Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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terça-feira, 31 de maio de 2016

Retalhos para a colcha da história - parte 3

Coletânea de notas hemerográficas de São João del-Rei e cercanias (1900-1938)



A história se constrói de pouco em pouco, pedacinho por pedacinho. O pesquisador busca nos documentos as informações desejadas como um garimpeiro remexe as areias e cascalhos. Depois de revirar um grande monte de material aparece algo...

No mesmo sentido é o título desta série de postagens, alusão ao tradicional artesanato de costura de quadrados de retalho de pano para compor uma colcha colorida.

É bem assim esta história que está se esboçando nestas postagens: por alusão é garimpada e costurada a partir de retalhos hemerográficos.

A ideia surgiu a partir de uma pesquisa de uma tema único, ligado ao Bairro de Matosinhos, que rendeu matéria para uma monografia, hoje também convertida em postagens de blog. Mas enquanto anotava a parcimoniosa informação, outras surgiam que se mostravam de interesse e às vezes se revestiam de verve, ou traziam em si mesmas o pitoresco da linguagem de época. Assim, para não perdê-las, aproveitava-se o ensejo para anotá-las. E assim foram rendendo motivos para novas postagens meramente provocativas de pesquisas mais aprofundadas nos temas que afloravam.

Dando, pois, prosseguimento às pesquisas da história regional em velhos jornais publicados nesta cidade, este blog apresenta mais uma remessa selecionada a partir da coleta de assuntos variados. A ideia é tal como o título sugere, compor uma malha de informações.

As notícias se revestem de especial interesse por revelar aspectos simples e cotidianos da vida urbana e em parte rural, que por serem muito próxima ao viver do povo, muitas vezes não vem sob o formato nu e cru, engessado e frio, de um documento formal, fonte indubitável e fundamental da história.

Assim seguem dados da cidade de São João del-Rei (que perfazem a maioria), alguns do seu distrito São Gonçalo do Amarante (ex Caburu e primitivo São Gonçalo do Brumado), além de uma notícia de Tiradentes e outra da Estação de Nazareno (à época abordada, Nazareth, então distrito de São João del-Rei).

Nos trechos em itálico transcrevemos o original com respeito à grafia de época.

As transcrições estão expostas em ordem crescente de data e diante de cada uma consta o jornal de origem, número e data da edição.

"Caixinha" - estação elevatória inaugurada em 1930 para abastecimento de água 
do Bairro Senhor dos Montes, São João del-Rei. A sigla C.M. na fachada indica
a "Câmara Municipal", responsável pela obra à época. Fotografia: 12/08/2013. 

1900:
- “S. Gonçalo Garcia. Não há sanjoannense que desconheça a precariedade dos cofres da Confraria de S. Gonçalo, desta cidade, não há quem ignore as dificuldades com que lucta a administração do templo, e não há quem não deseje a conclusão das obras da Igreja; pois bem, tem todos esses a que nos referimos ensejo de darem um obulo para as obras de S. Gonçalo. O espectaculo de Quinta Feira, amanhã, da Companhia Chilena, com um programma variado cheio de attraentes novidades _ é em beneficio da Igreja de S. Gonçalo. Em beneficio, mesmo, não teem os pessimistas de dizer que o beneficio é dividido com a Igreja e com a Companhia, não; a empreza vendeu o espectaculo por preço razoavel e tudo quanto exceder, é em favor dos cofres da Igreja, tão pobre. Invocamos os sentimentos religiosos e patrioticos do povo e pedimos uma esmola indirecta, dando em troca a diversão de amanhã, Quinta-feira _ ao CIRCO.” (O Combate, n.11, 12/09/1900)

- “Edital. De Ordem do exm. Sr. Dr. Secretario do Interior, faço publico que se acham em concurso, com o prazo de 60 dias, a contar da presente data, as cadeiras de instrucção primaria em seguida declaradas: cadeira mixta do districto de Conceição do Formoso, município de Palmyra, e a do sexo feminino do districto de S. Gonçalo do Brumado, de S.João d’El-Rey. Os exames deverão ser processados de accordo com as instrucções que baixaram com o decreto n.1400 de 6 do corrente mez, perante a directoria da Escola Normal, desta cidade, e os requerimentos de inscripções instruídas com os documentos de que trata o art.  6º, n. I, II, III e IV das mesmas instrucções deverão ser dirigidas ao diretor da mesma escola. Quaesquer esclarecimentos de que necessitarem os candidatos, poderão obtel-os nesta Secretaria, em todos os dias uteis, das 10 horas da manhã á 3 da tarde. Secretaria da Escola Normal de S.João d’El-Rey, em 21 de Agosto de 1900.” (O Combate, n.16, 14/10/1900)

-“S.Gonçalo. Por acto de 7 do corrente, foram nomeados os cidadãos Antonio Francisco de Paula, Luiz Cardoso Rabello e Tobias Raphael dos Santos para subdelegado, 1º e 2º suplentes do districto de S. Gonçalo do Brumado d’este município. Entre as autoridades dimitidas figura o celebre João Barulho, que, pela segunda vez, foi despedido do cargo policial _ por causa de seus máos precedentes de desordeiro conhecido. Foi a este que o Major Pimenta confiou força para ir a S. Gonçalo. Felizmente ele confiou a força ao Barulho, em um dia e no dia seguinte _ rodou Barulho, rodou Pimenta, rodou o resto.” (O Combate, n.25, 15/11/1900).

