Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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domingo, 26 de março de 2017

Procissão do Encontro

Quarto domingo da quaresma em São João del-Rei. A noite ecoam sinos nas torres históricas. De duas monumentais igrejas saem procissões que rumam ao Largo das Mercês (antigo Largo da Câmara) para se encontrarem: do São Francisco vem o andor do Senhor Bom Jesus dos Passos; do Carmo sai o andor de Nossa Senhora das Dores. 

A Banda Municipal Santa Cecília (fundada em 1968) acompanha uma das procissões; a Teodoro de Faria (fundada em 1902) acompanha a outra. De ponta a ponta do itinerário ouve-se a execução de tocantes marchas fúnebres. 

As duas procissões serpenteiam pelas antigas vias, acompanhadas por membros de diversos sodalícios religiosos, paramentados com suas opas e hábitos, portando varas de prata e lanternas luminosas. 

O Largo das Mercês lota de fiéis. Também surgem vendedores ambulantes para aproveitar a movimentação; seus produtos são os cartuchos de amêndoas, maçãs do amor, pipocas, algodões doces. 

A chegada de ambos cortejos religiosos é sempre muito concorrida e pomposa, bastante solene. Na tribuna sagrada o orador se esforça em enaltecer os valores religiosos daquele momento, sua base bíblica, o comportamento dos fiéis na quaresma. Concluído o sermão os dois cortejos se unem em um só e as imagens encontradas seguem juntas para a Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, Bom Jesus à frente; Mãe Santíssima logo atrás. Nos dois passinhos (capelas-passo) do caminho a procissão para por instantes e a orquestra e coro assumem a parte musical. O aroma do incenso rescende no ar. No Pilar a procissão adentra e a cerimônia é coroada pelo Sermão do Calvário, com o pregador situado no púlpito. 

As festas de Passos caminham para a semana derradeira, "Semana das Dores", na qual a cada dia haverá a solene celebração do Setenário das Dores. 

Andor do Senhor dos Passos.

Andor da Senhora das Dores. 

Irmãos carmelitas com todo zelo e respeito conduzindo a imagem da Mãe Santíssima
sob a atenta escolta das lanternas dos irmãos mercedários. 

O pálio chega ao passinho do Largo da Cruz com membros da Irmandade do Senhor dos Passos. 

Passagem da Banda Teodoro de Faria diante da Igreja do Carmo.
  
Dobre do sino do Carmo.

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotografia: Iago C.S. Passarelli, 26/03/2017
*** Para mais informações sobre as comemorações dos Passos leia também neste blog:

PROCISSÃO DO DEPÓSITO

RASOURA DAS DORES

RASOURA DOS PASSOS

sábado, 5 de março de 2016

Assombrações do tempo roxo

"O tempo mudou muito...",  alertam os mais velhos. Nesta frase enigmática que traz em si um suspense, revelam as mudanças de comportamento frente ao que é esperado para cada época, cada tempo, cada circunstância. Assim, nesta quadra do ano, espera-se a penitência e a credulidade à "flor da pele", ou seja, a fé evidente, a crença como fator prioritário.

Mas não tem sido assim. A sociedade é outra. Movida pelo materialismo crescente e o impacto de uma era tecnológica, o homem do interior dia a dia se distancia de suas raízes culturais e é engolido pela avalanche globalizadora. Daqui e dali ecoam como estórias de um passado sempre curioso de se ouvir e imaginar, fragmentos de nossa mitologia mais típica como a que aflora todos os anos na quaresma, por ventura teimando em desaparecer da memória dos mais velhos e de algum lugar mais recôndito.

A Mesorregião Campo das Vertentes, tradicionalista como é, ainda propicia ouvir causos da quaresma assombrosa [1], sobretudo na zona rural [2].

A mula-sem-cabeça [3] segundo se diz, galopa acelerada soltando labaredas. Tarde da noite corre pelas ruas desertas e seu tropel pode ser ouvido. Mas apesar de encantada, se entrar numa via que tem uma igreja, ela nunca ultrapassa esta. Daquele ponto retorna. Se ela entrar numa rua que tem duas igrejas, entre cada extremo que estão, fica presa sem ultrapassá-las, chega numa igreja volta para a outra, até o dia clarear, quando então desencanta e volta a ser mulher, que aparece caída numa beira de calçada, meio tonta ou desmaiada. Assim contam em São João del-Rei e Tiradentes.

Quaresma também é tempo propicio para efetuar o trato com o capeta. Nesse tempo o demônio anda à solta, então aquele indivíduo que ambiciona algo aproveita para a horas mortas, nas encruzilhadas, chamar o diabo e fazer seu pedido, que obterá ao preço de sua alma, que não mais se salvará. Assim, quem quer aprender a tocar um instrumento e não tem o dom, faz um trato musical na Sexta-feira da Paixão, meia-noite. Leva o instrumento para a encruza e logo vem uma galinha com os leitões; depois que se vai aparece um cabrito e, por fim, o próprio capeta aparece sob a forma de homem, vestido de capa preta, e, tomando o instrumento nas mãos, toca-o de forma exímia. A seguir o devolve a seu dono que de imediato já consegue tocá-lo e tal instrumento nunca desafina. Tornou-se um músico virtuoso pelo trato com o maligno. Assim é corrente na memória da cultura popular são-joanense.

Ainda em São João del-Rei é difundida a narrativa de um certo baile acontecido na quaresma. Por ser desrespeitoso, numa época de recolhimento, teve um fato extraordinário. Surgiu um forasteiro muito bem vestido, elegante, charmoso. O estranho era irresistível para as moças. Exímio dançarino, bailou com todas. Foi então, lá pelas tantas, já em horas avançadas, sem ninguém nada cismar e sequer cuidar que era o "tempo roxo", que alguém olhou para os pés do tal dançarino e escandalizado, gritou em alta voz que eram pés de pato. O desespero e a debandada foi geral pois só assim reconheceram que o estranho era o próprio tinhoso. 

Caso idêntico já ouvimos em outras oportunidades, variando apenas que os pés do dançarino eram de bode, ou, noutra versão, de boi. 

