tempo, ou está obscurecido no esquecimento de algum velho relato, ou talvez perdido nas memórias coletivas, então... a lenda se torna verdade. 

Contam-se algumas narrativas da origem, por vezes discrepantes no conteúdo ou até inverossímeis. Mas tem uma versão mais repetida que abaixo reproduzo. Ante a fisionomia tristonha da dama de pedra, encoberta por um pano na cabeça à moda antiga... quiçá é a que de fato remete à verdade perdida! Ou será que não? 

Dizem que foi no tempo colonial, no auge do ciclo do ouro. O Canal do Ingleses escoava água em abundância até o grande mundéu ao sopé do Morro do Caititu. Ali os escravos em labuta interminável apuravam o ouro para a riqueza cada vez maior do proprietário das terras. O sinhô branco era como de costume ou modelo daquele tempo, sisudo, ganancioso ao extremo, tendo o status social como maior premissa. Escravo para ele era mero objeto de produção e a esposa, sinhá muito humana, de espírito iluminado, era destratada com a grosseria inexplicável. 

Vivia a pobre mulher infeliz, ciosa de um amor que sonhou e nunca teve, posto que seu casamento era um inferno de desventuras. Entre a riqueza, preferia a simplicidade da senzala, para onde sempre fugia, visitando as vovós africanas, de quem ouvia as histórias de seu povo, ou para junto das minas, observar o trabalho braçal dos escravos, luzidios ao sol, com as costas suadas de tanto esforço. Se um escravo ia ao tronco, ela vinha curar-lhe as feridas. 

Não demorou que um lhe ressaltasse aos olhos. Para além de seu conjunto físico musculoso, era o sorriso daquele escravo que iluminava sua alma. Reconhecia a sinhá em tal sorriso um velho conhecido. É como se fosse alguém que já conhecera. Mas era apenas mais um escravo. Ele, por outro lado, reconhecia no olhar dela igualmente algo familiar, que não podiam entender, senão mesmo, dava medo... mas o desejo era bem maior. A aproximação não tardou. A sinhá ia para o mundéu vê-lo em trabalho. Até que, sinalizando-lhe com os olhos, chamou-o a um canto. E ele foi. 

Se esgueiraram entre as pedras, buscaram a camuflagem dos matos. A barra da longa saia se molhou na água do aqueduto. Riam. Conversavam. Se entreolhavam... e se amaram ali entre as rochas, a natureza por testemunha. 

A paixão se apoderou deles e a aventura perigosa mas irresistível tornou-se um costume. Sempre que oportuno fugiam para detrás das pedras onde seus corpos ardentes se tornavam um só. Não faltou quem os alertasse do perigo, mas era inútil. O amor em verdade impossível para o contexto daquela época, machucava pela impossibilidade de uma união permanente ou estável. O escravo registrou essa tristeza em pedra, talhando o rosto sofrido da amada numa rocha. 

E foi ocasião que o senhor descobriu o amor dos dois. Enfurecido, logo idealizou vingança sangrenta. Queria lavar sua honra. Prendeu o escravo, humilhou-o o quanto pode e não se contendo, matou-o de forma horrenda: meteu-lhe fogo no corpo, queimando-o por completo. A sinhá em prantos e gritos tentava impedir... mas em vão. O desespero da sinhá era incontido e a dor e sofrimento do escravo que ardia era infinito! O sinhô a tudo observava impassivo, com ódio.

Os escravos cuidaram de seu corpo esturricado. O cobriram de folhas úmidas e frescas, que contribuíram para refrescar seu cadáver carbonizado e com preces em seu favor a alma deixou aquele corpo.

Dali para frente, a vida da sinhá foi só tristezas, lembranças... E na verdade durou muito pouco. A tragédia não acabara: certo dia, não suportando mais a dor da ausência de seu amor, a sinhá saiu por sobre as pedras, galgando-as, olhando infinitamente o horizonte profundo, como se o procurasse. Dentro de si carregava o fruto daquele amor proibido e censurado. Apesar de já amar imensamente aquele rebento, pois era o símbolo de todo o sentimento que nunca tivera antes na vida, seu coração doía e se desesperava ao pensar no destino cruel que lhe era reservado. Seus olhos se perderam na imensidão e seu coração saudoso a impulsionou dali para baixo. Suicidou-se pulando dos Três Pontões. O amor de fim trágico eternizou-se. A busca um pelo outro fora do corpo humano prosseguiu na espiritualidade. 

A dama de pedra. Serra do Lenheiro.
São João del-Rei/MG. 


"Serra do Lenheiro, Morro de São João, 
escalavrado pelo braço forte do escravo,
faiscando o brilho dourado da paixão;
testemunho de amores mal resolvidos. 

Na rocha bruta o escravo entalhou, 
com rudes ferramentas o rosto marcante,
daquela sinhá tristonha pelas injustiças
sinhá que tanto... ele amou. 

Onde prospera a cobiça não cabe o amor;
a chama ardente do mal rompeu o enlace,
do alto da pedreira um grito de horror,
em vertiginosa queda a sinhá se prostrou. 

A mesma chama ainda tosta o cerrado. 
Mas o sonho renasce, esperança de vida, 
pois o espírito pela verdade marcado
retorna ao cuidado donde é guardião!"


Notas e Créditos

* Texto (10/10/2018), fotografia (09/09/2018) e poesia (22/09/2018): Ulisses Passarelli
** Revisado e ampliado em 04/02/2019

sábado, 10 de março de 2018

Divisas de antigamente (e a honestidade!)

As divisas de terrenos ou meras separações internas de piquetes ou de hortas guardam um interesse especial e poucas vezes evidente para os estudos. Em si reside o método, a técnica de se levantar uma demarcação; mas além disso passa pelo comportamento da honestidade, que tem muito peso para o homem do campo de modo especial. 

A palavra parece em tudo fora de moda. Num mundo louco, de escândalos inimagináveis, a honestidade tornou-se para os ímpios um princípio ultrapassado, dispensável, incompatível com a modernidade. Infelizmente essa cancerização ética é generalizada e corrompeu o país.

Sempre houve desonestidade, é fato. Contudo no passado a honestidade era preceito básico de uma pessoa e seus conceitos ainda mantidos por alguns, marcaram a formação cultural do cidadão de antanho, com reflexos ainda hoje. Honestidade era e ainda é para alguns um ponto de honra. 

A honra do homem se pautava na clareza de suas finanças e o conceito de época também se estendia à fidelidade da esposa. 

No primeiro caso, é relatado oralmente que um fiapo de barba ou do bigode do homem, guardado num envelope, tinha o valor de uma promissória na transação comercial, devolvido ao seu dono tão logo paga a dívida comprometida oralmente. Pagar antes da data marcada era um esforço natural, prova ainda maior de hombridade e melhoria da condição de crédito. Ao se mudar de uma cidade havia o cuidado de se deixar claro que não ficavam dívidas para trás: 


“O abaixo assignado, ao retirar-se para o Estado do Ceará, declara nada ficar devendo á praça desta cidade. S.João d’El-Rey, 3 de Julho de 1895. Ten. Francisco A. d’Albuquerque, do 8º Regimento” (Jornal O Resistente, n.16, 03/07/1895, São João del-Rei). 


A expressão popular “fulano... é homem com H” refere-se também a este aspecto: enfatizando o "H" pretendia-se afirmar a honra do indivíduo, o cumprimento das obrigações domésticas e profissionais, a reputação ilibada, o caráter inflexível, a postura firme na resolução das injustiças e equívocos. 