1906:
- Resolução n.343, de 26 de abril de 1906, da Câmara Municipal, autoriza concessão de pena d’água na região da Bica da Prata: “Fica o Agente Executivo auctorisado a permittir que o cidadão Bernardo Antonio da Paixão derive para sua chácara uma penna d’agua colhida nas sobras das aguas do Padre Faustino” (art.1º), através do seguinte artifício: “o concessionário fará uma pequena caixa, convenientemente cimentada, saindo a penna de um orificio aberto nesta, colocado em plano superior ao da servidão publica.” (art 2º). A Câmara porém se reservava ao direito de... “rehaver essa agua, sem indemnização, caso a julgue necessária para lavagem da futura rede de esgotos” (artigo 3º). (O Repórter, n.14, 13/05/1906)

- "O ilustrado sr. padre Nicoláo Badarioti, muito competente e muito dado ao estudo dos phenomenos scismicos, observou na noite de 10 para 11 do corrente, das 10 para 11 horas, dois tremores de terra, bastante violentos, isto no local onde está situado o colegio, sob a sua competente direcção (*). O mesmo phenomeno foi observado no arraial da Conceição, o que nos foi communicado pelo proprio observador que é homem de inteiro credito." (O Repórter, n.14, 13/05/1906)

- “Interessante e attrahente festa foi, no mesmo genero, no domingo, improvisada pelo revdo. Frei Candido, com os seus meninos, que constituem a associação por ele criada _ Associação da Juventude _ e constou de representação de diversos monólogos, num ligeiro theatrinho, levantado em um dos espaçosos salões da magnifica vivenda dos revdos. Franciscanos. Exhibiram-se os inteligentes meninos: João Adalberto de A. Viegas, João Braga, Marcial Maciel, Paulo Campos, Oscar Pereira, José e Luizinho Rodarte e Henrique de Souza.” (O Repórter, n.26, 05/08/1906)

1907:
- Lei municipal nº152, de 19/12/1906, autoriza várias desapropriações na Biquinha, “desde a casa de José Martins Penna até São Caetano, as quaes se achão fóra do alinhamento, approvado pela Câmara”. A mesma lei prevê para a antiga Rua da Prata (rua Padre José Maria Xavier), desapropriação por utilidade pública do imóvel nº6, de propriedade de Martiniano Ribeiro Bastos e outros, além do nivelamento daquela via. (O Repórter, n.50, 13/01/1907).

- “Theatro. Hoje haverá espectaculo com inauguração do panno de bocca. O trabalho de pintura foi feito pelo hábil e conhecido scenographo Alexandre Poggio, e segundo nos affirmaram, está um trabalho primoroso.” (O Repórter, n.23, 27/06/1907).

1917:
- A Câmara Municipal projetava abrir uma nova via pública interligando a avenida principal à Rua da Misericórdia, sobre o Córrego do Segredo, que seria canalizado. Tal obra despertou questionamento pelo elevado custo aos cofres públicos, julgada desnecessária. Corresponde à atual Avenida Andrade Reis. (A Nota, n.16, 21/05/1917).

- “24 de maio. Passa amanhã o 51 anniversario da batalha de Tuyuty. Em comemoração desta grandiosa data os alumnos do gymnasio S.Antonio formarão com um effectivo de cem alumnos, fazendo uma passeata pela cidade, ás 16 horas.” (A Nota, n.18, 23/05/1917)

- “Gravissimo. Até que afinal o celebre pontilhão da E.F. Oeste na zona das Fabricas vai ser dotado de uma parte de taboas, elegante e solidamente construída, para a passagem exclusiva de pedestres. Esta providencia que vai prestar grandes serviços áquella parte da cidade e que evitará d’ora avante acidentes graves como o sucedido com duas senhoritas que ainda não se restabeleceram, já foi ordenada pelo sr. Dr. Agostinho Porto, sympathico diretor da Oeste, a quem esta cidade deve innumeros favores. Revogamos, pois, o pedido que fizemos a nossa zelosa Câmara: não é mais necessario alli mandar os seus engenheiros, fiscais e trabalhadores acompanhados de maquinas e materiaes. A Oeste vai construir e o povo ficar sossegado, pois o melhoramento virá mesmo para breve, muito breve. E é ao Director da Oeste que enviamos os nossos agradecimentos por mais este serviço prestado á Municipalidade.” (A Nota, n.22, 28/05/1917)

- “S. Gonçalo Garcia. Nesta egreja, celebrar-se-ão, no dia 20 do corrente, os seguintes actos religiosos: ás 9 horas missa com musica; á noite profissão de irmãos, posse da nova mesa, rasoura e Te-Deum.” (A Nota, n.70, 21/07/1917)

1923:
-“Caburú. Realiza se, solemnemente, com a presença dos (... ilegível) da P.M.M. e grande numero de correligionários, a instalação do districto de Caburú, antigo S.Gonçalo do Brumado, a 1º de janeiro de 1924.” (A Tribuna, n.505, 30/12/1923)

1926:
- “Caburú. Por ocasião de uma festa em Caburú, o sr. Affonso Ribeiro Guimarães, enérgica autoridade policial daquele districto, prendeu e fez recolher á cadeia desta cidade a Américo de Oliveira, que estava promovendo desordens e procurando desrespeitar os representantes da lei. Americo de Oliveira esteve detido durante algumas horas, sendo, depois, posto em liberdade por ordem do sr. dr. Archimedes Camisão, integro e activo delegado de policia de S.João del Rey.” (A Tribuna, n.744, 29/04/1926)

- “Escrivão de Caburu. Há já um mez que é serventuário vitalício do officio de escrivão de paz do districto de Caburu o nosso amigo sr. Antonio Jose Alves de Oliveira. O sr. Presidente do Estado, provendo-o naquele posto, investiu um acto plenamente acertado. O sr. Antonio José Alves de Oliveira, além de competente para o cargo, é um dedicado soldado do P.M.M. local.” (A Tribuna, n.780, 02/09/1926)

