Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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segunda-feira, 19 de março de 2018

Sacolinha de São José

O dia 19 de março é reservado no calendário católico aos festejos ou memória em honra a São José, o Carpinteiro, esposo de Maria de Nazaré, Mãe de Jesus. Ao largo das comemorações oficiais o povo por si mesmo difunde crenças e formas próprias de recorrer ao prestigiado santo. Assim é que no Nordeste brasileiro, este é o dia de observar de maneira especial o clima: se chove no dia deste santo ou o clima fica fresco, é sinal positivo de um bom inverno, presságio de mais chuvas próximas amenizando a seca atroz. 

A fotografia que compõe a presente postagem revela uma forma inusitada de corrente, com o objetivo de trazer fartura, rendimento do salário, em nome da devoção ao venerável santo: o Saquinho ou Sacolinha de São José. O exemplar aqui fotografado pertence a uma senhora de São João del-Rei, cuja identidade reservamos. 

Consiste em uma pequena bolsa de tecido, na cor amarela, tramada em crochê, destinada a conservar o dinheiro recebido. No interior vai uma tira de papel com o escrito da corrente, que segue transcrito:

"Neste saquinho da sorte guardarás tuas economias e terás a proteção de São José em situações financeiras. Nunca te faltará nada. Daqui um ano, no dia 19 de março, farás 19 saquinhos e os distribuirás após ter assistido a missa de São José. Basta fazer uma vez. Guarde sempre contigo este saquinho com esta mensagem e a moeda que deve ser colocada junto. São José te abençoará."

Tal papel é enrolado em torno de uma moeda e posto no interior do saquinho onde permanece sempre. O restante do dinheiro é posto em economia e tirado conforme a necessidade. Contém também outro papel de corrente, de forma ovalada, tendo a estampa de São José por marca d'água, sobre a qual vem o seguinte texto, muito parecido ao anterior: 

"Esta é a sacolinha de São José. Todo o dinheiro que receber, coloque dentro dela, mesmo que seja por um minuto. Nesta sacolinha guardarás as tuas economias e terás a proteção de São José. Daqui a um ano, 19 de março de 2015, farás 19 sacolinhas e distribuirás, com uma moeda dentro de cada uma. Não gaste a moeda que estou lhe enviando. Assim nunca lhe faltarás nada. Obrigada São José. São Paulo 19 de março de 2015."

A pessoa que a recebeu em São João del-Rei atualizou o exemplar à caneta esferográfica, fazendo uma rasura, que alterou a data 2015 para 2016 e "Paulo" para "João". 

Completa o conjunto um laço de fita amarela (cor simbólica da fartura, por alusão ao ouro) de cetim, para atar a abertura da sacolinha ou saquinho e uma medalha com a efígie do santo afixada por costura. 

Daí o saquinho é guardado em segurança no fundo de bolsa, guarda-roupa, baú, gaveta ou algibeira, longe das vistas de possíveis ladrões. Mesmo vindo de outra cidade distante a corrente se aclimatou em São João del-Rei e em 2017 já se esparramou; com novos adeptos, em 2018 seguirá se multiplicando. A fórmula também atende aos preceitos da folk-comunicação, como outras correntes típicas. 

Sacolinha de São José: sacola de crochê com medalha e papéis da corrente.
A régua com escala em centímetros posta ao lado oferece a proporção do tamanho.
São João del-Rei. 10/03/2018. 

Créditos

- Texto e fotografia: Ulisses Passarelli.

Notas
 
- Revisão: 27/10/2024.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Festa do Divino: 20 anos de resgate!


Duas décadas atrás reunia-se numa sala das dependências da Igreja de Matosinhos (não era ainda santuário)em São João del-Rei/MG, uma pequena comissão de abnegados festeiros sob a inolvidável liderança do artista sacro Osni Paiva e atenciosa direção do pároco, Padre José Raimundo da Costa para resgatar a Festa do Divino, um grande jubileu em honra ao Espírito Santo, que há 74 anos estava a bem da verdade paralisado. 

Entenda-se paralisado como um modo de dizer frente ao que fora até 1924, ano que sofreu uma supressão. Tornara-se um evento pequeno, desprovido de brilhantismo e dimensão; festa em ocaso. Ocorre, que em 1997, o referido sacerdote convidara para acompanhar a procissão de Pentecostes o grupo de congadeiros da vizinha cidade de Coronel Xavier Chaves, sob o comando do célebre Capitão Zé Carreiro. A iniciativa foi muito exitosa e bem acolhida e serviu de embrião para o resgate. 

Paralelamente, Osni Paiva, munido de intensa pesquisa sobre a história do bairro, uma fé muito firme e boa disposição, trouxe à tona sua sabedoria e liderou o grupo que trouxe de volta a grandeza da festividade pentecostal e o Paráclito foi novamente honrado com cantos, danças, toques instrumentais, muita tradição e história. Grupos culturais diversos vieram ao adro de Matosinhos naquele maio, de 1998, e trouxeram no seu rastro uma multidão de devotos visitantes. A evangelização e todo o cerimonial da Igreja pautou todas as atividades e o que parecia impossível deu certo. A Festa do Divino estava de volta, como sempre deveria ter estado. 

A proposta foi ousada. Acolher tantos congados e folias, alimentá-los... banda, orquestra, pastorinhas, dança das fitas! Tudo isto se integrou e a cada ano se coroou um imperador, como festeiro maior, festeiro de honra, simbolizando toda a comissão de festejos. Em maio de 2017, passados vinte anos, temos ainda, a honra e a grata satisfação de ter conosco no plano terrestre os vinte imperadores vivos: 

Chegada do Cortejo Imperial no Santuário em 2016. 

1998 - Ulisses Passarelli
1999 - Luthero Castorino da Silva
2000 - José Gonçalves de Sousa
2001 - Paulo Zini
2002 - Geraldo Elói de Lacerda
2003 - Antônio Carlos Garcia
2004 - José Tadeu do Nascimento
2005 - Nivaldo Neves
2006 - José Cláudio Henriques
2007 - Antônio da Silva Serpa
2008 - José Clever de Oliveira
2009 - Jânio Fernando Salomão
2010 - José Francelino dos Santos
2011 - Antônio Cipriani Carvalho
2012 - Ivan Campos Nascimento
2013 - Edmilson Washington da Silva
2014 - Dácio Sebastião de Carvalho
2015 - Francisco José do Nascimento
2016 - Nelson Domingos de Abreu
2017 - Adilson Rodrigues Júnior

Este último será coroado na missa solene de Pentecostes deste ano como o mais jovem dos vinte, e assim, como sinal de esperança de continuidade, segue esta irmandade, qual fosse um conselho permanente, ajudando com sua experiência a orientar os rumos deste festejo jubilar. 