Outra marca da honestidade era o respeito às divisas. Fiel ao preceito bíblico _ "não passes além dos marcos antigos que puseram teus pais" (Provérbios, 22:28) _ o homem de bem não se arvorava em alterar posição de cercas e muros, respeitando-as tal como as herdara ou comprara. Se algum vizinho se atrevia a não cumprir a mesma premissa, era rechaçado à bala de carabina. O conceito comum que valia então nos meados do século XX era que se tratava tal ato de defesa da honra, da honestidade e dos direitos; não se encarava como gesto agressivo ou de violência, segundo os conceitos daquela época. Antigas propriedades coloniais tinham sua marcação a partir de uma coluna de pedra, o marco de sesmaria, a partir do qual como um pião, se definia os limites. Já os terrenos de mineração eram divididos em lotes, chamados datas: uma data de terra; uma data mineral. 

As Câmaras coloniais de São João del-Rei e São José del-Rei (atual Tiradentes) se degladiaram em queixumes na primeira metade dos setecentos porque os então vereadores josefenses não exitaram em estender sua jurisdição gradativamente muito além da área de seu termo, demarcado em 1719. Agindo arbitrariamente em direção oeste, invadiram a área são-joanense provocando a ira dos edis da vila de São João, que repetidas vezes reclamaram da invasão, inutilmente aliás. A contenda política, jurídica e administrativa perdurou pelo menos até 1755, quando o Ouvidor Geral e Corregedor da Comarca, Dr. Francisco José Pinto de Mendonça, em ato de correição, estabeleceu as divisas pelo Rio das Mortes e seu afluente, o Elvas, ficando as terras da margem esquerda com São João del-Rei e as da direita com São José del-Rei.

A nível mais focal as divisas além dos fluxos d'água e das culminâncias montanhosas, se fazia por valos e muros de pedras. 

Os valos eram cavidades lineares rasgadas na terra, como uma longa canaleta, de relativa profundidade, estabelecendo pela dificuldade de transposição o limite entre duas antigas propriedades. Em muitos lugares os valos desapareceram à força de trator, sendo aterrados e terraplenados para expansão de área agropecuária. Os remanescentes são de elevado interesse da arqueologia histórica, representando uma técnica de estabelecimento de divisas feita sob a força braçal de ferramentas empunhadas pelos escravos. Como em geral a água pluvial corre em seu interior, a umidade prevalece. Com isto a vegetação cresce bastante e os valos se tornam corredores de fauna. Tanto mais, as condições específicas de sombra e umidade em seu interior propiciam um microclima adequado ao surgimento de uma flora específica e por conseguinte da presença de invertebrados e pássaros. 

Os muros de pedras também foram em passado remoto erguidos pelos homens escravizados. Separavam terrenos de sesmeiros, pastagem, encostas. Definindo áreas de propriedades, alinhavam-se por vezes campo afora, outras vezes serra acima, se valendo da oferta de pedras do próprio terreno ou obrigando a trazê-las de longe em carros de bois. 

A técnica aparentemente simples de sua feitura se mostrava contudo eficiente, pelos cuidados na escolha correta da forma das pedras a serem empilhadas, o embasamento nas pedras-mestras (que seguram a estrutura nos pontos mais irregulares do terreno), os travamentos, os pontos de passagem de água. Com o passar dos anos uma camada de lodo e líquens se acumula sobre as pedras e as ambientam ao local, passando a ser morada da fauna. Os muros de pedras se integram à paisagem e dão-lhe uma nota de bucolismo.

Diz-se em São João del-Rei que a construção dos muros se dava no período de entressafra e nas secas, quando rareava a água dos mundéus de mineração. Ao homem escravizado, em vez do descanso, se sobrepunha a carregação de pedras para composição dos muros. Essa seria a possível origem do ditado "enquanto descanso, carrego pedras..."

A nível das pequenas roças e hortas se via comumente o cercamento por bambu. A medida previne a entrada de animais domésticos que destruiriam as plantações. As lascas se sucedem em trançamento vertical, entre arames esticados, moirão a moirão. Via de regra o corte do bambu se dá na seca, quando sabidamente o mesmo tem pouca umidade. Para exatidão da época do corte, se definiu que deve ser durante a lua minguante, nos meses sem "R" em seu nome: maio, junho, julho e agosto. Isto seria uma garantia de durabilidade, contra podridão e ataque de insetos xilófagos, por corresponder ao momento da madeira estar mais enxuta. O bambu se corta a facão ou foice. 

Hoje ainda vislumbramos algumas dessas antigas divisas, por vezes vestigiais, em segmentos de valos, fragmentos de muros e restos de cerca. Mas ainda assim tem elas um especial interesse para os estudos etnográficos e históricos e merecem preservação. 

1- Cerca de bambu. 02/07/2013.
Emboabas (São João del-Rei/MG)

2- O autor observando um valo. 10/07/2017.
Serra do Lenheiro (São João del-Rei/MG)

3- Muro de pedras. 01/10/2017.
Ritápolis/MG.  

4- Detalhe dos sistema construtivo do muro da foto 3. 

5- Muro de pedras com passagem de antiga estrada boiadeira.
24/07/2009. Brumado de Cima (São João del-Rei/MG).

6- Muro de adobe sobre baldrame de pedras; cobertura de telha curva colonial,
na função de pingadeiras. 16/10/2022. Ritápolis/MG. 

Notas e Créditos

* Texto e desenho: Ulisses Passarelli
** Fotografias: 1, 3, 4 , 5 e 6 - Ulisses Passarelli; 2: Luiz Antônio Sacramento Miranda
*** Revisão: 15/03/2024, com acréscimo da foto nº6.
**** Obs.: vimos no agreste potiguar em 1992 várias pequenas residências rurais em diversos municípios com uso disseminado de cercas feitas com paus roliços cortados da vegetação nativa. Uma das mais comuns eram as formadas pelo cruzamento de paus, tomando a forma de tesouras. No litoral tanto do Rio Grande do Norte quanto do Ceará igualmente as notamos, além de outros modelos, que à época esboçamos num desenho à lápis, abaixo reproduzido:



Referência Bibliográfica

BARREIROS, Eduardo Canabrava. As Vilas del-Rei e a Cidadania de Tiradentes. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1976. 128p.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Costumes populares na Paixão do Senhor

Nas cidades históricas existe uma atmosfera tão peculiar nesse dia, que não há palavras que a defina. Além dos ritos sagrados da Igreja, das celebrações, muitos costumes populares se observam neste dia.

Aqui em São João del-Rei e arredores, uma antiquíssima tradição leva muitos à serra, madrugadinha, famílias inteiras, até o alto dos montes pedregosos, onde o reencontro com o Deus acontece. Desafoga-se o peito... preces, entretenimento, apreciação da natureza, colheita de ervas medicinais _ que valem para o ano inteiro, tidas por bentas. Diz a crença que a colheita de arnicas, rosmaninhos, alecrins, congonhas e outras deve ser antes do sol secar o orvalho das folhas, pois esta umidade consideram sagrada. Uma senhora dizia-me que é como o suor de Jesus Cristo... sagrado. Neste dia tudo é assim.

Nas roças não se vende leite na Sexta-feira Santa. Nos currais os retireiros esgotam as vacas e doam o leite às pessoas. É costume fazer doce com este leite. Em São João del-Rei, muitas pessoas saem do Tijuco e vão pelo caminho das Águas Gerais até o Cunha, Brumado de Baixo, Chapada e São Gonçalo do Amarante, do outro lado da Serra do Lenheiro buscar leite, bem cedo. 

Por força de uma prescrição inquebrantável não se deve trabalhar na busca do lucro. É dia de preceito. Mexer com ferramentas de carpintaria nem pensar... martelo? De jeito nenhum! Não se bate um prego neste dia, não se imita o gesto ignóbil de pregar o Salvador.

Não xingar, não cuspir, não beber, não comer carne, não ouvir música por mero entretenimento, não assoviar nem cantarolar, não demonstrar alegria, não contar piadas, não caçar, não pescar, não jogar futebol, baralho ou qualquer outro jogo, etc... A tradição não recomenda. Não é tempo de mostrar alegria. Deve-se concentrar na memória da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nem os sinos batem. Só as matracas nas portas das velhas igrejas: "_ para a cera do Santo Sepulcro!" _ clamam os meninos quando recolhem um óbolo, matraqueando estrepitosamente.

