São relativamente poucas as informações
que se dispõe sobre a história desse distrito. Estudos ora em curso confluem ou
trazem evidências que surgiu à margem do Caminho Geral do Sertão, via de acesso
do período colonial, consolidada no século XVII, pela qual os sertanistas
adentravam o território, expandindo-o à custa do apresamento dos indígenas e em
contínua busca de riquezas minerais (Passarelli, 2025). No entanto, a pesquisa
não é conclusiva, pois ainda coteja documentos, rastreia relatos de época,
traceja possíveis rotas, procura em campo as velhas cavas e caminhos
abandonados. Não há informação concreta, mas sim evidências, que apontam uma
possibilidade plausível.
Em
extensão territorial o distrito é relativamente pequeno, com 96,51 km2
(Wikipédia, 2026), o menor de São João del-Rei. Dessa cidade, se divide a
leste-sudeste pela elevação da Serra do Lenheiro. Sua divisa norte e noroeste
acompanham o itinerário do Rio das Mortes, tendo o município de Ritápolis na
margem oposta. A divisa oeste e a sul se fazem por linha sinuosa que atravessa
as elevações, dividindo São Gonçalo do Amarante respectivamente do município de
Conceição da Barra de Minas e do distrito são-joanense de Santo Antônio do Rio
das Mortes Pequeno.
A
população do distrito de São Gonçalo do Amarante, segundo dados do IBGE do ano
2010, era de 1.035 pessoas, sendo a população do setor[1]
(sede distrital) da ordem de 265 pessoas residentes (142 homens, 123 mulheres),
em domicílios particulares que totalizam 141 unidades, sendo 89 ocupadas (IBGE,
2019).
À
margem de um antigo caminho
O Caminho Geral do Sertão a partir
de São Paulo, grosso modo, surgiu pelo aproveitamento e alargamento de antigas
trilhas indígenas. Seguia pelo vale do Rio Paraíba do Sul, até a zona de
travessia da muralha natural da Serra da Mantiqueira, mormente a Garganta do
Embaú, pela qual se alcançava o alto serrano que corresponde ao atual sul do
Estado de Minas Gerais. O caminho trilhava a norte, até alcançar o Rio das
Mortes, em Ibituruna. Daí por diante, há divergências de interpretação, talvez
geradas por bifurcações do caminho. Seja como for, ou o caminho em si, ou uma
derivação dele, rumava a leste, em direção ao trecho médio do Rio das Mortes,
onde havia um ponto de travessia, entre as elevações visíveis à longa
distância, depois chamadas Serra do Lenheiro e Serra de São José. Daí por
diante o caminho tomava rumo nordeste, em direção à região do Rio das Velhas. (Derby,
1899-A; Derby, 1899-B; Guimarães, 1985). Entre as duas serras supracitadas,
floresceu a cidade de São João del-Rei e do lado oposto da Serra do Lenheiro, a
noroeste imediato da cidade, surgiu o distrito de São Gonçalo do Amarante.
Tal caminho, contudo, em fins do
século XVII ou início do XVIII recebeu um atalho na altura da roça de Manoel de
Sá, na área hoje no sul de Minas (Mourão, 2019). Com isto, o trecho até a
travessia do Rio das Mortes ficou bastante encurtado, abreviando a viagem: o
atalho rumava à Serra das Carrancas e atravessava o Rio Grande cerca de onde
hoje se situa as comunidades de Capela do Saco e Caquende, saindo a seguir no
povoado do Tijuco, Rio das Mortes Pequeno e por fim na área que se formou São
João del-Rei (Antonil, 1711; Brito, 1732). O atalho deixou fora do tráfego
maior de viajantes todo o trecho relativo a Ibituruna. O lugar do atalho, onde
a estrada bifurcava, passou a ser denominado de Encruzilhada; mais tarde,
Cruzília (Lima Júnior, 1985). O Caminho Geral do Sertão foi cognominado
“Caminho Velho”, aproximadamente a partir do ano 1700, quando a abertura ou
melhoria do caminho entre o Rio de Janeiro e as minas motivou sua denominação
em “Caminho Novo”; ao passo que o Caminho Geral do Sertão, sendo anterior,
recebeu a alcunha de Velho, prevalecendo a partir daí essa denominação (Guimarães,
1986).