Os rituais festivos começam nesta quinta-feira (dia 25 de maio) e seguem com missa e novena a partir do dia seguinte, sempre às 19 horas no santuário. A festa culmina dia 03 de junho, sábado, com a Procissão do Imperador Perpétuo e encontro de folias do Divino, e no domingo, 04 de junho, dia maior, com participação de congados o dia todo. Ocorrem várias celebrações, destacando-se a missa solene às 16 horas e a procissão logo depois, que reúne considerável multidão, na principal via do bairro. 

A festa merece ser prestigiada e preservada por todos os meios. Cada membro da Comissão do Divino deve carregar esta lei no peito. A mesa diretora e os imperadores tem ainda mais responsabilidade na salvaguarda da festa e espera-se da Igreja todo apoio e fomento ao jubileu, e todos juntos na busca de parcerias e apoiadores para que seja cada dia mais consolidada esta grande festa.

Para concluir resgatamos do arquivo os cartazes referentes às vinte festividades. São elementos de elevado valor no processo de folk-comunicação e geram a difusão do conteúdo programático, a valorização dos atrativos culturais e a importância do cerimonial religioso. É possível estudar a caminhada do evento por meio de seus cartazes. Paralelamente guardam em si mesmos um conceito estético, que valoriza a cor vermelha (cor votiva do Espírito Santo) e a imagem do Paráclito do Santuário de Matosinhos em posição de centralidade. Há uma constante também na exposição das datas limites, sendo que até o ano de 2003 a data mais recuada nos cartazes era 1783, ano que a festa pentecostal de Matosinhos recebeu o título de jubileu perpétuo, através de um breve pontifício do Papa Pio VI, de 06 de abril. A partir do cartaz de 2004, os festeiros optaram por colocar a data da primeira festa de Pentecostes em Matosinhos, 1774, com a primitiva igreja novíssima ainda, pois suas obras de construção haviam iniciado só quatro anos antes... 

Cartaz: Jubileu do Divino Espírito Santo.
Ano:1998 -  Medida: 46 x 31 cm, papel off-set.
Paróquia de Matosinhos - São João del-Rei.

Cartaz: Jubileu do Divino Espírito Santo.
Ano: 1999 - Medida: 63 x 44 cm, papel couché.
Paróquia de Matosinhos - São João del-Rei.

Cartaz: Jubileu do Divino Espírito Santo.
Ano: 2000 - Medida: 60 x 42 cm, papel couché.
Paróquia de Matosinhos - São João del-Rei.

Cartaz: Jubileu do Divino Espírito Santo.
Ano: 2001 - Medida: 
63 x 45 cm, papel couché.
Paróquia de Matosinhos - São João del-Rei. 

Cartaz: Jubileu do Divino Espírito Santo.
Ano: 2002 - Medida: 
57 x 40 cm, papel couché.
Paróquia de Matosinhos - São João del-Rei. 

Cartaz: Jubileu do Divino Espírito Santo.
Ano: 2003 - Medida: 
60 x 42 cm, papel couché.
Paróquia de Matosinhos - São João del-Rei.  

Cartaz: Jubileu do Divino Espírito Santo.
Ano: 2004 - Medida: 
60 x 40 cm, papel couché.
Paróquia de Matosinhos - São João del-Rei. 

Cartaz: Jubileu do Divino Espírito Santo.
Ano: 2005 - Medida: 
60 x 42 cm, papel couché.
Paróquia de Matosinhos - São João del-Rei. 

Cartaz: Jubileu do Divino Espírito Santo.
Ano: 2006 - Medida: 
60 x 42 cm, papel couché.
Paróquia de Matosinhos - São João del-Rei.  

Cartaz: Jubileu do Divino Espírito Santo.
Ano: 2007 - Medida: 
60 x 42 cm, papel couché.
Paróquia de Matosinhos - São João del-Rei. 

Cartaz: Jubileu do Divino Espírito Santo.
Ano: 2008 - Medida: 
60 x 42 cm, papel couché.
Paróquia de Matosinhos - São João del-Rei.

Cartaz: Jubileu do Divino Espírito Santo.
Ano: 2009 - Medida: 
60 x 42 cm, papel couché.
Paróquia de Matosinhos - São João del-Rei.

Cartaz: Jubileu do Divino Espírito Santo.
Ano: 2010 - Medida: 
60 x 42 cm, papel couché.
Paróquia de Matosinhos - São João del-Rei.

Cartaz: Jubileu do Divino Espírito Santo.
Ano: 2011 - Medida: 
60 x 42 cm, papel couché.
Paróquia de Matosinhos - São João del-Rei.

Cartaz: Jubileu do Divino Espírito Santo.
Ano: 2012 - Medida: 
60 x 42 cm, papel couché.
Paróquia de Matosinhos - São João del-Rei.

Cartaz: Jubileu do Divino Espírito Santo.
Ano: 2013 - Medida: 
60 x 42 cm, papel couché.
Paróquia de Matosinhos - São João del-Rei.

Cartaz: Jubileu do Divino Espírito Santo.
Ano: 2014 - Medida: 
60 x 42 cm, papel couché.
Paróquia de Matosinhos - São João del-Rei.

Cartaz: Jubileu do Divino Espírito Santo.
Ano: 2015 - Medida: 
62 x 42 cm, papel couché.
Paróquia de Matosinhos - São João del-Rei.


Cartaz: Jubileu do Divino Espírito Santo.
Ano: 2016 - Medida: 
62 x 41,5 cm, papel couché.
Paróquia de Matosinhos - São João del-Rei.



Cartaz: Jubileu do Divino Espírito Santo.
Ano: 2017 - Medida: 
59,5 x 40 cm, papel couché.
Paróquia de Matosinhos - São João del-Rei.


Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli
- Fotografia e imagens de reprodução dos cartazes: Iago C.S. Passarelli  

                                                                               Notas

- Revisão: 04/05/2025. 

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Dez imagens da folk-comunicação - parte 2

Em prosseguimento à divulgação de imagens relacionadas a elementos de folk-comunicação flagrados na região, seguem mais dez fotografias, todas captadas em São João del-Rei, que revelam uma variedade de transcrições e mensagens, algumas bastantes explícitas, outras mais veladas.

Por vezes não necessitam palavras como os rostos pintados de bonecos, em expressão de alegria (fotografias 8 e 1), rompendo a rigidez inerte e fria da parede e do hidrante; mas a mulher preta da fotografia sete, traz a boca aberta como se espantada, e seu olhos derramam lágrimas vermelhas de sangue. Sem dúvidas uma dolorosa mensagem que traz à tona um clamor. Uma crítica pesada recai sobre a mídia institucionalizada: o boneco traz uma televisão no lugar da cabeça e uma arma apontada para ela em atitude de suicídio... (fotografia 9).

Desta feita, aparecem três elementos de farmácias: nos anos setenta e oitenta (séc. XX) elas faziam plantões a horas impróprias e fins de semana, alternando-se os estabelecimentos (fotografia 4). Era então costume se ter afixada à fachada uma tabuleta com o nome da farmácia disponível. Esse costume desapareceu faz uns trinta anos, mas por sorte ainda flagramos esta placa remanescente, já fora de uso a tempos, mas ainda na ocasião da fotografia no lugar original, onde já não se encontra. O impresso de 1934 (fotografia 5) é uma cobrança de fim de ano de uma farmácia a seus clientes. O texto, com sua rebuscada linguagem de época, revela delicadeza e lisura no trato com o cliente, com oferta de bonificação e favorecendo o desconto. A charge estampada na fotografia 6, usa da criatividade para transmitir a mensagem dos bons preços oferecidos, ao mostrar o cidadão entrando em uma farmácia qualquer, vestido e com receita à mão e saindo dela desnudo, a segurar um pequeno embrulho adquirido; e, ao contrário, no estabelecimento em foco, entra descamisado com a receita e sai bem vestido e com um grande embrulho na mão. Essa charge chama a atenção dos são-joanenses faz bastante tempo.  

A tradicional corrente revela a grande devoção regional a Santa Rita de Cássia (fotografia 3), festejada a 22 de maio, a quem se atribui o poder de conceder graças impossíveis a outros santos. O exemplar manuscrito se reveste de características típicas desse modelo de oração e estimula o repasse junto com uma vela de sete dias ao seguidor da novena. 

Finalmente a imagem 10 reproduz um programa da Festa do Divino, edição de 1999, segundo ano após o "resgate" do grande jubileu. Naquele ano também foi feito um cartaz grande, em número mais limitado e esses programas aos milhares, nas cores azul, verde, amarelo e rosa, para afixação em estabelecimentos comerciais para divulgação do evento. Na programação constam atrações culturais como congadas, folias do Divino, dança das fitas, pastorinhas, calango, banda de música, e atividades religiosas diversas, como missas, novena e procissões. 

São formas populares de comunicação que extrapolam a mídia tradicional e buscam meios alternativos de transmitir a mensagem. No caso das pichações sempre na surdina do ato ilícito, que obviamente deve ser combatido; daí se esclarece, que seu registro nesta página não se configura como incentivo à prática tampouco enaltecimento, mas apenas de evidenciação dos caminhos populares tomados quando outras possibilidades estão vedadas, inacessíveis ou na prática que não alcançam o público-alvo pretendido. 

A folk-comunicação tem múltiplas facetas e se adequa às possibilidades do mundo urbano na difusão de sua filosofia e ideal. 

1- Rosto esboçado por pichação em uma parede, aproveitando-se dos vitrôs circulares
para composição dos olhos. Rua Antônio Josino Andrade Reis,
Centro, São João del-Rei. 17/04/2014. 

2- Grafismo em uma parede, "Morra, mas deixe sua marca".
Rua Santo Antônio, São João del-Rei. 04/03/2017. 

3- Manuscrito a caneta esferográfica sobre folha pautada de caderno,
no sistema de corrente, propagando uma novena em honra
a Santa Rita de Cássia. Coletada na Gruta do Divino, Centro,
São João del-Rei. 02/01/2011. 

4- Tabuleta de madeira afixada na fachada de uma farmácia, na qual se
especificava o rodízio de plantões dos diferentes estabelecimentos.
São João del-Rei. 10/12/2011. 

5- Antigo impresso de cobrança de clientes de uma farmácia de São João del-Rei,
datado de 31/10/1934. Papel-jornal, 20 x 26,5 cm.

6- Tradicional charge publicitária de uma farmácia, pintada em um muro.
Rua Coronel Tamarindo, Centro, São João del-Rei. 18/12/2011.

7- Grafite num canto de muro, se aproveitando de uma grade de saída
de águas pluviais. Rua Quintino Bocaiúva, Centro, São João del-Rei. 29/11/2014. 

8- Rosto pintado em um hidrante na lateral da
Catedral do Pilar, São João del-Rei. 03/03/2017.

 9- Mensagem grafitada em um muro na Rua Santo Antônio, Bairro Tijuco. Inscrição: "A Mídia te Mata".
São João del-Rei. A direita, detalhe da figura humana com uma televisão no lugar da cabeça. 04/03/2017.

10- Programa da Festa do Divino de 1999, Paróquia de Matosinhos,
São João del-Rei. Impresso em papel-jornal, 33 x 24cm. 

Créditos

- Texto e fotografias: Ulisses Passarelli

Notas

- Para saber mais leia também neste blog: DEZ IMAGENS DA FOLK-COMUNICAÇÃO - parte 1

- Revisão em 10/02/2025

domingo, 10 de maio de 2015

Queima do Judas em Santa Cruz de Minas

Nas tradicionais queimas de judas os testamentos são manuscritos importantes no mecanismo de folk-comunicação. Através deles o povo, anonimamente e com muita verve, anuncia em versos, em leitura a alta voz, a herança deixada por Judas Iscariotes, o traidor de Jesus, representado a cada ano por um boneco grotesco, que é explodido em praça pública por meio de bombas inseridas em seu enchimento. 

