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Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




quarta-feira, 30 de setembro de 2026

São Gonçalo do Amarante: breve histórico de um distrito de São João del-Rei

 

            São relativamente poucas as informações que se dispõe sobre a história desse distrito. Estudos ora em curso confluem ou trazem evidências que surgiu à margem do Caminho Geral do Sertão, via de acesso do período colonial, consolidada no século XVII, pela qual os sertanistas adentravam o território, expandindo-o à custa do apresamento dos indígenas e em contínua busca de riquezas minerais (Passarelli, 2025). No entanto, a pesquisa não é conclusiva, pois ainda coteja documentos, rastreia relatos de época, traceja possíveis rotas, procura em campo as velhas cavas e caminhos abandonados. Não há informação concreta, mas sim evidências, que apontam uma possibilidade plausível.

Em extensão territorial o distrito é relativamente pequeno, com 96,51 km2 (Wikipédia, 2026), o menor de São João del-Rei. Dessa cidade, se divide a leste-sudeste pela elevação da Serra do Lenheiro. Sua divisa norte e noroeste acompanham o itinerário do Rio das Mortes, tendo o município de Ritápolis na margem oposta. A divisa oeste e a sul se fazem por linha sinuosa que atravessa as elevações, dividindo São Gonçalo do Amarante respectivamente do município de Conceição da Barra de Minas e do distrito são-joanense de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno.

A população do distrito de São Gonçalo do Amarante, segundo dados do IBGE do ano 2010, era de 1.035 pessoas, sendo a população do setor[1] (sede distrital) da ordem de 265 pessoas residentes (142 homens, 123 mulheres), em domicílios particulares que totalizam 141 unidades, sendo 89 ocupadas (IBGE, 2019).

À margem de um antigo caminho

            O Caminho Geral do Sertão a partir de São Paulo, grosso modo, surgiu pelo aproveitamento e alargamento de antigas trilhas indígenas. Seguia pelo vale do Rio Paraíba do Sul, até a zona de travessia da muralha natural da Serra da Mantiqueira, mormente a Garganta do Embaú, pela qual se alcançava o alto serrano que corresponde ao atual sul do Estado de Minas Gerais. O caminho trilhava a norte, até alcançar o Rio das Mortes, em Ibituruna. Daí por diante, há divergências de interpretação, talvez geradas por bifurcações do caminho. Seja como for, ou o caminho em si, ou uma derivação dele, rumava a leste, em direção ao trecho médio do Rio das Mortes, onde havia um ponto de travessia, entre as elevações visíveis à longa distância, depois chamadas Serra do Lenheiro e Serra de São José. Daí por diante o caminho tomava rumo nordeste, em direção à região do Rio das Velhas. (Derby, 1899-A; Derby, 1899-B; Guimarães, 1985). Entre as duas serras supracitadas, floresceu a cidade de São João del-Rei e do lado oposto da Serra do Lenheiro, a noroeste imediato da cidade, surgiu o distrito de São Gonçalo do Amarante.

            Tal caminho, contudo, em fins do século XVII ou início do XVIII recebeu um atalho na altura da roça de Manoel de Sá, na área hoje no sul de Minas (Mourão, 2019). Com isto, o trecho até a travessia do Rio das Mortes ficou bastante encurtado, abreviando a viagem: o atalho rumava à Serra das Carrancas e atravessava o Rio Grande cerca de onde hoje se situa as comunidades de Capela do Saco e Caquende, saindo a seguir no povoado do Tijuco, Rio das Mortes Pequeno e por fim na área que se formou São João del-Rei (Antonil, 1711; Brito, 1732). O atalho deixou fora do tráfego maior de viajantes todo o trecho relativo a Ibituruna. O lugar do atalho, onde a estrada bifurcava, passou a ser denominado de Encruzilhada; mais tarde, Cruzília (Lima Júnior, 1985). O Caminho Geral do Sertão foi cognominado “Caminho Velho”, aproximadamente a partir do ano 1700, quando a abertura ou melhoria do caminho entre o Rio de Janeiro e as minas motivou sua denominação em “Caminho Novo”; ao passo que o Caminho Geral do Sertão, sendo anterior, recebeu a alcunha de Velho, prevalecendo a partir daí essa denominação (Guimarães, 1986).

            Diante disso, como dito, todo o trecho conectado a Ibituruna, perdeu bastante seu protagonismo. Mas Ibituruna, considerada sob a fundação de Fernão Dias Paes em 1674 (Pompéia, 2009), prosseguiu ligada a São João del-Rei até sua emancipação em 1962. O caminho de interligação entre os dois lugares, possivelmente corresponde em grande parte ao primitivo leito do Caminho Geral do Sertão, que passava por Conceição da Barra de Minas (também emancipada de São João del-Rei em 1962), surgida do povoado da Boa Vista, no qual se erigiu na década de 1720 a capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição. Segundo Antônio Gaio Sobrinho, no seu livro “Memórias de Conceição da Barra de Minas”, ao mencionar Fernão Dias Paes e a sua famosa Bandeira das Esmeraldas, em 1674-5, o mesmo teria seguido: “inicialmente, direção paralela ao curso do Rio das Mortes, atravessou as regiões que seriam depois Conceição da Barra e São Gonçalo do Brumado. Cerca de doze léguas distante de Ibituruna, vadeou o rio, rumo ao Norte, no local que, posteriormente, se chamaria “Porto Real da Passagem” (Gaio Sobrinho, 1990, p.21).

Esse autor defendeu a hipótese de ser esse o Caminho Geral do Sertão, e apresentando a defesa, manifestou que “o dito caminho de ligação, entre Ibituruna e São João del-Rei, passava por Conceição da Barra, São Gonçalo do Brumado, Santo Antônio do Rio das Mortes e até São João.” (Gaio Sobrinho, 1990, p.22).

A partir de Conceição da Barra de Minas, a Serra do Mama Rosa era o marco geográfico de direção na paisagem; e, passando pela área do atual povoado da Boa Vista (não aquele que deu origem a Conceição da Barra de Minas), vinha a referência altaneira da Serra do Caxambu e daí ao atual São Gonçalo do Amarante; deste à Serra do Lenheiro e São João del-Rei.  

Antiga cava paralela à atual estrada do Caburu, na travessia do

 vale do Ribeirão do Brumado: 
possível vestígio do Caminho Geral do Sertão.  