Em Santa Cruz de Minas ainda nos anos noventa corria a narrativa acontecida numa certa chácara daquele município, que no lusco-fusco vespertino, de repente, vários porcos roncavam e batiam dentes no terreiro da casa e logo os moradores assustados com o forte barulho, imaginaram que os porcos tinham fugido do chiqueiro e foram verificar. Qual nada! Logo o som misterioso desapareceu, pois de fato os porcos verdadeiros do chiqueiro estavam presos e em silêncio. O ruído era do além, de uma assombração.

Créditos

-Texto: Ulisses Passarelli.

Notas 

[1] Vide a este respeito neste blog: ASSOMBRAÇÕES E PENITÊNCIA
[2] Sobre alguns mitos na zona rural leia: ASSOMBRAÇÕES NO CABURU
[3] Virar mula-sem-cabeça é como receber um castigo perpétuo. O povo acredita que a mulher que se envolve amorosamente com um padre passa a se transformar neste assombro. Outra possibilidade é quando um casal tem uma sequência de sete filhas. A sétima virará mula-sem-cabeça irremediavelmente a não ser que seja batizada pelo nome de "Maria", que então neutralizará a sina.

- Revisão: 15/04/2026. 

terça-feira, 1 de março de 2016

Retalhos para a colcha da história - parte 2

Coletânea de notas hemerográficas de São João del-Rei e cercanias (1900-1948)

O que foi dito como introdução à primeira parte desta postagem (acesso por link ao final deste post) serve exatamente a esta segunda parte. Portanto, por questão de praticidade, para não repetir as palavras, vamos direto à exposição da nova coletânea de notícias avulsas e independentes. É recomendada a leitura das notas de rodapé, que contém alguns comentários sobre as notícias.

Poço do Olho d'Água no Ribeirão São Francisco Xavier,
Serra do Lenheiro, São João del-Rei/MG

1900:
- Reforma na Igreja das Mercês – “Estão muito adeantados os reparos que, na Igreja das Mercês, estão sendo feitos pela actual Mesa Administrativa. O forro já está decorado, tendo sido estampado um retrato da Virgem das Mercês, ladeado pelos seus servos S.Pedro Nolasco e S.Raymundo Nonato. As obras restantes prosseguem.” (O Combate, n.10, 05/09/1900)

1901:
- “Praça Pedro Paulo – A Camara Municipal, reconhecendo os relevantes serviços prestados pelo illustre Coronel Pedro Paulo da Fonseca Galvão, em sua sessão, do 28 do passado, deu o nome do benemerito militar, á Praça, que se estende, da ponte das Officinas[1] ao Ribeirão d’Água Limpa. Foi um acto de justiça. Apresentamos ao Coronel Pedro Paulo os nossos parabéns.” (O Combate, n.76, 03/07/1901)

- “Mercado Municipal – Dentre as medidas redundantes em economia ao Thesouro Municipal, está o arrendamento do nosso Mercado e sabemos que está no animo da nossa Municipalidade por em hasta publica o arrendamento d’aquelle edifício publico. Ultimamente a fiscalização do Mercado Municipal tem ficado bastante despendiosa para os Cofres Publicos municipaes e por esse motivo quer e pretende a Camara arrendal-o e para isso estão sendo estudadas as bazes respectivas.” (O Combate, n.104, 21/09/1901)

- Hotel Oeste de Minas[2] (anúncio): “Attenção – Hotel Oeste de Minas – Valentim e Santos Martinelli – aposentos arejados, salões, bilhares, parques, banheiros, duchas e carro para conducção de hospedes, isto gratis. Não aceitam tuberculosos. Diarias: adultos...7$000 Creanças e creados pagarão um preço razoável, na occasião combinado. As famílias ou grande numero de pessoas gozarao do abatimento que sera convencionado. S.João d’El-Rey”. (O Combate, n.128, 30/11/1901)

1905:
- “Quaresma – Ao que consta, ouviremos, pela Quaresma e semana santa, o Stabat Mater de Rossini, o de Calvo, o de Pergolesi e o de nosso inolvidável conterrâneo Presciliano Silva; as missas e credos de Giorza, de Salvi e de Bellini; e, na sexta-feira maior, a majestosa composição de L.Perozi: Ceia e Morte de Christo. É uma excelente nova para os amantes da boa musica, nada sendo preciso accrescentar acerca do desempenho reservado a taes composições, que está confiado á orchestra do maestro Ribeiro Bastos.” (O Repórter, n.2, 05/02/1905)

- “Relógio – Já sahiu da Europa um excelente regulador, que a Mesa da Irmandade do Sacramento, com auxilio da Camara, destina a nossa egreja Matriz, em substituição ao velho relógio que, pelo seu incessante trabalhar, já tem as molas principaes estragadas, regulando mal.” (O Repórter, n.2, 05/02/1905)

1906:
- Reforma do Mercado– “Estão muito adeantadas as obras, que estão sendo realisadas no Mercado Municipal e destinadas a receberem a nova grade de ferro, que a Camara manda colocar ali, levando mais esse acto para o activo de seus serviços a esta cidade e no Municipio.” (O Repórter, n.25, 29/07/1906) [3]

- “Nuvem de gafanhotos – Como em Juiz de Fora, no mesmo dia 9, segundo telegramma transmitido dessa cidade para a imprensa carioca, seguindo o mesmo rumo de norte a sul, cerca de 2 horas da tarde, atravessou aqui uma grande nuvem de gafanhotos, em certos pontos tão intensa que conseguiu encobrir os raios solares. Alguns eram de tamanho nunca aqui visto, não deixando de causar um certo temor na população. Felizmente a travessia dos terríveis insectos foi de uma hora, mais ou menos.” (O Repórter, n.37, 14/10/1906)

1907:
- “Ramal de Pitanguy – Por estes três meses, diz telegrama do snr. Dr. Chagas Doria ao snr. Ministro da Viação, deverá ser inaugurado o ramal de Pitanguy, melhoramento importante, que, desde muito tempo, está a reclamar a sympathica cidade sertaneja.” (O Repórter, n.22, 23/06/1907)[4]