1930:
- “Agua em Senhor dos Montes. Estão de parabéns os habitantes daquelle subúrbio, com a resolução da sua mais justa aspiração. Já chegou lá a água, questão difícil por que vem se batendo de ha muito aquella laboriosa população. É um serviço, que muito recomenda a administração municipal e sabemos que por elle muito se interessava o vereador, sr. João de Almeida Magalhães e o sr. Alfredo Candido, sendo como é, uma das partes mais bellas e altas da cidade, justo é, que para alli a edilidade volte suas vistas, tornando-a habitável, com os contornos necessários para seu desenvolvimento. Aproveitamos o ensejo, para lembrar, respeitosamente, ao sr. agente executivo da Camara Municipal, a conveniência de acentar os canos conductores de agua para aquelle suburbio, na passagem pela ponte do Theatro Municipal em vez de passar de lado da ponte e seguir a parede interna do caes até o logar onde ganha a direcção da rua do Café Republica, passar por baixo da ponte, sair logo na avenida Ruy Barbosa e descer por ella margeando passeio ate o ponto onde saia do caes. Livra assim da má impressão, que causa aos que chegam, e até mesmo a nós, vendo-os amarrados arame e enfeiando o caes. Fazemos esta observação na intenção única de contribuir para o beneficio da cidade, pois sabemos, que para beneficial-a também se acha da melhor boa vontade o sr. agente executivo.”  (A Tribuna, n.1.043. 05/10/1930)

1932:
- “Na Fabrica de Louças (**) - “Fabrica de louças” é a pitoresca denominação que recebeu a praça fronteira a Avenida Cristovão Colombo, banda de Chagas Doria. Pois ali vão ser construidos vários e elegantes prédios que conhecido construtor vendera a prestações. Como o sistema em apreço, já adotado em todos os grandes centros tem dados os melhores resultados, principalmente como elemento, propulsos de dilatação urbana, faremos votos para que aqui tal se dê dentro em breve.” (Folha Nova, n.8, 24/04/1932)

1936:
- Sob a responsabilidade de Hugo Bassi, a Ponte do Porto passa por uma completa obra de reforma, com troca do assoalho e feitura de corrimão. (O Correio, n.502, 23/05/1936).

- A imprensa são-joanense divulga os clamores populares sobre o péssimo estado de conservação da Ponte das Águas Férreas, no Bairro Tijuco, “que dá passagem há todos que chegam ou sahem, via Rio das Mortes”. Esta ponte se situa na principal via do Tijuco, sobre o Córrego das Águas Férreas, tributário da margem esquerda do Lenheiro, pouco acima de sua foz. (A Tribuna, n.1.333, 12/07/1936).

- A imprensa são-joanense divulga o início das obras de construção das duas torres da Igreja de Nossa Senhora do Rosário no centro histórico de São João del-Rei (A Tribuna, n.1.333, 12/07/1936).

1938:
- “Vacinação contra a febre amarela – Segue hoje para o Rio das Mortes a Caravana da “Fundação Rockfeller”. Conforme noticiamos ontem encontra-se na cidade uma caravana da “Fundação Rockfeller”, para o fim de vacinar a população do município, principalmente a população rural, contra a febre amarela silvestre. A população da cidade não está ameaçada pela febre amarela, conforme nos declararam os médicos da Fundação Rockfeller e o dr. Olavo Caldas, chefe do Centro de Saúde de S. João del-Rei. O seu estado sanitário é ótimo e o seu índice de (... ilegível) é zero. As populações dos distritos devem, porem, se precaver contra a febre amarela silvestre, em vista de residirem próximos ás grandes matas, que facilitam a existencia do mosquito transmissor da doença. É bom esclarecer que a vacina é absolutamente indolor e não provoca reação de espécie algumas. Para os demais distritos de S. João vai ser observada a seguinte ordem: Onça, dia 10, de 10 às 16 horas; Cajuru, dia 11, de 10 às 16 horas; Caburú, dia 12, de 10 às 16 horas; Ibitutinga, dia 13, de 10 às 16 horas; Conceição da Barra, dia 14, de 10 às 16 horas.” (Diário do Comércio, n.53, 07/05/1938)

- Foi aberto ao tráfego o ramal do Penedo, da Estrada de Ferro Oeste de Minas, partindo do km110, na parada do Pombal. Antes mero desvio destinado ao embarque de minério vindo daquela localidade, a abertura como ramal foi assaz elogiada e relembrou o velho plano de interligação por via férrea a Resende Costa, lamentavelmente, nunca concretizada. Este ramal teve curta duração, de cerca de uma década. Transpunha o Rio das Mortes por um pontilhão e no lado oposto margeava o seu afluente, o Rio Santo Antônio (Diário do Comércio, n.124, 06/08/1938)

- Um caminhão carregado de lenha caiu na Ponte do Patronato, que afundou com seu peso. (Diário do Comércio, n.124, 06/08/1938). No ano seguinte ela voltou a ser alvejada por certa polêmica em virtude de atrasos nas reformas: a Prefeitura de São João del-Rei executou obras de reparos na ponte sobre o Ribeirão São Francisco Xavier, na Colônia do Bengo, “nas proximidades do Patronato Agricola, na estrada que nos liga a Santa Rita.” (O Correio, edição extra, 07/01/1939)

- “Festa do Rosário – Especial para Tiradentes – Para as festas de N.S. do Rosario, a realizar-se hoje em Tiradentes, correrá um trem especial para aquela cidade, partindo daqui ás 16.40 minutos, regressando ás 21 horas, ao preço de 1$200 rs, ida e volta.” (Diário do Comércio, n.194, 01/11/1938)

- “Capela São Geraldo. Realizou-se com as cerimonias de praxe, o lançamento da pedra fundamental da capela dedicada a S.Geraldo, na estação de Nazaré, em terreno generosamente oferecido pelo sr. Francisco Ernesto de Carvalho. O digno e virtuoso vigário da freguezia revmo. conego Heitor da Trindade organizou a comissão encarregada de levar a bom termo empreendimento merecedor dos mais calorosos louvores, a qual ficou constituída de cidadãos prestigiosos e de elaventado espirito religioso e que saberão, certo, se desobrigar, com firmeza, tenacidade, confiança e fé, da missão que lhes foi confiada. Fazemos os melhores votos para que o povo daquela zona corra pressuroso ao encontro de tão louvável iniciativa.” (O Correio, n.627, 05/11/1938)

Igreja de São Gonçalo Garcia. 17/11/2013.
São João del-Rei/MG.  

