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Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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sábado, 8 de junho de 2024

14º Encontro da Cultura Popular do Caquende

No extremo sudoeste do município de São João del-Rei, junto à represa de Camargos, que armazena as águas do Rio Grande, está o povoado do Caquende, junto ao antigo ponto de travessia do atalho do Caminho Velho, por onde passaram sertanistas e povoadores no início do século XVIII, em pleno Ciclo do Ouro. 

Caquende celebra sua identidade cultural e o valor do homem do campo através do Encontro da Cultura Popular. O evento como em geral toda área cultural, foi impactado pela pandemia de COVID 19, estando sua ocorrência comprometida por algum tempo. Ora retomada a sua plenitude, já está na décima quarta edição, acontecida de 25 a 28 de abril de 2024. Como de costume, a cada ano homenageia um renomado escritor (a). Desta vez a escolhida foi a escritora Conceição Evaristo. A programação foi bastante diversificada e digna de atenção. 

                                       

                                        

                                       

                                       

                                       

Como novidade as apresentações das danças rurais foram transferidas para o sábado, deixando o domingo mais livre para as congadas e folias.

O café da manhã comunitário contou como de costume com as quitandas tradicionais, um café muito saboroso e de fartura, seguido a partir das 10 horas pelas atividades do grupo Artes das Gerais, vindo de São João del-Rei, que trouxeram exímias apresentações de capoeira e maculelê. 

Também notável foi a participação do grupo de jomba de roça local, centrado nos lavradores, fazendo a percussão de suas ferramentas, quais sejam enxadas, machado, serra, em movimentos coreográficos e cantorias até a roça de milho, onde transcorreu a representação da colheita do milho. Como sempre, à colheita e quebra do milho se segue a típica distribuição de alimentos: angu doce, na panela de ferro, e as broas, nas peneiras de taquara. O almoço traz o sabor da comida mineira e a união ao redor do alimento, como momento de convívio social, congraçamento, reencontro de amigos e troca de experiências. 

As congadas e folias participaram do cortejo no largo do povoado e na sequência fizeram apresentações individuais na tenda armada ao centro. Fechando a tarde, houve o concerto de encerramento com a Banda de Música Aquiles Rios, de São Sebastião da Vitória. 

O Encontro da Cultura Popular continua sendo um evento da maior significação por valorizar fortemente o homem do campo, ao revelar as manifestações culturais de alguma forma vinculadas à vida do lavrador tradicional. Seja pelas danças, pelo uso de artefatos típicos da agricultura familiar de raiz como carro de bois, monjolo, serra, engenhoca, seja pela própria ambientação e figuração das atividades. Está nítido que se enaltece a cultura caipira, tantas vezes tratada com opróbrio, mas nesse encontro elevada ao patamar de protagonista. Ao mesmo tempo, o Encontro traz um releitura do mundo rural em sua tipicidade, hoje de espaço muito restrito em razão das mudanças da sociedade,  com o êxodo do campo e o crescimento do agronegócio, dando uma nova configuração ao trabalho e espaço rurais. 

É um evento de grande significação, que merece um alto nível de atenção, apoio, suporte, para que possa continuar acontecendo da melhor forma possível, com toda autenticidade que lhe é característica.  Funciona como se fosse um mutirão de cultura, onde os grupos não são apenas meras atrações, mas de fato partícipes inseridos numa ambiência de tradição. O Encontro da Cultura Popular do Caquende oportuniza uma vivência do patrimônio cultural imaterial em sua essência. 

Bandeira da Folia de Reis de Carrancas - pintura dos Reis Magos do Oriente.

Catirina segura a bandeira da folia de Carrancas. 

Folia de São Sebastião "Cláudio Bento", Lagoa Dourada. 

Os tradicionais bonecos do grupo Pilão de Nhá, Caquende. 

Pilão, Caquende. 


Mastro usado para a dança das fitas, pelo grupo cultural de Brasilinha (Madre de Deus de Minas). 

Monjolo, Caquende. 

