Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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segunda-feira, 8 de maio de 2017

Festa de São Benedito no Bonfim

Concluiu-se na noite de ontem na Igreja do Senhor  Bom Jesus do Bonfim, em São João del-Rei, a festividade em honra a São Benedito. Ao final da tarde apresentou-se diante da antiga igrejinha e ao pé do mastro o Moçambique Santa Efigênia e o Catupé São Benedito e São Sebastião e ambos entoaram seus louvores e animaram bastante o local. 

A celebração da Santa Missa foi muito concorrida, ganhando destaque a participação do tradicional Grupo de Inculturação Afro-descendentes Raízes da Terra. Foi realizada com grande empolgação e valores culturais, em clima de forte apelo religioso. Estiveram também presentes os senhores e senhoras reis e rainhas de São Benedito. 

O andor com a imagem do santo festejado estava muito enfeitado e seguiu em procissão acompanhado pelos congados presentes e grande número de fieis, em longo percurso pelo Bairro do Bonfim. A saída foi da igreja nova e chegada na igreja velha. Os grupos tocaram ininterruptamente durante todo o itinerário procissional. A chegada foi empolgante, com intenso foguetório e dobres de sino. A bênção do Santíssimo Sacramento foi extremamente respeitosa e participativa. Na entrada do andor uma chuva de pétalas de rosas caiu sobre a imagem, entremeio muitas palmas, vivas e rufados de caixas. 

Os grupos se recolheram, recebendo antes um farto e saboroso lanche.

As comemorações sociais continuaram no adro com movimento de barraquinhas e música. 


Igreja antiga. Ao lado do cruzeiro luminoso o mastro de São Benedito. 

Igreja nova com movimentação de devotos. 

Uma das guardas presentes à festa. 

Bênção do Santíssimo Sacramento. 

Bênção do Santíssimo Sacramento. 

Andor de São Benedito. 

Notas e Créditos

* Texto e fotografias: Ulisses Passarelli

quinta-feira, 9 de março de 2017

O Rosário mandou chamar...

O Blog TRADIÇÕES POPULARES DAS VERTENTES compartilha com a comunidade congadeira de São João del-Rei o mais sincero sentimento de pesar pelo recente falecimento de cinco congadeiros do município, somente neste ano de 2017. As famílias, parentes e amigos só nos resta manifestar as preces que buscam o conforto espiritual e o consolo por tão triste passagem.

Ontem, causou grande consternação a travessia para a eternidade do Capitão Moacir Santana, filho do também capitão de congado, saudoso Luís Santana, que no Bairro São Dimas comandava o terno de catupé, que fora fundado por seu pai, em 1958, sendo assim o mais antigo da zona urbana. 

Todas essas perdas deixaram em vários praticantes desta tradição além do sentimento específico da ausência humana e social destas pessoas queridas, também, a preocupação com o futuro dos grupos culturais, cuja renovação de participantes e, sobretudo, de lideranças, tem se mostrado extremamente fraca. Enfim... é como diz em tom fatalístico o verso do canto congadeiro: "o Rosário mandou chamar!" Assim, se uma sombra se impõe no presente, que no futuro se oponha a luz do Rosário. É o que pedimos em prece. 

Capitão Moacir Santana, segurando o tamborim (ao centro), com alguns
congadeiros de seu terno, durante a Festa do Divino de Matosinhos. 

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli
- Fotografia: Maria Aparecida de Salles, 11/06/2011.

Notas 

- Revisão: 26/10/2025. 

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Festa do Rosário em Conceição da Barra de Minas, 2016

O imenso ciclo de festas congadeiras em honra ao rosário continua na região e pelas vizinhanças. Este fim de semana, dia 23 de outubro, foi a vez da comunidade de Conceição da Barra de Minas, comemorar seu dia maior (*).