Assim é que em quase todo o país (*), no Sábado de Aleluia ou no Domingo da Páscoa, lá surge o boneco para opróbrio do fato nefasto da traição, qual um mecanismo coletivo de catarse, expurgo dos males sociais. Na mordaz herança que deixa em seu testamento versificado, as figuras polêmicas, populares ou indesejadas do lugar _ sobretudo os políticos,os ranhetas, as fofoqueiras _ vão ganhando presentes imprestáveis anunciados pelos versos, sob o apupo da platéia: a dentadura do judas, suas botas surradas, seu pinico imundo e outros trastes simbólicos. Os "agraciados" são referenciados pelo primeiro nome, ou por uma referência familiar ("João do Antoninho", ou seja, João, filho do Antoninho; "Teresa do Zé", ou seja, Tereza, esposa do Zé), ou pelos apelidos. É uma forma engraçada de dizer também sobre o conceito público que a pessoa goza naquela sociedade.

"O sr. Zé Bicho é festeiro
divertido do lugar,
deixo o pau de angu
ele pode vir buscar."

Uma curiosidade interessante destes testamentos é que entremeados aos versos propriamente de herança, por vezes surgem outros contendo avisos e ironias (**):

Em alguns casos o testamento inicia diretamente com os versos da herança, em outros é precedido por um termo de abertura (***) ou palavras iniciais, como as que se reproduz abaixo, da primeira metade da década de 1990, de quando Santa Cruz de Minas ainda era distrito de Tiradentes (****):

"Ilmo. Sr. Prefeito de Tiradentes e os demais da Câmara municipal desta comarca; ilmo.sr. Comandante do destacamento de polícia sediado em Santa Cruz de Minas e as demais autoridades presentes... caros colegas e amigos: para vocês é um dia de festa, dia de muita alegria, pois nesta data comemora-se em todo o Brasil a queima do judas. Para iniciar o nosso testamento vou deixar a herança que lhes pertence."

Também dessa cidade, procedem do mesmo período, alguns versos de herança escritos sob a forma de sextilhas, bem incomuns na região. No testamento (*****) estavam manuscritos com letra diferente daquela do texto principal, ao seu fim, deixando a entender que era um complemento escrito por pessoa diferente do autor:

"O Rui diz que é meu amigo
eu escuto ele falar,
o judas deixou comigo
para ele eu entregar
uma bacia furada
pros pãezinhos amassar.

Pra mim restou uma corda
pra poder me enforcar,
pro Rui o judas deixou
somente um velho emborná
pra ele fazê remendo
nas calças quando rasgar.

O Rui aqui nesta vila
é um caboclo respeitado,
o judas deixou pra ele
um piniquinho furado
pra por embaixo da cama
quando ele estiver deitado.

Ainda resta pro Rui
um terno e um guarda-chuva,
o judas deixou também
a aliança e um par de luva
deixando ordem pra ele
casar-se com a viúva."

Isto fica claro à menção repetitiva nas estrofes à conhecida figura do saudoso "Rui da Padaria" (Ruy Vale), comerciante local muito popular que escrevia os testamentos, a quem se deve o reconhecimento dos esforços na manutenção desta tradição. Comentava-se, que na proximidade do festejo, deixava sobre o balcão papel e caneta e quando os fregueses mais afeitos à brincadeira chegavam, tinham a liberdade de escrever um verso de herança, configurando assim um caso muito interessante de construção coletiva deste pasquim. 

Impresso de divulgação, em papel ofício, 
anunciando queima do judas.
Santa Cruz de Minas, 2001.
Em 1999 em Santa Cruz houve uma queima na Praça do Cruzeiro, num lote vago, onde se fincou uma embaúba da qual se pendia o boneco, com um trailer aproveitando da oportunidade comercial do evento, incrementando as vendas. Caixas de som tocavam em alto volume música popular em voga, som mecânico. Não havia nenhum enfeite no local, nem mesmo a famosa chácara do judas, construída com folhas de bananeira e talos de cana, mas a criançada se divertia com o pau de sebo e o espiribol. No mesmo dia aconteceu um outro judas, na Cava, organizado pela sra. Helena. Havia poucos enfeites, música mecânica, um barraca improvisada com bambu vendendo comes e bebes. O boneco estava enforcado numa embaúba fincada em pequeno barranco. Não havia chácara. Soltaram fogos de artifício.

No ano seguinte, na Praça do Cruzeiro a animação se deu com um conjunto musical tocando música ao vivo; já noutro judas numa rua fechada na região da Caixa d'Água, o som foi mecânico. Mais uma vez não houve a chácara, embora o testamento estivesse presente. Em ambas a novidade ficou por conta da "mulher do judas", uma boneca enforcada em embaúba separada, vestida de saia, seios postiços bem evidentes, cabeleira loura. Chamavam-lhe "a juda", em oposição a "o juda". Os bonecos foram acesos pelo artefato pirotécnico do avião. O pau de sebo foi muito disputado pela criançada.

A tradição das queimas de judas continua na região embora bem mais arrefecida que no passado, quando tinha imensa popularidade e era sempre muito concorrida.

Judas numa embaúba. Rua Oswaldo Lustosa,
Santa Cruz de Minas, 2004. 
Notas e Créditos

* Em 1999 na região mais circunvizinha houve queimas de judas em Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, São Miguel do Cajuru, São Gonçalo do Amarante e São Sebastião da Vitória - todas estas vilas, distritos de São João del-Rei; na sede do município nos bairros São Dimas e Tijuco (Águas Gerais e dois no Barro Preto), além de notícias não confirmadas para o Largo do Carmo (Centro); Prados; Ritápolis e seu distrito, Penedo; Santa Cruz de Minas. Informantes: dois fogueteiros de São João del-Rei, fabricantes de judas, indicando os locais que lhes encomendaram os bonecos no ano da informação. 
** No Glória (Ritápolis), por exemplo, no testamento de 1997:


"Meu amigo Lisnei,
que trabalha no caminhão do leite,
preciso aconselhar,
fique esperto com Wilson pra não tomar seu lugar."