Diante disso, como dito, todo o
trecho conectado a Ibituruna, perdeu bastante seu protagonismo. Mas Ibituruna,
considerada sob a fundação de Fernão Dias Paes em 1674 (Pompéia, 2009),
prosseguiu ligada a São João del-Rei até sua emancipação em 1962. O caminho de
interligação entre os dois lugares, possivelmente corresponde em grande parte
ao primitivo leito do Caminho Geral do Sertão, que passava por Conceição da
Barra de Minas (também emancipada de São João del-Rei em 1962), surgida do
povoado da Boa Vista, no qual se erigiu na década de 1720 a capela dedicada a
Nossa Senhora da Conceição. Segundo Antônio Gaio Sobrinho, no seu livro “Memórias
de Conceição da Barra de Minas”, ao mencionar Fernão Dias Paes e a sua famosa
Bandeira das Esmeraldas, em 1674-5, o mesmo teria seguido: “inicialmente, direção paralela ao curso do Rio das Mortes, atravessou
as regiões que seriam depois Conceição da Barra e São Gonçalo do Brumado. Cerca
de doze léguas distante de Ibituruna, vadeou o rio, rumo ao Norte, no local
que, posteriormente, se chamaria “Porto Real da Passagem” (Gaio Sobrinho,
1990, p.21).
Esse
autor defendeu a hipótese de ser esse o Caminho Geral do Sertão, e apresentando
a defesa, manifestou que “o dito caminho
de ligação, entre Ibituruna e São João del-Rei, passava por Conceição da Barra,
São Gonçalo do Brumado, Santo Antônio do Rio das Mortes e até São João.” (Gaio
Sobrinho, 1990, p.22).
A partir de Conceição da Barra de Minas, a Serra do Mama Rosa era o marco geográfico de direção na paisagem; e, passando pela área do atual povoado da Boa Vista (não aquele que deu origem a Conceição da Barra de Minas), vinha a referência altaneira da Serra do Caxambu e daí ao atual São Gonçalo do Amarante; deste à Serra do Lenheiro e São João del-Rei.
Antiga cava paralela à atual estrada do Caburu, na
travessia do
vale do Ribeirão do Brumado: possível vestígio do Caminho Geral do Sertão.
Alterações
toponímicas
A região distrital era rota firmada
e ponto de paragem. É desde então que surgem notícias de São Gonçalo do
Brumado, nome primitivo do local. “Brumado” refere-se à peculiaridade
climática, favorecida pelas condições úmidas e montanhosas do lugar, com abundância
de nevoeiro, brumas – brumado é lugar de muitas brumas, neblina, serração. Há
pouca distância corre o Ribeirão do Brumado. No entanto, outra interpretação
sugere que o nome brumado procede de embromado, no sentido de logro, engano,
equívoco – uma referência ao lugar que se tinha uma expectativa de ter riquezas
minerais, mas que revelou-se desprovido ou com quantidade pouco compensadora de
ouro e outros minérios de valor.
O nome original setecentista é alterado por força da Lei nº843, de 1923,
passando a se chamar Caburu, palavra de origem indígena tupi, com duas
possibilidades de tradução: junção de “cab” (vespa, marimbondo) com “uru”
(cesto, balaio), ou seja, a caixa de marimbondos; o vespeiro. Outra hipótese é
ser corruptela de “cabaru”, que significa cavalo. O topônimo permaneceu até 28
de junho de 1990, quando a Resolução nº 1.081 da Câmara Municipal de São João
del-Rei alterou o nome do distrito para São Gonçalo do Amarante, com plena referência
ao padroeiro (Passarelli, 2014).
Reprodução da Resolução nº1.081, de 28/06/1990, da Câmara Municipal de São João del-Rei, a qual altera o topônimo Caburu para São Gonçalo do Amarante na designação distrital.
1720-1730:
construção da Igreja de São Gonçalo do Amarante no então arraial de São Gonçalo
do Brumado (Wikipédia, 2026).
1732:
construção da Igreja de São Gonçalo do Amarante no então arraial de São Gonçalo
do Brumado (Cintra, 1982).
1738:
a 10 de fevereiro é batizado Gonçalo, na igreja de São Gonçalo do Amarante. Era
filho de Lourenço Ribeiro Brito e de Quitéria Corrêa de Almeida. O celebrante
foi o capelão Padre Dionísio Ferreira Alves (Cintra, 1982).
1738:
a 20 de junho é aprovado o documento estatutário (Compromisso) da Irmandade de
São Gonçalo do Amarante (arquivo da Diocese de São João del-Rei/acervo do Museu
de Arte Sacra).
