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Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




domingo, 22 de fevereiro de 2026

Bloco do Boi, Conceição da Barra de Minas

 

O município de Conceição da Barra de Minas situa-se no trecho médio do vale do Rio das Mortes, Microrregião de São João del-Rei, Mesorregião Campo das Vertentes, com cerca de 2.576 pessoas como população estimada (IBGE, 2026). O núcleo urbano que originou a cidade foi o povoado da Boa Vista, implantado ao longo de um caminho antigo, possivelmente o próprio eixo do Caminho Geral do Sertão. Com a criação da capela primitiva, na qual se cultuava Nossa Senhora da Conceição, desde 1725, a povoação foi aos poucos se consolidando (Sobrinho, 1990). A área atual é de 173,014 km2, tendo se emancipado de São João del-Rei em 1962. Seu território marginal ao Rio das Mortes foi entrecortado pela Ferrovia Oeste de Minas desde 1881, cujos trilhos foram erradicados em 1984. Na produção agrícola se destacam o milho, a cana e o feijão; na pecuária, a o gado bovino leiteiro.

Entre as tradições populares merece especial atenção a Festa de Nossa Senhora do Rosário, na qual o congado local (catupé) recepciona vários grupos visitantes, em outubro. Em dezembro e janeiro é corrente a prática da folia de Reis e folia de São Sebastião; no período quaresmal, a encomendação das almas [1] e na Semana Santa acontecem diversas cerimônias católicas de grande relevância, culminando com a Procissão do Enterro, na qual os farricocos [2] mascarados se apresentam batendo matracas. Em tempos passados, durante a Festa do Rosário também acontecia a dança do quimbete (Sobrinho, 1990), uma espécie de batuque, de procedência banto. A banda de música é uma tradição cultural muito arraigada.

O carnaval concepcionense segue as linhas gerais da folia momesca de outras cidades do Campo das vertentes. Para os limites desta postagem o foco recai sobre o Bloco do Boi, que na atualidade faz a abertura do pré-carnaval. Abre-se um parêntese para reafirmar o afamado conceito de animação do pré-carnaval de Conceição da Barra de Minas.

A descrição que se segue é baseada na observação in loco, da saída na via principal, Centro da cidade, desde as imediações da Prefeitura Municipal até o Largo da Igreja Matriz, do Bloco do Boi, na noite de 29 de janeiro de 2026, quando, pouco após as 21 horas, ocorreu seu desfile.

Em essência é um rancho de boi, bastante simplificado na estrutura: apenas o boi, que segue na dianteira, ao som de uma charanga de metais que lhe acompanha. Detalhando, o boi é do tipo “de montar”, ou seja, é aberto por cima, de modo que o dançante que lhe dá movimento o adentra como se o cavalgasse e, portanto, permanece com o corpo exposto da cintura para cima, e tampado dentro do boi, da cintura para baixo. A estrutura atual é de vergalhões de ferro, cobertos de tecido, mas no passado era um balaio de taquara. Na traseira do boi, sob a armação, vai escondida uma garrafa plástica cheia de areia, amarrada na estrutura, que funciona como contrapeso, para contrabalançar o peso da cabeça do boi, que é formada por uma caveira de animal, enfeitada. O “couro” do boi é de tecido estampado (florido), com um babado enfeitado por sequência de fitas de cetim pendentes, de diversas cores.

A charanga é formada por músicos locais, não a banda completa, mas contém trompetes, trombones, saxofone, tarol e bumbo. Durante todo o desfile tocam apenas marchinhas carnavalescas.

Pessoas diversas, fantasiadas ou não, alegremente acompanham o bloco na retaguarda da charanga, cantarolando as conhecidas marchinhas e dançando balanceado ao seu ritmo.

Em Conceição da Barra de Minas não foi observado nesta ocasião as típicas correrias que os bois habitualmente provocam. Por assim dizer, é um boi tranquilo, de dança calma, airoso, com movimentos delicados. Alguns avanços e recuos simulam um início de ataque, mas na verdade o boi só encosta a cabeça de leve na pessoa, muito mais cumprimentando-a que propriamente atacando.

Em diálogo com o funcionário da Prefeitura, Anselmo Ananias, atual organizador do Bloco e quem conduz a alegoria do Boi, narrou que participa há cerca de dez anos. Anteriormente o Bloco foi fundado há aproximadamente 40 anos por “Cicinho Torresmo”, de início ligado ao Bairro Santo Antônio. Mais tarde o Bloco foi vinculado ao bairro Alto do Cristo, época que segundo o informante teria recebido apoio de Maria Naura. Em sua narrativa, esses esforços entre organizadores e apoiadores visam não deixar o Boi desaparecer. Relatou também que o Bloco do Boi sempre foi do jeito como ainda se processa, com a banda de marchinhas e o boi de cavalgar. As únicas diferenças é que no passado era mais concorrido, com mais gente prestigiando e havia a figura de um Toureiro.





Referências

IBGE. Portal Cidades: Conceição da Barra de Minas. 2026. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/conceicao-da-barra-de-minas/panorama  Acesso em 22 fev. 2026.

SOBRINHO, Antônio Gaio. Memórias de Conceição da Barra de Minas. Belo Horizonte: Imprensa Universitária, 1990. 253p. il.  

Créditos

- Texto, fotografias e vídeo: Ulisses Passarelli.  

Notas

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