Precedido de um tríduo, nesse dia a praça diante da histórica igreja estava com ampla movimentação de concepcionenses e visitantes, reinando a concórdia e a boa ordem do ar festivo. O mastro demarcava no largo o espaço do sagrado, sinalizando o domínio da cultura popular nesse festejo. De seu topo pendiam cordões floridos descendo do quadro do registro. A beleza singela desse elemento simboliza para o dançante o marco do início dos festejos e o elemento telúrico que carreia graças do infinito ao plano terrestre: 

"Lá do céu tá caíno fulô!
lá do céu tá caíno fulô!"
Lá do céu, cá na terra,
Ôh... tá caíno fulô!"

Fulô é corruptela de flor e mais que isso, é sinônimo e "eufemismo" de graça. Graça gasta eufemismo? O congadeiro tem sua poesia própria. 

O congado do senhor Vicente Cirilo Ribeiro ("Vicente Cristino") subiu desde cedo do Bairro São José, que o sedia. O capitão e seus soldados são assaz conhecidos na região toda pela excelência de seu catupé, que tem a bandeira do Rosário, e, mais que isso, pela educação aprimorada, gentileza, forte devoção e espírito de irmandade. É o grande anfitrião, que de braços abertos acolhe a todos. 

Os grupos visitantes vão chegando e são acolhidos no largo: vieram de Prados, de Ritápolis, de Tiradentes e São João del-Rei/Santa Cruz de Minas. O bom café foi servido. 

De retorno, foram acolhido na igreja onde teve vez a celebração de uma animada e bem celebrada missa inculturada, tão propícia a esse evento religioso. A igreja lotada se engalana de fitas e flores; o batuque do congado domina a sonoridade; o Revmo. Pároco Padre Saulo José Alves, prima ao presidir a celebração, pela qualidade evangélica, simpatia e respeito pela cultura. Seu incentivo pode ser sentido o tempo todo e em verdade abre as portas da continuidade da tradição. Com ele segue ao comunidade. Nos vértices do triângulo desse patrimônio imaterial estão o padre, o capitão e o povo; a redor, como num círculo, a Prefeitura, que por meio de sua Secretaria de Cultura é forte apoiadora do evento. Eis a receita do sucesso e a esperança de continuidade. Quem dera em todo lugar fosse assim...

Ao final da missa, uma rasoura antecedeu ao almoço. 

Este foi marcado pela fartura, bom tempero e confraternização, servido numa escola da cidade. 

Após a refeição e os agradecimentos, um cortejo se formou rumo às imediações da Igreja de Santo Antônio, onde o rei e a rainha aguardavam seus súditos, cingidos de capa, coroados, de cetro à mão, com direito à regalia do guarda-sol. Foram saudados e conduzidos ao rosário, onde o padre os recepcionou, agradeceu, abençoou e adentraram ao templo para o ritual da chamada, no meio da tarde.  

Então os congadeiros visitantes começaram a se despedir, "até para o ano, se Deus quiser". Os congadeiros da terra ainda tinham mais função: logo mais, às 18 horas participaram da procissão. 

No rosário o devoto se encontra e realiza. No rosário a cultura fervilha. Este foi o segundo ano consecutivo que Conceição da Barra de Minas festejou com a presença de guardas visitantes, pois antes a festa era limitada ao congado local. 





Fotos 1 a 5 - Mastro de Nossa Senhora do Rosário 
fincado na praça diante da igreja da mesma invocação:
feito de um bambu verde, encimado pelo quadro, 

com cordões floridos como ornamento, demarca o território
sagrado da cultura popular, 

objeto devocional do congadeiro que guarda por ele o maior respeito. 
Foto 6 - A Igreja do Rosário recepciona os congadeiros visitantes. 

Foto 7: o capitão anfitrião: rosário é fé, alegria, união, respeito, cultura. 
Foto 8 - Moçambiqueiros. 
Foto 9 - Exemplar significativo do patrimônio cultural de 
Conceição da Barra de Minas.  

Foto 10 - Congadeiras de Ritápolis. 

Foto 11 - Congado de Conceição da Barra de Minas diante da Igreja do Rosário,
no momento da rasoura. 

Fotos 12 e 13 - Capitão de São João del-Rei saúda o congado de Tiradentes. 
Foto 14 - Congadeiros (as) descem para o almoço. 