Alterações toponímicas

            A região distrital era rota firmada e ponto de paragem. É desde então que surgem notícias de São Gonçalo do Brumado, nome primitivo do local. “Brumado” refere-se à peculiaridade climática, favorecida pelas condições úmidas e montanhosas do lugar, com abundância de nevoeiro, brumas – brumado é lugar de muitas brumas, neblina, serração. Há pouca distância corre o Ribeirão do Brumado. No entanto, outra interpretação sugere que o nome brumado procede de embromado, no sentido de logro, engano, equívoco – uma referência ao lugar que se tinha uma expectativa de ter riquezas minerais, mas que revelou-se desprovido ou com quantidade pouco compensadora de ouro e outros minérios de valor.              O nome original setecentista é alterado por força da Lei nº843, de 1923, passando a se chamar Caburu, palavra de origem indígena tupi, com duas possibilidades de tradução: junção de “cab” (vespa, marimbondo) com “uru” (cesto, balaio), ou seja, a caixa de marimbondos; o vespeiro. Outra hipótese é ser corruptela de “cabaru”, que significa cavalo. O topônimo permaneceu até 28 de junho de 1990, quando a Resolução nº 1.081 da Câmara Municipal de São João del-Rei alterou o nome do distrito para São Gonçalo do Amarante, com plena referência ao padroeiro (Passarelli, 2014).

Reprodução da Resolução nº1.081, de 28/06/1990, da Câmara Municipal de São João del-Rei, a qual altera o topônimo Caburu para São Gonçalo do Amarante na designação distrital.

 Cronologia

1720-1730: construção da Igreja de São Gonçalo do Amarante no então arraial de São Gonçalo do Brumado (Wikipédia, 2026).

1732: construção da Igreja de São Gonçalo do Amarante no então arraial de São Gonçalo do Brumado (Cintra, 1982).

1738: a 10 de fevereiro é batizado Gonçalo, na igreja de São Gonçalo do Amarante. Era filho de Lourenço Ribeiro Brito e de Quitéria Corrêa de Almeida. O celebrante foi o capelão Padre Dionísio Ferreira Alves (Cintra, 1982).

1738: a 20 de junho é aprovado o documento estatutário (Compromisso) da Irmandade de São Gonçalo do Amarante (arquivo da Diocese de São João del-Rei/acervo do Museu de Arte Sacra).

1746: um “Auto de vereança determina a Francisco Ribeiro, ‘morador ao pé de S. Gonçalo’, a Francisco Martins Guimarães e a seu sócio Antônio Duarte, moradores no Sítio do Pega Bem, que providenciassem a abertura de caminhos” (Cintra, 1982).

1749: “Os moradores das capelas de N.S. da Conceição da Barra, São Gonçalo da Ibituruna, N. S. de Nazaré, São Gonçalo do Brumado, Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, filiais do Pilar de São João del-Rei, pedem a criação da paróquia de N.S. da Conceição da Barra” (Guimarães, 1995).

1777: A) a 14 de setembro escravizada parda Ana e seus filhos são libertos da Fazenda do Pega-bem pela escritura assinada por Francisco Martins Guimarães e sua esposa, Maria Ribeira da Silva. Há um registro que o dito fazendeiro foi padrinho de um batizado realizado na capela de São Gonçalo do Amarante, em 28 de outubro de 1743; B) a 19 de setembro Manoel da Costa Vilas Boas e Gama é empossado como Capitão de Ordenança do distrito de São Gonçalo do Brumado (Cintra, 1982).

1792: a 15 de dezembro, “O Visconde de Barbacena assina Carta de Sesmaria a favor de Jerônimo José Martins – ‘meia légua  de terras em quadra’, terras devolutas situadas no Pega-bem, atual distrito do Caburu, confinado com terras do Ten. Bonifácio Gonçalves de Aguiar, com o engenho do Cap. Manoel da Costa Vilas Boas da Gama, e com o engenho do Cap. Manoel da Costa Vilas Boas Gama, e com as do patrimônio do Pe. João da Costa Guimarães, e as dos herdeiros de Francisco Lobo Rios.” (Cintra, 1982).

1804: falecimento do Alferes Jerônimo José Martins na Fazenda do Pega-bem, distrito de São Gonçalo do Brumado. Era português natural da freguesia de São Torquato, termo da vila de Guimarães, Arcebispado de Braga. (Cintra, 1982).

1807: falecimento em 05 de agosto do Tenente Bonifácio Gonçalves de Aguiar, cujo testamento se deu na Fazenda do Caxambu, no distrito de São Gonçalo do Brumado (Cintra, 1982).

1809: a 9 de dezembro,“Joaquim de Souza Lopes é eleito Juiz da Vintena das Aplicações de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno e São Gonçalo do Brumado”. (Cintra, 1982).

1811: a 15 de agosto, “o Conde de Palma concede a José Gonçalves de Aguiar a patente de Cap. do Distrito de S. Gonçalo do Brumado”. (Cintra, 1982).

1815: aprovado o documento estatutário (Compromisso) da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, que congregava os homens negros. No entanto, evidencias textuais apontam que a irmandade já existia anteriormente e inclusive existe recibo avulso do século anterior (arquivo da Diocese de São João del-Rei/acervo do Museu de Arte Sacra).

1828: a Fazenda do Mama Rosa, na área de São Gonçalo do Brumado, é vendida a seis de dezembro pelo Capitão-mor Francisco de Paula Vilas Boas e Gama e sua esposa, Rosa Joana do Vale Amado de Abreu e Melo, ao Guarda-mor Luiz Fortes de Bustamante e Sá. (Cintra, 1982).

1829: a 03 de julho, Manoel José da Silva é nomeado para o cargo de zelador da Capela de São Gonçalo do Amarante. (Cintra, 1982).

1830: Nasce em São João del-Rei a 30 de julho o Coronel Aureliano Mendes da Silva Caldas, o qual foi fazendeiro em São Gonçalo do Brumado (Cintra, 1982).

1838: falece a 23 de março o Padre-mestre e Orador Sacro Manoel da Paixão e Paiva, que fez parte da Aula Régia de Latim. Ao falecer, deixou diversos filhos reconhecidos em seu testamento, dado na Fazenda Retiro Venturoso. De sua propriedade deixou 19 escravizados e as Fazendas do Mundo-vira e de São Gonçalo. As três fazendas mencionadas estavam no território de São Gonçalo do Brumado (Cintra, 1982).

1840: a 14 de abril, o Alferes José Cândido Alves é confirmado para o posto de Inspetor de Quarteirão de São Gonçalo do Brumado. (Cintra, 1982).

1850: a lei nº 472, de 31 de maio, restaura o distrito de São Gonçalo do Brumado que fora abolido na primeira metade daquela centúria (Barbosa, 1971).

1865: Lei nº 1.265, de 19 de dezembro, suprime o distrito (Barbosa, 1971).

