Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Um Conto Popular de Fim Trágico

No universo cultural brasileiro, no campo das tradições populares, as narrativas merecem uma atenção especial: contos, fábulas, lendas, mitos, causos, o anedotário. A "contação" de estórias embalou muitas pessoas, de várias gerações, nas cozinhas de roça, junto ao fogão "de lenha", no alpendre, no rancho boiadeiro aguardando passar a noite. Os mais velhos narrando sua experiência de vida aos jovens, parábolas do cotidiano ou aquilo que aprenderam com seus pais, avós... As senhoras na faina de fiar e tecer, iam narrando sem parar as hábeis mãos, enquanto a jovenzinha ao lado ajudando em pequenas tarefas, mas aprendendo o ofício, ouvia as velhas narrativas, "do tempo dos antigos", "do começo do mundo", "do tempo que os bichos falavam". 

Elas conservam uma riqueza extraordinária de dados da vida social e velhos elementos jurídicos. Os costumes encarnam nos próprios personagens, que por sua vez refletem, muitas vezes, os próprios membros daquela comunidade. 

A maioria dos contos termina de forma positiva, ou seja, com uma lição moral, um ensinamento religioso ou algo do tipo. É bem conhecida nos contos de fadas a fórmula de desfecho "viveram felizes para sempre". Mas como toda regra tem exceção, na pequena narrativa abaixo a protagonista tem um final trágico. Classifica-se entre os chamados contos de natureza denunciante: um animal ou vegetal ganha voz humana e denuncia um crime ou perigo. Dois temas recorrentes nos contos são vistos neste: a vida fidalga das princesas e o gato como animal influenciado por forças do mal,anti-religiosas. 

Transmissão de Saberes.

O Gato Incendiário

Faz muito tempo atrás, vivia uma princesa num castelo. Assim eles contam, os antigos, Então deve de ser verdade porque eles eram muito sabidos, tinham ciência das coisas...

Num castelo vivia uma princesa que tinha um gatinho, muito da sua estimação. Tratava ele a pão de ló mas parece que o bicho era atentado pelo demo.

Foi um dia, a princesa antes de dormir acendeu uma vela no oratório, que ficava na parede por cima da cama.

O gato, muito azucrinado, depois que ela dormiu, pulou no oratório e derrubou a vela em cima do lençol fino, de cetim. O fogo lastrou rápido e vendo aquilo, um ratinho anunciou assim, tentando salvar a todos:

Acorda, celentríssima,
acorda com bonança;
chama a forgazona,
que o mardito papa-rato
pois fogo na traficança!

Mas com sua vozinha fraca de camundongo não conseguiu despertar a princesa do sono profundo que tinha. Quando ela acordou já era tarde, pois as chamas tinham dominado toda sua cama ...

Pequeno Glossário

- Tratar a pão de ló: com requinte, da melhor forma possível.
- Celentríssima: corruptela de excelentíssima. 
- Traficança: conjunto de peças, reunião de objetos. Muitas coisas reunidas, tralha. No contexto versificado é uma referência ao conteúdo do quarto que pegava fogo. 
- Forgazona: folgazona; provavelmente a ama seca; lacaia. 
- Mardito papa-rato: maldito gato.

Notas e Créditos 

* Informante: Elvira Andrade de Salles, Santa Cruz de Minas, 1997.
**Texto e fotografia (2004): Ulisses Passarelli.

domingo, 15 de setembro de 2013

Matosinhos, 2013: um grande jubileu em São João del-Rei

O dia 14 de setembro de cada ano é marcado em São João del-Rei por uma grande festividade religiosa que agita e revigora o bairro de Matosinhos. Nesta data fixa comemora-se o dia maior do grande jubileu dedicado ao Senhor Bom Jesus de Matosinhos. 

Antecedido por novena, com missas diárias, a temática religiosa é abordada a cada dia por um sacerdote convidado, dando ao fiel a oportunidade de ouvir a diretriz proposta para o jubileu daquele ano sob diferentes pontos de vista, sendo assim muito enriquecedor no processo de evangelização. 