Foto 15 - Dentro da cozinha, o capitão de moçambique entoa sua jomba de gratidão
pelo alimento recebido. A equipe de cozinheiras segura a bandeira da guarda. 
Foto 16 - Rei e Rainha visitantes, da cidade de Prados. 
Foto 17 - Reinado na rua, em marcha sob o guarda-sol,
escoltado e acompanhado por congadeiros.
Ao fundo a Igreja de Santo Antônio de Pádua. 


Foto 18 - Missa inculturada na Igreja do Rosário:
congado anfitrião faz animação musical.

 Notas e Créditos

* No mesmo dia aconteceu a Festa do Rosário na comunidade de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno (São João del-Rei), com a participação de sua congada centenária. 
** Texto: Ulisses Passarelli
*** Fotografias: Iago C.S. Passarelli, 23/10/2016

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Festa do Rosário em Prados, 2016

Desta vez foi Prados a comemorar Nossa Senhora do Rosário com as danças congadeiras. Tem festa em honra a esta invocação mariana em muitos lugares entre setembro e novembro, embora outubro seja especialmente nominado "Mês do Rosário" e o dia específico da santa seja 07 de outubro. Esta extensão temporal dos festejos vem a calhar para as guardas de congado pois torna possível que viajem para muitas localidades nesse período para participar de várias festas. Dentro dessa perspectiva, no último domingo, dia 16, o congado de Prados recepcionou os visitantes de Resende Costa, Coronel Xavier Chaves, Conceição da Barra de Minas e São João del-Rei, que se irmanaram no mesmo objetivo laudatório.

Desde já se diga de passagem que o cenário encanta aos olhos e estimula a contemplação: um belo casario histórico evocador da arquitetura do ciclo do ouro, muito bem cuidado, ruas limpas, o povo prestigiando nas esquinas, calçadas, alpendres, varandas, sacadas, no adro da igreja... a festa envolve o pradense e o visitante.

Prados surgiu das bateias, almocafres, carumbés, das grupiaras e cascalheiras, do trabalho aurífero, por volta de 1704. Tricentenária, pois, se sintoniza com Tiradentes e com São João del-Rei para compor um conjunto de cidades históricas das Vertentes, as três coetâneas, com pouca diferença de data, alvo de discussões infindáveis entre os especialistas.

Do êxito dessa festa também se deve boa percentagem à dedicação dos congadeiros daquele município, que mobilizando a comunidade tem se esforçado intensamente para manter a tradição, desde que foi retomada no começo da década passada, posto que havia paralisado.

E, outro tanto, se deve ao pároco, Padre Dirceu de Oliveira Medeiros, entusiasta consciente do valor da cultura popular, cujo apoio e respeito que nutre aos grupos culturais bem serviria de modelo a ser seguido por todo o clero.

Curiosamente nessa cidade a festa se desenvolve no seu dia maior na parte da manhã; um tanto original, posto que noutros lugares é à tarde. O modelo agrada posto que logo após o almoço libera os congadeiros para retorno às suas casas, sendo bem menos cansativo, poupa-os do imenso calor da tarde que se verifica nessa quadra do ano e ainda do risco de chuvas pesadas pegarem a procissão de surpresa no meio da rua.

Assim sendo, logo após a missa matutina, de caráter festivo, muito concorrida, na imponente Matriz de Imaculada Conceição, cada congado agrupado no extenso adro, adentra cantando e dançando na nave da igreja, sem pressa, desenvolvendo sua louvação e lá dentro, recebe do sacerdote a bênção e é aspergido por água benta, sob aplausos dos fiéis. Saem pela porta lateral e de volta ao adro se organizam em cortejo. Neste ano observou-se todos os catupés na dianteira e o moçambique atrás, na retaguarda, como de costume, fechando. Cruciferário na frente, ao meio, porta-lanternas abrindo cada ala da procissão, que segue para a bucólica Igreja do Rosário, levando os andores de São Benedito e de Nossa Senhora do Rosário, sob os cantares e tambores.

