Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




Mostrando postagens com marcador São Pedro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador São Pedro. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

São Pedro e a alma do fazendeiro

Um certo cidadão, fazendeiro, se orgulhava de não perder as missas dominicais e as festivas. Se vangloriava disso e fazia questão de contar a quantas já tinha ido ao longo da vida, pois a cada uma delas, guardava um grão de milho dentro de uma garrafa como meio de contagem. 

Era seu costume ir para as celebrações encontrar os amigos, compadres e vizinhos, na intensão de com eles conversar ao término, para fechar negócios de compra e venda e negócios de barganha (troca) _ vacas, cavalos, etc. Suas preces, aliás, habitualmente clamavam por bons negócios. 

Foi então, que, certa vez, na hora que ia sair para a missa chegou-lhe notícia que uma de suas melhores vacas tinha atolado no brejo. Correu com os empregados e com algum esforço conseguiu salvá-la. Trocou a roupa e correu para a missa, mesmo atrasado. Chegou na hora que o padre elevava a hóstia na consagração e de joelhos agradeceu muito. 

Como de costume, ao chegar em casa, pegou um grão de milho para guardar na garrafa de marcação do número de missa assistidas. Mas como era honesto, pensou consigo mesmo que não seria válida a contagem pois chegara atrasado; então, partiu o grão e só pôs na garrafa metade de um milho. 

Continuou sua rotina, até que chegou o dia de sua morte. Quando sua alma chegou ao céu se apresentou a São Pedro, que não quis permitir sua entrada. Protestou que era uma injustiça, pois fora muito religioso, não perdera uma missa dominical a vida toda. O santo questionou e a alma do fazendeiro retrucou que tinha como provar, bastasse observar as garrafas que deixou na terra cheias de grãos de milho, cada grão contando uma celebração assistida. São Pedro mostrou-lhe umas garrafas de lado e perguntou se eram aquelas. A alma do fazendeiro as reconheceu e o santo mandou-lhe abri-las e contar os grãos e qual foi a surpresa daquela alma ao abrir todas as garrafas: encontrou-as vazias, exceto por uma delas, na qual só encontrou meio grão.

Aturdida, a alma ouviu do santo "Chaveiro do Céu", que o meio grão correspondente à meia missa que assistira, fora em verdade a única válida em toda a sua vida, pois somente nela manifestara gratidão; em todas as outras missas fora apenas pedir e com a segunda intenção de estabelecer negócios com os amigos... 

Igreja de São Pedro e São Paulo, Ritápolis/MG, 01/10/2017.
(imagem sem nenhuma ligação com a narrativa; finalidade meramente ilustrativa)

Créditos

- Texto e fotografia: Ulisses Passarelli.
- Informante: José Isaías, Madre de Deus de Minas/MG, 01/09/2017.

Notas 

- Revisão: 23/08/2024.


terça-feira, 4 de julho de 2017

Festa do Rosário em Ibituruna, 2017 - parte 1

Ibituruna novamente festejou o rosário de Maria com a força da fé popular e a vibração extraordinária dos tambores congadeiros. Foi no primeiro domingo de julho o dia maior. Junto à bela Igreja de Nossa Senhora do Rosário se concentraram os dançantes do reinado, com suas fardas e instrumentos musicais, vindos do entorno imediato do Campo das Vertentes e do Oeste de Minas, prevalecendo a presença das jombas, ou seja, os moçambiques que habitualmente executam esse ritmo, preponderante na região. 

Tendo o próprio moçambique e a congada local como anfitriões, foram recepcionados ternos de congadeiros vindos de Bom Sucesso, Santo Antônio do Amparo, Perdões, Cana Verde, Nepomuceno, Oliveira, Lavras, Ijaci, Carrancas, Itutinga, São João del-Rei, Prados e Dores de Campos, das zonas urbana e rural, em certos casos várias guardas de cada município, entre congos, moçambiques, marujos, vilões e catupés. 

A diversidade notória se reforçava com a intensa participação da comunidade local e dos visitantes, com ampla movimentação de largo, barracas de comes e bebes, tudo com muita ordem, boa fé, organização significativa e concorrência de fiéis. 

A programação revelou que a comemoração foi precedida de novena, com procissões nos três dias finais. Destaque para a alvorada pelos grupos locais, às 4 horas da madrugada. O dia maior foi antecedido pela bênção da fogueira às 21 horas e danças ao redor. A estruturação cerimonial religiosa foi cuidada com o maior zelo e absoluta devoção, sendo mister reconhecer a valorização que o pároco, Padre Sílvio Firmo do Nascimento, concedeu às festividades. 

No extremo da praça da Igreja do Rosário, quatro mastros eram continuamente visitados pelos congados, cantando à sua base as saudações de praxe: dois mastros dedicados a Nossa Senhora do Rosário, um a São Benedito e outro a São Pedro. 

Como de costume foi servida farta e saborosa alimentação. 

O cortejo trazendo o reinado e o andor foi intenso, fervoroso e ao final cada terno se apresentou individualmente em honra aos santos e homenagem aos coroados. 

Ibituruna se regozija por suas tradições e as conserva com carinho. Merecem aplausos todos os que ajudaram a festa. 


Moçambique de Machados (Perdões), tocando sua jomba. 

A devoção ao rosário começo muito cedo...
Moçambiqueiros de Oliveira. 

Guarda de Congo de Cana Verde. 

Para participar do rosário se deve sentir a devoção à flor da pele e cantar com a alma:
congadeiro toca uma cuíca. Moçambique "Kingongo", Pedra Negra (Ijaci). 

Desde muito jovem se principia no congado,
como neste catupé de Perdões. 

Congadeiros de Itutinga e de Prados no café da manhã. 

Moçambique de Ibituruna. 

Chegada da congada de Ibituruna: a bandeira é saudada respeitosamente. 

Marujo de Dores de Campos. 

O vilão da Guarita (Santo Antônio do Amparo) escolta a passagem da corte do Imperador do Divino,
vinda de São João del-Rei para participar dos festejos. 

O cortejo em toda sua pujança. 

A jomba do Congonhal (Nepomuceno) marcou presença e conquistou atenções. 

Mastro não é um pedaço de pau... é um elemento telúrico, sagrado.
Capitão de moçambique da Baliza (Santo Antônio do Amparo) o
saúda. 

Fotomontagem mostrando os registros dos quatro mastros fincados. 



Cenas do Moçambique Santa Efigênia, de São João del-Rei,
durante a festa em Ibituruna. 

Notas e Créditos

* Texto e acervo: Ulisses Passarelli
** Fotografias e vídeos (02/07/2017): Iago C.S. Passarelli

domingo, 2 de agosto de 2015

São Pedro aprende uma lição

Existem vários contos populares que apresentam São Pedro por personagem principal, sempre figurando-o com certa verve como um santo turrão, mas ao mesmo tempo querido, através do qual o Cristo transmite lições que servem aos demais apóstolos.  Em algumas narrativas aparece também a mãe de São Pedro, verdadeira megera, invejosa dos poderes de Cristo.

Através destes contos o povo também reinterpreta os ensinamentos cristãos com muita liberdade, facilitando o entendimento. A citação específica à figueira estabelece uma analogia com o episódio bíblico da maldição da figueira (Mt 21, 18-22; Mc 11, 12-14, 20-26), uma alegoria da esterilidade daqueles que não frutificavam o ensinamento de Jesus. 

Paralelamente, o povo tem seus tabus com a figueira; não exatamente a produtora de figos com os quais se fazem doces na quadra natalina anual, mas a figueira-brava ou gameleira branca, árvore ligada às entidades espirituais da linha esquerda, árvore da magia e também ao inquice Kitembo.  

Outro curioso paralelo ou quiçá mera coincidência é o caso da orelha [1], que se verá a seguir, é uma plausível aproximação do santo com o episódio da orelha decepada quando da prisão de Jesus: "Um dos circunstantes tirou da espada, feriu o servo do sumo sacerdote e decepou-lhe a orelha" (Mc 14, 47). "Embainha tua espada, porque todos aqueles que usarem da espada, pela espada morrerão." (Mt 26, 52). Outro versículo diz que foi a orelha direita e que Jesus disse: "Deixai, basta. E tocando na orelha daquele homem, curou-o" (Lc 22, 51). Por fim, é o Evangelho de São João que detalha a cena: "Simão Pedro, que tinha uma espada, puxou dela e feriu o servo do sumo sacerdote, decepando-lhe a orelha direita. (O servo chamava-se Malco). Mas Jesus disse a Pedro: Enfia a tua espada na bainha! Não hei de beber eu o cálice que meu Pai me deu?" (Jo 18, 10-11). 

Pois bem. Em minha infância em São João del-Rei, meu avô materno (Aluísio dos Santos, 1923-2004) contava-me em livre interpretação esta mesma passagem, dizendo que São Pedro cortara a orelha do guarda com uma dentada. Foi repreendido por Cristo, que a colou de volta com saliva [2]. Nessa colcha de retalhos se destaca então a animosidade atribuída a São Pedro e os complexos culturais desenvolvidos em torno de temas bíblicos.

* * *

Dizem que um dia, no tempo que Jesus Cristo andava pelo mundo com seus apóstolos, que o Divino Mestre passando por uma figueira, pegou um de seus frutos para comer. Porém, notou que estava podre e então o Messias amaldiçoou a árvore, que imediatamente secou e morreu. São Pedro, indignado, o repreendeu: 

_ "Mas Mestre... por causa de um só figo estragado o Senhor condenou todos os outros bons?!"
_ "Pedro _ disse Jesus _  já não ouviste dizer que os justos pagam pelos pecadores?"

O apóstolo não aceitou o ensinamento, mas também não retrucou mais. Calou-se e foram embora pelo caminho afora. 

Adiante, junto a uma árvore, um marimbondo picou São Pedro bem na orelha, que ficou inchada, vermelha, doendo muito. Repleto de raiva, ele pegou uma vara comprida e prendeu em sua ponta uns panos velhos, providenciando desta forma uma tocha. Com ela, meteu fogo no vespeiro e assim matou todos os marimbondos da colônia. Jesus, vendo aquilo, disse:

_ "Uma só vespa te ferroou e mataste a todas! Não te disse, Pedro, que os justos pagam pelos pecadores..."

E assim , partindo em jornada, São Pedro aprendeu mais uma lição. 

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Informante do conto: Joaquim Maia Filho, São João del-Rei/MG, 20/04/2000. 

Notas 
- Revisão: 07/09/2025. 

[1] A orelha na cultura popular indica simbolicamente longevidade. Ter orelhas grandes é sinal de vida longa. Se na noite de São João, ao se contemplar o reflexo de si mesmo nas águas de alguma fonte ou rio, se avistar apenas uma orelha, é sinal de vida curta ou de morte de alguém muito próximo, até da família mesmo. Orelha mole, com arcabouço cartilaginoso flácido é indicativo de preguiça no entendimento do povo. Já no campo do pejorativo, orelha grande é alegoricamente imagem da burrice, lentidão de raciocínio. Assim é corrente em São João del-Rei, mas certamente são tradições conhecidas em muitas outras terras.
[2] Saliva é o elemento mágico por excelência, tido como de alto poder curativo nas crenças populares, a qual seria capaz até mesmo de gerar curas, conforme a maneira como é aplicada. A saliva contém parte da energia do hálito criador. Assim também, uma magia inferior feita contra alguém utilizando-se de gotas de sua saliva, gera profundos transtornos na vítima. Para isto utiliza-se de talheres e copos que a pessoa usou, antes de serem lavados, pois ainda contém resíduos de sua saliva no ponto onde colocou a boca. 

terça-feira, 15 de abril de 2014

O folclore dos dentes - parte 1

Odontologia Mística - levantamento bibliográfico e notas de campo

"A velha tapanhumas escutou a voz do filho no longe cinzado e se espantou. Macunaíma apareceu de cara amarrada e falou pra ela: 
_ Mãe, sonhei que caiu meu dente.
_ Isso é morte de parente, comentou a velha.
_ Bem que sei. A senhora vive mais um sol só."
(Mário de Andrade, Macunaíma: o herói sem nenhum caráter)

Guia de dentes no capitão de congado Luís Bento Silva.
Guarda de Marujos N.S. do Rosário e Sta.Efigênia, Congonhas/MG, 01/11/1998.

A religiosidade popular e a mística fazem parte da vida diária das ações humanas, das profissões e até da lúdica, de boa parte da população, notadamente das comunidades socialmente mais sacrificadas... Frei Francisco van der Poel demonstrou bem o quão arraigado está a religiosidade na vida do povo, dizendo-a "a riqueza dos pobres" (POEL, 1998). 

Os dentes não escaparam desta realidade. Com efeito a "odontologia" popular não está isenta de influências desta natureza. Os dentes, sobretudo, são os maiores merecedores de rezas e benzeções dirigidas à boca. Correm crenças, fazem simpatias. O próprio elemento dentário, creem, tem, energias protetoras místicas e é usado como amuleto. Sonhar com dente é indício frequente de mal agouro. A epígrafe deste texto, embora de origem literária, é baseada em crença vigente, que a genialidade de Mário de Andrade soube aproveitar em sua rapsódia, onde também incluiu outra passagem inerente ao folclore da odontologia: Macunaíma gemia com as dores incômodas causadas pelo "sapinho" (candidíase), que afetara-lhe a boca, após envolver-se com três prostitutas. Curou-se porque seu irmão, Maanape, roubou a chave do sacrário e entregou-lhe para que a chupasse. 

Câmara Cascudo esclareceu sobre o uso da chave do sacrário nos rituais do catimbó (CASCUDO, 1978). Vale também a chave comum, devidamente preparada, simbolizando-a. É usada como amuleto. Em São João del-Rei o uso da chave do sacrário goza de grande prestígio, quando se consegue um sacristão amigo que a empresta por umas horas para compor rituais populares, para abrir caminho, fechar o corpo contra malefícios, curar sapinho passando-a em cruz sobre a boca. 

Em outra obra, o mesmo folclorista esclareceu que os dentes "são amuletos possuidores de potência mágica defensiva contra o maléfico, mau-olhado, maus ares" (CASCUDO, s/d). Os dentes aparecem com frequência entre os variados pingentes que compõe os balangandãs das baianas. Em 27 exemplares analisados, havia nada menos que 42 dentes nas pencas (LODY, 1988).

É muito comum o uso de um dente unitário (ou garra, com o mesmo objetivo) encastoado e preso a um cordão para se pendurar ao pescoço. A função estética _ o uso como adorno _ é secundária. O motivo primário, gerador do uso é a pretendida proteção contra males, aliada à garantia de uma dentição sólida. Se for dente de jacaré ou quelícera de aranha-caranguejeira, afasta a pessoa que o usa da ofensa por essas espécies, além de alcançar proteção contra a dor dentária (CASCUDO, 1978). É um amuleto

Em Santa Cruz de Minas (em 1994) observei um cordão que prendia medalhas de santos junto a um dente de anta. Usava-se para por ao pescoço durante as doenças debilitantes, que causam astenia, prostração, para dar forças, pois a anta (Tapirus terrestris) é um animal forte. É a presença da magia simpática

Na vizinha São João del-Rei os mandingueiros mais antigos e afamados punham um dente da serpente cascavel (exatamente a presa inoculadora de peçonha) trespassado na ponta de um bastão, por meio de orifício. Tal bastão, uma vez preparado em sessões rituais, passava a ter fortes poderes; tinha firmeza. O dente da cobra se tocasse alguém, mesmo que não furasse, gerava no local do toque, em pouco tempo, uma ferida incurável. Os velhos capitães de congados sabiam desses mistérios. Num caso desta natureza, o dente funciona como talismã

Carrancas e máscaras de palhaços de folias de reis ostentam grandes dentes escancarados, mecanismo de afastar o mal, indicando uma ferocidade de defesa maior que a do atacante. 

Dentes gigantes em máscaras de palhaços de folias de Reis. 
Encontro em Ribeirão Preto/SP, 2011. 

Mas existem também as enfiadas de dentes: vários exemplares trespassados em cordão compondo colares, rosários de dentes, como há os rosários de garras, com as mesmas funções. São as guias

O sonho com os dentes se reveste de importante simbolismo. Em São João del-Rei a crença geral é de que prediz aproximação da morte na família ou de parente ou amigo muito próximo, mormente se na imagem aparecem cariados, podres ou bambos (com mobilidade). 

Um manual nos ensina que o sonho quando mostra dentes apodrecidos é indicativo de enfermidade; dentes que caem, doença grave; que nascem, aumento na família; dente belos, prosperidade; sendo arrancados, pequenos prejuízos; sujos, boas notícias; postiços, perseguição de inimigo; de ouro ou chumbado, sorte no jogo. Sonhar que se consulta um dentista é traição; que se é um dentista, são questões por dinheiro; que se extrai um dente do sonhador, dificuldades (NEHUAY, s/d).

Os dentes surgem nos mitos e lendas. Quando alguém é perseguido pela bestial mula-sem-cabeça para se livrar de seu ataque deve esconder as unhas e os dentes para que a criatura fantástica não os veja (AZEVEDO, 1986).

Uma lenda etiológica sobre o tamanduá, justifica que este animal come formigas devido à falta de dentes. Quando os animais foram criados por Cadjurucré, com cinza da fogueira noturna, o criador formidável, já cansado de tanto fazer bichos, na derradeira noite de trabalho, criou o tamanduá. Quando ia terminá-lo veio a madrugada e a fogueira se apagou. Sem ter como terminá-lo, por não haver mais cinza, recorreu ao espírito para completá-lo, pois ainda faltava a língua e os dentes. O espírito pegou uma varinha fina, pôs na boca do bicho à guisa de língua e despachou-o, pois o dia vinha raiando. O tamanduá retrucou: _ mas que vou comer se não tenho dentes? O espírito respondeu-lhe: _ vais comer formigas! (PAIVA e CAMPOS, 1995). 

Reza-se contra dor de dentes. Nas rezas a padroeira dos dentistas e dos sofredores de odontalgias é lembrada: Santa Apolônia. Luís da Câmara Cascudo, citou uma oração desta natureza, de Augusto Severo/RN: 

"Estava senhora Santa Pelonha em sua cadeira de ouro sentada com a mão posta no queixo e passa Nosso Senhor Jesus Cristo. Perguntou: _ que dói, Pelonha? _ um dente, Senhor! _ pois, Pelonha, do sul ao norte, do nascente ao poente, ficará esta criatura livre e sã e salva de dor de dente, pontada, nevralgia, estalecido e força de sangue". (Completa-se com Pai Nosso e Ave Maria às Chagas de Cristo) (CASCUDO, 1978, p.157)

Também sob a forma de ensalmos clamam por Santa Apolônia, como estes exemplos que recolhi em Santa Cruz de Minas (maio/1998): 

Estava Santa Pelonha
sentada na pedra fria,
curando dor de dente
com uma ave-maria.

Encontrei Santa Pelonha
sentada na pedra fria,
que benza essa dor de dente
entre uma ave-maria. 

As lesões causadas por fungos chamadas candidíase, vulgarmente "sapinho", merecem atenção dos benzedores. Causam incômodos principalmente em crianças e na esperança de melhoras recorrem às benzeções. Em Passos/MG (jul./1997): "Jesus Cristo quando veio de Roma, o quê que trouxe de lá? Trouxe água da fonte e ramo do monte, que há de curar (fulano...) deste mal de sapinho."

Esta oração é polivalente. Serve para várias doenças que os benzedores sabem identificar, bastando substituir a palavra "sapinho" pelo nome do malefício: há de curar fulano deste mal de... simioto, espinhela caída, ar das vistas, quebrante, vento virado, lombriga assustada, nervo torto, veia magoada, carne ofendida, osso rendido, junta desconjuntada... 

Uma benzeção anotada em São João del-Rei (set./1998), diz:

"Quando Deus andava pelo mundo, encontrou São Pedro sentado na pedra se lastimando.
_ Que tens, Pedro, que tanto lastima assim?
_ Dor de dente, Senhor!
_ Se for pus, vaza; se for bicho, morra!"

Quando diz "vaza" o benzedor marca com a digital do polegar direito uma cruz sobre a pele em cima do dente afetado. Ao dizer, "morra", marca outra cruz, da mesma forma. Vaza e morra são pronunciados de forma enfática, imperativa. Repete-se três vezes a fórmula e por fim se completa com a prece de um Pai Nosso e uma Ave Maria.

Outra benzeção de Passos: 

Três e três, seis, e três nove.
Noves fora!
Assim como noves fora,
o sapinho da boca da criança
há-se sair fora!
Sai de três vez,
sai de seis, sai de nove
e sai de tudo de uma vez!

Nossa Senhora Aparecida:
assim como esse ramo seca, 
o sapinho da boca da criança há de secar!

O benzedor risca no ar cruzes sobre a boca da criança, usando de um pequeno ramo verde. O ramo é posto a secar no sol e ninguém deve tocá-lo além do benzedor, ou pegará a moléstia. Quando o vegetal secar o sapinho terá secado. Completa-se com uma oração de Pai Nosso e três Ave-Marias. É um exemplo de ensalmo numérico

Outra forma de curar o sapinho é passar a ponta do cabelo da madrinha três vezes na boca afetada (SELEÇÃO, 1995). Em São João del-Rei, segundo informação de 1996, a receita desta simpatia é passar a barra da saia da madrinha em vez do cabelo. 

No Rio Grande do Norte o costume é passar algodão no dente acometido por um mal e colocá-lo no oco de uma árvore. Vai-se embora do lugar sem olhar para trás. Quem pegar ou tocar pega o mal (CASCUDO, 1978). É o conhecido processo de transferência do mal, neste exemplo, uma moléstia, rito usadíssimo na medicina popular. 

A pena da asa do bacurau se esfrega contra o dente tira-lhe a dor (CASCUDO, s/d; ARAÚJO, 1981). Bacuraus são várias espécies de aves noturnas (ordem caprimulgiformes, família caprimulgidae), outrossim conhecidas por curiango, curumbamba, curibamba, noitibó e mede-léguas. 

O misticismo em torno dos dentes e a religiosidade que os cerca são pontos marcantes da cultura popular. Por diversas culturas se pode rastrear seus sinais. 

Referências 

ARAÚJO, Iaperi Soares de. A medicina popular. Natal: UFRN, 1981. 132p. 

AZEVEDO, Ricardo. Monstrengos de nossa terra: seleção de mitos populares. São Paulo: FTD, 1986. 

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d]. 930p.

CASCUDO, Luís da Câmara. Meleagro: pesquisa de catimbó e notas de magia branca no Brasil. 2.ed. Rio de Janeiro: Agir, 1978. 208p. 

LODY, Raul Giovanni. Pencas de balangandãs da Bahia: um estudo etnográfico das jóias-amuletos. Rio de Janeiro: FUNARTE/INF, 1988. 167p.il.

NEHUAY, Pandjah. Manual dos sonhos: interpretação dos sonhos conforme os mais célebres cabalitas antigos e modernos. 17ed. Rio de Janeiro: Espiritualista, [s.d]. 172p.

PAIVA, Melquíades Pinto, CAMPOS, Eduardo. Fauna do Nordeste do Brasil: conhecimento científico e popular. Fortaleza: Banco do Nordeste, 1995. 274p. p.215-6.

POEL, Francisco van der. Frei. Religiosidade popular: a riqueza dos pobres. Carranca, Belo Horizonte, Comissão Mineira de Folclore, n.34, p.5, jun./1998. 

SELEÇÃO das melhores rezas e simpatias que o povo escolheu. São Paulo: Thirê, 1995. 95p. p.69 e 71. 

Créditos

- Informantes: Santa Cruz de Minas: Elvira Andrade de Salles; Passos: Manoel Teodoro do Nascimento; São João del-Rei: Luís Santana.

-Texto e fotografias: Ulisses Passarelli.

Notas

- Agradecimentos e oferecimento: a Arthur Cláudio da Costa Moreira, pelo incentivo na retomada deste trabalho.

- Revisão: 28/12/2025. 

sexta-feira, 11 de abril de 2014

São Pedro e a Caveira

Os apóstolos andavam pelo mundo afora acompanhando Cristo nas pregações e curas. Numa estrada deserta viram um esqueleto no chão. Pararam em volta e ficaram olhando, perguntando uns aos outros quem poderia ter sido o falecido. 

Caveira entalhada em madeira de uma essa.
Igreja de São Francisco de Assis,
São João del-Rei / MG.
São Pedro, que estava muito mal humorado, chutou a caveira e o crânio saiu rolando. Jesus o repreendeu:

_ Isto são modos, Pedro! Cadê o respeito que te ensinei? Anda! busca lá a caveira e pergunta pra ela de quem que ela é. 
_ Mas, Mestre, caveira não fala...
_ Já mandei, Pedro!

Então São Pedro buscou e perguntou. A caveira respondeu:

_ Ah! Quem sou eu? Eu sou um infeliz que saiu desse mundo enganador, onde sofri a vida inteira para criar meus filhos de sol a sol, pra hoje um deles vir chutar minha cabeça ... 
_ Papaaai!!!


Notas e Créditos

* Texto e foto (11/04/2014): Ulisses Passarelli
** Informante: Aluísio dos Santos, São João del-Rei, 24/03/2000.
*** Obs.: um outro conto muito difundido na região, estabelece o encontro de São Pedro com a caveira noutra circunstância que não o mal humor: o apóstolo estaria difamando alguém ou revelando um segredo, e Cristo deu-lhe uma lição de moral sobre não falar mal dos outros, pedindo que perguntasse à caveira o motivo de sua morte. São Pedro após relutar a teria perguntado: "_ Quem te matou, caveira?", ao que ela respondeu: "_ A língua!" , ou seja, morreu por ter dito mais que devia, vitimada por uma vingança. Apesar do tom anedótico, em ambos os contos do encontro do apóstolo com a caveira, sobressai o ensinamento da cultura popular contrário à prática do desrespeito e da calúnia. 
**** Links sugeridos: conheça mais estórias populares sobre este apóstolo clicando nos títulos abaixo:

MAL VIZINHO  

A SURRA DE SÃO PEDRO 

A CONDENAÇÃO DA MÃE DE SÃO PEDRO  

MAIS UMA DA MÃE DE SÃO PEDRO


quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Mais uma da Mãe de São Pedro...

(estória dos tempos que Jesus andava pelo mundo)

Diz que quando Jesus fazia pregações, ficou certa vez hospedado na casa da mãe de São Pedro. Ela era uma velha muito ruim, invejosa dos poderes do Mestre, feiticeira maligna e fofoqueira. A megera ofereceu para Cristo dormir um quarto escuro, úmido, cheio de mofo, deixando para ele deitar somente uma esteira rasgada, estirada no chão frio. Humildemente ele aceitou. 

No outro dia, cedo, chegou naquela casa uma mulher vizinha, trazendo no colo seu filhinho. Estava nervosa, porque a criança tinha engasgado com um espinho de peixe, preso à sua garganta. Veio pedir ao Messias que benzesse. 

Jesus então benzendo o menino, aproveitou a oportunidade para criticar a hospitalidade da mãe de São Pedro, rezando assim: 

"Homem bom, mulher má, 
quarto escuro, esteira rôta, 
São Brás: tira esse mal da boca!"

A criança deu uma tosse e expeliu longe o espinho. 

Senhor Bom Jesus de Matosinhos em seu andor, durante a procissão em São João del-Rei, a 14/09/2013. 

* Texto: Ulisses Passarelli
** Foto: Iago C.S. Passarelli
*** Informante: Aluísio dos Santos, 24/03/2000.

Leia também as seguintes estórias: 


segunda-feira, 21 de outubro de 2013

A Condenação da Mãe de São Pedro

Prosseguindo os causos sarcásticos sobre São Pedro, segue mais um exemplar de narrativa popular, dado pelo saudoso amigo sr. "Quinzinho". Lembro mais uma vez a premissa de não encarar estas estórias como heresias. A lógica da cultura popular é bem distinta da erudita e muitas vezes por trás de uma frase bem humorada reside uma fé muito sólida, manifesta numa intimidade com o sagrado que denota sintonia e carinho.

Esta narrativa se enquadra na categoria dos Contos Religiosos, segundo a classificação de CASCUDO, que transcreve uma versão mineira de Juiz de Fora, na qual a famigerada alma sobe suspensa numa folha de cebola, que rebenta precipitando-a no castigo infernal. Cita outras onde ocorre o tema, em contos açorianos, italianos, franceses, da Córsega e até dos Irmãos Grimm. 

***

Diz que a mãe de São Pedro era tão ruim, feiticeira e sovina, que ao morrer, São Miguel Arcanjo não queria aceitá-la no céu, dizendo que nem precisava pesar a alma dela, pois era óbvia a sua condenação. São Pedro, apelando para a camaradagem, recorreu ao poderoso arcanjo para quebrar o galho, considerar que era sua mãezinha, uma pobre pecadora, uma infeliz que não sabia o que estava fazendo... e por aí foi sua lamentação. São Miguel consentiu dizendo: 

_ Oh, Pedro: poder, não pode não, mas sendo sua mãe... Agora, ela tem de esperar uma alma vir pro céu. Aí ela segura nela e sobe de carona. 

Cheio de alegria São Pedro foi avisar sua mãe. Só que ela, dando com a língua nos dentes, contou o fato às outras almas que ainda estavam na terra e não tinham subido. 

Aconteceu que todas se agarraram de uma vez numa alma que vinha subindo e sendo demais o peso por causa de seus pecados, todas aquelas almas pecadoras, incluindo a mãe de São Pedro, caíram de uma vez, despencando em desespero para as profundas do inferno. 

São Miguel Arcanjo, o Condutor das Almas. 
Imagem da Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, São João del-Rei/MG. 
Pequeno Glossário

Quebrar o galho: fazer uma favor, em geral inconveniente
Dar com a língua nos dentes: revelar um segredo

Referências Bibliográficas

CASCUDO, Luís da Câmara. Literatura Oral no Brasil. 3.ed. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: USP, 1984. 435p. p.309-312.

Créditos

* Informante: Joaquim Maia Filho, 14/03/2000, São João del-Rei/MG.
**Texto e foto: Ulisses Passarelli


sexta-feira, 4 de outubro de 2013

A Surra de São Pedro

No campo das narrativas populares existe um grupo de estórias bem humoradas dedicadas a São Pedro, que o figuram como personagem turrão e que faz trapalhadas. Algumas vezes aparece também a mãe do santo apóstolo, que na tradição foi uma feiticeira má e invejosa dos poderes de Jesus. Falam de um tempo antigo, "de quando Deus andava pro mundo..." É tão abstrato, que parece, a marcação temporal não pode abarcá-la. Jesus surge como o Mestre, literalmente, sagaz, sábio, equilibrado. 

Obviamente que nenhuma dessas estórias encontra base evangélica e nem vai nelas carga de desrespeito. São Pedro é querido pelo povo e essa relativa intimidade é prova disto. Por isto antes de lermos ou ouvirmos estes contos devemos nos despir de preconceitos e beatices. O universo da cultura popular não pode e não deve ser entendido na ótica estritamente histórica ou litúrgica, pois estará desenquadrado, fora de contexto e de valor perdido, tornando-se mera curiosidade, exotismo.  

Nesta oportunidade presto minha grata homenagem ao informante, a quem tinha grande amizade, o irmão de fé carinhosamente conhecido por sr. "Quinzinho", que muito contribuiu para o bom êxito do Jubileu do Divino em São João del-Rei e cujo chamado do Pai Maior em plena novena do Espírito Santo deixou uma lacuna irremediável. Oportunamente este blog divulgará outra de suas narrativas.

***

Jesus e São Pedro depois de exaustiva jornada pediram pouso numa fazenda. O fazendeiro os recebeu muito mal. Mas apesar de grosseiro permitiu que dormissem ali. Conduziu-os a um quartinho escuro com uma só cama. 
_ Deitem aí se quiserem... Óh, eu gosto de sossego e respeito em minha casa. "Ai" de vocês se eu escutar um barulhinho aqui! Eu corto no relho! 
Bateu a porta e se foi. 
Jesus disse: 
_ Pedro, deita na beirada da cama que eu deito no canto da parede. 
De madrugada, São Pedro teve vontade de urinar e ao levantar no escuro derrubou algumas coisas que estavam empilhadas no quarto. O barulho acordou o dono, que chegou muito bravo, com o relho numa mão e a lamparina na outra. Jesus e São Pedro quietos deitados mas como viu os trastes caídos no chão, logo disse:
_ Ah, só pode ser o da beirada... 
E deu-lhe tremenda surra, com muitas chicotadas. Então o fazendeiro foi-se embora avisando:
_ Que eu não tenha que voltar, heim! Olha lá...
Jesus compadeceu das dores de São Pedro, todo quebrado, moído, chorando de dor. 
_ Pedro, troca de lugar comigo. Deita aqui no canto que é mais confortável. 
E foi para a beirada. 
Novo barulho. O homem levantou endemoniado com o chicote e entrou com tudo no quarto. 
_ Eu avisei! Agora o do canto não me escapa! 
E como tinham trocado de lugar, São Pedro tomou outra sova. 

O informante, Joaquim Maia Filho. 

* Texto e pesquisa: Ulisses Passarelli
* Informante: Joaquim Maia Filho, 14/04/2000. 
* Fotografia (corte): Sebastião Machado Gomes ("Jacó"), 2009, acervo Comissão do Divino-São João del-Rei, gentilmente cedida por Antônio da Silva Serpa. 

terça-feira, 10 de setembro de 2013

O Mal Vizinho: um conto religioso

Jesus e São Pedro andavam pelo mundo num domingo. Passando por um caminho, na beira de um sítio viram um homem arando a terra. Era domingo, dia santo, proibido de trabalhar. O Mestre disse ao santo: 

"_ Simão, vai até o fazendeiro e fala pra ele parar de trabalhar em respeito a este dia santificado, ou farei com que seus bois de arado morram em castigo ao desrespeito."

Simão Pedro foi e o homem lhe expulsou: 

"_ Vai embora com seu Mestre! Larga mão de palhaçada... "

São Pedro voltou a Jesus e lhe contou a má resposta do homem do arado. Cristo deu nova ordem: 

"_ Volta, Pedro, e diz que eu matarei todos os bois que ele tem na invernada se não me obedecer."

Lá se foi o santo e de novo foi desfeiteado, ainda com mais grosseria: 

"_ Pedro!, disse Jesus, vai pela última vez e manda ele parar. Se não parar o arado no domingo, deixarei os bois viverem, mas darei a ele um vizinho horrível, que será para ele um flagelo constante, dia e noite."

Quando São Pedro levou a ordem ao lavrador, imediatamente este gritou com os bois: 

"_ ÔÔÔu-aaah! "

E os bois pararam, no rangido das cangas. Largou tudo, de lavrar as terra. Perder os bois não o assustava. Compraria outros; mas pensou consigo mesmo, que não há nada pior que um mal vizinho... 
Povoado da Trindade, São João del-Rei/MG, 19/10/2009. 


Notas e Créditos

* Informante: José Cândido de Salles (Zé Cristino Boiadeiro), Santa Cruz de Minas/MG, 1998.
** Texto, pesquisa e foto: Ulisses Passarelli

sexta-feira, 21 de junho de 2013

As Festas Juninas e os Três Santos

Considerações Gerais sobre as Festas de Inverno

Há um santo para cada dia e um dia para todos os santos. Cada qual com sua particularidade comemorativa, mais ou menos popular, por vezes muito querido numa região e completamente desconhecido noutra área. Mas no Brasil, de uma forma toda especial, três santos festejados em junho se destacam por sua expressão devocional parametrizada pelos padrões dos valores rurais.

Santo Antônio de Pádua (ou de Lisboa), São João Batista e São Pedro Apóstolo tornaram-se muito populares de norte a sul, com festas praticamente contíguas e de tão sintonizadas, constituíram um ciclo festivo que chamamos junino

Uma constante nestas festas é o costume de soltar fogos de artifício, alcançando em alguns locais uma prática ostensiva, entre espadas de fogo, rojões, busca-pés, traques, estalinhos, peido-alemão, espanta-coió, bombinhas, etc. No final do século XIX, Manoel Messias do Nascimento Brito obtinha da Câmara Municipal de São João del-Rei licença para instalar uma fábrica de foguetes, conforme anunciava um antigo jornal da cidade (S.JOÃO DEL-REI, 1899). Outro jornal local, igualmente do acervo da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida, anunciava a venda de fogos de artifício para as festas de junho no comércio desta urbe: “Para os festejos de Santo Antônio, São João e São Pedro grande variedade no BAZAR JAPONEZ. Rua Municipal, 5 – preços especiaes para quantidade.” (A TRIBUNA, 1925).

Tal a sua força cíclica, que os festejos desse período em muitos lugares estenderam-se julho adentro, com aspectos similares, mas com os santos meio de lado, nas já comuns festas julinas. Mas que não crie ilusão esta extensão de datas como sendo coisa recente. Um precioso informante, o senhor Luís Santana (nascido em 1926), natural do povoado do Pombal, em São João del-Rei/MG, narrava que na primeira metade do século XX já havia um período longo de festividades rurais naquele povoado, começando no dia da Santa Cruz, dia 03 de maio (data da primeira fogueira e de erguer os mastros) e ia até o dia de Santana (26 de julho), data da última fogueira e de descer os mastros juninos[1]. Alceu Maynard de Araújo já apontava essa tendência de as festas de Santa Cruz serem praticamente um prenúncio das festas juninas na cultura caipira (ARAÚJO, 1964).

Esses mastros de junho muitas vezes vem enfeitados de frutas, conforme observado em Passos, no sudoeste mineiro (1997), ou de flores do cipó de São João (Pyrostegia venusta, bignoniaceae), como era usado em São João del-Rei e Bias Fortes (1999). No norte do Brasil são enfeitados com ramos, flores, frutos e alimentos. São sinais vestigiais de fitolatria, dizem uns pesquisadores, mas outros apostam apenas no simbolismo da pujança alimentar desses festejos, que acontecem quando no campo, findas as colheitas, a lavoura descansa até o replantio[2].

O cronista inglês Richard Francis Burton, no ano de 1867, passando pelo Caminho Novo na Serra da Mantiqueira, nos arredores de Barbacena, entre esta e Juiz de Fora, notou: “Retiro é um grupo de palhoças habitadas por negros que tinham hasteado um mastro de São João, e um santo também negro” (BURTON, 1976).

Ainda o mesmo autor, assim se expressou conforme o linguajar e visão estrangeira de sua época sobre as festas juninas de 1867:

“(...) os habitantes reúnem-se nas cidades paroquiais, vindos de todas as direções; cada lugar tem sua fogueira, desfile de bandas e as pessoas ficam sentadas toda a noite e hasteiam, alegremente, o “Mastro de São João” (...) A animada festa é mais agradável na roça do que na cidade, onde o bimbalhar dos sinos e as explosões das girândolas começam antes do amanhecer. A gente fica surdo com os ridículos foguetes, e os moleques, isto é, os negrinhos, tornam as ruas supinamente desagradáveis, lançando busca-pés, que fazem tudo o que podem para queimar as pernas das pessoas” (BURTON, 1976).

O devocionário popular enxergou em Santo Antônio o casamenteiro. O taumaturgo lisboeta é festejado a 13 de junho, antecedido por treze dias de rezas preparatórias (trezena). Seu festejo via de regra contém celebrações nas igrejas, procissões, levantamento de mastros, arraiais com fogueiras e brincadeiras, como o pau de sebo e o leitão ensebado, quadrilhas, comes e bebes típicos nas barraquinhas enfeitadas de folhas de coqueiro e pita, soltura de balões, bailes à sanfona. É o santo mais popular do cristianismo e sua oração mais conhecida é o responsório, conhecidíssimo no Brasil e Portugal, com alguns variantes, como esta são-joanense (1998):

Quem milagres quer achar
Aplaca a fúria do mar,
Contra os males e o demônio,
Tira os presos da prisão,
Busque logo a Santo Antônio
Os doentes torna sãos 
Que aí há de encontrar.
E faz achar.

Sem respeitar qualquer anos
Socorre a qualquer idade,
Abone esta verdade
Os cidadãos paduanos.


Uma antiga procissão de Santo Antônio no Caburu, atual distrito de São Gonçalo do Amarante 
(São João del-Rei/MG). Data e autor não identificados. 
Fotos gentilmente cedidas por João Bosco Alves.

Cartaz de divulgação, contendo programa da Festa de Santo Antônio, 2019,
comunidade rural do Carvoeiro, distrito Sede,
São João del-Rei/MG. Impresso em papel-couché; não medido.  


Cartaz de divulgação, contendo programa da Festa de Santo Antônio, 1992,
distrito de Joaquim Murtinho, Congonhas/MG.
Destaque para o ritual de levantamento dos mastros a partir da casa dos mordomos, com cortejo; 
 comidas típicas, fogueira, quadrilha, presença de banda de música.
Impresso em papel-jornal; medidas: 
21,5 x 31,5cm.


São João Batista [3] vem na mesma linha de festejos, mas a 24 de junho, sendo em muitos lugares a festa mais importante do ciclo junino. Sua noite é tida por mágica, propícia a vários sortilégios. Quase correspondendo ao solstício de inverno do hemisfério sul é dita a noite mais fria do ano, o que nem sempre se concretiza. A água de 23 para 24, antes do raiar deste, é benta nas fontes, rios e córregos[4]. Em garrafas e potes a água é recolhida para fazer remédios o ano todo, para se beber pouco a pouco, para banhar uma ferida ou o corpo todo, banindo males e doenças. Em muitos lugares, noite tardia, é usual a procissão da lavagem do santo, quando a imagem é levada ao rio e banhada ante o canto de benditos e rezas. O carvão ou tição da fogueira joanina é bento, conservado para o ano todo riscar cruzes e estrelas protetivas nas portas, muros e porteiras. Jogado no terreiro durante uma tempestade, amansa a tormenta, previne o raio fulminante. 

Na Colônia do Marçal, em São João del-Rei era corrente esta simpatia para se fazer no dia de São João ou no de São Pedro (coletada em 1999):

“escreva no papel branco os nomes das pessoas que você gosta e depois enrola esses nomes como se estivesse enrolando um cigarro e coloque num copo com água com os papéis dentro. Tampa o copo com a mão e coloca perto do fogo e reze uma salve-rainha, até chegar ao “mostrai”. Depois coloque debaixo de uma folhagem todos os nomes que estão no copo. No outro dia sem falar com ninguém vai até a folhagem e termine a salve-rainha e fala pra São João e São Pedro com quem você vai se casar e olha o papel que está aberto”.

Um costume assaz interessante que acontecia em São João del-Rei, no Bairro Senhor dos Montes, e em Santa Cruz de Minas, no Bairro Córrego: no dia de São João, tomando-se à mão varas, correias e chicotes, se dava uma surra no tronco das fruteiras, enunciando-se o seguinte ensalmo:

Fogo na fogueira,
Estava para queimar,
O que não deu esse ano,
Para o ano vai dar!

Esta fórmula mágica é um mecanismo de catarse que garante a queda dos ramos doentios, dos frutos secos e “aluados”[5], das flores estéreis, banindo pragas e mau olhado. Então, no ano seguinte o pomar aumenta a produtividade. Eis um elemento claro da força agrária dessa festa.

Cartaz de divulgação, contendo programa da festa de São João Batista, 
Rua São João, São João del-Rei, 1992. 
Impressão em papel-jornal; medidas: 24 x 33cm. 


São Pedro vem por último, protetor das viúvas, com festejo a 29 de junho. Sua festa ultimamente esmaeceu, mas tem as mesmas linhas gerais. É em geral mais forte onde o mar ou os grandes rios tem importância econômica para as comunidades de pescadores, sendo então comuns as procissões marítimas ou fluviais com barcos enfeitados e as puxadas de mastro. São Pedro, tido como o primeiro papa, é o guardião das chaves do céu. São muitos os contos populares que narram suas peripécias apostólicas, colocando-o como um turrão, que faz trapalhadas ante Jesus. A crença indica a mãe de São Pedro como uma verdadeira megera. 

É no dia de São Pedro que o homem do povo toma de um facão ou machadinha e dá piques (talhos) no tronco das mangueiras em sentido perpendicular ou diagonal como método que garante uma melhor produtividade. Naquele talho escorre parte da seiva, num mecanismo de sangria. Ainda é muito frequente esta prática em São João del-Rei e arredores. 

 

                                                   Piques no tronco de uma mangueira, fotos do autor, 2013.

Cartaz de divulgação, contendo programa da festa conjunta de São Pedro e São Paulo,
Capela de N.S. da Saúde, Águas Santas (Tiradentes/MG),
afamada pela boa qualidade das danças de quadrilha. 
Impresso em papel off-set, tamanho 32 x 21,5 cm. 


No Maranhão e Amazônia as festas desses santos são animadas pela presença de numerosos grupos dançantes de bumba-meu-boi / boi-bumbá e os de tambor-de-crioula. No agreste e sertão acorrem os bacamarteiros, os ternos de zabumba. Pelo litoral e agreste são as rodas de coco, improviso ao som ritmado do ganzá; zambê, bambelô. Ainda em 1997 na praia de Caraúbas (Maxaranguape/RN), a capelinha de melão, espécie de pastorinhas do inverno, cantavam não ao Menino Jesus mas a São João Batista.

Vários terreiros de religiões de matriz africana por via sincrética participam do complexo devocional envolvendo estes três santos. Muitos terreiros fazem festas nos seus dias votivos. O sincretismo é variável de uma região para outra, e mesmo com o rito religioso em si, mas via de regra é o seguinte: Santo Antônio se vincula ao Orixá Exu; São João e São Pedro respectivamente ao falangeiro Xangô do Oriente e a qualidade de orixá, Xangô Agodô [6]:

Santo Antônio e meu São Jorge
São dois santos guerreiros,
Santo Antônio firma ponto,
São Jorge firma terreiro.


Outro:

Meu Pai São João Batista é Xangô,
O dono do meu destino até o fim.
Se um dia me faltar, a fé no meu Senhor,
Derruba essas pedreiras sobre mim.

Para o ciclo junino as festas externas às igrejas se climatizam na configuração cenográfica de um ambiente rural, ou pelo menos, supostamente do campo. É uma imagem idealizada, a bem da verdade, meio às avessas, porque, à primeira vista ridiculariza os valores rurais levando ao exagero o aspecto e o comportamento do rurícola. Assim os dançantes da quadrilha, a dança típica dessa quadra do ano, põe roupas com remendos avantajados, chapéus desfiados, calças esgarçadas, rabiscam no rosto cavanhaques e bigodes desgrenhados, cigarrões de palha são adereços indispensáveis. Botinas graúdas favorecem o andar trôpego. As mulheres não ficam para trás com seus vestidos de chita e outras estampas berrantes, fora da moda; tranças postiças, maquiagem exagerada e até por vezes um dente é borrado de preto simulando vasta cárie ou ausência de elemento dentário.

O local das danças é chamado arraial, ou melhor, “arraiá” e ganha nomes próprios: Arraiá do Arranca-unha, Arraiá do Pito Aceso, Arraiá da Vila Mendes, etc. É limpo e enfeitado. De terra batida, gramado ou cimentado, não importa, ganha arcos de bambu, carreiras de bandeirolas e rabiolas coloridas, balões multicores nos cantos, espigas de milho atadas às varas das barraquinhas de vender comida típica do período, sujeita a regionalismo: por aqui, canjica, quentão, broas, pamonhas, curau, pé de moleque, batata doce assada na brasa; no vasto Nordeste onde estas festas alcançam uma dimensão extraordinária e economicamente importantíssima, geradora de fluxo turístico, surge dentre outros a indispensável canjica, o mungunzá, os bolos variados (preto, de milho, de carimã, da moça, etc.). E por aí vai. Nas áreas frias sulinas o consumo do pinhão é querido e o vinho.

A música se faz fartamente presente através da sanfona, ou seu irmão _ acordeon. Outros instrumentos acompanham e marcam: quadrilhas, xotes, baiões, xaxados, forrós, arrasta-pés ...

Na apresentação das quadrilhas um dos momentos mais aguardados é o casamento caipira (matuto, tabaréu), um entrecho muito apreciado já comentado na postagem sobre as quadrilhas. É bem visível que esta representação é um entremeio dramatizado que foi enxertado nas quadrilhas, não fazia parte do modelo francês original. É uma criação brasileira, e em tamanha sintonia com a quadrilha que com elas compôs um corpo perfeito. Ora, um antigo jornal de São João del-Rei / MG, noticiou há um século esta representação teatral: “casamento do caipira (Nhô) é uma pantomina de successo” (O REPÓRTER, 1912). Seria uma pista? O casamento hilário foi uma representação de palco que rodou Brasil afora, caída nas graças do povo que a manteve no contexto das quadrilhas? É só uma possibilidade, aguardando pesquisa.

Por estas alturas é interessante repensar o significado do universo rural colocado com jocosidade nas festas juninas. Aqueles remendos das roupas, os trejeitos dos dançantes, os babados dos vestidos e toda a irreverência dos arraiais e seus figurantes, seria apenas mero deboche? O corre-corre urbano, a vida na selva de pedra não induz a horas tantas a saudade da paz campesina? A figuração do mundo rural nestas festas e danças parece puramente alegórica. Por fim faz parte da própria identidade destas manifestações. O olhar mais focal pode ser assaz revelador.

Estas festas além de quebrarem a rotina como todas em geral o fazem, podem também ser um oportuno canal de manifestar os valores da ruralidade, ainda que sob a ótica urbana calcada pela ironia, mas isto pode ser um disfarce social. O roceiro ainda vive em cada um de nós? Caso positivo, para manifestá-lo precisamos de uma fantasia e um contexto? Esta ambiguidade é que justifica a “imagem idealizada às avessas”. Toda esta provocação (e não afirmação) visa apenas induzir pesquisas futuras neste ramo, que quiçá podem ser frutíferas.

Referências Bibliográficas

- ARAÚJO, Alceu Maynard. Folclore Nacional. 2.ed. São Paulo: Melhoramentos, 1964.
- BURTON, Richard Francis. Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho (1867). Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EdUSP, 1976.
- CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.] 930p.il.
- IHG. Os cronistas viram e disseramRevista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, n.4, 1986. p.55
- LIMA, Rossini Tavares de. Folclore das Festas Cíclicas. São Paulo: Irmãos Vitale, 1971.
- PELLEGRINI FILHO, Américo. 2.ed. Folclore Paulista: calendário & documentário. São Paulo: Cortez/Secretaria Estadual de Cultura, 1985. 240p.il.
- SOBRINHO, Antônio Gaio. São João del-Rei através de documentos. São João del-Rei: UFSJ: 2010. 260p. p.34 e 95. 
           
Referências Hemerográficas

- A Tribuna, n.651, 31/05/1925. São João del-Rei. 
- O Repórter, n.312, 02/05/1912. São João del-Rei. 
- S.João del-Rei, n.6, 04/03/1899. São João del-Rei. 

Informantes (São João del-Rei e Santa Cruz de Minas)

- Aluísio dos Santos (piques nas mangueiras, Centro, São João del-Rei)
- Cláudia Aparecida da Costa (simpatia para casamento, São João del-Rei)
- Elvira Andrade de Salles (surra nas fruteiras, mastros - Santa Cruz de Minas / Bias Fortes)
- José Camilo da Silva (mastros, São João del-Rei)
- Luiz Antônio Sacramento Miranda (surra nas fruteiras - Bairro Senhor dos Montes, São João del-Rei)
- Luís Santana (festas no Pombal, São João del-Rei)
- Luthero Castorino da Silva (responsório, São João del-Rei)

Créditos 

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografias: Ulisses Passarelli (mangueira); procissão de Santo Antônio: autor não identificado, gentilmente cedidas por João Bosco Alves, a quem este blog agradece. 

Notas 
- Revisão: 04/07/2025. 



[1] - Fogueira em agosto, nem pensar! Faz mal, afirmava Luís Santana. Aliás agosto é mês do desgosto, de São Lourenço, senhor dos ventos, que morreu queimado numa grelha, dia 10 de agosto. No dia dele não se pode queimar pastos nem coivaras nos roçados. É a lógica da cultura popular. 
[2] - A origem pagã e agrária destas festas é clara e fartamente documentada por eminentes folcloristas, que sobejamente demonstraram os reais valores das festas rurais: Alceu Maynard Araújo, Américo Pellegrini Filho, Luís da Câmara Cascudo e Rossini Tavares de Lima, referenciados nesta postagem. São de consulta indispensável. Não é plano desta postagem, discorrer sobre o histórico das festas juninas. Para esta finalidade fica como sugestão este vídeo: As origens da festa junina. In: Cortes do Estranha História, 25 jun. 2024. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=y80UgePJzWs  Acesso em 04/07/2025. 
[3] Sobre a antiguidade da Festa de São João Batista em São João del-Rei, uma referência significativa é esta, dada por SOBRINHO (2010): "1719 - REC 168 PG 03 - Por trinta e duas oitavas de ouro que deu ao Pe. Fr. Antônio Xavier de Santa Rosa pelo Sermão da festa de São João de que se lhe passou mandado em 14 de setembro." (p.34). Da mesma fonte do recibo anterior emitido pelos vereadores é este acórdão de vereança: "ACOR 09 PG 69: EM 24 DE JUNHO DE 1799 - Acordaram em ir à Matriz desta Vila digo em ir assistir à Missa conventual na Matriz desta Vila como foi obrigado por ser dia de São João Batista, como de fato foram." (p.95). 
[4] - Dêniston Diamantino produziu um documentário de alta qualidade sobre as tradições juninas no vale do Rio São Francisco, vídeo “São João na Roça” (Opará Vídeos, Belo Horizonte, 2000), de consulta fundamental como fonte fidedigna de pesquisas. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=mc6U1alhO2A&list=RDmc6U1alhO2A&start_radio=1  Acesso em 04/07/2025. 
[5] - Aluado: aquilo ou aquele que pertence à lua. A informante, Elvira Andrade de Salles dizia que a lua sugava a energia do fruto, que assim ficava “aluado”: de crescimento afetado, sem polpa, sem adocicado, com baixo poder nutricional.
[6] - Concepções de um zelador de umbanda e uma ialorixá de candomblé de São João del-Rei. Os pontos foram ouvidos em outros terreiros da cidade, que não os dos informantes, por volta de 2001.