Três da tarde é hora do máximo respeito, 15 horas, quando o Messias fechou os olhos. Nos quintais, fura-se um buraco pequeno no chão e se cospe três vezes dentro e enterra-se (os males...). Depois se bebe um copo de chá (de congonha, de erva-cidreira ou outra). 

Junto aos templos algumas pessoas vendem arnicas, congonhas e rosmaninhos. Outros mais, milho verde cozido, cartuchos de amêndoas, beijo quente e maçã do amor. Alimentos de valor cultural. 

Enquanto isto, outros tantos manipulam areias e serragens tingidas e preparam os típicos tapetes de rua que logo mais, à noite, receberá a Procissão do Enterro. Arte efêmera, de construção coletiva, criatividade pura, dinâmica e de baixo custo, sacralizando as vias públicas. 





Aspectos da confecção dos tapetes de rua. 

Jovens na entrada da Igreja de São Francisco com matracas recolhem
donativos anunciando a característica frase:
 "_ Para a cera do Santo Sepulcro!"


Comércio de arnica e outras plantas medicamentosas e aromáticas.

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotografias: Iago C.S. Passarelli, 14/04/2017, São João del-Rei

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Lenheiro e São José: nossas serras, nossas lendas...

(Ofereço com imensa gratidão e admiração 
ao amigo Luiz Antônio Sacramento Miranda,
grande conhecedor de nossa história e tradições, 
lutador pela preservação das serras)


Nas Serra do Lenheiro e na de São José acharam farto ouro a três séculos. E nos ribeiros que delas brotam e escorrem para o Rio das Mortes também reluziu nas bateias o fulvo metal. Os descobertos suscitaram a cobiça de aventureiros que para esta região do centro-sul mineiro se deslocaram atraídos pelo sonho do enriquecimento. Daí surgiram as localidades primitivas desde São João del-Rei até Prados.

A faina do ouro imprimiu fortes marcas na cultura local, eivada de tradições a respeito, lendas, costumes. Nesta postagem, a título meramente ilustrativo, são brevemente expostas algumas destas narrativas populares, marcas antigas do saber popular. São impressões da alma mineira, fruto de sua relação com o ambiente, marcas do tempo... O ouro formou um ciclo cultural.

Não apenas do ouro, mas a própria vivência do homem mineiro com as montanhas contribuiu para construir uma complexa espiritualidade, uma relação quase mágica com as serras, respeitosa e mística, estendendo-se ao seu entorno. As estórias de antanho como que norteiam a conduta frente à natureza, evidenciam os limites do homem frente a força maior da natureza e dos encantados. A aparição de luzes misteriosas sobre os rochedos ainda mete temor em muitos. É a mãe do ouro passando...

Ambas as serras são áreas de proteção ambiental: a do Lenheiro por mecanismo de tombamento e pelo Parque Ecológico Municipal; a de São José pela APA e pela REVS Libélulas. São áreas de elevado interesse para a preservação.

Serra do Lenheiro e arredores: São João del-Rei

A febre do ouro fez uma avalanche de aventureiros convergir para as minas, afoitos em garimpar. Escravos sofreram terrivelmente sob o chicote do feitor, metidos nas grupiaras (= guapiaras), bêtas úmidas e perigosas. Ali muitos morreram. Acredita-se que as almas de muitos, assassinados ou que tiveram mortes trágicas, fruto de desabamentos, incêndios, etc., ainda estejam vagando nas serras onde trabalharam. Sobretudo as almas dos malvados senhores, sinhás, capatazes, feitores, capitães do mato, que assassinaram e cobiçaram as riquezas, viraram almas penadas e hoje assombram e trazem mal agouro às ruínas e grotões. Algumas são como guardiães de um dado lugar, donde se extraiu uma pequena fortuna, que a dita alma vigia ciumentamente como se ainda lhe fora servir para algo. Apegada ao material, não se deu ainda conta da sua inutilidade no mundo espiritual. Por vezes fazem aparições colocando viandantes em fuga espavorida. São comuns casos de ruídos misteriosos nos caminhos da serra, sensações de arrepios desagradáveis nas grotas ou de estar sendo seguido nas trilhas ou simplesmente vigiado. Impressões intangíveis. Visão fugaz de vultos. Vozes humanas indefinidas a conversar entre si, sem que ninguém esteja por perto. Gemidos e choros a gungunar na vastidão. Pelos lados das Três Praias, Cachoeirinha, Azulão, Arambinga, por toda parte enfim, correm estes causos. 

A Gruta do Caititu no complexo do Lenheiro é um lugar também referido como assombrado, porque aí se castigavam os escravos e ainda aí, eles faziam oferendas às entidades espirituais. 

A ciência não explica neste sentido, senão mesmo confunde ainda mais e inclusive, renega todos estes fatos. Pertencem sem dúvidas ou favores ao folclore. Cumpre notar que o espiritismo e a umbanda buscam explicar tais fatos. Mas não entraremos neste campo por fugir aos objetivos textuais. 

Muitos homens morreram soterrados na faina de escavar pedras atrás do ouro. Dizem-no irmão do quartzo [1]. Por isto os garimpeiros ao achar seus cristais, continuavam escavando deduzindo que o ouro estava próximo. Cegos pela cobiça se esqueciam da segurança e um desmoronamento os consumia. Sua alma ficava presa ali, sem alcançar descanso e passava a assombrar, como que espantando os intrusos que vem roubar-lhe a riqueza, de que ainda supõe ser dono. A avidez extrapola a morte e persiste além-túmulo. Fala-se assim de uma voz misteriosa que teria prevenido outrora um desabamento no Tanque, perto da Igreja do Carmo, mas a insistência fez descumprir o alerta divino e o desabamento teria matado trezentos escravos e muitos feitores. Aliás, dizem, sob a Igreja do Carmo corre, vindo da serra, um rio subterrâneo, repleto do melhor ouro. 

Nas Três Praias há no barranco um túnel surpreendente furado pelos escravos. Acreditam que era uma saída secreta para fugas, desembocando onde hoje se ergue a Igreja de São João Bosco. Contudo um exame do lugar indica que o túnel tem poucos metros de extensão, que está a merecer uma proteção específica.

Um dos contrafortes da Serra do Lenheiro recebe o nome específico de "Serra de Santo Antônio", uma montanha bastante íngreme e pedregosa. O nome tem origem lendária. Três trilhas passam nas imediações e delas alguns caminhantes dizem ter visto uma aparição da imagem do santo naquela elevação, daí o nome que lhe deram, sobretudo na sua parte mais inacessível, onde há uma loca de pedra, que dizem ser a gruta do santo. Tanto mais, outros não avistam a imagem, mas pegadas na areia, de uma sandália franciscana. Supõe ser do próprio santo. Outra lenda local, bem menos amena, narra que indivíduos abusados, atrevidos com a religião, desrespeitosos, já se viram perseguidos por um caixão roxo, que desce escorregando do alto da serra em direção ao incauto, que naturalmente se põe em debandada.

No Ribeirão São Francisco Xavier, na Serra do Lenheiro perto do Tanque dos Quilombolas, onde as lavadeiras tem ponto de lavar roupas, no caminho que segue para a Arambinga, surge por vezes uma bruaca [2] abarrotada de ouro, algo de encher as vistas. Quem caminha em sua direção, tem a surpresa de vê-la desaparecer de súbito. Se insistem em pegá-la na reaparição, toma-se a surra de um reio [3] invisível.

Contam os apanhadores de lenha, que quando iam buscá-la na Serra do Tronco (contraforte do Lenheiro), onde há uma grande mata, ouviam o ruído característico de um lenhador no seu interior, trabalhando com o machado. Mas ao aproximar-se do local de onde vinha o barulho das machadadas, qual era a surpresa ao verem a inexistência de árvores cortadas e muito menos do lenhador. A mata continuava serena, apenas com seus sons naturais. O lenhador é mais um assombro. 

