Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Frades de Pedra: de monólitos fálicos a barreira de trânsito

Em algum canto esquecido em velhas cidades ainda se vê porventura uma pequena coluna de pedra fincada numa esquina ou fechando uma rua. O povo a denomina frade, frade de pedra, fradinho e gaiatamente "pirulito" (*). Em Portugal há o sinônimo fradépio. 

Na maior parte das vezes passa despercebido, o que de fato não é positivo, posto que uma vez inadvertidamente retirado ou danificado, não se faz notar, e o que é pior, nem lhe atinam que faz parte do cenário histórico, do patrimônio cultural, da ambientação urbana. Sua origem está em um passado muito distante e se liga ao culto fálico, de primórdios pagãos, mais tarde cristianizados. 

                             
Frades em Tiradentes, junto à antiga cadeia. 30/01/2018. 

Estão ligados remotamente aos monumentos monolíticos da pré-história, que o homem erguia desde o neolítico. Neste sentido os frades de pedra se correlacionam com os próprios obeliscos, menires isolados, marcos miliares e marcos de sesmaria. 

O pênis ereto (falo) era o símbolo da virilidade, valendo pela bênção da fertilidade, fartura e proteção mágica. Com esta crença era representado em desenhos como afrescos, nas esculturas e entalhes. O próprio chifre ou corno, retesado, tinha o mesmo sentido e identificava um símbolo fálico, ou seja, uma representação imemorial do pênis, simbologia do touro reprodutor, poderoso. O chifre como tal é um amuleto que ainda o vemos fincado à ponta de uma vara nas plantações, pendurado perto de entradas de casas, para proteção dos maus olhados, energias contrárias e deletérias. O sentido simbólico de tal representação é simples em si: se o pênis injeta a semente da vida ele se opõe a morte. Se é parte da geração da vida, é positivo, pois se opõe à inexistência, configurada como negativa. 

Sua representação em forma de coluna ou colunelo de pedra foi conhecida e usada na Península Ibérica, sabidamente de imemorial dominação por diferentes e sucessivos povos pagãos. 

A cristianização dos costumes fez um esforço para mascarar, anular e adaptar os hábitos taxados de pagãos. A denominação "frade" ou "fradépio" caminha por esta seara. Alude à forma de um monge, a silhueta de um religioso capuchinho, de cabeça raspada (tonsura), arredondada, corpulento, rotundo. Esta visão depreciativa e decerto gaiata foi fácil de aproximar ao corpo, prepúcio e glande do pênis, facilmente se fixando como denominação. Naturalmente que os artífices também adaptaram a técnica, disfarçando as formas esculpidas na rocha com corte em faceta e mudanças na ponta, ora afilada ora seccionada.  

De Portugal o tivemos e se estabeleceu em alguns lugares de norte a sul, possivelmente com a concepção inicial de grande amuleto público, propiciador de positividade para os moradores. 

Frades em Emboabas, distrito de São João del-Rei 
(no largo gramado e no canto do adro da igreja do padroeiro, São Francisco de Assis). 28/01/2018. 

As mudanças sociais e novas concepções religiosas alteraram esta visão e deram-lhe novas funções. Em São João del-Rei, por exemplo, há documentos que comprovam o uso dos frades na segunda metade oitocentista para dar suporte a torneiras de abastecimento público de água, que era captada num tanque no Bairro Senhor dos Montes e canalizada ao Centro Histórico. Dos frades remanescentes há pelo menos um que, embora em parte fragmentado, ainda conserva nitidamente um pedaço de cano metálico incrustado em sua base, denunciando o antigo suporte de torneira pública no Largo da Cruz. Neste contexto os frades eram parte do mobiliário urbano e enquanto benfeitorias, tratados como obras públicas movidas pela Câmara Municipal. 

No final do século XIX a distribuição coletiva de água conseguiu atingir diretamente as residências e os frades com torneiras se tornaram obsoletos. Não tardou sua remoção, muitos desaparecendo. Outros teimosamente resistiram, adaptados a outra função: proteção de cantos de ruas e mesmo seu fechamento, impedindo a passagem de veículos ou protegendo imóveis do abalroamento com os veículos de tração animal e sobretudo os automóveis, que então surgiam. 