Altar enfeitado durante o Jubileu do Senhor Bom Jesus de Matosinhos. Ao fundo resultado da reforma recém-completada, conduzida pelo pároco, Padre José Bittar, que destacou as imagens do Divino Espírito Santo e Nossa Senhora da Lapa, agora ladeando a cruz do Senhor. 

A data principal se desenha desde cedo com o foguetório da alvorada, às 6 horas da manhã. Ao longo dia as celebrações acontecem aglomerando fiéis que lotam o santuário. Ao fim da celebração é comum ver-se pessoas observando os muitos ex-votos na popular "Sala dos Milagres". 

A procissão noturna é o que há de mais marcante no jubileu e impressiona notavelmente pelo número arrebatador de fiéis. Ao toque dos sinos, uma massa humana gigante se apodera da Avenida Josué de Queiroz, disposta em duas alas principais. A perder de vistas sobe aquela importante artéria de trânsito e custa muito a que chegue a vez do pesado andor, carregado nos braços, bastante enfeitado e iluminado, graças ao carinho dos devotos. Entre as flores, uma nota de destaque como todo ano se nota, é dada aos antúrios (araceae), abundantes nesta quadra do ano. Em volta do andor e na sua retaguarda já não se observa as duas alas, mas um aglomerado de pessoas, movidas pela mesma causa devota.

Chegada da Procissão do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, notando-se a intensa aglomeração de devotos.

A excelente Banda Sinfônica do Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos [1] dá cobertura à parte musical, sob a competente regência de Ronaldo Medeiros, que com proficiência conduz os jovens músicos, em equipe com outros regentes e professores de música. 

Do lado externo, nos intervalos das comemorações religiosas e ao seu final, as pessoas aproveitam o momento de socialização que as tradicionais "barraquinhas" proporcionam. Claro que a configuração das barracas mudou com os anos, para se adequar às exigências contemporâneas, com novo estilo (tendas moduladas), questões de segurança e higienização na frente da pauta de preocupações. Outro ponto diferente é que este ano foram externas e não mais no adro. Um show ponto-finaliza a festividade. 

Senhor de Matosinhos é uma invocação cristã de procedência portuguesa, que nos chegou no período colonial, sabendo-se que no ano de 1770 foi iniciada a construção da capela primitiva. A notícia da primeira festividade a temos quatro anos depois. Tamanha influência exerceu que mudou o nome do lugar, antes chamado "Vargem da Água Limpa", mudado para Matosinhos pela força sugestiva da devoção. Até data incerta do século XX realizou-se esta festa junto com a do Divino, na segunda-feira imediatamente a Pentecostes. Uma notícia jornalística de 1922 indica que neste ano já acontecera a festa do Bom Jesus em separado, no mês de setembro. 

Flagrante da condução do andor do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, vendo-se à direita o 
Prefeito Municipal de São João del-Rei, Professor Helvécio Luiz Reis, conduzindo uma lanterna, 
seguido por membros da Irmandade do Santíssimo Sacramento. 


Foguetório na chegada da procissão. 

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli
- Fotografias: altar e chegada da procissão, Ulisses Passarelli; demais, Iago C.S. Passarelli, 14/09/2013.

Notas 

[1] A Banda Sinfônica do Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos foi cadastrada pela Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de São João del-Rei em 28/11/2023. Seu cadastrado foi incorporado pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural (CMPPC), de São João del-Rei ao Processo de Registro 046/22, "Orquestras e Bandas Tradicionais de São João del-Rei", por juntada, conforme ata nº534, 13/12/2023; covalidação pelo Decreto Municipal nº11.558, 16/12/2024. 
- Assista ao vídeo da saída da procissão: Senhor Bom Jesus de Matosinhos
- Revisão: 11/06/2025.  

Matosinhos: um grande jubileu em São João del-Rei

O dia 14 de setembro de cada ano é marcado em São João del-Rei por uma grande festividade religiosa que agita e revigora o bairro de Matosinhos. Nesta data fixa comemora-se o dia maior do grande jubileu do Senhor Bom Jesus de Matosinhos. 

Antecedido por novena, com missas diárias, a temática religiosa é abordada a cada dia por um sacerdote convidado, dando ao fiel a oportunidade de ouvir a diretriz proposta para o jubileu daquele ano sob diferentes pontos de vista, sendo assim muito enriquecedor no processo de evangelização. 