Ao pé do Morro das Almas, também no Lenheiro, num mato ralo que tem um brejal dentro (nascente do Córrego do Areão), narram que três homens campeando uma vaca tresmalhada, viram quando ela se ocultou no dito mato. De qualquer ponto a avistavam mas qual não foi sua surpresa quando ela desapareceu simplesmente, do nada, sem ter fugido do mato. É como se ali houvesse um portal invisível que levou o animal para outra dimensão.

A Porteira Pesada ficou famosa por bater sozinha, três vezes à meia-noite, ao meio-dia e às três da tarde. Por vezes trava sem ter qualquer espécie de trinco, não abrindo de forma alguma. De repente abre de uma só vez, na maior facilidade. É temida pelos cavaleiros, por causa de seus mistérios.

Serra de Santo Antônio: contraforte da Serra do Lenheiro.
São João del-Rei/MG, 06/03/2010.  

Serra de São José e arredores: São João del-Rei, Santa Cruz de Minas, Tiradentes, Prados e Coronel Xavier Chaves

A Lagoa do Canjica em Tiradentes, com histórias e estórias de riquezas incomensuráveis, palco de farta mineração, é hoje um terrível aterro e brejo residual com várias plantas de taboa. Infelizmente não foi preservada.

Os moradores locais contam uma lenda etiológica sobre ela, que diz que a princípio, era apenas um fio d’água. Dois portugueses, vindos de sua terra natal, onde estavam a penar, sonhando enriquecer com as preciosidades da colônia, prometeram a Santo Antônio que se achassem riquezas minerais no novo mundo, a primeira delas seria ofertada ao taumaturgo. Chegando à beira da água passaram a bateia e logo recolheram ouro que passava de quilo. Lembraram-se da promessa. Os gananciosos concluíram entre si que era ouro demais para um santo só, que enfim estava lá no céu e não precisava daquilo, porque não tinha onde gastar, etc., e que a próxima bateiada seria dele, sem dúvidas. Continuaram a faiscar. Mais meio quilo. Era muito ainda para o santo e mais uma vez adiaram a oferta. Já com os alforjes repletos do rico metal e protelando a parcela prometida a quantidades cada vez menores e inatingíveis, foram surpreendidos por um tremor repentino de terra. Um estrondo medonho tomou conta do lugar; a terra se fendeu e os engoliu num gigantesco buraco, donde brotou de súbito muita água formando uma lagoa, na qual desapareceram para sempre os gananciosos garimpeiros. Assim surgiu a Lagoa do Canjica . 

Seu curioso nome, atestam, é uma analogia ao milho de fazer canjica, pois o ouro que aí se achava era em numerosíssimas pepitas, tão grandes como aqueles grãos.

Outra lenda interessante é a de que o padroeiro de Tiradentes não aceitou a mudança da sua capela primitiva. Quando fizeram a atual matriz setecentista e transladaram processionalmente a sua imagem, o santo lisboeta, uma vez entronizado no novo altar, num mistério, desapareceu sozinho e reapareceu na capela velha. Trouxeram-no e mais uma vez Santo Antônio retornou ao altar original. Teimava em não aceitar a nova capela e foram esgotados os esforços para mantê-lo onde queriam. Até que um dos fiéis teve a ideia de trazer da velha ermida para a nova igreja, uma grande pedra escavada que ali ficava. A partir daí o santo aceitou e não desapareceu mais [4]. 

Essa pedra meio que sobrenatural é uma preciosidade que está na grama do adro da capela do Canjica ainda hoje. É como uma pia circular, escavada num grande bloco rochoso, terminando numa bica. Tal peça prestava-se no ciclo do ouro à lavagem das areias auríferas. Como ela podem também serem vistas outras duas: uma na Fazenda do Pombal (onde nasceu o alferes Tiradentes) e outra no porão do Museu Padre Toledo, nessa cidade. No contexto lendário o artefato é considerado sagrado ou misterioso. Pertence ao santo. 

Essa lenda não é exclusividade tiradentina. O sumiço de uma imagem de santo da capela nova para reaparecer na capela velha ou no lugar primitivo, onde sua imagem foi encontrada primeiro, até que este ou aquele fato se concretize para interromper a onda de teimosia, consagrando o novo lugar perante os olhos do santo (e não diante dos rituais oficiais do catolicismo) é a essência, o cerne de muitas lendas congêneres, espalhadas Minas Gerais afora e mesmo noutras partes do Brasil. Existem muitas versões envolvendo ora Santo Antônio ora a Virgem do Rosário e ainda outros santos. Em Portugal é conhecida e decerto de lá a trouxeram.

Na Estrada do Areal, indo de Santa Cruz de Minas para a Serra de São José, via Chuveirinho, vê-se logo uma propriedade bem próximo à serra, à esquerda de quem sobe, que pertenceu até meados do século XX aos religiosos salesianos, por isto mesmo alcunhada “Chácara dos Padres”. Dizem-na assombrada pela alma de "Padre Cristófaro", sacerdote que aí teria morado e falecido.

Toda a área defronte a ela de pastagens e valos remanescentes do período minerador, a grande depressão onde nasce o Córrego de Dona Antônia e imediatamente além, no Serrote é área narrada como mal assombrada. O povo sabe de estórias arrepiantes de aparições fantasmagóricas. 

Nesse interior pode ser visto também uma área mais recentemente terraplanada que serviria a instalação de um cemitério para Santa Cruz de Minas, chegando a se construir no que seria sua frente, duas colunas de cimento que seguravam o portão; este em si, e mais uns muros de placa de cimento, tudo hoje destruído exceto as colunas. Contam os moradores que o lugar também tem um misterioso assombro, pois que jamais conseguiram fazer daí um cemitério de fato, haja vista que sempre algo dava errado, as máquinas quebravam, algo emperrava, etc. Falam que era por causa da alma de antigo feitor, que teria sido muito mal com os escravos da Fazenda do Córrego, chegando a matá-los e a enterrá-los clandestinamente justo neste local do cemitério, como se fossem pagãos. Era conhecido por "Quincas". Sua alma teria assombrado a região por muito tempo, desde o Córrego de Dona Antônia ao sopé da serra, até que às custas de trabalhos espirituais foi retirada dali para a prisão no umbral. 

Na Serra de São José é bem conhecida a Cruz do Carteiro, feita de tosca e velha madeira sobre um monte de pedras, que cresce cada vez mais posto que os caminheiros tem o costume de por uma pedra nova, cada vez que por ela passam, contando mais uma oração em sufrágio daquela alma ali morta, ou das almas em geral, costume ancestral, vindo da antiguidade clássica, trazido na herança dos colonizadores. Flores são postas junto à cruz. O tal carteiro, dizem, foi um mensageiro da Inconfidência Mineira, que levando uma mensagem secreta dos inconfidentes de São José del-Rei (atual Tiradentes) aos do Arraial da Laje (atual Resende Costa), não teria chegado ao seu destino, pois foi aí assassinado. Desconhecemos documento comprobatório deste fato, que é contudo atestado pela tradição oral. Um velho folder da Secretaria de Cultura e Turismo de Tiradentes informava que “em 1823, esta cruz já lá existia há muito tempo e já não se sabia quem lá havia morrido.” 

Na Lagoa dos Cordões falam de uma noiva misteriosa, visagem, que a horas mortas caminha lentamente junto à margem, triste, cabisbaixa, o vestido nupcial meio estragado. De repente desaparece. É um fantasma. Fora uma moça feliz e distinta, cujos pais lhe obrigaram em tempos de antanho, a um casamento infeliz, arranjado. Desesperada, ainda na porta da igreja, fugiu correndo e na fuga atroz caiu na funda lagoa onde se afogou. Sua alma ainda ronda o lugar. 