1866: falece a dois de janeiro o alferes José Cândido Alves, na Fazenda do Brumado. Era natural de São João del-Rei, filho de João Damasceno Alves e Tereza Maria de Jesus. Foi Juiz de Paz e Subdelegado no distrito e membro da Irmandade do Santíssimo Sacramento. Seu corpo foi sepultado no Cemitério de São Francisco (Cintra, 1982).

1868: Lei nº 1.561, de 20 de julho, restabelece o distrito (Barbosa, 1971).

1875: Lei nº2.103, de 04 de janeiro extingue o distrito de São Gonçalo do Brumado (Barbosa, 1971).

1875: Lei nº 2.142, de 28 de outubro, novamente restaura o mesmo distrito (Barbosa, 1971).

1876: Lei nº 2.281, de 10 de julho, eleva a Capela de Santo Antônio, no Rio das Mortes a matriz paroquial. Engloba também o distrito de São Gonçalo do Brumado, como freguesia (Barbosa, 1971; Barbosa, 2008).

1890: Decreto nº 131, de 03 de julho eleva o antigo distrito policial de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno a distrito de paz e extingue a Freguesia de São Gonçalo do Brumado. Este também passa a distrito de paz (Barbosa, 1971; Barbosa, 2008).

1900: Lei municipal nº78, de 23 de novembro, suprimi o distrito de paz de São Gonçalo do Brumado (Barbosa, 2008). A Câmara Municipal suprime o distrito de São Gonçalo do Brumado, anexando-o ao distrito da sede. Com isto, os recursos para o lugar foram reduzidos à metade. O ato gerou muitas discussões políticas. (O Combate, n.30, 05/12/1900).

1903: falece Romualdo Honório de Oliveira, a 11 de abril, o qual foi Juiz de Paz em 1890 em São Gonçalo do Brumado, negociante e fazendeiro, deixando vasta descendência cuja genealogia foi organizada por Sebastião de Oliveira Cintra (Cintra, 1982).

1905: Resolução nº320 da Câmara Municipal, de 03 de abril, autoriza obras para conserto na estrada de São Gonçalo do Brumado (O Repórter, 1905).

1918: falece José Pedro de Carvalho, na Fazenda do Gondou, a 28 de maio. (Cintra, 1982). 1923: A) Lei nº843 restabelece a Freguesia de São Gonçalo do Brumado, com o novo nome de Caburu (Barbosa, 1971). B) É instalado o serviço de correio no Caburu (A Tribuna, 1923) [2]. C) O livro de atas nº 2 (o nº1 está aparentemente desaparecido) do Apostolado da Oração e  Liga do Sagrado Coração de Jesus indica a seguinte diretoria: Padre Frei Simeão van den Akker (Diretor), sr. José Honório de Carvalho (Presidente), sra. Maria Estevan de Carvalho (Vice-presidente), sr. Pedro Honório de Oliveira e sra. Rita Sérvula dos Santos (Secretários). Além destes, havia vários zeladores e associados (acervo da instituição).

1924: no primeiro dia do ano houve a solenidade de instalação do recém-criado distrito do Caburu. As intempéries prejudicaram a cerimônia. Houve discursos e ao término, banquete (A Tribuna, 1924).

1926: a 30 de maio ocorre a instalação distrito judiciário do Caburu, por força do decreto 7.232, de 18 daquele mês e ano (Barbosa, 2008).

1936: fundação da Conferência de São Gonçalo do Amarante, a 10 de maio – sodalício religioso de natureza caritativa.

1945: O grupo escolar de São Gonçalo do Amarante desaba devido ao abandono no qual as autoridades o deixaram (Diário do Comércio, 1945).

1946: transferência do cemitério do adro da igreja para o alto da colina, na entrada do distrito, com inauguração a 22 de outubro.

2006: ampla obra de reforma da Igreja e reconstrução do campanário.

2021: obra emergencial no decorrer do primeiro semestre, de apoio à fundação do ângulo anterior direito da igreja (esquerda do observador), o qual estava apresentando problemas de recalque, gerando trincas e desaprumando da parede, a ponto de afetar internamente o tirante.

2025: encerramento das atividades da escola local. O prédio, um próprio municipal, onde funcionou passou à gestão do Congo-vilão Nossa Senhora do Rosário por meio de Termo de Cessão de Uso, válido por 15 anos, com a finalidade de servir de sede ao congado e construção de um memorial da comunidade.

Aspectos políticos e econômicos

              É mister observar que entre 1850 e 1923 o distrito foi várias vezes abolido e reestruturado por força de leis, passando entre as categorias de povoado, freguesia e distrito. Tal oscilação é sintomática de instabilidades econômicas e pressões políticas, possível indicação que merece um estudo específico aprofundado. 

              Além da atividade agropecuária dessas fazendas, notícias orais dão conta que no passado explorou-se ouro de aluvião na área distrital beira-rio em alguns córregos e grotas, com vestígios dos serviços de mineração ainda visíveis. Para além, uma cartografia do final do século XIX aponta em sua legenda áreas mineradas ao redor da sede distrital, conforme a imagem abaixo.

  

Recorte cartográfico do mapa de São João del-Rei observando-se a posição de São Gonçalo e as marcações pontuadas imediatamente à sua esquerda (entre a sede distrital e o Córrego do Mama Rosa) e à direita (vale do Ribeirão do Brumado), correspondendo a áreas mineradas, segundo legenda do original. Fonte: Arquivo Público Mineiro. Ano: 1895. 

 

No mais, nas imediações da Pedra Ramalhuda minerou-se cassiterita (“minério de casqueiro”), há cerca de 60 ou 70 anos passados, com raspagem da superfície do solo, e ainda, nos anos 1980 retirava-se o mesmo minério ao sopé dos morros à margem do Rio das Mortes, próximo ao leito ferroviário, abrindo-se pelo barranco galerias de exploração, conhecidas por “mina-tatu”, por conta do aspecto que tomavam, semelhante às escavações de um tatu (mamífero dasipodídeo).

Fora das rotas principais, representada pelo Caminho Velho e as variantes dele nascidas, o pequeno arraial formado teve poucas possibilidades que favorecessem seu crescimento. A população antiga ou sua significação econômica setecentista pode ter sido maior no passado que se julga à primeira vista, tomando por base a dimensão da igreja distrital, que de imediato impressiona ao visitante. Ela é reveladora do poderio econômico de fazendeiros, que decerto devem ter patrocinado a edificação. Fato é que nas primeiras décadas dos oitocentos a realidade local era desanimadora, a ponto do militar português Raimundo José da Cunha Matos, por lá passando na primeira metade do século XIX, ter afirmado que o arraial era muito decadente, ainda que, o afirmou, tivesse se originado da mineração, reconhecida fonte de riquezas (Matos, 1836).

