Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.
O município de Conceição da Barra
de Minas situa-se no trecho médio do vale do Rio das Mortes, Microrregião de
São João del-Rei, Mesorregião Campo das Vertentes, com cerca de 2.576 pessoas
como população estimada (IBGE, 2026). O núcleo urbano que originou a cidade foi
o povoado da Boa Vista, implantado ao longo de um caminho antigo, possivelmente
o próprio eixo do Caminho Geral do Sertão. Com a criação da capela primitiva,
na qual se cultuava Nossa Senhora da Conceição, desde 1725, a povoação foi aos
poucos se consolidando (Sobrinho, 1990). A área atual é de 173,014 km2, tendo
se emancipado de São João del-Rei em 1962. Seu território marginal ao Rio das
Mortes foi entrecortado pela Ferrovia Oeste de Minas desde 1881, cujos trilhos foram
erradicados em 1984. Na produção agrícola se destacam o milho, a cana e o
feijão; na pecuária, a o gado bovino leiteiro.
Entre as tradições populares merece
especial atenção a Festa de Nossa Senhora do Rosário, na qual o congado local
(catupé) recepciona vários grupos visitantes, em outubro. Em dezembro e janeiro
é corrente a prática da folia de Reis e folia de São Sebastião; no período
quaresmal, a encomendação das almas [1] e
na Semana Santa acontecem diversas cerimônias católicas de grande relevância,
culminando com a Procissão do Enterro, na qual os farricocos [2]
mascarados se apresentam batendo matracas. Em tempos passados, durante a Festa
do Rosário também acontecia a dança do quimbete (Sobrinho, 1990), uma espécie
de batuque, de procedência banto. A banda de música é uma tradição cultural
muito arraigada.
O carnaval concepcionense segue
as linhas gerais da folia momesca de outras cidades do Campo das vertentes.
Para os limites desta postagem o foco recai sobre o Bloco do Boi, que na
atualidade faz a abertura do pré-carnaval. Abre-se um parêntese para reafirmar
o afamado conceito de animação do pré-carnaval de Conceição da Barra de Minas.
A descrição que se segue é
baseada na observação in loco, da
saída na via principal, Centro da cidade, desde as imediações da Prefeitura
Municipal até o Largo da Igreja Matriz, do Bloco do Boi, na noite de 29 de
janeiro de 2026, quando, pouco após as 21 horas, ocorreu seu desfile.
Em essência é um rancho de boi,
bastante simplificado na estrutura: apenas o boi, que segue na dianteira, ao
som de uma charanga de metais que lhe acompanha. Detalhando, o boi é do tipo “de
montar”, ou seja, é aberto por cima, de modo que o dançante que lhe dá
movimento o adentra como se o cavalgasse e, portanto, permanece com o corpo
exposto da cintura para cima, e tampado dentro do boi, da cintura para baixo. A
estrutura atual é de vergalhões de ferro, cobertos de tecido, mas no passado
era um balaio de taquara. Na traseira do boi, sob a armação, vai escondida uma
garrafa plástica cheia de areia, amarrada na estrutura, que funciona como
contrapeso, para contrabalançar o peso da cabeça do boi, que é formada por uma
caveira de animal, enfeitada. O “couro” do boi é de tecido estampado (florido),
com um babado enfeitado por sequência de fitas de cetim pendentes, de diversas
cores.
A charanga é formada por músicos
locais, não a banda completa, mas contém trompetes, trombones, saxofone, tarol
e bumbo. Durante todo o desfile tocam apenas marchinhas carnavalescas.
Pessoas diversas, fantasiadas ou
não, alegremente acompanham o bloco na retaguarda da charanga, cantarolando as
conhecidas marchinhas e dançando balanceado ao seu ritmo.
Em Conceição da Barra de Minas
não foi observado nesta ocasião as típicas correrias que os bois habitualmente
provocam. Por assim dizer, é um boi tranquilo, de dança calma, airoso, com movimentos
delicados. Alguns avanços e recuos simulam um início de ataque, mas na verdade
o boi só encosta a cabeça de leve na pessoa, muito mais cumprimentando-a que
propriamente atacando.