Em tal coleção d’água, como no rio e noutras lagoas vizinhas e até mais além, no Jacarandá e do outro lado do rio, junto à Casa da Pedra, comentam acerca do pavoroso caboclo d’água, ser aquático monstruoso, que agarra banhistas incautos pela perna com suas mãos fortes, peludas, de garras afiadas, cascorentas, para o fundo das águas, donde nunca mais o cadáver submerge, posto que devorado. Vira canoas, pegando-as no bico da proa, sem grande esforço, pois sua força é descomunal. Um canoeiro se salvou por ter um facão no barco, com o qual decepou sua mão horrenda, que caiu na torrente. Outras vezes bota meio corpo para fora d’água, mostrando o busto moreno e robusto, de fisionomia desfigurada.

Pelos lados de Prados, falam de uma gruta num paredão da serra vedada de uma porta de ferro travada, quase intransponível. É uma antiga mina, cheia de tesouro, protegido por uma serpente fantástica, sobrenatural e gigantesca. É um vestígio das estórias ibéricas da moura torta, de influência árabe, dos tempos do domínio muçulmano na península ibérica. Segundo outras fontes orais essa porta esquecida fica para os lados das Águas Santas, à meia subida.


Cruz do Carteiro: Serra de São José.
Coronel Xavier Chaves/MG, 28/03/2011.

Considerações finais

Os municípios entrecortados por estas serras tem nas mãos uma riqueza imensurável nas suas montanhas rochosas. Vai muito além das preciosidades ocultas no solo. É a fauna, desde grandes mamíferos até os pequenos insetos, é a vegetação de biomas de mata atlântica, cerrado e campos rupestres; o interesse espeleológico; a arqueologia da mineração; a geodiversidade extraordinária; as nascentes de águas cristalinas, minerais; a paisagem e muito além do evidente, do palpável, tangível, concreto, está o intangível, a riqueza da história e da estória, dos fatos e das lendas. O folclore aqui neste texto foi apenas pincelado. A proteção dessas áreas deve ser total e intensivamente trabalhada. E aliada a isto a educação ambiental e patrimonial deve ser uma premissa nas escolas, em todos os níveis, séries e esferas. O potencial turístico das serras é grande e demanda organização, controle, estruturação e diretrizes, pautadas na segurança do meio e dos visitantes. É riqueza a ser garimpada. E essa cultura serrana é outra riqueza, a ser conhecida, salvaguardada e divulgada. Não há dúvidas. A Serra do Lenheiro e a Serra de São José fazem parte do meio ambiente cultural do Campo das Vertentes.

Créditos
Texto e fotografias: Ulisses Passarelli
Levantamento de conteúdo: Ulisses Passarelli e Luiz Antônio Sacramento Miranda

                                                                              Notas 

Republicado em: 
O Grande Matosinhos, ASMAT, ano 17, n.203, s/d. Jornal Digital. Disponível em: https://www.ograndematosinhos.com.br/historia_regional/23.html  Acesso em 04 abril 2025. 

Notas finais: 

[1] - Para o garimpeiro a presença de veios de quartzo indica a proximidade do ouro escondido. Da mesma forma a “jacutinga” é uma indicadora. Trata-se de um minério mole e esbranquiçado. Por ser claro como as manchas brancas da ave galiforme cracídea chamada jacutinga (Aburria jacutinga) é que ganha este nome. 

[2]- Antiga mala rústica de couro cru, usada pelos tropeiros, atada sobre o lombo dos burros cargueiros. 

[3] - Reio: relho, espécie de chicote de uma só tira de couro. 

[4]- Uma lenda muito parecida em Tiradentes se refere ao desaparecimento e reaparecimento da imagem de São José de Botas, do nicho do Chafariz de São José. Ver: SCHETTINO, Lacyr. Lendas da cidade de Tiradentes. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, Belo Horizonte, 1968. v.13. p.149-160. 
Para conhecer outra versão de lenda de desaparecimento e reaparição de imagem em Tiradentes leia neste blog: Tiradentes/MG: duas lendas religiosas

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Notas sobre o uso das arnicas na cultura popular

O nome arnica refere-se a algumas espécies vegetais da família asteraceae e "significa pele de cordeiro, aludindo ao tato de suas folhas, suaves e peludas". Mas como as asteráceas são muitas, a arnica em questão é outra: no hemisfério setentrional (América do Norte, Europa e Ásia) existe o gênero Arnica, com flores semelhantes à margarida, a que se refere literalmente este nome. São plantas de áreas muito frias e altas, "gênero circumboreal e montanhoso" (WIKIPÉDIA, verbete Arnica).Para o hemisfério sul tivemos o nome cedido para outras asteráceas, em verdade bem diferentes daquelas, especificamente as do gênero Lychnophora, que ultrapassam há três dezenas de espécies (WIKIPÉDIA, verbete Lychnophora)

Seu aspecto morfológico é muito diverso, o uso curativo ou em tratamento fitoterápico pode, talvez, dar a pista do motivo do aproveitamento do nome: possivelmente foi um paralelo de usos, que veio através da colonização portuguesa. 

Na Mesorregião Campo das Vertentes (Centro-sul de Minas Gerais, Brasil), as arnicas são usadas sob a forma de solução alcoólica. Os ramos colhidos são partidos em pequenos pedaços, frescos ou desidratados e inseridos em um frasco contendo álcool etílico líquido. É deixado a "curtir", ou seja, em descanso para extrair a química desejada. 

As espécies usadas podem variar com o costume da região e a disponibilidade. Na Serra de São José  existem as seguintes espécies: Lychnophora blanchetii, Lychnophora columnaris, Lychnophora passerina e Lychnophora uniflora (ALVES & KOLBEK, 2009), também encontradas na Serra do Lenheiro. 

Na prática observa-se que em São João del-Rei e cidades vizinhas que a espécie L.passerina é a que de fato tem utilização popular. Sobre ela já existem estudos da parte química, sendo que pelo menos oito grupos de compostos foram isolados e alguns testes biológicos realizados. A planta tipo da descrição procede do Morro do Itambé e o limite norte de ocorrência é a região de Grão Mogol. Alcança até 1,5 metros de altura e apresenta muita variabilidade, sendo "altamente polimórfica" (SEMIR et al, 2011). 

O uso é externo: o líquido é habitualmente esfregado sobre áreas que sofreram contusão e torção; em locais com dores internas supostamente ligadas às articulações; sobre cortes e feridas _ apesar da ardência que gera momentaneamente _ com o intuito de assepsia; em locais que sofreram picadas e sapecados de insetos (marimbondo, abelha, taturana, mosquitos, carrapatos); arranhado ou mordida de animais; ferimento por espinhos e estacas; após extrair farpas, cacos de vidro ou bichos de pé; para diminuir coceira (prurido). A regra é esfregar a arnica com as palmas das mãos, massageando firme até sentir um aquecimento pela fricção, repetindo-se algumas vezes a operação com novas porções de arnica. Acreditam que o calor gerado faz a arnica entrar na pele e não exatamente secar. Isto garantiria sua eficácia. Por vezes, quando o dolorimento é grande, o povo usa o estratagema de fazer uma compressa com arnica sobre a área afetada. 

O uso interno até o povo desaconselha por considerar a arnica 'muito quente', isto é, tóxica, produzindo efeitos colaterais indesejáveis e prejudiciais. Contudo existem exceções muito parcimoniosas de que a cultura popular se vale: quando de um tombo forte, que se bateu o peito no chão, deixando persistente dor nas costelas, usam pingar três gotas de arnica num miolo de pão e ingerir, ou numa colher cheia de açúcar, molhando-o. Isto se mantém por alguns dias até o alívio. 