- Problemas sanitários – “O dr. F. Catão realmente precisa de tomar um destes trens, mas não para se ir de vez, mas para voltar o mais breve possível, e trazer em sua companhia gente que nos ajude a fazer reclamações contra a agua suja, a praia [5] suja, o matadouro sujo, as ruas sujas que temos nesta hospitaleira, e salubre cidade.” (O Grypho, n.10, 24/11/1907)

1917:
- “Chuva Providencial – Parece que alguém lá das alturas, attendendo ás reclamações do povo, delle condoeu-se e mandou, no segundo dia de festas em Mattosinhos, uma chuvinha miúda incumbida de aplacar o pó que era barbaro e inclemente. Ninguém lá de cima tem obrigação de mitigar os soffrimentos dos que estão cá em baixo; compete somente á Câmara mandar irrigar o Largo de Mattosinhos e trazer-lhe uma capina em regra, porque só ela tira proventos do povo com pesados impostos e taxas absurdas. Os negócios de nossa Câmara vão de mal a pior. É o povo queixar-se ao bispo.” (A Nota, n.24, 30/05/1917)[6]

- “Apparecem os gafanhotos – Lá pelos lados de Aguas Santas e nas imediações do estribo do Brighentti, começam a aparecer densas nuvens de gafanhotos, pondo em polvorosa o pessoal por onde passam os bandos dos danninhos insectos. Quem nos trouxe a noticia affirma-nos que durante a passagem dos terríveis orthopteros nota-se uma escuridão qual a da noite; afirma-nos mais o nosso informante que o espectaculo é medonho e quem o presencia tem a impressão perfeita do barulho de uma hélice de aeroplano em franca rotação. É bem provável que, devido a nossa cidade achar-se nas proximidades onde os gafanhotos estão aparecendo tenhamos dentro em breve de observar também tão terrível espectaculo. Caso apareça tão terrível flagello entre nós, como providenciará a nossa Câmara? É ir-se preparando desde já...” (A Nota, n.25, 31/05/1917)[7]

- “Voluntários de manobras – No quartel do 51º batalhão de Caçadores encerrou-se hontem a inscripção para o voluntariado de manobras. A mocidade de S.João d’El-Rey acaba de dar mais uma prova de seu nunca desmedido civismo. Alistaram-se 213 voluntarios, dos quaes 202 foram considerados aptos, 9 julgados incapazes e 2 não compareceram á inspecção medica. Podemos dizer com orgulho que S.João d’El-Rey é a cidade de Minas que maior numero de reservista tem dado ao exercito; com o contingente de agora esse numero attinge acerca de quatrocentos homens.” (A Nota, n.70, 21/07/1917)[8]

1923:
- Aquisição de terreno – a Resolução Municipal nº481, de 31/03/1923, autoriza o executivo à compra de um terreno, “por quantia não excedente á da compra effectuada ao sr. Francisco Messias da Silveira, a parte pertencente a d. Ermelinda da Silveira Milward no immóvel chamado “Olhos de Agua”, junto ás vertentes da represa velha do abastecimento desta cidade.” (A Tribuna, n.468, 15/04/1923)[9]

1926:
- “Estação de Caburu – É justo salientarmos nesta folha os constantes esforços com que contribuiu para a construção da estação de Caburu o sr. cel. Antônio Balbino de Sousa. Aquelle nosso prezado amigo desdobrou-se em boa vontade e atividade para a consecução do importante “desideratum”, tornando-se, portanto, merecedor dos mais effusivos louvores.” ( A Tribuna, n.751, 28/05/1926)[10]

- Escola distritais – a lei municipal nº496, de 27/11/1926, autoriza a criação de uma escola noturna na Colônia José Teodoro e outra em “Nazareth”, atual cidade de Nazareno. (A Tribuna, n.814, 30/12/1926)[11]

- Estrada de Turvo – por força da lei municipal nº497, de 27/11/1926, a Câmara Municipal de São João del-Rei autorizou a despesa de 10:000$000 (dez contos de réis), como subvenção parcelada para o exercício financeiro do ano seguinte, para construção da estrada de automóveis interligando esta cidade a Turvo, atual Andrelândia, no Sul de Minas Gerais. (A Tribuna, n.814, 30/12/1926)

1932:
- Festa no Albergue – “Encerraram-se com a procissão de domingo último, dedicada a S.José, as tradicionais festividades que se realisam na Capela do Albergue Santo Antonio. O préstito religioso de domingo esteve brilhante, comparecendo elevado numero de fieis. A banda do 11º R.I. abrilhantou todas as festividades, quer aos tríduos, quer a procissão. De ordem da Prefeitura foi iluminado o morro do Albergue, oferecendo este agradável impressão”. (Folha Nova, n.8, 24/04/1932)[12]

1938:
- “Missa dos Alfaiates - A comissão de alfaiates encarregada de promover a missa em honra à S.Geraldo, o protetor da classe, pede-nos avisemos que por falta de sacerdote não pode ser celebrada hoje, dia do milagroso santo, ficando por isso transferida para amanhã, ás 7 horas na Igreja Matriz. A referida comissão faz um apêlo para que todos os alfaiates compareçam a esse ato religioso, afim de ganharem graças para o constante progredir religioso desta tão numerosa classe operária.” (Diário do Comércio, n.181, 16/10/1938)[13]

- “Nova rodovia de S.João del-Rei á Barbacena – As empresas de transporte desta cidade, estando á frente o Expresso S.João e o fazendeiro Abel Carlos Moreira Campos, do distrito de Padre Brito, projetaram a construção de uma linha rodoviária, ligando o distrito de S. Francisco do Onça ao Ponto Chique, quilometro 27 da estrada de Ibertioga, ficando desse modo S.João del-Rei ligada a Barbacena por uma nova via, num percurso de 80 quilometros certos. Essa rodovia destina-se principalmente ao tráfego de caminhões pesados e de ônibus com as rampas em gráca necessários a tais transportes.” (Diário do Comércio, n.212, 23/11/1938)

1948:
- “De Prados - Natal dos pobres - Consoante o costume, realizou-se nesta cidade, a 25 de dezembro, o já tradicional almoço ajantarado oferecido pelas exmas. familias aos pobres da localidade. Devido ao mau tempo reinante, essa interessante refeição coletiva não teve a mesma concorrência dos anos anteriores, tendo dela participado uns 200 pobres. As respeitáveis irmãs de caridade da Santa Casa serviram o almoço, com a cooperação de distintas jovens do nosso escol social.” (Diário do Comércio, nº2.975, 04/01/1948)

Placa indicativa improvisada no distrito de Emboabas (ex São Francisco do Onça)
indicando o entroncamento para Ponto Chique. 

