Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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quinta-feira, 25 de junho de 2015

Roda, morena!

Uma antiga tradição nesses dias frios de junho era a dança em redor das fogueiras dedicadas aos santos desse mês: Santo Antônio, São João Batista e São Pedro, em festas de intenso valor comunitário e de forte apelo rural. A confraternização se fazia por gestos simples de alegria espontânea e através das danças, das quais a quadrilha se tornou a soberana. 

Mas além desta, outras danças existiram pelos povoados semeados entre as serras do interior. Algumas, de herança cultural africana, como os batuques, caxambus, quimbetes e lundus; outras, evocando movimentos ibéricos, como o desaparecido esquinado, o engenho-novo, a cana-verde e a roda-morena (também chamada rodinha, roda de São João, chora-morena). 

Sobre esta última em especial, acontecia sem época certa para ser efetuada, conquanto fosse comum nas festas juninas. Nesta dança rural os dançantes, sem distinção de sexo ou idade, formavam um círculo e dançavam, com um personagem solista ao centro, que cantava uma quadra dentro do ritmo certo. Os demais respondiam com o refrão. Voltava à roda e outro vinha ao centro, cantando outra quadra. O coro repetia o refrão e assim por diante. 

A título de exemplo eis uma roda procedente de Coronel Xavier Chaves [1]:

Refrão (coro): 
"Roda, Morena! 
Morena, roda!” - bis

Estrofes (solista): 
“Eu vim de longe, 
tô chegando agora, 
eu vim com Deus 
e Nossa Senhora!” 

ou 

“Você disse que vai, 
eu também quero ir; 
você não vai mais 
também já decidi ...” 

Mas além da dança, sob o mesmo nome foi conhecida uma modalidade de canto de trabalho adotado nos mutirões e nos serviços pagos de roçar pasto. Os trabalhadores mais rápidos ficavam nos extremos do eito e os menos habilidosos ao centro. Na medida que o eito avançava, os da beirada adiantavam mais com os golpes da foice fechando gradativamente um semicírculo. Uma vez formado, trabalhavam no sentido de desfazê-lo e assim caminhava o eito. Numa versão de Antônio Carlos, cantavam [2]

Refrão (coro): 
“Roda morena! 
Roda morena! 
Você vai, não me leva, 
oi, morena!...” . 

Estrofes (solista): 
Eu desci pra rua abaixo 
num cavalo marchadô, 
uma moça na janela 
abanou lenço e me chamô... 

Moça tu não me conhece, 
não sabe da onde eu sô, 
da macega eu faço a cama, 
do sereno o cobertô...

Eu sou o cravo da Índia, 
que o destino estraçalhô! 
Abrandai meu coração 
que a saudade me deixô... 

“Querido cravo da Índia, 
que o destino estraçalhô, 
se o cavalo der garupa, 
me leva, qu’eu também vô!”


Créditos

[1] Informante: Sr. Luís Santana, 1996. 
[2] Informantes: Sr. José Cândido de Salles e Sra. Elvira Andrade de Salles, 1999. 
- Texto: Ulisses Passarelli.

Notas 
- Revisão: 30/04/2026.
- Vídeo: 


Apresentação de "chora morena" em Itutinga/MG, 2019

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Os três irmãos

Era uma vez um homem rico e já velho que tinha três filhos, por nome Antônio, Pedro e Joãozinho. Resolveu repartir a herança ainda em vida para atender ao pedido de Pedro. Arrumou a papelada, vendeu os terrenos e apurou o dinheiro. Nisto, os filhos já conversavam entre si sobre viagens, pensando em correr o mundo.

O pai os chamou à beira da cama e perguntou a cada um se queria muito dinheiro e pouca bênção ou muita bênção e pouco dinheiro. Joãozinho respondeu: _eu quero dinheiro também, mas eu quero mais é benção.

Aí perguntou ao Pedro, que respondeu: _ benção eu quero muito pouco, eu quero mais é cobre.

Antônio ficou equilibrado, no meio a meio: _ o senhor me dá dinheiro e um bocado de benção.

Seguiram os três, mundo afora. Num certo ponto da trilha depararam com uma encruzilhada, que dividia em três caminhos. Ali se despediram, combinando parceria de ajuda em qualquer questão e em todo tempo, bastando chamar. Cada um tomou um rumo diferente.