Assim chegaram aos nossos dias, quase invisíveis aos olhos da maioria no cotidiano urbano. Ainda são uma boa alternativa ao fechamento de vias, sobretudo nos centros históricos, por dialogar com o velho casario colonial mineiro. 

Para concluir seguem fotografias de frades antigos de São João del-Rei, alguns mais elaborados indicando trabalho de cantaria; outros, toscos, ou até mesmo fragmentados. 

   
Pequeno frade no canto de imóvel à saída do beco que liga o
Fervedouro à Gameleira, no Bairro Tijuco.18/06/2017.
 
Frade tosco junto à Igreja do Senhor Bom Jesus do Monte.
 13/02/2018.  

Frade facetado à entrada da Rua José Pedro Azevedo.
Bairro Senhor dos Montes. 13/02/2018.

Frade situado na esquina das Ruas João da Mata e Escrivão Farnese Silva,
Bairro Bonfim. 23/02/2018. 

Frade situado na esquina da Rua João da Mata e Praça Guilherme Milward,
Bairro Bonfim. 23/02/2018. 

Frade situado na esquina das Ruas Dr. José Bastos e Dr. Mourão Filho,
Bairro Bonfim. 23/02/2018. 


Frade fragmentado na entrada do Beco do Bispo.
27/02/2018. 

Frade oitavado no Beco do Cotovelo.
27/02/2018. 

Frade quebrado no Largo da Cruz com sinais de antiga torneira.
27/02/2018. 

Frade oitavado na entrada da Rua da Cachaça.
27/02/2018. 

Frade semelhante a marco de sesmaria na esquina das ruas Bernardo Guimarães e
João Hallak, em Matosinhos. 27/02/2018. 

Frade de forma incomum (aproveitamento de pedra que já teve outra função)
guarnecido por pedaço de trilho,na Rua João Hallak, Matosinhos. 27/02/2018. 

Antigo frade fragmentado, na Rua Maria Teresa, junto à
"Casa mais Antiga". 27/02/2018. 

Frade de forma incomum, cravado no passeio terminal da Rua Santo Antônio,
Bairro Tijuco. 27/02/2018.
 

Antigo frade de fechamento do Beco do Salto, no
Centro Histórico. Forma arcaica (peniana). 27/02/2018. 

Frade robusto fechando a Rua do Carmo, em seu acesso ao largo.
27/02/2018. 
Último frade de madeira remanescente, na esquina das ruas Santo Antônio e
Ferroviário Miguel Ferreira, Bairro Tijuco. 27/02/2018.

Notas e Créditos

* O termo pirulito é popularmente também aplicado como sinônimo de obelisco. Em sentido popular chulo é uma referência ao pênis.
** Texto e fotografias: Ulisses Passarelli
*** Referência: 
Inventário de Patrimônio Cultural: Frades de Pedra. São João del-Rei: Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, março/2017. 56p.il. 
**** Revisão e melhoramentos em 31/03/2024. Foto adicionada: 

Frade de pedra: Alto do Cristo, Andrelândia/MG - 
corte vertical onde se encaixava o encanamento.
Autor: Ulisses Passarelli, 03/11/2018. 




segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Festa de São Sebastião em Emboabas

Esses lugares recônditos de Minas! Quanta beleza guardam... Depois de longas estradas de terra, de vários morros transpostos, da contemplação da paisagem natural convidativa, se alcança um povoado, uma vila ou uma pequena cidade. Nela há riquezas culturais, pérolas humanas, belezas arquitetônicas, saberes... hospitalidade; história a ser garimpada. E nós outros fazemos vista grossa... Por que?

Assim é Emboabas, distrito de São João del-Rei, 35 km ao sul da sede municipal, surgido nos princípios do século XVIII ao longo de uma estrada variante que ligava o Caminho Velho ao Caminho Novo. Por esta variante passou certa vez o Imperador do Brasil. Consta que Dom Pedro pousou numa fazenda alguns quilômetros abaixo de Emboabas. O lugar, não à toa, é conhecido por Pouso Real, região montanhosa e aprazível. 

Outrora o nome do distrito era São Francisco do Onça, de origem setecentista. Há mesmo um fluxo d'água que banha o lugar chamado Ribeirão do Onça. O topônimo lamentavelmente foi alterado pelo Decreto nº 1.058, de 31/12/1943 passando a se chamar Emboabas. A história contudo não consignou nada que ligasse a localidade aos emboabas ou à contenda que levou seu nome, a Guerra dos Emboabas. Aparentemente o nome Emboabas é despropositado e melhor o fariam se retomassem o topônimo original, ligado à identidade do lugar. Ainda hoje, muitos e muitos chamam aquela vila de Onça, sempre no masculino, mostrando a força felina deste nome resistente. 

Emboabas guarda ainda na memória dos mais idosos lembranças da santa do lugar: Sá Luíza da Cananéia. Santa na língua do povo, que considera Sá Luíza uma virtuosa e taumaturga, tal como Nhá Chica, outra são-joanense, esta já na condição oficial de Beata, ora em processo de canonização. Segundo narram (*), Sá Luíza já idosa, toda primeira sexta-feira de cada mês, partia à pé até São João del-Rei (45 km desde Cananéia!), estrada de terra, pé no chão (sem calçados), de vestido comprido e mangas longas, lenço atado à cabeça, terço na mão, para assistir missa na Igreja de São Francisco de Assis. Sá Luíza tomou à frente a tarefa de edificação da Igreja do Sagrado Coração de Jesus na Cananéia. Morreu queimada em sua casinha perto da igreja. Reservados alguns detalhes, a essência dessa narrativa, foi registrada por meio de outro informante por SACRAMENTO (2017), antes que esse blog o fizesse, que ora tão somente corroboramos por nova informante. Isto demonstra que ainda palpita a memória popular acerca de Sá Luíza, no aguardo de um movimento, um estudo substancial, algo que a resgate do passado, antes que o tempo leve consigo os que a conheceram pessoalmente. Sá Luíza bem merecia estar no patamar de Nhá Chica, pois assim como ela foi um ícone do sagrado, tal e qual naqueles idos da primeira metade do século XX também o fora Manuelina de Coqueiros, pras bandas de Entre Rios. Mulheres Sagradas de Minas! 

Cercado por sítios e fazendas, nada mais natural que a devoção a São Sebastião florescesse em Emboabas, pois via de regra é queridíssimo na zona rural, protetor da atividade agropecuária, posto que é guardião contra a fome, a peste e a guerra. Naturalmente, por estas prerrogativas sagradas, guarnece plantios e criações de desastres, doenças e outros revertérios, que trariam a escassez dos mantimentos. Contudo, as mudanças diversas e as dificuldades, esmaeceram este festejo, que a cerca de doze anos não acontecia. Os esforços da paróquia, da comunidade e notadamente dos festeiros, possibilitaram o retorno da festa. 

Década e pouco atrás numa dessas festas no Emboabas, veio num ônibus de São João del-Rei o congado do Capitão Raimundo Camilo (do Bairro São Dimas) e duas folias de São Sebastião: a do Bairro da Fábricas, à época sob a chefia do folião "Tião Domingos" e a do Bairro Guarda-mor, do folião "João Matias". Os grupos na ocasião dançaram e cantaram pelo largo, animando bastante a festa. 

A festa de 2018 foi iniciada com tríduo preparatório no dia 25, contando com várias atividades religiosas: caminhada luminosa, celebrações, procissão. O dia maior, domingo, 28, principiou com alvorada festiva, apresentação de folia de São Sebastião na igreja, no largo e em visita a casas, missa na matriz, almoço festivo, leilão de gado e de prendas, procissão. Além do som mecânico, no palco da festa aconteceram shows e no largo algumas barracas animavam os visitantes.

A valorização ao homem do campo transparecia no próprio programa, que anunciou claramente que a festividade era em honra a São Sebastião (protetor da agricultura) e a Santo Isidoro (protetor do agricultor). Ao término de uma das celebrações o sacerdote abençoou vários saquinhos de sal, que os devotos recolheram para uso, misturando-se ao sal dado ao gado bovino. Ainda se ressalte a bênção de pequenos estandartes destinados aos fazendeiros. 

A retomada dessa festa é uma oportunidade promissora de valorização da comunidade. As possibilidades culturais, que se abrem em leque, possibilitam confraternização e aprendizado. Tanto mais, traz visibilidade ao distrito. Este Blog parabeniza a todos os responsáveis pela iniciativa e faz votos de que prossiga ano após ano. 

1- Igreja Matriz de São Francisco de Assis, Emboabas. 

2- Largo em festa: cruzeiro e barracas festivas. 

3- Casa paroquial de Emboabas, bem cultural digno de preservação. 

4- Folieiros recebem o café da manhã. 

5- Rosquinhas caseiras e café na ciculateira (**): tradição interiorana. 

6- Mastro de São Sebastião no adro da matriz. 

7- Detalhe da imagem de São Sebastião. 

8- Andor de São Sebastião. 

9- Andor de Santo Isidoro, padroeiro dos agricultores. 

10- Folia Embaixada Santa, de São João del-Rei, 
canta o martírio de São Sebastião diante do andor. 

11- A folia visita uma casa. 

12- Antigo frade de pedra, de talha sextavada: 
elemento histórico chantado no Largo da Igreja.

13- Cartaz da Festa de São Sebastião e Santo Isidoro,
Emboabas (São João del-Rei/MG). 30 x 40 cm, papel couché.

Referências Bibliográficas

SACRAMENTO, José Antônio de Ávila. Sá Luíza da Cananéia. In: Em Voga, São João del-Rei, n.6, ano 3, dezembro/2017. 

Notas e Créditos

* Informante: Sra. Isabel Batista Moreira, moradora do distrito. Descreveu com muita vivacidade e emoção as virtudes de Sá Luíza, pois a conhecera pessoalmente. Este Blog registra a mais sincera gratidão à informante pela presteza e sinceridade do diálogo. 

** Ciculateira: ou chiculateira, possível corruptela de chocolateira, vasilhame metálico de fundo largo e boca em gargalo. Também chamada conforme a localidade de sapona e muxambeta. 
***Texto: Ulisses Passarelli
**** Fotografias: Ulisses Passarelli: 2, 7, 8, 9, 12, 13; Iago C.S. Passarelli: 1, 3, 4, 5, 6; Cida Salles: 10 e 11
***** Obs.: agradecimentos especiais ao festeiro Cláudio Guimarães Pereira, que com muita sensibilidade, convidou e proporcionou a presença da folia no festejo. 

REVISÃO: 09/04/2024

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Velhas notícias distritais - parte 2

Continuando o trabalho de levantamento da história dos distritos de São João del-Rei, segue mais uma postagem contendo uma breve coletânea de dados, em disposição cronológica, abarcando o período de 1905-1906. As informações procedem do jornal são-joanense "O Repórter" e a fonte de consulta é o site da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida. 


Igreja de Santo Antônio de Pádua, cruzeiro e mastro do Rosário.
Distrito de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, 15/10/2011.

- Lei municipal nº133, de 24/08/1905, autoriza a criação e manutenção de uma escola pública em São Sebastião da Vitória até que o estado faça uma. A escola seria dedicada a alunos do sexo masculino e o nome do professor contratado seria submetido à aprovação da câmara. A despesa total autorizada foi de um conto de réis. (O Repórter, n.36, 24/09/1905).

- Um ladrão arrombou na calada da madrugada o cofre do cruzeiro do largo da igreja do Rio das Mortes levando seu conteúdo, e ainda, abrindo a porta lateral direita do mesmo templo, igualmente surrupiou o conteúdo dos cofres do Coração de Jesus, Senhora Aparecida, Almas e Senhora do Parto, arrancando-os da parede. Os cofres vazios foram jogados pelo “gatuno audaz” no largo da igreja. A nota jornalística se intitula “Sacrilegios”. (O Repórter, n44, 26/11/1905).

- Festa de Santa Cecília no Rio das Mortes, com bênção do estandarte da corporação musical do lugar. Houve missa e a procissão foi prejudicada pelo mal tempo. A Banda Lira do Oriente saiu em tocata pelas ruas e se deteve especialmente na residência do Padre Francisco Rocha. “Foram feitos e erguidos vários brindes pelo Padre Rocha, pelo dr. Paulo Teixeira e outros.”. A mesma nota traz a seguinte informação sobre obras na igreja: “o reverendo Padre Francisco Rocha, auxiliado por bons amigos, trata de obter meios para augmentar a Capella de Santo Antonio do Rio das Mortes mais trinta palmos. É uma ideia louvável, visto como a igreja já e pequena para acolher o numero de fieis. No dia 17 do próximo mez deve partir daqui um mestre de obras encarregado de fazer o orçamento respectivo e Deus queira que não appareçam obstáculos a generosa ideia.” (O Repórter, n.45, 03/12/1905).

- A tradição dos laticínios de São Sebastião da Vitória se mostra mais uma vez na seguinte nota: “simplesmente esplendida, uma das melhores que vem ao mercado desta cidade, é a manteiga “Victoria”, da fábrica do sr. Carlos Alberto Alves, estabelecido no arraial de São Sebastião da Victoria, deste município.” A nota prossegue ressaltando o asseio da fabricação e recomendando seu consumo. (O Repórter, n.46, 10/12/1905).

- Um edital da Câmara Municipal, assinado pelo presidente da mesma, Dr. João Salustiano M. Mourão, datado de 1º de fevereiro de 1906, convoca a população do Rio das Mortes para eleição do 1º, 2º e 3º juízes de paz daquele distrito, pois os anteriores não haviam tomado posse. A votação foi marcada para as 11 às 12 horas, no cartório de paz do distrito. (O Repórter, n.3, 18/02/1906).

- Resolução da Câmara Municipal de São João del-Rei, nº337, de 04/01/1906, autoriza o agente municipal a fazer reparos na Ponte de Moinhos, no limite distrital entre a sede e São Miguel do Cajuru, sob as águas do Rio das Mortes Pequeno (O Repórter, n.12, 29/04/1906). Os trabalhos na ponte foram autorizados também pela lei municipal nº142, de 27 de julho do mesmo ano, que se refere a construção de uma ponte e não reforma. (O Repórter, n.39, 28/10/1906).

- “Estão no Cajurú deste município, pregando missões e presidindo os exercícios quaresmaes, três illustres sacerdotes da Congregação do Sagrado Coração de Maria. Já estiveram em Victoria, Nazareth e do Cajurú seguem para Conceição da Barra.” (O Repórter, n.8, 25/03/1906).

- “S.Francisco do Onça. Está contractado o futuroso enlace do sr. capitão José Carvalho de Rezende, filho do sr. coronel José Teixeira de Rezende com a exma. sra. d. Maria José de Andrade, dilecta filha do sr. major Jose Tiburcio de Andrade Reis.” (O Repórter, n.17, 03/06/1906).

- Resolução n.316 da Câmara Municipal, de 28/06/1906, autoriza o agente municipal a reparar “a estrada que vai dessa cidade ao Rio Grande, especialmente no logar denominado Picada”. (O Repórter, n.22, 08/07/1906).

- Resolução n.317 da Câmara Municipal, de 28/06/1906, autoriza o agente municipal a passar a subvenção de ajuda de vinte mil réis para a escola primária particular da Colônia do Bengo, desde que pudesse provar matrícula de pelo menos vinte alunos e participação efetiva de pelo menos quinze, e ainda, que abrisse vaga gratuita para cinco alunos indicados pela vereança. A escola seria fiscalizada pelos vereadores. O professor regente era o sr. Manoel José Florêncio. (O Repórter, n.22, 08/07/1906).

- Santas Missões acontecem no Rio das Mortes, coincidindo com os festejos de Santana. A festa religiosa foi precedida por novena e contou também com missa cantada, sermões, Te Deum Laudamus e leilões de prendas. A vila foi enfeitada e recebeu um cruzeiro novo. (O Repórter, n.24, 22/07/1906).

- Santas Missões transcorrem no Onça (atual Emboabas) por oito dias com grande empolgação dos fiéis. Os missionários eram da Congregação do Sagrado Coração de Maria: padres Francisco Ozamir e Nicoláo Gomes, recepcionados festivamente pela banda de música local. Foram mais de mil comunhões contabilizadas. Fizeram instalar mais um cruzeiro na vila, em um morro circunvizinho, com pregação do padre-mestre José Pedro da Costa Guimarães e do missionário Nicoláo. De volta à igreja, o padre Francisco deu a bênção papal. Houve também uma procissão do Sagrado Coração de Jesus com pregação. (O Repórter, n.25, 29/07/1906). O Padre José Pedro era capelão da Santa Casa de Misericórdia e pouco depois das missões foi agraciado com o título de monsenhor. (O Repórter, n.37, 14/10/1906).

Serra do Caxambu, vista da estrada do Mestre Ventura.
Distrito de São Gonçalo do Amarante, São João del-Rei. 03/08/2014.

Notas e Créditos

- Leia também a primeira parte desta postagem: VELHAS NOTÍCIAS DISTRITAIS
- Texto e pesquisa: Ulisses Passarelli
- Fotografias: igreja - Ulisses Passarelli; serra - Iago C.S. Passarelli


sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Velhas notícias distritais - parte 1

Os distritos em geral ficam à margem dos estudos. Isolados do núcleo urbano, de ordinário sua rica história e cultura passa despercebida da maioria. Fazem pelo menos duas décadas que venho divulgando os valores das pequenas vilas, dos recônditos povoados. E sua riqueza não acaba nunca. Sempre tem mais para trazer à lume. 

A presente postagem anda porém nos trilhos da pesquisa acerca da história dos esquecidos distritos. Assim, humildemente, à guisa de mera listagem de notícias, pretende facilitar futuras pesquisas mais engajadas pela facilidade da reunião de informes. 

Os distritos abordados pertencem ao município de São João del-Rei. As informações referem-se ao período de 1900-1905. A fonte de pesquisa é o site da extraordinária Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida, desta cidade, através dos antigos jornais editados nas tipografias são-joanenses. 

Vista parcial de São Gonçalo do Amarante, em 07/10/2011.

- A Câmara Municipal suprime o distrito de São Gonçalo do Brumado, anexando-o ao distrito da sede. Com isto, os recursos para o lugar foram reduzidos à metade. O ato gerou muitas discussões políticas. (O Combate, n.30, 05/12/1900).

- No Rio das Mortes acontece a festa de Santana e São Benedito, com celebrações e música. Pregação por conta do Monsenhor Gustavo Ernesto Coelho, focando sobre a mãe de Maria. O distrito estava em luto pelo assassinato ali ocorrido de Bernardino Pereira Leite, que motivou a presença de uma cruz chantada na via pública. Na ocasião do festejo, o conselho distrital reuniu-se e nomeou secretário o sr. Ernesto Mathias (O Combate, n.85, 07/08/1901).

- A Câmara Municipal reconhece os poderes das autoridades eletivas representantes do então recém-criado distrito de São Sebastião da Victoria. Nessa circunstância tomou posse e prestou juramento o vereador especial Capitão Manoel de Sousa Guerra Junior (O Combate, n.92, 21/08/1901).

- Nomeação para São Sebastião da Vitória do Sr. Salathiel Ribeiro de Paiva para o cargo de subdelegado. Foram suplentes em ordem decrescente: Isidoro Ribeiro de Carvalho, José Bueno da Silva, João Batista de Carvalho (O Combate, n.101, 14/09/1901).