A atividade econômica se atém à agropecuária de subsistência, com o excedente da produção voltado para comercialização. Nos meios folclóricos, a linguagem popular atribuiu aos são-gonçalenses a alcunha senão tanto pejorativa, mas antes, bem humorada, de “quiabeiros”, referência à venda de quiabo e outras hortaliças e legumes para a cidade, trazidos no passado em lombo de burros tropeiros, pelos tortuosos caminhos da Serra do Lenheiro, conforme explicitou Passarelli (2013) em seu texto “Apelidos Gentílicos” [3]. A configuração espacial da vila de São Gonçalo do Amarante se desenha imediatamente ao norte da estrada de acesso, polarizada ao sul pelo cemitério e no extremo oposto pela Pedra Ramalhuda. A parte central se destaca pelo largo gramado, amplo e plano, estabelecido diante da igreja do padroeiro, que é a maior construção local e cartão postal. No largo também se revelam a presença do antigo cruzeiro e ainda um coreto mais recente. Em 2016 foram instalados aparelhos coletivos de ginástica pela municipalidade, entre o coreto e o cruzeiro. O casario em sua maior parte é de um só pavimento e situa-se circulando o largo, ou margeando as poucas ruas, como a que vem do cemitério, a que vai para a Pedra Ramalhuda (Rua das Flores), a Travessa Cava Funda, a Rua da Bomba (referência à unidade de bombeamento de água potável) e outras.

Considerações finais

O distrito de São Gonçalo do Amarante guarda ainda em seu aspecto geral as marcas da ruralidade e o clima bucólico. Portador de uma história tricentenária, que talvez rivalize em temporalidade com a da própria cidade de São João del-Rei, conheceu no passado pré-colonial a cultura indígena marcante, decerto dissolvida e/ou absorvida pelo movimento colonizador. Narrativas e fenótipos ainda remetem a essa página esquecida da história, sugerindo pesquisas arqueológicas e outras. Inclusive, já tem sido encontrados ao acaso alguns artefatos líticos de superfície, bem como fragmentos cerâmicos que remetem a esses povos macro-jês, talvez puris e catauás, ora reunidos em exposição no acervo do Museu Municipal Tomé Portes del-Rei (São João del-Rei, 2024-B).

Mas ainda mais antigo que esses vestígios materiais, certamente é o monumento megalítico composto pela Pedra Ramalhuda e pela Pedra Redonda, ainda em estudo, mas que se revelaram promissores. Na Ramalhuda já foi constatada ligação astronômica e segue em maiores averiguações, sugerindo ter sido um monumento pré-histórico, dos grupos humanos caçadores-coletores (Ferreira et al., 2025).

No panorama cultural, o distrito ora se destaca pelo grupo de congado, do tipo congo, tido como muito antigo, mais que centenário, ainda bastante preservado e que anima de forma marcante a Festa de Nossa Senhora do Rosário, que se realiza tradicionalmente no segundo domingo de outubro.

Outras festas locais que mobilizam bastante a comunidade são a de São Sebastião (janeiro), a Semana Santa (abril) e a do padroeiro, São Gonçalo do Amarante (julho), todas elas patrimonializadas e inclusas no calendário oficial de eventos religiosos do município[4]. Os povoados ligados ao seu território também tem suas festas religiosas próprias.  

No distrito ainda se encontram algumas tradições culinárias, como a saborosa comida mineira feita no fogão à lenha, a produção de quitandas, doce de leite, queijo minas frescal, pastéis (Bar do Sidney) e frango frito (Bar do Vado).

No passado, outras manifestações da cultura popular marcaram época, fortalecendo os laços comunitários: Folias de Reis, Boi Malhado, Encomendação das Almas, Quadrilha Junina, queima de judas, mutirões de capina de plantações e roçado de pasto, rezas da Santa Cruz. Todas desapareceram, sendo que dessa última ainda sobrevivem alguns elementos que aos poucos vão caindo em ocaso, como enfeitar e rezar junto ao cruzeiro central e enfeitar as cruzes de fachada das casas no dia 03 de maio. Também houve uma banda de música no local, alvo de tentativas de soerguimento nos últimos anos.

Na localidade conhecida por Cruz da Cristina, um mirante natural com vista privilegiada para a Serra do Lenheiro, para além de alguns achados arqueológicos fortuitos, é corrente a devoção popular à alma de uma andarilha, conhecida apenas por “Cristina”, falecida há mais de um século, como medianeira de graças.

Referências

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A TRIBUNA, n. 467, 08/04/1923, São João del-Rei.

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BRITO, Francisco Tavares de. Itinerario Geographico: com a verdadeira descripção dos Caminhos, Estradas, Rossas, Citios, Povoaçoens, Lugares, Villas, Rios, Montes, e Serras, que há da cidade de S.Sebastiao do Rio de Janeiro. Sevilha: Officina de Antonio da Sylva, 1732. 26p.

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MOURÃO, Maria da Graça Menezes. Carrancas: uma capela no Caminho Real. 2.ed. São Paulo: Scortecci, 2019. 173p.

O COMBATE, n.30, 05/12/1900, São João del-Rei.

O REPÓRTER, n. 25, 02/07/1905, São João del-Rei.

PASSARELLI, Ulisses. Apelidos gentílicos. Tradições Populares das Vertentes, 17 jul. 2013. Disponível em: https://folclorevertentes.blogspot.com/2013/07/apelidos-gentilicos.html Acesso em 30 set. 2026.

PASSARELLI, Ulisses. Toponímia: uma expressão do patrimônio cultural. 11 fev. 2014. Disponível em: https://folclorevertentes.blogspot.com/2014/02/toponimia.html Acesso em 30 set. 2026.

PASSARELLI, Ulisses. Antônio Garcia da Cunha, o bandeirante. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, v.16, 2023. 220p. p.10-26.

PASSARELLI, Ulisses. Pequena cronologia distrital. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei. v.12, 2007. 375p. p.156-177

POMPÉIA, Maria do Rosário de. Memória Histórica de Ibituruna, Primeiro Povoado Mineiro. São João del-Rei: Imprimax, 2009. 324p.

SÃO JOÃO DEL-REI. Cruz da Cristina. Inventário de Patrimônio Cultural. Secretaria Municipal de Cultura e Turismo/Prefeitura Municipal; Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural, 2024. 38 p. il. (A)

SÃO JOÃO DEL-REI. Acervo Arqueológico e Paleontológico do Museu Municipal. Inventário de Patrimônio Cultural. Secretaria Municipal de Cultura e Turismo/Prefeitura Municipal; Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural, 2024. 42 p. il. (B) 

Créditos

- Texto e fotografia: Ulisses Passarelli.