Mais que um simples uso homeopático nos meios populares, a arnica tem um caráter de erva sagrada ou votiva. É costume na região colher a arnica na Semana Santa, ocasião de prepará-la para servir ao ano todo, só substituída por outro preparo nas endoenças do ano subsequente. Já por isto, sobem as pessoas às encostas serranas e junto às altas pedreiras a colhem em ramos para uso próprio ou para venda. Diante das igrejas históricas vê-se os vendedores de arnica nessa ocasião, expondo-as em balaios, carriolas, sacos estendidos e bancas, enfeixadas em pequenos molhos. De ordinário, além da arnica, surgem então à venda outras plantas específicas como congonhas, alecrins e manjericão. 

Até mesmo os altares são ornados com arnica; e, não bastasse, os andores do Senhor Bom Jesus dos Passos e de Nossa Senhora das Dores. Após as cerimônias, o povo acorre a pegar um raminho desses, tido como bento, sagrado e curativo poderoso. 

Entre os médiuns de alguns terreiros de umbanda e de candomblé, a arnica é considerada uma erva de Oxalá. O roxo de suas flores se evidencia sobretudo na época da Semana Santa e esta é a cor da quaresma, da penitência, do Senhor dos Passos e da Senhora das Dores. Assim as religiões de matriz africana se somaram na contribuição de elementos culturais em torno da arnica. Por conseguinte, o banho com arnica é recomendado para descarrego e firmeza na linha de Oxalá, capaz de trazer ao que crê pacificação e equilíbrio espiritual. Outra possibilidade de uso neste contexto é deixá-la secar por desidratação natural e depois jogá-la em brasas vivas, agindo como um incenso ou defumador, capaz de afastar energias negativas e harmonizar o ambiente.  

E tudo isto é algo muito arraigado ao costume popular. Passa de geração em geração como sabedoria do povo. Pois, desde pequena, a criança é levada pelos pais à igreja para as cerimônias tradicionais e na volta tem seu contato com esta cultura; aprende a usar e ensina (transmite). O pescador leva no embornal uma garrafinha com arnica porque pode precisar no mato; as senhoras a tem num canto do armário, sempre de prontidão para acudir a necessidade de um filho traquina ou de um neto serelepe. O umbandista se sintoniza com o sagrado ao banhar-se com uma infusão aquosa de arnica, ou tendo-a seca, a põe no braseiro para gerar o aroma sagrado. O humilde raizeiro ganha seu dinheiro extra graças a esta cultura. 

A arnica por seu valor etnográfico merece uma atenção especial, tanto em termos de proteção enquanto espécie, quanto em termos de estudo das propriedades medicinais. E quando citamos proteção não é mera força de expressão. A lista da flora mineira ameaçada inclui várias espécies de Lychnophora, dentre as quais a nossa arnica, Lychnophora passerina, que por ter área de ocorrência restrita e habitat degradado é considerada espécie vulnerável, segundo critério de classificação da IUCN - União Internacional para Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (COPAM, 1997; FUNDAÇÃO BIODIVERSITAS, 2008). Pelas razões expostas, os habitats regionais merecem toda atenção, seja na Serra de São José seja na Serra do Lenheiro, considerados todos os seus contrafortes. No Lenheiro pode ser encontrada na área oficial de seu Parque Municipal e mesmo fora dele, sugerindo ampliação de sua área para garantir proteção a esta espécie. 

As arnicas locais destas duas serras são típicas da vegetação de campo-rupestre. Surgem nos vãos entre as rochas (quartzito), em solo arenoso (neoquartzarênico), terrenos pedregosos e secos, em regiões de maior altitude e bem específicas. A pressão antrópica sobre elas é intensa, seja por ação destrutiva das queimadas florestais seja da coleta indiscriminada de finalidade comercial. Isto exige o desenvolvimento de ações de caráter educativo, intensificar combate e prevenção às queimadas, fortalecer a fiscalização sobre a área de ocorrência e ainda ampliar os mecanismos formais de proteção ambiental. 

Por fim, como sempre este blog assim procede, é o valor folclórico da medicina popular que interessa a esta página eletrônica. Não recomendamos qualquer forma de uso pelos eventuais riscos à saúde que pode gerar. 

1- Arnica: flor roxa típica na mão comparada a uma rara, de flor branca.
Serra de São José (Tiradentes/MG).  08/03/2016. 

2- Arnica, Lychnophora passerina.
Serra de São José (Tiradentes/MG).  18/03/2015. 

3- Arnica de outra espécie na Serra do Lenheiro.
(São João del-Rei/MG). 01/08/2015. 

4- Arnica de uma terceira espécie.
Serra de São José (Tiradentes/MG). 18/03/2015
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5- Lychnophora uniflora.
Areão, Serra do Lenheiro (São João del-Rei/MG). 09/07/2013. 


Referências 

ALVES, Ruy José Válka, KOLBEK, Jirí. Summit vascular flora of Serra de São José, Minas Gerais, Brazil. 2009. In: Check List: Journal of species lists and distribuition. Disponível em:  http://www.checklist.org.br/getpdf?SL112-08 Acesso em 06 jul. 2016. 

COPAM. Lista das Espécies Ameaçadas de Extinção da Flora do Estado de Minas Gerais. Deliberação 085/1997. Disponível em: http://www.biodiversitas.org.br/florabr/mg-especies-ameacadas.pdf Acesso em 07 jul. 2016. 

FUNDAÇÃO BIODIVERSITAS. Listas Vermelhas das Espécies da Flora e da Fauna Ameaçadas de Extinção em Minas Gerais (2008).  Disponível em: http://www.biodiversitas.org.br/publicacoes/  Acesso em 07 jul. 2016. 

SEMIR, João; REZENDE, Alex Ribeiro; MONGE, Marcelo; LOPES, Noberto Peporine. As arnicas endêmicas das serras do Brasil: uma visão sobre a biologia e química das espécies de Lychnophora (Asteraceae). Ouro Preto: Editora da UFOP, 2011. Disponível em: https://www.repositorio.ufop.br/items/ca8a6eb0-e9d2-4f93-97c6-2dbdc404434e/full  Acesso em 07 abr. 2025. 

WIKIPÉDIA. Arnica. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Arnica  Acesso em 06 jul. 2016. 

WIKIPÉDIA. Lychnophora. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Lychnophora Acesso em 06/07/2016.

Créditos

- Texto e fotografias: Ulisses Passarelli.

Notas

- Agradecimentos ao amigo e companheiro de jornada nas serras, Luiz Antônio Sacramento Miranda, a quem ofereço esta postagem. 
- Revisão: 08/10/2025. 

terça-feira, 1 de março de 2016

Retalhos para a colcha da história - parte 2

Coletânea de notas hemerográficas de São João del-Rei e cercanias (1900-1948)

O que foi dito como introdução à primeira parte desta postagem (acesso por link ao final deste post) serve exatamente a esta segunda parte. Portanto, por questão de praticidade, para não repetir as palavras, vamos direto à exposição da nova coletânea de notícias avulsas e independentes. É recomendada a leitura das notas de rodapé, que contém alguns comentários sobre as notícias.