Maculelê, pelo grupo Artes das Gerais, São João del-Rei. 

Jomba de roça, pelos lavradores, Caquende. 

Colheita do milho, Caquende. 

Folia de São Sebastião, de Coqueiros (Nazareno). 

 Represa de Camargos, Caquende. 

Placa de Sinalização Turística próximo à margem da represa. 

Engenhoca Quebra-peito, Caquende. 

A importância de uma árvore: espaço para convívio social no largo do povoado. 

Capela de Nossa Senhora do Carmo, Caquende. 

Cruzeiro no largo do Caquende. 

Congo de Carrancas. 

Marujos de Dores de Campos. 

Demonstração de manejo da serra de desdobrar. 

Folia das Mulheres, Jardim São José, Bairro Tijuco, São João del-Rei

Folia do Divino "Embaixada Santa", Bairro Araçá, São João del-Rei.

Créditos: 

Texto e fotos - Ulisses Passarelli

domingo, 22 de abril de 2018

11º Encontro da Cultura Popular do Caquende

Concluiu-se neste domingo, 22 de abril, o 11º Encontro da Cultura Popular no povoado do Caquende, sito no distrito de São Sebastião da Vitória, município de São João del-Rei, ao seu extremo sudoeste, às margens do Rio Grande, barrado pela Represa de Camargos. Área historicamente muito relevante, foi entrecortada pelo Caminho Velho, hoje incorporado à Estrada Real. Por ali passavam desde os primórdios da colonização mineira os viajantes que vinham de São Paulo rumo às minas de ouro. 

Focado na homenagem e valorização ao trabalho tradicional e a cultura do homem do campo, o encontro álacre enaltece o lavrador, o pequeno produtor rural, o costume dos mutirões, dos toques de viola, das festas de colheita. Tudo no encontro é tematizado neste sentido, inclusive na própria ornamentação e na culinária ofertada aos grupos participantes. O seu valor cultural é inegável e o potencial turístico incontestável.

O encontro não é uma festa da igreja; não é um evento religioso. Todo o esforço, planejamento e execução parte da comunidade e em especial de um grupo de pessoas abnegadas à causa cultural, que em voluntariado, organizaram tudo.

Em tudo e por tudo é uma festa cultural. Isto não impede que o povo por si mesmo homenageie com um Pai Nosso e uma salva de palmas e vivas ao mártir São Sebastião, patrono dos agricultores, pois sua devoção é profundamente enraizada na cultura rural; São Bento foi lembrado na prece para afastar bichos peçonhentos, quando no evento, o grupo de lavradores foi à roça fazer a colheita do milho. E os visitantes se aglomeraram ao redor para ouvir cantorias, ver a quebra das espigas, a reunião das mesmas e de abóboras e morangas em grandes jacás (espécie de balaios), a sua recolhida ao carro de bois, a distribuição de pinga, broas e angu-doce servido na palha do milho aos trabalhadores. Tudo isto transcorrido, o carro veio à tenda e a colheita foi arriada. Em torno deste produto da terra, dançou-se o engenho novo, manifesto coletivo de gratidão. Aproveitando a sonorização, foi explicado a estrutura do carro de bois, cada peça, de que madeira é feita, para que serve, com a orientação do carreiro "Jaraguá". Anunciaram até os nomes dos bois, batizados tradicionalmente: Cigano, Roxinho, Tico-tico, Sabiá, Recreio e Delicado.

E os grupos, daqui e dali tocavam, dançavam e cantavam, cada qual mostrando seu saber. Estiveram presentes: da cidade de São João del-Rei o Grupo de Inculturação "Raízes da Terra", do Bairro São Geraldo, junto ao maracatu; a Folia do Divino "Embaixada Santa", do Bairro São Judas Tadeu (Caieira), a Folia do Divino das Águas Férreas, do Bairro Tijuco; de outros municípios prestigiaram o evento os seguintes congados: de Santa Cruz de Minas ("São Miguel Arcanjo" - catupé), de Prados ("Nossa Senhora do Rosário" - catupé), de Dores de Campos ("Nossa Senhora do Rosário" - marujos), de Carrancas ("Nossa Senhora do Rosário" - congo).