"Meu amigo David,
que é neto do Pazinha,
não põe a mão no bolso
nem pra jogar tampinha."

"Meu amigo Edmar,
que é um grande companheiro,
está com um nó na garganta
chamado Atlético Mineiro."

*** Por exemplo, num testamento de uma queima em São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei), em 20/04/2014, o termo de abertura era o seguinte: "Minha gente hoje é dia de queimar o judas que traiu Nosso Senhor. Como ele não tem filho, deixa a herança para os amigos. No mais termino. Os organizadores agradecem a todos que colaboraram."
**** Emancipação em 21/12/1995. 
***** Exemplar gentilmente cedido por Luthero Castorino da Silva em 29/03/1999. 
****** Texto e fotos: Ulisses Passarelli 
******* Leia mais sobre o assunto neste blog: 

JUDAS, JUDEU ERRANTE E TESTAMENTOS  
O BOI MALHADO E A QUEIMA DO JUDAS  
BOI & JUDAS 
QUEIMA DO JUDAS 
QUEIMA DO JUDAS: CAJURU

sábado, 20 de dezembro de 2014

Oração do Esporão e remédio para osteoporose

Sob o nome de "medicina popular" os folcloristas englobam uma série de práticas e formulações que o povo empiricamente adota e propaga como mecanismo de tratamento de certas doenças. Sempre que tal assunto é abordado, este blog frisa o risco de semelhantes usos pelo eventual dano que pode trazer à saúde, pois tais receitas não foram cientificamente testadas e não se sabe seu real potencial de cura ou dano à saúde. Por isto, não se recomenda. Apenas se registra, pelo valor etnográfico e para que futuros estudos possam elucidar mais a questão.

Desta feita, seguem duas receitas populares coligidas em São João del-Rei no corrente ano, recolhidas de fonte familiar, difundidas informalmente por via manuscrita, distribuídas em cópias, aqui reproduzidas por fotografia. Muitas vezes a perpetuação destas práticas se dá apenas por via oral, ficando neste caso consignada ao mesmo tempo uma prática de folk-comunicação. 

Uma curiosidade é que os dois exemplares adotam pés de galinha como matéria prima. A primeira em especial exige que seja de galo, pela necessidade da presença das esporas, que quanto maiores, tanto mais eficiência se prestarão à simpatia.

A espora do galo é um símbolo de virilidade. Quando a espora é grande e aguçada, maior o valor é atribuído à ave. A espora cortada e posta a secar, uma vez conservada com a pessoa se torna um amuleto capaz de repelir uma série de males. Uma arma córnea contra quebranto. Tanto mais se for de galo preto. Trespassada numa guia evoca a força da linha esquerda, dos exus. 

Quanto ao esporão é uma espícula (ponta) de osso que surge no osso do calcanhar (calcâneo) e provoca inflamação da estrutura das fáscias, gerando dor. É um incômodo terrível que aflige a muitas pessoas. 

No caso da primeira receita, ou antes, simpatia, existe uma analogia entre o esporão do pé e a espora do galo, que passada sobre o pé do paciente com o enunciado próprio, tiraria supostamente o problema, uma vez que enterrada. Esta simpatia conserva elementos típicos, por magia simpática. Enterrar equivale a exterminar o mal por sepultamento; colocar o peso de terra sobre, para que o mal não possa emergir. A recomendação de ser onde a pessoa não passará é uma tradicional medida de segurança para evitar que o mesmo mal retorne. Os pés do galo são esfregados sobre a pele três vezes, e o número de preces também é regulada em três, de valor especial no folclore. 

Eis a transcrição:

"Oração do esporão. Dois pés de galo que tenham esporão, passe dos joelhos para baixo nos dois pés, mesmo que não esteja doente e reze: 'esporão, esporão! Leve este mal para onde eu não vejo', e de três vezes, reze três pai-nosso, três ave Maria, pede a Jesus que leve essa enfermidade. Enterra os pés em lugar onde a pessoa não vai passar."

Anotação manual, à caneta esferográfica, em folha lisa,
contendo a receita contra esporão, transcrita nesta postagem. 


É preciso frisar que não existe objeção a consumir o galo desta simpatia como alimento. Apenas os pés são usados.

A receita seguinte não se prende à pretensão mágica da simpatia. Apela em verdade para a química dos componentes, retirado o óleo que sobrenada no ato da fervura dos pés de galinha, fonte específica para fornecimento de cálcio nesta prática popular. O produto é ingerido parcimoniosamente, tomando-se de cada vez em medidas de colher, para o combate à osteoporose, segundo a crença.  

Receitas como esta são comuns no seio popular. Eis a que está em questão: 

"Remédio para osteoporose 

2 Kg de pés de galinha;
2 litros de água ou mais, se precisar;
1 copo e meio de açúcar;
2 cavacos de canela;
2 nozes moscadas pequenas
2 copos americanos de caldo de laranja;
2 folhas de gelatina sem sabor;
1/2 copo americano de vinho branco seco.

Modo de preparar
Cozinhar bem os pés com 2 litros de água. Se precisar, acrescente mais. Deixar na panela de um dia para o outro. Retirar o óleo que fica por cima e jogar fora. Levar novamente ao fogo. Colocar os demais ingredientes e deixar ferver bastante. A gelatina pode ser dissolvida no próprio caldo. Tomar às colheradas, ao dia." 

A "medicina popular" é uma vertente riquíssima da cultura popular e em cada região tem suas próprias características, componentes, formulações... fonte inesgotável para estudo e pesquisa do folclore. 

Anotação manual, à caneta esferográfica, em folha pautada de caderno,
contendo a receita do remédio contra osteoporose, transcrita nesta postagem. 

Créditos 

- Texto e fotografia: Ulisses Passarelli. 

Notas 

- Revisão: 08/09/2025. 

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Manuscritos em cédulas

No campo da folk-comunicação, um mecanismo de manifestação popular escrita bastante difundido é o dos manuscritos em cédulas monetárias, sobretudo em forma de corrente. Com este nome o blog já disponibilizou e analisou uma vintena de exemplares colhidos em São João del-Rei, como se pode ler no texto lincado ao fim desta postagem.

No contexto geral, as correntes em notas tem o objetivo de trazer para quem as escreve, recebe e replica, boa sorte e abundância (simbolizada materialmente no dinheiro), em nome de santos populares, quase sempre os santos gêmeos São Cosme e São Damião (ícones da fartura, gemelaridade, duplicação, multiplicidade), Santa Rita de Cássia (protetora nas causas impossíveis, invocação dos momentos de angústia por uma dívida que oprime ou na falta de trabalho remunerado) e São Judas Tadeu (patrono das causas perdidas, contra o desespero). Weitzel (1984, p.178) apontou os seguintes temas de manuscritos em papel-moeda: "desenhos grosseiros, palavrões, frases obscenas, até os mais trabalhados versos de quadras populares. Há orações em correntes milagrosas, adivinhas maliciosas, recados amorosos, piadas e até anúncios de serviços.", dizendo-as presentes tanto anverso quanto no reverso da nota, ou ambas as faces. Destacou o impróprio de mau uso das cédulas monetárias por meio de inscrição, o que as compromete, obrigado a recolhimento e a substituição formal pelo órgão governamental. 

O cunho supersticioso cede ante uma manifestação de fé, que do mundo abstrato se materializa escrita em letras mal traçadas, segundo as regras gramaticais (aqui transcritas com fidelidade aos originais), mas leais à fé emanada de práticas informais da religiosidade popular.

Os dez exemplares ora expostos foram encontrados em notas circulantes em Barbacena, Tiradentes e Santa Cruz de Minas. Mantém uma unidade estilística e de finalidade, inclusive quando comparada a outras coletas [1], como as de Pellegrini Filho (2009). O último exemplar tem um cunho motejador, estando numa categoria que sem acreditar na corrente, adota seu estilo para brincar ironicamente com o próximo, usando do mesmo mecanismo de comunicação popular.

Este Blog, ao divulgar tal assunto, não estimula a prática de danificar cédulas, mas tão somente registra o aspecto etnográfico das mensagens nelas manuscritas por populares anônimos. 

Fragmento de uma cédula de dois reais com manuscrito.

*  *  *

01- "Quem pegar nesta nota nunca ficarrar sem dinheiro Esta nota Edi são damião e di sao cosme Passar 3 nota." (sic, Barbacena, 26/09/1999).

02- "Santa Rita de Cassia Quem Pegar nesta nota nunca lhe Faltara Dinheiro." (sic, Tiradentes, março/2003)

03- "Boa Sorte para quem pegar esta nota São Cosme e São Damião lhe proteja que nunca falte nada Escreva em 3 notas e passe para frente. Não quebre a corrente." (sic, Santa Cruz de Minas, 29/03/1999). 

04- "Quem pega esta nota vai ganhar muito dinheiro em nome de Cosme e Damião e dará Boa Sorte escreva em 5 notas" (sic, Santa Cruz de Minas, 25/09/1999).

05- "Quem pegar esta Nota tera seu dinheiro multiplicado em lovor a Cosme e Damião. Não quebre esta corrente escreva em 3 Notas." (sic, Santa Cruz de Minas, agosto/2002).

06- "Cosme e Damião ajuda quem pegar esta nota escreva 7 nota nao quebra correte." (sic, Santa Cruz de Minas, 11/05/2003).

07- "São Cosme e São Damião, não deixa faltar dinheiro a quem nesta nota pegar não quebre a corrente. Escreva em 7 notas." (sic, Santa Cruz de Minas, 10/08/2004)

08- "São Judas Tadeu faça quem pegar nesta nota não fique sem dinheiro faça 7 copias." (sic, Santa Cruz de Minas, 18/01/2001)

09- "Santa Rita de Cassia para quem pegar esta nota não lhe faltara Dinheiro. Escreva em 3 notas." (sic, Santa Cruz de Minas, 29/10/2000)

10- "Escreva isso em 7 notas e terá sorte... para quem receber ASS: Rafael." (sic, Santa Cruz de Minas, 04/07/2001) 


Manuscrito à caneta esferográfica, em nota de dois reais. Letra de forma em maiúsculas, com o seguinte texto: "vai notinha de 2 reais e volte com 2 milhões para trás sex.28 de junho". São João del-Rei, recebida em 2025 (no entanto, a sexta-feira 28 de junho corresponde ao ano de 2024).


Referências 

PELLEGRINI FILHO, Américo.  Comunicação popular escrita. São Paulo: Edusp, 2009. 696p.il + CD

WEITZEL, Antônio Henrique. Folclore literário e linguístico. Juiz de Fora: Esdeva Emp. Gráfica, 1984. 231p. 

Créditos

- Texto e fotografias: Ulisses Passarelli.

Notas 

- Leia também: CORRENTES 
- Revisão e acréscimo de fotografia: 11/11/2025; acréscimo de referência: 02/09/2026.  

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Judas, Judeu Errante e testamentos

A cultura popular, vasta e complexa, é como uma colcha de retalhos. O folclore de um tema se constrói com pedacinhos de história, com impressões de interpretação livre de fatos, com reminiscências de ritos antiquíssimos, com novos elementos de cores regionais vivenciados na comunidade. Destrinchar os componentes dessa fórmula não é tarefa fácil. 

O costume quaresmal de queimar ou malhar a porrete um boneco chamado Judas é bastante arraigado na Península Ibérica, de onde foi transposto para a América Latina. Ocorre em boa parte do Brasil e a Mesorregião Campo das Vertentes o conhece desde longa data e ainda o pratica. A aparência imediata evoca o apóstolo traidor de Cristo, o Iscariotes, que o entregou por trinta moedas de prata (Mt 26, 14-16), mas a queima de bonecos ou manequins é em verdade um ritual pagão difundido na Europa, típico da entrada da primavera e sofreu ao longo dos anos cristianização resultante na queima do Judas. 

O contexto de primeiro plano revela por detrás toda uma concepção popular de rancor contra o judeu. Séculos de catequese cristã repisaram a oposição dos fariseus a Jesus, a perseguição a profetas, aos precursores na pregação como São João Batista, ou a sucessores, como Santo Estevão e tantos outros. Na alma do povo foi criado como que um opróbio à palavra: "judeu" se tornou símbolo de ruindade, usurário. "Judiar" é fazer mal a um bicho ou pessoa, um verbo criado em cima desta concepção; donde provém "judiação", "judiaria" _ maldade, injustiça. Se o sujeito se configura como traidor, infiel, desleal, logo é alcunhado com desdém: "judeu!" ; "Judas!". 

