Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




Mostrando postagens com marcador Chagas Dória. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Chagas Dória. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Chagas Dória, outro nome de Matosinhos

Houve época que tal importância atingiu o movimento ferroviário no Bairro Matosinhos, em São João del-Rei/MG, centrado na estação local da EFOM, chamada Chagas Dória, que este nome passou à condição de sinônimo do grande bairro. Bairro de Chagas Dória era então o próprio Matosinhos. As duas antigas notícias abaixo deixam claro esta denominação.


Detalhe da estátua-chafariz do Largo de Matosinhos. 
Foto: Iago C.S. Passarelli, 2013

Exames em Chagas Doria
Realizaram-se em Chagas-Doria, ha dias, as provas anuais porque têm de passar os alunos que alli frequentam estabelecimentos públicos de ensino.
Na escola masculina, regida pelo professor Carlos dos Passos Andrade, a  banca foi formada pelos professores Pedro Raposo e Augusto Mello da Motta.
Findos os trabalhos houve preleção pelos dois examinadores, canticos e acclamações aos srs.. presidente da Republica, presidente do Estado, secretario do Interior, presidente da Camara Municipal e inspetor escolar.
Na escola feminina, regida pela normalista Isabel da Conceição Pereira, compõe-se a banca da normalista senhorinha Maria Esther Pereira da Silva e do sr. Plinio Campos da Silva.
O presidente da banca effectuou uma preleção alusiva ao acto, havendo, após, cantos cívicos pelo corpo discente (grifo nosso).

Fonte: Jornal A Tribuna, São João del-Rei, n.804, 25/11/1926. Acervo Digital da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d’Almeida.


Chagas-Doria
Recebemos de Chagas Doria uma carta, contestando afirmações que, ha dias, nos foram comunicadas daquele subúrbio sanjoanense e a que demos guarida nesta folha.
Segundo o missivista, é falso que os srs. Pedro Ferreira, “respeitável cidadão”, e Paulo Campos, filho do saudoso negociante sr. Gustavo Campos se possa atribuir a pecha de “perturbadores da ordem” dalli.
Ficam aqui consignadas, de acordo com o nosso feitio de órgão legal, taes declarações (grifo nosso).

Fonte: Jornal  A Tribuna, São João del-Rei, n.799, 07/11/1926. Acervo Digital da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d’Almeida.  



Créditos

- Fotomontagens, pesquisa e texto: Ulisses Passarelli.

Notas 

- Revisão: 14/05/2025. 

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

A Ferrovia em Matosinhos

A chegada do trem a São João del-Rei (vindo de Antônio Carlos, ex-Sítio) se dava por Matosinhos, único trecho ao qual esta postagem vai se ater, para o foco deste blog. De início, a via férrea passava em trajeto diferente do atual: de súbito, abandonava a vargem do Rio das Mortes, à altura aproximada da ilha que existe acima do Porto Real da Passagem [1], fletindo à esquerda e pelo platô do bairro, passava atrás da igreja uns 300 a 400 metros, aproximadamente, em diagonal, até alcançar o Ribeirão da Água Limpa, o qual atravessava pelo pontilhão, no mesmo lugar do atual. Daí para frente era como ainda hoje. Esse antigo itinerário corresponde ao traçado da atual Rua Amaral Gurgel, que surgiu no leito da ferrovia após a retirada dos trilhos. Por isto ficou conhecida por “Linha Velha”, nome que até hoje persiste. 

Na Rua Amaral Gurgel ainda existia até poucos anos, a casa que serviu de parada ferroviária, mas foi demolida nesta década. Segundo consta por via oral, também existe a que era do guarda-chaves, embora seu aspecto tenha sido modificado e depois demolida. Tal rua conserva ainda o traçado irregular, tortuoso, característico do antigo trecho férreo. Sua parte final ficou apelidada em meados do século XX, de “Beco do Jalão”, devido à grande quantidade ali existe de jalão, jambolão, jambolano, jamboleiro ou jamelão (Eugenia jambolana), árvore mirtácea, plantada nos arredores, produzindo fruto comestível, roxo, agridoce e adstringente. 