Serpenteando pelas antigas ruas, dos imponentes casarões os moradores apreciam, aplaudem, fotografam. Por toda parte se nota a alegria e a fé das pessoas, rezando com seus terços na mão, passando contas e mais contas, balbuciando ave-marias na intensão de...

A chegada ao adro do rosário é especialmente festiva e o sino anuncia efusivamente a entrada do cortejo. Dois mastros estão ali fincados, estampado no alto São Benedito e a Senhora do Rosário. Deles parte ornamentação até a igreja. Os congados lotam o adro e o povo junto a ouvi-los. Cada terno faz sua saudação e adentra o templo com toda fé e respeito, expressa na plenitude de sua musicalidade. As imagens também dão entrada e a palavra sacerdotal enaltece a santidade e parabeniza os esforços conjuntos em prol da comemoração. O incentivo é algo essencial. 

Findas as passagens de cada um na igreja, seguem para o almoço coletivo no pátio da escola próxima, preparado com o carinho de costume por uma equipe de cozinheiras, que por fim recebem a gratidão dos versos e beijam as bandeiras de cada guarda. 

Os congadeiros se confraternizam e despedem, "até para o ano, se Deus quiser!"

Prados é uma cidade que se tornou afamada por seu patrimônio cultural. Também pelo artesanato, de que é um centro muito significativo. As peças em madeira, os típicos bichos entalhados, são muito primorosos. O trabalho em couro vem de longa data - selaria, produção de calçados. O carnaval se agiganta em animação pelos desfiles e pelo tão arraigado boi-mofado. As festas religiosas transcorrem com brilhantismo. A música é uma marca da cidade, sobretudo por sua afamada corporação musical. Pelo Natal até o Dia de Reis, é a vez das folias, seja a local, seja a distrital das Folhas Largas, tão antiga. A Ponta do Morro, onde termina a Serra de São José está logo ali, com uma riqueza natural notável. História, cultura, hospitalidade. Muito se poderia apontar de Prados, cidade que merece ser conhecida e preservada em todos os sentidos de seu rico manancial. 

Igreja de Nossa Senhora do Rosário enfeitada e com mastros,
 no dia maior de sua festividade. Prados. 

Capitão de moçambique saúda capitão de catupé: respeito e consideração
são premissas na Festa do Rosário. 

Congado de Resende Costa. 

Congadeiros de Prados no adro da Matriz da Conceição. 

Capitão do congado de Coronel Xavier Chaves.

Congadeiros diante do andor de São Benedito. 

Congadeiro se persigna diante da imagem de São Benedito.
Sanfoneiro e capitão da guarda de Conceição da Barra de Minas. 

Rei e Rainha no adro do Rosário. Prados. 
Detalhe do mastro de São Benedito. 

O sino anuncia, congrega, festeja... Torre da Matriz de Prados. 

Pessoas observam da balaustrada do adro do Rosário
a chegada da procissão.

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotografias: Iago C.S. Passarelli, 16/10/2016

domingo, 18 de setembro de 2016

Festa do Rosário no São Geraldo, 2016

Outro domingo festivo em honra ao rosário em São João del-Rei transcorreu hoje, 18 de setembro de 2016: em meio a imenso calor os congadeiros se reuniram no Bairro São Geraldo para o tradicional evento religioso. 

Na quinta-feira passada o "Moçambique Santa Efigênia", com os Capitães Tadeu, Borracha e Danilo e o "Catupé São Benedito e Nossa Senhora do Rosário" com o Capitão Moacir cuidaram de recolher da sede da conferência à Igreja de São Geraldo a nova imagem de Nossa Senhora do Rosário. Na chegada cantaram seus louvores e a seguir a comunidade reunida rezou e ouviu a celebração da palavra, aliás, muito bem proferida. Na sequência, levantaram os mastros: de São Benedito, de Santo Antônio de Categeró, de Santa Efigênia e de Nossa Senhora do Rosário, um em cada quina da praça como a esboçar um quadrilátero dentro do qual transcorre a festa. 