1746:
um “Auto de vereança determina a Francisco
Ribeiro, ‘morador ao pé de S. Gonçalo’, a Francisco Martins Guimarães e a seu
sócio Antônio Duarte, moradores no Sítio do Pega Bem, que providenciassem a
abertura de caminhos” (Cintra, 1982).
1749:
“Os moradores das capelas de N.S. da
Conceição da Barra, São Gonçalo da Ibituruna, N. S. de Nazaré, São Gonçalo do
Brumado, Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, filiais do Pilar de São João
del-Rei, pedem a criação da paróquia de N.S. da Conceição da Barra”
(Guimarães, 1995).
1777:
A) a 14 de setembro escravizada parda Ana e seus filhos são libertos da Fazenda
do Pega-bem pela escritura assinada por Francisco Martins Guimarães e sua
esposa, Maria Ribeira da Silva. Há um registro que o dito fazendeiro foi
padrinho de um batizado realizado na capela de São Gonçalo do Amarante, em 28
de outubro de 1743; B) a 19 de setembro Manoel da Costa Vilas Boas e Gama é
empossado como Capitão de Ordenança do distrito de São Gonçalo do Brumado (Cintra,
1982).
1792:
a 15 de dezembro, “O Visconde de
Barbacena assina Carta de Sesmaria a favor de Jerônimo José Martins – ‘meia
légua de terras em quadra’, terras devolutas
situadas no Pega-bem, atual distrito do Caburu, confinado com terras do Ten.
Bonifácio Gonçalves de Aguiar, com o engenho do Cap. Manoel da Costa Vilas Boas
da Gama, e com o engenho do Cap. Manoel da Costa Vilas Boas Gama, e com as do
patrimônio do Pe. João da Costa Guimarães, e as dos herdeiros de Francisco Lobo
Rios.” (Cintra, 1982).
1804:
falecimento do Alferes Jerônimo José Martins na Fazenda do Pega-bem, distrito
de São Gonçalo do Brumado. Era português natural da freguesia de São Torquato,
termo da vila de Guimarães, Arcebispado de Braga. (Cintra, 1982).
1807:
falecimento em 05 de agosto do Tenente Bonifácio Gonçalves de Aguiar, cujo
testamento se deu na Fazenda do Caxambu, no distrito de São Gonçalo do Brumado (Cintra,
1982).
1809:
a 9 de dezembro,“Joaquim de Souza Lopes é
eleito Juiz da Vintena das Aplicações de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno
e São Gonçalo do Brumado”. (Cintra, 1982).
1811:
a 15 de agosto, “o Conde de Palma concede
a José Gonçalves de Aguiar a patente de Cap. do Distrito de S. Gonçalo do Brumado”.
(Cintra, 1982).
1815:
aprovado o documento estatutário (Compromisso) da Irmandade de Nossa Senhora do
Rosário, que congregava os homens negros. No entanto, evidencias textuais
apontam que a irmandade já existia anteriormente e inclusive existe recibo
avulso do século anterior (arquivo da Diocese de São João del-Rei/acervo do
Museu de Arte Sacra).
1828:
a Fazenda do Mama Rosa, na área de São Gonçalo do Brumado, é vendida a seis de
dezembro pelo Capitão-mor Francisco de Paula Vilas Boas e Gama e sua esposa,
Rosa Joana do Vale Amado de Abreu e Melo, ao Guarda-mor Luiz Fortes de
Bustamante e Sá. (Cintra, 1982).
1829:
a 03 de julho, Manoel José da Silva é nomeado para o cargo de zelador da Capela
de São Gonçalo do Amarante. (Cintra, 1982).
1830:
Nasce em São João del-Rei a 30 de julho o Coronel Aureliano Mendes da Silva
Caldas, o qual foi fazendeiro em São Gonçalo do Brumado (Cintra, 1982).
1838:
falece a 23 de março o Padre-mestre e Orador Sacro Manoel da Paixão e Paiva,
que fez parte da Aula Régia de Latim. Ao falecer, deixou diversos filhos
reconhecidos em seu testamento, dado na Fazenda Retiro Venturoso. De sua
propriedade deixou 19 escravizados e as Fazendas do Mundo-vira e de São
Gonçalo. As três fazendas mencionadas estavam no território de São Gonçalo do
Brumado (Cintra, 1982).
1840:
a 14 de abril, o Alferes José Cândido Alves é confirmado para o posto de
Inspetor de Quarteirão de São Gonçalo do Brumado. (Cintra, 1982).
1850:
a lei nº 472, de 31 de maio, restaura o distrito de São Gonçalo do Brumado que
fora abolido na primeira metade daquela centúria (Barbosa, 1971).
1865:
Lei nº 1.265, de 19 de dezembro, suprime o distrito (Barbosa, 1971).
1866:
falece a dois de janeiro o alferes José Cândido Alves, na Fazenda do Brumado.
Era natural de São João del-Rei, filho de João Damasceno Alves e Tereza Maria
de Jesus. Foi Juiz de Paz e Subdelegado no distrito e membro da Irmandade do
Santíssimo Sacramento. Seu corpo foi sepultado no Cemitério de São Francisco (Cintra,
1982).
1868:
Lei nº 1.561, de 20 de julho, restabelece o distrito (Barbosa, 1971).
1875:
Lei nº2.103, de 04 de janeiro extingue o distrito de São Gonçalo do Brumado (Barbosa,
1971).
1875:
Lei nº 2.142, de 28 de outubro, novamente restaura o mesmo distrito (Barbosa,
1971).
1876:
Lei nº 2.281, de 10 de julho, eleva a Capela de Santo Antônio, no Rio das Mortes
a matriz paroquial. Engloba também o distrito de São Gonçalo do Brumado, como
freguesia (Barbosa, 1971; Barbosa, 2008).
1890:
Decreto nº 131, de 03 de julho eleva o antigo distrito policial de Santo
Antônio do Rio das Mortes Pequeno a distrito de paz e extingue a Freguesia de
São Gonçalo do Brumado. Este também passa a distrito de paz (Barbosa, 1971;
Barbosa, 2008).
1900:
Lei municipal nº78, de 23 de novembro, suprimi o distrito de paz de São Gonçalo
do Brumado (Barbosa, 2008). A Câmara Municipal suprime o distrito de São
Gonçalo do Brumado, anexando-o ao distrito da sede. Com isto, os recursos para
o lugar foram reduzidos à metade. O ato gerou muitas discussões políticas. (O
Combate, n.30, 05/12/1900).
1903:
falece Romualdo Honório de Oliveira, a 11 de abril, o qual foi Juiz de Paz em
1890 em São Gonçalo do Brumado, negociante e fazendeiro, deixando vasta
descendência cuja genealogia foi organizada por Sebastião de Oliveira Cintra (Cintra,
1982).
1905:
Resolução nº320 da Câmara Municipal, de 03 de abril, autoriza obras para
conserto na estrada de São Gonçalo do Brumado (O Repórter, 1905).
1918:
falece José Pedro de Carvalho, na Fazenda do Gondou, a 28 de maio. (Cintra,
1982). 1923: A) Lei nº843 restabelece a Freguesia de São Gonçalo do Brumado,
com o novo nome de Caburu (Barbosa, 1971). B) É instalado o serviço de correio
no Caburu (A Tribuna, 1923) [2].
C) O livro de atas nº 2 (o nº1 está aparentemente desaparecido) do Apostolado
da Oração e Liga do Sagrado Coração de
Jesus indica a seguinte diretoria: Padre Frei Simeão van den Akker
(Diretor), sr. José Honório de Carvalho (Presidente), sra. Maria Estevan de
Carvalho (Vice-presidente), sr. Pedro Honório de Oliveira e sra. Rita Sérvula
dos Santos (Secretários). Além destes, havia vários zeladores e
associados (acervo da instituição).
1924:
no primeiro dia do ano houve a solenidade de instalação do recém-criado
distrito do Caburu. As intempéries prejudicaram a cerimônia. Houve discursos e ao
término, banquete (A Tribuna, 1924).
1926:
a 30 de maio ocorre a instalação distrito judiciário do Caburu, por força do
decreto 7.232, de 18 daquele mês e ano (Barbosa, 2008).
1936:
fundação da Conferência de São Gonçalo do Amarante, a 10 de maio – sodalício
religioso de natureza caritativa.
1945:
O grupo escolar de São Gonçalo do Amarante desaba devido ao abandono no qual as
autoridades o deixaram (Diário do Comércio, 1945).
1946:
transferência do cemitério do adro da igreja para o alto da colina, na entrada
do distrito, com inauguração a 22 de outubro.