- O Vigário Padre Francisco de Sales Torga abre subscrição para compra de aparelhagem de iluminação para a matriz do Cajuru, à base de gás acetileno (O Combate, n.122, 09/11/1901).

- Posto em hasta pública sob um orçamento de 6:899$200 os serviços de abastecimento de água potável do Cajuru (O Combate, n.122, 09/11/1901).

- Os srs. Eduardo Lopes, Delphino Candido do Carmo e Herculano Cezar de Carvalho foram nomeados respectivamente 1º, 2º e 3º suplentes do subdelegado do Rio das Mortes (O Combate, n.126, 23/11/1901)

- O conselho distrital do Cajuru aprovou uma “moção de apoio e solidariedade a politica do nosso chefe e amo. Dr. J .D. Leite de Castro, digno agente do executivo municipal” (O Combate, n.127, 27/11/1901)

- Morre Sebastião Baptista em trágica armadilha em São Miguel do Cajuru: o sr. Francisco José de Ávila, tendo prejuízos por invasão de ladrões em sua residência, colocou uma armadilha na queijeira, feita com uma espingarda, cujo gatilho se prendia a um cordão esticado até o jirau. Quando a vítima invadiu o espaço, esbarrou na armadilha e foi alvejada no peito. Pulou a janela em fuga, mas, gravemente ferido e ensanguentado, pereceu o invasor dentro do curral ao lado. (O Combate, n.149, 12/02/1902)

- “Mais uma fábrica de manteiga abre-se, por estes dias, na Victoria, de propriedade do sr. Antonio Baptista do Nascimento Junior.” (O Repórter, n.12, 09/04/1905).

- Autorizado pela Câmara Municipal, através da resolução nº314, de 22/02/1905, assinada pelo Diretor Dr. João Salustiano M. Mourão a construção em hasta pública de uma ponte na estrada de São João del-Rei a São Francisco do Onça (atual Emboabas), sobre o Córrego do Peixe no valor de até 400$000. A mesma resolução autoriza despesa de 60$000/ano para contratar limpeza da caixa d’água e tubulação do mesmo distrito, por duas vezes ao mês na seca e quatro no tempo chuvoso. A determinação é que a despesa saísse do próprio imposto arrecadado naquele distrito. O presidente da câmara era o Capitão Antônio Gonçalvez Coelho (O Repórter, n.12, 09/04/1905).

- Resolução nº325 da Câmara Municipal, de 16/06/1905, concede pena d’água perpétua e gratuita ao cidadão Tenente José Affonso do Nascimento, no Onça (O Repórter, n.26, 09/07/1905).

- A Câmara providencia reparos na ponte distrital sobre o Rio das Mortes Pequeno na vila homônima (O Repórter, n.26, 09/07/1905).

- Lei municipal nº130, de 03/04/1905, no seu artigo 1º, extingue o imposto predial sobre as construções rurais de São João del-Rei (O Repórter, n.25, 02/07/1905).

- Resolução nº320 da Câmara Municipal, de 03/04/1905, autoriza obras para conserto e reparo na estrada de São Gonçalo do Brumado (O Repórter, n.25, 02/07/1905).

Igreja de Nossa Senhora das Vitórias, do século XIX.
São Sebastião da Vitória (São João del-Rei/MG), agosto/1999.

Notas e Créditos

- Texto e fotos: Ulisses Passarelli. 
- Obs.: São Gonçalo do Brumado, depois Caburu, atual São Gonçalo do Amarante; Onça (ou São Francisco do Onça), atual Emboabas; Rio das Mortes, atual Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno. 

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Sá Luíza da Cananéia

No catolicismo popular muitas vezes o povo se apega às crenças de que algumas pessoas, tendo passado uma vida extremamente virtuosa, paciente e penitente, aureolada na obra da caridade e no trabalho em prol da Igreja, alcançaram a santidade, independente do processo oficial do Vaticano.