Altar enfeitado durante o Jubileu do Senhor Bom Jesus de Matosinhos. Ao fundo resultado da reforma recém-completada, conduzida pelo pároco, Padre José Bittar, que destacou as imagens do Divino Espírito Santo e Nossa Senhora da Lapa, agora ladeando a cruz do Senhor. 

A data principal se desenha desde cedo com o foguetório da alvorada, às 6 horas da manhã, e ao longo dia as celebrações acontecem aglomerando fiéis que lotam o santuário. Ao fim da celebração é comum ver-se pessoas observando os muitos ex-votos na popular "Sala dos Milagres". 

A procissão noturna é o que há de mais marcante no jubileu e impressiona notavelmente pelo número arrebatador de fiéis. Ao toque dos sinos, uma massa humana gigante se apodera da Avenida Josué de Queiroz em duas alas principais. A perder de vistas sobe aquela importante artéria de trânsito e custa muito a que chegue a vez do pesado andor, carregado nos braços, bastante enfeitado e iluminado, graças ao carinho dos devotos. Entre as flores, uma nota de destaque como todo ano se nota, é dada aos antúrios (araceae), abundantes nesta quadra do ano. Em volta do andor e na sua retaguarda já não se nota as duas alas, mas um aglomerado de pessoas movidas pelas mesma causa devota.

Chegada da Procissão do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, notando-se a intensa aglomeração de devotos. Foto: Ulisses Passarelli, 14/09/2013. 

A excelente Banda Sinfônica do Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos deu cobertura á parte musical, sob a competente regência de Ronaldo Medeiros, que com proficiência conduziu os jovens músicos. 

Do lado externo, nos intervalos das comemorações religiosas e ao seu final, as pessoas aproveitam o momento de socialização que as tradicionais "barraquinhas" proporcionam. Claro que a configuração das barracas mudou com os anos, para se adequar às exigências contemporâneas, com novo estilo (tendas pré-moldadas), questões de segurança e higienização na frente da pauta de preocupações. Outro ponto diferente é que este ano foram externas e não mais no adro. 

Um show ponto-finaliza a festividade. 

O Senhor de Matosinhos é uma invocação cristã de procedência portuguesa, que nos chegou no período colonial, sabendo-se que no ano de 1770 foi iniciada a construção da capela primitiva. A notícia da primeira festividade a temos quatro anos depois. Tamanha influência exerceu que mudou o nome do lugar, antes chamado "Vargem da Água Limpa", mudado para Matosinhos pela força sugestiva da devoção. Até data incerta do século XX realizou-se esta festa junto com a do Divino, na segunda-feira imediatamente a Pentecostes. Uma notícia jornalística de 1922 indica que neste ano já acontecera a festa do Bom Jesus em separado, no mês de setembro. 

Flagrante da condução do andor do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, vendo-se à direita o Prefeito Municipal de São João del-Rei, professor Helvécio Luis Reis, conduzindo uma lanterna, seguido por membros da Irmandade do Santíssimo Sacramento. Foto: Iago C.S. Passarelli, 14/09/2013. 

* Texto: Ulisses Passarelli

ASSISTA AO VÍDEO DA SAÍDA DA PROCISSÃO: Senhor Bom Jesus de Matosinhos

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Folia de Pastorinhos


Uma forma rara de reisado... 

Folia de Pastorinhos de Ribeirão de Santo Antônio (Resende Costa/MG), vendo-se ao centro o personagem "Fabrício", com seu cajado, ladeado pelos pastores e reis magos. Foto: Lenice Fátima Carvalho Santos, 23/05/1999. 

Forma rara e pouco conhecida de Folia de Reis, que vive paralelamente à típica, na microrregião Campos das Vertentes de Minas Gerais: São João del-Rei, Ribeirão de Santo Antônio (Resende Costa), Cajuru (Resende Costa). Fora desta área identifiquei um grupo em Congonhas, bastante autêntico e em plena atividade no ano de 2004. 