2006:
ampla obra de reforma da Igreja e reconstrução do campanário.
2021:
obra emergencial no decorrer do primeiro semestre, de apoio à fundação do
ângulo anterior direito da igreja (esquerda do observador), o qual estava
apresentando problemas de recalque, gerando trincas e desaprumando da parede, a
ponto de afetar internamente o tirante.
2025:
encerramento das atividades da escola local. O prédio, um próprio municipal,
onde funcionou passou à gestão do Congo-vilão Nossa Senhora do Rosário por meio
de Termo de Cessão de Uso, válido por 15 anos, com a finalidade de servir de
sede ao congado e construção de um memorial da comunidade.
Aspectos
políticos e econômicos
É
mister observar que entre 1850 e 1923 o distrito foi várias vezes abolido e
reestruturado por força de leis, passando entre as categorias de povoado,
freguesia e distrito. Tal oscilação é sintomática de instabilidades econômicas
e pressões políticas, possível indicação que merece um estudo específico
aprofundado.
Além da atividade agropecuária
dessas fazendas, notícias orais dão conta que no passado explorou-se ouro de
aluvião na área distrital beira-rio em alguns córregos e grotas, com vestígios dos
serviços de mineração ainda visíveis. Para além, uma cartografia do final do
século XIX aponta em sua legenda áreas mineradas ao redor da sede distrital,
conforme a imagem abaixo.
Recorte cartográfico do mapa de São João del-Rei observando-se a posição de São Gonçalo e as marcações pontuadas imediatamente à sua esquerda (entre a sede distrital e o Córrego do Mama Rosa) e à direita (vale do Ribeirão do Brumado), correspondendo a áreas mineradas, segundo legenda do original. Fonte: Arquivo Público Mineiro. Ano: 1895.
No
mais, nas imediações da Pedra Ramalhuda minerou-se cassiterita (“minério de
casqueiro”), há cerca de 60 ou 70 anos passados, com raspagem da superfície do
solo, e ainda, nos anos 1980 retirava-se o mesmo minério ao sopé dos morros à
margem do Rio das Mortes, próximo ao leito ferroviário, abrindo-se pelo
barranco galerias de exploração, conhecidas por “mina-tatu”, por conta do
aspecto que tomavam, semelhante às escavações de um tatu (mamífero
dasipodídeo).
Fora
das rotas principais, representada pelo Caminho Velho e as variantes dele
nascidas, o pequeno arraial formado teve poucas possibilidades que favorecessem
seu crescimento. A população antiga ou sua significação econômica setecentista
pode ter sido maior no passado que se julga à primeira vista, tomando por base
a dimensão da igreja distrital, que de imediato impressiona ao visitante. Ela é
reveladora do poderio econômico de fazendeiros, que decerto devem ter
patrocinado a edificação. Fato é que nas primeiras décadas dos oitocentos a
realidade local era desanimadora, a ponto do militar português Raimundo José da
Cunha Matos, por lá passando na primeira metade do século XIX, ter afirmado que
o arraial era muito decadente, ainda que, o afirmou, tivesse se originado da
mineração, reconhecida fonte de riquezas (Matos, 1836).
A
atividade econômica se atém à agropecuária de subsistência, com o excedente da
produção voltado para comercialização. Nos meios folclóricos, a linguagem
popular atribuiu aos são-gonçalenses a alcunha senão tanto pejorativa, mas
antes, bem humorada, de “quiabeiros”, referência à venda de quiabo e outras
hortaliças e legumes para a cidade, trazidos no passado em lombo de burros
tropeiros, pelos tortuosos caminhos da Serra do Lenheiro, conforme explicitou Passarelli
(2013) em seu texto “Apelidos Gentílicos” [3].
A configuração espacial da vila de São Gonçalo do Amarante se desenha
imediatamente ao norte da estrada de acesso, polarizada ao sul pelo cemitério e
no extremo oposto pela Pedra Ramalhuda. A parte central se destaca pelo largo
gramado, amplo e plano, estabelecido diante da igreja do padroeiro, que é a
maior construção local e cartão postal. No largo também se revelam a presença
do antigo cruzeiro e ainda um coreto mais recente. Em 2016 foram instalados
aparelhos coletivos de ginástica pela municipalidade, entre o coreto e o
cruzeiro. O casario em sua maior parte é de um só pavimento e situa-se
circulando o largo, ou margeando as poucas ruas, como a que vem do cemitério, a
que vai para a Pedra Ramalhuda (Rua das Flores), a Travessa Cava Funda, a Rua
da Bomba (referência à unidade de bombeamento de água potável) e outras.
Considerações finais
O
distrito de São Gonçalo do Amarante guarda ainda em seu aspecto geral as marcas
da ruralidade e o clima bucólico. Portador de uma história tricentenária, que talvez
rivalize em temporalidade com a da própria cidade de São João del-Rei, conheceu
no passado pré-colonial a cultura indígena marcante, decerto dissolvida e/ou
absorvida pelo movimento colonizador. Narrativas e fenótipos ainda remetem a essa
página esquecida da história, sugerindo pesquisas arqueológicas e outras.
Inclusive, já tem sido encontrados ao acaso alguns artefatos líticos de
superfície, bem como fragmentos cerâmicos que remetem a esses povos macro-jês, talvez
puris e catauás, ora reunidos em exposição no acervo do Museu Municipal Tomé
Portes del-Rei (São João del-Rei, 2024-B).
Mas
ainda mais antigo que esses vestígios materiais, certamente é o monumento
megalítico composto pela Pedra Ramalhuda e pela Pedra Redonda, ainda em estudo,
mas que se revelaram promissores. Na Ramalhuda já foi constatada ligação
astronômica e segue em maiores averiguações, sugerindo ter sido um monumento
pré-histórico, dos grupos humanos caçadores-coletores (Ferreira et al., 2025).
No
panorama cultural, o distrito ora se destaca pelo grupo de congado, do tipo
congo, tido como muito antigo, mais que centenário, ainda bastante preservado e
que anima de forma marcante a Festa de Nossa Senhora do Rosário, que se realiza
tradicionalmente no segundo domingo de outubro.
Outras
festas locais que mobilizam bastante a comunidade são a de São Sebastião
(janeiro), a Semana Santa (abril) e a do padroeiro, São Gonçalo do Amarante
(julho), todas elas patrimonializadas e inclusas no calendário oficial de eventos
religiosos do município[4].
Os povoados ligados ao seu território também tem suas festas religiosas
próprias.
No distrito ainda se encontram algumas tradições culinárias, como a
saborosa comida mineira feita no fogão à lenha, a produção de quitandas, doce
de leite, queijo minas frescal, pastéis (Bar do Sidney) e frango frito (Bar do
Vado).
No passado, outras manifestações da cultura popular marcaram época,
fortalecendo os laços comunitários: Folias de Reis, Boi Malhado, Encomendação
das Almas, Quadrilha Junina, queima de judas, mutirões de capina de plantações
e roçado de pasto, rezas da Santa Cruz. Todas desapareceram, sendo que dessa última
ainda sobrevivem alguns elementos que aos poucos vão caindo em ocaso, como
enfeitar e rezar junto ao cruzeiro central e enfeitar as cruzes de fachada das
casas no dia 03 de maio. Também houve uma banda de música no local, alvo de
tentativas de soerguimento nos últimos anos.
Na localidade conhecida por Cruz da Cristina, um mirante natural com
vista privilegiada para a Serra do Lenheiro, para além de alguns achados
arqueológicos fortuitos, é corrente a devoção popular à alma de uma andarilha,
conhecida apenas por “Cristina”, falecida há mais de um século, como medianeira
de graças.
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Créditos
- Texto e fotografia: Ulisses
Passarelli.
Notas
[1] Segundo o código do IBGE, o
setor São Gonçalo do Amarante recebe o número de identificação 316250015000001
[2] Estas efemérides de 1923 se
devem a atuação política do sr. Carlos Augusto Alves de Oliveira, morador dessa
comunidade que na ocasião era vereador e atuou fortemente para elevar o arraial
a distrito e trazer um serviço de correios. Informante: seu bisneto, Everaldo
Guimarães (set.2026).
[3] Disponível em: https://folclorevertentes.blogspot.com/2013/07/apelidos-gentilicos.html
Acesso em 30 set. 2026.
[4] Processo de Registro “Festas Religiosas de São João
del-Rei”, CMPPC-046/18 e 047/22.
Patrimonialização administrativa pela Lei nº5.443, 20/06/2018, alterada pela
Lei nº6.078, 02/05/2024. Ratificação pelo decreto nº 10.225, com mudança do livro
de inscrição (de Modos de Fazer para Celebrações).




