Poço do Olho d'Água no Ribeirão São Francisco Xavier,
Serra do Lenheiro, São João del-Rei/MG

1900:
- Reforma na Igreja das Mercês – “Estão muito adeantados os reparos que, na Igreja das Mercês, estão sendo feitos pela actual Mesa Administrativa. O forro já está decorado, tendo sido estampado um retrato da Virgem das Mercês, ladeado pelos seus servos S.Pedro Nolasco e S.Raymundo Nonato. As obras restantes prosseguem.” (O Combate, n.10, 05/09/1900)

1901:
- “Praça Pedro Paulo – A Camara Municipal, reconhecendo os relevantes serviços prestados pelo illustre Coronel Pedro Paulo da Fonseca Galvão, em sua sessão, do 28 do passado, deu o nome do benemerito militar, á Praça, que se estende, da ponte das Officinas[1] ao Ribeirão d’Água Limpa. Foi um acto de justiça. Apresentamos ao Coronel Pedro Paulo os nossos parabéns.” (O Combate, n.76, 03/07/1901)

- “Mercado Municipal – Dentre as medidas redundantes em economia ao Thesouro Municipal, está o arrendamento do nosso Mercado e sabemos que está no animo da nossa Municipalidade por em hasta publica o arrendamento d’aquelle edifício publico. Ultimamente a fiscalização do Mercado Municipal tem ficado bastante despendiosa para os Cofres Publicos municipaes e por esse motivo quer e pretende a Camara arrendal-o e para isso estão sendo estudadas as bazes respectivas.” (O Combate, n.104, 21/09/1901)

- Hotel Oeste de Minas[2] (anúncio): “Attenção – Hotel Oeste de Minas – Valentim e Santos Martinelli – aposentos arejados, salões, bilhares, parques, banheiros, duchas e carro para conducção de hospedes, isto gratis. Não aceitam tuberculosos. Diarias: adultos...7$000 Creanças e creados pagarão um preço razoável, na occasião combinado. As famílias ou grande numero de pessoas gozarao do abatimento que sera convencionado. S.João d’El-Rey”. (O Combate, n.128, 30/11/1901)

1905:
- “Quaresma – Ao que consta, ouviremos, pela Quaresma e semana santa, o Stabat Mater de Rossini, o de Calvo, o de Pergolesi e o de nosso inolvidável conterrâneo Presciliano Silva; as missas e credos de Giorza, de Salvi e de Bellini; e, na sexta-feira maior, a majestosa composição de L.Perozi: Ceia e Morte de Christo. É uma excelente nova para os amantes da boa musica, nada sendo preciso accrescentar acerca do desempenho reservado a taes composições, que está confiado á orchestra do maestro Ribeiro Bastos.” (O Repórter, n.2, 05/02/1905)

- “Relógio – Já sahiu da Europa um excelente regulador, que a Mesa da Irmandade do Sacramento, com auxilio da Camara, destina a nossa egreja Matriz, em substituição ao velho relógio que, pelo seu incessante trabalhar, já tem as molas principaes estragadas, regulando mal.” (O Repórter, n.2, 05/02/1905)

1906:
- Reforma do Mercado– “Estão muito adeantadas as obras, que estão sendo realisadas no Mercado Municipal e destinadas a receberem a nova grade de ferro, que a Camara manda colocar ali, levando mais esse acto para o activo de seus serviços a esta cidade e no Municipio.” (O Repórter, n.25, 29/07/1906) [3]

- “Nuvem de gafanhotos – Como em Juiz de Fora, no mesmo dia 9, segundo telegramma transmitido dessa cidade para a imprensa carioca, seguindo o mesmo rumo de norte a sul, cerca de 2 horas da tarde, atravessou aqui uma grande nuvem de gafanhotos, em certos pontos tão intensa que conseguiu encobrir os raios solares. Alguns eram de tamanho nunca aqui visto, não deixando de causar um certo temor na população. Felizmente a travessia dos terríveis insectos foi de uma hora, mais ou menos.” (O Repórter, n.37, 14/10/1906)

1907:
- “Ramal de Pitanguy – Por estes três meses, diz telegrama do snr. Dr. Chagas Doria ao snr. Ministro da Viação, deverá ser inaugurado o ramal de Pitanguy, melhoramento importante, que, desde muito tempo, está a reclamar a sympathica cidade sertaneja.” (O Repórter, n.22, 23/06/1907)[4]

- Problemas sanitários – “O dr. F. Catão realmente precisa de tomar um destes trens, mas não para se ir de vez, mas para voltar o mais breve possível, e trazer em sua companhia gente que nos ajude a fazer reclamações contra a agua suja, a praia [5] suja, o matadouro sujo, as ruas sujas que temos nesta hospitaleira, e salubre cidade.” (O Grypho, n.10, 24/11/1907)

1917:
- “Chuva Providencial – Parece que alguém lá das alturas, attendendo ás reclamações do povo, delle condoeu-se e mandou, no segundo dia de festas em Mattosinhos, uma chuvinha miúda incumbida de aplacar o pó que era barbaro e inclemente. Ninguém lá de cima tem obrigação de mitigar os soffrimentos dos que estão cá em baixo; compete somente á Câmara mandar irrigar o Largo de Mattosinhos e trazer-lhe uma capina em regra, porque só ela tira proventos do povo com pesados impostos e taxas absurdas. Os negócios de nossa Câmara vão de mal a pior. É o povo queixar-se ao bispo.” (A Nota, n.24, 30/05/1917)[6]

- “Apparecem os gafanhotos – Lá pelos lados de Aguas Santas e nas imediações do estribo do Brighentti, começam a aparecer densas nuvens de gafanhotos, pondo em polvorosa o pessoal por onde passam os bandos dos danninhos insectos. Quem nos trouxe a noticia affirma-nos que durante a passagem dos terríveis orthopteros nota-se uma escuridão qual a da noite; afirma-nos mais o nosso informante que o espectaculo é medonho e quem o presencia tem a impressão perfeita do barulho de uma hélice de aeroplano em franca rotação. É bem provável que, devido a nossa cidade achar-se nas proximidades onde os gafanhotos estão aparecendo tenhamos dentro em breve de observar também tão terrível espectaculo. Caso apareça tão terrível flagello entre nós, como providenciará a nossa Câmara? É ir-se preparando desde já...” (A Nota, n.25, 31/05/1917)[7]

- “Voluntários de manobras – No quartel do 51º batalhão de Caçadores encerrou-se hontem a inscripção para o voluntariado de manobras. A mocidade de S.João d’El-Rey acaba de dar mais uma prova de seu nunca desmedido civismo. Alistaram-se 213 voluntarios, dos quaes 202 foram considerados aptos, 9 julgados incapazes e 2 não compareceram á inspecção medica. Podemos dizer com orgulho que S.João d’El-Rey é a cidade de Minas que maior numero de reservista tem dado ao exercito; com o contingente de agora esse numero attinge acerca de quatrocentos homens.” (A Nota, n.70, 21/07/1917)[8]

1923:
- Aquisição de terreno – a Resolução Municipal nº481, de 31/03/1923, autoriza o executivo à compra de um terreno, “por quantia não excedente á da compra effectuada ao sr. Francisco Messias da Silveira, a parte pertencente a d. Ermelinda da Silveira Milward no immóvel chamado “Olhos de Agua”, junto ás vertentes da represa velha do abastecimento desta cidade.” (A Tribuna, n.468, 15/04/1923)[9]

1926:
- “Estação de Caburu – É justo salientarmos nesta folha os constantes esforços com que contribuiu para a construção da estação de Caburu o sr. cel. Antônio Balbino de Sousa. Aquelle nosso prezado amigo desdobrou-se em boa vontade e atividade para a consecução do importante “desideratum”, tornando-se, portanto, merecedor dos mais effusivos louvores.” ( A Tribuna, n.751, 28/05/1926)[10]

- Escola distritais – a lei municipal nº496, de 27/11/1926, autoriza a criação de uma escola noturna na Colônia José Teodoro e outra em “Nazareth”, atual cidade de Nazareno. (A Tribuna, n.814, 30/12/1926)[11]

- Estrada de Turvo – por força da lei municipal nº497, de 27/11/1926, a Câmara Municipal de São João del-Rei autorizou a despesa de 10:000$000 (dez contos de réis), como subvenção parcelada para o exercício financeiro do ano seguinte, para construção da estrada de automóveis interligando esta cidade a Turvo, atual Andrelândia, no Sul de Minas Gerais. (A Tribuna, n.814, 30/12/1926)

1932:
- Festa no Albergue – “Encerraram-se com a procissão de domingo último, dedicada a S.José, as tradicionais festividades que se realisam na Capela do Albergue Santo Antonio. O préstito religioso de domingo esteve brilhante, comparecendo elevado numero de fieis. A banda do 11º R.I. abrilhantou todas as festividades, quer aos tríduos, quer a procissão. De ordem da Prefeitura foi iluminado o morro do Albergue, oferecendo este agradável impressão”. (Folha Nova, n.8, 24/04/1932)[12]