Em diálogo com o funcionário da
Prefeitura, Anselmo Ananias, atual organizador do Bloco e quem conduz a
alegoria do Boi, narrou que participa há cerca de dez anos. Anteriormente o Bloco
foi fundado há aproximadamente 40 anos por “Cicinho Torresmo”, de início ligado
ao Bairro Santo Antônio. Mais tarde o Bloco foi vinculado ao bairro Alto do
Cristo, época que segundo o informante teria recebido apoio de Maria Naura. Em
sua narrativa, esses esforços entre organizadores e apoiadores visam não deixar
o Boi desaparecer. Relatou também que o Bloco do Boi sempre foi do jeito como
ainda se processa, com a banda de marchinhas e o boi de cavalgar. As únicas
diferenças é que no passado era mais concorrido, com mais gente prestigiando e
havia a figura de um Toureiro.
A Queima do Judas já foi tratada com maiores detalhes em outras postagens deste blog. Observa-se em toda Mesorregião Campo das Vertentes que arrefeceu acentuadamente. Poucos lugares ainda a conservam; cenário de declínio, intensificado desde o início do século XXI. No próprio distrito em tela, incluso no município de São João del-Rei/MG, onde é muito tradicional, foi realizada anualmente até o ano de 1999, a partir do qual se descontinuou. Somente em 2014 (ver links no final desta postagem) foi reativada, depois de muito incentivo, totalmente à custa da comunidade local e sob o seu formato tradicional. Mas foi uma iniciativa isolada e nos anos subsequentes a manifestação cultural não aconteceu. Mais uma vez houve uma reativação, em 2025, quando no Sábado da Aleluia transcorreu a Queima do Judas e o Boi Malhado saiu no largo, conforme mostram as fotografias desta postagem.
A versão de 2025, em linhas gerais, seguiu ao mesmo formato daquela de 2014:
- organização estritamente comunitária, sob a gestão de algumas lideranças do lugar, que se prontificaram livremente a assumir os desafios dos preparativos;
- o boneco Judas de estrutura artesanal, recheado de bombas e palha de bananeira para enchimento, vestido de roupa velha, cabeça moldada em papel machê (nitidamente mais aprimorada que a de 2014, graças a um artista local);
- boneco pendente em uma árvore de embaúba, conforme reza a tradição, afixada a propósito ao centro do largo;
- brincadeiras para as crianças, a guisa de gincana: corrida do saco, pau de sebo mirim e pegada de balas;
- outro pau de sebo, bem mais alto, para os adultos;
- presença do Boi-malhado (versão local do Rancho do Boi) vindo da Travessa Cava Funda para o largo, ao som de pandeiro, caixas e acordeom, pivô de muitas brincadeiras com as crianças, de avanços e recuos, simulacros de ataques marcados por rodopios e corridas;
- leitura do Testamento do Judas, produzido sob o anonimato, obedecendo a um formato fixo, de rimas simples, distribuindo a herança do Judas, coisas que ele deixa para as pessoas do lugar, sempre com muita verve e ironia, não raro em sentido chulo;
- explosão do boneco, a partir da queima do pavio, concluindo-se com foguetório.
Em relação a 2014, não houve em 2025 o artefato pirotécnico chamado "avião" ou "aviãozinho", que consiste em um longo arame (que parte do coreto até o boneco) e serve de guia que conduz pendente um mecanismo que imita de maneira simplista a forma de uma aeronave, e contendo um pavio, quando aceso, corre pelo fio de arame e ateia fogo no Judas. Por outro lado, as brincadeiras com as crianças foram muito mais aprimoradas, o que se mostra uma medida importante pelo efeito lúdico e de aprendizado, estimulando o senso de pertencimento. A leitura do testamento teve também o adicional cômico do personagem vestido de terno completo, pasta de documentos à mão, imitando um tabelião de cartório, que despertou risos na assistência.
Segundo informações orais de populares que participavam da manifestação cultural, no passado o boi era muito mais agressivo. Hoje é um ataque simulado; mas era de fato uma corrida de pega, valendo chifrada e cabeçada, que mandavam ao solo a criança ou jovem que abusava no desafio e provocação. Contaram que houve época de ser um boi bastante grande, que era movido por dois dançantes ao mesmo tempo. Mas as narrativas confluem para afirmar que tanta animação, no passado, tinha por combustível a cachaça... Inclusive, certa vez, os dois colegas metidos debaixo do boi, encontrando-se muito embriagados, caíram com o boi dentro de um valo, sob a zoada dos circunstantes! E não dando conta de retirá-lo, saíram do valo com muita dificuldade, deixando o boi lá dentro. E naquele ano acabou a brincadeira. Hoje, entretanto, a realidade é outra: o boi dança com mais tranquilidade, sem derrubar ninguém e sem a bebedeira dos dançantes, o que preserva a brincadeira de forma sadia e sem riscos.