Uma citação deixa a entender que já nesta época (fim do século XIX) havia em Matosinhos pontos de parada do trem [2]“não há quem ponha em duvida o grande melhoramento que significam os trens suburbanos entre esta cidade e a de Tiradentes, com estações (sic) na Agua Limpa, Mattosinhos e Casa da Pedra.” Ao que parece não eram bem estações, no sentido estrito da palavra, mas sim paradas, segundo o contexto ferroviário. A da Água Limpa ficava na cabeceira do pontilhão sobre o ribeirão homônimo, do lado do bairro. Sabe-se que em tempos recuados teve um ramal daí até a olaria que existe mais acima, junto à Avenida Santos Dumont. A da Casa da Pedra ficava muito além, já quase no Rio Elvas. Nela se embarcava calcário. Da plataforma de embarque só restam as ruínas no meio do mato [3]

Matosinhos assistiu à festiva passagem das tropas que se dirigiam para a nova Linha de Tiro da Colônia do Marçal (situava-se na encosta do morro onde hoje está o Recreio das Alterosas). A inauguração foi a 1º de janeiro de 1908 [4]“Da estação desta cidade largou um comboio especial para o suburbio de Mattozinhos, conduzindo o Cel. Carlos F. de Mesquita, grande numero de officiaes do 28º batalhão, convidados civis e a excellente fanfarra do 28º. De Mattozinhos á linha fez-se o transporte em carruagens e cavallos”.

A partir de 1908 surgem mudanças significativas. A partir da linha em questão é construído o "Ramal de Matosinhos", que dela partia em curta extensão, terminando numa edificação de parada ferroviária construída bem diante da atual Estação Chagas Dória. Em 25/05/1908 foi inaugurada essa segunda Parada de Matosinhos (que já está demolida há muitos anos e da qual somente resta uma plataforma de pedras como vestígio). No ato da inauguração, o primeiro trem partiu de S. João às 11 h 45 min trazendo autoridades e a diretoria da estrada de ferro. Logo a seguir vieram várias outras composições, franqueadas ao povo, trazendo os são-joanenses para a inauguração. O Dr. Chagas Dória através da Câmara Municipal fez expedir diversos convites às autoridades e à imprensa. A estrada de terra ligando a cidade ao arraial foi reparada, inclusive fizeram alguns consertos na Ponte da Água Limpa, para maior facilidade dos que não viessem de trem. A parada estava “garridamente enfeitada, onde tocavam as bandas do 28º Batalhão e dos Operários da Oeste”. Foi lavrada uma ata e lida pelo secretário da estrada, Capitão Leopoldo Araújo. A bênção foi dada pelo Padre Gustavo Ernesto Coelho “sendo depois cantado na egreja um solemne Te-Deum”. A Câmara serviu aos convidados uma mesa de doces na parada. Houve vários discursos [5]

Apenas oito dias depois da inauguração seu nome foi alterado para Chagas Dória [6]

No outro mês os vereadores são-joanenses solicitaram da diretoria ferroviária a construção de um ramal interligando Matosinhos às Águas Santas. Para sua obra, após o pontilhão da Água Limpa, foram postos novos trilhos e todo o trecho férreo contido no bairro foi retificado. A partir do pontilhão, a linha assumiu uma reta, passando em frente à igreja, para uns 300 metros abaixo, virar à direita e noutra reta seguir a Tiradentes. É o trajeto ainda hoje mantido. Foi construída uma estação junto ao largo da igreja. Com isto a parada de 1908 ficou abandonada e virou residência e enfim a linha do primeiro itinerário foi erradicada, surgindo em seu lugar um caminho. que tornou-se a Rua Amaral Gurgel, como já referido. A inauguração da nova se deu em 21/03/1910. 

Mas com apenas um ano o crescimento surpreendente de Matosinhos exigia uma estação ainda maior. Uma remodelação inaugurada em 15/04/1911 a transformou naquela estação que, com algumas reformas, chegou aos nossos dias. Está a 856 metros de altitude e sua posição quilométrica original era 96,432 [7].

Portanto, recapitulando, houve em Matosinhos uma primeira parada na linha velha, na atual Rua Amaral Gurgel; uma segunda parada inaugurada em 25 de maio de 1908, em frente a atual Chagas Dória; em 1910 a terceira construção, a estação propriamente dita, exatamente onde se encontra hoje; e uma quarta inauguração, em 1911, a partir de remodelação daquela de 1910 e que segue até nossos dias [8].  

A atividade em Chagas Dória foi muito grande e já um ano depois de inaugurada, tinha nada menos que cinco horários de viagem nos dias úteis e oito aos domingos, feriados e dias santos, atesta Henriques (2003). Contudo, o crescimento na demanda de passageiros de tão acentuado, induziu ao acréscimo de novos horários em 1912, passando para sete por dia [9]: “partida dos trens de S. João d’El-Rey – Mattosinhos – 6,15; 10,00; 11,30; 2,00; 5,00; 5,40; 8,30.” 