Referências Hemerográficas

Jornais editados em São João del-Rei; acervo da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d’Almeida, desta cidade
Referência Bibliográfica

Prontuário Geral das Estações Ferroviárias, 1945. 2.ed. Belo Horizonte: Departamento de Estatística, 1947.
VIEGAS, Augusto. Notícia de São João del-Rei. 3.ed. Belo Horizonte: [s.n.], 1959.

Notas e Créditos

*Texto, pesquisa e fotografias: Ulisses Passarelli
** Leia também neste blog a primeira parte desta postagem como mais notícias históricas:



[1] - Ponte das Officinas: o sentido exato não está claro e pode se referir a duas pontes: 1- havia uma ponte sobre o Córrego do Lenheiro interligando a Rua Antônio Rocha à Paulo Freitas, em frente às oficinas da Estrada de Ferro Oeste de Minas. Esta ponte não existe mais. Ficava exatamente entre as atuais pontes Inácio Zózimo de Castro e Monsenhor Tortoriello; 2- pequeno pontilhão da via férrea sobre o Córrego da Tabatinga, na saída da estação, entrada do Bairro São Judas Tadeu (antiga Caieira). É possivelmente a esta ponte que se refere o texto, pois dela à Ponte do Ribeirão da Água Limpa ainda hoje é o logradouro conhecido por Praça Pedro Paulo, popularmente, “PPP”, outrora chamada “Estrada da Tabatinga”. Era o caminho antigo de acesso a Matosinhos.
[2] - O Hotel Oeste de Minas sofreu terrível incêndio em 1919, que representou o seu fim. O prédio, contudo, construção muito sólida, foi mantido e hoje em excelente estado de conservação, sedia o CESC (Centro Social e Cultural), do 11º BI, Regimento Tiradentes, do Exército Brasileiro.
[3] - O mercado naquele tempo ficava exatamente ao lado da Prefeitura Municipal, no terreno onde mais tarde foi construído o Fórum, prédio que hoje serve à Câmara Municipal.
[4] - O ramal referido era um trecho de via férrea de cerca de 45 km, que interligava a cidade de Pitangui à “Linha do Sertão” da Estrada de Ferro Oeste de Minas, com a qual se encontrava exatamente na Estação de Velho de Taipa, km 436,928. A inauguração se deu em 23/11/1907.
[5] - Praia: nome corriqueiro que os são-joanenses dão ao Córrego do Lenheiro, que entrecorta a cidade.
[6] - Tradicionalmente, desde o século XVIII, eram três dias de festejos subsequentes: Domingo de Pentecostes consagrado ao Divino Espírito Santo, segunda-feira (o segundo dia), consagrado ao Senhor Bom Jesus de Matosinhos e a terça a Nossa Senhora da Lapa.
[7] - Até 1930 a Câmara Municipal congregava todos os poderes. Um dos vereadores era escolhido para ser o agente executivo, cargo que corresponde ao atual de prefeito. Daí, em todas estas notícias antigas, os pedidos de providências e as referências a autorizações, sempre partem da Câmara. Somente com o Estado Novo de Getúlio Vargas se estabelece o regime de prefeituras, separando o executivo do legislativo.
[8] - Notar que este fato ocorre no período coincidente com o da 1ª Guerra Mundial.
[9] - Ainda hoje a região do Olho d’Água, no Ribeirão São Francisco Xavier, em área do Parque Ecológico Municipal da Serra do Lenheiro, é fornecedora de água para abastecimento público.
[10] - Este Sr. Antônio Balbino de Sousa, foi Imperador da Festa do Divino no ano de 1923, salvo caso de engano por se tratar de um homônimo. A este respeito veja a postagem: AS FESTAS DE 1923. Estação de Caburu: ficava no distrito são-joanense de São Gonçalo do Amarante, ex Caburu. Esta notícia é intrigante pela data (1926), porque consta que a estação deste distrito só foi inaugurada quatro anos depois, em 1930 (A Tribuna, n.1.012, 16/02/1930), com o nome de Mestre Ventura. Seria a mesma plataforma férrea? Antigos moradores de São Gonçalo referem-se a uma primitiva parada do trem no km 123, contudo, a Estação de Mestre Ventura ficava no km 127,137. Seriam as mesmas plataformas de embarque e desembarque? Ou a inaugurada em 1926 era a parada do Km 123, depois substituída pela estação de 1930 no km 127? Para aumentar a controvérsia, o “Prontuário Geral das Estações Ferroviárias”, referenciado nesta postagem, dá para a Estação de Mestre Ventura a data de 07/09/1931... Seria ainda uma remodelação daquela de 1930? Eis um campo aberto a pesquisas de confirmação. A estação foi demolida após a erradicação dos trilhos e dela só restam vestígios das pedras da plataforma e a caixa d’água.
[11] - Nazareno emancipou-se de São João del-Rei em 1953. A escola da colônia não existe a muito tempo e está arruinada.  
[12] - A Capela de Santo Antônio, do Albergue Santo Antônio, nos limites entre a Rua Frei Cândido e Praça Dom Silvério, no Bairro das Fábricas, data de 1912.
[13] - Outra notícia da Festa de São Geraldo promovida por alfaiates surge no jornal A Tribuna, n.692, de 25/10/1925, que diz que o santo é “protetor da laboriosa classe”. Daria motivo para um oportuno estudo a hipótese da construção da capela deste santo no alto do morro que ganhou seu nome, ter sido ou não sob a influência ou iniciativa dos alfaiates, haja vista estar nos limites do Bairro das Fábricas, onde se situavam várias fábricas de tecidos, estabelecidas a partir do final do século XIX. Afirmou Augusto Viegas que a Capela de São Geraldo foi “erigida em 1914, graças principalmente aos esforços de Lúcio Justino de Andrade, modesto operário” (p.262). Qual a real importância que o estabelecimento das tecelagens teve na urbanização daquela área da cidade?

