Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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sábado, 2 de abril de 2016

Carros de Bois em Tiradentes


Desfile durante Festival de Carros de Bois e Tropeiros. 
Tiradentes/MG, 07/10/2013. 

 Créditos

- Vídeo: Iago C.S. Passarelli.
- Edição, legenda e acervo: Ulisses Passarelli.

Notas

- Revisão: 27/12/2025. 

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Sertão em crônica: idealismo, imaginário e misticismo

Sertão é o meio de mundo, o ermo, o despovoado... Lugar longe, de muito mato e pouca gente. Habitat das feras, dos perigos, dos bichos peçonhentos. Já por isto, vai cambiando entre o real e o imaginário, que se reforça a cada novo acontecimento extraordinário que chega: um causo, uma lenda, um assombro. 

Sertão é isto: se entende, mas não se explica. Ele inspira o poeta em seus versos evocadores do atavismo humano, sempre aludindo à casinha de sapé, à tapera, ao cantar dos pássaros na alvorada, aos espectros lúgubres das horas mortas, às léguas poeirentas que o separam da civilização. Assim surge o sertão descrito nos versos das toadas caipiras, das modas de violas. 

É no sertão que a jovem se mostra mais fiel ao seu amado; é nele que as festas interioranas têm ar mais provinciano; a honra é levada ao extremo das atitudes como prerrogativa suprema a ser cumprida e defendida. O sertanejo é homem de fé viva, mas também amante da dança e do trabalho, por cuja força braçal nada rejeita. O homem do sertão é simplório. É o caipira que cultiva a terra, que cria o gado e pesca nas lagoas; é o caboclo que tem apego aos poucos objetos rudes que necessita para sobreviver em seu sítio. É no mato que acha os remédios fitoterápicos. O convívio com a natureza o faz exímio conhecedor dos fatos naturais, os detalhes meteorológicos, as características de cada estação do ano, as peculiaridades de cada animal. Também é crédulo, fiando nos bentinhos, patuás, medalhas de santos, simpatias, benzeduras, mezinhas e garrafadas. É apegado a Nossa Senhora, mas também acredita tanto no saci-pererê quanto na alma milagrosa de um vaqueiro, cada qual com seus atributos. 

Ninguém houve melhor que João Guimarães Rosa para fixar o espírito sertanejo em sua obra, quanto ao homem mineiro, ou que Luís da Câmara Cascudo, quanto ao nordestino. 

Sertão, aliás, difere aqui e lá. No Sudeste é tão somente o local distante, de pequena densidade demográfica, de difícil acesso onde as condições da natureza impõe um modo próprio de vida, um tanto tosco e custoso, mas igualmente poético, bucólico. No Nordeste e norte mineiro sertão é a área correspondente ao semiárido, o antigo Polígono das Secas. O sertão nordestino tem uma área de transição com a Zona da Mata chamada Agreste, que goza de aspectos próprios. O sertão nordestino algumas vezes se associa à noção espacial e intitula uma dada região do hinterland: Sertão dos Inhamuns, Sertão do Seridó, Sertão do Pajeú, Sertão do Cariri, Sertão do Acari. 

Para nós, das Vertentes de Minas, centro-sul do estado das Gerais, sertão é ou era o oeste, as bandas do poente para onde no passado rumavam homens corajosos a comprar gado, boiadeiros com sua comitiva em dias de viagem iam ao Sertão de Formiga, à Mata do Corda, às bandas de Pains e Candeias, trazendo tocados numa verdadeira odisseia reses rumo a novos invernistas dessas plagas ou aos matadouros. Os mascates e tropeiros também interligavam as duas zonas: aqui, sede da comarca e lá, terra de gigantes. Saint-Hilaire descreveu minuciosamente o comércio com aquela zona e registrou no começo do século XIX (1819-1822) que sertão...:

"é para além da povoação de Formiga, lugarejo situado acerca de 24 léguas de São João del-Rei, que situam, desse lado, os limites do sertão ou deserto; mas a região começa muito antes a ser pouco habitada." (p,116)

Mais tarde, final dos oitocentos, o trem rasgou o vale do Rio das Mortes. Vinha da Dom Pedro II (Central do Brasil), pela "Linha de Sítio", desde Antônio Carlos, chegava a São João del-Rei e daqui ia a Aureliano Mourão, donde fletia para a Barra do Paraopeba. Lá, tal afluente encontra-se com o Velho Chico. A foz do Rio Paraopeba está hoje debaixo do reservatório imenso da barragem de Três Marias. Era o quilômetro seiscentos e dois da bitolinha, a locomotiva a vapor de bitola estreita, 76 cm, da EFOM (Estrada de Ferro Oeste de Minas). A chegada da ferrovia foi o mais significativo elemento a impulsionar a economia e a vida social na segunda metade do século XIX. O povo o chamava poeticamente "Trem do Sertão", que saía de São João del-Rei num apito dolorido e inesquecível pelo centro da Avenida Leite de Castro, cena inextinguível da memória de quem o viu e nele andou; de quem vislumbrou o encanto medonho da Ponte do Inferno, ou o bucolismo da estação do Mestre Ventura.