O tríduo preparatório durante estes dias antecedeu o dia maior e contribuiu para unir a comunidade em torno das práticas religiosas da Igreja. 

Hoje os congados citados recepcionaram o moçambique visitante, vindo de Belo Vale, com a bandeira do Rosário na dianteira. Sob o comando do Capitão Quinzinho, em espírito de união e irmandade, festejaram todos reunidos. 

O café da manhã e o almoço foram assaz elogiados pela fartura e qualidade. 

 Houve missa festiva no meio da manhã, com participação dos congadeiros e do coral do distrito de São Sebastião da Vitória. Pela tarde foi a vez do tradicional recolhimento do reinado, saudação à corte, apresentações culturais e por fim a descida dos mastros. O cansaço toma conta de todos mas o dever missionário foi cumprido. Mais um vez floresceu esta face festiva e musical da identidade regional. 

Igreja de São Geraldo e Moçambique Santa Efigênia.

Capitão do Moçambique canta sua saudação sagrada. 

Moçambique Santa Efigênia. 

Moçambique Nossa Senhora do Rosário, Belo Vale/MG. 

Moçambique Nossa Senhora do Rosário, Belo Vale/MG.
Moçambique Nossa Senhora do Rosário, Belo Vale/MG.   

Detalhe do mastro de São Benedito.  

Ofertas alimentares na missa festiva. 

Após a celebração o alimento ofertado é distribuído aos fiéis na praça. 

Bênção da Mesa pelos moçambiqueiros de Belo Vale.

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotografias: Iago C.S. Passarelli

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Tamborim é que bate raia!

O comando de uma guarda de congado é exercido por um capitão ou capitã [1], assim chamado o (a) congadeiro (a) que exerce a liderança e o controle dos cantos, danças, toques e movimentações. É o solista. Possui dentre os demais elevada experiência e domínio do conhecimento de conteúdo mítico e místico, o que popularmente chamam de "fundamentos" - garantia de conexão com o sagrado intangível. 

Os capitães se distinguem por vezes em detalhes da vestimenta, habitualmente mais elaborada ou enriquecida; outras vezes, por trazer consigo algum objeto específico. Assim, se em algumas guardas de congado tocam um instrumento como, por exemplo, sanfona ou mesmo uma caixa, em muitos, ou mesmo na maioria, para melhor desenvoltura de seu comando e à guisa de distintivo, traz um bastão especial (bengala, manguara...), ou uma espada ou ainda um tamborim, alvo deste texto. 

O tamborim é um pequeno instrumento musical de percussão indireta, de construção artesanal, estrutura em madeira, revestido de couro cru, pregado por meio de pequenos pregos, cravos ou tachas. Através de uma pequena baqueta de pau se faz a percussão. 

Nos municípios da Mesorregião Campo das Vertentes o tamborim é mais frequente nas guardas de catupé. Suas características regionais são as seguintes: o formato é via de regra quadrangular ou retangular; tamanho relativo de pequeno a médio, com couro de um lado só, sendo o outro aberto [2]. De ordinário tem uma alça curta, resistente para se segurar diretamente na mão, não sendo usado a tiracolo nem pendente nos ombros como os tambores (caixas). Em suma é isto, muito embora, eventualmente, vejamos algum capitão munido de um tamborim de confecção industrial, de estrutura metálica circular revestida de membrana de nylon, desses que se usa em bateria de escola de samba e blocos de carnaval, mas não é tão comum. A afinação do tamborim se faz pelo calor, bastando deixá-lo algum tempo exposto ao sol para retesar o couro, ou aproximá-lo do fogo.

No aspecto musical, o papel deste instrumento é marcar o ritmo, chamar os instrumentos à correção da cadência, pontuar momentos específicos da estrutura musical com seu toque cuja tonalidade se sobressai acima de todos. Também marca instantes de mudança rítmica. Por isto mesmo o tamborim não toca de maneira contínua. Boa parte do tempo o capitão apenas o carrega e só bate nas precisões, como dizem. 