Esta folia tem Foliões (músicos-cantores), Três Reis Magos, Pastores (geralmente representados por meninos, donde provém o nome do folguedo religioso), Fabristo ou Fabrício (homem; chefe dos Pastores) e Anjo Gabriel. 

Em São João del-Rei houve um único grupo, extinto em 1993. Era do saudoso Mestre Dinho (José Orlando da Silva), situado no Arraial das Cabeças (Rua Antônio de Abreu), Bairro Bonfim. Incluía o Palhaço. Basicamente é uma Folia de Reis. Porém, na parte de adoração do presépio, tem uma representação dramática, com extensa versalhada laudatória, onde os personagens se apresentam recitando a partir do convite do Fabrício. Há declamações. Pastores portam cajados estilizados, com chapinhas idiofônicas presas no extremo superior, feitas de tampinhas de garrafas de refrigerantes amassadas. O Fabristo puxa o canto. O Anjo traz na mão uma estrela alegórica ou um caixotinho adornado, dentro do qual vem a imagem do Menino Jesus. Pode ou não ter bandeira. 

Em Congonhas e Ribeirão de Santo Antônio desenvolvem uma coreografia em círculo, com os reis e mais pastores girando ao redor do pastor chefe e no refrão, batendo os pés, se defrontam vis-a-vis no círculo, ora com um, ora com outro, até girarem de novo no canto solista. Visita casas. Tipicamente natalino e profundamente religioso. A convite se apresenta noutras festas: do Divino Espírito Santo (São João del-Rei, 1999), Festival de Congado (Conselheiro Lafaiete, 1992), I Encontro de Folias de Reis (Resende Costa, 2010), etc. O grupo do Ribeirão é bem típico e preservado. 

No encontro com uma folia típica, cabe a esta a obrigação de saudar em especial, segundo esta regra: um verso para o primeiro pastor, um para o primeiro rei; depois, um para o segundo pastor e um para o segundo rei e assim com o terceiro. Por fim, 18 versos reservados para a “vara” (cajado) do Fabrício. Se a folia tiver Palhaço ele deve se ajoelhar diante dos pastorinhos e tirar a máscara enquanto durar a cantoria. Se permanecer mascarado deve então se esconder dos pastores.

Folia de Pastorinhos, do Mestre Dinho (com sanfona vermelha), Bonfim, São João del-Rei. Destaque para os pastores (meninos), palhaço e reis magos. Foto: Dimas, data não identificada. 

Notas e Créditos 

* Texto: Ulisses Passarelli. 
** Para saber mais sobre as modalidades reiseiras ver: Tipologia dos Reisados Brasileiros

terça-feira, 10 de setembro de 2013

O Mal Vizinho: um conto religioso

Jesus e São Pedro andavam pelo mundo num domingo. Passando por um caminho, na beira de um sítio viram um homem arando a terra. Era domingo, dia santo, proibido de trabalhar. O Mestre disse ao santo: 

"_ Simão, vai até o fazendeiro e fala pra ele parar de trabalhar em respeito a este dia santificado, ou farei com que seus bois de arado morram em castigo ao desrespeito."

Simão Pedro foi e o homem lhe expulsou: 

"_ Vai embora com seu Mestre! Larga mão de palhaçada... "

São Pedro voltou a Jesus e lhe contou a má resposta do homem do arado. Cristo deu nova ordem: 

"_ Volta, Pedro, e diz que eu matarei todos os bois que ele tem na invernada se não me obedecer."

Lá se foi o santo e de novo foi desfeiteado, ainda com mais grosseria: 

"_ Pedro!, disse Jesus, vai pela última vez e manda ele parar. Se não parar o arado no domingo, deixarei os bois viverem, mas darei a ele um vizinho horrível, que será para ele um flagelo constante, dia e noite."

Quando São Pedro levou a ordem ao lavrador, imediatamente este gritou com os bois: 

"_ ÔÔÔu-aaah! "

E os bois pararam, no rangido das cangas. Largou tudo, de lavrar as terra. Perder os bois não o assustava. Compraria outros; mas pensou consigo mesmo, que não há nada pior que um mal vizinho... 
Povoado da Trindade, São João del-Rei/MG, 19/10/2009. 


Notas e Créditos

* Informante: José Cândido de Salles (Zé Cristino Boiadeiro), Santa Cruz de Minas/MG, 1998.
** Texto, pesquisa e foto: Ulisses Passarelli

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Arte rendilhada

No passado, quando a mulher vivia exclusivamente para o serviço do lar, um dos atributos observados para o casamento era sua habilidade manual com afazeres tais como costuras, bordados e rendas. A mulher que dominava as técnicas de confecção manual era considerada prendada, boa para casamento. As mães ensinavam as filhas desde tenra idade, pois assim tinham aprendido com suas mães e avós. Essa a moda ibérica implantada no país.

Paninho de mesa, em croché. São João del-Rei, déc.1980.

Muitos tipos de trabalhos manuais eram realizados para enfeitar a casa sob a forma de colchas, tapetes, toalhas, paninhos, detalhes de roupas de enxoval (de casamento e do bebê).

Babador, sapatinhos e blusa de bebê, de confecção totalmente artesanal. São João del-Rei, começo da déc.1970.

A arte de confeccionar estes tecidos é feita manualmente com nós, apoiando em bastidores (peças de madeira semelhantes a molduras cheias de preguinhos nas bordas para trançar as linhas), ou usando de agulhas, ou instrumentos rudes e de confecção artesanal (rocas e teares).

Bastidor de fazer renda, datado de 1958. São João del-Rei. 

O aspecto social das rendas e bordados em boa parte se perdeu em razão das mudanças de hábitos. Os trabalhos artísticos com linhas e tecidos são hoje em geral obras artesanais de finalidade comercial feitas por pessoas detentoras do conhecimento da confecção, produzindo peças de alto lavor.

Bordado. São João del-Rei. 

Estes elementos artísticos, por vezes enriquecidos com apliques e pedrarias, se incorporam a peças utilitárias ou decorativas conferindo-lhes um valor estético: toalhas, colchas, tapetes, centros de mesa, caminhos de mesa, roupas, guardanapos, alfaias, paramentos, lenços, mantos, roupas de imagens de santos, bandeiras e estandartes. 

 Elemento artístico-simbólico de uma antiga dalmática. São João del-Rei, Bairro Matosinhos. Paramento do acervo da Comissão Organizadora da Festa do Divino Espírito Santo. Fotografia: Ulisses Passarelli.

* Assista ao vídeo - Artesanato: trabalhos manuais em tecidos 
** Fotografias (exceto dalmática): Iago C.S. Passarelli.
*** Texto e acervo de peças (exceto dalmática): Ulisses Passarelli.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Terra da Música


Banda de Música Theodoro de Faria, de São João del-Rei, chegando para a grande festa de São José Operário, no Bairro Tijuco. Esta corporação, fundada em 1902, é um dos baluartes de nossa tradição musical mais que bicentenária. Foto: Ulisses Passarelli, 01/05/2000. 

Para saber mais sobre esta notável banda ver os links abaixo: 




Chagas Dória, outro nome de Matosinhos

Houve época que tal importância atingiu o movimento ferroviário no Bairro Matosinhos, em São João del-Rei/MG, centrado na estação local da EFOM, chamada Chagas Dória, que este nome passou à condição de sinônimo do grande bairro. Bairro de Chagas Dória era então o próprio Matosinhos. As duas antigas notícias abaixo deixam claro esta denominação.


Detalhe da estátua-chafariz do Largo de Matosinhos. 
Foto: Iago C.S. Passarelli, 2013

Exames em Chagas Doria
Realizaram-se em Chagas-Doria, ha dias, as provas anuais porque têm de passar os alunos que alli frequentam estabelecimentos públicos de ensino.
Na escola masculina, regida pelo professor Carlos dos Passos Andrade, a  banca foi formada pelos professores Pedro Raposo e Augusto Mello da Motta.
Findos os trabalhos houve preleção pelos dois examinadores, canticos e acclamações aos srs.. presidente da Republica, presidente do Estado, secretario do Interior, presidente da Camara Municipal e inspetor escolar.
Na escola feminina, regida pela normalista Isabel da Conceição Pereira, compõe-se a banca da normalista senhorinha Maria Esther Pereira da Silva e do sr. Plinio Campos da Silva.
O presidente da banca effectuou uma preleção alusiva ao acto, havendo, após, cantos cívicos pelo corpo discente (grifo nosso).