Por todo o largo as crianças brincavam aproveitando o gramado. Na barraca de comes-e-bebes os adultos se confraternizavam. Houve grande movimentação de visitantes, inclusive visitando a exposição de produtos artesanais e objetos

Seguiu o almoço coletivo dos dançantes. Registre-se que foi almoço de grande fartura, delicioso no sabor, apetecível no aroma, higiênico no preparo, elogiado por quantos o provaram. Logo se vê que foi feito com o tempero da boa vontade.

Cortejo na rua, de volta ao largo depois de circulá-lo, sob a tenda, transcorreram as apresentações individuais de cada grupo. Tudo em boa ordem, cumprindo o programado sem atrasos ou atropelos, fechando com a dança do pilão pelo grupo local, Pilão de Nhá, com a maestria de sempre. Ainda pelas tantas, arrematando, veio a banda de música de São Sebastião da Vitória mostrar sua arte musical tão disciplinada.

A coordenação foi cuidadosa: de alvará na mão, lutou pelo planejamento à base da união, coisa que tantos desconhecem. Superando dificuldades a luta foi vencida. Missão cumprida, agora que colham os frutos desse sucesso, um trabalho incomensurável e de extensão educativa, social e cultural incríveis, sem ajuda de quem deveria tê-la dado. Mas é assim mesmo, como quem lavra a terra bruta e nela semeia, que o grupo do Caquende faz. Que venha o próximo encontro, que certamente será tão exitoso quanto os anteriores. Fica consignado nesta postagem o mais sincero parabéns aos responsáveis pelo evento.  



Grupo Pilão de Nhá, do Caquende, preparando-se para se apresentar na tenda:
autenticidade, identidade, dedicação, esforço, ensaio.  

Um par de bonecos, referência aos espantalhos e joões do mato. 

Recepção festiva na tenda. 

Folia da Caieira. 

Manejando uma serra de desdobrar. 

Colheita do milho. 


Congado de Santa Cruz de Minas. 

Congado de Dores de Campos. 

Carro de bois da Zueira.

Congado de Prados.  

Folia das Águas Férreas. 
 
Congado de Carrancas. 

Painel montado na praça contendo cartazes das festas anteriores:
memória, registro, história, referência, folk-comunicação. 

Notas e Créditos

* Texto e fotografias: Ulisses Passarelli
** Revisão: 11/03/2024

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O Caipira: personagem mal compreendido

Brasil afora corre a palavra "caipira" como sinônimo grotesco e zombeteiro de homem do campo, rurícola, produtor rural, morador dos arraiais e sítios. Por onde quer que seja o termo se aplica eivado de uma carga de descaso e até mesmo discriminação. Quase sempre é assim. Caipirismo se diz à atitude arcaica ou ao modo de agir, falar e vestir à maneira rural e não à urbana. Rural aqui subentendido como um rural muito ermo, tosco, antiquado, provinciano...

SAMPAIO (1987) buscando a etimologia da palavra apostou que procede do tupi "caí-pyra", icaipira, o envergonhado, o tímido. Seria uma formação em particípio passado adjetivo, do verbo "cai "(envergonhar), conjugado ao sufixo "pyra" (ou byra) _ o envergonhado. Contudo, em nota, Frederico Edelweiss discordou alegando ser kaí um adjetivo guarani.

CASCUDO (s.d.) abordou a possibilidade de caipira ser alteração de caipora, "o morador do mato", segundo origem tupi. Verbetizou-o traçando-lhe com a maestria de sempre seu perfil psicológico e etnográfico: "homem ou mulher que não mora na povoação, que não tem instrução ou trato social, que não sabe vestir-se ou apresentar-se em público." 