"Êh, ti maia!  -   bis
Tamborim é que bate raia!"  -  bis [3]

Esteja claro que é um instrumento privativo do capitão. No desenrolar de uma apresentação cultural ou de uma participação em festa religiosa, somente circula entre os capitães da guarda, ou seja, do primeiro para o segundo capitão, ou para o capitão-meirinho, ou no máximo momentaneamente para a mão de um soldado de destaque, aprendiz de capitão. Não obstante aconteça de confeccionarem pequenos tamborins efetivamente de pequeno efeito musical e o darem para as crianças tocarem, como forma de incentivo à participação e ferramenta de aprendizado; ainda assim, é um instrumento de comando.

Importante notar que o jeito de bater o tamborim é algo muito subjetivo. Não é só percutir. Com ele em mão, dança-se além do ritmo próprio daquele congado, imprimindo com o instrumento, meneios e mesuras muito particulares, como se o objeto transmitisse ao seu portador uma energia específica que lhe incrementa os salamaleques. Ora bate-o no alto, acima da cabeça, ora baixo, rente ao chão; sucessivamente à direita é à esquerda demonstrando movimentos coreográficos que são prontamente entendidos e seguidos, como se fossem parte de um código ou linguagem corporal. Na empolgação, tem capitão que daqui e dali joga o tamborim para o ar e o ampara de novo, a que chamam "serenar o tamborim", algumas vezes girando o corpo com rapidez enquanto o instrumento sobe e desce; se acostam a um tocador novato que está errando os batidos de caixa e bem junto dele bate no tamborim o ritmo certo para que o caixeiro emende; percutem insistentemente na passagem das encruzilhadas e obstáculos (porteiras, valas, cavas, vias férreas, pontes), mesmo que em si a música esteja toda correta ("raiar o tamborim"). 

Deste último uso, se depreende com evidências numerosas, que o instrumento vai além da música aparente e serve de mecanismo de comunicação com o universo sagrado do congadeiro. O tamborim goza de muito respeito e por força do hábito, nem sequer é usual tocar-lhe as mãos, que não seja o capitão, e se o fizer, há de se pedir permissão ao capitão, bem como, licença. É óbvio que se trata de uma firmeza, um elemento preparado para a função em termos de preces e ritos, como cabalmente se afiguram pontos riscados em seu couro (por vezes no verso, longe das vistas dos curiosos), medalhas de santos pendentes, estrelinhas, figas, penduricalhos, fitas de cetim nas cores votivas que lhe amarram; cordões trançados de palha da costa por vezes com búzios, terços de contas de lágrimas presos a ele, cruzinhas de arruda e guiné e outros amuletos. Os pontos riscados nos tamborins habitualmente são abertos, ou seja, sem traçado de círculo ao redor, como geralmente se faz nos terreiros de umbanda. Se nos terreiros o circular o ponto é um procedimento habitual para não deixar a energia se esvair e assim invocar ou manter a entidade em terra, no caso do tamborim aparenta ser o contrário: o não circular esparge a energia por todo o grupo de dançantes.

O tamborim bate saudando o mastro desde o pé até apontar ao alto e dando-se três voltas em seu perímetro. Quando o mastro é arrancado, enquanto alguém se apressa para buscar terra e tampar o buraco onde estava fincado, o capitão o cobre com o tamborim para que ninguém jogue nada de ruim lá dentro _ objeto ou pedido escrito. É o instrumento que pede licença às entidades espirituais para se alcançar forças para seguir em frente. O batido do tamborim afugenta o mal. O toque seco de seu couro estirado tira as forças contrárias do inimigo invisível. Se um objeto suspeito de conter um feitiço está no chão no caminho do congado, o capitão o cobre com o tamborim enquanto canta o contrafeitiço e os dançantes executam uma coreografia de meia-lua. Se bater o tamborim três vezes às três da tarde (15 horas), da Sexta-feira da Paixão, pensando no inimigo renitente, pode tira-lhe a vitalidade. Tamborim caindo ao chão com frequência indica mal augúrio. Parece que tem vida própria, anímica, misteriosa: 

"Eu passei na ponte, 
a ponte tremeu, 
debaixo da ponte,
oi, tamborim gemeu..."