1- O boneco Judas enforcado na árvore de embaúba.
2- Programação da festividade afixada na porta de um bar local, como forma de divulgação e convite aos moradores. Elemento de folkcomunicação.
3- Crianças correm para pegar balas e confeitos, lançados em pegada.
4- Tentativas de subir o pau de sebo e ficar com o prêmio.
5- Crianças aguardam a largada da corrida do saco.
6- Detalhe do Boi Malhado.
7- Largo em festa.
8- Boi Malhado, os tocadores e o Judas na árvore.
9- Um representação bem humorada de um "Tabelião do Cartório", responsável pela leitura do Testamento do Judas.
10- Leitura do Testamento do Judas, do alto do coreto.
11- Momento da explosão do Judas.
12- Fogos de artifício em comemoração ao bom êxito da festividade.
Créditos
- Texto e fotografias 2, 4, 7 e 10: Ulisses Passarelli.
- Demais fotografias: Betânia Nascimento Resende.
Notas
- Revisão: 14/07/2026.
- Sobre este mesmo festejo em sua edição anterior, de 2014, ver:
O Boi de Ronda foi criado em abril de 2024, como um grupo cultural no âmbito da Tenda de Umbanda Ogum de Ronda, de São João del-Rei/MG, que tem sua sede provisória na Caieira (Bairro São Judas Tadeu/Jardim Central). Esta comunidade umbandista é a responsável por tal manifestação cultural e a mantém, por seus membros e com a ajuda de colaboradores externos convidados. O contexto original é o ato de resgatar a tradição dos ranchos de boi, que estão na maior parte inativos no município; no entanto, fora do ambiente carnavalesco, para ser revivido no meio religioso de matriz africana, sob a égide do Orixá Ogum e das entidades da Linha dos Boiadeiros.
Desta maneira, fez sua primeira apresentação pública na Festa de Ogum em sua Tenda de origem em 28 de abril de 2024. No mesmo ano, apresentou-se também na Festa de Exu, tanto em sua Tenda, quanto em outra, amiga e parceira, a Tenda Espírita Umbandista Pai Benedito d'Angola, respectivamente no último sábado e último domingo de agosto de 2024. A Festa de Exu desta última acontece em plena Serra do Lenheiro, na paragem denominada Mesa do Tiriri, com previsão de repetir-se neste ano de 2025 na mesma data, onde o boi deverá se apresentar novamente.
Já em 2025, o Boi de Ronda foi apresentado a 26 de abril, no grande pátio do ilê da Tenda Espírita Umbandista Pai Benedito d'Angola, na Travessa da Rua Jair Braga Machado, nº70, no Barro Preto de Baixo, Bairro Tijuco, em São João del-Rei, durante a Festa de Ogum, conforme fotografias que constam nesta postagem.
Os participantes trajam-se de roupas brancas, camisetas uniformizadas da Tenda; homens com faixa estampada de ocelos atada à cintura; mulheres de pano chitado à cabeça. Dois participantes, munidos de chapéu boiadeiro e de varas de ferrão, campeiam o boi o tempo todo, que rodopia, avança, recua, investe, dança movido por um dos umbandistas oculto no interior da alegoria (Tripa ou Miolo). Adiante do grupo vai um estandarte de produção artesanal. Instrumentistas executam acordeon, violões, viola, pandeiro, meia-lua, triângulo, agogô, chique-chique. As cantorias evocam na maior parte cantos de terreiro - pontos (zuelas ou curimbas) de boiadeiros - evocando a linhagem espiritual protetora, entremeadas às quais ouve-se interjeições de incentivo aos movimentos do animal e alguns aboios curtos.
"Boiadeiro meu:
é de Minas Gerais;
pra ficar sem boiadeiro
meu sertão não vive em paz!"
Entre as cantigas merece destaque a Marcha do Boi, quando, o solista, com versos improvisados, canta suas frases poéticas, às quais o coro sempre responde o mesmo: "_ êh, boi!"
_ "Lá na serra tem pedra! _ Êh, boi!
_ Lá no mar tem onda! _ Êh, boi!
_ Caeira o quê que tem? _ Êh, boi!
_ Ai, tem o Boi de Ronda! _ Êh, boi!"