Fonte: Jornal A Tribuna, São João del-Rei, n.804, 25/11/1926. Acervo Digital da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d’Almeida.


Chagas-Doria
Recebemos de Chagas Doria uma carta, contestando afirmações que, ha dias, nos foram comunicadas daquele subúrbio sanjoanense e a que demos guarida nesta folha.
Segundo o missivista, é falso que os srs. Pedro Ferreira, “respeitável cidadão”, e Paulo Campos, filho do saudoso negociante sr. Gustavo Campos se possa atribuir a pecha de “perturbadores da ordem” dalli.
Ficam aqui consignadas, de acordo com o nosso feitio de órgão legal, taes declarações (grifo nosso).

Fonte: Jornal  A Tribuna, São João del-Rei, n.799, 07/11/1926. Acervo Digital da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d’Almeida.  



Créditos

- Fotomontagens, pesquisa e texto: Ulisses Passarelli.

Notas 

- Revisão: 14/05/2025. 

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Sá Luíza da Cananéia

No catolicismo popular muitas vezes o povo se apega às crenças de que algumas pessoas, tendo passado uma vida extremamente virtuosa, paciente e penitente, aureolada na obra da caridade e no trabalho em prol da Igreja, alcançaram a santidade, independente do processo oficial do Vaticano.

Assim as pessoas consideram muitos outros “santos” que não fazem parte do hagiológio. Alguns nunca saem desta condição, mas outros são abarcados pela tramitação documental e terminam por alcançar a beatificação, a exemplo da são-joanense de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, Nhá Chica, ou a canonização, como o paulista Frei Galvão.

Dentre estas personagens religiosas notáveis, algumas parece que se vão perdendo nas brumas do passado. As novas gerações delas vão se esquecendo, como “Manuelina de Coqueiros”[2], jovem de Entre Rios de Minas que outrora era fervorosamente visitada por romeiros de toda redondeza, inclusive muita gente daqui de São João del-Rei, que ia atrás de suas preces inclusive à pé ou a cavalo. Outra religiosa importante e de que ora me ocupo em especial é “Sá[3] Luíza da Cananéia” (Luiza Leriana, 1873-1958), que desenvolveu seu trabalho religioso no distrito de Emboabas (ex-São Francisco do Onça), em São João del-Rei/MG.

As informações orais que disponho dizem que ela “virou” santa. Foi uma senhora boníssima, justa, muito humilde, fiel da santa comunhão, caridosa, que vivia na graça de Deus.

Morava só, numa casa humilde, no citado distrito, próximo à localidade de Cananéia, distante cerca de 40km de São João del-Rei. Era conhecida por “Sá Luíza da Cananéia”, cujas orações em favor de...  sempre eram ouvidas pelos céus. Por isto era procurada por fiéis.

Como penitência costumava pegar o prato que almoçava parcamente e misturar água na comida, fazendo uma sopa fria para atrapalhar o sabor, pois dizia que era indigna de comer um alimento tão bom.

Certa ocasião, um carreiro estava passando a serviço próximo à sua casa, sob uma forte chuva e viu ao longe um vulto em cima de um cupinzeiro, debaixo daquela chuvarada. Pensou consigo mesmo: “uai, sô... o que será aquilo? Curuiz Credo! É o cariá ou um pantasma?”[4] O carro de bois foi chegando, rangendo no seu canto melancólico o eixo de madeira. O carreiro ressabiado persignou-se: era Sá Luíza da Cananéia que estava em cima de um pequeno ninho de cupins, sentada, esperando o ônibus passar.

_ Ôh, Sá Luíza!
_ Deus te abençoe!
_ Amém! Mas... uai, Sá Luíza, quê que a senhora tá fazêno nessa tribusana?[5]
_ Ô meu fío, mais tá chuvêno?
           
E foi então que o carreiro arrepiou-se... só então notou que ao redor dela naquele cupim estava tudo seco, um fenômeno de sua santidade, garantiu-me meu informante[6].