O trem não fez parar o boiadeiro, o tropeiro, o carreiro ou o mascate. Pode tê-lo feito diminuir no seu ir e vir do sertão para o comércio. A estrada de automóvel é que o extinguiu, o asfalto, o caminhão. Razões do progresso e da evolução humana. O comércio com o sertão marcou época em São João del-Rei. Existia desde longa data. Mas foi com o fim do Ciclo do Ouro, que se estabeleceu em bases sólidas, qual entreposto comercial, fornecedor que era de gêneros para a capital do país, então Rio de Janeiro. Daqui para terras cariocas e outras mais, chegavam e partiam muitos cargueiros de mantimentos em geral, conforme registraram as crônicas [1]. O inglês Richard Francis Burton, em 1868 registrou um ditado que era então corrente e que de certa forma qualificava o que era o sertão daquela época: “Se você vai ao sertão, cuidado! Suba o morro devagar para poupar a besta; no plano, ande depressa, para abreviar a viagem; desça o morro com atenção, para a sua própria salvação.” Eis o aviso aos viajantes incautos pelas estradas vicinais e trilhas ruins. O perigo rondava...

A palavra "sertão" aparece em alguns documentos antigos (algumas vezes com "c", certão), no linguajar popular, nos versos de cantorias populares, nos topônimos e na música popular. A palavra sempre é organizada na frase de tal forma que nos faz lembrar o mato ou soa de uma maneira que induz o pensamento às raízes rurais: 

"Sei que vou morrer...
Vou me acabar!
Mas quero ser enterrado,
no Sertão de Paiabá!"
(Canto de trabalho, capina de mutirão, acabada de roça, Barbacena, 1996) 

Quanto à etimologia, pouco se sabe com exatidão. Filho (2011) explorou o tema com perspicácia. A palavra já era usada pelos portugueses quando da descoberta do Brasil. 

Sertão é um ideal inspirador. Dizer que algo é do sertão é como se disséssemos que vem carregado de uma qualidade atávica, mística e até poética, que teima em nos mostrar de onde viemos, onde estão nossas raízes. Na cultura popular, neste sentido se aproxima da palavra Aruanda... Bahia... Jurema... como territórios do sagrado, do espiritualismo: "Vem lá da Aruanda..." ; "Na Bahia tem..." ; "Lá na Jurema..." são expressões consagradas nos pontos de congados ou nos de terreiro. Com o sertão também ocorre isto, como por exemplo neste canto de umbanda, anotado em São João del-Rei, mas que admite variações: 

"Baiano quando veio da Bahia, 
ele passou na terra do ouro,
oi, no Sertão de Ouro Fino!" [2]

É como um reino místico, uma imagem do passado; um elo perdido entre o moderno e a ancestralidade humana. É a ponte entre o que éramos e o que somos; de onde viemos e onde estamos. É a raiz. É um pedacinho perdido desse Brasil de muitas faces.

Trem do Sertão em Nazareno/MG, 1976.
  
O oeste, ao por do sol no distrito de São Gonçalo do Amarante,
zona rural de São João del-Rei/MG. 12/07/2015.

Bibliográficas

BURTON, Richard Francis. Viagens aos Planaltos do Brasil (1868). 1º Tomo: do Rio de Janeiro a Morro Velho. Rio de Janeiro: Nacional, 1942. Coleção Brasiliana, série 5ª, v. 197, p.188.

FILHO, Fadel David Antônio. Sobre a palavra "sertão": origens, significados e usos no Brasil (do ponto de vista da ciência geográfica). Revista AGB, Ciência Geográfica - Bauru - XV - Vol. XV - (1): Janeiro/Dezembro - 2011 Disponível em http://www.agbbauru.org.br/publicacoes/revista/anoXV_1/AGB_dez2011_artigos_versao_internet/AGB_dez2011_11.pdf   Acesso em 06 dez. 2014. 

SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem às nascentes do Rio São Francisco e pela província de Goiás. Rio de Janeiro: Companhia Editora Nacional, 1944. 343p. Coleção Brasiliana, série 5ª, v.68. 

VALE, Dario Rodrigues. Memória histórica de Prados. Belo Horizonte: [s.n.], 1985. 344p.+anexo.


Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografias: Iago C.S. Passarelli (poente), David Passarelli (Trem do Sertão).

Notas

[1] VALE (1985, p.4), baseado em documentação do Arquivo Público Mineiro, transcreveu um termo de passagem de caravana de produtos no Porto Real da Passagem, de um habitante de Prados: "Aos treze dias de agosto de mil, setecentos e dezessete anos, nesta villa de São João del-Rey, apareceu presente Miguel Roiz do Prado, vindo de povoado, com vinte cargas, quatro de seco e mais de molhado, de que pagou de direitos quatorze oitavas, do que fiz este Têrmo que assignou Joseph da Silveira Miranda, Escrivão da Fazenda Real que o escrevi. (a) Gouveia. (a) Miguel Roiz do Prado" 
[2] O ponto continua assim: "Salve, salve os baianos! / Salve, salve o Senhor do Bonfim! / Salve, salve os baianos, / que não se esqueça de mim!" 
- Leia também neste blog: CAMINHOS DO FOLCLORE   
- Revisão: 10/06/2025. 

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Cangalha

Cangalha [1] é um utensílio arqueado, feito em duas peças interligadas, com dois ganchos de cada lado, todo em madeira, que se adapta ao lombo de um animal cargueiro (burro, besta, jumento, cavalo ou égua, mas quase sempre um muar), sobre uma proteção ou forro para não ferir o animal. Sobre ela se prende um determinado carregamento: pode-se empilhar lenha, cana ou bambus para o transporte. Noutro tipo, não há ganchos mas um detalhe em madeira propício para se prender o jacá [2] ou a bruaca [3].

É um objeto de feitura artesanal, rudimentar. Quando algo está atrapalhado, mal enjambrado, desajeitado, diz a voz popular que está "escangalhado"Um provérbio popular diz: “bater na cangalha pro burro entender”. O sentido é o seguinte: às vezes é necessário uma certa rispidez para que o outro compreenda o que se quer instruir; ou, por vezes é necessário agir por meio indireto para se chegar ao resultado; sugerir; indicar, sem deixar às claras, deixando que o raciocínio e a intuição do próximo descubram o restante. 

Nos congados (catupés) de São João del-Rei aparecem dois pontos cantados com tema neste objeto: 

"Ai, o Rei com a Rainha   BIS
tava muntado na cangaia...” 

(Capitão Luís Santana, 1993. Cangalha no caso é figura de linguagem irônica para indicar uma padiola ou tablado que suspende as figuras reais em destaque, como um dispositivo instalado na praça para ressaltar o reinado.)

“Meu burro morreu, 
e a cangaia ficô; 
num sei pra quem fica 
num sei pra quem dô!” 

(Capitão José Camilo, 1994. Sentido: cangalha sem o burro é imprestável. A sugestão é deixar para o desafeto...)

"Cangalheiro" é o animal treinado a trabalhar com cangalha, ou, o artesão fabricante de cangalhas. 

No passado, a figura dos burros encangalhados era muito comum, graças aos tropeiros. Estes trabalhadores conduziam pelo interior conjuntos de animais cargueiros levando e trazendo produtos entre sertão e cidades, Brasil afora, inclusive nesta região. Foram comuns por exemplo e marcaram época e cultura em Prados e Tiradentes [4].  

Em São João del-Rei, ficou na memória dos idosos que vislumbraram o período anterior ao da comodidade do botijão de gás nas cozinhas, quando a grande maioria, senão todas as casas, tinham fogão à lenha ("fogão de lenha", dizem). Então, naquele tempo, pela rua afora, tropas de burros passavam com as cangalhas carregadas de lenha, trazendo-as já encomendadas ou tentando a sorte. Até cada porta vinha o condutor da tropa de lenha e perguntava ao morador se estava precisando. Em caso afirmativo dava o preço de um cargueiro, ou de meio, correspondente à carga de uma cangalha completa e ou apenas um de seus lados, respectivamente. Em caso afirmativo, desembarcava-se a lenha para o freguês, no ponto que ele queria, recebia-se o pagamento e ia-se à procura de outro comprador do restante do carregamento [5]

Essa lenha vinha sobretudo de nossa histórica Serra do Lenheiro, que não tem este nome à toa, fonte que era de fornecimento de lenha para o arraial, vila e depois cidade de São João del-Rei. Cerrados, carrascais, restingas, saivás e capoeiras foram abatidos e conduzidos em fileiras serpenteantes de muares morro abaixo e morro acima, ardendo nos fornos e fogões, garantindo o pão de cada dia. 


Artesanato em madeira da cidade de Prados, figurando burros cargueiros
com jacás e lenha na cangalha. Década de 1990. Acervo do autor. 

Créditos 

- Texto: Ulisses Passarelli. 
- Fotografia: Iago C.S. Passarelli.

Notas 

[1] No estado do Tocantins, próximo à divisa com o Maranhão existe a "Serra da Cangalha", uma cratera de impacto, e nas imediações do Vale do Rio Paraíba, em São Paulo, a "Serra do Quebra-cangalha", contraforte da Serra do Mar. Por aqui também temos o topônimo "Quebra-cangalhas": a Resolução nº330 da Câmara Municipal de São João del-Rei, de 26/08/1905, aprovava as contas e ação executiva de reconstrução de duas pontes no distrito do Rio das Mortes, e ainda, os reparos na estrada que vai desse lugar ao Quebra-cangalhas (jornal O Repórter, n.34, 10/09/1905, São João del-Rei, acervo da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida). 

[2] Jacá: grande balaio de abertura circular, trançado artesanalmente em taquara, usado para carregar espigas de milho, capim picado para tratar do gado, etc. 

[3] Bruaca: mala de couro cru, usada pelos tropeiros no lombo dos burros para carregamento. 

[4] Vide a respeito desta última cidade o excelente registro contido no livro "Memória Tropeira", organizado por Luiz Antônio da Cruz e Maria José Boaventura. Tiradentes: Instituto Histórico e Geográfico, 2015, 70 p.il. 

[5] Informante: Aluísio dos Santos, São João del-Rei, Centro, 1995. 

- Leia também neste blog a postagem LENHEIRAS.
- Revisão: 20/07/2025. 

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Caminhos do Folclore

Estrada Real: caminho de tropas, boiadas e folclore [1]
Ulisses Passarelli
(Ao amigo Zé do Munho)

            A "Estrada Real" foi o grande caminho de escoamento de produtos agropecuários desde o fim do Ciclo do Ouro até meados deste século, em carros de boi e tropas, além do constante movimento de boiadas, cavaleiros e animais cargueiros. Auguste de Saint-Hilaire já mencionava o seu grande movimento no começo do século XIX.

            Dos produtos destacavam-se o toicinho e o queijo, que os tropeiros levavam, comprando no sertão, assim chamado o interior pouco povoado, a oeste. Traziam pela Estrada e suas variantes até o Rio de Janeiro, com embarque das mercadorias no Porto da Estrela. Retornavam principalmente com carregamento de sal, muito valorizado no interior.

            Estas viagens ficaram memorizadas em versos como estes[2]:

“Arriei a minha tropa
Fui ganhar o meu dinheiro
Fui fazer uma viagem
Para o Rio de Janeiro.

Passando por um sobrado,
uma moça me chamou:
_ moço, entra! Vem tomar café, 
que nessa hora coou.

Lençol de babado,
colcha de veludo,
tropeiro deitou
ficou todo papudo...” 
(São João d’El-Rey - MG) [3]

As tropas compunham-se de sete a dez burros nos quais adaptavam grandes cestos de taquara trançada no lombo, os jacás, ou malas de couro, as bruacas, em ganchos de madeira, as cangalhas e os canudos para carregar queijos, feitos de lascas verticais, também de taquara, hoje substituídos por tubos de PVC. Um burro mais treinado era o guia, com o cincerro ao pescoço, espécie de sineta, cujo som os demais acompanhavam na marcha compassada e em fila. À noite o cincerro era passado para a madrinha[4], uma égua mansa, que tinha por função não deixar os animais saírem para pastos distantes, pois ficavam junto ao animal que tinha o cincerro.

Tropeiro era o chefe da tropa seguindo a cavalo, ajudado pelos tocadores ou tangedores, a pé. Outro personagem destes caminhos eram os compradores de porcos, tocando-os a pé pela Estrada, atraindo-os às custa de grãos de milho soltados aos poucos como numa trilha. Também o muladeiro, outrora chamado almocreve, vocábulo de origem árabe trazido pelos portugueses, lembrança ainda da dominação muçulmana. Era o comprador de burros e mulas, levando-os amanados até o interior de São Paulo.

O carro de bois com seu gemido rouquenho e bucólico, fruto do atrito do eixo com o cocão e a cantadeira, seguia carregado, guarnecido pela esteira de taquara-poca passada entre os fueiros. Os bois aparelhados pelas cangas obedeciam ao carreiro munido de longa vara que tinha na ponta um ferrão e algumas argolas cujo tinido os bois obedeciam. Auxiliando-o, ia o candieiro. Os bois de carro eram verdadeiro orgulho de seu dono, que escolhia a dedo as juntas pelo tamanho, cor e treino: “Ô-ah! Malhado! Pintado! Pintado!”