Para se ter uma ideia de sua importância (e do movimento por ocasião das festas), basta este impressionante e curioso relato [10]"Por occasião da festa de Mattosinhos, correram 148 especiaes, entre esta cidade e aquelle bairro, os quaes transportaram 23.124 passageiros, rendendo 3:468$600, não havendo nenhum accidente, sendo a primeira vez que os carros desses trens trafegaram illuminados á electricidade, inclusive os bonds."

A parada ferroviária Chagas Dória alcançou tamanha relevância, que sugestionou ainda em 1908 a troca da antiga denominação de Largo de Matosinhos (nome que vinha desde os tempos coloniais), para Praça Dr. Chagas Dória [11] (hoje Praça Senhor Bom Jesus de Matosinhos). Mais tarde, nas décadas de 1940 e 1950 era comum chamar-se ao próprio Matosinhos de Bairro Chagas Dória. Ainda no final da década de 1960, essa estação tinha documentadamente intensa atividade de carregamento de minério.

No aspecto social, em meados do século XX, a estação de Chagas Dória graças à sua grande movimentação ferroviária, era ponto de concentração de vendedores ambulantes. No mais muita gente das redondezas vinha a ela para assistir às passagens dos trens e manobras e além disso era local de namoro, já que as moças vinham em peso à plataforma e os rapazes vinham atraídos por elas [12]

Estação de Chagas Dória em 1998, vendo-se o acréscimo de moradia
feito na sua frente, demolido na reforma de 2005. 

Das duas linhas remanescentes apenas uma é usada, a que beira a Rua Elói Reis. A que margeia as casas da Rua Bernardo Guimarães com fundo para a linha está abandonada. O uso efetivo da estação estava encerrado na década de 1970. Daí para frente, até 1984, apenas paradas eventuais e os trens especiais que serviam ao Jubileu da Santíssima Trindade em Tiradentes, paravam em Chagas Dória para desembarque. 

O grande movimento da estação para passageiros e cargas se transfigurou em ocupação por moradores de rua, sujeira e local de atos ilegais. O telhado esteve caindo e foi alvo de muitas pedradas vandálicas; um acréscimo descaracterizador foi feito para servir de moradia. A ASMAT (Associação de Moradores do Grande Matosinhos) lançou significativo projeto de restauração do monumento, sob a competência da arquiteta Zuleika Teixeira Lombardi, em março de 2000, como se pode ver nas páginas de “O Grande Matosinhos”, em diversas edições, emitindo apelos em prol da dita reforma. Mas apesar dos esforços da ASMAT, sobretudo de seu então Presidente, José Cláudio Henriques, o projeto não se efetivou e a estação continuou largada e depois foi cercada por um alambrado (por volta de 2003/2004), que tentava impedir a entrada de invasores. A gaiatice popular não tardou lhe apelidar “Granja Chagas Dória”, pois ficou com aparência de galinheiro. 

A reforma só viria em 2005, pela própria Ferrovia Centro-Atlântica. Logo a princípio ali funcionou a Polícia Militar. Felizmente a estação ficou bem preservada, mas ora vazia e sem utilização caminha de novo para a degradação [12].

Referências

HENRIQUES, José Cláudio. Bairro de Matosinhos: berço da cidade de São João del-Rei. São João del-Rei: UFSJ, 2003.

Créditos

- Texto e fotografias: Ulisses Passarelli.

                                                                             Notas

- Revisão: 03/08/2025. 

[1] - Para uma referência atual, esse ponto de mudança de direção, ficava nos fundos do atual conjunto residencial INOCOP, entre este e o Colégio Polivalente (Escola Estadual Governador Milton Campos).
[2] - O Resistente, n. 81, 11/03/1897.
[3] -  A plataforma de embarque de calcário da Casa da Pedra, assim como os fornos de calcinação e a própria caverna local encontram-se patrimonializadas pelo município por mecanismo de Inventário de Patrimônio Cultural (2017).
[4] - A Opinião, n. 53, 04/01/1908.
[5] - A Opinião, n. 91, 20/05/1908; n. 92, 23/05/1908; n. 93, 27/05/1908.
[6] - O nome que recebeu foi uma homenagem ao Dr. Francisco Manoel das Chagas Dória, afamado diretor local da EFOM. Seus esforços garantiram em absoluto a construção dessa parada e mais tarde da estação, bem como do ramal das Águas Santas. A estação é de propriedade da União, e está integrada ao Complexo Ferroviário de São João del-Rei, tombado pelo IPHAN. 
[7] - PRONTUÁRIO GERAL DAS ESTAÇÕES FERROVIÁRIAS: 1945. 2.ed. Belo Horizonte: Dep. de Estatística, 1947.
[8] - SÃO JOÃO DEL-REI. Estação Chagas Dória: Inventário de Patrimônio Cultural. São João del-Rei: Secretaria Municipal de Cultura e Turismo / Prefeitura Municipal; Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural, 2014. 26p. 
[9] - A Opinião,11/02/1912.
[10] A Tribuna, n. 46, 30/05/1915.
[11] - Segundo decisão da Câmara Municipal datada de 27 de maio de 1908 que resolveu também ajardiná-la. Fonte: A Opinião, n. 94, 30/05/1908.
[12] - Informação pessoal de Nelson Domingos de Abreu, 27/07/2008. 
[13] - A Estação de Chagas Dória passou por nova reforma em 2021, com recursos do Fundo Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural (FUMPAC), ocasião que ganhou gradeamento de proteção na borda da plataforma de embarque, mas não na frente para a praça. A seguir foi cedida para funcionamento do Instância de Governança Regional (IGR) Circuito Turístico Trilha dos Inconfidentes, com inauguração da sede em 11/09/2021. Em 2024, a fim de ampliar a proteção ao bem, foi completado o gradeamento da parte dianteira, e o fontanário conhecido por "Deusa Ceres" (o Verão) foi transladado da praça, diante da igreja, para a plataforma da estação. 

Feira de produtos dos municípios durante inauguração da sede da 
IGR Trilha dos Inconfidentes na Estação Chagas Dória. 

O fim das chácaras em Matosinhos

Já consolidado o regime republicano, o Bairro Matosinhos, em São João del-Rei/MG, conservava ainda o seu plausível aspecto colonial. Compunha-se de um conjunto de chácaras aprazíveis, com célebres pomares. Algumas eram de fato grande dimensão, a exemplo da Chácara do Lombão [1]:

"Vende-se um sitio no logar denominado Lombão contendo de 16 a 24 alqueires de campo, bôa aguada, moinho e um pequeno canavial e conjunctamente algumas cabeças de gado, vacum e cavallar. Quem pretender dirija-se nesta cidade á casa de Aureliano Dias Raposo."

A franca arborização, o clima agradável, o relevo sem morros acentuados, a proximidade da cidade e das águas (ainda límpidas), eram as condições que faziam desse bairro um lugar querido, procurado inclusive para tratamento de saúde. Um anúncio, de 04/02/1906, do jornal O Repórter, n.1, dizia:

"chamamos a attenção dos nossos leitores para o annuncio que inserimos na 4ª pagina, do Succo de Uvas da Quinta Lyndoia, preparado efficaz e proveitosissimo do sr. Sebastião Sette, que operar ao fabrico da colheita deste anno, resolveu baratear o pequeno stock que ficou do anno findo."


Mas as razões da modernidade fizeram imprimir mudanças [2]. O crescimento fez com que a municipalidade já mantivesse um fiscal no bairro [3]. Já no ano de 1932 se falava em alterar a fisionomia do lugar e a imprensa jornalística são-joanense lamentava a transformação, que mudaria o lirismo local [4]:

"Remodelar o quieto suburbio, o pittoresco arrabalde das jaboticabas famosas, deitar abaixo aquelles muros enegrecidos e aquelle aggregado de casinhas baixas, seria roubar o encanto natural que faz daquelle sitio o logar preferido (...) a nova remodelação de Mattosinhos que, segundo foi dito, passaria por uma radical transformação que lhe haveria de alinhar as ruas em torno do grande jardim plantado ao centro."

As vetustas chácaras começaram a ser vendidas para loteamentos. Seus pomares foram aos poucos postos abaixo. Inúmeras casas se ergueram. Servirão de exemplos os seguintes anúncios de venda [5]

"Capital e trabalho, fraternisados, concentram-se em Matosinhos, porque esta localidade offerece-lhes, excelente campo de expansão ás suas aspirações pacíficas: - o progresso. A Chacara Santo Antonio vende lotes de terrenos em vantajosas condições ao capitalista e ao operário. Informações com José Augusto da Silva alí e com João Ramalho aqui. São João, Janeiro de 1938."

* * *

"Vende-se em Chagas Doria, uma chácara com 4 mil metros quadrados, murada e toda cultivada, com cereais e arvoredos, 3 casas de morada, com luz e agua potavel. Tratar com o proprietario: Avelino Gonçalves Ferreira, na mesma."

* * *

"Fazendinha. Vende-se a ½ quilometro de C. Doria dividida em 5 partes de jaraguá meloso e campo, boas aguadas, otimo pomar, muita cana, milho plantado, curral murado, galinheiro, paiol coberto, 3 chiqueiros cimentados, 3 tanques para ração, estrada de automovel na porta. Tratar com Joaquim Guerra."


Assim, as árvores foram derrubadas dos quintais e o verde desapareceu. Altivo Câmara lamentou com veemência o fato, demonstrando as consequências em termos de desequilíbrio ecológico. Sugeriu plantar no bairro um bosque simbólico de paus-brasil (Caesalpina aechinata), planta que tínhamos nativa na região, restando uns pouquíssimos exemplares vestigiais em certas matas. Escreveu [6]:

"Matozinhos, pintado em 1824, pelo insigne alemão Johan Mauritz Rugendas (o original em cores está no Museu Histórico Nacional, Rio), Matozinhos, ainda há 30 ou 40 anos notável pelo seu pitoresco, beleza e higidez, e que no século passado mereceu louvações de sábios estrangeiros eminentíssimos (Saint-Hilaire, Pohl, Burton, Spix e Martius, Rugendas e outros), pela beleza e exuberância da sua luxuriante vegetação tropical, já não tem chácara nem jardins, e na via pública, 5 árvores maltratadas, para 15.000 moradores."

Infelizmente, tal sugestão não foi ouvida... 

 Créditos

- Texto e fotomontagem de recorte jornalístico: Ulisses Passarelli

Notas 

- Revisão: 15/07/2025. 



[1] - Arauto de Minas, n. 8, 27/04/1883. São João del-Rei. 
[2] - Havia na cidade, desde algum tempo, uma preocupação com o urbanismo, então entendido como sinal de evolução civilizatória. A título de exemplo, enumeram-se as seguintes mudanças: em 1913 é dado o prazo de três meses para alinhamento e construção de passeios de 1,50m na Rua da Prata (atual Padre José Maria Xavier) e a resolução nº 370 da câmara, de 12 de agosto, autoriza concertos “na estrada da cidade ao Sr. dos Montes”, respectivamente segundo O Repórter n.67, 25/09/1913 e n.71, 10/10/1913. Serve também como exemplo a notícia das calçadas feitas ao redor da Igreja do Rosário, no centro da cidade (A Tribuna, n.29, 30/01/1915) e do jardim instalado na sua dianteira (idem, n.33, 28/02/1915), hoje inexistente. A herma do padre José Maria Xavier foi inaugurada em 02 de maio daquele ano, atesta o mesmo jornal, edição nº 41. A Tribuna n. 187, 03/02/1918 atesta o ajardinamento da Avenida Carneiro Felipe (atual Pres. Tancredo Neves), ainda sem iluminação elétrica; n'A Tribuna edição nº 192, de 10 de março noticiou-se acerca da instalação de bancos e plantios de magnólias, segundo projeto de Alberto Bastos; A Tribuna, n.195, de 24/03/1918 denunciou o tratamento inadequado do esgoto, lançado num “corregozinho fétido da Rua Paulo Freitas” ou das fezes e urina carregadas em latas de querosene e jogadas ao léu nas imediações da Avenida Leite de Castro, exatamente na “Travessa do Sr. Capitão Manoel Nicolau”O São João d’El-Rei, n.9, 13/05/1920, divulgou que o poder público comprou “uma faixa de terreno a d. Ernestina Monteiro para alargamento de um trecho da rua Pe. Sacramento”, pelo valor de 390$000. Em 1932 foi construída uma fonte luminosa na avenida central da cidade, a segunda de Minas Gerais (a primeira foi em Cataguases), tendo a aparelhagem elétrica vindo do Rio de Janeiro. Nessa ocasião também se concluiu a remodelação do cais do Córrego do Lenheiro: Folha Nova, n.4, 08/05/1932 e ed. ss.
[3] - O Repórter, n. 73 de 19/10/1913, publicou a relação das despesas municipais referentes a agosto daquele ano, constando entre elas, 30.000 réis pagos a Pedro Ferreira de Souza, do seu ordenado de fiscal em Matosinhos.
[4] - Folha Nova, n. 10, 08/03/1932. São João del-Rei. 
[5] - O Correio, n. 608, 04/06/1938; n. 1.090, 15/04/1945; n. 2.583, 11/01/1953, respectivamente.
[6] - CÂMARA, Altivo de Lemos Sette. Árvores. São João del-Rei: Instituto Histórico e Geográfico, 1973. (Exemplar gentilmente apresentado por Francisco José de Resende Frazão, a quem este Blog agradece).