sexta-feira, 20 de março de 2015

Quinta-feira de Trevas

"Trevas" é como popularmente se chama a quinta-feira da Semana Santa à guisa de um sombrio epíteto. Quinta-feira Santa. O nome é um corolário de todo o ideal de terror que se infundia entre os fiéis durante a quaresma. 

Foi o dia no qual Cristo foi aprisionado pela traição de Judas Iscariotes. Em São João del-Rei, é o dia tradicional da “visitação das igrejas”, quando os devotos à partir das 18 horas vão aos antigos templos do centro histórico visitar um por um, fazer suas orações e ver as montagens cênicas alusivas aos últimos dias de Jesus como humano. Cada templo se esvazia de seus bancos ou os arreda; o assoalho é recoberto por muitas folhas de rosmaninho, que exalam odor característico, muito intenso; todas as imagens dos altares estão recobertas por panos roxos; a luz está atenuada para melhor efeito da montagem, pois é sobre ela que se focaliza a iluminação; como fundo musical se ouve música barroca. Na porta da igreja, meninos batem matracas de tempo em tempo. Quando chegam fiéis, apresentam-lhes uma sacolinha para recolher o óbolo, gritando mecanicamente ao estendê-la: “para a cera do Santo sepulcro!” e matraqueiam alto. Sem dúvidas, é uma cena característica. As ditas montagens são compostas por grandes painéis pintados com figuras bíblicas, ou, mais comumente, por manequins vestidos à imitação de apóstolos, judeus, etc., ou com a mesma função, santos de roca, despidos das vestes habituais e trajados com roupas e adereços que os fazem representar personagens. Vasos de flores, objetos variados, túnicas, barbas postiças, candelabros, cântaros, etc., vão compondo o cenário. Numa igreja se representa a cena da última ceia; noutra, por exemplo, o calvário; ainda outra, a ressurreição de Lázaro, além de outros episódios marcantes. A porta de cada igreja, adultos e crianças vendem cartuchos de amêndoas, arnica, alecrim de horta, manjericão e rosmaninho, considerados bentos nessa época. Aliás, os altares também se revestem dessas ervas medicinais. Os passinhos estão também abertos à visitação, inclusive o oratório de Nossa Senhora da Piedade e do Bom Despacho. 

Mais tarde, terminadas as visitas, aos fundos da Catedral do Pilar, num grande palanque, tendo por fundo um painel com a pintura da mesa da Santa Ceia, realiza-se a solene cerimônia do Lava-pés, quando o bispo com uma bacia, água e uma toalha, lava e enxuga os pés de doze padres, fazendo lembrança do gesto humilde de Jesus para com seus apóstolos. Grande multidão assiste à tocante cerimônia. Em muitas cidades ela é realizada, com maior ou menor pompa. O clima barroco e da música sacra são-joanenses a fazem em tudo especial. 

Nas roças, ocorre ou ocorria, nessa noite, um interessante costume, agora, caso ainda existente, banido para os locais mais recônditos: indivíduos, valendo-se do escuro e calada da noite, vagam pelos quintais alheios, roubam coisas fúteis, objetos de pequeno valor. Em alguns lugares o produto roubado era anunciado à vítima, que nada fazia, como se permitisse a ação. 

No Sábado da Aleluia, tudo quanto fora roubado surgia no interior da Chácara do Judas e ninguém o retomava para si, mesmo reconhecendo o seu objeto que sumira. Quando da leitura do Testamento do Judas, ao ser citado fulano ou sicrano nos versos, o mesmo recebia por herança o próprio objeto que lhe fora furtado. 

Esse roubo consentido, não traz assim prejuízo material e em si contém uma crítica por ser ao seu próprio dono, aos olhos da comunidade, um presente devolvido pelo traidor de Cristo; portanto, uma farpa moral. O sentido simbólico é profundo. 

Em alguns lugares essa quinta-feira é justamente chamada “Dia da Judiaria”, pois além da ação dos larápios, fazem ainda travessuras a horas mortas, como abrir porteiras e galinheiros, comportas de moinhos, etc. Tudo é permitido nesse dia “sem lei”, pois a lei maior do mundo, o Messias, foi preso por traição. Judiaria é termo que remete aos atos dos judeus que condenaram o Filho de Deus, como também aos profetas que lhe prenunciaram. Essas questões ligadas aos judeus são constantes na cultura popular cristã. Com base nisso é que existe até o verbo “judiar”: fazer maldades, e daí, judiado, judiação, judiaria. Muito embora no presente, novas correntes de pensamento ou outras visões sobre as palavras condenem seu uso e estimulem o abandono dessas expressões, por representar uma discriminação contra esse povo, no entanto, tal discussão permanece mais nos meios intelectuais, enquanto nos populares o uso persiste arraigado. 

Uma quaresmeira (melastomatácea) da Serra de São José,
flor muito representativa do período em questão.
O roxo é a cor símbolo da quaresma.

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografia: Iago C.S. Passarelli, 2015.

Notas

- Revisão: 19/03/2026. 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Assombrações e Penitência

A quaresma começou ...


Vencida a Terça-feira Gorda, concluiu-se mais um ciclo festivo anual. O primeiro é o natalino, que nas tradições populares começa no dia de Nossa Senhora da Conceição (8 de dezembro) e vai até o de Nossa Senhora das Candeias (2 de fevereiro), data limite, já cruzando com as batucadas carnavalescas.