ARAÚJO (1964) registrou como ninguém a cultura caipira, a cultura do caipira. Em abordagem que entremeia a folclorística e a sociologia, o iminente estudioso foi extremamente cuidadoso na descrição e análise dos ritos, as crendices, a religiosidade, o artesanato, a indústria caseira, o modo de vida, as festas, os folguedos e danças, a produção agrícola, a culinária, etc. Verdadeiro documentário, indelével, é obra fundamental para quem queira iniciar ou aprofundar no assunto.

Qual a área do caipira? Poder-se-ia dizer que todo o Brasil. Cada área geográfica tem seu próprio tipo de "caipira" embora que o "típico", digamos assim, resida no interior goiano e mineiro, até terras paulistas e paranaenses. Tem uma vasta gama de sinônimos ou regionalismos e raro aquele que não vem maculado de zombaria: capiau, jeca, roceiro, tabaréu, matuto, maratimba (sul capixaba), caiçara (litorâneo em São Paulo e Paraná), etc. Para lhe desqualificar os procedimentos revelando sua imaginada idiotice o chamam ou dizem ser um panguá, caboclo, coió, roceiro, jurubeba, jacu, jabacuré, tião, sô zé... Chamar alguém de caipira é o mesmo que xingar, quando deveria ser um elogio.

Do ponto de vista étnico o caipira é fruto da miscigenação de nossos formadores e nada há nele que o vincule mais diretamente a uma etnia. Ele pertence ao povo brasileiro. A mescla dos saberes de cada um ele herdou e assim construiu uma parcela deveras significativa da cultura popular nacional. 

O estereótipo do caipira [1] foi pintado na cidade como supersticioso, crédulo, apalermado, quase andrajoso, desengonçado e bobalhão. Teria roupas velhas e remendadas, chapéu de palha à cabeça, paletó surrado pelo tempo, cabelo desgrenhado, encardido, barba por fazer, descuidado em geral, calçado de alpercatas ou botinas, por vezes, sapatos velhos; cheirador de rapé, fumador de cigarros de palha, bebedor de cachaça. Pendendo no currião [2] um canivete de picar fumo, metido dentro de uma bainha de couro. No bolso de trás da calça um chumaço de palha seca de milho para confecção de cigarros. A mulher caipira não dista muito dessa figuração: vestido estampado, de cores berrantes e desenhos grosseiros, babados em profusão, pouca elegância no agir e no andar; desprovida de qualquer senso de estética (sob a ótica urbana) ou de vaidade (idem); maquiagem borrada, exagerada, ridícula. Cabelo longo, amarrado com uma tira de trapo, ensebado, lamentável. Sandália simples no pé. Um bolsa sofrível a tiracolo. 

Uns e outros infalivelmente arrastando uma linguagem cheia de erros grosseiros de pronúncia e recheada de um vocabulário com termos e expressões das antigas. Sotaque próprio. Usam palavras específicas que na cidade pouco se sabe o que seja. O traje simplório contudo é uma necessidade prática imposta pela pesada lida cotidiana. Para os eventos, as festas, as celebrações, o homem do campo se veste bem e com gosto, limpo e cuidadoso. Vimos algumas vezes uma cena inusitada: gente da cidade ir a uma vila assistir uma festa de padroeiro ou outra, ingenuamente vestido de forma simples, e passar vergonha de ver os naturais do lugar, "os caipiras", mais limpos e bem vestidos que o cidadão da zona urbana. É uma oportunidade interessante para quebra desse paradigma. 

Anda pela cidade uma vez por mês para vender seus produtos da roça (galinhas, toicinho, balaios, fumo, ovos, verduras, tapetes de tear, mel, sabão de bola) e com o dinheiro apurado compra aquilo que não acha na roça (sal, querosene, ferramentas, ração para animais, produtos veterinários, etc.) e para lá segue com tudo pendurado num saco no lombo de um cavalo, ou jogado no porta malas de um velho ônibus ou carro que suporte as estradas rurais precárias. 

É possível que essa figura se baseie em algum arquétipo do imaginário colonial, ou mesmo, que reproduza de fato, em memória inconsciente do coletivo, o tipo humano campesino do século XVIII e XIX, forçado pelas vicissitudes de seu tempo a ser assim ou, pelo menos, movido pela vida rude do campo, tal como é visto pela fidalguia orgulhosa da cidade.

Soma-se a isto a personificação do caipira na literatura brasileira, que aproveitando do elemento pré-existente contribuiu para fixá-lo no imaginário popular. Nesta mesma linha de raciocínio destaca-se a obra de Monteiro Lobato e notadamente o personagem Jeca Tatu, que à época figurou numa forte campanha de prevenção contra os males da verminose. A lerdeza de sua figura, tomada como modelo do caipira, foi atribuída à intensa infestação de vermes intestinais, adquiridos graças a maus hábitos de higiene, que, uma vez corrigidos fizeram a sua saúde regenerar e o jeca se tornou homem forte, bem disposto e trabalhador. A narrativa deste personagem teve um alcance extraordinário e foi repetido em comerciais, almanaques, coletâneas de estórias infantis de natureza didática com notável longevidade e popularidade, não obstante o caráter depreciador de sua própria figura, visto à luz do pensamento então vigente. 

Contudo, há um senão: no anedotário, o caipira surge portador de uma sagacidade incomum. Age no caipirismo; se aparenta abestalhado, mas é de fato inteligente, de pensamento rápido, esperto e se sobressai a toda cilada ou embaraço com a simplicidade costumeira, portador que é de uma solução irrefutável para cada circunstância.  

Outra ambiguidade reside na musicalidade e na poética. No imaginário urbano sobre o caipira se reconhece seu potencial nesses ramos, atribuído à sua ingenuidade de um lado e à vivência em contato com a natureza por outro. O caipira é então entendido como o sujeito que sabe como ninguém extrair do bucolismo de sua paisagem nativa os mais belos elementos para versos e melodias ao som da inseparável viola. Cantando só ou em duplas, traduz para a cidade o sentimento rural e em verdade invadiu a urbe com sua arte para mostrar que o campo tem valor. Neste contexto muito se deve aos esforços de Cornélio Pires, pioneiro nas gravações das modas caipiras, dando importantíssima contribuição para a discografia brasileira ao valorizar as duplas de cantores.  Uma das modas gravadas graças a seu esforço, "Jorginho do Sertão", celebrizou-se e tornou-se antológica. Não é desconhecido o espaço que a música caipira conquistou no mercado gigantesco de shows e gravadoras. Com os anos, as adaptações converteram o estilo original e surgiu a música sertaneja, que hoje vende milhões e povoa a mídia, já bem distante das bases. E para a distinguir, a música caipira que permanece ligada diretamente ao campo (tradicional), esta foi adjetivada com a expressão "de raiz". A formação de duplas caipiras e até trios tornou-se uma possibilidade de sucesso com larga aceitação de mercado. Modas e toadas as mais diversas foram extensamente gravadas e regravadas, algumas celebrizando-se na voz de duplas de grande êxito.

Nas artes há ainda de se lembrar das pinturas realistas de Almeida Júnior, que imortalizou o caipira em suas telas, ainda que em formato estereotipado. 

Parte da mídia e da produção cinematográfica nos vende o cowboy. E porque será que ele foi tão bem absorvido? A cultura massiva repisa valores estilizados dos vaqueiros norte-americanos que nos chegam pelas telas. O mercado se aproveita do fato. O povo o consome. Mas paralelo a isto a cultura caipira sobrevive, nem que seja fragmentada, mas está aí. Como um fator de resistência identitária ela teima em não desaparecer frente à mudança dos tempos, ainda que aparente ser anacrônica. Em vários lugares a promoção de festas que enaltecem os valores da cultura caipira são exemplos desta reação ou resistência. Os festivais de carros de bois e tropeiros em certa medida ou paralelismo andam na mesma lógica. Na zona rural de São João del-Rei, no vilarejo do Caquende, já há vários anos acontece o encontro da cultura popular, cujo foco maior é reconhecer e valorizar a cultura popular rural, os saberes do homem do campo, do lavrador. É a celebração do trabalho, da colheita, da amizade e do saber caipira. 