Referências Hemerográficas

Jornais editados em São João del-Rei; acervo da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d’Almeida, desta cidade

Notas e Créditos

* Colégio: Liceu São Luis, situado no km 139 da EFOM (Estrada de Ferro Oeste de Minas), extinta e erradicada Linha do Sertão, do qual só restam ruínas. O citado padre aparece em várias notícias estudando tais fenômenos naturais. Os tremores eram recorrentes na região, até Bom Sucesso. O arraial da Conceição citado na nota jornalística é a atual cidade de Conceição da Barra de Minas. 
** Fábrica de Louças era o cognome da área urbana oficialmente denominada Praça Pedro Paulo, desde 1901. A este respeito ver: PRAÇA PEDRO PAULO ANTIGAMENTE  
*** Texto e fotografias: Ulisses Passarelli
****Leia também as postagens anteriores, sob o mesmo título: 



quarta-feira, 20 de abril de 2016

Santo Expedito, Santo do Último Pedido!

Esta postagem é dedicada unicamente à exposição do pseudovídeo que se segue, referente à Festa de Santo Expedito, na Igreja de São Gonçalo Garcia, em São João del-Rei/MG, a 19/04/2016. A produção é uma montagem sobre fotografias produzidas no decorrer dessa festividade no ano em foco. Santo Expedito é o santo que o povo acredita ter maior expediente no céu, o que mais imediatamente atende, aquele que expede as graças imploradas pelos fiéis desesperados. Quando nenhum santo consegue intermediar, ele vence o contrário com celeridade, pois dizem que é "O Santo do Último Pedido"...



 Créditos

- Autoria: Ulisses Passarelli

Notas

- Para saber mais sobre este assunto leia neste blog: SANTO EXPEDITO, O SANTO DA HORA!  
- Revisão: 27/07/2025. 

domingo, 19 de abril de 2015

Expedito: o santo da hora!

Dezenove de abril é o dia dedicado a Santo Expedito. Tal como muitos santos dos períodos mais remotos do cristianismo, quase nada se sabe sobre ele, oscilando os seus feitos numa linha tênue entre a história e a lenda; até mesmo sua própria existência deixa margens à contestação. Não existe certeza sobre a origem de seu nome e respectivo significado, que contudo alude à ideia de rapidez. 

Mas estas questões que aguçam estudiosos, não impedem ao povo devoto de confiar no santo. Não há empecilho à crença. Com isto se quer dizer que o fiel acredita pela força da fé e não dos dados históricos.

Acredita-se que tenha sido martirizado por não deixar o cristianismo, sendo decapitado à espada em 19 de abril de 303, em  Melitene, na Armênia, onde servia ao exército romano como comandante de uma legião, defendendo aquela zona do império da invasão de bárbaros do leste (WIKIPÉDIA, 2025). 

É apontado como santo das causas urgentes, patrono das necessidades imediatas, daquilo que está em situação de desespero, que não pode esperar para ser resolvido, do que se espera de solução naquela hora de angústia. Tal aproximação se deve ao fato creditado à sua conversão instantânea ao cristianismo, que o demônio tentou adiar aparecendo-lhe sob a forma de um corvo, que gritava: "cras! cras!" (amanhã! amanhã!), à qual o santo, pisoteando-o, gritou em resposta: "hodie!" (hoje!). 

Então, com este santo é para hoje, para agora. Chegou a se cunhar a expressão já consagrada _"Santo Expedito, santo do último pedido" _ ou seja, quando o caso não se resolveu por nenhum outro mediador, se entrega para este santo que ele resolve. É nisto que o fiel acredita.

Nos anos oitenta a devoção começou a ganhar força, mas foi mesmo na década seguinte que se difundiu rápido e desde então ganha vigor. Pois de fato, não está entre as devoções antigas no Campo das Vertentes. A dinâmica devocional faz velhas devoções coloniais arrefecerem por não serem talvez, mais representativas dos anseios do povo. Da mesma sorte, as mudanças sociais erguem ao pedestal outros santificados que suprem aquelas lacunas. Assim, na crise financeira, nos tempos de desemprego e opressão econômica, santos padroeiros de causas urgentes, impossíveis e desesperadas... dos desempregados, das complicações que parecem nunca se resolverem, logo ganham um vigor que antes não se via: São Judas Tadeu, Santa Rita de Cássia, Nossa Senhora Desatadora de Nós, Santa Edwirges e Santo Expedito.

Um exemplo bastante significativo daquilo que representa para seu devoto, percebe-se na transcrição abaixo, que respeitou a grafia original: "Divino Espirito Santo e São aspedito me dai a graças da aposentadoria da minha irmã e do meu irmão conversa com Nosso Senhor para mim faz um pedido de amigo confio, muito em vós." (sic) Trata-se de um pedido anônimo, escrito em um papel avulso, depositado na Gruta do Divino em São João del-Rei, onde o localizamos a 10/04/2000. Neste elemento da folk-comunicação percebe-se claramente a relação de profunda intimidade com o sagrado e a força de uma esperança depositada no santo. Pelo conteúdo se espera que ele tenha um contato tão forte com Jesus (Nosso Senhor), que faça intermediação do pedido de graça apresentado na condição de "um pedido de amigo". 