Se o primeiro é o tempo da esperança, o segundo (carnaval) da alegria extravasadora, o terceiro, o quaresmal, iniciado na Quarta-feira de Cinzas, é o período da penitência, do recolhimento. A admoestação voeja em redor dos pecadores, pesando-lhes os abusos cometidos no carnaval, e convida-os sob a imposição da cinza na testa, diante dos altares, a voltar-se ao Criador. 

São dias de penitência todas as sextas-feiras, e ainda e em especial, a Quarta-feira de Cinzas e a Sexta-feira da Paixão.

Na penitência o cristão evita a carne vermelha. Deve substituí-la pelo ovo ou pelo peixe. É tradição muito antiga, inalienável ao fiel tradicionalista. Obviamente a penitência não se resume apenas a esse gesto alimentar.

O povo acredita que não fazendo penitência na quaresma ou cometendo abusos em horas impróprias na rua, entregando-se à jogatina ou à bebedeira, aos bailes e cantorias, se tornará alvo fácil dos espíritos do mal, que surgem sob os mais diferentes aspectos. Alguns, por sinal, bastante curiosos. 

Assim, na região, ouve-se falar do pinto pelado, uma aparição demoníaca de um pintinho misterioso, desacompanhado de sua mãe, piando sem parar, implume, imortal, arrepiante... [1]

Tanto mais aparecerá ao incauto a porca com os pintinhos, uma assombração que surge na quaresma, tanto mais a horas mortas, pelos caminhos e encruzilhadas. A disparidade se evidencia no nome do espectro, com mães trocadas. Assim pode surgir também como a galinha com os leitões. Um canto de calango alude a este assombro [2]: 

“Calango tango, 
no calango dessidão, 
nunca vi cantá calango 
Sexta-feira da Paixão... 
vem a Porca com os Pintinho 
e a Galinha com os leitão!” 

São bichos fantasmagóricos, de outro mundo. Em São Paulo corre um mito equivalente, a “porca dos sete leitões”. E assim a velha quaresma era povoada dos mais estranhos seres sobrenaturais, tais como o saci-pererê com suas traquinagens, a mula-sem-cabeça chispando fogo, o lobisomem ameaçador com sua dentaria aguçada. A modernidade baniu o sobrenatural. A incredulidade é o assombro hodierno. 

De volta à penitência é de se lembrar nesse tempo de pouca chuva, que outrora era usual a Procissão da Penitência, destinada a redimir as faltas da comunidade, para que Deus, num ato de perdão, cesse um determinado flagelo - seca, enchente, peste, fome, etc. Procede-se de ordinário em horários de calor, por longas extensões, estradas ruins, justamente para aumentar o grau de sacrifício penitencial.

Uma dessas procissões de antanho, partiu da primitiva Capela de Nossa Senhora do Bom Despacho, na Serra de São José, desde longa data demolida. Num tempo de seca a procissão seguiu para Tiradentes (antiga São José del-Rei), levando a imagem do Senhor dos Passos até a Matriz de Santo Antônio. Ocorre que naquele caso específico a irmandade também se transladou e nunca mais voltou à pequena capela em questão, que terminou em ruínas [3]. 

Bem menos dramático e contudo mais anedótico ou caricato é o causo de uma procissão da penitência, também para atrair chuva. Contava-me meu avô [4], que num tempo de calor implacável o padre dissera em sermão do púlpito aos fiéis, que a culpa da seca era deles, por causa do acúmulo de pecados. Deus estava bravo. Daí, só tinha um jeito: penitência. Marcou a data e a hora, 15 horas _ 3 da tarde _ sol no máximo. O sacerdote foi na sombra durante toda a procissão, protegido pelo pálio. Todos os demais torrando no calor. No momento de um canto religioso, após o refrão, o padre entrou em voz solista, no ritmo da música, dando ordem para soltar os fogos de artifício, mas mudando os versos para provocar o sacristão, com quem andava meio enraivecido pelo roubo do vinho eclesiástico: 

"Seu sacristão, 
solte essas bomba, 
vocês vai no sol,
eu vou na sombra..."

Na virada da estrofe o sacristão não deixou por menos e no mesmo tom retrucou em reclamação aos abusos do padre: 

"É isso mesmo 
que vancê tá dizêno,
nóis que trabáia,
você vai comendo..."

Lanterna de procissão. São João del-Rei/MG. 

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Foto: Iago C.S. Passarelli. 

Notas 

- Informante: Elvira Andrade de Salles, Santa Cruz de Minas, 1996.
- Informante: idem, referindo-se a uma cantoria da zona rural de Bias Fortes, informada em 1997. 
- FILHO, Olinto Rodrigues dos Santos. A Capela do Bom Despacho do Córrego - memória histórica. In: Inconfidências. Tiradentes: Sociedade Amigos de Tiradentes, ano1, n.6, jul./1996. p.3. 
- Informante: Aluísio dos Santos, São João del-Rei, 1994. 

domingo, 18 de maio de 2014

Charola

Dentre outras acepções, charola é um pequeno andor. Diz uma antiga quadrinha popular:


Charola e andores azuis. Capela de N.S. da Vitória,
São Sebastião da Vitória (São João del-Rei/MG).
"Que santo é aquele, 
que vem na charola? 
É São Benedito 
e Nossa Senhora!” 
(domínio público)

Algumas charolas tomam formas específicas, como barcos (de São Pedro e N.S. dos Navegantes - padroeiros dos pescadores) e carrocerias de caminhão (de São Cristóvão - padroeiro dos motoristas).

Charola é também um antigo cortejo peditório trazendo a imagem do Senhor Bom Jesus sobre um pequenino andor, que rapazes carregavam pelas ruas pedindo esmolas para a Festa dos Passos. A este respeito existe uma notícia levantada por Antônio Gaio Sobrinho, informando o incidente de 1781, em São João del-Rei, quando o grupo foi atacado pelo Brigadeiro Francisco Joaquim Araújo Magalhães, que espatifou o andorzinho sob os pés e quebrando a imagem do Senhor dos Passos, levou-lhe a cabeça, sem a restituir, não obstante os protestos.  