Joãozinho carregava um cavaquinho encantado. Seu som irresistível punha todos a dançar. Chegou num alto de morro, já bem distante, resolveu afinar o instrumento musical. Experimentou, começou a tocar animadamente e seu som ecoava muito longe. Tinham umas lavadeiras numa bica d’água. Largaram de lavar roupa e começaram a dançar. Em redor da cidade as mulheres dançavam; até no palácio, a filha do rei rodava no salão, empolgada a dançar. Sua majestade dançou com a rainha. E o cavaquinho mágico lá, naquela distância, do topo de um morro tinindo as cordas ...

Então o Joãozinho entrou na cidade com seu cavaquinho. Muito bem vestido, a princesa logo gostou dele. Rapaz simpático, alegre, tocador. Ela quis casar com ele. O pai fez gosto, mas impôs três condições, que se cumprisse permitia o casamento, caso contrário, mandaria degolar Joãozinho.

O rei falou ao pretendente: _ Vou te dar uma empreitada: hoje, às seis horas da tarde eu vou ajeitar tudo. É um negócio para você separar...

Chamou um jagunço e pediu para trazer muita areia e nela mandou misturar bem uma porção de ouro fino e entregou para o Joãozinho escolher. Tinha de separar tudo, grão por grão de ouro. A tarefa parecia impossível, mas o rapaz tinha seu recurso: toda vez que ia comer alguma coisa, sempre que via uma formiguinha punha um tanto de comida para ela. E sempre dizia para toda formiga que ele tratava: _ óh, formiga, o dia que eu precisar de você, vê se me vale, viu?

 Daí ele se lembrou das formigas e depois que o rei deitou, que bateu aquele silêncio, era nove horas, ele entrou em serviço. Joãozinho resolveu chamar as formigas como de costume e conversou com elas: _ ôh, rei das formigas, pelo amor de Deus, ajuda escolher esse ouro aqui da areia! E as formiguinhas começaram rápido. Carrega daqui, carrega dali; quando clareou, estava tudo separado em dois monturos.

O rei veio olhar o serviço, admirou: _é ... vai dar casamento com a minha filha. Mas agora tem outro serviço. Tem uma mata ali e dentro uma pedreira e atrás dela tem uma cidade. Do meu palácio eu não avisto a cidade por causa das árvores. Para casar com a minha filha você tem de descobrir aquela cidade para mim. Quando eu levantar nove horas do dia eu quero avistar aquela cidade tudo lá...

Joãozinho ficou pensativo: “Nossa Senhora, sô...”, aí lembrou dos irmãos. Tinham tratado de um ajudar o outro. Chamou Pedro e Antônio e eles vieram montados nos seus cavalos encantados, que se chamavam Arranca-toco e Ventania. Explicou o serviço para os irmãos e ficou combinado assim: o cavalo Arranca-toco dava cabeçada nas árvores, derrubando-as e o Ventania soprava, soprava... e as pedras rolavam. Um irmão falou para o outro: _ calma, gente, devagar! Senão agente acaba muito cedo...

O rei levantou cedo e a cidade estava lá... : _ Nossa Senhora! O homem casa com a minha filha mesmo... Não tem jeito não.

Mas tinha um casal de feiticeiros e o rei tratou com eles de dar um jeito no Joãozinho. Eles pensaram e então resolveram encarangar ele. Fizeram uma magia porque era noite de São João. Foram na fogueira do santo e lá o feiticeiro abanou o chapéu, abaixando a aba. Naquilo, branqueou tudo em volta da fogueira e caiu uma chuva de gelo que cercou o Joãozinho. Ele endureceu de friagem. Chegou um irmão dele, ficou com pena e foi derretendo o gelo até soltá-lo.

Amanheceu. Quando o rei viu o rapaz solto do gelo, viu que não tinha jeito de ficar livre dele e teve de empenhar a palavra. O casamento foi no mesmo dia e teve uma grande festa, onde mataram boi e porco, e teve carne para todos os convidados, bastante pão, vinho e cachaça.  


*Texto: Ulisses Passarelli
** Informante: Júlio Prudente de Oliveira, Santa Rita do Ibitipoca, 1996
*** Obs.: conto de encantamento, bastante genuíno na apresentação popular do desenrolar da estória, que registra os fatos principais do enredo sem se preocupar com os detalhes. Por exemplo: não diz como Joãozinho chamou os irmãos, apenas que eles atenderam a seu chamado e a tarefa foi cumprida. No final o irmão que pediu muita bênção casou-se com a princesa e viveu na fartura, reflexo da bênção pedida, também visível ao longo da narrativa, pois em todas as dificuldades recebeu ajuda. Numa variante fragmentada, originária de Antônio Carlos, município vizinho, por informação de Maria Aparecida de Salles (2014), a essência é a mesma mas o desenrolar varia: não aparece o nome dos irmãos, apenas se diz que o mais novo é que pediu mais bênção que dinheiro; ao longo dos três caminhos, sentindo fome, os irmãos depararam com um campo de melancias maduras, que eram mágicas e gritavam: "_ me pega! Me pega! Me pega!" O ganancioso (mais velho), pegou a maior e foi atacado por um enxame furioso de abelhas que o pôs em debandada; o do meio pegou a média, mas só o mais jovem conseguiu comer, por ter pego a menor. Neste caso as melancias que falam se ligam ao ciclo da natureza denunciante, em específico, denunciando a ganância. 

Revisado em 11/02/2025

sábado, 22 de março de 2014

O Tatu Assombrado de Nova Cruz

As estórias que o povo conta são muitas vezes educativas. Não é só entretenimento. É orientação, regra, normatização de conduta social e moral. Os tabus, os preceitos, as restrições, ganham memória e força, senão mesmo saem da abstração para a credibilidade sob a forma de narrativas populares. As velhas lendas, contos, causos e mitos passaram por gerações de boca em boca, desde os antigos, ensinando e consolidando um código de posturas informal mas respeitadíssimo. Essas estórias justificam as proibições que não constam nas leis civis. É pelo exemplo que lhe dão a certeza da necessidade do cumprimento.

A tradição cosmopolita dos lugares assombrados, forma uma espécie de área de reserva, um espaço de restrição para se frequentar, plantar, garimpar, coletar, caçar ou pescar. Lugares sagrados ou misteriosos tem esse quê de mistério e em torno deles ou por eles, se constrói uma literatura popular.  

Neste contexto se passa o causo que ora se apresenta.

*  *  *

Na localidade de Nova Cruz, não muito longe dos Fagundes, no município de Antônio Carlos, saíram numa pescaria. Foram para um lugar que tinha fama de assombrado, mas não deram muito crédito e enfim, o dia parecia tão comum... 

Alguns homens montaram nos seus cavalos e foram pescar. Amarraram os animais na beira d'uma capoeira [1], pegaram a trilha no meio do mato e foram até um ribeirão que passava mais embaixo. Nada pescaram, nenhum peixe. 

De repente, já desanimados com a má pescaria, surgiu um grande tatu [2], muito manso, olhando para eles e fazendo sons como chiados. Largaram as varas de pesca, pegaram paus e quiseram matar o bicho, afinal, se não o pescado, ao menos uma caça levariam para não perder a viagem. 

Deram pauladas nele mas não conseguiam acertá-lo, apesar de serem certeiras na sua direção e da incrível proximidade, a apenas um passo, o tatu desviava do golpe e sumia da frente deles. 

Viram que se tratava de uma invisão [3] e ficaram apavorados. Foram embora. Quando chegaram do outro lado do mato, onde haviam amarrado as montarias, lá estava o estranho tatu esperando eles, da mesma forma. 

Mais uma vez deram de porrete no bicho, enfurecidos, batendo em seguida, mas a empreitada foi inútil... Tão misteriosamente quanto aparecera sumiu como que por encanto e os pescadores apavorados partiram às pressas, pois enfim entenderam que ali era um lugar de respeito.

Tatu em cerâmica (cofre). Vale do Jequitinhonha/MG. 

Tatu em pedra-sabão. Congonhas/MG.  

Tatu em papel-maché. Tiradentes/MG. 

Tatu em madeira. São João del-Rei/MG. 

Tatu em madeira. Prados/MG. 
Tatu em madeira. Artesão Mário Alves. 06/11/2017.
São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei/MG)

Notas e Créditos

[1] - Capoeira: pequena floresta, mata, capão.
[2] - Tatu: mamíferos da ordem cingulata, família dasypodidae, restritos ao continente americano.
[3] - Invisão: termo popular - visão de um espectro, fantasma, assombro.

* Texto e acervo de peças artesanais: Ulisses Passarelli
** Fotografias: Iago C.S. Passarelli
*** Informante: Elvira Andrade de Salles, Santa Cruz de Minas, 08/09/1999.