O couro em si goza também de seus cuidados próprios. De bezerro é o mais usado. O de cabrito goza de fama elevada porque acredita-se que confere ao capitão uma força extraordinária contra a qual não se pode trabalhar. Célebre é o tamborim de couro de gato, tanto mais de gato preto, dizem que dá ao capitão agilidade, destreza, esperteza, que não há quem alcance. Para tratar o couro em momentos que o capitão julga adequados, passa sobre ele cachaça (com ou ervas misturadas) ou azeite de dendê, sebo bovino e defumações. Preparar um tamborim no dia treze de maio (data da libertação dos escravizados) rende-lhe de imediato uma benção inextinguível. O mesmo no dia de São Benedito, que estimam como o maior dos capitães:

"Benedito Santo, 
filho de Nossa Senhora:
êh... Capitão Benedito, 
esta é nossa hora!"

"Benedito Santo,
filho da Virgem Maria:
olha lá, Capitão Benedito,
hoje é o nosso dia!"

Assim é o congado, cheio de detalhes em seu universo cultural. Um instrumento rude na aparência mas que conserva em si uma riqueza cultural que extrapola as mais otimistas previsões. Não é apenas um conjunto de homens dançando e cantando coisas ininteligíveis; é um exercício de louvação ao rosário, com todo um harmônico e bem elaborado conjunto de valores e símbolos do mais elevado significado religioso, cultural e social, digno de conhecimento e preservação:

"Se a morte não me matar, tamborim!
Se a terra não comer, tamborim!
Ai, ai, ai, tamborim!
Eu volto aqui pra você ver, tamborim!"

"Se a terra não me comer, tamborim!
Se a morte não me matar, tamborim!
Ai, ai, ai, tamborim!
Eu aqui torno voltar, tamborim!"

Capitão Zé Carreiro, de Coronel Xavier Chaves, maneja o tamborim
junto a um mastro, com toda experiência de décadas de dedicação. 1995. 

Catupé de Piracema em coreografia dos tocadores de ganzá,
sob o comando do capitão com o tamborim, em movimentos de lateralidade. 01/11/1998. 

Capitão Sebastião Ezequiel na dianteira do congado da
Restinga de Baixo (Ritápolis), batendo o tamborim inseparável. 04/06/2006.
   

Capitão Ernane Luís da Silva com o tamborim
à frente do congado da Restinga de Baixo (Ritápolis). 2000.
 
Tamborins: Coronel Xavier Chaves (esquerda) e Restinga de Baixo (direita). 24/09/2000.
Tamborim: desenho de Ulisses Passarelli a partir do original, observado em janeiro/1996.
Restinga de Baixo (Ritápolis/MG). 

Créditos


- Texto, fotografias e desenho: Ulisses Passarelli.  

Cantos: congados de São João del-Rei, década de 1990, muito embora sejam cantos bastante difundidos e de uso ainda hoje em vários congados regionais, admitindo variações nos versos. 

Notas 
Revisão: 22/10/2025. 

[1] Capitã: entre os congadeiros também corre o sinônimo Capitua, o qual muitos consideram como a forma correta. 

[2] Em alguns congados do centro-oeste mineiro aparecem tamborins retangulares relativamente grandes, às vezes, com couro nas duas faces. Também usam tamborins de forma sextavada. 

[3] Variante do cancioneiro popular: "Maia, Lourenço, maia! / Lourenço, que bate raia!"  ou "Maia, ferreiro, maia! / Ferreiro, que bate raia!" (Jongo, Quilombo do Paiol - Bias Fortes/MG). Informante: Elvira Andrade de Salles, natural daquele município, mas então residente em Santa Cruz de Minas. Maia: corruptela de malha, 2ª pessoa do presente do verbo malhar (bater com o malho; martelar; em sentido figurativo, percutir, bater). Raiar o tamborim é batê-lo de forma rápida e persistente, chamando a atenção para o ritmo e evocando a força espiritual da qual se acredita estar revestido.