“Quem quiser comprar eu vendo
um amor que já foi meu: 
é bonito como cravo 
é falso como um judeu” 

A quadrinha acima, colhida em Santa Cruz de Minas [1] é reveladora dessa impressão de falsidade atribuída no folclore ao judeu. 

Autores tem revelado o valor do judeu para a composição de nossa cultura popular. MARTINS (1991), perscrutando os componentes culturais do folclore mineiro, não se esqueceu deles: "outra fonte notável em Minas Gerais refere-se aos cristãos-novos ou judeus renegados, que transmitiram ao mineiro notáveis experiências, também sincréticas, pois chegaram a nós via Portugal." MEGALE (s/d) também revelou sua influência no capítulo "Influências Estrangeiras no Folclore Brasileiro", dizendo: "Muitos israelitas chegaram ao Brasil no período da Invasão Holandesa, fugindo dos tribunais da Inquisição (...) As maiores influências judaicas que tivemos são: o conformismo com o destino, o saudosismo messiânico e o "pão-durismo" do mineiro". (p.27 e 28). LIMA JR. (1965) forneceu importantes subsídios para a compreensão dessas influências. Seu trabalho dá conta, dentre outros, dos rituais mortuários, do hábito da sangria e de costumes em torno do recém-nascido que dos cristãos-novos passou ao folclore mineiro. 

No final dos anos setenta, em São João del-Rei, narrava-se as estórias de um homem muito velho, taciturno, barbudo, vestes tristonhas, que por ter ofendido Nosso Senhor andava pelo mundo sem rumo e sem paradeiro. Era o Judeu Errante [2].

É uma lenda das mais conhecidas que a tivemos da Europa. A leitura do verbete correspondente na obra de CASCUDO (s/d) é fundamental pela erudição do resumo que apresenta. Seria um homem da época de Cristo, Ahasverus, sapateiro de Jerusalém, que teria humilhado o Salvador no momento que carregava a cruz, quando disse em tom de motejo: "vai andando!". Recebeu então o castigo e ir andando até a volta de Jesus, sem morrer, sem rumo, sem destino. "A lenda apareceu em Constantinopla, no séc. IV, e apareceu na Europa em 1228", passando por variações de detalhes conforme o país onde se estabeleceu. Ainda hoje se diz, quando um sujeito anda demais, caminhando sem parar: "cruz-credo! Parece Judeu Errante!". 

Texto de José Bellini do Santos inspirado no Judeu Errante,
publicado no jornal 'Diário do Comércio', São João del-Rei, n.181, de 16/10/1938. 

Acervo: Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida. 

Foi fácil e natural para o povo confluir as concepções criadas em torno do judeu sobre o personagem Judas, fustigado com porretes, varas, bombas, vaias, impropérios durante a quaresma, trazendo sobre si a maldição do traidor do Messias. 

Contrariando a tradição popular, em 2006 divulgou-se a existência do Evangelho de Judas, manuscrito descoberto em 1978 no deserto do Egito. Sua idade é estimada em cerca de 1700 anos. O mais notório deste apócrifo é a afirmação de que Judas Iscariotes teria traído Jesus a pedido do próprio, para que se cumprisse a necessidade de seu martírio. Judas teria então obedecido a uma ordem de Cristo, que o escolhera para dar início à sua Paixão. A Igreja logo respondeu que esta é a visão gnóstica do fato, não correspondendo à verdade histórica.

No Campo das Vertentes o costume era queimar o Judas no Sábado da Aleluia, como ainda corrente nas décadas de 1970 e 1980. O recorte jornalístico abaixo o demonstra. Ultimamente os Judas tem aparecido no Domingo da Páscoa.

Crítica humorística com personagens velados evocando
a queima de judas no Sábado da Aleluia. Jornal 'O Grypho', São João del-Rei, nº24, 25/04/1908.
Acervo digital da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida. 

VALE (1985) registrou em Prados uma referência oitocentista sobre a queima do judas terminada em tragédia no ano de 1888. O costume era de, na véspera, uma turma de rapazes e homens andar pelos sítios e casas roubando pequenas coisas e arvoredos para compor a chácara do Judas. Este roubos eram comuns na Sexta-feira da Paixão, a partir das 23 horas, porque "naquele dia tudo pertencia a Judas" (sic). Ocorre, que a rapaziada naquele ano, extrapolando os limites do antigo costume, tomara o carro de bois de uma fazenda e acabaram por submergi-lo na Lagoa da Atalaia. No exaustivo trabalho de remoção do rude veículo, dois homens morreram afogados. Segundo o autor, "quando foi proclamada a República, o arraial de Prados foi elevado a categoria de vila. O Presidente da Câmara, no mesmo ano, formulou um decreto preliminar, abolindo as festas do celebérrimo Judas."

Em alguns lugares mineiros o testamento do Judas (herança imaginária do boneco, cômica e aguçada, distribuída a certas pessoas da comunidade por meio de versos escritos) é conhecido por pasquim do Judas ou pela corruptela, "pisquim"(por exemplo, em Antônio Carlos e Bias Fortes, no limite sudeste das Vertentes). Os pasquins típicos eram folhetos improvisados à guisa de informativo anônimo, contendo notícias críticas, denúncias, revelações de falcatruas políticas. Em verso ou prosa, se escrevia e distribuía no total anonimato, temendo-se represália e punição. Legítimos elementos da folk-comunicação, em São João del-Rei, os pasquins eram legalmente proibidos pelas posturas municipais. Aos infratores era previsto no art.122, parágrafo 3º, multa de 5$000, além de três dias de cadeia: “o que distribuir pasquins manuscriptos ou impressos, gravuras de desenhos ofensivos á moral ou á descência, alusivos a qualquer fato da vida privada” (SÃO JOÃO DEL-REI, 1887). Um interessante estudo a respeito dos pasquins foi coordenado por LIMA (1981).