Minha bisavó pelo lado materno, Luíza dos Santos[7], tinha por Sá Luíza especial admiração e certa amizade, tendo-a visitado algumas vezes, dizendo-a uma mulher de fé inesgotável, agraciada com o dom da cura pela força da oração e uma pessoa muito penitente.

Sá Luíza segundo fonte jornalística[8] teria angariado com muito esforço pessoal donativos para a construção da centenária capela do lugar, dedicada ao Sagrado Coração de Jesus.
               

Aspecto de Cananéia, em 2013. 

Notas e Créditos

* Foto e texto: Ulisses Passarelli



[1] - CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d].
[2]  Ver (acesso em 03/09/2013, 21:58h): Mulheres Negras do Brasil 
[3] - Sá: senhora, usual também as formas sinhá, nhá.
[4] - Curuiz: corruptela comum de cruz. Cariá: o demônio. Forma encurtada do africanismo cariapemba. Pantasma: fantasma, na pronúncia popular.
[5] - Tribusana: chuva forte.
[6] - Aluísio dos Santos (1924-2005), natural de São João del-Rei.
[7] - Luíza dos Santos (1893-1985), natural de São João del-Rei, mãe do meu informante.
[8] - Cananéia reforma capela e reclama de abandono: povoado quer preservar memória de Sá Luíza. Gazeta de São João del-Rei, n.65, 16/10/1999, p.3.

domingo, 1 de setembro de 2013

Africanismos

Na cidade de Coronel Xavier Chaves, o experiente capitão de congado (catupé), José do Rosário Anacleto, carinhosamente conhecido por “Zé Carreiro”, baluarte da cultura popular local, havia me informado pessoalmente, em 1997, uma série de curiosas palavras, aparentemente estranhas e foi traduzindo o seu significado. 

Dizia-me que esse palavreado vinha de seus antepassados e nos tempos da escravidão era língua dos africanos, que conversavam entre si em modo dialetal, incompreensível aos brancos. Mesmo quando o regime da servidão havia acabado a tempos, algumas pessoas daquela cidade dos Campos das Vertentes conservaram estes fragmentos linguísticos banto. 

Zé Carreiro, líder das manifestações folclóricas locais (congado, folia de Reis, calango, boi-de-caiado), puxando de sua excelente memória passou-me o seguinte glossário:

Zé Carreiro à frente de seu congado, num dia de Festa do Divino. 
Foto: Cida Salles, 2011. 
Amaiaque: ovo
Arufuno: lenha
Arunanga: roupa
Arussanjo: galinha
Camboá: cachorro
Catira: baile
Condoboro: galo
Curimba: roça
Curucuta: sapato
Cussacaná: casamento
Gadanho: dedo
Homenha: água
Ingorosa: cachaça
Marungo: olho
Môro: arroz
Mussanja: roupa
Mutanga: vara, manguara
Ngana jamba: igreja
Ngana: padre
Ocema: fubá
Papai cucuruto: forno
Tipoquê: feijão
Tuê: cabelo
Uíque: açúcar

Muitas outras palavras foram detectadas na região. Algumas se fixaram na toponímia (Candonga, Muxinga, Caxangá, Cassôco, Caxambu, Cassanje...), outras, ficaram restritas ao uso religioso (menga, cambono, marungo, obará...) ou ainda ao linguajar cotidiano (indaca, quizila, mandinga, fulo...). 

Elas são elementos culturais muito importantes das tradições afro-brasileiras e enriquecedoras do nosso vocabulário. Outrora a mescla dessas palavras com o português coloquial era muito maior, gerando um modo próprio de falar, algo como um sotaque, misturando africanismos e corruptelas, criando o que se costuma chamar "português crioulo", expressão que nada tem a ver com discriminação. Pelo contrário, ela se firma em valores, indicando que foi nascido aqui no novo mundo, criação nossa. Da mesma sorte, no sul do Brasil existe uma referência de pecuária ao "gado crioulo", indicando brasilidade, identidade à nossa nação, criação brasileira. 


Notas e Referências

* Para saber mais a respeito leia: Apontamentos sobre Português Crioulo   
**Texto: Ulisses Passarelli