Neste momento, a cantoria envolve os circunstantes, pois, variando os versos, emite agradecimentos, saúda, tece características do boi, incentiva os boieiros. Na sequência, o boi é posto no laço e puxado para junto do boiadeiro, que lhe crava um punhal no peito.
"Se matar esse boi,
o mocotó é meu...
pra pagar a carreira
que esse boi me deu!"
"Eu mato o boi, baiano!
O couro é meu, meu mano!"
O boi se deita, como se tivesse morrido, mas de fato está ferido. Um participante chega com uma bacia esmaltada e colhe o "sangue" do boi (vinho tinto derramado). O vinho é bento e distribuído em pequenos copos aos participante e assistência, que o consomem em dose mínima, na crença de seu poder curativo e de fortalecimento espiritual, posto que dotado de axé. Vencida esta etapa, começa a "ressurreição" do boi: o boiadeiro o rodeia, com baforadas de charuto e um bate-folhas, feito de diversas ervas. Aos poucos o boi vai se tremendo todo, se ergue, volta a dançar, curado da ferida cruenta, ainda com mais vigor para a sua despedida, ante vivas e aplausos.
"Levanta, meu boi, BIS
e vem trabalhar!"
Embora recente em sua composição, o Boi de Ronda é antigo em seu formato, e segue despertando atenções e curiosidades por onde passa.
01- Aspectos devocionais.
02- O boi dançando no abaçá do terreiro.
03- O boi no pátio.
04- Roda de boieiros.
05- O boi e o sanfoneiro.
06- Sangria do boi.
07- Agôgô e caixa - esta sob cuidados do grande colaborador Jailton Antônio Braga, Zelador de outro terreiro, a tradicionalíssima Tenda Espírita Pai Joaquim de Angola.
08- Benzedura para reanimação do boi.
09- Porta-estandarte e violeiro.
10- Boiadeiro traz o boi.
11- Fogueira ritual durante o encerramento.
Créditos
- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografias: Viviane Lins (02 a 07); Ariany Fonseca (01, 08 e 09); Betânia Nascimento Resende (10).
De
início é fundamental observar algumas informações panorâmicas sobre o
município, extraídas do portal do IBGE: população estimada em 2024 de 10.994
pessoas; densidade demográfica em 2022 de 21,02 hab./km2. Gentílico
alto-rio-docense. Área municipal 518,053 km2, sendo a área urbanizada de 2,37
km2. Está inserido na Mesorregião Zona da Mata, Microrregião de
Viçosa, Zona Intermediária e Zona Imediata de Barbacena. O bioma predominante é
a Mata Atlântica. O gado leiteiro e a produção de carvão vegetal são
expressivos no município. Na agricultura o cultivo de cereais tem seu expoente
no milho, seguido do feijão; entre as lavouras permanentes o destaque é a
tangerina e nas temporárias, a cana de açúcar (BRASIL, 2025).
Um
resumo do histórico, segundo a mesma fonte é o seguinte:
antes
da colonização, era habitado por índios Croatas e Puris, de origem Tupi,
espalhados por toda a região. Os primeiros exploradores vieram de Guarapiranga,
atual município de Piranga. Desceram pelo Rio Espera e daí subiram pelo Rio
Xopotó, objetivando a exploração de minérios. Em 1711, o Alferes Francisco
Soares Maciel, líder de uma bandeira, chega à região do Xopotó e funda um dos
primeiros arraiais da região, denominado São Caetano do Xopotó. Este arraial
trouxe ainda mais exploradores que se espalharam e se fixaram às margens do Rio
Xopotó, criando novos povoados.
Em 1759, quando José Alves Maciel chegou à região, esta já se encontrava
habitada por bandeirantes e índios Croatas e Puris. Tais terras haviam sido
doadas para José Alves Maciel pelo Rei de Portugal, recebendo do Governador
interino, José Gomes Freire de Andrade, uma sesmaria, denominando sua
residência Xopotó. Acima, mais tarde, casou-se com D. Vicência Maria de
Oliveira, mulher que muito influenciou para a construção da primeira capela e a
doação de terras para a atual cidade de Alto Rio Doce. A sesmaria de terras
doada a José Alves Maciel transformou-se em fazenda e passou a denominar-se Fundão
e posteriormente, com a construção da capela, passou a chamar-se Sítio São José.
Com a fixação de mais moradores, fundou-se o povoado de São José do Xopotó, em
19-03-1764, onde foi construída a primeira Capela de São José, no alto do Morro
Seco, desenvolvendo ali o povoado núcleo da cidade. Em 1820 foi construída
pelos moradores uma capela maior no lugar onde hoje está a Igreja Matriz. Em
1830 a Capela foi elevada a Curato, e em 1832 o Curato foi elevado à Freguesia,
tendo as Capela de Desterro do Melo, Rio Espera, São Caetano e Senhora dos
Remédios como filiais. A Paróquia foi instituída em 1833, tendo o Padre
Agostinho Cezário de Andrade como seu primeiro Pároco. Em 1882 a Capela foi
demolida e foi construída em seu lugar uma Igreja de duas torres. Entre 1917 e
1919 essa Igreja foi demolida e construída a atual Igreja Matriz de São José
pelo Padre Messias de Senna Batista. O nome de São Sebastião do Xopotó, permaneceu
até a emancipação política do Município. Quando foi elevado à categoria de
Vila, a Sede Municipal passou a denominar-se Alto Rio Doce, por ser naquela
época a mais alta cidade localizada na zona das cabeceiras(nascentes) do Rio
Doce. O povoado foi elevado a Vila com o nome de Alto Rio Doce através do
Decreto n° 26, em 07-03-1890. Em 24-05-1892, foi elevada a categoria de Cidade.
(BRASIL, 2025).
Sobre
a sua história administrativa consta que:
Freguesia
com a denominação de São José do Xopotó, pelo Decreto de 14-07-1832 e pela Lei
Estadual n° 2, de 14-09-1891. Elevado à categoria de Vila com a denominação de
Alto Rio Doce, pelo Decreto Estadual N° 26, de 07-03-1890, desmembrado do
Município de Piranga. Sede na antiga povoação de São José do Xopotó.
Constituído de 3 Distritos: Alto Rio Doce (ex-São José do Xopotó), Dores do
Turvo e São Caetano do Xopotó. Instalado em 30-08-1890.Elevado à condição de
Cidade com a denominação de Ato Rio Doce, pela Lei Estadual nº 23, de
25-05-1892. Em Divisão Administrativa referente ao ano de 1911, o Município é
constituído de 3 Distritos: Alto do Rio Doce, Dores do Turvo e São Caetano do
Xopotó. Nos quadros de apuração do Recenseamento Geral de 1-09-1920. Pela Lei
Estadual n° 843, de 07-09-1923, Alto do Rio Doce, adquiriu do Município de
Barbacena o Distrito de São Domingos de Monte Alegre.
Em Divisão Administrativa referente ao ano de 1933, o Município é constituído
de 4 Distritos: Alto Rio Doce, Dores do Turvo, São Caetano do Xopotó e São
Domingos do Monte Alegre. Assim permanecendo em Divisões Territoriais datadas
de 31-12-1936 e 31-12-1937. Pelo Decreto-Lei Estadual N° 148, de 17-12-1938, é
criado o Distrito de Abreus e anexado ao Município de Alto Rio Doce. Sob a
mesma Lei supracitada desmembra do Município de Alto Rio Doce o Distrito de
Dores do Turvo, para formar o novo Município de Senador Firmino (ex-Conceição
de Turvo). E, ainda o Distrito de São Caetano do Xopotó passou a chamar-se
Cipotânea e São Domingo de Monte Alegre tomou a denominação de São Domingos. No
quadro fixado para vigorar no período de 1939-1943, o Município é constituído
de 4 Distritos: Alto do Rio Doce, Abreus, Cipotânea e São Domingos. Pelo
Decreto-Lei Estadual n° 1058, de 31-12-1943, o Distrito de São Domingos passou
a chamar-se Missionário.
No quadro fixado para vigorar no período de 1944-1948, o Município é
constituído de 4 Distritos: Alto do Rio Doce, Abreus, Cipotânea e Missionário.
Assim permanecendo em divisão territorial datada de 01-07-1950. Pela Lei
Estadual n° 1039, de 12-12-1953, desmembra do Município de Alto Rio Doce o
Distrito de Cipotânea. Elevado à categoria de Município. Em Divisão Territorial
datada 01-07-1955, o Município é constituído de 3 Distritos: Alto do Rio Doce,
Abreus e Missionário. Assim permanecendo em Divisão Territorial datada de
01-07-1960. Pela Lei Estadual n° 2764, de 30-12-1962, é criado o Distrito de
Vitorinos e anexado ao Município do Alto Rio Doce. Em Divisão Territorial
datada de 31-12-1963, o Município é constituído de 4 Distritos: Alto Rio Doce,
Abreus, Missionário e Vitorinos. Assim permanecendo em Divisão Territorial
datada de 2007. (BRASIL, 2025).
A drenagem fluvial do município faz parte da bacia doceana, “banhado
pelos rios Piranga, Xopotó, Mutuca, Brejaúba” contando com o atrativo
paisagístico de diversas quedas d’água, sendo favorecido pela amenidade
climática (temperado úmido). Tanto mais, destacam-se os “eventos voltados para
gastronomia tais como: Festival de Angu, Festival de Cachaça e Festival de
Gastronomia na modalidade comida de boteco” (MINAS GERAIS, 2025).
O
brasão municipal destaca a agropecuária (ramos de café e milho; cabeça de boi)
e a devoção católica a São José, padroeiro do município. (ALTO RIO DOCE, 2025).
No
campo da cultura popular é tradicional a congada (marujos) do distrito de Missionários.
Já no decorrer do carnaval o “Bloco da Burrinha” reúne grande quantidade de participantes e acontece desde
1968. Atualmente o bloco desfila em três dias sucessivos: domingo, segunda e
terça de carnaval, denotando sua grande popularidade.
Em
linhas gerais atende ao padrão geral dos Ranchos de Boi brasileiros, com desfile alegre,
descontraído, que reúne fantasiados de todo tipo, e o boi ao centro fazendo
correrias de pega nos foliões incautos ou naqueles provocadores. Junto a este
núcleo surgem outros personagens gravitando em torno da movimentação do boi. No
caso específico de Alto Rio Doce, são vários bois e burrinhas (ou mulinhas, como ouvimos foliões também a chamarem), além de diversos
bonecos gigantes. Embora sejam personagens comuns a outros blocos ou ranchos
equivalentes, neste município em especial a burrinha se sobrepôs em preferência
à nomenclatura da manifestação cultural, um fato incomum. No geral é o boi que
polariza o nome do grupo.
Ao
observar as alegorias algumas características afloram de imediato. Os bonecos
tem estrutura corporal simples, trajes imitando a roupa humana (calça, camisa,
vestido) em grande tamanho; mas a cabeça tem aspecto aprimorado, sendo possível
reconhecer as fisionomias que retratam, de personagens reais ou fictícios. Os
bois e burrinhas possuem o mesmo sistema construtivo: armação metálica leve,
fina, revestida de tecido de cor intensa. O brincante fica dentro da alegoria
até a altura da cintura e o restante do corpo de fora, como se cavalgasse o boi
ou a burrinha. Essa leveza estrutural e a cabeça totalmente para fora (o que dá
boa visão), favorece as corridas atrás das pessoas. No geral os bois tem o
chifre longo, bem arqueado, em forma de meia lua. Todos tem cabeça de pano, o
que também contribui para a leveza da alegoria. Todo dançante de um boi ou de
uma burrinha veste-se com calça e blusa de corte simples, tosco no acabamento,
em tecido ramado ou florido (chitão) e invariavelmente mascarado. As máscaras
observadas são de feitura industrial, em látex, silicone ou acetato, representando
monstros e outros seres bestiais. É provável que esses aspectos representem
processos de alteração evolutiva, favorecida pelas múltiplas possibilidades de
material industrializado facilmente disponível, mais acessíveis, e já praticamente
prontos, em relação ao grande trabalho manual para produzir cabeças de bois a partir
de caveiras, armações trançadas de bambu e máscaras a partir de pedaços de
couro.
A
parte musical fica a cargo de uma banda de música, acompanhada de bateria de
percussão. Tocam marchinhas carnavalescas durante o cortejo. Não observamos
canto específico.
Uma
característica observada em Alto Rio Doce é o translado das alegorias e músicos
antes do desfile. Na tarde, carros e ônibus atravessam a cidade carregando-os,
sob o som de buzinas e sirenes, como que emitindo um alerta de preparação a
chamar a atenção das pessoas. Dentro dos ônibus os percussionistas põem-se em
batucada. Bois, burrinhas e gigantes vêm em uma carroceria de caminhão. O
cortejo motorizado atravessa diversas ruas e se concentra em um dos extremos da
cidade. Na hora aprazada, partem de volta pelas ruas com os veículos, para o outro
extremo da cidade, próximo ao cemitério. No largo fazem a concentração final
antes da saída. Descem todos dos veículos e de pés no chão vão preparar-se
dentro das alegorias, vestir as máscaras, dar vida aos bonecos. Músicos
aprontam os instrumentos, afinam, aquecem os tambores. Há muita agitação,
principalmente dos jovens, que formam uma grande massa de foliões. A animação
toma conta do ar.