A imagem de Santo Expedito representa-o como um homem branco, jovem, com trajes de militar romano, legionário, segurando numa das mãos a palma símbolo do martírio e na outra uma pequena cruz, com a inscrição "hodie". Esmaga um corvo sob os pés, de cujo bico sai uma legenda com o escrito "cras". O capacete militar está no chão, deposto ao lado do santo. 

É tradicional na região seus festejos em Coronel Xavier Chaves, no mês de abril.

Na zona rural de São João del-Rei, no povoado de Goiabeiras (de Baixo) é igualmente comemorado, na Igreja de Nossa Senhora Aparecida. Sua procissão segue até a localidade de Goiabeiras de Cima e depois retorna.

Já na zona urbana de São João del-Rei as comemorações acontecem na Igreja de São Gonçalo Garcia, graças aos esforços da dedicada Confraria de São Gonçalo, com a tradicional presença da afinada e experiente Banda Municipal Santa Cecília. Acontece no adro um movimento de barraquinhas e a procissão a cada ano ganha mais fiéis [1]

Por fim é mister dizer que as características atribuídas a este santo facilitaram sua aproximação religiosa sincrética às entidades guerreiras chefiadas pelo Orixá Ogum. Assim, na concepção de alguns terreiros regionais, Santo Expedito é sincretizado com o prestigiado falangeiro Ogum de Ronda; noutros, porém, ao Orixá Logunedé. 

Santo Expedito.
Igreja de São Gonçalo Garcia, São João del-Rei. 

Referências 

WIKIPÉDIA. Expedito de Melitene. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Expedito_de_Melitene  Acesso em 19/04/2014. 

 Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografia: Iago C.S. Passarelli, 17/04/2014.

Notas 

- [1] Sobre sua festa na Igreja de São Gonçalo, ver a postagem: SANTO EXPEDITO, SANTO DO ÚLTIMO PEDIDO!
- Revisão: 27/07/2025. 

sábado, 14 de dezembro de 2013

Festa de Santa Luzia






        Siracusa, Itália 283 – 304. Luzia, cristã, mártir, santa. Defendendo sua virgindade, foi perseguida ao tempo do Imperador Diocleciano. Santa popularíssima no Brasil é festejada a 13 de dezembro. As comunidade dedicam-lhe trezenas, novenas e tríduos, com muito fervor, além de outras rezas, objetivando, sobretudo, a proteção das “vistas” – da visão, dos olhos. É tida como protetora deste sentido e dos órgãos visuais. Conta-se que Luzia tinha lindíssimos olhos, causa de muito assédio. Para conter seus admiradores arrancou-os, e os ofereceu em uma salva. No dia seguinte, milagrosamente, enxergava com novos olhos.

            Em São João del-Rei / MG, encontram-se algumas tradições acerca desta santa. O povo apela ao seu socorro nas enfermidades ópticas com preces e benzeções. Uma oração:

┼ “Gloriosa Santa Luzia,

Símbolo de castidade,

Remédio precioso das minhas vistas:

Por caridade...

(reza-se uma Ave Maria)

Gloriosa Santa Luzia,

Dai minha vista...

Por caridade!”

 

            Quando um corpo estranho cai na conjuntiva, logo o povo lembra-se da Mártir de Siracusa:

 

┼ “Santa Luzia

passou por aqui,

com seu cavalinho

comendo capim”.

 

Ou :

 

“(...)

Com seu cavalinho

Fazendo assim...”

 

            E quem benze vai com a polpa do dedo polegar descrevendo movimentos circulares sobre o olho fechado da pessoa afetada, fazendo a pálpebra deslizar sobre o globo ocular. Repete-se três vezes. É solução conhecida em São João del-Rei. 

            Também desta cidade:

┼ “Corre, corre cavaleiro,

Vá na rua de São Pedro,

Vá buscar Santa Luzia

Para tirar o cisco de meus olhos.”

 

            E o benzedor pergunta: “_ Cadê?”, e o devoto responde: “_ Foi embora!”, e sopra-lhe os olhos. O processo se repete três vezes e deve se completar com um Pai-Nosso e uma Ave Maria. É fórmula muito divulgada.

            Respeitamos as cruzinhas antes do primeiro verso, como faz o povo quando porventura anota algumas de suas rezas. Pedem que façamos o mesmo quando nos informam orações. Demonstra a benignidade da fórmula devota e que deve ser iniciada com uma persignação (Nome do Pai).

            Na zona rural deste município, no distrito chamado Caburu (atual São Gonçalo do Amarante), cantadores-tocadores reúnem-se com outros da povoação da Boa Vista, distrito do município de Conceição da Barra de Minas, e saem à noite, pela escuridão dos caminhos, com uma Folia de Santa Luzia. É um grupo folclórico formado por uns dez a doze homens, cada qual tocando um instrumento: violões, cavaquinho, pandeiros, caixa e às vezes, triângulo e chocalho. A música é chorosa e os versos são cantados em dísticos por um “tirador” e repetidos em coro pelos demais participantes (“folieiros”). Esta repetição é chamada “resposta”. Termina com um prolongado “ai, aaaaai...!” perdendo-se no ar com o fôlego da garganta. Alguns do coro cantam em falsete, sempre tendo um folieiro cuja voz sobressai pelo tom em falsete, sempre tendo um folieiro cuja voz sobressai pelo tom muito agudo, sobretudo ao término da resposta. Ele é o “requinta”. As rimas entre os dísticos subsequentes são ocasionais. O organizador do grupo é chamado “folião”, ou “mestre-folião”. Imediatamente após o canto, a caixa bate “seco”, ecoando o seu som peculiar dado pelo couro de boi retesado no aro do tambor. Durante o canto ela não bate.