A comitiva era formada por boiadeiros, peões e pelo cozinheiro. Montados, saíam sertão adentro à compra de gado pelas fazendas ao longo da Estrada Real e de suas proximidades. Compravam em grande número, a prazo de trinta ou quarenta dias, sem papel assinado. A palavra valia mais, o nome, a indicação, a referência, a amizade ou o compadrio[5]. Quando o negócio era de maior vulto, a prova do pagamento era um fio da barba do comprador, entregue ao vendedor. Guardava-se num envelope e devolvia-se ao seu dono na ocasião do pagamento [6].

O boiadeiro reconhecia-se logo pela silhueta: a cavalo, calçado de botas de cano alto, ou botina e perneira, esporas, cinto com facão e garrucha, vara de ferrão, berrante a tiracolo, cigarrão de palha fumegando no canto da boca, meio caído, como que tragado displicentemente, chapelão na cabeça, de abas largas, calça e camisa simples, com capa boiadeira por cima.

Viajavam muitas vezes sem destino, indagando por negócios possíveis. Trinta a sessenta dias longe de casa, numa vida itinerante, quase nômade. Rude com certeza. A partida [7] de gado era trazida tocada a aboio [8] _ canto de trabalho para incitar a boiada à marcha _ e aos toques próprios do berrante para cada ocasião: a saída, chegada, marcha, estouro de boiada, pouso, rancho, reunir animais.

Refrão: Êh, boi! 
Êh, boi!

Eu entrei nesse cerrado
A noite chega
E saí no chapadão
Nós precisa pousá,
Quanta morena bonita
Morena tá me‘sperando
Eu deixei nesse sertão.
Na porteira do currá.


Na baixada que seguia
Morena deitô falano grosso
Muita areia no chão,
Levantô falano fino
O boi pisava fundo
José, você não vai embora
Levantá puêra do chão.
Meu amigo José Cristino ...


Toca o berrante, seu moço,
Toca o berrante
Que a boiada que estôrá,
Prá juntá essa boiada
Toca o berrante, seu moço,
Adeusinho meu amor
Que nós precisa chegá!
Adeusinho minha namorada.
(Antônio Carlos – MG)

Boi, boi, boi,
Boi, boi, boi,
Eu não sou boiadeiro não
Boi, boiadeiro!
Sou tocador de gado,
Boi, boi, boi,
Boiadeiro é meu patrão.
Segura sua boiada!
(Barbacena – MG) [9]

O cozinheiro era o responsável pelo cargueiro da comitiva, o animal que carregava os poucos pertences, panelas, demais vasilhames e mantimentos. Ia sempre adiantado dos demais para em lugar combinado já esperá-los com a alimentação pronta, sempre feita na banha de porco, que tem sustança para a lida: arroz, feijão com farinha, carne salgada, torresmo. E o café forte para arrematar, fosse nas águas ou na seca [10].

A Estrada Real chamavam “Corredor de Gado”, largo caminho de terra batida ladeado de valos. Fora do corredor o gado era lavado na larga, pelos campos, trilhas e vargedos.

Padecimentos havia muitos nesta vida do mundo. Uma cruz no caminho marcava a morte de Antônio Félix, um tropeiro assassinado por dois policiais, “homens de boné” [11]:

Num sabe o que aconteceu
Ele em vinha de viagem
Lá na Mata do Campinho,
Com um pequeno tocadô;
Mataram seu Antônio Félix
Tomo um tiro na cabeça,
Com sua tropa em caminho.
Nem de Jesus alembrô...

A justiça tomô parte
O escrivão passô a fé
Quem matô seu Antônio Félix
Foi dois homens de boné...
(Bias Fortes – MG)

Perigos e medos também, que ironizavam em cantigas assim[12]:

Eu saí de casa
Eu desci pra’qui abaixo
Pensando que era home
Panhando minhas goiabinha
Na passagem da porteira
Cada barulho que fazia
Quase que a onça me come.
Pensava que a onça vinha.
(Bias Fortes – MG)

No caminho podiam surgir as chuvas _ da garoa à de granizo _ vento, calor, poeira, geada. Fome. Doenças em geral. A noite as dificuldades eram maiores: onde dormir? Por vezes a noite os surpreendia no caminho. Dormiam em escala, uns vigiando os animais para não fugir, enquanto outros se escoravam pelo chão, para alta madrugada revezarem. “Da macega eu faço a cama / do sereno um cobertor (...)”, diz um canto[13]

No geral a marcha era programada para se atingir os pousos habituais, fazendas amigas ou ranchos a propósito, com cercados ladeando, com pastos para animais. Nos pousos, dormia o boiadeiro usando o arreio de travesseiro; baixeiros, mantas e pelegos de colchão, e a própria capa como cobertor.

Após a janta na trempe improvisada, com pedras ao redor para cercar a brasa e armação articulada para segurar as panelas de ferro, a conversa ao redor do fogo era fundamental no relacionamento humano. O assunto era a lida diária: a qualidade do toicinho, a hospitalidade de um fazendeiro, a briga dos marrucos, uma vaca nabuca trochada mojando, uma novilha gorda pegadeira, o boi carreiro araçá, de chifre argolado, o pasto de capim-gordura, a cheia do ribeirão, o casamento da filha do compadre, a safra do milho, um bando de bugios ou de sauás em festa na galhada. Uns picando fumo, outros aquecendo ao fogo, ou o bucho, com uma talagada de boa pinga mineira, cuja garrafa ia sempre pendurada na cabeça do arreio[14].

Boiadeiros, tropeiros, tangedores, muladeiros, candieiros, carreiros, viajantes, mascates, fazendeiros, encontravam-se nestes pousos e corriam soltas as estórias, lendas, causos, mitos. Lembravam dos lugares assombrados, como as velhas fazendas do tempo dos antigos, a cava onde aconteciam coisas misteriosas, a porteira dominada pelo pemba, que só abria quando queria batia três vezes na hora de fechar, um caminho entre uma capoeira onde alguns viajantes se assombravam com uma invisão, os feiticeiros _ cuba do papo amarelo _ que amarravam carro-de-bois e espalhavam a tropa[15].

Mais tarde, quem sabe, a viola caipira indispensável animava com o dedilhado inconfundível, ouvindo décimas, toadas tristes e modas alegres, como a “Moda da Tetéia”[16]:

Eu pedi meus capataz
Eu andava de vez em quando no ar,
Que minha boiada levasse
De vez em quando no chão,
Tomasse conta de tudo
Só lembrava de São Jorge,
Até que nos encontrasse.
Que é da minha devoção.


Eu cheguei na casa da roxa
Dava um pulo pra cima,
Perguntei o nome dela
Metia o bico da bota,
_ eu me chamo Docelina
Gritava: _ abre, negrada!
Sobrenome de Teteia.
Era nove, dez cambota.


Numa tardezinha deu vontade
Quando viram a coisa feia
De ir lá no recreio.
Gritaram: _ pára, gente!
Teteia me recomendou
Vamo rezá o credo primeiro!
Para nada não beber
Isso é até o diabo,
Que eles punham o homem tonto
Em figura de boiadeiro...
Para depois bater.


Quando o banzé cessou
Logo quando eu cheguei,
Eu fiquei por ali,
O batuta Chico Rita
Vi catinga de bode no cabo do piraí [17].
Por essa forma falou:
O batuta Chico Rita,
_ eu tenho minha faca nova
Desse eu tive pena,
Que comprei lá no Cruzeiro
Depois dele bem pisado,
Pra cortar crista de galo
Meti nele a chelena!
E mala de boiadeiro ...
Cinquenta conto minha chelena custô,

Um quilo e meio, só a roseta pesô... [18].
Quando ele falô assim

Respondi no pé da letra:
Eu desci pra rua abaixo
_ não arreceio morrê no meio da lama,
Fui sair em Santa Teresa
A dor da morte é a mesma
Lá mesmo onde estava
Tanto aqui quanto na cama!
O suquinho da beleza.


Logo quando eu falei assim
Arriei a minha mula
A rapaziada encaiporô [19]
Por nome de Assembleia,
Foi uma chuva de pau
Depois da mula arriada
Escureceu de poeira,
Joguei a pala na garupa.
Fedia chifre queimado
Depois de tudo arrumado
E resbalo de madeira.
Mandei sentar Teteia comigo.

                                                  Tinha vinte e cinco léguas
                                                  Até o Arraiá da Glória
                                                  Cortei todo esse chão
                                                  Dentro de vinte e quatro horas.

            Havendo mais gente logo faziam uma função: catira, rodinha, cana-verde, caranguejo, calango, recortado, roda-morena. São danças do folclore “branco” que muito provavelmente aqui chegaram trazidas dos estados Rio de Janeiro e São Paulo onde ocorrem [20], através da Estrada Real, por estes trabalhadores itinerantes, que num dia, aprendiam em um pouso e amanhã repetiam noutro, léguas adiante, afinal, “quem ouve esquece, quem vê entende, quem participa aprende.”

            Estas comunidades ao longo da Estrada real estavam habituadas a tudo isto. Era assim a vida, natural e essencial. Preservavam espontaneamente os costumes, a religião, o pagamento de promessa com a dança de São Gonçalo trazida pelos mesmos boiadeiros e tropeiros. Tudo isto hoje está perecendo com a dissolução das comunidades caipiras que mantinham este folclore. É plausível admitir que o próprio moçambique-bate-paus, modalidade de congado tenha chegado por esta via, ainda mais se considerarmos que sua área de distribuição é ao longo do antigo Caminho. Este folguedo porém persiste, preservado pelos sobretudo pelos pretos devotos.

            Não é fato único. As ligações do folclore do sul e sudoeste de Minas com o de São Paulo, inclusive nestas danças, tem explicação idêntica. Assim como o de São Paulo e Paraná, notadamente o fandango.

            Até o Nordeste, ao longo dos antigos caminhos de gado, da Bahia ao Piauí, ou ao Rio Grande do Norte e Ceará, o folclore tem fortes ligações, em especial o do Ciclo do Rosário e dos Reis Negros.

            De tal forma foi a importância desses centauros, que desenvolveu-se na umbanda uma “linha” religiosa dita Linha de Boiadeiro, acreditando-se que os espíritos dos boiadeiros voltem para cumprir chamados religiosos [21]:

Chapéu de couro, abençoado!
Peço licença pra entrar em seu Reinado! ...
(Barbacena – MG)

            É o canto de abertura da linha. Um exemplo dela é o seguinte [22]:  

Boiadeiro meu!            
Auê, chapéu grande!
É de Minas Gerais!
Beirada de ventania!
Pra ficar sem boiadeiro  
Beirada de ventania!
Meu sertão não vive em paz.
Ôh! Bêrada de ventania...


Seu boiadeiro, por aqui choveu?
Getuê, getuá!
Choveu que água rolou ...
Corda de larçar meu boi!
Foi tanta água que meu boi nadou,
Getuê, getuá!
Foi tanta água que meu boi nadou...
Corda de boi laçar!


Ô gente, segura esse boi!
Tava nas campinas
Ô gente, segura esse boi!
Campiando os bois,
Ô gente, segura esse boi!
Quando me avisaram
Esse boi é meu, esse boi é demais!
Sua boiada já se foi...

Onde andará?
Onde andará?
Minha boiada,
Tão querendo me tomá ...
(Lavras – MG)

Estas observações são fruto de uma pesquisa inicial que ainda engatinha, mas que agora toma fôlego com a excelente iniciativa de aproveitar a Estrada num amplo projeto de desenvolvimento do turismo rural e ecoturismo, que sem dúvidas trará desenvolvimento. Pretendemos chegar ao mapeamento cultural, traçando as ligações entre as regiões distantes.

Agradecimento aos informantes dos cantos: José Cândido de Salles (Antônio Carlos, MG), Elvira Andrade de Salles (Bias Fortes, MG), “Dona Josefina” (Barbacena, MG), Luthéro Castorino da Silva (Lavras, MG), José Orlando da Silva (São João del-Rei, MG). Nossa gratidão, igualmente, a José de Alencar de Ávila Carvalho (São João del-Rei, MG) e a Raimundo Nonato de Paiva (Luminárias, MG) pelas informações adicionais.

*  *  *

Este texto foi escrito a treze anos quando estava a todo vapor a divulgação da Estrada Real. Considerei este nome como preferencial para a execução textual por se sintonizar melhor aos objetivos ao ideal da época. Para este blog, o texto foi redigitado com acréscimo das notas de rodapé que tornam a crônica mais elucidativa. As fotos abaixo também não faziam parte do texto original. A primeira é de autor não identificado, de álbum familiar, representando a comitiva de Zé Cristino, citado nas notas de rodapé. As outras duas são de minha autoria e representam um rancho boiadeiro já hoje inexistente, de Santa Cruz de Minas (1999) e uma tropa parada na área central de Prados (2003). 





Revisão: 16/08/2025. 



[1] - Texto adaptado para esta postagem, a partir da publicação original em: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, v.9, 2000. 166p. p.57-64. 
[2] - Verso da chula do palhaço da Folia de Reis do Bairro Bonfim, do saudoso Mestre “Dinho” (José Orlando da Silva), colhida no Arraial das Cabeças, São João del-Rei/MG, em 1993. O personagem do palhaço era encarnado por Jorge Aparecido de Paula.
[3] - Mantive, por respeito ao texto original, para efeito de digitação, a grafia que então adotava para a cidade, hoje abandonada diante dos ensinamentos de Abgar Tirado: Breve Estudo sobre a Conveniente Grafia do Nome de São João del-Rei e do Adjetivo Gentílico Relativo. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, v.10, 2002. 180p.il. p.176-180.
[4] - O mesmo que égua madrinheira.
[6] - Desta promissória do passado, prova notável de hombridade, vergonha na cara, compromisso de pagamento feito deixando-se um pedaço do próprio rosto, um fio da barba ou do bigode, símbolo de seriedade do compromisso, ainda restou uma expressão popular: (... fulano) não vale um fio de bigode!”, indicando que não vale nada, pessoa imprestável em quem não se pode confiar.
[7] - Partida: um lote de animais; manada, rebanho. Conjunto de reses tocadas estrada afora.
[8] - O aboio é mais conhecido na área do Polígono das Secas mas não foi desconhecido no Campo das Vertentes, nem em sua forma típica nem na versejada, cujo exemplo se segue, colhido do boiadeiro “Zé Cristino” (José Cândido de Salles), saudoso morador do Córrego, em Santa Cruz de Minas, mas natural da Fazenda Serra Velha, em Antônio Carlos/MG.
[9] - Informação da sra. Josefina, 1996, Barbacena.
[10] - Cargueiro: animal de carga. Nas águas: na estação anual chuvosa. Na seca: na estação da estiagem. O arroz com carne seca desfiada é muitas vezes chamado “arroz de carreteiro”, nome de influência sulina. Feijão com farinha e torresmo é o feijão-tropeiro, que na cidade acrescentam couve picada mas que esses viajantes estradeiro poucas vezes tinham acesso nos rudes locais de alimentação.
[11] - Estes versos me foram recitados e não cantados. Informação da sra. Elvira Andrade de Salles, 1995, esposa do já citado boiadeiro Zé Cristino, ela natural do povoado do Guilherme, em Bias Fortes / MG.
[12] - Cantado pela mesma informante das estrofes anteriores.
[13] - Informado pelo boiadeiro Zé Cristino. É um fragmento de cantoria de uma dança rural desaparecida chamada roda-morena.
[14] - Lida: labuta, trabalho, afazeres. Marruco: touro. Nabuca (o): animal sem cauda ou que a tem muito curta; cotó. Trochada: pelagem castanho claro, tracejada de escuro, semelhante ao pelo araçá. Mojando: prenha, prestes a parir e produzir leite, indicativo de lucro. Pegadeira: vaca brava, que pega, persegue pessoas para chifrar. Carreiro: boi treinado para puxar carro. Costuma ter argolas de ferro trespassadas no chifre para facilitar amarras. Araçá: boi de pelo ocre rajado de preto. Bugio e sauá: símios, macacos cebídeos, respectivamente Allouata fusca e Callicebus personatus. Bucho: exatamente o estômago e em sentido amplo, a barriga.
[15] - Tempo dos antigos: expressão popular usada para indicar antiguidade e, por conseguinte, uma teórica preservação ritualística. Candieiro: auxiliar do carreiro. Pemba: africanismo banto, de Angola, usado com o sentido de diabo. O termo original é “cariapemba”, que no Brasil se desdobrou em duas palavras distintas, ambas empregadas como sinônimo de demônio: “cariá” e “pemba”. Invisão: espectro fantasmagórico; assombração. Cuba: o mesmo que cumba, indivíduo profundo conhecedor das artes místicas. Feiticeiro. “Do papo amarelo”: expressão intensificadora.
[16] - Moda muito antiga, informada pelo boiadeiro "Zé Cristino" (José Cândido de Salles), 1999.
[17] - Piraí: pequeno chicote, relho miúdo. Catinga de bode: o odor de caprino é considerado demoníaco.
[18] - Chelena: corruptela de chilena, um tipo de espora. Roseta: círculo com pontas metálicas que espetam o cavalo pela espora. O exagero dos versos é típico de muitas composições populares: o peso da roseta da espora; a quantidade de gente que o boiadeiros surrou, a imensa distância que venceu em um dia de marcha. Tais exageros são formas narrativas que visam valorizam o protagonista, conferindo-lhe uma força sobre-humana, senão mesmo, poderes místicos. 
[19] - Encaiporou: fez como o caipora (ser mitológico), que arma espreitas no mato.
[20] - O avanço das pesquisas me faz revisar este pensamento. É difícil afirmar se as danças vieram de lá para cá ou o contrário. Poderia ser as duas possibilidades. Seguramente se pode dizer apenas que boiadeiros e tropeiros contribuíram muito para disseminar a cultura popular. A designação “folclore branco” ou negro, ou índio é clássica; mera figura de linguagem e caiu em desuso. A mescla cultural e étnica, bem como o mau uso dessas expressões, assim o determinaram.
[21] - Inf.: Dona Josefina, Barbacena, 1996.
[22] - Informado por Luthéro Castorino da Silva, 1996, morador em São João del-Rei, mas aprendido no terreiro de Mãe Léia, em Lavras / MG.