Obviamente que a semelhança de objetivos do pasquim típico com o testamento do Judas [3] ou ainda com o testamento do João do Mato, induziu o uso das expressões "pasquim do Judas" e "pasquim do João do Mato", este, restrito ao complexo dos mutirões de lavoura, não é assunto para esta postagem. Na região de São João del-Rei o termo "pasquim" sobrevive como alcunha pejorativa aplicada a algum jornal ou informativo considerado pelo povo como de má qualidade.

Judas em São Gonçalo do Amarante
(Caburu), São João del-Rei/MG, 20/04/2014.

Referências 

- SÃO JOÃO DEL-REI. Código de Posturas da Câmara Municipal da cidade de São João d’El-Rei. Ouro Preto: Província de Minas, 1887.

- LIMA JÚNIOR, Augusto de. A Capitania das Minas Gerais: origens e formação. 3.ed. Belo Horizonte: Instituto de História, Letras e Arte, 1965. p.138-142.

- LIMA, Rossini Tavares de et all. Folclore do Litoral Norte de São Paulo. Rio de Janeiro: MEC / FUNARTE / INF; São Paulo: SEC / Univ. de Taubaté, 1981. 317p.il.

- MARTINS, Saul. Folclore em Minas Gerais. 2.ed. Belo Horizonte: UFMG, 1991. 126p.

- MEGALE, Nilza Botelho. Folclore Brasileiro. Petrópolis: Vozes, 156p.

- VALE, Dario Cardoso. Memória Histórica de Prados. Belo Horizonte: [s.n], 1985.

Créditos

- Texto e fotomontagens de jornais: Ulisses Passarelli.
- Fotografia do Judas: Iago C.S. Passarelli.  

Notas

- Revisão: 14/07/2026. 

[1] Quadrinha de Santa Cruz de Minas: informante - Elvira Andrade de Salles, década de 1990.

[2] São João del-Rei, Bairro Centro. Informante: Maria de Carvalho Santos. 

[3] Para leitura de exemplares de Testamento do Judas, acesso o seguinte link: https://folclorevertentes.blogspot.com/p/judas.html

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Dez imagens da folk-comunicação - parte 1

A comunicação popular escrita é um caminho muito usual e geralmente anônimo das pessoas se expressarem e transmitirem recados, mensagens, críticas, informações, por vezes de forma velada. Em outras ocasiões, tais comunicações são bastante objetivas. Foge ao padrão da imprensa formal.

Esta transmissão de informações é sabidamente cosmopolita e estudiosos tem se ocupado em classificá-las e analisá-las. Alguns exemplos já foram levantados neste blog e ora a dezena de retratos seguintes exemplifica uma pequena parcela do arraigado costume na região estudada.

Engloba diversas manifestações tais como grafitos em banheiros públicos, impressos de orações pagos para publicação em jornais impressos, orações-correntes, testamentos de judas, pasquins, frases de para-choque de caminhão, etc.

Esta pequena postagem não cairá na tentação de discutir a legalidade de certos caminhos desta comunicação popular. As fotos apenas as apresentam, ficando as discussões e comentários reservados a uma outra oportunidade em preparação.

O objetivo ora se restringe a chamar a atenção para estes elementos culturais, que em si são para o povo importantes mecanismos midiáticos. São informais e vem carregados com uma significação simbólica e uma forma insólita, que, contudo, consegue atingir eficazmente seu público alvo, merecendo dos pesquisadores atenção e ampliação dos registros e estudos. 

1- "Tentamos levar a pedra mas não conseguimos"
Pichação gaiata numa enorme rocha no Bosque da Mãe d'Água, Serra de São José, Tiradentes/MG.
Crítica à legislação protecionista da área, que proíbe coleta de animais, vegetais ou minerais. 01/12/2009.


2- "O povo cala o muro fala!"
Mensagem pichada no muro da estação ferroviária de São João del-Rei/MG.
Rua Quintino Bocaiúva, Centro, 20/06/2013.   
  
3- "Aguardando chuva".
Automóvel empoeirado estacionado na Av. Tiradentes, São João del-Rei. 02/05/2013.

4- "Os Coletores de Lixo desta rua desejam-lhe um Feliz Natal e próspero Ano Novo, junto a sua família, e pedem um 'Papai-Noel'. Que Deus o recompense. São João del-Rei, dezembro de 1962."
Pedido de ajuda dos funcionários de limpeza pública distribuídos aos moradores. Papel-cartão, 6 x 9,5cm.

5- Desenho raspado na pintura de uma placa de sinalização de trânsito (depressão na pista), representando um skatista.
Avenida Tiradentes esquina com Rua Aureliano Mourão, São João del-Rei. 06/09/2013.
 
6- Programa da Festa de Nossa Senhora do Rosário em São Gonçalo do Amarante (ex-Caburu), 1992,
distrito de São João del-Rei, constando eventos ligados ao reinado e ao folguedo do congo.
Na base do impresso, quadrículas reservadas a propagandas de patrocinadores. 

Afixação nas paredes das casas comerciais em geral. Papel-jornal, 21,5 x 31,5cm. 

7- Manuscrito à caneta esferográfica em folha pautada de caderno, contendo no estilo corrente, a novena
à "Bondosa Alma de Bento do Portão", de autoria anônima, coletada em 12/04/2009 no Cemitério Municipal
de São João del-Rei, popularmente chamado "Quicumbi". 

 Transcrição e comentários disponíveis através do link no fim desta postagem. 

8- Convite para paraninfo da festa do padroeiro.
Capela de São Geraldo Magela, São João del-Rei, 1975.
Impresso 21 x 15,5cm. 

9- Esboço de face evocando a suposta fisionomia difundida de Cristo.
Grafito a carvão em um muro de placa de cimento de lote em construção.
Praça Dom Silvério, Bairro das Fábricas, São João del-Rei, 01/11/2013.

10- Cartão de Natal dos coletores de lixo que andam nos caminhões de rua em rua fazendo limpeza pública.
Distribuído em envelopes, que habitualmente se lhes devolve nos dias seguintes com uma oferta voluntária.
São João del-Rei, 2013. Impresso em papel reciclável, 10,5 x 14,7cm.
 


Créditos

- Texto e fotografias: Ulisses Passarelli.

Notas 

- Revisão: 25/05/2025. 
- Para saber mais leia: CORRENTES