            É um grupo baseado nas outras folias locais, principalmente as de Reis e as de São Sebastião. Levam uma bandeira de pano vermelho, ao centro da qual há uma estampa de Santa Luzia, que é o “registro” da bandeira. Ao seu redor há muitos enfeites, tais como fitas coloridas e flores (naturais e artificiais). É objeto de máximo respeito. Vai sempre à frente do grupo. Chegam de surpresa nas casas que visitam, na calada da noite, e encostam a bandeira na porta. O canto inicia pedindo abertura da casa.

            Os moradores abrem a porta, pegam a bandeira, beijam respeitosamente e levam-na para dentro. Enquanto a folia canta na sala versos alusivos à santa e homenagem aos donos da casa, quem recebeu a bandeira leva-a por todos os cômodos, passando inclusive seu pano santo sobre as camas para abençoar.

            O tirador canta o pedido de esmola para a bandeira. Seu responsável, o “bandeireiro”, recolhe o óbolo e coloca-o em um embornal de pano vermelho, espécie de sacolinha. Cantam então em agradecimento, despedem-se e partem para outra casa.

           

“Vou pedir Santa Luzia, ai,ai!

Para lhe dar muita saúde, ai,ai!”

 

            Não se nega esmola. Daria muito azar. A visita da folia é uma bênção preventiva que afasta todos os males, principalmente doenças dos olhos. A folia sai no mês de dezembro e as esmolas são revertidas à Capela de Santa Luzia, na Boa Vista, para ajudar nas despesas da animada festa. É a padroeira do lugar.

            Santa Luzia também está na quadra popular, como esta, de Santa Cruz de Minas:

“Santo Antônio Pequenino,

Tinha os olhos de véiaco;

Namorou Santa Luzia

Espiando pro buraco...”

 

            “Véiaco” (velhaco) quer dizer espertalhão. Essa intimidade com o santo é muito querida de nosso povo e só vem a provar a grande popularidade de Santa Luzia (e também de Santo Antônio), verdadeiro centro de atenção e devoção, motivando rezas, benzeções e crenças por grande parte do Brasil. [1]

           Em São João del-Rei, na Igreja de São Gonçalo Garcia, acontece a Festa de Santa Luzia, em dezembro. O conjunto de fotografias abaixo, retrata alguns momentos marcantes de seu Dia Maior.


Missa de Santa Luzia. 
                                   
Devotos tocam na imagem e passam os dedos sobre os olhos.

Saída da procissão. Da torre cai papel picotado e pétalas de flores. 

Banda Municipal Santa Cecília toca um dobrado na saída da procissão.

Devota com vela acesa acompanha a procissão.
           
Procissão em marcha pela Avenida Nossa Senhora do Pilar.
 
Da torre sineira ecoa o som do bronze anunciando o festejo a toda a cidade. 
   
Diácono Permanente Ademir Noel,
cuja presença agradou a todos pela eloquência, simpatia e dedicação.



Créditos

- Fotos: Iago C.S. Passarelli, 13/12/2013.
- Texto: Ulisses Passarelli, 14/12/2013.

Notas 

- Para saber mais sobre as tradições populares acerca desta santa consultar a obra: 
COSTA, Gutemberg. Santa Luzia e os Olhos: da religiosidade ao folclore. Mossoró: Boágua, 1997. 124p. 
(por uma especial gentileza do autor, várias informações sobre a devoção a Santa Luzia da Mesorregião Campo das Vertentes foram incluídas no referido livro). 
- Informantes (ano 1995): folia, Lourival Amâncio de Paula (Caburu, São João del-Rei/MG); quadra popular, Elvira Andrade de Salles (Córrego, Santa Cruz de Minas); benzeções, Luís Santana (Bairro São Dimas, São João del-Rei). 
- Revisão e extensão da postagem: 28/07/2025.  

 


[1] - Todo o texto até este ponto foi transcrito e adaptado para esta postagem a partir da seguinte  publicação: PASSARELLI, Ulisses. Santa Luzia passou por aqui... CMFL Notícias. n.20. Belo Horizonte: Comissão Mineira de Folclore, abr.1997. p.7-8.


sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Santa Luzia: olhai por nós!

Treze de dezembro chegou. O povo devoto se lembra nesse dia da iluminada protetora da visão, a guardiã dos olhos, virgem e mártir, Santa Luzia. 

Temos em São João del-Rei uma festa dedicada a ela, na Igreja de São Gonçalo Garcia, cuja Episcopal Arquiconfraria cuida da organização. É antecedida por tríduo. Missa e bênção do Santíssimo Sacramento completam o cerimonial. Na procissão a Banda Municipal Santa Cecília cuida de forma impecável da parte musical, sob a competente batuta do regente José Antônio da Costa. 

Ao observador chama em especial a atenção o ritual dos devotos à entrada do referido templo: a bela imagem, posta logo na entrada, é saudada por cada fiel que chega para a celebração, que lhe toca com os dedos nos olhos postos na salva em sua mão e a seguir passam esses dedos sobre seus próprios olhos, transferindo a bênção para o corpo. É uma crença inabalável na proteção da gloriosa taumaturga sobre a saúde visual. 

A mais de quinze anos registrei num texto (lincado no final desta postagem), escrito para o boletim informativo da Comissão Mineira de Folclore, algumas benzeções e preces envolvendo-a, coligidas de populares em São João del-Rei e Santa Cruz de Minas, e ainda, as tradições acerca da folia de Santa Luzia, que existiu em nosso distrito de São Gonçalo do Amarante, recolhendo donativos para a capela da santa no povoado da Boa Vista, já no vizinho município de Conceição da Barra de Minas, emancipado de São João del-Rei em 1962. O responsável pela folia (folião) era "Dinho do Zé Coqueiro" e o mestre de cantorias (embaixador) era o prezado "Vavazinho" (Lourival Amâncio de Paula). 

Além da festa da Boa Vista na região também merece destaque a do povoado de Olhos d'Água, junto à BR-383, com capela própria, da qual Santa Luzia é orago, inclusa na Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Coronel Xavier Chaves. 

Imagem de Santa Luzia da Igreja de São Gonçalo Garcia, São João del-Rei/MG, 
exposta à veneração dos fiéis no presbitério durante o tríduo. 2013. 

Detalhe da salva, vendo-se a escultura representativa dos dois olhos, 
a qual motiva um ritual protetivo por parte dos fiéis.

Programa da Festa de Santa Luzia de 2013 em São João del-Rei/MG, 
Igreja de São Gonçalo Garcia.
 Impresso em papel-couché, 15 x 21cm.
 
Programa da Festa de Santa Luzia da Capela da Boa Vista,
Conceição da Barra de Minas, 2019. 

Capela de Santa Luzia, povoado da Boa Vista (Conceição da Barra de Minas/MG), 1997. 

Capela de Santa Luzia, povoado de Olhos d'Água (Coronel Xavier Chaves/MG), 17/07/2018.

Créditos
- Texto e fotografias: Ulisses Passarelli.

Notas 

- Sobre as tradições acerca desta santa leia também: Santa Luzia passou por aqui...
- Acréscimo de novas fotografias em 06/08/2019.
- Para saber mais sobre os aspectos culturais e devocionais populares envolvendo esta santa, consultar a obra: 
COSTA, Gutemberg. Santa Luzia e os Olhos: da religiosidade ao folclore. Mossoró: Boágua, 1997. 124p. 
(por uma especial gentileza do autor, várias informações sobre a devoção a Santa Luzia da Mesorregião Campo das Vertentes foram incluídas no referido livro).
- Revisão: 28/07/2025. 

domingo, 17 de novembro de 2013

São Gonçalo Garcia

(Ofereço atenciosamente ao professor Gaio, mestre da história são-joanense)

São Gonçalo Garcia foi nascido em 1556, em Baçaim, na Índia. Seu pai era português e a mãe indiana. Foi irmão leigo franciscano. Em 1597, na cidade de Nagasaki, no Japão, foram crucificados 26 cristãos (“Mártires do Japão”), em missão religiosa comandada pelo espanhol São Pedro Batista. Dentre eles, Gonçalo, que depois de muito humilhado teve o coração trespassado por duas setas ou lanças, a 05 de fevereiro daquele ano. Foi canonizado em 1862, pelo Papa Pio IX. 

Retábulo no altar-mor da Igreja de São Gonçalo Garcia. São João del-Rei/MG.

Imagem de S.Gonçalo Garcia,
São João del-Rei.
Em São João del-Rei a "Irmandade de São Francisco de Assis e São Gonçalo Garcia" foi fundada na Igreja Matriz do Pilar em data incerta do século XVIII e já no ano de 1759 recebia terras. O patrimônio foi doado em 1775 por Joaquim Ferreira Veiga. A construção da capela própria iniciou-se, segundo Augusto Viegas, citando Lima Júnior, em 1786, ano da provisão que deu autorização para edificá-la. As obras se arrastaram por longos anos. Em 1790 Antônio José Quintino de Assunção foi pago pela escultura da imagem do padroeiro. Em 1794, Manoel Izidoro fez trabalhos no camarim do trono desta capela. Muito modesta, inicialmente não tinha torre, o que se percebe em uma antiga ilustração assinada por Huascar; mas há notícias de uma "nova torre" construída em 1826-7, obra do mestre pedreiro Cândido José da Silva, do lado esquerdo do frontispício. Sua simplicidade foi alvo de severas críticas do exigente Burton quando de sua passagem pela cidade. Seu aspecto primitivo foi alterado completamente. A Câmara Municipal consignou um conto de réis para sua reforma em 1877, informou o primeiro número do jornal local, Arauto de Minas, de 08 de março daquele ano. Sua edição n.4, do mesmo ano, fala em reedificação da capela. As obras tiveram longa duração e o atual frontispício (com uma torre única, central e projetada adiante da fachada) foi concluído em 1903. A escadaria de acesso data de 1915. Cumpre ainda informar que o nome inicial do sodalício foi alterado, ganhando o título de "Episcopal Confraria" em 1850, por um pedido do definidor Padre José Maria Xavier ao Arcebispo de Mariana, Dom Frei Manuel da Cruz. 

Procissão do Imperador Perpétuo passa diante da Igreja de São Gonçalo Garcia, 
durante a Festa do Divino de São João del-Rei. Foto: Cida Salles, 10/06/2011.   

É alcunhada "Igreja dos Militares", onde se venera Santa Joana d’Arc (*), sua padroeira. Contém também imagens de outros santos patronos dos militares ou ligados culturalmente ao militarismo: Santo Expedito, São Judas Tadeu, Santo Antônio de Pádua. Diante dela há o Monumento aos Expedicionários e a própria igreja é bem próxima à área sede do 11º BI Mont.Regimento Tiradentes, gloriosa unidade de montanhismo do Exército Brasileiro, que muito orgulha esta cidade.

Santa Joana d'Arc. Imagem da Igreja de São Gonçalo Garcia. São João del-Rei. 

No sistema colonial de divisão de classes, esta irmandade congregava os homens pardos, impedidos que eram de entrarem para ordem franciscana, que só admitia brancos. Teve pretensões de libertação dos escravos. Requereu em 24/11/1772 à Rainha D. Maria I o privilégio de libertar escravos confrades mediante paga.  O traje é um hábito um pouco mais curto que o dos terceiros franciscanos. Por isto mesmo são apelidados ironicamente de “meias caídas”, segundo Gaio Sobrinho. O dia deste santo é 05 de fevereiro mas nesta cidade festejam-no em julho. Além do orago, merece destaque no lugar a veneração a São Judas Tadeu (hoje mais tênue, desde que foi construída sua igreja, no Bairro Caieira), Santo Expedito (com fervorosa festa em abril), Santa Luzia (em dezembro), São Frei Galvão e Santa Joana d’Arc


Quadros com fotografias ex-votivas. Hall da sacristia. Igreja de São Gonçalo Garcia. São João del-Rei. 

Realizava-se outrora nesta igreja a curiosa “Procissão dos Mártires”, que diz Antônio Gaio Sobrinho, era, “mais ou menos, uma réplica da procissão de cinzas dos franciscanos.” Era bizarra, cheia de andores e alegorias, da qual o autor nos brinda com interessante citação de alguns detalhes no seu "Visita à Colonial cidade de São João del-Rei".

Nossa Senhora do Amparo.
Igreja de São Gonçalo Garcia.
São João del-Rei. 

Houve também o costume local da Rasoura de Nossa Senhora do Amparo, todo primeiro domingo de cada mês. Sua imagem ficou conhecida por isso como “Imagem da Rasoura”. Rasoura é uma pequena procissão circunscrita aos limites físicos da igreja (dentro do adro) ou caminhando apenas pela praça fronteira ou quarteirão que lhe rodeia. Na época da escravidão esta invocação mariana era uma das clamadas pelos cativos, esperançosos de seu amparo espiritual. 

É mister referir que atrás da igreja há o cemitério próprio. Nele havia outrora a tétrica inscrição em latim: “hodie mihi cras tibi” que se pode traduzir, “hoje para mim, amanhã para ti”. 

A devoção a São Gonçalo Garcia é por assim dizer rara. Poucas são as notícias. Há igrejas setecentistas deste orago em Penedo/AL, Vitória/ES e Rio de Janeiro/RJ (Rua da Alfândega, junto com São Jorge). Em Pernambuco colonial conheceu-se também esta devoção. No Recife os festejos ganhavam cunho popular na Igreja do Livramento, onde ficava sua imagem. Os negros e índios tomavam participação ativa, com suas danças folclóricas de quicumbis e caboclinhos, e o cortejo se agigantava com muitas alegorias, carros triunfais e música. 




Referências bibliográficas

- BURTON, Richard Francis. Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho
- CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. 2.ed. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1982. 2v. 
- GAIO SOBRINHO, Antônio. Sanjoanidades. São João del-Rei: A Voz do Lenheiro, 1996. 104 p.il. 
GAIO SOBRINHO, Antônio. Santos Negros Estrangeiros. São João del-Rei: [s.n.], 1997. 153p.il.
GAIO SOBRINHO, Antônio. Visita à Colonial Cidade São João del-Rei. São João del-Rei: [s.n.], 2001. 
GAIO SOBRINHO, Antônio. São João del-Rey 300 anos de históriasSão João del-Rei: [s.n.], 2006.
- PEREIRA, Kleide Ferreira do Amaral. Revivescência de Cultos Pagãos nos Antigos Cultos aos Santos Nacionais Portugueses. Revista Brasileira de Folclore, Rio de Janeiro, MEC / Dep. de Assuntos Culturais / CDFB, n.35, jan.abr.1973. p. 33-44. 
- TINHORÃO, José Ramos. As Festas no Brasil Colonial. São Paulo: 34, 2000. 176p.il. 
- VIEGAS, Augusto. Notícias de São João del-Rei. 3.ed. Belo Horizonte: [s.n], 1959.


Referências na Web

Wikipédia (acesso em 17/11/2003, 17:35h)


Notas e Créditos

* Já se encontrava publicada esta postagem, quando a 10/12/2013 localizei uma interessante notícia sobre Santa Joana d'Arc: trata-se de um registro de sua festa no Largo do Rosário que dá conta de uma missa campal, procissão muito concorrida, como parte das comemorações da páscoa dos militares. Os soldados carregaram o andor durante todo o trajeto. Frei Orlando Alvares fez o sermão à entrada, falando da vida da mártir (Fonte: jornal O Correio, São João del-Rei, n.859, 08/05/1941, acervo da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida). É santa muito querida nos terreiros das religiões de matriz africana, sua imagem é frequente nos congás, tida como santa guerreira, muito forte, habitualmente sincretizada com Ogum Iara, ordenança de Oxum. Em São João del-Rei houve na década de 1990 um grupo de moçambique bate-paus na Rua do Ouro (Bairro Alto das Mercês), do Capitão Tadeu Nascimento de Sousa, que se denominava “Mãe Joana D’Arc”, aliás, o mesmo nome do terreiro ao qual estava ligado, já que seus participantes eram filhos espirituais daquela casa.
** Sobre Frei Orlando ver também:
- Aspectos folclóricos: neste blog, em  A Batina do Padre tem Dendê 
- Aspectos biográficos e históricos: no Blog de São João del-Rei (um trabalho de pesquisa fidedigno, da maior importância, efetivado pelo culto Sr. Francisco Braga). 
*** Texto e fotos (salvo indicação em contrário): Ulisses Passarelli, 17/11/2013.