Vídeo 1: cortejo motorizado, trazendo foliões diversos, músicos e alegorias.
Autor: Betânia Nascimento Resende, 03/03/2025
O
cortejo inicia a descida ao centro da cidade. Na ladeira, já os bois e burrinhas
disparam desenfreados na frente, pondo em corrida uma multidão de crianças até
a praça onde está a Prefeitura e o Fórum. Os bonecos descem no meio do cortejo,
devagar, com dança comedida e compassada. Um mais habilidoso faz corrupios com
a grande estrutura de um boneco. Na retaguarda os músicos. E o povo folião ao
redor, por toda parte. A alegria é contagiante, o ritmo envolvente. Uns jogam
confete, outros, espuma de spray. Há
muitas pessoas com fantasias variadas, mas nota-se ser comum as fantasias de “coelhinho”
por parte das jovens.
O
desfile segue ao lado da Igreja Matriz e vai até a Capela do Rosário, junto ao
coreto. Param ali por um tempo. Há muita gente reunida naquela praça, que os
estava esperando. Igualmente pelas calçadas, pessoas em aguardo do cortejo
passam a acompanhar na passagem do grupo de foliões, que desta forma vai se
encorpando.
Depois
descem a grande ladeira ao centro e vão por fim em direção a área próxima a
Rodoviária para o encerramento.
Não
restam dúvidas ao contemplar este folguedo acerca de sua tradicionalidade e o aspecto
identitário com o povo alto-rio-docense. O envolvimento da parcela juvenil e
infantil da cidade faz antever a esperança de continuidade com o passar dos
anos; a grande quantidade de pessoas à margem das calçadas ansiosas pelo
cortejo demonstra com clareza o senso de pertencimento. A própria ornamentação
carnavalesca das ruas por parte da Prefeitura Municipal remete à estética do
Bloco da Burrinha. Tudo isto se soma para demonstrar as características
imateriais desse genuíno patrimônio cultural de Alto Rio Doce.
Fotografias
(03/03/2025): Ulisses Passarelli (1 a 17) e Betânia Nascimento Resende (18 a 27).
Informantes locais:
irmãos Márcio e Edmilson Teixeira Guimarães, sobrinhos de um dos fundadores, Zé Marcelo. Agradecemos a gentileza da atenção e informação.
1- Brincante em uma alegoria de boi.
2- Diversidade de bonecos.
3- Boi mocho (sem chifres).
4- Burrinha.
5- Boneco representando Zé Marcelo, um dos fundadores.
6- Mais um boi.
7- Bonecos em ação durante o desfile. Aos fundos, o imponente prédio do Fórum.
8- Traje típico e riqueza de movimento.
9- Cortejo ganha as ruas, enchendo-as de alegria.
10- Bloco na rua une a contemplação do patrimônio material e imaterial.
11- Desfile diante do prédio escolar.
12- Detalhe de um boneco.
13- Boneca ornamentada com adereços carnavalescos.
14- Coreto ornamentado; banner tematizado no Bloco da Burrinha. O coreto funciona como base de sonorização.
15- As crianças iniciam na brincadeira.
16- Criança descansa sentada sobre um boi.
17- Placas de ornamentação carnavalesca na via pública, tematizadas no Bloco da Burrinha. Ao fundo, a Igreja Matriz de São José.
18- Boneca inspirada na "Rainha de Copas", personagem do conto "Alice no País das Maravilhas".
19- Boneca com adereço de cabeça que lembra uma "Melindrosa".
20- Bonecos ao lado da Igreja Matriz.
21- Detalhe da banda.
22- Bateria e Igreja Matriz.
23- Cores vivas são onipresentes.
24- Folião com camiseta alusiva ao nome do bloco.
25- Detalhe do sistema de cavalgadura: uma haste transversal é segura para ajudar no guiamento da alegoria; suspensório a mantém nos ombros; estrutura vazada permite o folião ficar com meio corpo para fora e outra metade para dentro, com os pés no chão; parte interna não visível por conta do tecido que imita o couro.