1938:
- “Missa dos Alfaiates - A comissão de alfaiates encarregada de promover a missa em honra à S.Geraldo, o protetor da classe, pede-nos avisemos que por falta de sacerdote não pode ser celebrada hoje, dia do milagroso santo, ficando por isso transferida para amanhã, ás 7 horas na Igreja Matriz. A referida comissão faz um apêlo para que todos os alfaiates compareçam a esse ato religioso, afim de ganharem graças para o constante progredir religioso desta tão numerosa classe operária.” (Diário do Comércio, n.181, 16/10/1938)[13]

- “Nova rodovia de S.João del-Rei á Barbacena – As empresas de transporte desta cidade, estando á frente o Expresso S.João e o fazendeiro Abel Carlos Moreira Campos, do distrito de Padre Brito, projetaram a construção de uma linha rodoviária, ligando o distrito de S. Francisco do Onça ao Ponto Chique, quilometro 27 da estrada de Ibertioga, ficando desse modo S.João del-Rei ligada a Barbacena por uma nova via, num percurso de 80 quilometros certos. Essa rodovia destina-se principalmente ao tráfego de caminhões pesados e de ônibus com as rampas em gráca necessários a tais transportes.” (Diário do Comércio, n.212, 23/11/1938)

1948:
- “De Prados - Natal dos pobres - Consoante o costume, realizou-se nesta cidade, a 25 de dezembro, o já tradicional almoço ajantarado oferecido pelas exmas. familias aos pobres da localidade. Devido ao mau tempo reinante, essa interessante refeição coletiva não teve a mesma concorrência dos anos anteriores, tendo dela participado uns 200 pobres. As respeitáveis irmãs de caridade da Santa Casa serviram o almoço, com a cooperação de distintas jovens do nosso escol social.” (Diário do Comércio, nº2.975, 04/01/1948)

Placa indicativa improvisada no distrito de Emboabas (ex São Francisco do Onça)
indicando o entroncamento para Ponto Chique. 

Referências Hemerográficas

Jornais editados em São João del-Rei; acervo da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d’Almeida, desta cidade
Referência Bibliográfica

Prontuário Geral das Estações Ferroviárias, 1945. 2.ed. Belo Horizonte: Departamento de Estatística, 1947.
VIEGAS, Augusto. Notícia de São João del-Rei. 3.ed. Belo Horizonte: [s.n.], 1959.

Notas e Créditos

*Texto, pesquisa e fotografias: Ulisses Passarelli
** Leia também neste blog a primeira parte desta postagem como mais notícias históricas:



[1] - Ponte das Officinas: o sentido exato não está claro e pode se referir a duas pontes: 1- havia uma ponte sobre o Córrego do Lenheiro interligando a Rua Antônio Rocha à Paulo Freitas, em frente às oficinas da Estrada de Ferro Oeste de Minas. Esta ponte não existe mais. Ficava exatamente entre as atuais pontes Inácio Zózimo de Castro e Monsenhor Tortoriello; 2- pequeno pontilhão da via férrea sobre o Córrego da Tabatinga, na saída da estação, entrada do Bairro São Judas Tadeu (antiga Caieira). É possivelmente a esta ponte que se refere o texto, pois dela à Ponte do Ribeirão da Água Limpa ainda hoje é o logradouro conhecido por Praça Pedro Paulo, popularmente, “PPP”, outrora chamada “Estrada da Tabatinga”. Era o caminho antigo de acesso a Matosinhos.
[2] - O Hotel Oeste de Minas sofreu terrível incêndio em 1919, que representou o seu fim. O prédio, contudo, construção muito sólida, foi mantido e hoje em excelente estado de conservação, sedia o CESC (Centro Social e Cultural), do 11º BI, Regimento Tiradentes, do Exército Brasileiro.
[3] - O mercado naquele tempo ficava exatamente ao lado da Prefeitura Municipal, no terreno onde mais tarde foi construído o Fórum, prédio que hoje serve à Câmara Municipal.
[4] - O ramal referido era um trecho de via férrea de cerca de 45 km, que interligava a cidade de Pitangui à “Linha do Sertão” da Estrada de Ferro Oeste de Minas, com a qual se encontrava exatamente na Estação de Velho de Taipa, km 436,928. A inauguração se deu em 23/11/1907.
[5] - Praia: nome corriqueiro que os são-joanenses dão ao Córrego do Lenheiro, que entrecorta a cidade.
[6] - Tradicionalmente, desde o século XVIII, eram três dias de festejos subsequentes: Domingo de Pentecostes consagrado ao Divino Espírito Santo, segunda-feira (o segundo dia), consagrado ao Senhor Bom Jesus de Matosinhos e a terça a Nossa Senhora da Lapa.
[7] - Até 1930 a Câmara Municipal congregava todos os poderes. Um dos vereadores era escolhido para ser o agente executivo, cargo que corresponde ao atual de prefeito. Daí, em todas estas notícias antigas, os pedidos de providências e as referências a autorizações, sempre partem da Câmara. Somente com o Estado Novo de Getúlio Vargas se estabelece o regime de prefeituras, separando o executivo do legislativo.
[8] - Notar que este fato ocorre no período coincidente com o da 1ª Guerra Mundial.
[9] - Ainda hoje a região do Olho d’Água, no Ribeirão São Francisco Xavier, em área do Parque Ecológico Municipal da Serra do Lenheiro, é fornecedora de água para abastecimento público.
[10] - Este Sr. Antônio Balbino de Sousa, foi Imperador da Festa do Divino no ano de 1923, salvo caso de engano por se tratar de um homônimo. A este respeito veja a postagem: AS FESTAS DE 1923. Estação de Caburu: ficava no distrito são-joanense de São Gonçalo do Amarante, ex Caburu. Esta notícia é intrigante pela data (1926), porque consta que a estação deste distrito só foi inaugurada quatro anos depois, em 1930 (A Tribuna, n.1.012, 16/02/1930), com o nome de Mestre Ventura. Seria a mesma plataforma férrea? Antigos moradores de São Gonçalo referem-se a uma primitiva parada do trem no km 123, contudo, a Estação de Mestre Ventura ficava no km 127,137. Seriam as mesmas plataformas de embarque e desembarque? Ou a inaugurada em 1926 era a parada do Km 123, depois substituída pela estação de 1930 no km 127? Para aumentar a controvérsia, o “Prontuário Geral das Estações Ferroviárias”, referenciado nesta postagem, dá para a Estação de Mestre Ventura a data de 07/09/1931... Seria ainda uma remodelação daquela de 1930? Eis um campo aberto a pesquisas de confirmação. A estação foi demolida após a erradicação dos trilhos e dela só restam vestígios das pedras da plataforma e a caixa d’água.
[11] - Nazareno emancipou-se de São João del-Rei em 1953. A escola da colônia não existe a muito tempo e está arruinada.  
[12] - A Capela de Santo Antônio, do Albergue Santo Antônio, nos limites entre a Rua Frei Cândido e Praça Dom Silvério, no Bairro das Fábricas, data de 1912.
[13] - Outra notícia da Festa de São Geraldo promovida por alfaiates surge no jornal A Tribuna, n.692, de 25/10/1925, que diz que o santo é “protetor da laboriosa classe”. Daria motivo para um oportuno estudo a hipótese da construção da capela deste santo no alto do morro que ganhou seu nome, ter sido ou não sob a influência ou iniciativa dos alfaiates, haja vista estar nos limites do Bairro das Fábricas, onde se situavam várias fábricas de tecidos, estabelecidas a partir do final do século XIX. Afirmou Augusto Viegas que a Capela de São Geraldo foi “erigida em 1914, graças principalmente aos esforços de Lúcio Justino de Andrade, modesto operário” (p.262). Qual a real importância que o estabelecimento das tecelagens teve na urbanização daquela área da cidade?