Foi o caipira que nos deixou as danças típicas como o catira, os cantares do cateretê e do cururu, os fandangos como suítes de danças airosas, o gosto pela viola, o padrão de tantos festejos típicos. Foi ele quem fez viver nos vilarejos os folguedos típicos, trazidos também às cidades com seu próprio êxodo, apesar de não ser esta a única via de chegada da cultura popular às urbes, onde, aliás, também se forma dinâmica e espontaneamente. Cultivou nosso patrimônio imaterial, decantou as lendas e fábulas, dominou a técnica de produção de maquinários como engenhos, moinhos e prensas. 

Ainda neste ramo da cultura é preciso enaltecer o papel do caipira na adaptação da viola ibérica ao solo brasileiro. De várias regiões portuguesas vieram os modelos originais, nossas matrizes: viola braguesa, viola amarantina, viola campaniça, viola beiroa, viola de arame, viola toeira. Foi ao sopé dos ranchos de pouso de tropas e boiadeiros, foi à sombra da árvore da beira do curral no intervalo da lida, foi no serão na cozinha, foi no alpendre da fazendinha que o caipira adaptou os modelos portugueses de viola à realidade brasileira, dando-lhe novos formatos de corpo, ao se valer das madeiras tropicais da nação, e, com muita criatividade, reinventou velhas afinações ou criou novas, as quais batizou com nomes curiosos: boiadeira, rio abaixo, rio acima, cebolão, cebolinha, paulistinha, natural, cana-verde, paraguaçu, cuiabana, nordestina, repentista, realejo, etc... E assim surgiu a viola caipira, o instrumento musical mais representativo dos meios rurais, o mais emblemático, imediato evocador da nostalgia e do bucolismo romântico das roças. Fez logo parceria com a rabeca e a sanfona. A viola caipira é o carro chefe das cantorias da zona rural, comanda as modas e pagodes de viola, as danças de São Gonçalo, as folias de Reis e as do Divino, e até mesmo, presente em muitas congadas. Alguns grupos de congo se identificam por terem como primeiro dançante de cada fila (guia) um violeiro e o povo logo o diz "congo de viola".

A favor do caipira a sua fé reconhecida o distingue, a dedicação aos festejos de seus santos queridos e protetores o enaltece pela devoção ímpar. Também o reconhecem como uma pessoa extremamente honesta e trabalhadora. 

É muito arraigada a aproximação do caipira ao mineiro do interior, quase em sinônimo. Nas piadas que o mineiro (citado expressamente como tal) protagoniza, seu personagem guarda as características do caipirismo e a expertise de sobressair sobre todos com acuidade de raciocínio. 

Qual um estereótipo, o modelo antiquado de mineiro materializa o caipira até mesmo em Minas Gerais. Nessas condições, o próprio natural deste estado, ao narrar uma piada, diz: _ "Um mineiro, lá do interior..." (como se ele próprio não fosse do interior) ou _ "O mineirinho..." (minêrin'). Interior neste contexto não é o local longe do litoral ou da capital; assume o ar de distante, longínquo, ermo _ em relação ao narrador. O caipira do interior em certa medida se equipara ao conceito de sertanejo, já em tom fantasioso. 

Se de um lado o caipira é com muito humor e sarcasmo caricaturado nas charges e nas danças juninas das quadrilhas, por outro, é em certa medida invejado por suas qualidades reconhecidas e senão mesmo idealizado como modelo de equilíbrio na vida natural. Muitos sonham em sair do caótico mundo urbano e se esconder em um rancho beira rio, sob árvores e cantos de pássaros; muitos da cidade planejam adquirir um sítio para nele viver à caipira; tantos outros nos momentos de depressão e tédio atavicamente passam uns dias no campo desprovidos de todo conforto urbano para se refazerem. Ao estresse urbano se opõe o sonho de junto a uma casinha modesta ouvir o som da viola, comer uns torresmos com angu e tomar uma talagada de boa pinga.

