Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Capitães de Areia

A tradição popular nos transmite a cada geração uma profunda essência religiosa que dita as regras do relacionamento entre o sagrado e o profano, o cotidiano e a festividade. Neste sentido, desde remota antiguidade, o respeito aos antepassados, aos pioneiros, aos mestres que partiram dos folguedos do povo, permanece como um laço de carinho. Nossa complexa formação étnica recebeu esse legado de muitas fontes, que se mesclaram num saber bem à brasileira. 

Em especial no caso dos congados corre a crença em alguns grupos ou entre certos dirigentes por ventura mais espiritualistas, que a alma do capitão de congado que já desencarnou a algum tempo, tendo passado pelos estágios necessários de correção, arrependimento e aprendizado no plano espiritual do umbral, tornando-se um espírito capaz de ajudar a quem lhe roga auxílios, caso invocado pelo nome que teve na Terra, na devoção ao rosário, poderá ajudar àqueles que dão seguimento à sua prática missionária. São os "capitães de areia".

Não se trata de um culto, mas antes uma lembrança; nem tão pouco se equipara a uma veneração como à dos santos, mas sim, uma sintonia de continuidade. É seguramente um gesto de irmandade estendido àqueles que se esforçaram no fazer e no manter, que se espera continuem próximos na memória, através da evocação de sua sabedoria. Também não é prática mediúnica de terreiro, pois os capitães de areia não são guias nem orixás e não incorporam. Só se lida com eles com preces e no máximo uma vela branca, tal como se reza por qualquer alma de antepassado. 

Neste contexto alguns ternos cantam versos a capitães que morreram. Como se fossem homenagens, observamos em São João del-Rei, em 1996, o catupé do Capitão Luís Santana cantar os seguintes dísticos: 
“Eh, João Lopes! Êh, João Lopes! 
Zé Francisco e Barnabé!” - bis; 

“Êh, Zé Elias! Êh, Zé Elias! 
Carioca, Capitão!” - bis. 

João Lopes e José Francisco eram capitães regentes de congo no Bairro Tijuco, em São João del-Rei, até a década de 1940, o primeiro no terno da “Rua das Flores” (Rua Maestro Batista Lopes) e o segundo no da Rua São João; José Elias era capitão-meirinho da cidade de Ritápolis (do catupé, do capitão Pedro Ribeiro); Carioca foi capitão afamado de catupé em Coronel Xavier Chaves, da Vila Fátima, e Barnabé de um antigo grupo que existiu no seu distrito de Cachoeira. 

A prática das manifestações folclóricas não é mera repetição de algo treinado. Demanda uma vivência, temperada pelo elemento cultural e movida pela religiosidade. Existe a crença comum de que assim como nós progredimos na vida terrena, também a alma progride na espiritual. As fases da vida trazem seu ensinamento, perpetuado na memória, cantado nos versos do povo e transmitido a quem que está em redor ouvindo ... 

"Oi, Nossa Senhora me disse, 
que esse mundo não é tão cruel.
Eu já fui joão-de-barro da terra, 
eu já fui saracura do brejo, 
hoje eu sou periquito do céu ...” 
(Moçambique, Passa Tempo/MG, 2000 - Capitão Luís Maurício)

Caixas de Congado.

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Foto: Iago C.S. Passarelli.

Notas 
- Revisão: 18/07/2025. 

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Macumba: um esboço preliminar


O termo "macumba" é um africanismo, palavra de origem banto, do idioma quimbundo, ma'kumba. É aplicado há pelo menos dois instrumentos musicais: 

1) grande reco-reco de bambu ou taquara, que se toca em posição horizontal, apoiando-se um de seus extremos contra um anteparo (parede, pedreira, árvore) e outro na barriga; 
2) um pequenino atabaque de uso solitário e madeira leve, de fácil transporte. 

Também se diz que macumba era o nome da madeira da qual se fazia esse atabaque. 

Pelo fato desses instrumentos, rudes em seu aspecto ante o olhar urbano colonizador e industrial, mas muito funcionais em sua sonoridade, nos tempos de antanho, serem usados para acompanhamento de cerimônias religiosas de procedência africana, por extensão, em uso genérico e indiscriminado se passou a chamá-las de macumba. “Foram tocar macumba”, ou seja, os instrumentos assim chamados. Macumba também se tornou a dança ao som desses instrumentos. 

O termo original perdeu seu significado de origem no uso coloquial, bem como os próprios  instrumentos caíram em ocaso. A palavra hoje só se usa em sentido pejorativo para designar formas religiosas de terreiro. Terreiro de macumba: onde se pratica “macumba”. Sessão de macumba: ocasião de um culto de “macumba”. Macumbeiro: outrora o tocador do instrumento chamado macumba; hoje, quem faz “macumbas”, culto de terreiro, ou deles participa. 

Macumba e macumbeiro, tal como feitiço e feiticeiro, mandinga e mandingueiro, se tornaram expressões de cunho pejorativo muito intenso, discriminando e abarcando qualquer religião mediúnica de matriz africana. Tanto que, muitos umbandistas, senão mesmo a maioria, não gostam de serem chamados de macumbeiros, termo que renegam e dizem só aplicável a quem pratica magia negativa, tem parte com espíritos malignos e trabalha com a maldade, práticas essas incompatíveis com a umbanda.  

A difusão do termo macumba deu-se a partir do Rio de Janeiro, designando as cerimônias de origem banto, de nação congo e angola, onde se cultuavam originalmente os inquices em vez dos orixás e também o culto dos antepassados. Um estudo clássico a este respeito é o de João do Rio [1], do início do século XX (publicado originalmente em 1904).


Cueca enfiada em buraco de um cupinzeiro (térmite): macumba para "brochar", isto é, gerar impotência masculina.
 Trilha do Carteiro, Serra de São José, Tiradentes/MG, 01/04/2014. 

Deixando por oras de lado qualquer detalhe cerimonial ou corrente religiosa em si, ou até mesmo o uso indevido do termo (discriminatório) interessa de imediato a dimensão extensiva das macumbas quanto à vivência da cultura popular. Na ressignificação da palavra o povo distingue de imediato as macumbas das simpatias e benzeções. Observemos assim num paralelo com outras práticas do sagrado: 

- As simpatias são inúmeras, para os mais diversos fins e são práticas caseiras, de cunho mais supersticioso que religioso, individuais, embora de conhecimento coletivo, praticadas pelo próprio indivíduo que a aprende por ouvir dizer de uma vizinha, colega, parente ou por ter escutado no rádio. Destinam-se de ordinário a benefício próprio sem grandes pretensões: para o dinheiro ter melhor rendimento, para a saúde, para se tornar mais atraente ao namoro, para o cabelo crescer com formosidade, para curar bronquite. O povo não enxerga nelas nada maligno, pecaminoso ou macumbístico... 

- As benzeções são práticas de cunho mais diretamente religioso e dependem da intervenção de outrem, o benzedor, indivíduo muito respeitado nos meios populares por ter força, caridade e orações capazes de curar, abrir caminhos, afastar malefícios. Benzedor e macumbeiro não são a mesma coisa na cultura popular. A benzeção é uma prática não oficial, não é do rito da religião, ou, como queiram, é do âmbito da religiosidade popular. Igualmente o elemento popular não a considera ofensiva a Deus e um bom benzedor é indivíduo de prestígio na comunidade, procurado em verdade por gente de várias correntes religiosas. 

- Já a macumba é mais mística na fórmula e mais secreta na prática e finalidade. Por vezes, envolve entidades espirituais ou é ofertada em locais de seu domínio, mas isto já é uma contaminação dos processos: há a intervenção direta de um "feiticeiro" para sua concretização, ou indireta, quando ele apenas ensina como fazer. Neste contexto, seria um prática pontual, isolada e não uma atividade coletiva de uma determinada religião de matriz africana. No geral a macumba entendida nesta acepção é fruto do pagamento a um feiticeiro. 

Bosta do capeta: fungo que serve de matéria prima para pós mágicos... 03/08/2014.
Estrada do Mestre Ventura, São João del-Rei.



Mas a confusão conceitual gerada pelo uso descontextualizado das palavras, bem como, a impregnação por intolerância religiosa e discriminação, em linguagem comum, acabam por atribuir também a qualquer oferenda, despacho [2], ebó ou outra prática de terreiro o nome genérico de "macumba". 

São ações individuais, mas, repetindo, fruto de um conhecimento coletivo, tipicamente desvinculados dos terreiros. Guardam em si uma prática cujo objetivo em geral é pessoal, voltado contra inimigos, para amarrar um parto, para causar um definhamento físico, para afastar um casal, para gerar uma discórdia, para causar impotência num sujeito que se porta como conquistador, para demover um vizinho dos limites (que acaba se mudando para outro lugar). A macumba propriamente dita pende para o lado negativo, mais que o positivo, daí acontecer à margem da sociedade, ganhando seu opróbrio por força da cristianização dos costumes, um símbolo de pecado, de ofensa a Deus. 

O povo ao passar perto de uma possível macumba se persigna. Dá volta. Evita. Condena. Alguns abusados mexem com uma vara, desfazendo a disposição dos componentes. Joga-se água benta, urina, terra poeirenta, sal abençoado por um sacerdote. Uma maneira intuitiva de desmanchar o mal reinante e restabelecer o equilíbrio local, quebrado por um anônimo, oculto na calada da noite, que pôs a macumba. Abusados chutam a ponto de haver a expressão corriqueira "chuta que é macumba", que se enuncia diante de situações ou coisas deploráveis. Mas as carolas condenam. Diz que chutar é pior... Pode reverter contra a pessoa, que enche o corpo de doenças, feridas, dores, amputamentos. É um atraso de vida.


Rodilhas de cipó à margem da Estrada Real: mecanismo de fechar o caminho de alguém.
Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno (São João del-Rei/MG), 06/09/2014.

É preciso atentar para o uso indevido do termo macumba aplicado de maneira indiscriminada às atividades religiosas dos terreiros, seja qual for sua corrente, pois em geral parte de um desconhecimento e traz no seu rastro a intolerância e a discriminação àquilo que é garantido por lei. 

Em torno da crença protetiva ou de (contra) ataque da supersticiosa e misteriosa macumba, desenvolveu-se um imenso complexo cultural de práticas e crenças, para fazer e desfazer, fruto de múltiplas influências étnicas, interligando o homem ao mundo invisível do sobrenatural. Disto fazem parte as chamadas "orações fortes" ou "orações bravas", que exigem um respeito extremado no enunciado, pois tem poder para desmanchar a macumba. Os próprios terreiros trabalham com frequência no ato de desmanchar tais macumbas, deixando muito claro a oposição a esta prática.

O estudo do significado cultural das macumbas para a sociedade revelará certamente o aspecto mais oculto do homem dentro de sua própria alma, seus medos mais arcaicos, seus anseios mais atávicos, suas práticas mais imemoriais na relação com o mundo mágico, no oposto da corrente materialista. 

Feitiço de amarração atado a uma árvore de embaúba
(Cecropia sp.). Mata do Chuveirinho, Santa Cruz de Minas/MG.
14/01/2017. 

Créditos

-Texto e fotografias: Ulisses Passarelli.

Notas 

- As Religiões no Rio - João do Rio - Editora Nova Aguilar - Coleção Biblioteca Manancial n.º 47 -
1976. 

- Despacho:
l- Nossa Senhora do Bom Despacho: título mariano de pequena expressão devocional nesta região. De valor histórico é a Capela-oratório de Nossa Senhora da Piedade e do Bom Despacho, de 1745, no Largo do Rosário, onde começa a Rua Direita, em São João del-Rei. Não se confunde com as capela-passo (passinhos ou passos da Paixão). Foi construída diante da antiga cadeia (1740-1849), hoje Museu de Arte Sacra, para realização de missas campais para os prisioneiros. Em Santa Cruz de Minas houve uma Ermida de Nossa Senhora do Bom Despacho, numa encosta em aclive, na Serra de São José, erigida no século XVIII, junto ao antigo arraial do Córrego, terras do rico minerador Marçal Casado Rotier. Com sua morte e dos herdeiros daquelas terras a capelinha, com cemitério anexo, caiu em abandono e aos poucos foi ruindo. Correndo notícia que Marçal ocultara parte de sua fortuna enterrada nos túmulos e incrustada nas paredes, foi derrubada por gente ávida pela riqueza. Não a acharam. Tudo foi destruído. Vê-se vestígios da construção. O local ficou conhecido como “Cemitério” e toda aquela encosta ao pé da serra, “Morro do Bom Despacho”. 
2- Entrega de oferenda, trabalho pedido por um espírito ou objeto indesejável a uma entidade espiritual num local determinado. O material dos despachos é muito variado, conforme a classe de guias ou orixás: velas de várias cores, bebidas, comidas, objetos, flores, tecidos, etc. O local da entrega varia: Guias de Criança (Erês): jardins ou campos gramados, sob uma árvore; Pretos e Pretas Velhos: cruzeiros; Caboclos e Caboclas: matas, beiras de rio; Marinheiros: beira-mar, beira-rio; Boiadeiros: ranchos, currais, porteiras, etc.; Baianos: sob coqueiros; Ciganos e Ciganas: estradas de terra; Exús, Pombas-Giras, Malandros, Sacis, Quiumbas: encruzilhadas, cemitérios, betas, linhas férreas, gameleiras, cavas, valas, tronqueiras, etc.; Almas, Eguns: cruzeiros, lugares diversos sempre ao ar livre. Muitos aceitam serras e cachoeiras. eventualmente pedem lugares diferentes. O despacho em si é um ritual religioso e não folclórico. O interesse para a folclorística é indireto, pelo respeito que esses locais alcançam na cultura popular. Os Congados (e algumas Folias) quando eventualmente por eles passam, tem o hábito de pedir licença, através de cantos, gestos, vênias, coreografias (sobretudo a Meia-Lua). Não há veneração, no máximo uma saudação, se o Capitão for “entendido”. Um canto de moçambique bate-pau:

“Me valha, meu Deus! 
Senhor São Bento! 
Que essa macumba, 
tem cobra dentro...” 
(São João del-Rei, Rua do Ouro, Bairro Alto das Mercês, 1996, 
Capitão Tadeu Nascimento de Sousa).

- Revisão: 14/09/2025. 

sábado, 19 de julho de 2014

Parabéns pra você... dois anos no ar!

Hoje é aniversário do TRADIÇÕES POPULARES DAS VERTENTES. Com muita satisfação completamos dois anos no ar, superando as adversidades diárias. Vencemos a primeira prova de fogo das estatísticas, mantendo a página ativa com suas (agora) 360 postagens, cerca de 44.000 visitas (incluindo diariamente um grande número de internacionais) e constantes acréscimos de conteúdo. 

O blog tem buscado variar os temas sem sair de sua diretriz, perpassando a memória ferroviária, as festas religiosas, os costumes, as superstições, medicina popular, história, folk-comunicação, literatura oral, toponímia, defesa ecológica, folguedos e danças folclóricas, ritos, lúdica, lendas e mitologia, poesia folclórica, festejos, etc. 

O ecumenismo sinaliza para este blog o valor da cultura dentro das religiões e um caminho para a educação e a paz.

O ideal traçado foi mantido com fidelidade: difundir os valores da tradição regional, ressaltar o papel dos mestres da cultura popular, dar visibilidade ao folclore, escrever sobre a história não oficial, anunciar festejos típicos, fazer observações sobre o seu caminhar, despertar o interesse pela pesquisa, registro e preservação. A isenção político-partidária foi mantida e a finalidade lucrativa nunca conquistou esta página eletrônica. O ativismo cultural é o motor deste blog. 

Se o blog sobreviveu até aqui é porque abnegados companheiros o acharam merecedor e ajudaram a divulgar as postagens pela mágica dos links. A eles agradecemos, bem como a todos os visitantes, assíduos ou eventuais, nacionais ou estrangeiros. O número crescente de interessados nos assuntos aqui tratados é o estímulo para a continuidade. 

1- O querido carnaval, desde os tempos do entrudo, envolve muitos elementos da cultura popular.
Nesta fotografia, máscaras usadas pelo bloco Os Caveiras, de São João del-Rei,
trabalho em papel machê do artista Delci Vieira. Década 1990. 

2- Bambus votivos: à esquerda, bambu-catendê, na Serra de São José (Coronel Xavier Chaves); à direita, bamburecema, na Igreja Velha, em Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno (São João del-Rei) _ plantas votivas dos orixás das matas e dos caboclos, empregadas em rituais nos terreiros de matriz africana e que o povo usa para fazer rodilhas contra mau-olhado ... Ano de 2014.

3- Capela de São José, Águas Santas (Tiradentes), do final do séc.XIX.
Nas capelas e igrejas acontecem as festas populares, onde o povo mescla sua fé às tradições. 2014.

4- Nos distritos as manifestações folclóricas são vigorosas, como este congo
de São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei), unindo colorido, musicalidade, dança e devoção. 2013.

5- Nalguns cruzeiros o povo ainda se reúne em maio para as rezas e cantorias dedicadas à Santa Cruz,
como neste, em Trabanda do Corgo  ("Outra Banda do Córrego"), distrito de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno

 (São João del-Rei). 2014.

6- Resquícios da outrora pujante EFOM, jazem à espera de restauro, utilidade e valorização,
como esta velha estação abandonada em Nazareno. 2014. 

7- A fé se manifesta concretamente no depósito de ex-votos nas "salas de milagres",
a exemplo destes, de natureza ortopédica, no Santuário da Santíssima Trindade, em Tiradentes. 2014. 

8- A tradição das folias de Reis é muito arraigada à região, tendo no "Encontro de Capelinha",
em Mercês de Água Limpa (São Tiago), um de seus pontos altos.
Esta foto de 2009 mostra a presença de um grupo de Lavras. 

9- As grutas são pontos muito tradicionais de reunião de fiéis para preces e festejos.
Esta, consagrada a São José, situa-se na Avenida dos Independentes, no Recreio das Alterosas,
Bairro Colônia do Marçal, São João del-Rei. 2014.

10- As festas do Rosário revelam a grande força do devocionário popular, onde os congadeiros
dançam e cantam sua fé. Igreja do Rosário, Dores de Campos, 2010. 

11- Porteira típica nas imediações do Montividiu (São João del-Rei), 2013.
As porteiras despertam temor por se creditar a elas morada de espíritos assombrosos...

Ao passar por uma porteira deve-se  fechá-la sem deixar que bata, para não atraí-los. Dá azar. 

12- Uma típica cerca de bambus, ladeia uma placa indicativa de direção para um povoado de São João del-Rei.
A toponímia valoriza uma família relevante no povoamento regional. Os nomes dos lugares e ruas devem ser preservados. Distrito de São Miguel do Cajuru. 2013.


Notas e Créditos

* Texto e fotos (2, 3, 5, 8, 9, 10, 11,12): Ulisses Passarelli
** Demais fotografias: Iago C.S. Passarelli
*** Assista ao nosso novo vídeo:


quarta-feira, 21 de maio de 2014

Cruz de Maio

A cruz é o maior símbolo do cristianismo. Historicamente a catequese dos conquistados se construiu sob sua égide. Não é de admirar que os reflexos devocionais impregnassem a alma popular. Assim é que o povo fiel ao passar diante de um cruzeiro o saúda persignando-se, pedindo licença, cantando, rezando. Em Santa Cruz de Minas (*), por exemplo, ouvi este apelo sincero: 

"Deus te salve, Santa Cruz, 
oi, livras e fugidas, 
valei-me, Nossa Senhora, 
a Santa Mãe de Cristo."

O sentido da saudação é que a cruz como símbolo cristão, livre o devoto dos males, afugentando as forças contrárias. Os capitães de congados sempre saúdam um cruzeiro ao passar com sua guarda em forma, diante deles, valendo uma parada: 

"Deus te salve, Santa Cruz, 
neste campo tão sereno,
onde mora Jesus Cristo,
Bom Jesus de Nazareno."

Em São João del-Rei, assim cantava o Capitão José Camilo, enquanto Luís Santana se saía com a seguinte variante: 

"Deus te salve, Cruz Santa, 
ai, neste campo sereno!
onde mora Jesus Cristo,
filho de Deus Verdadeiro!"

Porém a quadra mais bela na composição poética e de maior expressividade religiosa ouvimos de "Zé Carreiro", conhecido capitão de congado de Coronel Xavier Chaves

"Deus te salve, Santa Cruz, 
ai, com seus braços abertos!
Perdoai os nossos pecados, 
aqueles mais encobertos..."

Maio é o mês da Santa Cruz. Outrora o dia 03 era muito festejado. O povo enfeitava as pequenas cruzes de fachada e os grandes cruzeiros. Nestes, reunida a comunidade, rezavam o terço, cantavam hinos e benditos e a seguir _ quem sabe? _ acontecia uma festa singela, com comes e bebes, fogueira (a primeira do ano), cantorias ao som da viola, danças rurais (catira, cana-verde, rodinha, quimbete, caxambu). A Festa da Santa Cruz prenunciava o ciclo de festejos juninos, ou mesmo o abria. 

Com o passar dos anos este festejo esmaeceu e quase não se pratica mais. Mas ainda vemos daqui e dali seus vestígios ou pequenas festas, sem o brilho de antanho, mas ainda fiéis ao costume, sobretudo no carinhoso gesto de adornar as cruzes com flores e papel picado, em cordões de bandeirinhas e rabiolas. Em Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, Terra de Nhá Chica, distrito de São João del-Rei, estes enfeites são especialmente notórios e o povo mantém as rezas de maio, não apenas no dia 03. Confira nas fotos seguintes alguns enfeites de cruzes.

Cruz de Fachada, fixada numa porta de residência de São João del-Rei, 04/05/2014. 
Cruzeiro enfeitado, Atalho, Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, 20/05/2014.

Cruzeiro enfeitado, praça central de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, 20/05/2014.

Cruzeiro enfeitado,Trabanda (**) - Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, 20/05/2014.
Cruz de Beira de Caminho, Estrada do Cascalho, Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, 20/05/2014.

Cruz de Beira de Caminho, Estrada das Águas Santas, Tiradentes, 18/05/2014.

Notas e Créditos

* Informante: Elvira Andrade de Salles, 1998.
** Trabanda: comunidade no distrito do Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, zona rural de São João del-Rei, localizada na outra banda do Córrego das Pombas, ou seja, na margem oposta à vila que sedia o distrito, daí a corruptela popular: "Trabanda", ou seja, "do lado de lá..."
- Texto e fotos: Ulisses Passarelli

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Alma Penada

Como conceito genérico, a expressão "alma penada" se aplica a qualquer assombração não identificada; assombro inespecífico; visão, vulto, visagem, "invisão", espectro, espírito que vaga sem rumo. 

Percebe-se, que apesar de ser aplicável a influência doutrinária católica da existência do purgatório, como um local de penúria, no sentido da purificação, há ao mesmo tempo, uma peculiaridade neste conceito dentro da cultura popular: as almas do purgatório estão presas nele, não podem sair... Para elas rezam o ano todo, encomendam matraqueando na quaresma, preces de missas lhes são dirigidas, velas iluminam o seu resgate via São Miguel Arcanjo e Nossa Senhora do Carmo, os intercessores mais requisitados nestes casos. 

A alma penada ao contrário, não está presa no limbo ou no umbral: perambula sem rumo. Não está no céu, nem no inferno, tampouco no purgatório. Não foi embora. Permanece no nosso mundo, invisível (senão por assombrosas e eventuais aparições...), se recusando a partir porque não aceitou a morte, ou  foi impedida de ir pois não foi justiçada, ou ainda porque cometeu um tipo de crime que só depois de desvendado garantirá sua libertação deste mundo; ou, ainda, se deixou uma dívida, que, por caridade, deve ser paga porque alguém terreno em nome do devedor morto. 

Por vezes a alma penada tem ainda uma missão a cumprir e como não pode falar nem escrever como os viventes, para pedir ajuda, fica presa a um lugar chamando a atenção como pode, para ser percebida e talvez interpelada por algum corajoso _ daí os barulhos inexplicáveis, de corrente de arrasto, portas batendo sem terem sido fechadas, sons de torneiras abertas estando de fato vedadas, luzes que se acendem sozinhas, barulhos de passos, sensação de ter alguém perto nos observando mas não tem ninguém, calafrios sem motivo aparente, friagem no ar mesmo estando calor. Medo. É a alma penada que está por perto...

O conceito de alma penada ganha aos poucos complexidade e se mitifica. No folclore corresponde em certa medida ao egum das religiões de matriz africana. Como um mito a alma penada fica no vasto rol dos fantasmas com finalidades educativas, pois se atinge esta condição por uma punição às leis sagradas transgredidas. É a exemplaridade.  E ainda: como um alerta aos incautos _ não se deve sair a horas mortas de casa pois se pode tornar um alvo de alguma alma penada, que o segue de volta até a casa, fazendo daí sua moradia; para as crianças que abusam na desobediência querendo ir a algum lugar que não podem, logo os pais o dizem: "não vai não, menino, que lá tem alma penada"... 

Visto assim a alma penada é um ser em sofrimento, carecendo de socorro, que por vezes deseja e busca. Outras porém, eivadas de maldade, se aproveitam desta sina para apavorar, só pelo prazer que isto lhes traz. Daí o perigo que representam, perturbando o cotidiano.

Tais são os conceitos reinantes na cultura popular dos Campos das Vertentes, de espíritos vagando sem rumo e descanso porque na vida terrena a pessoa da qual desencarnou, deixou na Terra uma missão incompleta ou uma dívida espiritual. Então sua alma penará até que alguém complete a missão ou pague sua dívida. Só então descansará. 

A alma penada pode contudo aparecer com a aparência de um ser humano. Mas só se tornará visível a alguém de grande força espiritual, mediunidade e coragem. A este fará verbalmente o pedido para completar o serviço. Então ganha o dom da fala. Surgirá com o aspecto que tinha em vida, aparente ilusão das roupas de costumes, objetos, trejeitos, deformidades. Então, neste momento mágico, revela o que está lhe travando a partida e clama por socorro: o vivente por caridade faz o que a alma penada deixou pendente e uma vez cumprido a alma se liberta, deixa de ser assombrada e quem lhe ajudou receberá benesses. 

Narro por fim um causo que ilustra bem esse folclore das almas penadas. Ouvi-o em São João del-Rei. Versa sobre uma das figuras mais respeitadas da religiosidade popular que já passaram por esta tricentenária urbe: o senhor "Emídio do Bengo"(*), que deixou seu nome escrito em nossa história pela força da caridade e retilínea conduta, tratando do padecimento de muitos com remédios homeopáticos e preces. 


* * *

Conta-se que certa feita, numa noite tempestuosa, Emídio ouviu bater à sua porta, na Colônia do Bengo. Estranhou a circunstância mas como era muito solícito e procurado foi atender. Era um estranho, que não se identificou. Disse-lhe: 

_ o senhor é seu Emídio... tem coragem?
_ Sou. Tenho. 
_ Pega enxadão e pá e me acompanha por favor. 
_ Um  momento...
_ No caminho vão tentar nos atrapalhar. Senhor tenha fé e coragem que nada vai lhe acontecer, disse-lhe o forasteiro. 

Subiram por uma trilha escura no mato. Caminho acima, o homem ia célere adiante de "seu" Emídio do Bengo. Começaram a jogar-lhes pedras. Emídio reclamou do perigo. O tal lhe respondeu que avisara que tentariam atrapalhar, mas que não temesse porque nenhum calhau lhe acertaria. E zuniam as pedradas muito próximas e intensas, mas nenhuma atingiu seu Emídio. 

No topo de uma colina, sobranceira ao vale do Rio das Mortes, em plena colônia de imigrantes italianos, disse o sorumbático homem, sempre mantendo meia distância: 

_ Seu Emídio, por favor, cava aqui que eu não posso. 

Ele obediente e atento escavou, até que a ferramenta tiniu numa peça cerâmica. 

_ Achou. Tira com cuidado. 

Era uma botija, cheia de ouro. "_ Por este dinheiro eu morri", disse-lhe o homem. Orientou-lhe que com ele fizesse ali mesmo uma igreja em honra a Santo Antônio de Pádua e mandasse rezar tantas missas pela alma de fulano de tal. Com o restante fizesse como bem entendesse. No instante que o corajoso Emídio do Bengo olhou para a botija que tinha nas mãos e voltou os olhos ao estranho, ele já tinha desaparecido para sempre. 

Diz a narrativa que assim foi feito. O homem misterioso, que era na verdade uma alma penada, nunca mais foi visto. A sobra do ouro seu Emídio empregou para a caridade. 

Capela de Santo Antônio do Bengo, em São João del-Rei, citada neste texto.
 Construída em 1905, graças aos esforços do memorável sr. Emídio do Bengo. 

Notas e Créditos

* Cognome de Emygdio Apollinário dos Passos Moraes (1876-1958). Sobre ele ver: OLIVEIRA, Dyleini Moraes Silva de et all. Centenário da Capela de Santo Antônio do Bengo: a fé de seu fundador, a fé de sua comunidade. São João del-Rei: [s.n.], 2005
** Texto e fotografia: Ulisses Passarelli 
*** Informante do causo de Sr.Emídio: Aluísio dos Santos, 1993.

domingo, 17 de novembro de 2013

São Gonçalo Garcia

(Ofereço atenciosamente ao professor Gaio, mestre da história são-joanense)

São Gonçalo Garcia foi nascido em 1556, em Baçaim, na Índia. Seu pai era português e a mãe indiana. Foi irmão leigo franciscano. Em 1597, na cidade de Nagasaki, no Japão, foram crucificados 26 cristãos (“Mártires do Japão”), em missão religiosa comandada pelo espanhol São Pedro Batista. Dentre eles, Gonçalo, que depois de muito humilhado teve o coração trespassado por duas setas ou lanças, a 05 de fevereiro daquele ano. Foi canonizado em 1862, pelo Papa Pio IX. 

Retábulo no altar-mor da Igreja de São Gonçalo Garcia. São João del-Rei/MG.

Imagem de S.Gonçalo Garcia,
São João del-Rei.
Em São João del-Rei a "Irmandade de São Francisco de Assis e São Gonçalo Garcia" foi fundada na Igreja Matriz do Pilar em data incerta do século XVIII e já no ano de 1759 recebia terras. O patrimônio foi doado em 1775 por Joaquim Ferreira Veiga. A construção da capela própria iniciou-se, segundo Augusto Viegas, citando Lima Júnior, em 1786, ano da provisão que deu autorização para edificá-la. As obras se arrastaram por longos anos. Em 1790 Antônio José Quintino de Assunção foi pago pela escultura da imagem do padroeiro. Em 1794, Manoel Izidoro fez trabalhos no camarim do trono desta capela. Muito modesta, inicialmente não tinha torre, o que se percebe em uma antiga ilustração assinada por Huascar; mas há notícias de uma "nova torre" construída em 1826-7, obra do mestre pedreiro Cândido José da Silva, do lado esquerdo do frontispício. Sua simplicidade foi alvo de severas críticas do exigente Burton quando de sua passagem pela cidade. Seu aspecto primitivo foi alterado completamente. A Câmara Municipal consignou um conto de réis para sua reforma em 1877, informou o primeiro número do jornal local, Arauto de Minas, de 08 de março daquele ano. Sua edição n.4, do mesmo ano, fala em reedificação da capela. As obras tiveram longa duração e o atual frontispício (com uma torre única, central e projetada adiante da fachada) foi concluído em 1903. A escadaria de acesso data de 1915. Cumpre ainda informar que o nome inicial do sodalício foi alterado, ganhando o título de "Episcopal Confraria" em 1850, por um pedido do definidor Padre José Maria Xavier ao Arcebispo de Mariana, Dom Frei Manuel da Cruz. 

Procissão do Imperador Perpétuo passa diante da Igreja de São Gonçalo Garcia, 
durante a Festa do Divino de São João del-Rei. Foto: Cida Salles, 10/06/2011.   

É alcunhada "Igreja dos Militares", onde se venera Santa Joana d’Arc (*), sua padroeira. Contém também imagens de outros santos patronos dos militares ou ligados culturalmente ao militarismo: Santo Expedito, São Judas Tadeu, Santo Antônio de Pádua. Diante dela há o Monumento aos Expedicionários e a própria igreja é bem próxima à área sede do 11º BI Mont.Regimento Tiradentes, gloriosa unidade de montanhismo do Exército Brasileiro, que muito orgulha esta cidade.

Santa Joana d'Arc. Imagem da Igreja de São Gonçalo Garcia. São João del-Rei. 

No sistema colonial de divisão de classes, esta irmandade congregava os homens pardos, impedidos que eram de entrarem para ordem franciscana, que só admitia brancos. Teve pretensões de libertação dos escravos. Requereu em 24/11/1772 à Rainha D. Maria I o privilégio de libertar escravos confrades mediante paga.  O traje é um hábito um pouco mais curto que o dos terceiros franciscanos. Por isto mesmo são apelidados ironicamente de “meias caídas”, segundo Gaio Sobrinho. O dia deste santo é 05 de fevereiro mas nesta cidade festejam-no em julho. Além do orago, merece destaque no lugar a veneração a São Judas Tadeu (hoje mais tênue, desde que foi construída sua igreja, no Bairro Caieira), Santo Expedito (com fervorosa festa em abril), Santa Luzia (em dezembro), São Frei Galvão e Santa Joana d’Arc


Quadros com fotografias ex-votivas. Hall da sacristia. Igreja de São Gonçalo Garcia. São João del-Rei. 

Realizava-se outrora nesta igreja a curiosa “Procissão dos Mártires”, que diz Antônio Gaio Sobrinho, era, “mais ou menos, uma réplica da procissão de cinzas dos franciscanos.” Era bizarra, cheia de andores e alegorias, da qual o autor nos brinda com interessante citação de alguns detalhes no seu "Visita à Colonial cidade de São João del-Rei".

Nossa Senhora do Amparo.
Igreja de São Gonçalo Garcia.
São João del-Rei. 

Houve também o costume local da Rasoura de Nossa Senhora do Amparo, todo primeiro domingo de cada mês. Sua imagem ficou conhecida por isso como “Imagem da Rasoura”. Rasoura é uma pequena procissão circunscrita aos limites físicos da igreja (dentro do adro) ou caminhando apenas pela praça fronteira ou quarteirão que lhe rodeia. Na época da escravidão esta invocação mariana era uma das clamadas pelos cativos, esperançosos de seu amparo espiritual. 

É mister referir que atrás da igreja há o cemitério próprio. Nele havia outrora a tétrica inscrição em latim: “hodie mihi cras tibi” que se pode traduzir, “hoje para mim, amanhã para ti”. 

A devoção a São Gonçalo Garcia é por assim dizer rara. Poucas são as notícias. Há igrejas setecentistas deste orago em Penedo/AL, Vitória/ES e Rio de Janeiro/RJ (Rua da Alfândega, junto com São Jorge). Em Pernambuco colonial conheceu-se também esta devoção. No Recife os festejos ganhavam cunho popular na Igreja do Livramento, onde ficava sua imagem. Os negros e índios tomavam participação ativa, com suas danças folclóricas de quicumbis e caboclinhos, e o cortejo se agigantava com muitas alegorias, carros triunfais e música. 




Referências bibliográficas

- BURTON, Richard Francis. Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho
- CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. 2.ed. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1982. 2v. 
- GAIO SOBRINHO, Antônio. Sanjoanidades. São João del-Rei: A Voz do Lenheiro, 1996. 104 p.il. 
GAIO SOBRINHO, Antônio. Santos Negros Estrangeiros. São João del-Rei: [s.n.], 1997. 153p.il.
GAIO SOBRINHO, Antônio. Visita à Colonial Cidade São João del-Rei. São João del-Rei: [s.n.], 2001. 
GAIO SOBRINHO, Antônio. São João del-Rey 300 anos de históriasSão João del-Rei: [s.n.], 2006.
- PEREIRA, Kleide Ferreira do Amaral. Revivescência de Cultos Pagãos nos Antigos Cultos aos Santos Nacionais Portugueses. Revista Brasileira de Folclore, Rio de Janeiro, MEC / Dep. de Assuntos Culturais / CDFB, n.35, jan.abr.1973. p. 33-44. 
- TINHORÃO, José Ramos. As Festas no Brasil Colonial. São Paulo: 34, 2000. 176p.il. 
- VIEGAS, Augusto. Notícias de São João del-Rei. 3.ed. Belo Horizonte: [s.n], 1959.


Referências na Web

Wikipédia (acesso em 17/11/2003, 17:35h)


Notas e Créditos

* Já se encontrava publicada esta postagem, quando a 10/12/2013 localizei uma interessante notícia sobre Santa Joana d'Arc: trata-se de um registro de sua festa no Largo do Rosário que dá conta de uma missa campal, procissão muito concorrida, como parte das comemorações da páscoa dos militares. Os soldados carregaram o andor durante todo o trajeto. Frei Orlando Alvares fez o sermão à entrada, falando da vida da mártir (Fonte: jornal O Correio, São João del-Rei, n.859, 08/05/1941, acervo da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida). É santa muito querida nos terreiros das religiões de matriz africana, sua imagem é frequente nos congás, tida como santa guerreira, muito forte, habitualmente sincretizada com Ogum Iara, ordenança de Oxum. Em São João del-Rei houve na década de 1990 um grupo de moçambique bate-paus na Rua do Ouro (Bairro Alto das Mercês), do Capitão Tadeu Nascimento de Sousa, que se denominava “Mãe Joana D’Arc”, aliás, o mesmo nome do terreiro ao qual estava ligado, já que seus participantes eram filhos espirituais daquela casa.
** Sobre Frei Orlando ver também:
- Aspectos folclóricos: neste blog, em  A Batina do Padre tem Dendê 
- Aspectos biográficos e históricos: no Blog de São João del-Rei (um trabalho de pesquisa fidedigno, da maior importância, efetivado pelo culto Sr. Francisco Braga). 
*** Texto e fotos (salvo indicação em contrário): Ulisses Passarelli, 17/11/2013.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Ensalmos

Sob o nome de ensalmo, diferentemente das definições dos verbetes, conhecem os folcloristas pequenas orações versificadas, geralmente em quadras, de enunciação ritmada e grande popularidade, dada sua simplicidade em decorar e creditada eficácia.

As pequeninas preces da religiosidade popular, fáceis de se ensinar às crianças, servem para vários momentos da vida, até para adentrar no mato, ficando-se livre da peçonha dos ofídios pelas graças de São Bento: 

São Bento, água benta, 
Jesus Cristo no altar;
tira as cobras do caminho
pro filho de Deus passar. 

Seguem alguns exemplos coligidos em São João del-Rei e Santa Cruz de Minas / MG, alguns difundidos em outras regiões. 

1) laudatório: 
Viva Santana,
Senhor São Joaquim,
Viva o Menino Deus,
Senhor do Bonfim!

2)  exorcístico/para viagem:
Retira-te, inimigo!
Nesta estrada eu entro
Meu corpo, minha alma
É do Santíssimo Sacramento!

3) para se deitar e levantar: 
Com Deus me deito,
Com Deus me levanto,
Na graça de Deus,
Divino Espírito Santo!

4) para abençoar o lar ou saudar um templo:
4.1) Esta casa tem quatro canto
Cada canto tem um santo;
São Marcos, São Lucas, São Mateus,
Nossa Senhora com todos os seus!

4.2) Esta casa tem quatro cantos,
Cada canto tem um santo
E no meio tem a luz
Do Divino Espírito Santo!

5) para rogar inteligência:
Divino Espírito Santo,
Fonte de toda ciência:
Derramai sobre mim
A vossa inteligência!

6) para sair de casa:
6.1) Estrela da Guia
Estrela do Oriente,
Guia os meus passos
Daqui para frente!

6.2) Estrela do Céu,
estrela do meu Pai,
guia os meus passos
nos caminhos onde vai!

6.3) Os anjos cantam no céu,
A Jesus Cristo adora. 
Bendita seja a hora,
que vou por esse caminho afora. 

Imagem do Divino Espírito Santo, montado sobre uma custódia, num modelo iconográfico tradicional.
Igreja do Carmo, São João del-Rei/MG. 

* Informantes: Santa Cruz de Minas, Bairro Córrego - Elvira Andrade de Salles (1998): 1 e 6.3; São João del-Rei, Centro - Luíza dos Santos: 5 (década de 1970); Aluísio dos Santos ("Ló", anos noventa): 3, 4.2 e o ensalmo de São Bento; Édila Santos Passarelli (década de 1980): 2, 4.1; Bairro Araçá, Maria do Rosário Neves ("Dona Preta", 2009): 6.1, 6.2.
** Texto e foto:Ulisses Passarelli

domingo, 3 de novembro de 2013

Finados

Finou-se Finados, mas não se findou no coração de quem ama. Mais uma vez os campos santos estiveram repletos de saudosos visitantes, em burburinho nos portões, na calçada fronteiriça, junto aos ambulantes que neste dia oferecem à venda velas e flores. 

Alguns fazem peregrinação, uma espécie de via-sacra, porque tem um parente num cemitério, um amigo noutro. No mais, a devoção às almas estimula as visitas. Uns cuidam de arrancar matos dos monturos de terra, outros mais de lustrar um pedra tumular. O cheiro de parafina queimando toma o ar, de mescla ao aroma das flores de monsenhor, crisântemo e cravo-defunto. Cruzes simplórias e esquecidas, ferrugentas, por ventura são lembradas neste dia. Assim como na terra dos vivos, também na dos mortos há construções abastadas, embora que o destino comum seja inevitável. Mas o carinho com os falecidos é uma premissa ética e religiosa, ensina a Bíblia Sagrada, através do Livro de Tobias. 

Dentre tantos túmulos, em São João del-Rei, merecem destaque o do ex-Presidente da República, Tancredo de Almeida Neves, que recebe uma grande quantidade de visitantes, inclusive de turistas e em especial uma sepultura que é a mais querida de todas, a da Jovem Desconhecida, no Cemitério Municipal ("Cemitério do Quicumbi"). 

Túmulo da Jovem Desconhecida em setembro de 1998.

O caso policial misterioso nunca foi elucidado. Uma mulher jovem foi encontrada no matagal em 1970 em estado de decomposição. Não foi identificada. O crime chocou a então pacata sociedade são-joanense. O povo lhe atribuiu o poder do milagre e logo condecorou o seu espírito com a fama de taumaturgo. A visitação ao túmulo, ora renovado, é muito grande e sobre ele sempre há flores, velas, pedidos e orações, manuscritas ou impressas. 

Créditos

- Texto e fotografia: Ulisses Passarelli. 

Notas

- Revisão: 26/05/2025. 

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Três Marias

Três Marias é o nome popular das estrelas Alnitek, Anilam e Mintaka, que formam a Cinta ou Talabarte da constelação de Órion. De acordo com a mitologia grega, Órion ou Oríon era um caçador gigantesco, filho de Poseidon (deus do mar). Artemis (deusa da caça) fez com que um escorpião o picasse sendo então transformado em constelação, junto com o artrópode. 

A cristianização se deu por analogia às três mulheres de nome Maria, postadas, segundo a tradição, lamentosamente, aos pés da cruz de Cristo: Maria Madalena - a pecadora arrependida, Maria de Cléofas e Maria de Salome, ou Maria Salomé, como chegou-nos. 

Explica o texto apócrifo “História de José, o Carpinteiro”, que Santa Ana (Santana) casou-se três vezes. A primeira com São Joaquim, gerando Maria de Nazaré, mãe de Jesus; a segunda com Cléofas, irmão de São José, nascendo outra Maria, dita “de Cléofas” e a terceira vez com Salome, dando a terceira Maria. Maria de Cléofas esposou Alfeu, gerando Tiago Menor e o apóstolo São Filipe. Maria de Salome teve com Zebedeu os apóstolos São Tiago Maior e São João Evangelista. Estas três Marias geraram a tradição da Maria Beú

Maria Beú é um personagem do mais solene préstito religioso do ciclo quaresmal, a Procissão do Enterro, da Sexta-feira da Paixão. No preto do luto se vestem, véu à cabeça, lamentando de tanto em tanto a morte do Senhor com uma plangente expressão latina: 

Heu! Domine,
Salvator noster!

A dolorosa interjeição soando "héuuu..." inspirou a corruptela "beú". 

Uma cena incomum: quatro Marias Beú. A tradição popular prescreve três, mas pela dinâmica intensa está sempre sujeita a reinterpretações. Santa Cruz de Minas, abril/1999. 

Outra via de cristianização denomina as estrelas de “Três Reis Magos”. Talvez neste sentido em especial, se liguem os seguintes versos de folias de Reis, que ouvi nos anos noventa de dois memoráveis foliões de São João del-Rei, Luís Santana, no Bairro São Dimas, e "Luís Candinho", no povoado do Fé: 

Encontrei com as Três Marias
Numa noite de luar, 
procurando a Jesus Cristo
sem nunca poder achar...

Foram dar com ele em Roma,
revestido no altar, 
com o cálice bento na mão, 
missa nova ia cantar. 

Na verdade estas duas quadras são muito tradicionais, conhecidas em várias regiões, de plausível procedência ibérica.

Folia de Reis, povoado do Fé (São João del-Rei/MG), 1993. 
Ao centro de chapéu e viola artesanal ao peito, o saudoso mestre Luís Cândido Gonçalvez, o "Candinho".

Fontes Bibliográficas

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.]. 930p. 
GAIO SOBRINHO, Antônio. Visita à Colonial Cidade de São João del-Rei. São João del-Rei: Funrei, 2001. 128p. 
SÃO JOSÉ E O MENINO JESUS. Org. Lincoln Ramos. 4.ed. Petropólis: Vozes, 2001. 

* Texto e fotos: Ulisses Passarelli