A origem da charola seria decerto portuguesa. Em Portugal há as “alvíssaras”, que segundo Cascudo“são grupos de rapazes e moças que cantam versos em louvor da Ressurreição, indo à porta da igreja ou às casas dos amigos, recebendo amêndoas, passas e tremoços.” 

Na zona da mata mineira, microrregião de Viçosa ainda são praticadas as charolas de quaresma como se fossem folias dos Passos, onde foram referenciadas por Paniago e por Giovaninni Jr.

Referências bibliográficas

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.]. 930p. 
GAIO SOBRINHO, Antônio. Visita à Colonial Cidade de São João del-Rei.  São João del-Rei: Funrei, 2001. 128p. p.107.  
GIOVANINNI JÚNIOR, Oswaldo. Registro do Folclore da Zona da Mata. Juiz de Fora: Companhia Força e Luz Cataguazes-Leopoldina / FUNALFA, 2004. (Folder)
PANIAGO, Maria do Carmo Tafuri. O Folclore na Zona da Mata Mineira. Boletim da Comissão Mineira de Folclore, Belo Horizonte, dez. / 1991. n.l4. 16p.il.


Notas e Créditos

* Texto e fotografia (2013): Ulisses Passarelli

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Sexta-feita da Paixão em Conceição da Barra de Minas

O Descendimento da Cruz e a Procissão do Enterro

(ofereço em especial ao pároco dessa cidade, por sua dedicação e sensibilidade)

O ciclo da quaresma é um período riquíssimo em manifestações religiosas fortemente eivadas de valores culturais. Nos Campos das Vertentes estes eventos tem muita força e tradicionalidade, conhecidos em várias cidades e distritos, alcançando em algumas grande vigor, a exemplo de Prados, Tiradentes e sobretudo São João del-Rei, onde atingiu um patamar extraordinariamente preservado, que lhe garante um grande afluxo de visitantes e fiéis. 

Nesta postagem o olhar se volta para a aconchegante Conceição da Barra de Minas, cidade de origens setecentistas que ainda conserva belos exemplares arquitetônicos em igrejas e casario, e muitos costumes dignos de nota. Ora focamos o Descendimento da Cruz e sequencialmente a Procissão do Enterro, na Sexta-feira da Paixão, segundo observação de 2014. 

A cruz do Senhor e figurados diante da matriz paroquial.
Na praça da matriz, diante da imponente igreja da padroeira, Nossa Senhora da Imaculada Conceição, é armada uma arquibancada de madeira centrada pela grande cruz onde está fixada a imagem de Jesus. De um lado e outro se postam os "figurados", assim chamados os figurantes, pessoas da comunidade que nesse dia se caracterizam em papéis bíblicos, tais como centuriões romanos e apóstolos, Moisés, João Batista, Salomé e Herodíades, etc. (*)

O sacerdote ressalta os valores da fé cristã. 
De uma tribuna posta adrede, entre os figurados e o povo na praça, o pároco, Padre Saulo José Alves, em eloquente e empolgante oratória, perfeitamente embasada nos preceitos evangélicos, mantém toda a grande massa de fiéis presentes em contínua atenção para os elementos sagrados da Paixão do Senhor. 

Sequência do Descendimento da Cruz.

Ao fim de sua pregação conclama aos personagens José de Arimatéia e Nicodemos a passo a passo, descer a imagem do Crucificado: primeiro lhe tiram os cravos das mãos, depois é suspenso pela toalha alvíssima, a seguir o cravos dos pés, e lentamente vai sendo descido ao colo da jovem que representa Maria, a Mãe Dolorosa. Momento tocante, clímax simbólico de toda uma catequese magnificamente teatralizada com o máximo respeito e participação na fé de fiéis daquela comunidade.

Vêronica canta com toda dramaticidade.

Após a prédica a Verônica sob à tribuna e canta com grande sentimento o "O vos omnes": há dor maior que a minha dor? Vagarosamente desenrola a toalha onde está estampada a face do Salvador e depois aos poucos a enrola de novo. Fazendo-lhe eco, lamentam as três Maria Beú: "Heu, Deus!"

As lutuosas Maria Beú, uma representação das tradicionais três Marias.
São plangentes carpideiras em sentinela pela morte de Cristo.

A veneranda imagem do Senhor Morto é descida ao esquife. Sua sobriedade é quebrada pela cor intensa de algumas flores de orquídeas, Cattleya loddigesii, carinhosamente ali depositadas. O cortejo processional toma forma, saindo pela praça. Na dianteira o grande estandarte carregado na horizontal, deitado, com a sigla da condenação, SPQR. Os figurados se seguem em notável harmonia, iniciados por Adão e Eva, dois jovens em vestimenta básica de folhas artificiais. Ele traz um cipó de forma espiralada enrolado no ante-braço evocando a astuta serpente; Eva vem mordendo uma maçã. Seguem-se muitos outros personagens, povo e mais povo, gente que não acaba mais, parece que a cidade toda está ali. A banda vem também, com suas marchas fúnebres.

A banda honra a antiga e enraizada tradição musical do lugar.
Pelas tantas vem o esquife do Senhor Morto sob o pálio roxo, ladeado por centuriões e membros da Irmandade do Santíssimo Sacramento. A sua passagem é acompanhada por quase todos. Quem não vai por algum motivo, se persigna à sua passagem. 

O pálio com o esquife. 
Fiéis rezam o terço, concentrados. Alguns vem de vela à mão, contritos. Ser devoto é ter a alma preenchida de luz. O lume emana, irmana.
Uma devota.  
Uma nota pitoresca que hoje muito raramente se vê noutros lugares nessa cidade está felizmente preservada: é a presença dos farricocos, que a corruptela popular transforma em "fura-cocos", marchando céleres, de dois em dois, batendo matracas. Há duplas que caminham no sentido do fluxo da procissão, outras no inverso e às vezes se cruzam matraqueando numa cena assaz pitoresca. No passado, seu papel era manter a ordem das filas contra a invasão de bêbados ou eventual desordem de alguma criança, fustigando os desobedientes com varadas. Abolida a forma do castigo, permanecem impondo a presença mascarada em cone, no traje preto profundo, figuras ancestrais, simbólicas.