Aliás, à cachaça de produção seriada, industrial, crê muito apreciador desta bebida nacional, se oponha àquela de produção limitada, artesanal _ "pinga da roça" _ cuja maneira de produzir o caipira domina como ninguém. E o conceito se fixou como uma verdade, independente de qualquer argumento técnico. 

Tal ambiguidade de sentimentos parece revelar o caipira que existe em nós, do qual queremos nos livrar para provarmos à gente mesmo que nós evoluímos, sofisticamos, civilizamos (!). Mas se o desequilíbrio de nossa civilidade nos assola é o atavismo que nos torna às raízes; e, como árvore não vive sem raiz, é no campo que se busca a seiva revigorante.


Cena da colheita do milho no Caquende e intervalo para o cafezinho. 


Referências 

ARAÚJO, Alceu Maynard. Folclore Nacional. São Paulo: Martins, 1964. 3v. 

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.]. 930p. 

SAMPAIO, Teodoro. O Tupi na Geografia Nacional: introdução e notas de Frederico G. Edelweiss. 5.ed. São Paulo: Nacional; Brasília: INL, 1987. 359p. p.110 e 212.

Créditos

Texto: Ulisses Passarelli.
Fotografia: Iago C.S. Passarelli, 04/05/2014. 

Notas 

[1] Caipira - além do sentido abordado nesta postagem, outrossim é chamado 'caipira' um artefato de equitação de madeira e couro, um tipo de chicote. Ver a postagem CHICOTES.

[2] Currião - cinto de couro cru, ainda provido de pelos do animal, apenas curtido ao sol. Grande correia de suspender a calça; correiona, correião. 

- Revisão: 24/03/2025. 

sábado, 30 de abril de 2016

Caquende: cenas do encontro cultural

Esta postagem é a continuação da anterior, dedicada ao IX Encontro da Cultura Popular do Caquende (São João del-Rei/MG). Ora apresentamos uma seleção de fotografias que ilustram parcialmente a riqueza deste evento de celebração da fartura, da cultura de raiz, da força comunitária de união, da alegria e da fé. 

Nestas imagens avulsas e aleatórias se revela um fragmento da imensa cultura popular dos Campos das Vertentes, que ainda viceja nas cidades e distritos, bairros e roças. Louvado seja!

É mister registrar um voto de gratidão ao autor das fotografias que gentilmente as cedeu para composição desta postagem, Daniel Willian Dias Nascimento. 

Junta de bois.

Largo em festa: sá rainha, carro de bois, dançantes...

Chegada do moçambique de Ibituruna, tocando a jomba.
A sombra das árvores guarnece a assistência. 

Moçambique de São João del-Rei, Bairro São Geraldo. 

Congo de Carrancas.

Catupé de São João del-Rei (à direita) e Congo de Carrancas (ao fundo). 

Moçambique de Ibituruna.

Folia do Mestre João Matias canta sob a tenda. 

Cuidando do fogo no fogão improvisado, para garantir café a todos.

João do Mato na entrada da roça. 

Aspecto da colheita.

Após a colheita, os trabalhadores rurais fazem uma pausa para comes e bebes.

Broa na peneira para distribuir ao povo. 

Aspecto da distribuição alimentícia. 

Transporte festivo do milho colhido. 

Sob a tenda dançam o engenho novo (esquerda) assistidos pela folia das mulheres (direita),
congadeiros e povo em geral. 

Cortejo de congados e folias pelo largo.

Cena parcial da chegada do cortejo, vendo-se ao centro
alguns componentes do Pilão de Nhá.

A comunidade deixa água à disposição do povo.

Balsa entre o Caquende (São João del-Rei) e Capela do Saco (Carrancas)
atravessando a Represa de Camargos.

Notas e Créditos

 * Texto e legendas: Ulisses Passarelli.
** Fotografias: Daniel William Dias Nascimento, 24/04/2016, a quem agradecemos pela cessão das mesmas.