Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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segunda-feira, 4 de setembro de 2017

São Pedro e a alma do fazendeiro

Um certo cidadão, fazendeiro, se orgulhava de não perder as missas dominicais e as festivas. Se vangloriava disso e fazia questão de contar a quantas já tinha ido ao longo da vida, pois a cada uma delas, guardava um grão de milho dentro de uma garrafa como meio de contagem. 

Era seu costume ir para as celebrações encontrar os amigos, compadres e vizinhos, na intensão de com eles conversar ao término, para fechar negócios de compra e venda e negócios de barganha (troca) _ vacas, cavalos, etc. Suas preces, aliás, habitualmente clamavam por bons negócios. 

Foi então, que, certa vez, na hora que ia sair para a missa chegou-lhe notícia que uma de suas melhores vacas tinha atolado no brejo. Correu com os empregados e com algum esforço conseguiu salvá-la. Trocou a roupa e correu para a missa, mesmo atrasado. Chegou na hora que o padre elevava a hóstia na consagração e de joelhos agradeceu muito. 

Como de costume, ao chegar em casa, pegou um grão de milho para guardar na garrafa de marcação do número de missa assistidas. Mas como era honesto, pensou consigo mesmo que não seria válida a contagem pois chegara atrasado; então, partiu o grão e só pôs na garrafa metade de um milho. 

Continuou sua rotina, até que chegou o dia de sua morte. Quando sua alma chegou ao céu se apresentou a São Pedro, que não quis permitir sua entrada. Protestou que era uma injustiça, pois fora muito religioso, não perdera uma missa dominical a vida toda. O santo questionou e a alma do fazendeiro retrucou que tinha como provar, bastasse observar as garrafas que deixou na terra cheias de grãos de milho, cada grão contando uma celebração assistida. São Pedro mostrou-lhe umas garrafas de lado e perguntou se eram aquelas. A alma do fazendeiro as reconheceu e o santo mandou-lhe abri-las e contar os grãos e qual foi a surpresa daquela alma ao abrir todas as garrafas: encontrou-as vazias, exceto por uma delas, na qual só encontrou meio grão.

Aturdida, a alma ouviu do santo "Chaveiro do Céu", que o meio grão correspondente à meia missa que assistira, fora em verdade a única válida em toda a sua vida, pois somente nela manifestara gratidão; em todas as outras missas fora apenas pedir e com a segunda intenção de estabelecer negócios com os amigos... 

Igreja de São Pedro e São Paulo, Ritápolis/MG, 01/10/2017.
(imagem sem nenhuma ligação com a narrativa; finalidade meramente ilustrativa)

Créditos

- Texto e fotografia: Ulisses Passarelli.
- Informante: José Isaías, Madre de Deus de Minas/MG, 01/09/2017.

Notas 

- Revisão: 23/08/2024.


quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Lenheiro e São José: nossas serras, nossas lendas...

(Ofereço com imensa gratidão e admiração 
ao amigo Luiz Antônio Sacramento Miranda,
grande conhecedor de nossa história e tradições, 
lutador pela preservação das serras)


Nas Serra do Lenheiro e na de São José acharam farto ouro a três séculos. E nos ribeiros que delas brotam e escorrem para o Rio das Mortes também reluziu nas bateias o fulvo metal. Os descobertos suscitaram a cobiça de aventureiros que para esta região do centro-sul mineiro se deslocaram atraídos pelo sonho do enriquecimento. Daí surgiram as localidades primitivas desde São João del-Rei até Prados.

A faina do ouro imprimiu fortes marcas na cultura local, eivada de tradições a respeito, lendas, costumes. Nesta postagem, a título meramente ilustrativo, são brevemente expostas algumas destas narrativas populares, marcas antigas do saber popular. São impressões da alma mineira, fruto de sua relação com o ambiente, marcas do tempo... O ouro formou um ciclo cultural.

Não apenas do ouro, mas a própria vivência do homem mineiro com as montanhas contribuiu para construir uma complexa espiritualidade, uma relação quase mágica com as serras, respeitosa e mística, estendendo-se ao seu entorno. As estórias de antanho como que norteiam a conduta frente à natureza, evidenciam os limites do homem frente a força maior da natureza e dos encantados. A aparição de luzes misteriosas sobre os rochedos ainda mete temor em muitos. É a mãe do ouro passando...

Ambas as serras são áreas de proteção ambiental: a do Lenheiro por mecanismo de tombamento e pelo Parque Ecológico Municipal; a de São José pela APA e pela REVS Libélulas. São áreas de elevado interesse para a preservação.

Serra do Lenheiro e arredores: São João del-Rei

A febre do ouro fez uma avalanche de aventureiros convergir para as minas, afoitos em garimpar. Escravos sofreram terrivelmente sob o chicote do feitor, metidos nas grupiaras (= guapiaras), bêtas úmidas e perigosas. Ali muitos morreram. Acredita-se que as almas de muitos, assassinados ou que tiveram mortes trágicas, fruto de desabamentos, incêndios, etc., ainda estejam vagando nas serras onde trabalharam. Sobretudo as almas dos malvados senhores, sinhás, capatazes, feitores, capitães do mato, que assassinaram e cobiçaram as riquezas, viraram almas penadas e hoje assombram e trazem mal agouro às ruínas e grotões. Algumas são como guardiães de um dado lugar, donde se extraiu uma pequena fortuna, que a dita alma vigia ciumentamente como se ainda lhe fora servir para algo. Apegada ao material, não se deu ainda conta da sua inutilidade no mundo espiritual. Por vezes fazem aparições colocando viandantes em fuga espavorida. São comuns casos de ruídos misteriosos nos caminhos da serra, sensações de arrepios desagradáveis nas grotas ou de estar sendo seguido nas trilhas ou simplesmente vigiado. Impressões intangíveis. Visão fugaz de vultos. Vozes humanas indefinidas a conversar entre si, sem que ninguém esteja por perto. Gemidos e choros a gungunar na vastidão. Pelos lados das Três Praias, Cachoeirinha, Azulão, Arambinga, por toda parte enfim, correm estes causos. 

A Gruta do Caititu no complexo do Lenheiro é um lugar também referido como assombrado, porque aí se castigavam os escravos e ainda aí, eles faziam oferendas às entidades espirituais. 

A ciência não explica neste sentido, senão mesmo confunde ainda mais e inclusive, renega todos estes fatos. Pertencem sem dúvidas ou favores ao folclore. Cumpre notar que o espiritismo e a umbanda buscam explicar tais fatos. Mas não entraremos neste campo por fugir aos objetivos textuais. 

Muitos homens morreram soterrados na faina de escavar pedras atrás do ouro. Dizem-no irmão do quartzo [1]. Por isto os garimpeiros ao achar seus cristais, continuavam escavando deduzindo que o ouro estava próximo. Cegos pela cobiça se esqueciam da segurança e um desmoronamento os consumia. Sua alma ficava presa ali, sem alcançar descanso e passava a assombrar, como que espantando os intrusos que vem roubar-lhe a riqueza, de que ainda supõe ser dono. A avidez extrapola a morte e persiste além-túmulo. Fala-se assim de uma voz misteriosa que teria prevenido outrora um desabamento no Tanque, perto da Igreja do Carmo, mas a insistência fez descumprir o alerta divino e o desabamento teria matado trezentos escravos e muitos feitores. Aliás, dizem, sob a Igreja do Carmo corre, vindo da serra, um rio subterrâneo, repleto do melhor ouro. 

Nas Três Praias há no barranco um túnel surpreendente furado pelos escravos. Acreditam que era uma saída secreta para fugas, desembocando onde hoje se ergue a Igreja de São João Bosco. Contudo um exame do lugar indica que o túnel tem poucos metros de extensão, que está a merecer uma proteção específica.

Um dos contrafortes da Serra do Lenheiro recebe o nome específico de "Serra de Santo Antônio", uma montanha bastante íngreme e pedregosa. O nome tem origem lendária. Três trilhas passam nas imediações e delas alguns caminhantes dizem ter visto uma aparição da imagem do santo naquela elevação, daí o nome que lhe deram, sobretudo na sua parte mais inacessível, onde há uma loca de pedra, que dizem ser a gruta do santo. Tanto mais, outros não avistam a imagem, mas pegadas na areia, de uma sandália franciscana. Supõe ser do próprio santo. Outra lenda local, bem menos amena, narra que indivíduos abusados, atrevidos com a religião, desrespeitosos, já se viram perseguidos por um caixão roxo, que desce escorregando do alto da serra em direção ao incauto, que naturalmente se põe em debandada.

No Ribeirão São Francisco Xavier, na Serra do Lenheiro perto do Tanque dos Quilombolas, onde as lavadeiras tem ponto de lavar roupas, no caminho que segue para a Arambinga, surge por vezes uma bruaca [2] abarrotada de ouro, algo de encher as vistas. Quem caminha em sua direção, tem a surpresa de vê-la desaparecer de súbito. Se insistem em pegá-la na reaparição, toma-se a surra de um reio [3] invisível.

Contam os apanhadores de lenha, que quando iam buscá-la na Serra do Tronco (contraforte do Lenheiro), onde há uma grande mata, ouviam o ruído característico de um lenhador no seu interior, trabalhando com o machado. Mas ao aproximar-se do local de onde vinha o barulho das machadadas, qual era a surpresa ao verem a inexistência de árvores cortadas e muito menos do lenhador. A mata continuava serena, apenas com seus sons naturais. O lenhador é mais um assombro. 

Ao pé do Morro das Almas, também no Lenheiro, num mato ralo que tem um brejal dentro (nascente do Córrego do Areão), narram que três homens campeando uma vaca tresmalhada, viram quando ela se ocultou no dito mato. De qualquer ponto a avistavam mas qual não foi sua surpresa quando ela desapareceu simplesmente, do nada, sem ter fugido do mato. É como se ali houvesse um portal invisível que levou o animal para outra dimensão.

A Porteira Pesada ficou famosa por bater sozinha, três vezes à meia-noite, ao meio-dia e às três da tarde. Por vezes trava sem ter qualquer espécie de trinco, não abrindo de forma alguma. De repente abre de uma só vez, na maior facilidade. É temida pelos cavaleiros, por causa de seus mistérios.

Serra de Santo Antônio: contraforte da Serra do Lenheiro.
São João del-Rei/MG, 06/03/2010.  

Serra de São José e arredores: São João del-Rei, Santa Cruz de Minas, Tiradentes, Prados e Coronel Xavier Chaves

A Lagoa do Canjica em Tiradentes, com histórias e estórias de riquezas incomensuráveis, palco de farta mineração, é hoje um terrível aterro e brejo residual com várias plantas de taboa. Infelizmente não foi preservada.

Os moradores locais contam uma lenda etiológica sobre ela, que diz que a princípio, era apenas um fio d’água. Dois portugueses, vindos de sua terra natal, onde estavam a penar, sonhando enriquecer com as preciosidades da colônia, prometeram a Santo Antônio que se achassem riquezas minerais no novo mundo, a primeira delas seria ofertada ao taumaturgo. Chegando à beira da água passaram a bateia e logo recolheram ouro que passava de quilo. Lembraram-se da promessa. Os gananciosos concluíram entre si que era ouro demais para um santo só, que enfim estava lá no céu e não precisava daquilo, porque não tinha onde gastar, etc., e que a próxima bateiada seria dele, sem dúvidas. Continuaram a faiscar. Mais meio quilo. Era muito ainda para o santo e mais uma vez adiaram a oferta. Já com os alforjes repletos do rico metal e protelando a parcela prometida a quantidades cada vez menores e inatingíveis, foram surpreendidos por um tremor repentino de terra. Um estrondo medonho tomou conta do lugar; a terra se fendeu e os engoliu num gigantesco buraco, donde brotou de súbito muita água formando uma lagoa, na qual desapareceram para sempre os gananciosos garimpeiros. Assim surgiu a Lagoa do Canjica . 

Seu curioso nome, atestam, é uma analogia ao milho de fazer canjica, pois o ouro que aí se achava era em numerosíssimas pepitas, tão grandes como aqueles grãos.

Outra lenda interessante é a de que o padroeiro de Tiradentes não aceitou a mudança da sua capela primitiva. Quando fizeram a atual matriz setecentista e transladaram processionalmente a sua imagem, o santo lisboeta, uma vez entronizado no novo altar, num mistério, desapareceu sozinho e reapareceu na capela velha. Trouxeram-no e mais uma vez Santo Antônio retornou ao altar original. Teimava em não aceitar a nova capela e foram esgotados os esforços para mantê-lo onde queriam. Até que um dos fiéis teve a ideia de trazer da velha ermida para a nova igreja, uma grande pedra escavada que ali ficava. A partir daí o santo aceitou e não desapareceu mais [4]. 

Essa pedra meio que sobrenatural é uma preciosidade que está na grama do adro da capela do Canjica ainda hoje. É como uma pia circular, escavada num grande bloco rochoso, terminando numa bica. Tal peça prestava-se no ciclo do ouro à lavagem das areias auríferas. Como ela podem também serem vistas outras duas: uma na Fazenda do Pombal (onde nasceu o alferes Tiradentes) e outra no porão do Museu Padre Toledo, nessa cidade. No contexto lendário o artefato é considerado sagrado ou misterioso. Pertence ao santo. 

Essa lenda não é exclusividade tiradentina. O sumiço de uma imagem de santo da capela nova para reaparecer na capela velha ou no lugar primitivo, onde sua imagem foi encontrada primeiro, até que este ou aquele fato se concretize para interromper a onda de teimosia, consagrando o novo lugar perante os olhos do santo (e não diante dos rituais oficiais do catolicismo) é a essência, o cerne de muitas lendas congêneres, espalhadas Minas Gerais afora e mesmo noutras partes do Brasil. Existem muitas versões envolvendo ora Santo Antônio ora a Virgem do Rosário e ainda outros santos. Em Portugal é conhecida e decerto de lá a trouxeram.

Na Estrada do Areal, indo de Santa Cruz de Minas para a Serra de São José, via Chuveirinho, vê-se logo uma propriedade bem próximo à serra, à esquerda de quem sobe, que pertenceu até meados do século XX aos religiosos salesianos, por isto mesmo alcunhada “Chácara dos Padres”. Dizem-na assombrada pela alma de "Padre Cristófaro", sacerdote que aí teria morado e falecido.

Toda a área defronte a ela de pastagens e valos remanescentes do período minerador, a grande depressão onde nasce o Córrego de Dona Antônia e imediatamente além, no Serrote é área narrada como mal assombrada. O povo sabe de estórias arrepiantes de aparições fantasmagóricas. 

Nesse interior pode ser visto também uma área mais recentemente terraplanada que serviria a instalação de um cemitério para Santa Cruz de Minas, chegando a se construir no que seria sua frente, duas colunas de cimento que seguravam o portão; este em si, e mais uns muros de placa de cimento, tudo hoje destruído exceto as colunas. Contam os moradores que o lugar também tem um misterioso assombro, pois que jamais conseguiram fazer daí um cemitério de fato, haja vista que sempre algo dava errado, as máquinas quebravam, algo emperrava, etc. Falam que era por causa da alma de antigo feitor, que teria sido muito mal com os escravos da Fazenda do Córrego, chegando a matá-los e a enterrá-los clandestinamente justo neste local do cemitério, como se fossem pagãos. Era conhecido por "Quincas". Sua alma teria assombrado a região por muito tempo, desde o Córrego de Dona Antônia ao sopé da serra, até que às custas de trabalhos espirituais foi retirada dali para a prisão no umbral. 

Na Serra de São José é bem conhecida a Cruz do Carteiro, feita de tosca e velha madeira sobre um monte de pedras, que cresce cada vez mais posto que os caminheiros tem o costume de por uma pedra nova, cada vez que por ela passam, contando mais uma oração em sufrágio daquela alma ali morta, ou das almas em geral, costume ancestral, vindo da antiguidade clássica, trazido na herança dos colonizadores. Flores são postas junto à cruz. O tal carteiro, dizem, foi um mensageiro da Inconfidência Mineira, que levando uma mensagem secreta dos inconfidentes de São José del-Rei (atual Tiradentes) aos do Arraial da Laje (atual Resende Costa), não teria chegado ao seu destino, pois foi aí assassinado. Desconhecemos documento comprobatório deste fato, que é contudo atestado pela tradição oral. Um velho folder da Secretaria de Cultura e Turismo de Tiradentes informava que “em 1823, esta cruz já lá existia há muito tempo e já não se sabia quem lá havia morrido.” 

Na Lagoa dos Cordões falam de uma noiva misteriosa, visagem, que a horas mortas caminha lentamente junto à margem, triste, cabisbaixa, o vestido nupcial meio estragado. De repente desaparece. É um fantasma. Fora uma moça feliz e distinta, cujos pais lhe obrigaram em tempos de antanho, a um casamento infeliz, arranjado. Desesperada, ainda na porta da igreja, fugiu correndo e na fuga atroz caiu na funda lagoa onde se afogou. Sua alma ainda ronda o lugar. 

Em tal coleção d’água, como no rio e noutras lagoas vizinhas e até mais além, no Jacarandá e do outro lado do rio, junto à Casa da Pedra, comentam acerca do pavoroso caboclo d’água, ser aquático monstruoso, que agarra banhistas incautos pela perna com suas mãos fortes, peludas, de garras afiadas, cascorentas, para o fundo das águas, donde nunca mais o cadáver submerge, posto que devorado. Vira canoas, pegando-as no bico da proa, sem grande esforço, pois sua força é descomunal. Um canoeiro se salvou por ter um facão no barco, com o qual decepou sua mão horrenda, que caiu na torrente. Outras vezes bota meio corpo para fora d’água, mostrando o busto moreno e robusto, de fisionomia desfigurada.

Pelos lados de Prados, falam de uma gruta num paredão da serra vedada de uma porta de ferro travada, quase intransponível. É uma antiga mina, cheia de tesouro, protegido por uma serpente fantástica, sobrenatural e gigantesca. É um vestígio das estórias ibéricas da moura torta, de influência árabe, dos tempos do domínio muçulmano na península ibérica. Segundo outras fontes orais essa porta esquecida fica para os lados das Águas Santas, à meia subida.


Cruz do Carteiro: Serra de São José.
Coronel Xavier Chaves/MG, 28/03/2011.

Considerações finais

Os municípios entrecortados por estas serras tem nas mãos uma riqueza imensurável nas suas montanhas rochosas. Vai muito além das preciosidades ocultas no solo. É a fauna, desde grandes mamíferos até os pequenos insetos, é a vegetação de biomas de mata atlântica, cerrado e campos rupestres; o interesse espeleológico; a arqueologia da mineração; a geodiversidade extraordinária; as nascentes de águas cristalinas, minerais; a paisagem e muito além do evidente, do palpável, tangível, concreto, está o intangível, a riqueza da história e da estória, dos fatos e das lendas. O folclore aqui neste texto foi apenas pincelado. A proteção dessas áreas deve ser total e intensivamente trabalhada. E aliada a isto a educação ambiental e patrimonial deve ser uma premissa nas escolas, em todos os níveis, séries e esferas. O potencial turístico das serras é grande e demanda organização, controle, estruturação e diretrizes, pautadas na segurança do meio e dos visitantes. É riqueza a ser garimpada. E essa cultura serrana é outra riqueza, a ser conhecida, salvaguardada e divulgada. Não há dúvidas. A Serra do Lenheiro e a Serra de São José fazem parte do meio ambiente cultural do Campo das Vertentes.

Créditos
Texto e fotografias: Ulisses Passarelli
Levantamento de conteúdo: Ulisses Passarelli e Luiz Antônio Sacramento Miranda

                                                                              Notas 

Republicado em: 
O Grande Matosinhos, ASMAT, ano 17, n.203, s/d. Jornal Digital. Disponível em: https://www.ograndematosinhos.com.br/historia_regional/23.html  Acesso em 04 abril 2025. 

Notas finais: 

[1] - Para o garimpeiro a presença de veios de quartzo indica a proximidade do ouro escondido. Da mesma forma a “jacutinga” é uma indicadora. Trata-se de um minério mole e esbranquiçado. Por ser claro como as manchas brancas da ave galiforme cracídea chamada jacutinga (Aburria jacutinga) é que ganha este nome. 

[2]- Antiga mala rústica de couro cru, usada pelos tropeiros, atada sobre o lombo dos burros cargueiros. 

[3] - Reio: relho, espécie de chicote de uma só tira de couro. 

[4]- Uma lenda muito parecida em Tiradentes se refere ao desaparecimento e reaparecimento da imagem de São José de Botas, do nicho do Chafariz de São José. Ver: SCHETTINO, Lacyr. Lendas da cidade de Tiradentes. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, Belo Horizonte, 1968. v.13. p.149-160. 
Para conhecer outra versão de lenda de desaparecimento e reaparição de imagem em Tiradentes leia neste blog: Tiradentes/MG: duas lendas religiosas

sábado, 2 de julho de 2016

Coração Ferido

Nesta septingentésima postagem, expomos um conto religioso colhido em Santa Cruz de Minas, meados da década de 1990, cujo roteiro versa sobre ciúme, crime e milagre. Na simplicidade e objetividade da narrativa, uma série de valores do ideário cristão são expostos, em linguagem acessível ao plano catequético não oficial. Em outras palavras, através da narrativa, o narrador transmite o horror à violência, o peso do machismo, a doença do ciúme, a cegueira da imaginação patológica e por fim, coroando tudo, o milagre, em cuja reticência deixa antever a possibilidade da conversão e do arrependimento, que em similitude à redenção dada pelo próprio Cristo, vem a preço de sangue. 

Interessante observar, que a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, tão difundida durante o período romanizador, pós Concílio Vaticano I, é relativamente nova na cultura popular e ainda deixa em seu contexto poucas manifestações visíveis, como é o caso deste exemplar da literatura oral.

Os contos religiosos são profundamente arraigados ao cotidiano do povo, como parte de seu universo de saberes e como elemento simbólico de transmissão da moral cristã, como modelo necessário de vida em sociedade, contra o qual, tudo que se insurge, cai por terra, de uma forma ou de outra. Através do conto popular, nos intervalos do trabalho doméstico, ou no campo, ou na oficina, ou na noitinha, hora de tranquilidade, à beira do fogão à lenha, ou da fogueira no rancho de boiadeiros e tropeiros, o mais velho transmitia ao mais novo, o pai ao filho, a mãe à filha, a madrinha ao afilhado e assim por diante, dentro deste código de linguagem, o saber inerente ao comportamento padrão, que agrada a Deus e que por conseguinte é premiado com o poder sobre-humano da graça e do milagre, quando tudo parece perdido e insolúvel. 

Sem dúvidas, o conto contrapõe em dicotomia humildade/lealdade de um lado e violência (feminicídio)/domínio de outro, tendo a devoção como fulcro e fator decisivo para o desfecho da estória, que, em suma, tem um objetivo catequético e educador, quando analisada no contexto familiar e comunitário em que ocorrem estes tipos de narrativas. 

* * *

Havia uma mulher devota, dotada de espírito de bondade, direita, corretíssima, piedosa, benevolente, de fé inabalável. Vivia muito bem com seu marido, na paz do matrimônio consagrado; mas este, secretamente, desconfiava que a esposa o traía. 

Certa vez, o homem disse que ia viajar e despediu-se da mulher; mas era mentira. Tinha uma plano para provar a si mesmo, que a esposa era infiel, conforme injustamente acreditava. Escondeu-se no quintal e ficou observando se algum homem entrava em sua casa. 

E ficou o dia todo oculto e nada viu. A noite decidiu entrar em casa. Seu coração maldoso o impulsionava... Sua mente doentia imaginou um amante em sua cama. Quem sabe, talvez, algum homem teria entrado na casa pelo lado oposto e estava deitado com ela? 

Pegou uma faca, entrou pé ante pé, em absoluto silêncio, levantou rápido o lençol e fincou a arma no coração da mulher. Mas ela estava sozinha na cama. Não havia mais ninguém e o peso de seu crime hediondo sacrificou-lhe imensamente a consciência. Aturdido, saiu desesperado a chorar, sem rumo, para longe dali. 

No dia seguinte voltou cabisbaixo. Qual não foi sua surpresa, quando viu a esposa viva, normal, sem qualquer marca do golpe que dera! O fato milagroso e inexplicável o deixou ainda mais apalermado, quando viu a faca do crime cravada na imagem do Sagrado Coração de Jesus, que estava sobre a cômoda do quarto, bem em seu peito, do qual escorria sangue vivo... 

Detalhe da bandeira da Folia do Sagrado Coração de Jesus.
Colônia José Teodoro (São João del-Rei/MG), junho/2012. 

Créditos

- Texto, fotografia e acervo: Ulisses Passarelli.
- Informante do conto religioso: Elvira Andrade de Salles, Santa Cruz de Minas, 1996.

Notas 

- Revisão: 11/04/2025. 

quinta-feira, 24 de março de 2016

Duas lendas do ouro são-joanense

Várias localidades da Mesorregião Campo das Vertentes, em Minas Gerais, surgiram da mineração do ouro ou a vivenciaram durante um período de sua história. O ciclo do ouro deixou fortes impressões na cultura popular [1]. Ainda hoje, passados tantos anos, corre na boca do povo diversas estórias alusivas àquela atividade econômica que foi, muitas vezes, o embrião de um núcleo urbano. O ouro é parte importante de nosso folclore. 

Contam [2], por exemplo, que o ouro de São João del-Rei foi descoberto nos arredores da atual Igreja de Nossa Senhora do Carmo, por três rapazes, que localizaram um veio enorme. Começaram a extração às escondidas mas tiveram de parar por causa da grande quantidade de água subterrânea que aflorou. A Igreja do Carmo teria sido construída bem em cima das principais 'panelas' de ouro descoberta pelos três rapazes. Corre também a narrativa que esse famoso veio começaria na Beta do Tanque aos fundos do Barracão da Prefeitura, e, como um túnel, passaria por baixo da Rua Marcondes Neves, da Rua Gomes Pedroso e da Praça Augusto das Chagas Viegas, ficando as principais galerias por baixo do templo carmelita, onde imensas riquezas ainda existiriam. Dizem que a mineração naquele ponto era tão intensa que demandava centenas de escravizados. Um desmoronamento, certa feita, soterrou trezentos trabalhadores braçais e alguns feitores. Depois disto, a escavação parou e construíram a Igreja do Carmo em cima, marcando o local da tragédia. 

A história contudo ensina que o ouro de São João del-Rei não foi descoberto nos arredores do Carmo, embora essa região da urbe também tenha sido escalavrada pelos almocafres, picões e alavancas. Os primeiros descobertos teriam se dado em 1704, por Lourenço da Costa, no no Ribeirão São Francisco Xavier e quase concomitantemente no Alto das Mercês, pelo português Manoel João de Barcelos na encosta do morro. 

Outro conto [3] diz que certo homem comprou uma velha bêta, praticamente improdutiva. Seu objetivo era reativá-la e ficar rico. Tinha uma ganância desmedida. Como a produção fosse baixa, querendo enriquecer, fez um trato com o capeta prometendo-lhe em troca da riqueza a própria filha como pagamento.

Certo dia a mocinha estava caminhando quando por acidente escorregou e caiu na bêta pedregosa. Lá no fundo o rabudo [4] a possuiu sexualmente, confirmando assim o pacto. Correram para resgatá-la e de forma impressionante foi retirada de lá sem nenhuma lesão, algo inexplicável, pois qualquer um que ali caísse morreria, sem dúvidas. 

Naquele mesmo dia acharam grandes pepitas de ouro e também nos dias consecutivos se achava do nobre metal em abundância. Lavraram o veio rochoso, como muito sucesso para riqueza do proprietário. 

Mas assim como o dono da bêta enriqueceu de repente, dado um prazo começou o infortúnio. O ouro sumiu da mina, nada se achava. O que tinha guardado foi perdido em gastos sucessivos e rápidos, até a miséria absoluta. O rico minerador terminou seus dias como um mendigo. 

Serra do Lenheiro no Alto das Mercês, São João del-Rei, 12/08/2013:
vestígios de mineração - à esquerda um mundéu em quadra; aos fundos, escavações e cascalheiras.

 Créditos

Texto e fotografia: Ulisses Passarelli.

Notas

[1] A exemplo desta afirmação, leia também neste blog: OURO: UM CICLO CULTURAL
[2] Informante: Sr. Aluísio dos Santos, 05/01/1994, Centro, São João del-Rei.
[3] Informante: Sr. Luís Santana, 19/01/1994, Bairro São Dimas, São João del-Rei.
[4] Rabudo: um dos muitos sinônimos do demônio... Tinhoso, cão, bruto, capiroto, pemba, encardido, cramunhão, diabo, coisa ruim, etc. 

- Revisão: 26/10/2025. 

terça-feira, 15 de março de 2016

A Morte do Quilombola

Segue o registro de mais um conto popular, desta feita na modalidade "causo", narrando a passagem de um escravizado fugido, de idade avançada. Paralelo à sabedoria do homem simples, a nota maior é a reflexão sobre a salvação da alma. Foi relatado em São João del-Rei, como sendo muito antigo... 

*  *  *

Diz que foi no tempo do cativeiro, a cento e tantos anos atrás... Certo padre em longa jornada, ao passar à cavalo em um ermo de serra, beirando umas grotas, avistou uma tapera e nela um velho fugitivo das correntes do cativeiro. O quilombola estava em agonia de morte. O padre imaginou que não haveria outra oportunidade e querendo salvar a alma do quilombola, pediu para ele: 

_ Fala: "Jesus, Maria e José!"

Mas o moribundo já muito idoso, pleno em humildade, simplório ao extremo, só conseguiu com dificuldade dizer: 

_ "Cará na maromba tá que nem fubá..."

Tantas vezes o sacerdote pediu ao preto idoso que falasse o nome de Jesus, tantas ele repetia a mesma frase, refletindo sua única ambição, que nem sequer tinha força física para cumprir: colher cará [1] na maromba, um cercado improvisado com varas, pois o alimento estava no ponto da colheita, sequinho, igual fubá. 

E assim entregou-se à morte. O padre, certamente, entendeu que apesar de não ter dito o nome do Salvador aquela alma estaria salva pela misericórdia do Pai, em virtude das agruras que a vida lhe proporcionou e a pureza que conservou consigo. 

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Informante: Aluísio dos Santos, São João del-Rei, jan./1994.

Notas 

- Cará: conhecido por cará-do-ar, cará-de-cerca ou cará-de-pedra é uma planta trepadeira que produz tubérculos comestíveis. Pertence ao gênero Discorea. 
- Revisão: 09/05/2025. 

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Tradições acerca do gato

O gato na cultura popular é o símbolo da esperteza e da rapidez, mas também é entendido como uma criatura sonsa e traiçoeira, capaz de repentinamente mudar de gênio, de calmo para agressivo.

Acreditam alguns congadeiros em São João del-Rei/MG, que o tamborim, se revestido por couro de gato terá uma força muito maior que se fosse com o de boi, garantindo ao capitão que o usa, sagacidade no vencimento das demandas. O gato então é citado num ponto de catupé um tanto provocativo, coligido mesmo nesta cidade, em 1992:

"Eu quero vê!
Eu quero vê!
O pulo do gato, 
caxinguele-lê!"

O sentido é o seguinte: quem canta propõe um desafio ao terno visitante que chega em terra alheia sem a devida humildade _ quem pula melhor, com maior desenvoltura no congado? O "gato" é o congadeiro da terra, de casa, anfitrião; o "caxinguelê" é o congadeiro de fora, do mato, que não é do lugar, que veio de fora. O caxinguelê ou serelepe é um roedor extremamente ágil em seus movimentos.

No campo da crendice é assaz conhecido que gato preto dá azar a quem o ver atravessando o caminho adiante do observador. Igualmente difundido que o gato teria sete vidas, ou seja a faculdade de resistir à morte extraordinariamente. O povo também acredita que o gato transmita bronquite ou mais acertadamente a asma. Por isto não recomendam o contato muito próximo com o animal. Deixar o gato dormir na cama junto com a pessoa facilitaria essa transmissão. No mais há quem coma gatos, reputado como um bom tira-gosto, mas segundo se diz, não se deve chupar seus ossos como se faz com a carne de galinha, por exemplo, posto que a pessoa ficaria com "chieira" igual ao gato, ou seja, com o peito cheio, congestionado, gerando um som semelhante ao ronronado.

A figura do gato como animal doméstico propiciou o surgimento da crença que ele é um animal que teria uma ligação com o mal, o capeta. Talvez esta ideia tenha surgido de sua astúcia, dissimulação, tocaias, enfim, técnicas de sua própria natureza que objetivam sucesso na caça de suas presas naturais. Mas fato é que o povo interpreta estes atributos como sinais negativos [1]

No causo abaixo, de fundo anedótico, esta fama aflora e serve de motivo para o desenrolar da narrativa. Mais uma tradição popular corrente em São João del-Rei. Desta mesma cidade segue ainda uma versão da fábula assaz conhecida "O Pulo do Gato", que também reflete a esperteza do animal. 


O padre ludibriado pelo sacristão

Conta-se que um certo padre criava muitos gatos e o sacristão era encarregado de alimentá-los, mas o fazia muito a contragosto, pois odiava o serviço e mais ainda aqueles animais. Não via a hora de se livrar deles, que lotavam a casa paroquial. 

Fazia de tudo para convencer o sacerdote a acabar com os bichanos, mas sem êxito. Assim sendo, adotou nova estratégia e passou a afirmar que o gato não era bicho de bem, não era de Deus, mas do demônio. Mas o padre não acreditava e mantinha sua criação. 

Certa ocasião o padre precisou fazer uma longa e demorada viagem e deixou a gataiada [2] a cargo do sacristão como de costume. Era exatamente o que ele esperava...Todo dia, o sacristão aproveitando a ausência do vigário, juntava os gatos num cômodo pequeno, todo fechado e começava a gritar forte: "cruz, credo!", "cruz, credo!", "cruz, credo!" E enquanto gritava, batia violentamente com um chicote nos bichos que ficavam apavoradíssimos. Assim fez por vários dias. 

O padre então voltou da viagem e veio logo saber de seus queridos gatos. O sacristão de imediato falou que tinha avisado que os gatos eram do diabo. O vigário desacreditando, supondo uma bobagem, ouviu do sacristão que era só eles ouvirem a expressão "cruz, credo" [3] que fugiam apavorados... O padre quis tirar a prova e o juntou os gatos; o sacristão logo gritou: "cruz, credo!" Os gatos já condicionados pelo mal trato, se desesperaram e fugiram apavorados por todos os lados, miando em tom de desespero. E o padre, crente que o sacristão tinha razão, livrou-se dos gatos, para alegria de seu ajudante.

O pulo do gato

A onça admirava muito o gato por sua grande habilidade em dar saltos. Foi conversar com ele sobre isto e pediu que ele ensinasse a pular de todo jeito, pois precisava dessa habilidade para as suas caçadas. O gato, gentilmente, ensinou.

Passaram dias de aulas até que a lição chegou ao fim. A onça, muito astuta, resolveu armar um bote para pegar e devorar o gato, achando que já sabia de tudo e usando um dos saltos aprendidos com ele. Esperou de tocaia e pulou sobre o gato, com um habilidoso salto mortal. O gato, com extrema agilidade deu uma pirueta espetacular para trás e a onça perdendo o golpe que dera, ficou boquiaberta. Sem ter o que fazer, disse:

_ Ôh, compadre gato, que salto maravilhoso! Esse você não me ensinou...
_ Se eu te ensinasse esse pulo, você me comia!

Assim o gato se foi, deixando a lição que nem tudo a gente ensina...



Grafite inspirado em gatos, pintado sobre parede externa de residência à
Rua Alexina Pinto, na Bela Vista, em São João del-Rei. 03/07/2016. 

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.

Notas 

[1] Estas características despertaram também sua aproximação a alguns terreiros. Nalgumas quimbandas e umbandas o gato é animal votivo dos exus. Há vinte e poucos anos tivemos oportunidade de ver uma caveira de gato no interior de uma casa de força, de um desses terreiros, no Bairro São Dimas em São João del-Rei, como firmeza da linha esquerda. Um ponto cantado alude a esta aproximação:

"Exu ganhou um gato, 
mas não quis comer sozinho, 
dividiu com os camaradas,
pedacinho por pedacinho!
Aí chegou, seu Lucifer,
e a Pombogira,
era homem, era mulher..."

[2] Gataiada: muitos gatos. O sufixo "ada" na formação de um vocabulário popular é sempre de efeito superlativo: "chuvarada" (muita chuva), "dinheirada" (muito dinheiro), "peixaiada" (muitos peixes), etc. 
[3] Cruz, credo!: expressão popular de natureza exorcisória, esconjuro, fórmula verbal de catarse.

- Informantes: José Camilo da Silva, Bairro São Dimas, São João del-Rei, 1992 (caso do padre; ponto do gato com caxinguelê), Luís Santana, Bairro São Dimas, São João del-Rei, 1995 (fábula do pulo do gato). 
- Revisão: 26/10/2025. 
- Leia neste blog outros contos tematizados na suposta negatividade do gato, clicando nos links abaixo:

O GATO MALDITO: UM CONTO DO DEMÔNIO LOGRADO

UM CONTO POPULAR DE FIM TRÁGICO



domingo, 14 de junho de 2015

Canta, canta, meu surrão!

O picuá e o Homem do Saco

O mineiro, muito desconfiado por natureza, tem receio dos andarilhos. Deduz que possam ter cometido algum delito em terras distantes e fugido, aparecendo localmente como um pobre coitado, pedinte, mas na verdade pode ser um criminoso.

Em vista deste temor logo se ensina às crianças para afastarem-se dele, pois faria mal a elas e em sua figura, mitificou um personagem do imaginário popular chamado Homem do Saco. Numa visão mais ao viés da folclorística, o Homem do Saco é um mito que pertence ao Ciclo da Angústia Infantil. As narrativas o descrevem andrajoso, sujo, cabelo e barbas grandes, ensebados e desgrenhados, olhar sombrio, quase sem vida, andar lento e trôpego, fala pouca ou nenhuma... Jogado sobre os ombros e pendente nas costas, um saco encardido cheio de trastes, no meio dos quais mete crianças teimosas, "rueiras" (que só gostam de ficar fora de casa), desobedientes. Leva a criança no saco, para algum lugar ermo, onde a mata e devora. Eis o mito. E que pavor provoca nos pequeninos! Quando suas peraltices extrapolam, logo surge alguém para falar do tal homem do saco que já vem pegar o pequeno. E logo como que uma sombra se abate sobre o semblante pueril e os ânimos esfriam. Foi então muito fácil personificar o mito na figura do pobre mendigo, ainda que o fato em si só aumente a discriminação. 

Independente de ser um morador de rua, qualquer estranho andando com um bolsa às costas já é alvo de suspeitas e temor por parte do povo interiorano. "Cuidado com esses homem de picuá nas costas...", logo sentenciam. Picuá é um saco pequeno, cuja boca tem uma corda de correr, embainhada, que faz fechar sua entrada e serve também para se pendurar às costas para transporte, à tiracolo ou em diagonal, trespassando o peito. Viajantes sem rumo certo, vindo de terras distantes carregam os poucos pertences no picuá, daí se ter cisma de acudir pedidos de homem com picuá às costas, símbolo de gente suspeita, quiçá de má índole. A roupa boa ou razoável, a higiene e a boa prosa não enganam: homem de picuá nas costas não merece confiança ... É o que reza a cartilha da cultura popular. 

E no afã de ensinar essas coisas aos filhos, netos, sobrinhos, qualquer criança enfim, os mais velhos saíam com narrativas lendárias. Uma delas, assaz conhecida Brasil afora é a do "homem do surrão" (surrão valendo saco ou picuá; bolsa rude), aliás muito antiga. Frade (1986) publicou duas versões do Estado do Rio de Janeiro. Rodrigues (1977) registrou uma versão a mais de um século, com o nome de "A menina dos brincos de ouro", dizendo-a conhecida na Bahia e Maranhão, que em linhas gerais é a seguinte: uma menina ganhou da mãe uns brincos de ouro. Quando ia na fonte se banhar e buscar água numa cabaça, tirava-os e os deixava sobre uma pedra, até que um dia, ao chegar em casa, deu pela falta dos brincos. Havia esquecido na pedra. Com medo da mãe xingar pois era brava, voltou à fonte para buscá-los, mas foi capturada por um velho mal, que a meteu num saco (surrão), costurou a boca do mesmo para ela não fugir e disse-lhe que ganharia dinheiro com ela. De casa em casa, dizia que seu surrão era mágico, que cantava sozinho quando ameaçado de pancadas com o bordão (porrete, bengala, escora do velho). A menina no interior, com medo das batidas do bordão cantava. Então o homem do surrão ganhava algum dinheiro pela apresentação "mística" e partia para outra paragem. A sua fala era a seguinte: 

"Canta, canta, meu surrão, 
senão te meto este bordão."

E a menina muito triste cantava dentro: 

"Neste surrão me meteram,
neste surrão hei de morrer,
por causa duns brincos d'ouro
que na fonte eu deixei."

Ocorre que um dia ele foi levar o surrão para cantar justo na casa da mãe da menina, que reconheceu a voz dela. Usou então do estratagema de agradar ao estranho, dando-lhe de comer e beber com toda hospitalidade e sendo tarde o convenceram a dormir naquela casa. Durante seu sono pesado, abriram o saco, tiraram a menina já muito debilitada e encheram o surrão de excrementos. Logo cedo ele acordou, pegou o surrão, pôs nas costas e se foi. Na primeira casa que parou, mandou o surrão cantar e nenhuma voz saiu. Mandou de novo. Nada de cantar. Meteu o porrete no surrão repetidas vezes até rebentá-lo e o estrume caiu no chão revelando como fora ludibriado, o que o deixou furioso.

Pois bem, também aqui foi conhecido este conto, a que Nina Rodrigues creditava a procedência africana. Tem uma versão local, ouvida em Santa Cruz de Minas [1]. A estória se processa de forma quase idêntica, diferenciando apenas por alguns detalhes. A menina ganhara dos pais uma pulseira de contas de ouro e ao esquecê-la na pedra da fonte, teimou com a mãe e foi buscá-la, apesar da hora já imprópria. Então o restante se processa igual. Apenas os dizeres dos personagens é que mudam. Assim, o homem anuncia: 

"Canta, canta, meu surrão,
meu bordão eu te darei..." [2]

E a criança no saco (surrão) cantava lamuriosamente: 

"Continhas de ouro... vidinha,
que lá na fonte deixei!"

O excremento da versão nordestina com que enchem o saco ao tirar a menina, aqui é expressamente citado como esterco seco, de cavalo.

Referências 

RODRIGUES, (Raimundo) Nina. Os africanos no Brasil. 5.ed. São Paulo: Nacional, 1977. Coleção Brasiliana, v.9. 283p.il. p.191-192.

FRADE, Cáscia. (Coordenação). Cantos do Folclore Fluminense. Rio de Janeiro: Presença / Secretaria de Estado de Ciência e Cultura / Departamento de Cultura / INEPAC / Divisão de Folclore, 1986. 234p. 

 Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.

Notas 

[1] Informante: Maria Aparecida de Salles, 08/06/2015, lembrança fragmentária, de narrativa ouvida na infância por meio de sua mãe, Elvira Andrade de Salles. 
[2] Obs.: outra informante local descreveu o dístico do velho do surrão nessa variante: "Toca, toca, meu surrão, / bom bordão eu te darei..."

- Revisão: 19/07/2025.  

quarta-feira, 15 de abril de 2015

O demônio logrado por São Benedito

Nesta postagem o popularíssimo São Benedito volta à cena, agora no contexto da literatura popular oral. Exemplo de homem cristão, querido pelos escravizados no passado, padroeiro dos congadeiros de ontem e de hoje, de origem humilde e descendência africana, é extensamente presente em diversas manifestações folclóricas em todo o Brasil.

Os dois contos aqui expostos trazem em seu bojo uma série de elementos tradicionais e típicos do gênero do "demônio logrado", como por exemplo, a forma de desaparecimento do capeta, sob uma explosão, deixando um rastro fedorento de enxofre e fumaça. Ainda cita a tripa do Judas, outra simbologia, significando a entranha do mal, o âmago daquilo que é ruim.

Quantas vezes ouvimos em São João del-Rei a estória do Homem do Pé de Pato... Não é do mesmo gênero mas compartilha elementos. A moça que abusasse e na quaresma se atrevesse a ir em um baile, seria abordada por um moço desconhecido, de grande beleza, muito bem vestido, com requinte e elegância, que a convidaria para dançar. No meio da dança, enlevada pela sedução do jovem, a moça cairia em si estupefata, em crise de desespero ou desmaio, porque ao olhar para os sapatos de seu par via para seu espanto, que eram pés de pato... O moço era o demônio, que então sumia num repentino estouro de fumaça e fedor, ou apenas se esvaía como neblina. Noutra versão corrente na mesma cidade, com o mesmo desenvolvimento e mudança só no desfecho, o belo jovem comete a deselegância de dançar de chapéu à cabeça e só pelas tantas o tira, quando acontece o mesmo choque, posto que tem chifres.

Aqui também vemos o repisamento da tentação, o diabo laçando pela aparência física, o flerte, a sedução sobre a jovem incauta.

Típico dos contos do demônio logrado é a solução inesperada para o caso, uma situação que supera a sagacidade do mal: no conto A Velha do Chinelo, por exemplo, exposto neste blog, o demônio também se materializa como cavaleiro e a solução é pela armadilha do falso testemunho; já nos dois casos abaixo, a solução se dá por um atoleiro e ainda pelo mesmo artifício do jovem sedutor, bonito, charmoso, só que desta feita pelo lado do bem, impedindo a aproximação do mal.

A didática ou antes catequese desses contos é notória. Usando de uma linguagem ao agrado da cultura popular e de uma dramatização folclórica, contextualizada em um ambiente que simula ou sugere o rural antigo, ambos os contos de alguma forma alinham pelo exemplo os elementos devoção-tentação x racismo-discriminação.

Tem que ser entendidos e lidos à luz do folclore, a cujo campo pertencem. O ensinamento transmitido é que o racismo e a discriminação não são de Deus. São obras do mal, demoníacas. A beleza e o caráter do homem preto superou o do homem branco e cativou a moça devota. Sua devoção era tamanha que o santo, pressentindo seu perigo, veio em socorro, sem precisar que ela pedisse. A lealdade dela ao grande taumaturgo garantiu que saísse ilesa.

Em momento algum os contos transmitem mau exemplo, nem pelo linguajar. Pelo contrário, combatem o racismo e a discriminação. Provam que a virtude sob a forma de um homem preto foi muito mais forte que a artimanha do contrário. Com seu enredo atraente passam o recado da necessidade de forte devoção, do valor e beleza da negritude, do poder do santo, da retidão de conduta do fiel e da malícia que o diabo possui e usa.

Diante do exposto, segue-se dois contos desse gênero, coligidos há década e meia, em Santa Cruz de Minas. 

São Benedito: pintura de arte popular numa bandeira de congado (catupé),
de São Sebastião da Estrela (Santo Antônio do Amparo/MG), 30/06/2013. 

1) Uma moça muito bonita ia se casar e o diabo quis atrapalhar. Tomou a forma humana e montou um cavalo muito bem arreado, com fivelas metálicas brilhantes. Vinha como um rapaz bastante elegante na vestimenta, belo e charmoso. 

A noiva era muito devota de São Benedito e pediu a benção dele para seu casamento. O santo ouviu a súplica e vendo-a em perigo pela armação de satanás, tratou de impedi-lo. Fez o cavalo dele tomar outro rumo e atolar num brejo de forma que não pudesse sair. Não podia descer para não sujar a roupa de barro. Pelejou para desatolar e não conseguiu. 

Enquanto isto, o casório aconteceu. Terminado o casamento, voltando os convidados, ao passarem pela estrada, o demônio disfarçado de jovem perguntava: 

"_ Vocês viram o Benedito?" 
  _ Não ..."

 E o coisa ruim resmungava palavras ofensivas.

Quando os recém-casados estavam em segurança o santo finalmente apareceu ao tinhoso [1] e deu ordem de desatolar. O cavalo saiu do brejo na hora e o santo falou:

"_ Não vai atrapalhar ninguém! Vai-te estourar nas tripas do Judas e feder a enxofre nas profundas dos infernos!"

Então aconteceu um estouro fumacento, com cavalo e capeta, sumindo tudo para o inferno. 

Andor de São Benedito. Festa do Rosário, Ramos (Ritápolis/MG), 24/09/2000. 

2) Uma moça era bastante devota de São Benedito. Ela gostava muito de baile, danças. Era ocasião de uma quadrilha, tempo de festas juninas. O diabo estava por perto, na espreita, espiando por umas gretas [2]

Ela dançava de forma inocente e ele cismou de perverter a moça. São Benedito, pressentindo o perigo que a jovem corria e considerando sua grande devoção, apareceu no baile para protegê-la. Veio na forma de um rapaz preto e o demônio por sua vez como um rapaz branco. 

O jovem preto logo se aproximou da moça e a pediu para dançar, se não tivesse preconceito. Ela agradando muito dele, aceitou de imediato e assim bailaram a noite toda. O diabo nada pode fazer e o santo, através de seu poder, afastou dali o capeta, que logo foi embora do baile e assim a moça foi salva. 

Créditos

-Texto e fotografias: Ulisses Passarelli. 
- Informante: Elvira Andrade de Salles, Bairro Córrego, Santa Cruz de Minas/MG, 27/08/2000.

Notas

[1] Tinhoso: o demônio. Talvez o ódio do povo contra ele, a vasta mítica desenvolvida pela cultura popular ao seu redor, geraram uma vasta sinonímia, acrescida por novos termos em cada região: bruto, encardido, capiroto, pemba, coisa ruim, "malino" (maligno), cramunhão,cariá, etc.

[2] A informante dizia que o diabo tem licença para atentar em três situações: no ato de uma jogatina (jogos de azar), numa dança de quadrilha e onde tem cisco parado. Nesta última situação se a pessoa ao varrer juntou o lixo num canto e não pôs na lixeira ou para fora numa pá, surgem inesperadamente, discussões, desentendimentos sem qualquer motivo. É o maligno atentando. 

- Revisão: 17/06/2026. 

- Leia também neste blog:

O GLORIOSO SÃO BENEDITO 
GUNGA SERENA!

sábado, 29 de novembro de 2014

Duas lendas da Lagoa dos Cordões

Na margem do Rio das Mortes, ao longo de sua várzea, formam-se algumas lagoas nos rebaixamentos, anualmente renovadas pela invasão das águas fluviais da cheia do rio. Em Santa Cruz de Minas algumas aparentemente menos significativas não receberam nomes próprios; mas outras, por peculiaridades específicas, foram nominadas: Lagoa do Cará (nome de várias espécies de peixes ciclídeos), Lagoa Vermelha, Lagoa Comprida, Lagoa do Cascalho e Lagoa dos Cordões (ou dos Sete Cordões), esta, a maior e mais profunda.

As margens da Lagoa dos Cordões eram pontos de lazer, sempre frequente de se ver banhistas e pescadores. Também difundida no meio popular duas narrativas assombradas para aquelas águas, além das tradicionais estórias do caboclo-d'água, que dizem surgir ali também.

Vejamos, resumidamente, as duas lendas: 

A Noiva Encantada

Dizem que, vez por outra, alguém vê, de repente, uma noiva andando cabisbaixa na beirada da Lagoa do Cordões. É logo reconhecida por seu vestido branco matrimonial. Sua fisionomia expressa tristeza e em breve desaparece como uma bruma matutina. 

Narra-se que, certa feita, fazem muitos anos, uma jovem fora obrigada pela família a se casar com um homem que não gostava de jeito nenhum. Muito contrariada, fugiu correndo do altar e no auge do desespero atirou-se na Lagoa dos Cordões, onde morreu afogada. 

Sua alma infeliz vagueia por lá, entre água e terra, entre dois mundos, aparecendo eventualmente como se pedisse socorro através de sua tristeza.  

Tropa do Além

O povo acredita que nas margens da Lagoa dos Cordões, a altas horas da noite, aconteça uma assombrosa manifestação: ouve-se ao longe cavalos relinchando, muitos, e um intenso tropel, e um homem a gritar como que campeando os animais.

Os cavalos se aproximam e se reconhece pelo aumento da nitidez do barulho a sua chegada, cada vez mais marcante. O corpo então arrepia, anunciando que aquilo é coisa de outro mundo...

E surge a visagem: uma tropa de cerca de quarenta cavalos, absolutamente brancos, tangidos pela alma de um só peão, que brada tocando animais fantasmagóricos.

 Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.

Notas 

- Informante: diversos, Santa Cruz de Minas, 1994.
- Revisão: 13/10/2025. 

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O Lençol da Falecida

Antigamente, nos enterros de roça, não usavam caixão, como hoje. Quando morria alguém nos sítios e localidades humildes, um parente ou amigo mandava um mensageiro sair às pressas até um carapina para encomendar um caixão. Pela noite os homens trabalhavam na banca - faziam o caixão e o revestiam de pano roxo e galão amarelo ou dourado. O defunto vinha da zona rural de padiola, espécie de estrado improvisado sobre varais de madeira, coberto por um lençol, sempre branco. 

Na entrada da cidade ou vila onde houvesse cemitério, os fabricantes do caixão estavam esperando com o macabro produto de seu trabalho. Ali o cortejo fúnebre parava e transferiam o corpo respeitosamente para o caixão. A padiola era jogada fora no mato e o falecido entrava na área urbana mais bem posicionado no caixão. 

Ocorreu certa vez, fazem muito anos, que na zona rural de Bias Fortes faleceu uma mulher já madura de idade, por nome ... Naquele dia um cavaleiro tinha ido à cidade e voltava já tarde para a roça, fora de hora, se guiando pelo caminho graças ao clarão da lua cheia. 

Em dado ponto do caminho, próximo à casa da falecida, viu um lençol branco estendido no chão do caminho. Estranhou... Foi chegando perto, o lençol alçou voo, rente ao solo, caminho afora, aparentemente lento. Mas o homem era abusado. Queria tirar a limpo aquele caso misterioso: impôs galope à montaria e tanto mais corria, mais rápido o lençol voava tremulando. A ideia do cavaleiro era açoitar o lençol.

Emparelhado à casa donde saíra a falecida, o lençol desceu morro abaixo e pairou na frente da porta da cozinha. Ali, como que por encanto desapareceu, deixando estupefato o cavaleiro, que enfim se certificou que o lençol não era uma brincadeira de algum gaiato que o puxava amarrado a um cordão, mas sim, uma aparição sinistra da alma daquela mulher que morrera e que ainda não fora encaminhada para a salvação.

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli
- Informante: José Cândido de Salles, Santa Cruz de Minas, setembro/2000.

Notas 

- Obs.: o causo do lençol branco que voa, simbolizando uma alma, tem difusão além da área desta narrativa. Na estrada do Caburu, por exemplo, em São João del-Rei, quase chegando na vila de São Gonçalo do Amarante, existe, à beira da estrada, à direita de quem vai para aquele distrito, uma antiquíssima passagem de uma velha cava, caminho de outrora, trilhado por cavaleiros, boiadeiros e tropeiros. Ali existe a "Porteira da Volta", com fama de assombrada, onde, dizem, os incautos são perseguidos por um lençol esvoaçante (inf.: Dorival Caim de Paula, outubro/2014). Esta cava é parte do caminho antigo de São João a São Gonçalo, via Águas Gerais e possivelmente um trecho do Caminho Geral do Sertão, contemporâneo do movimento sertanista. 

- Revisão: 08/04/2026. 

terça-feira, 11 de novembro de 2014

A lição da miserável

Ela era muito sovina. A fulana se comportava como uma mulher usurária, que não aceitava dar nada a ninguém; "garrafinha", como se diz. Nem ao seu cachorro de estimação deixava uma migalha. O que o pobre animal angariava era apenas um pouco de comida que comia às escondidas de sua dona, além do que catava de comer pelas ruas. 

Certa ocasião a mulher estava amassando angu para comer e o seu cão muito magro, logo abaixo da mesa, babava e fazia expressão de muita fome, com os olhos esbugalhados na direção do prato. Mas sua dona não percebia nem compadecia. Amassava o angu mecanicamente, olhando para fora pela janela. 

Quando enfim voltou os olhos ao prato, se assustou muito: ela deu um salto para trás e deixou cair o garfo... O prato estava banhado de sangue! Como um aviso divino para frear seu mau hábito de mesquinharia, os olhos do cachorro tinham saltado fora das órbitas para dentro do prato, de tanta vontade de comer, e a mulher os havia amassado junto com o angu...  

O vira-latas. 

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografia: Iago C.S. Passarelli, 2014.
- Informante: Elvira Andrade de Salles, Santa Cruz de Minas, 1995.

Notas 


- Revisão: 03/02/2026. 
- Obs.: outra narrativa colhida na região assemelha-se a esta ao envolver um dono mesquinho e o cachorro de estimação, com um aviso sobrenatural, que partiu do próprio animal. Leia em:

LUGAR ONDE O CACHORRO FALOU


sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Causos sobre vacas

Nesta postagem expõe-se dois curiosos causos envolvendo vacas.

O primeiro é uma transcrição jornalística [1] de matéria publicada em São João del-Rei, 112 anos atrás. Teria acontecido no distrito de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno. A grafia foi atualizada. Narra o castigo divino que caiu sobre um sitiante que usurpou a vaca de outro. É explicitamente o reflexo do pensamento da cultura popular acerca da justiça divina. Estórias assim se repetem como exemplo moralizante, uma lição, e como tal, assumem finalidade quase catequética.

O segundo causo é anedótico e se passa com uma Folia de Reis rural, que rumou à casa de um potentado político do sertão, um "coronel", como se dizia outrora, título não militar, de cunho honorífico, aplicado a ricos comerciantes e latifundiários, em geral poderosos e violentos, impondo seu domínio pela força de armas na mão de capangas. Sabe-se que essa narrativa em pequenas variantes aparece noutras regiões [2].  

Detalhe de uma pintura popular sobre um latão de leite de 50 litros.
São Miguel do Cajuru (São João del-Rei/MG).

1- "Deu-se há dias neste distrito um fato, que muito tem impressionado esta população. Eis o caso: um sitiante vizinho foi a casa de outro e lá, com extrema brutalidade, insultou-o muito, insultou a própria família do mesmo, contando com o gênio excessivamente pacifico do insultado. Tudo isto fez por causa de uma vaca que dizia ser sua e que afinal de contas não era. Ao retirar-se garboso, tocando a vaca que dizia ser sua, o fazendeiro insultado disse-lhe apenas estas palavras: "a vaca não é sua mas pode levá-la que Deus cobrará por mim." Em tal hora essas palavras foram ditas que os anjos disseram _ "amém". Dois dias depois disso, sem chuva alguma, céu claro e sem nuvem, estronda um corisco e cai uma faísca no meio do gado do sitiante, e dessa feita, morreram seis vacas, das melhores. O sitiante vai mudar o gado de pasto e outra rês cai num desbarrancado. Dias depois morrem mais duas vacas atoladas, quase em frente à casa do sitiante usurpador. A providência cobrando as injúrias lançadas à família do outro! E assim vai o bruto pagando, e com juros a vaca tirada. Este fato verdadeiro e real muito nos tem impressionado aqui."

Fotomontagem contendo recorte do jornal O Combate,
n.154, 01/03/1902, que narrou o causo da vaca no distrito. 

2- Aí por esses ermos entre montanhas, foi há muito tempo, que uma Folia de Reis, simplória, própria das roças, estava em jornada por léguas, visitando sitiantes e fazendeiros, tendo à frente sua bandeira sagrada. A bandeira era muito humilde, feita de um pequeno pedaço de pano vermelho, já surrado pelo tempo, com alguns enfeites e o registro (estampa) dos Santos Reis. Vinha presa numa vareta de bambu, pela qual o bandeireiro a carregava respeitosamente. Iam de visita à casa de um "coronel", onde todo ano passavam com a folia e pousavam. Ele gostava demais e se sentia muito ofendido se sua casa não fosse visitada. Como era muito bravo e influente, ninguém ousava desagradá-lo, como manda-chuva do sertão que era. Deu-se, que o calor cruel e o cansaço da longa caminhada os fez prostrar sob uma frondosa árvore no meio de um pasto. Tinham almoçado de pouco e não teve jeito... Amontoaram os instrumentos junto ao tronco e puseram a bandeira por cima para abençoar, como de costume. Deitaram na grama mesmo, se acomodando como deu. Cochilaram. Por ali pastavam umas reses e não é que, com o paradeiro dos folieiros, naquele mormaço, foram se aproximando e uma vaca mais afoita, atiçada pelo pano da bandeira balançando a ponta ao vento, meteu-lhe a boca e começou a comer a bandeira da folia. Quase no fim, ao puxá-la com os dentes, a vareta de segurar derrubou os instrumentos e foi aquela barulhada de pandeiro rolando, caixa tombando, cavaquinho estatelado na macega. Os folieiros acordaram assustados e um gritou: "a vaca  tá comendo a bandeira!" e correu para acudir, mas como só estava uma ponta de fora, ainda fez cabo de guerra com a vaca, mas ela levou a melhor e acabou engolindo tudo. Só sobrou o pauzinho de segurar, ou melhor, o bambu, com umas fitinhas desbotadas na ponta. Entreolhando-se decepcionados e preocupadíssimos, logo se puseram a discutir o que fazer, ante tão embaraçosa situação: "vamos embora para casa", diziam uns; "não, vamos ao coronel assim mesmo, que se faltar lá ele manda até capanga perseguir a gente...", diziam outros. Não havendo consenso, ordenou o folião: "o jeito é ir na fazenda do coronel. Lá não pode faltar... A gente explica com jeitinho." Pois, foram. Na chegada, o homem que estava de espera, olhou espantado para o grupo, dando pela falta da bandeira, situação inimaginável para uma folia... O bandeireiro na dianteira, muito sem graça, cabeça baixa, segurava a vareta com fitas. O mestre, com a viola em punho, sem saber como explicar em seus versos o acontecido, se saiu com este improviso: 

"Meu senhor dono da casa, 
não repara o que aconteceu: 
dai esmola pra vareta,
que a bandeira a vaca comeu..."


Créditos 

- Texto e fotografia (2013): Ulisses Passarelli.

Notas

- Revisão: 07/08/2025. 
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[1] Fonte: O Combate, n.154, 01/03/1902, São João del-Rei. Acervo da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida.

[2] Informante da versão local, transcrita nesta postagem: Sebastião Teodoro da Silva ("Tião Domingos"), 2004, Vila João Lombardi - Bairro das Fábricas, São João del-Rei. Era folião, natural do distrito de Emboabas (in memoriam)

domingo, 26 de outubro de 2014

O gato maldito: um conto do demônio logrado

Certo dia, um homem apareceu em casa com um gato e estava muito feliz por ter encontrado o bicho. Entregou-o à esposa e pediu que tratasse dele. Foi trabalhar. A mulher cuidava do felino e o gato sempre comia a fartar, mas todos os dias quando o marido chegava da labuta, o gato vinha ronronando, se esfregava na calça do dono e miava muito como se estivesse com fome. 

O homem começou a se chatear com a mulher, acusando-a de não alimentar o animal, pelo qual tinha tanta estima. Achava uma covardia deixar o bichano passar fome e ela se defendia dizendo que o tinha alimentado bastante. O marido não acreditava porque o comportamento do gato era de quem estava com muita fome. Assim a discórdia do casal aumentou dia a dia por causa do gato, a ponto do marido agredir a mulher. 

Foi então, que, certo dia, o homem passando por baixo de uma ponte escura e deserta ouviu vozes debaixo da mesma. Foi espiar e admirou ao ver vários capetas em reunião, contando os seus feitos malfazejos daquele dia. E ouviu um dos diabos dizer: 

"_ ultimamente tomei a forma de um gato e causo brigas entre um casal, porque o homem, ao voltar do serviço, acha que a esposa não deu comida para mim."

O homem trabalhador voltou apavorado para casa e foi se preparar para o gato maldito. Empilhou lenha para fazer uma fogueira e arranjou um cordão bento de São Francisco. Quando o gato apareceu ele o pegou de repente e amarrou as patas com o cordão. Jogou o gato ao fogo dizendo firmemente à mulher que não interferisse que ele sabia o que estava fazendo. Foi então que se ouviu um forte estouro que marcou o desaparecimento do tentador. A partir de então o casal voltou a viver bem, com paz e união. 


Demônio. Parte de um painel pintado na parede direita da nave
da Igreja de Santo Antônio. Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno
(São João del-Rei/MG)

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografia: Iago C.S. Passarelli, 19/10/2014.

Notas 

- Informante: Elvira Andrade de Salles, Santa Cruz de Minas, 1994.

- Obs.: este conto se enquadra na categoria das narrativas do "demônio logrado", quando as artimanhas malignas são superadas pela sagacidade humana. Conserva elementos folclóricos tradicionais, quais sejam, temas e fórmulas típicas: o gato como animal negativo (paralelo com sua preguiça e dissimulação - atributos do mal); satanás atentando um bom casamento para destruir a união; o cordão bento de São Francisco de Assis como amuleto capaz de amarrar e rebater o malefício; o fogo como elemento de catarse, purificação; a explosão como fórmula clássica de desaparecimento do demônio expulso. Em seu bojo, o conto transmite o ensinamento religioso de que a tentação vem muitas vezes sob aparências inocentes e chega sem avisar, sendo necessário, como ensinou o Divino Mestre, vigiar e orar. 

- Revisão: 03/08/2025. 

sexta-feira, 11 de julho de 2014

O Gavião e o Sapo

Diz a fábula que... Um boi pastava numa baixada. Enquanto isto, o gavião que estava pousado no alto de um galho, de lá desceu até o lombo do boi para catar carrapatos e bernes. Cata daqui, bica dali, o rapineiro tirava os parasitas do couro. No meio da grama tinha um sapo e o boi sem avistá-lo, pisou em cima dele. O sapo ficou achatado com o peso sobre ele e os olhos até estatalaram. O gavião perguntou: 

Sapo-cachorrinho (Physalaemus cuvieri).
Leptodactilidae. Serra de São José, Tiradentes/MG.

_ Uai, sapo, o quê que você está fazendo aí?
_ Tô apiando esse boi ... respondeu orgulhoso, fingindo uma força que não tinha.
_ E você lá tem força pra isso?!
_ Justamente. 

Nisso o boi mudou a mão de lugar e soltou o sapo, todo amassado. O gavião olhou bem para ele e falou: 

_ Quer saber de uma coisa? Não vou catar carrapato nesse boi mais não. Eu vou é comer você ...

E de um voo rasante e ligeiro meteu as garras no sapo e carregou ele pelos ares. 

Numa moita de capim logo adiante estava a mulher do sapo. Olhou para cima, viu o gavião passando com o almoço preso nos pés. Gritou: 

_ ôh, marido! Aonde você vai?
_ Eu não vou, ele é que me leva... 
_ Você volta aqui na terra?
_ Só se for cuspido ou escarrado, que eu tô com sete unha no ouvido encravado ...

Sapo-bode (Thoropa miliaris). Leptodactilidae.
Serra de São José, Santa Cruz de Minas/MG.

Créditos

- Texto e fotografias: Ulisses Passarelli.
- Informante: Júlio Prudente de Oliveira, 1996, Santa Rita do Ibitipoca/MG.

Notas 

- Apiando: levantando, erguendo. Estatalaram: tornaram-se arregalados, esbugalhados, salientes. Mulher do sapo: expressão vulgar para se referir à rã (conferir em: Os bratáquios no folclore).

- Revisão: 29/09/2025.