Notas 



[1] Segundo o código do IBGE, o setor São Gonçalo do Amarante recebe o número de identificação 316250015000001

[2] Estas efemérides de 1923 se devem a atuação política do sr. Carlos Augusto Alves de Oliveira, morador dessa comunidade que na ocasião era vereador e atuou fortemente para elevar o arraial a distrito e trazer um serviço de correios. Informante: seu bisneto, Everaldo Guimarães (set.2026).

[4] Processo de Registro “Festas Religiosas de São João del-Rei”, CMPPC-046/18 e 047/22. Patrimonialização administrativa pela Lei nº5.443, 20/06/2018, alterada pela Lei nº6.078, 02/05/2024. Ratificação pelo decreto nº 10.225, com mudança do livro de inscrição (de Modos de Fazer para Celebrações).

domingo, 20 de setembro de 2026

Boi do Culóia e seu legado: Tiradentes/MG

Este blog, criado despretensiosamente em meados de 2012, chega aos seus catorze anos de existência e a contagem de um milhão e meio de visitas! Uma cifra significativa para uma temática centrada em tradições populares. Desde alguns anos a realidade é outra e a indisponibilidade de tempo já não permite postagens tão frequentes como antes. No entanto, pouco a pouco todas as antigas postagens estão passando por revisão, submetendo-as a eventuais correções, melhorias, acréscimos, informações adicionais, novas fontes de referências, inclusão de fotografias extras, adequação de linguagem aos ditames atuais - tudo quando e quanto se faz necessário. Dessa forma, o blog está vivo e permanece dinâmico, em contínua renovação e crescimento, resistindo à dureza do cotidiano. 

Na presente data o blog apresenta uma nova postagem, comemorativa desse um milhão e meio de visitas. Uma matéria sobre o Boi do Culóia, uma tradição tiradentina de antiga raiz cultural que deixou marcas no carnaval da histórica cidade de Tiradentes e um legado que possibilitou continuidades, sob novos formatos, adequando-se a cada tempo e circunstância. Esperamos que esta postagem seja útil às pesquisas e de agradável leitura. 

Nesta oportunidade agradeço imensamente, em nome do blog TRADIÇÕES POPULARES DAS VERTENTES pela confiança no trabalho desenvolvido, fidelidade e acompanhamento dos leitores, sem os quais certamente esta página eletrônica já estaria desativada há muito tempo. As visitas numerosas, as pesquisas feitas aqui no conteúdo e o uso das matérias para atividades de educação patrimonial são o melhor estímulo que tenho tido para continuar escrevendo e pesquisando. Vamos em frente! Gratidão! 

Ulisses Passarelli

*  *  *

A atual cidade de Tiradentes teve como primórdios o Arraial de Santo Antônio [1], fundado em 1702 por Tomé Portes del-Rei, então Guarda-mor das minas do Rio das Mortes, que tinha autoridade para tomar posse das terras auríferas em nome da coroa portuguesa e determinar a divisão dos lotes de mineração (datas minerais). Esse primeiro ouro foi-lhe revelado por outro bandeirante paulista, João de Siqueira Afonso, experimentado minerador, que de retorno a São Paulo, a partir de seus descobertos no Tripuí e em Guarapiranga, passou pelo núcleo de povoamento primitivo estabelecido por Tomé Portes, o Arraial do Rio das Mortes, que funcionava como ponto de hospedagem, reabastecimento de mantimentos e víveres, além de ser um posto onde se pagava taxa pela travessia fluvial. Observando nas areias indícios de presença de ouro, João de Siqueira Afonso deixou a Tomé Portes del-Rei as indicações precisas. Por esta razão, ao primeiro cabe o papel de descobridor e ao segundo de fundador, consideradas, respectivamente, a experiência no garimpo e a autoridade para fundar (Henriques, 2006). 

Como outras localidades do período, rapidamente o arraial se expandiu impulsionado economicamente pela riqueza mineral e logo alcançou o foro de vila, em janeiro de 1718, passando a se chamar São José do Rio das Mortes e posteriormente São José del-Rei (Velloso, 2013; Wikipédia, 2026). Foi alçada à condição de cidade  pela Lei provincial n.° 1.092, de 7 de outubro de 1860 (IBGE, 2026).  Logo após a entrada da República foi denominada Tiradentes [2]. É uma cidade situada no trecho médio do Rio das Mortes, em um vale próximo à foz do Rio Elvas, tendo como exuberante cenário de fundo a Serra de São José, assemelhando-se a uma muralha rochosa, com o sopé revestido por Mata Atlântica. A população estimada para 2025 é de 8.056 pessoas (IBGE, 2026).

Tiradentes, São João del-Rei, Prados e Santa Cruz de Minas – considerados os nomes atuais – são municípios que outrora constituíram um forte núcleo de mineração aurífera no médio Rio das Mortes, compartilhando entre si uma cultura coirmã, muito embora, cada qual, com suas peculiaridades. No que tange a Tiradentes, uma vez que a mineração se tornou decadente, o comércio, já previamente estabelecido, exerceu um papel preponderante na manutenção da economia, marcada pelo movimento do tropeirismo, que garantia o fluxo de mercadorias para fora da localidade e que marcou a cultura local (Cruz et al., 2014). 

No decurso do século XX a cidade tinha um ar interiorano, de pequena movimentação, munida de um casario de elevadíssimo valor arquitetônico, muita história, arte e cultura, com um cenário ímpar em sua inserção na paisagem. Essas características singulares chamaram a atenção dos meios cinematográficos e televisivos dos anos noventa em diante e o adentrar do século XXI, a tendência a ser cenário de filmagens, cinema, minisséries, novelas se expandiu rapidamente, embora já iniciada antes. O lugar se tornou afamado, valorizou-se economicamente e a atividade turística reacendeu Tiradentes. Atualmente diversos segmentos do turismo podem ser observados no local, notadamente o turismo cultural e o de eventos. Não obstante esse campo exitoso, o turismo local tem algumas características massivas e impacta a cultura local, exige uma atenção de gestão muito especial, a fim de minimizar os conflitos e envolver a população no processo (Pellegrini Filho, 2000). Entretanto, a longa discussão que se abre diante desse quadro não cabe nessas páginas, mas certamente pode ser detectada também no carnaval tradicional. 

Cruz et al. (2016, p.19 e 20) ao comentar sobre o carnaval tiradentino, revelou como na década de 1960 havia rivalidade entre clubes carnavalescos locais, estimulando a elaboração de carnavais muito animados. Mas que, vencida essa fase, o carnaval dessa cidade histórica “se reduziu ao Boi do Culóia”, expressão que denota a significação que essa manifestação cultural alcançou. Segundo os autores, “Culóia” era a alcunha de: “Geraldo Bibiano Ferreira (2/12/1944 – 6/4/1986), filho de Oscar e Geralda Ferreira, era torcedor entusiasta do Aimorés Futebol Clube e participava com sua alegria dos piqueniques no alto da serra.” Seu boi era feito à moda tradicional, a partir de uma caveira bovina, afixada a um balaio de bambu, emborcado para fazer as vezes de corpo do animal e a cobertura por tecido de chita, que imitava o couro. Consta ainda, que, “além do boi, Culóia criou uma série de personagens carnavalescos. O Preto Velho perambulava pelas ruas e a Nega Maluca dançava com muita irreverência e era acompanhada por todos. Vestia-se de mulher e mantendo seus longos bigodes.” Ainda se referem que no ano 2000 a Escola Estadual Basílio da Gama, ao buscar um resgate das memórias do carnaval tiradentino, criou o Bloco Reviver, por meio do qual presta-se homenagem a “esse folião tão alegre que, por algum tempo, fez a festa praticamente sozinho. O boi foi reconstruído e mais uma vez, esteve nas ruas fazendo a alegria da criançada e abrindo oficialmente o carnaval da cidade.” Luiz Cruz ponderou ainda uma observação bastante significativa sobre o Culóia [3]: 

Culoia criava personagens para cada dia do Carnaval, uma vez saiu de Cigana, com compridas tranças, em vestido longo muito rodado e seios volumosos. Nesta fotografia da década de 1980, ele saiu de PRETO VELHO e fez a alegria dos tiradentinos e dos raros turistas. O tempo passa, o tempo voa. Culoia fez uma referência a uma entidade de matriz afro, isso há décadas; tudo transcorreu naturalmente e no contexto momesco. Recentemente, Tiradentes se revelou muito preconceituosa e racista, a espelhar atraso e pobreza espiritual. Carnaval é alegria, cultura, memória e ruptura de paradigmas. 

Culóia, fantasiado de preto velho, em um carnaval tiradentino da década de 1980. 
Autor e data não identificados. Fonte: Cruz et al. (2016). 

No entanto, sobre o Boi do Culóia, é importante ressaltar a informação pessoal gentilmente concedida em 27 de agosto de 2025, pelo historiador Olinto Rodrigues dos Santos Filho, grande conhecedor da memória, história e tradição tiradentina, segundo o qual, houve anteriormente o “Boi do Sô Bento”, na década de 1940, o qual descia com o grupo a partir da Santíssima Trindade, pouco antes do carnaval, como que o anunciando, na quinta e sexta-feira. Seria aparentado ao Culóia, que teria mais tarde dado seguimento à tradição, ao criar seu próprio boi, já nos anos setenta. 

Ao que parece o Boi do Culóia, como herdeiro do Boi do Sô Bento, foi uma manifestação pautada no tradicionalismo, capaz de arregimentar participantes e admiradores, desenvolvendo-se com simplicidade e originalidade. Pelo menos é o que se depreende de diálogos com pessoas que presenciaram a manifestação, há muito desaparecida e da qual praticamente não restou ou muito pouco há de documentação audiovisual e imagética. 

O novo estado de ser da cultura carnavalesca tiradentina, ainda comporta um boi como o que era feito pelo Culóia? Esta pergunta retórica ecoa com algumas possibilidades de resposta. David Nascimento, ao discorrer sobre as relações da cidade com a loucura, sintetiza as transformações da urbe, que podem ser transpostas para o contexto ora em análise: 

Em Tiradentes, até o final da década de 1980 e início da de 1990, era comum encontrar alguns loucos por suas ruas, fossem eles dali ou vindos de outros lugares, como Bichinho (Vitoriano Veloso), distrito de Prados. Além de ter certa “liberdade” no deslocamento dos ditos loucos, poderia chamar atenção a forma como a cidade e seus moradores se relacionavam e os incluíam. As mudanças econômicas e políticas passadas por Tiradentes ao longo de seus quase trezentos anos poderiam dar indícios de como eram as condições que possibilitaram certas relações, já que, diferente de outras cidades mineiras do ciclo do ouro, o lugar não teve grande desenvolvimento econômico a partir da queda da produção aurífera, o que influenciou as relações de trabalho e sua organização. (p.79-80) (...) o abandono da cidade, devido seu empobrecimento político e financeiro durante os sécs. XIX e XX. Assim observado, a partir de tal empobrecimento e dos desmembramentos em novas vilas e cidades, Tiradentes se retrai e perde sua importância no cenário político (p.83). (Nascimento, 2017). 

Em outra fonte, o mesmo autor chamou a atenção para as perdas de identidade decorrentes das amplas medidas de preservação do patrimônio material, sem equivalência condizente com o patrimônio imaterial, associado a outras questões decorrentes da grande transformação deflagrada a partir da atividade turística, na forma como se transcorreu em Tiradentes. Mencionou o deslocamento populacional da comunidade autóctone para os espaços periféricos, “a inexistência de sentido/relação entre as cidades” e seus patrimônios, como possíveis problemas. A partir disso podem surgir efeitos negativos, tais como “depredações do patrimônio material, desrespeito com as manifestações culturais (patrimônio imaterial), crescimento da violência” e, tanto mais, desenvolver-se: 

ressentimento e a crença de que ocorre injustiça/desigualdade (de direitos). Tal crença funda uma situação de oposição entre “nós” (os moradores de Tiradentes) e “eles” (turistas, parte do empresariado e poder público). Por fim, isso pode ser observado quanto à certa insatisfação que indica a falta de relação/perda do “bem comum” (espaço público), da “identidade cultural” ou do patrimônio (i)material (Nascimento, 2023). 

Tais narrativas parecem demonstrar uma desambientação; um esfacelamento do antigo modus vivendi para atender a novas perspectivas ditadas pela virada econômica e social trazida pelo turismo. Nessa linha de raciocínio, das transformações da comunidade tiradentina, Rogério Paiva ao tratar do mito do Caboclo d’Água revela nas entrelinhas como a tal desambientação também abalou a própria transmissão do mito e as vivências simples do lugar: 

os “causos” contados por nossos avós e que se referem a uma cidade que não existe mais, a um tempo em que a crendice e a ingenuidade permitia o diálogo do real com o fantástico. Sonhar era permitido. Não há muito tempo (entenda-se década de oitenta para trás) era comum uma roda de conversa à noite, na porta da casa, em que os mais velhos contavam histórias para uma plateia de meninos invariavelmente curiosos e amedrontados. Eram histórias dos tempos em que a cidade ainda era uma ruína colonial, sem energia elétrica e sem movimento (Paiva, 2012). 