Farricocos.
A presença dos farricocos é uma nota especial desta procissão em Conceição da Barra de Minas, conferindo-lhe uma importância ímpar no cenário das tradições das Vertentes. São de origem ibérica, trazidos ao Brasil colonial e mantidos em muito poucas cidades.

Farricocos.
A procissão desliza, serpenteia, como um fluxo gigante de devotos entre o casario cheio de preciosidades arquitetônicas. Por fim vem o andor de Nossa Senhora das Dores, aglomerando mais fiéis ao redor. O itinerário é longo, penitencial. Mas ninguém reclama. Todos estão ali pelo mesmo motivo, a mesma fé motriz, tendo a tradição por leme.

Parte da multidão de fiéis que toma as ruas durante a Procissão do Enterro.

Conceição da Barra de Minas deve se ufanar de seus costumes e envidar todos os esforços em prol de sua preservação, dentre o patrimônio material e imaterial, que em verdade só tem plenitude de sentido quando são sentidos assim, vivenciados e compartilhados, não um mero cenário, mas parte integrante da vida em comunidade.

Notas e Créditos

* Obs.: em São Miguel do Cajuru, distrito de São João del-Rei, informações orais deste ano dão conta de que entre os figurados da Paixão naquela vila estão as Virtudes Teologais (Fé, Esperança e Caridade), Adão e Eva (cobertos com folhas de café!), os Apóstolos, Moisés, Abrãao e Isaac, Centuriões, Ester, Maria de Cléofas, José e Maria, Nicodemus, José de Arimatéia, Verônica e as três Maria Beú. A informante citou ainda escoteiros. 
** Texto: Ulisses Passarelli
*** Fotos (19/04/2014): Iago C.S. Passarelli
**** Agradecimentos: Daniel William Dias Nascimento, pelo apoio concedido. 
*****Sobre as tradições quaresmais desta cidade, leia também, clicando no link abaixo:

ENCOMENDAÇÃO DAS ALMAS EM CONCEIÇÃO DA BARRA DE MINAS  

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Roxo, a cor da penitência

A simbologia das cores é de largo uso em várias religiões [1] e não escapa aos nossos costumes de antigas bases coloniais. Igualmente a perspicácia da cultura popular adotou as cores em suas manifestações folclóricas. Também são empregadas em busca de efeitos benéficos na "cromoterapia", o tratamento com cores. 

Dizemos habitualmente "cores quentes" - evocação do fogo (vermelho, amarelo, laranja), "cores leves" - alusão à tranquilidade (rosa, verde, azul, branco), "tons pastéis" - leveza, abstração (cinza, bege, camurça, palha, castanho, pardo), "cores pesadas" - fechamento cromático, concentração (preto, marrom, roxo). 

Flâmulas feitas de grandes panos roxos pendem dos janelões da Igreja de São Francisco de Assis.
São João del-Rei, 2014
.
O roxo e sua variante clara, o lilás, dominam esta quadra do ano pela influência do catolicismo. Nas alfaias das igrejas e nos paramentos dos sacerdotes, esta cor nos conduz pela observação ao espírito de recolhimento pregado na quaresma, reflexão, introspecção, em busca da reconciliação com o Criador do qual nos afastamos através dos erros. 

Nas procissões quaresmais, o andor dos Passos mostra-nos o Senhor com pesada cruz, ornado de vários tons entre rosa, púrpura, vinho, lilás. Mas pergunte ao povo que cores são aquelas... tudo roxo, é claro. 

Andor do Senhor dos Passos. Igreja de São Francisco de Assis.
 São João del-Rei, 2014.
 
Siglas douradas em letras grandes se aplicam ao estandarte roxo. Abreviatura da prepotente expressão latina "o senado e o povo romano" (senatus populus que romanus). A tradução popular é menos emblemática. Para o povo é "sal, pão, queijo, rapadura" ou com mais gaiatice, "São Pedro quer rapadura"; ou ainda, "seu padre quer rapé"... 

Grande pendão de abre-alas na Procissão do Encontro.
São João del-Rei, 1999. 

A própria natureza se engalana de roxo nesse período. As quaresmeiras (melastomataceae), embora nos brindem com flores também noutros períodos, neste em especial, na amenidade de tempos outonais, se revestem da maior beleza, pela abundância e viço da floração. Nos alagadiços ou nos jardins caseiros, nos campos ou nas praças públicas, o roxo domina a paisagem. 

Quaresmeira em um brejo de altitude da Serra do Lenheiro.
São João del-Rei, 2010.


O povo, certamente inspirado nessa beleza, tece sobre ela sua poesia simples mas de uma profunda sensibilidade:
Fui no campo apanhar flor,
a campina infloresceu, 
apanhei fulô roxinha
por ser triste como eu... [2]

A penitência invocada, evocada, provocada pelo roxo quaresmal, pairando entre a tristeza de um luto e a reflexão da fragilidade humana, não conserva seu clima só nessa ambientação dramática, barroquíssima, mas traduz também uma certa alegria, através do sentimento íntimo de pertença a todo esse complexo religioso-cultural, que aproxima o fiel, o envolve, mistifica e sentimentaliza.

Notas
 
[1] - Nalguns terreiros religiosos de matriz afro-brasileira o roxo carrega também sua invocação, votivo que é de Nanã, a "Avó dos Orixás" (alusão à sua ancestralidade), sincretizada com Santana, e ainda, consagrado ao respeitadíssimo orixá sr. Omulu (sincretizado com São Lázaro) ou a manifestação jovem, Obaluaê (sincretismo com São Roque). Daí os exus dessa linha trabalharem sobre a cor roxa.

[2] - Trova popular informada pela sra. Elvira Andrade de Salles, Santa Cruz de Minas, 1997.

Créditos


Texto e fotos: Ulisses Passarelli.
Revisão: 31/03/2025. 
Leitura recomendada de textos de temática correspondente: