Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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sexta-feira, 22 de maio de 2015

Notas sobre o uso das congonhas na cultura popular

O imenso interior brasileiro, sujeito que foi à hibridação cultural de várias etnias, desde data imemorial se valeu da química das plantas na medicina popular buscando a cura, tratamento ou alívio de muitas doenças. A natureza vasta e rica forneceu desde sempre a matéria prima. Em Minas Gerais não seria diferente. Vasconcelos (1994), no princípio do século XX já aludia ao uso dos vegetais como remédio pelo povo mineiro: "Os empíricos pelos sertões da capitania não curam com as drogas das boticas, senão com raízes vegetais, e avançam idades a que não chegam os habitantes das cidades e vilas." (p. 67)

Dentre tantas plantas medicinais estão as congonhas, que gozam de imenso prestígio. Por toda a região centro-sul do estado de Minas Gerais está presente o seu uso, aliás, muito arraigado. Sobretudo, nas áreas serranas do Lenheiro e São José, alguns moradores das cercanias as coletam tradicionalmente, a partir das comunidades do entorno. Colher congonha na Semana Santa é uma tradição muito forte, para guardá-la, desidratada, para uso ao longo do ano, supondo-a abençoada. Os molhos de ramas com folhas, colhidos na natureza, são amarrados e deixados a secar, pendentes em algum canto alto. Quando necessário, retiram-se algumas folhas para a decocção, infusão ou para moer e coar o pó com água fervente.

Congonha é o nome de algumas plantas cujo uso popular é muito disseminado, seja na fitoterapia - principalmente para os rins, sob a forma de chás. Sampaio (1987) explicou a etmologia: "CONGONHA: corr. Congõi, o que sustenta ou alimenta; é a erva-mate, variedade (Ilex congonha). Minas, Bahia."

O chá de congonha é de uso costumeiro, daí sua analogia ao mate. Em muitos casos é de uso diário. O consumo com finalidade medicinal é bem mais eventual. Burton (1942), em meados do século XIX, viajando por São João del-Rei e Lagoa Dourada, rumo a Morro Velho, passou por Congonhas em 1867 e anotou:

"Congonhas é chamada 'do Campo', para se distinguir de Congonhas de Sabará (1). O nome é comum no Brasil, sendo aplicado pelos tropeiros e viajantes a muitos lugares onde são encontradas as diversas variedades de iliciáceas, da qual a mais valiosa é o mate (Ilex paraguayensis) (2) (...) A palavra brasileira congonha é genérica, abrangendo todos os arbustos dos quais se faz "o chá do Paraguai". É também especificamente aplicado ao Ilex congonha, comum em Minas e no Paraná. O chimarrão de congonha é a única infusão bebida sem açúcar. A caraúna é uma congonha de qualidade inferior."

Entretanto, Brandão (2018), posiciona as congonhas do gênero Ilex na família Aquifoliaceae, mencionando a Ilex paraguariensis (chá mate), segundo a qual, o uso estimulante graças à presença de cafeína, foi aprendido com a cultura indígena, e menciona também a presença de "substâncias fenólicas com atividade antioxidante". Relata a ausência de estudos com a espécie Ilex dumosa, que supomos se tratar da congonha-amargosa, caúna ou caraúna. 

Buzatti (s/d), baseando-se no autor supracitado, deduziu: "É provável, portanto, que antes do aparecimento do café, a congonha tenha sido a bebida do dia-a-dia dos tropeiros e viajantes."

O uso é in natura, da folha verde, colhida de imediato, se não, dela seca: colhidas as folhas, são postas à desidratação sobre uma peneira, ou caso não estejam desfolhadas, se for apanhado o ramo, amarra-se em feixe e se pendura à secagem por vários dias. Depois de seca se faz o chá fervido. Existe outra forma de uso: as folhas secas são torradas, moídas e misturadas ao pó de café, com o qual é coada conjuntamente e bebida. Café com congonha tem um gosto muito peculiar. É bastante usado na zona rural, acompanhado das famosas quitandas, considerado como iguaria e remédio.

O povo distingue algumas variedades de congonha, dando preferência a esta ou aquela conforme o destino medicamentoso pretendido. As mais populares são a congonha-bugre, congonha de bugre ou apenas bugre (3) e a congonha bate-caixa, de folhas grandes, coriáceas, que percutidas uma contra a outra produzem um som inesperado, motivo do nome. É também alcunhada de forma bem humorada de "congonha-mijona", uma referência ao alto poder diurético a ela supostamente atribuído. Quem bebe congonha, urina muito ("mija", conforme o vocabulário popular), com alta frequência e volume, uma urina bem límpida e sem odor intenso. Mas também existe a congonha-amargosa, preferida para as questões hepáticas; a congonha-serrinha, de folhas pequenas e de bordas picotadas, como os dentes de um serrote, preferida para o estômago; a congonha-douradinha, de folhas miúdas, que secas ganham uma tonalidade amarelada e produzem um chá bem amarelo, procurada para limpeza de canais urinários, sendo predileta pelos homens para questões de próstata. A douradinha também tem uso em alguns terreiros, como erva votiva à orixá Oxum. 

Há quem considere outros tipos de plantas como variedades de congonha. Tal acontece com a caroba (ou carobinha do campo), a ticongô e a caraúna. A caroba é procurada sobretudo como depurativo. A ticongô não é para ingestão. É uma congonha buscada para banhos de descarrego, na linha africana, ou seja, dos pretos velhos, tradição de alguns terreiros de umbanda para firmeza dos trabalhos dos "vovôs" e "vovós", como habitualmente se diz. 

Esta planta nomina a famosa cidade histórica mineira de Congonhas, célebre pelas obras do artista Antônio Francisco Lisboa, o "Aleijadinho". Outra invocação à planta é o nome da cidade de Congonhal, no sul de Minas Gerais.

Conforme este blog sempre alerta nos casos de "medicina popular", os registros de uso relatados nesta página eletrônica tem valor meramente cultural, como relato etnográfico. Não recomendamos o uso, ou consumo, que depende de estudos específicos, devido a possíveis riscos à saúde.

01-Congonha Bate-caixa (Palicourea coreacea, rubiaceae).
Serra de São José, Santa Cruz de Minas, 30/11/2009.

02- Congonha bugre (Rudgea viburnoides, rubiaceae) alojando um ninho
 de saíra da mata (Hemithraupis ruficapilla, thraupidaeSão João del-Rei, 14/10/2013.  

 A

B
03 A e B- Congonha-serrinha. São João del-Rei. 14/05/2016. 

04- Ticongô, já desidratado, para banhos de descarrego.
São João del-Rei, 16/05/2015.  


04- Congonha-amargosa, vendida na Sexta-feira da Paixão
diante da Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar,
juntamente com outras ervas medicinais e aromáticas.
São João del-Rei, 25/03/2016. 

05- Congonha-douradinha: folhas desidratadas e chá.
São João del-Rei, 24/03/2026. 

Referências Bibliográficas

BRANDÃO, Maria das Graças Lins. Plantas úteis e medicinais na obra de Frei Vellozo. Belo Horizonte: 3i Ed., 2018. 104 p.il. p. 43. 

BURTON, Richard Francis. Viagens aos Planaltos do Brasil (1868) . 1º Tomo: do Rio de Janeiro a Morro Velho. Rio de Janeiro: Nacional, 1942. Coleção Brasiliana, série 5a, v. 197, p. 188.

BUZATTI, Dauro José. Viagem as Minas dos Cataguases. Contagem: Fundação Mariana Resende Costa, [s.d.]. 123 p. p. 107.

SAMPAIO, Teodoro. O Tupi na Geografia Nacional. 5.ed. São Paulo: Nacional; Brasília: INL, 1987. 359 p. p. 225.

VASCONCELOS, Diogo Pereira Ribeiro de. Breve descrição geográfica, física e política da Capitania de Minas Gerais. Estudo crítico por Carla Maria Junho Anastasia; transcrição e pesquisa histórica por Carla Maria Junho Anastasia e Marcelo Cândido da Silva. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, Centro de Estudos Históricos e Culturais, 1994. 188 p. (Coleção Mineiriana. Série Clássicos). 

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli
- Fotografias: 01 e 05 - Ulisses Passarelli; 02, 03 e 04 - Iago C.S. Passarelli

Notas 

1- Congonhas de Sabará: atual cidade de Nova Lima. Ainda hoje é usual, embora não oficial, o topônimo "Congonhas do Campo". Não é caso único de um acréscimo de uso comum ao nome oficial de uma cidade. Por exemplo: "Santo Antônio do Salto da Onça", no Rio Grande do Norte, é oficialmente apenas Santo Antônio e "Aparecida do Norte", em São Paulo, é na verdade apenas Aparecida.
2- O nome oficial  é Ilex paraguariensis, mas o autor defendia a grafia paraguayensis.
3- Bugre era o termo depreciativo aplicado aos indígenas, na acepção de inculto, selvagem. 

- Revisão e acréscimo da fotografia 05: 24/03/2026. 

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Pai João

Das heranças culturais do período econômico e histórico da produção escravocrata, uma das mais arraigadas é a dos "pretos velhos". Com esse nome passou para a cultura popular a imagem do africano ou seu descendente, já idoso, trazendo no corpo os estigmas dos castigos das senzalas, as cicatrizes, o andar trôpego, o olhar desconfiado, a fala engrolada mesclando a linguagem popular com palavras dialetais; imensa sabedoria, inteligência, calma para alcançar os objetivos. Pertinaz, goza também da fama de curandeiro, sabedor dos mistérios espirituais, grande devoto do rosário, senhor absoluto dos congados e folias e mestre dos saberes ancestrais. A cultura banto foi a principal responsável por este legado. Este estereótipo passível de mais qualificativos, goza de tremendo respeito nos meios populares e é sempre muito querido, não raro tratado carinhosamente pelo cognome de "vô" ou "vovô".

Muitas são as estórias que lhes rodeiam e tematizam. Algumas singelas revelam o sofrimento dos escravizados; outras, pendem a revelar a perspicácia em vencer obstáculos. Neste contexto folclórico que ora se aborda, as questões racistas e discriminadoras felizmente passam longe. O conteúdo valoriza a sua contribuição étnica, cultural, humana, religiosa, social e moral.

Não é raro que estes personagens venham com o epíteto de "pai", que tal como o de avô, já citado, denota carinho, proximidade, confiança, parentesco, proteção, filiação, ligação e sintonia.

Dentre tantos nomes um dos mais populares dentre os chamados pretos velhos é o de Pai João, tema desta postagem. Há pelo menos quatro sentidos para a denominação em foco. Passemos em rápida revista cada um deles.

01- Guia de umbanda, entidade espiritual de terreiro de matriz africana:

Espírito protetor; ser imaterial guardião de um lugar ou pessoa. Em alguns terreiros de umbanda, Pai João é o nome de diversas entidades espirituais da chamada Linha Africana, que vem acrescidos de qualificativos de identificação: Pai João de Angola, Pai João do Congo, ... de Minas, da Bahia, da Mata, da Calunga, Serrador, do Cruzeiro, etc. Vem aos terreiros incorporar nos médiuns e exercer trabalhos espirituais em favor dos filhos de fé. Mas ora não é objetivo traçado enveredar por esse viés [1]. É comum representá-lo em forma humana, esculpido ou modelado, como uma imagem de aspecto masculino, no geral sentado, com vestimentas que evocam características rurais antigas. 



Imagens artesanais de Pai João, em argila não queimada (em cima) e em madeira pintada em policromia (em baixo). 
São Gonçalo do Amarante, antigo Caburu (São João del-Rei/MG). Autor: Iago C.S. Passarelli, 09/10/2016.


02- Personagem de algumas Queimas de Judas: 

Apenas de passagem é mister recordar que existe também um personagem humano, cômico, mascarado, espécie de guardião da Chácara do Judas e do próprio boneco malhado ou queimado no Sábado de Aleluia ou no Domingo da Páscoa. Veste-se com roupas velhas, rasgadas, remendadas, puídas, vestida do lado avesso, alpercatas ou descalço, botinas em frangalhos, chapéu de palha, máscara no rosto, relho na mão. Pai João impede que as crianças invadam a chácara e roubem as prendas do Judas, antes do boneco estourar. Uma vez estourado pelas bombas, libera à agitação da petizada, que pega todos os pertences do Judas. Pai João aborda os presentes, falando com voz disfarçada e cavernosa, pede dinheiro, bebida, cigarro. Para os automóveis e com a desculpa de angariar algum dinheiro, faz-se de guarda de trânsito, inspecionando as condições do veículo e pedindo para ver os documentos, fazendo sempre comentários jocosos. Por vezes surgem dois ou três destes mascarados na festa da queima do boneco. Costume hoje raríssimo só encontra refúgio em pouquíssimas localidades rurais. Ainda é tradicional no arraial do Glória (Ritápolis) e também houve em São João del-Rei, cidade e no distrito de São Miguel do Cajuru. Nesta acepção o Pai João encontra par nos “caboclos”, mascarados que cercam o Judas no Alto Oeste Potiguar (Major Sales), e os “caretas” do sertão cearence central, Piauí e Tocantins.

Pai João tomando conta da Chácara do Judas. São João del-Rei, Centro.
Foto: Maria Aparecida de Salles, 1999. 


03- Personagem de certas Folias de Reis: 

Pai João é ou era ainda outro personagem mascarados que acompanhava as folias de Reis da zona rural, compondo com o palhaço (bastião) e a catirina, um animado trio de bufões, que, para além do sentido místico, tramavam os diálogos e recitativos com o anfitrião que recebia o grupo. Como tal foi conhecido desde a região das Vertentes ao sul mineiro e daí na área serrana limítrofe do Rio de Janeiro e São Paulo.

Pai João na Folia de Reis de Cunha/SP, déc.1940. 
Fonte: ARAÚJO, Alceu Maynard. Folclore Nacional. São Paulo: Melhoramentos, 1964.


04- Personagem fictício de uma série de contos populares: 

Por fim nos contos populares, Pai João é um nome tradicional e indefinido para designar qualquer africano ou seu descendente, idoso via de regra, envolvido na narrativa. As estórias de escravos ou forros “Pai Joões” cheios de sabedoria, força religiosa, calma, malícia, bondade, humor, tudo amalgamado num único personagem são tradicionais e difundidas no país, formando mesmo um ciclo temático dentro da literatura oral: 
“Acorda Pai João, 
levanta Mãe Maria; 
pra tomá café, 
que já raiou o dia!” 
(Catupé,Lavras, 2004.
Canto de congado na chegada ao local onde se serve o desjejum.) 

Um exemplar de Pai João tematizando um conto popular colhido em 1997 do saudoso José Cândido de Salles ("Zé Cristino Boiadeiro"), morador de Santa Cruz de Minas, mas natural de uma fazenda na Serra Velha, zona rural de Antônio Carlos. Nesta estória de delicioso sabor popular, Pai João se posta como adivinho e por pouco se livra de uma terrível encrenca. Ei-lo:

Pai João vivia com a Mãe Maria e juntos tinham muitos filhos pequenos. Foi um tempo que ele ficava só encabulado num canto, pensativo, não agia. Trabalhava nada. Parece que tinha desanimado de lutar pela vida. Ela, cheia de preocupações, alertava o tempo todo:

_ Pai João, Pai João... vai caçar modo de trabalhar pra sustentar nossos filhos que os mantimentos tão acabando e agente passa falta!

Foi um dia que Pai João respondeu:

_ Vocês pensam que eu tô à toa? Tô não. Estou trabalhando muito aqui, óh! (apontando para a cabeça). Tô botando a cachola pra trabalhar, que Pai João agora vai fazer adivinhação.
_ O quê?! Adivinhar? Você... Pai João, Pai João... cuidado! Que essa história de adivinhação vai dar em merda de cavalo preto!
_ Pai João vai adivinhar sim, você vai ver. Daí vou ganhar dinheiro...
_ Pai João, Pai João... A porca quando não tem o rabo comprido é rabicha! 

Com aquelas curiosas expressões Mãe Maria sabiamente alertava que adivinhar ele não tinha capacidade e poderia colocá-lo em encrencas. Não ia dar certo. Acabaria mal.

Mas não lhe deu ouvidos. Perto dali era um pouso movimentado de tropas que levavam a produção dos campos para a corte. Pai João começou a agir. Ficou o dia todo vendo a movimentação e se achegou aos tropeiros, ganhou confiança. De ouvidos atentos ouviu eles conversarem que tinham de entregar aquele grande carregamento urgente no dia seguinte, sob pena de severo castigo e prejuízo, fizesse chuva ou sol. Esperou eles dormirem e pôs seu plano em ação.

Correu em casa buscou um cincerro[3] e tirando no mato um pedaço de cipó, com ele amarrou-o ao pescoço da madrinha[4] e saiu juntando os animais cargueiros do pasto vizinho ao pouso para bem longe. Depois se recolheu. Com a barra do dia apontando, logo um tropeiro deu o alerta que os animais tinham sumido. A agitação foi grande e não faltaram comentários sobre os castigos que o rei lhes daria pelo atraso da entrega.

Pai João já estava por ali. Ficou esperando a hora certa até que soltou a sugestão, que era capaz de adivinhar onde a tropa estava. Os tropeiros se assanharam. Mas ele se fez de difícil e os homens lhe ofereceram recompensas: uma boa porção de cada gênero que eles iam carregando. 

Pai João falou assim:

_ Vocês lá vão levando uns rolos de fumo, né? Dá um pedaço pra nêgo véio pitá [5]...

Calmamente, picou o fumo, esmigalhou na palma da mão, carregou o fornilho do cachimbinho feito de toco de raiz de araçá do campo[6], fez que estava concentrando... Os tropeiros desesperados todos olhando para ele.

_ Vocês põe sentido no rumo que a fumaça vai pender. [7]

E de propósito baforou no rumo que tinha escondido os animais, na reta de uma grota erma, para adiante de um espigão. Juntaram todos para lá. Pai João impôs uma condição:

_ Nêgo véio tá cansado, não aguenta andar longe. Precisa de montaria.
_ Mas Pai João, todas sumiram...
_ Sozinho vocês não acham.

Foram agoniados pela redondeza e alugaram um animal para ele montar.

Saíram por ali fora, rompendo o saivá [8]. Depois de muito andar, eles já iam desistindo, quando Pai João, ao sopé do morro detrás do qual tinha soltado a tropa, falou:

_ Chegou.
_ Mas não vemos nada, Pai João.
_ Mas Pai João vê. Sobe no morro e olha pro lado de lá que vocês acha.

E lá estavam. Ficaram alegres, elogiaram Pai João, deram parabéns. De volta, como prometido deram-lhe de tudo um bom tanto e foram embora de viagem. Ele chegou em casa com toda aquela comida e abasteceu a despensa para muito tempo, falando que foi através de seu serviço de adivinhação. Mãe Maria ficou satisfeita com o suprimento mas não deixou de alertar de novo:

_ Pai João, Pai João... Essas adivinhação ainda vai dar em merda de cavalo preto! A porca quando não tem o rabo comprido é rabicha!

O caso é que a fama dele de adivinho esparramou. E um dia, no castelo, três garçons roubaram um tesouro. O rei e a rainha muito apegados à sua fortuna desconfiaram de Deus e o mundo [9], de menos dos três que tinham muita confiança. Começaram um grande interrogatório e até judiaram de estrangeiros que passavam por ali, fazendo torturas que visavam a confissão.

Foi aí que alguém se lembrou das habilidades do africano. Ele seria capaz de adivinhar onde estava a riqueza roubada. O rei mandou um criado lhe chamar sob pena de morte.

_ Eu bem que te avisei Pai João... (disse Mãe Maria).

Diante da majestade saiu essa ordem da boca real:

_ Você tem três dias para me dizer onde está o tesouro. Se adivinhar te dou uma parte dele e você fica rico pro resto da vida; se não, vai pra forca!

Prendeu o adivinho num porão isolado de tudo e de todos, para não interferir na sua concentração e mandou os garçons levarem para ele comida e água à vontade e com fartura. No fim do primeiro dia, depois da janta, o garçom foi levando um bule com café quente e ao entregar, Pai João exclamou:

_ É... já foi um, só faltam dois!

Se referia aos dias do prazo para morrer, pois não sabia adivinhar coisa nenhuma. Mas o garçom entendeu que ele já tinha adivinhado o furto: o um seria ele próprio, ou seja teria adivinhado um dos ladrões. Ficou com muito medo e contou para os outros, pois achava que Pai João tinha mesmo esse poder.

No segundo dia foi o mesmo processo. Na hora do café antes de dormir ele...

_ É... já foram dois, só falta um!

Estava com medo pois faltava um dia para sua execução. Os garçons com mais medo ainda se juntaram e chegaram à conclusão, que, se ele já tinha descoberto dois facilmente, descobriria o terceiro e resolveram se confessar a Pai João. Foram os três ao porão:

_ fomos nós Pai João que roubamos o tesouro, mas pedimos sua ajuda senão o rei mata agente na hora. Óh, temos umas economias aqui que agente tem juntado do nosso trabalho de garçom. É tudo seu se não contar que foi a gente.
_ Mas e o tesouro, onde está? Retrucou Pai João.
_ A gente escondeu, mas vamos aproveitar a madrugada para por no lugar de novo. Temos liberdade e confiança para entrar em qualquer lugar.
_ Então, tá certo.

Assim foi feito. Pai João, vencido o prazo e já tranquilo, foi levado à presença do trono.

_ Seu prazo venceu, disse o Rei. Onde está meu tesouro?
_ Uai, tá no lugar, seu Rei.
_ Está brincado comigo?
_ Não senhor. Essa é a adivinhação de Pai João. O tesouro voltou pro lugar...

Saiu às pressas para conferir e voltou todo alegre, deu os parabéns a ele, elogiou. Mas como gostou das habilidades do adivinho, lhe impôs um novo desafio, agora por pura diversão. Cochichou no ouvido de um servo para soltar suas montarias no pasto e reservar no piquete um animal predileto, o que mais gostava, um cavalo de lustrosa pelagem preta.

_ Pai João: tenho muitos cavalos. Soltei tudo no pasto, só reservei um preso, meu preferido. Que cor que ele é? Se adivinhar aumento sua riqueza, senão você não volta mais pra sua casa.

Ele baixou a cabeça, entristeceu o semblante, se viu em apuros. Como não tinha saída, lembrou de sua esposa:

_ É... Bem me disse Mãe Maria que daria em merda de cavalo preto...
_ Isso mesmo Pai João! Parabéns!!! O cavalo é preto.

A corte toda o aplaudiu. A rainha, muito encrenqueira, para não ficar para trás, chamou também sua ama e fez o mesmo jogo, agora prendendo uma leitoa nabuca [10] e propôs o mesmo a Pai João: aumentar a recompensa ou a prisão. Caiu ele noutra agonia e sem ter saída ...

_ É... bem me disse Mãe Maria que a porca quando não tem o rabo comprido é rabicha...
_ Isso mesmo Pai João! Adivinhou! Ela não tem rabo, é cotó.

E assim, aclamado, aplaudido, respeitado, Pai João voltou cheio de muita riqueza e quando Mãe Maria perguntou o que ia fazer com tanto dinheiro, respondeu:

_ Pai João vai formar os filhos para advogado para defender Pai João ...

 E nunca mais mexeu com adivinhação.

"Cachimbo de escravo". Caquende (São João del-Rei/MG). 

"Cachimbos de escravo". Três Praias - Serra do Lenheiro (São João del-Rei/MG). [2] 

Cachimbos artesanais, feitos por entalhe em raiz de araçá do campo (fornilho) e bambu (pito), sendo o exemplar mais escuro bastante usado e o claro ainda sem uso. Artesão: José Marcos de Oliveira. Procedência: Brumado de Cima (São João del-Rei). Autor: Ulisses Passarelli, 01/08/2025.

Créditos 

- Texto e desenhos de cachimbos: Ulisses Passarelli.  
- Fotografias: conforme consta nas respectivas legendas. 

Notas 
- Revisão: 01/08/2025. 

[1] Um fato digno de nota observamos no distrito de São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei) onde algumas pessoas, a rigor católicas, conservam em suas casas, em geral na estante da sala entre objetos comuns, uma imagem artesanal de um preto velho típico da cultura popular, a que chamam indistintamente de "Pai João". Não é um gongá. A aparência é de um simples bibelô de prateleira, mas contém em verdade e para além superficialidade um sentido simbólico profundo. Dizem: "é bom ter um Pai João em casa. Espanta os males..."

[2] Obs.: os cachimbos desses desenhos foram encontrados ao acaso, como achado de superfície, em antigas áreas de mineração aurífera por Luiz Antônio Sacramento Miranda, em cascalheiras (Três Praias) e grupiara (Caquende). São peças artesanais em barro, preservando apenas o fornilho (falta o pito). Mesmo que não se possa historicamente provar que pertenceram a pessoas escravizadas, na cultura popular, cachimbos deste tipo quando porventura são vistos são imediatamente rotulados de "cachimbo de escravo". Atualmente estes cachimbos encontram-se sob a guarda do Museu Municipal Tomé Portes del-Rei, já com o devido reconhecimento oficial por meio de Inventário de Patrimônio Cultural (Acervo Arqueológico e Paleontológico do Museu Municipal - IPAC/2024; Decreto Municipal nº11.558, 16/12/2024). 

[3] - Cincerro: sineta metálica, em geral de bronze, que se amarra no pescoço dos animais para facilitar a localização no pastoreio e para guiar outros animais como o guia do rebanho.

[4] - Madrinha: a guia do rebanho, quase sempre uma égua muito mansa, que os outros animais sempre acompanham a direção.

[5] - Pitar: fumar.

[6] - Araçá: Psidium, arbusto da família das mirtáceas. A crença popular atribui à sua raiz misteriosos poderes sobrenaturais, que afastam males, daí ser usado para confecção de cachimbos artesanais. Um verso de congado alude a essa madeira: “Casca de buta, / raiz de araçá, / sai do caminho / que eu quero passá!” (Capitão Luís Santana, Bairro São Dimas, São João del-Rei / MG, 1996).

[7] - Prática divinatória tradicional: a fumaça do cigarro, cachimbo, charuto ou fogueira ritual durante a benzeção ou cerimônia vira-se no ar apontando a direção do que se procura e motivou o rito. No norte mineiro, vale do São Francisco, corre que se a fumaça da fogueira de São João direcionar-se rio abaixo indica ano com chuvas regulares, se for rio acima (região da nascente ou cabeceira), muita chuva, se subir verticalmente, ano seco. Sobre isto ver: DIAMANTINO, Dêniston. São João na Roça. Opará Documentários, 1999. In: Dêniston Diamantino, YouTube, 20 jun. 2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=mc6U1alhO2A&t=11s  Acesso em 31 jul. 2025. 

[8] - Saivá: matagal, terreno inculto, pasto sujo de arvoredos e espinhos, densamente vegetado, de passagem difícil. O mesmo que sarandi e restinga (neste sentido exclusivo. Não confundir com a vegetação típica de restinga, que é litorânea).

[9] - “De Deus e o mundo” – expressão popular de amplitude; todos, qualquer pessoa.

[10] - Nabuca – sem cauda ou de cauda excepcionalmente curta. O mesmo que cotó, sura, suruca ou rabicha.