Neves (2013) demonstrou as mudanças a partir dos tombamentos de centros históricos em 1938 pelo SPHAN, mais voltado para valores arquitetônicos e notavelmente as fachadas dos imóveis, o foco no barroquismo (p.32). Em Tiradentes sobreveio mais tarde ações de recuperação de imóveis a partir dos anos 1980, fato que contribuiu “para o surgimento de estudos relacionados ao potencial turístico que a cidade oferece e para que, com o tempo, surgisse o turismo elitizado, onde a área central de Tiradentes passou pela transmutação e os imóveis residenciais irão se tornar estabelecimentos comerciais” (p.43). No entanto, a propaganda turística ganhou forças em meados da década seguinte e ocorreu um “processo de (re)construção do “centro histórico” como uma “autêntica” vila barroca mineira, em verdade um cenário-simulacro-mercadoria a ser consumido por turistas de alto poder aquisitivo” (p.44). Prossegue o autor alertando que: 

esse processo de transmutação da área central fez com que ela ganhasse uma nova história territorial e se convertesse em “espetáculo”, “simulacro” ou não lugar, um espaço “gentrificado” com edificações “históricas” a serem consumidas por turistas. Essa transmutação fez com que grande parte da população de origem tiradentina fosse excluída do “usufruto” da área central da cidade e com que os edifícios históricos ganhassem novas funções socioeconômicas (Neves, 2013, p.64). 

Pelo visto, para compreender a continuidade do Boi do Culóia é preciso trazer em mente estas transformações e não apenas apontar a ausência (sempre lamentável) de seu organizador. Para além, a cidade vivencia um novo clima cultural. 

Nessa perspectiva é fundamental discorrer sobre a experiência escolar extraordinária desenvolvida na Escola Estadual Basílio da Gama. O Bloco Reviver que é organizado nessa unidade de ensino, mescla cultura, educação patrimonial e entretenimento, envolvendo intensamente os jovens estudantes e crianças, professores e demais funcionários, na organização da agremiação. Para além dos trabalhos de bastidor, que antecederam por dias ao desfile, certamente fruto de longo trabalho e planejamento, o dia maior, conforme observado em 2026, foi marcado pela escola de portas abertas à comunidade, devidamente enfeitada como motivos carnavalescos. No seu pátio central estudantes em franca animação estavam enfeitados de diversas formas e havia material disponível para incrementarem suas fantasias. Estandartes marcavam o ambiente e um boi, montado sobre uma carriola metálica, estava em posição de destaque. Coberto de chita e feito com uma caveira bovina relembrava o antigo Boi do Culóia. Pouco antes da saída, foi feito internamente um concurso de fantasias. Logo irrompeu uma banda de metais, tocando inúmeras marchinhas carnavalescas. 

A saída foi pela manhã daquela sexta-feira prévia de carnaval oficial, no ano de 2026, em torno das dez horas. Rua afora, o cortejo momesco transcorreu com imensa animação, boa organização e segurança, rumo à parte central da cidade. Aberto pelos estandartes e fechado pela banda, tinha ao centro os estudantes, docentes e funcionários como foliões, cantando e pulando as marchinhas, uma profusão de confetes e serpentinas. O efeito visual de muitos aros enfeitados, brandidos no ar, chamava a atenção de longe, como adereço dos foliões. E adiante deles, um homem conduzia o boi sobre o carrinho, apenas empurrando-o, embora que ritmadamente, como se acompanhasse a toada das marchinhas. 

Basicamente o desfile tem essas características e admite algumas observações pertinentes. De início que, o movimento histórico do tropeirismo pode, eventualmente, ter deixado marcas de costumes e um ambiente cultural propício ao desenvolvimento desse tipo de manifestação. Tropeirismo entendido no sentido amplificado, não apenas no que diz respeito apenas às tropas em si, mas à vida rural como um todo, representada pela cultura de tropeiros, boiadeiros e carreiros (Passarelli, 2013). O Boi do Sô Bento e o Boi do Culóia aparentemente se alinham com essa perspectiva, mesmo inseridos na folia momesca. Sua inativação também parece representar uma transformação na cultura local, aproximadamente coincidente com o início da reconfiguração da cidade para atender ao grande fluxo turístico ao qual se abriu. Não surgiram novas lideranças capazes de seguir com o Boi após o falecimento de Culóia. Outras cidades regionais também com forte ligação ao tropeirismo, igualmente tiveram ou têm seus bois, a exemplo de Dores de Campos e Prados, dentre outras (Passarelli, 2023). 

Outra consideração é sobre as homenagens subsequentes à figura do Culóia. Para além do ser humano em si e do seu legado, daquilo que fez como marca cultural, sugere-se a representação de uma memória saudosista, de algo que já não é mais como se fazia. Como se o modelo do passado fosse uma referência de identidade à qual se rende homenagens e se busca referências para a recriação ou releitura da manifestação. Isto é possível graças ao sentimento de pertença gerado, que se ancora no modelo passado, tido como fonte de autenticidade, que ainda faz sentido para a comunidade autóctone ou pelo menos parte dela. 

Em paralelo, a própria ocorrência abundante de atividades culturais primordialmente desconectadas da cultura local de raiz, provoca uma reação inversa, revivescência ou afirmação de identidade à título de resistência cultural. Assim, mesmo diante de modificações performáticas, o nome do Culóia e o símbolo do boi sobrevivem ao tempo. 

Por fim, chama a atenção o boi ora desprovido de um personagem humano interiorizado na alegoria (“miolo” ou “tripa”), uma vez que se encontra estático sobre um carrinho ou carriola. Seu movimentador vem agora exposto e não oculto sobre o chitão. Em uma observação rasa isso ao primeiro olhar aparenta ser uma descaracterização nua e crua. Conforme o viés analisado, pode de fato receber essa interpretação. Mas há circunstâncias específicas, talvez, a segurança dos alunos fosse mais comprometida ante o Boi em livre movimentação, nas suas correrias e pegas. Por outro lado, é preciso rememorar que em Goiana, Pernambuco, os desfiles da Aruenda, desde datas remotas, traziam a figura alegórica rígida de um animal sobre um carrinho (no caso um leão com uma coroa à cabeça), ao centro do desfile, embora que o contexto fosse outro (Oliveira, 1949). Também observado em alguns maracatus de outrora, referiu-se Cascudo (s/d, p.553) que “às vezes reaparecem animais de palha ou de madeira, reminiscências totêmicas de tribos, desfilando, como diante do rei do congo, eleito e aclamado na escravidão e no exílio dos engenhos de açúcar.” Os exemplos pernambucanos da Aruenda e do Maracatu, folguedos de matriz africana, apenas visam nesse texto explicitar que o caso tiradentino do boi sobre um carrinho não é o único no universo das manifestações da cultura popular brasileira, porquanto atende ao objetivo figurativo. Tanto mais, o novo formato que reconfigura a dinâmica do boi não aboliu sua figura duradoura, que resiste, seja assim sobre roda ou estampado no estandarte, o que demonstra seu forte simbolismo e ancoragem enquanto referência cultural. Não apenas na experiência escolar em si, na qual o Boi do Culóia renasce dentro do Bloco Reviver, mas também, a nível teatral, como as representações efetivadas no ano de 2014, pela Oficina de Teatro Entre & Vista [4], que prestou sua homenagem ao Boi do Culóia, como se observa na iconografia do presente texto. Ainda outro bloco, o tradicionalíssimo Os Abandonados, em alguns desfiles inclui a figura do boi. A força memorialística do personagem Culóia e de seu boi perseveram em resistência ao tempo, como um verdadeiro legado.

Existe sempre a possibilidade, tanto que o boi em Tiradentes prossiga nessa nova configuração, quanto, outrossim, que dentre os jovens estudantes surja uma liderança que resgate o boi como era, ou pelo menos, mais aproximado aos esforços de Sô Bento e do Culóia. O tempo dirá. 









Atividade cultural da Oficina de Teatro Entre & Vista de homenagem ao Culóia e seu boi em 2014, em Tiradentes. 
Autor: David Inácio Nascimento. 




Cena do Bloco 'Os Abandonados', em Tiradentes [5], data não identificada, incluindo uma alegoria de boi, com estética que rememora não os bois regionais, mas sim os bois maranhenses. Autor: Luiz Antônio da Cruz. 




Cenas do Bloco Reviver, mantendo a tradição dos bois no carnaval de Tiradentes. Alegoria do boi parcialmente mantida em característica típica: caveira de boi, ornamento de flores e fitas, cobertura de tecido de chita. Corpo alterado para caixa em vez de balaio. Ainda com a presença do “miolo” humano movimentando o boi. 
Autor: Luiz Antônio da Cruz. Data: não identificada. 








Aspectos do desfile do Bloco Reviver a partir de seu ponto de organização e concentração, na Escola Estadual Basílio da Gama, em Tiradentes, a 13/02/2026, observando-se: banda de metais que faz acompanhamento; a persistência temática da figura do boi em um dos estandartes; a alegoria do boi, convertida em peça montada sobre uma carriola, arrastada pelas ruas; ampla participação de jovens estudantes. Autor: Ulisses Passarelli. 

Referências 


ALVARENGA, Luís de Melo. São João del-Rei e seu Fundador. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, v.4, 1986.105 p. p.7-13. 

CRUZ, Luiz Antônio da (Org); BOAVENTURA, Maria José (Org.); GOMES, Márcia Heliane (Pesq.); CRUZ, Suelen Lopes da (Pesq.). Memória Tropeira. Tiradentes: Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes, 2014. 70p. il. 

CRUZ, Luiz Antônio da (Org); BOAVENTURA, Maria José (Org.); GOMES, Márcia Heliane (Pesq.); CRUZ, Suelen Lopes da (Pesq.). Memória e Tradições Populares. Tiradentes: Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes, 2016. 112p. il. 

HENRIQUES, José Cláudio. Bairro de Matosinhos: berço da cidade de São João del-Rei. São João del-Rei: UFSJ, 2003. 

IBGE. Tiradentes. Portal Cidades. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/tiradentes/panorama  Acesso em 11 set. 2026. 

NASCIMENTO, David Inácio. A loucura na vila: reflexões sobre a loucura em Tiradentes. Interthesis, v.14, n.1, jan.abr. 2017, Florianópolis. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/interthesis/article/view/1807-1384.2017v14n1p79 Acesso em 07 set. 2026. 

NASCIMENTO, David Inácio. Turismo, identidade cultural e pertencimento: os riscos de depredação de cidades históricas. I Seminário de Segurança e Turismo – 13ª RPM. São João del-Rei, Polícia Militar, 16 ag. 2023. 

NEVES, Rodrigo. História e turismo: a “mercadorização” do “patrimônio histórico” e a elitização da área central de Tiradentes, Minas Gerais (1980 -2012). 2013. 134 f. il. Dissertação (Mestrado em História). Universidade Federal de São João del-Rei. Departamento de Ciências Sociais, Política e Jurídicas. 

OLIVEIRA, Waldemar de. Outro bailado típico de Goiana: a Aruenda. Contraponto. Recife. n.11. Dez.1949. 

PAIVA, Rogério. Por onde anda o Caboclo d’Água. Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes, 29 nov. 2012. Disponível em: https://ihgt.blogspot.com/2012/11/por-onde-anda-o-caboclo-dagua.html Acesso em 07 set. 2026. 

PASSARELLI, Ulisses. Caminhos do Folclore: Estrada Real - caminho de tropas, boiadas e folclore. Tradições Populares das Vertentes, 26 jun. 2013. Disponível em: https://folclorevertentes.blogspot.com/2013/06/estrada-real-caminho-de-tropas-boiadas.html Acesso em 20 set. 2026. 

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VELLOSO, Herculano. Ligeiras memórias sobre a vila de São José em tempos coloniais. 3.ed. Tiradentes: Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes, 2013. 108p. 

WIKIPÉDIA. Tiradentes. 2026. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Tiradentes_(Minas_Gerais) Acesso em 16 ag. 2026. 

Créditos 

- Texto: Ulisses Passarelli, 16/08/2026-20/09/2026. 
- Fotografias: conforme legenda. 

Notas 


[1] Três anos mais tarde, em 1705, quando se estabeleceu o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar, aproximadamente na área que hoje corresponde a uma parte do Centro Histórico de São João del-Rei, o Arraial de Santo Antônio, por ser anterior, passou a ser cognominado “Arraial Velho”. (Alvarenga, 1986). 

[2] Por força do Decreto Estadual n° 3, de 06 de dezembro de 1889 (Wikipédia, 2026).

[3] Facebook, Luiz Cruz, postagem de 26/02/2025. Disponível em: https://www.facebook.com/story.php?story_fbid=10222474606888486&id=1669036113&rdid=Ao1Rmkuvp1TLqyJ4#  Acesso em 09 set. 2026.

[5] O mesmo bloco, contudo, no ano 2000, segundo fotografia publicada em livro, já abrigava um boi em formato tradicional da região (Pellegrini Filho, 2000 - Prancha 28E).  

- Agradecimentos especiais aos tiradentinos colaboradores dessa postagem, que gentilmente cederam imagens e/ou informações preciosas: César Reis, David Inácio Nascimento, Luiz Antônio da Cruz e Olinto Rodrigues dos Santos Filho.