Assim as pessoas consideram muitos outros “santos” que não fazem parte do hagiológio. Alguns nunca saem desta condição, mas outros são abarcados pela tramitação documental e terminam por alcançar a beatificação, a exemplo da são-joanense de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, Nhá Chica, ou a canonização, como o paulista Frei Galvão.

Dentre estas personagens religiosas notáveis, algumas parece que se vão perdendo nas brumas do passado. As novas gerações delas vão se esquecendo, como “Manuelina de Coqueiros”[2], jovem de Entre Rios de Minas que outrora era fervorosamente visitada por romeiros de toda redondeza, inclusive muita gente daqui de São João del-Rei, que ia atrás de suas preces inclusive à pé ou a cavalo. Outra religiosa importante e de que ora me ocupo em especial é “Sá[3] Luíza da Cananéia” (Luiza Leriana, 1873-1958), que desenvolveu seu trabalho religioso no distrito de Emboabas (ex-São Francisco do Onça), em São João del-Rei/MG.

As informações orais que disponho dizem que ela “virou” santa. Foi uma senhora boníssima, justa, muito humilde, fiel da santa comunhão, caridosa, que vivia na graça de Deus.

Morava só, numa casa humilde, no citado distrito, próximo à localidade de Cananéia, distante cerca de 40km de São João del-Rei. Era conhecida por “Sá Luíza da Cananéia”, cujas orações em favor de...  sempre eram ouvidas pelos céus. Por isto era procurada por fiéis.

Como penitência costumava pegar o prato que almoçava parcamente e misturar água na comida, fazendo uma sopa fria para atrapalhar o sabor, pois dizia que era indigna de comer um alimento tão bom.

Certa ocasião, um carreiro estava passando a serviço próximo à sua casa, sob uma forte chuva e viu ao longe um vulto em cima de um cupinzeiro, debaixo daquela chuvarada. Pensou consigo mesmo: “uai, sô... o que será aquilo? Curuiz Credo! É o cariá ou um pantasma?”[4] O carro de bois foi chegando, rangendo no seu canto melancólico o eixo de madeira. O carreiro ressabiado persignou-se: era Sá Luíza da Cananéia que estava em cima de um pequeno ninho de cupins, sentada, esperando o ônibus passar.

_ Ôh, Sá Luíza!
_ Deus te abençoe!
_ Amém! Mas... uai, Sá Luíza, quê que a senhora tá fazêno nessa tribusana?[5]
_ Ô meu fío, mais tá chuvêno?
           
E foi então que o carreiro arrepiou-se... só então notou que ao redor dela naquele cupim estava tudo seco, um fenômeno de sua santidade, garantiu-me meu informante[6].

Minha bisavó pelo lado materno, Luíza dos Santos[7], tinha por Sá Luíza especial admiração e certa amizade, tendo-a visitado algumas vezes, dizendo-a uma mulher de fé inesgotável, agraciada com o dom da cura pela força da oração e uma pessoa muito penitente.

Sá Luíza segundo fonte jornalística[8] teria angariado com muito esforço pessoal donativos para a construção da centenária capela do lugar, dedicada ao Sagrado Coração de Jesus.
               

Aspecto de Cananéia, em 2013. 

Notas e Créditos

* Foto e texto: Ulisses Passarelli



[1] - CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d].
[2]  Ver (acesso em 03/09/2013, 21:58h): Mulheres Negras do Brasil 
[3] - Sá: senhora, usual também as formas sinhá, nhá.
[4] - Curuiz: corruptela comum de cruz. Cariá: o demônio. Forma encurtada do africanismo cariapemba. Pantasma: fantasma, na pronúncia popular.
[5] - Tribusana: chuva forte.
[6] - Aluísio dos Santos (1924-2005), natural de São João del-Rei.
[7] - Luíza dos Santos (1893-1985), natural de São João del-Rei, mãe do meu informante.
[8] - Cananéia reforma capela e reclama de abandono: povoado quer preservar memória de Sá Luíza. Gazeta de São João del-Rei, n.65, 16/10/1999, p.3.