Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Vamos na Casa de Deus!



Neste curto vídeo de sofrida qualidade, tomado de improviso de um telefone celular, observa-se a entrada no Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos do congado de Paraíso Garcia, distrito de Santa Rita do Ibitipoca/MG, no momento da entrega do reinado. Foi sua primeira presença no Jubileu do Divino, acontecida no ano de 2015.

O grupo, demonstra perfeita sintonia de ritmo e cadência, com uma percussão de bastões muito bem ensaiada, e a beleza visual das fitas multicores entrecruzadas no peito e nas costas dos dançadores. 

Como guarda de corte, esta modalidade de congado se ajusta à categoria popularmente chamada moçambique bate-paus, facilmente diferenciável de outros moçambiques que não fazem a percussão de bastões. É identificado também pelo tinir dos guizos (paiás) atados nos tornozelos dos dançantes. 

A localidade em questão está bem na área geográfica desse modelo de congado, difundido nos Campos das Vertentes.

Notas e Créditos

* Vídeo e texto: Ulisses Passarelli

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Os três irmãos

Era uma vez um homem rico e já velho que tinha três filhos, por nome Antônio, Pedro e Joãozinho. Resolveu repartir a herança ainda em vida para atender ao pedido de Pedro. Arrumou a papelada, vendeu os terrenos e apurou o dinheiro. Nisto, os filhos já conversavam entre si sobre viagens, pensando em correr o mundo.

O pai os chamou à beira da cama e perguntou a cada um se queria muito dinheiro e pouca bênção ou muita bênção e pouco dinheiro. Joãozinho respondeu: _eu quero dinheiro também, mas eu quero mais é benção.

Aí perguntou ao Pedro, que respondeu: _ benção eu quero muito pouco, eu quero mais é cobre.

Antônio ficou equilibrado, no meio a meio: _ o senhor me dá dinheiro e um bocado de benção.

Seguiram os três, mundo afora. Num certo ponto da trilha depararam com uma encruzilhada, que dividia em três caminhos. Ali se despediram, combinando parceria de ajuda em qualquer questão e em todo tempo, bastando chamar. Cada um tomou um rumo diferente.

Joãozinho carregava um cavaquinho encantado. Seu som irresistível punha todos a dançar. Chegou num alto de morro, já bem distante, resolveu afinar o instrumento musical. Experimentou, começou a tocar animadamente e seu som ecoava muito longe. Tinham umas lavadeiras numa bica d’água. Largaram de lavar roupa e começaram a dançar. Em redor da cidade as mulheres dançavam; até no palácio, a filha do rei rodava no salão, empolgada a dançar. Sua majestade dançou com a rainha. E o cavaquinho mágico lá, naquela distância, do topo de um morro tinindo as cordas ...

Então o Joãozinho entrou na cidade com seu cavaquinho. Muito bem vestido, a princesa logo gostou dele. Rapaz simpático, alegre, tocador. Ela quis casar com ele. O pai fez gosto, mas impôs três condições, que se cumprisse permitia o casamento, caso contrário, mandaria degolar Joãozinho.

O rei falou ao pretendente: _ Vou te dar uma empreitada: hoje, às seis horas da tarde eu vou ajeitar tudo. É um negócio para você separar...

Chamou um jagunço e pediu para trazer muita areia e nela mandou misturar bem uma porção de ouro fino e entregou para o Joãozinho escolher. Tinha de separar tudo, grão por grão de ouro. A tarefa parecia impossível, mas o rapaz tinha seu recurso: toda vez que ia comer alguma coisa, sempre que via uma formiguinha punha um tanto de comida para ela. E sempre dizia para toda formiga que ele tratava: _ óh, formiga, o dia que eu precisar de você, vê se me vale, viu?

 Daí ele se lembrou das formigas e depois que o rei deitou, que bateu aquele silêncio, era nove horas, ele entrou em serviço. Joãozinho resolveu chamar as formigas como de costume e conversou com elas: _ ôh, rei das formigas, pelo amor de Deus, ajuda escolher esse ouro aqui da areia! E as formiguinhas começaram rápido. Carrega daqui, carrega dali; quando clareou, estava tudo separado em dois monturos.

O rei veio olhar o serviço, admirou: _é ... vai dar casamento com a minha filha. Mas agora tem outro serviço. Tem uma mata ali e dentro uma pedreira e atrás dela tem uma cidade. Do meu palácio eu não avisto a cidade por causa das árvores. Para casar com a minha filha você tem de descobrir aquela cidade para mim. Quando eu levantar nove horas do dia eu quero avistar aquela cidade tudo lá...

Joãozinho ficou pensativo: “Nossa Senhora, sô...”, aí lembrou dos irmãos. Tinham tratado de um ajudar o outro. Chamou Pedro e Antônio e eles vieram montados nos seus cavalos encantados, que se chamavam Arranca-toco e Ventania. Explicou o serviço para os irmãos e ficou combinado assim: o cavalo Arranca-toco dava cabeçada nas árvores, derrubando-as e o Ventania soprava, soprava... e as pedras rolavam. Um irmão falou para o outro: _ calma, gente, devagar! Senão agente acaba muito cedo...

O rei levantou cedo e a cidade estava lá... : _ Nossa Senhora! O homem casa com a minha filha mesmo... Não tem jeito não.

Mas tinha um casal de feiticeiros e o rei tratou com eles de dar um jeito no Joãozinho. Eles pensaram e então resolveram encarangar ele. Fizeram uma magia porque era noite de São João. Foram na fogueira do santo e lá o feiticeiro abanou o chapéu, abaixando a aba. Naquilo, branqueou tudo em volta da fogueira e caiu uma chuva de gelo que cercou o Joãozinho. Ele endureceu de friagem. Chegou um irmão dele, ficou com pena e foi derretendo o gelo até soltá-lo.

Amanheceu. Quando o rei viu o rapaz solto do gelo, viu que não tinha jeito de ficar livre dele e teve de empenhar a palavra. O casamento foi no mesmo dia e teve uma grande festa, onde mataram boi e porco, e teve carne para todos os convidados, bastante pão, vinho e cachaça.  


*Texto: Ulisses Passarelli
** Informante: Júlio Prudente de Oliveira, Santa Rita do Ibitipoca, 1996
*** Obs.: conto de encantamento, bastante genuíno na apresentação popular do desenrolar da estória, que registra os fatos principais do enredo sem se preocupar com os detalhes. Por exemplo: não diz como Joãozinho chamou os irmãos, apenas que eles atenderam a seu chamado e a tarefa foi cumprida. No final o irmão que pediu muita bênção casou-se com a princesa e viveu na fartura, reflexo da bênção pedida, também visível ao longo da narrativa, pois em todas as dificuldades recebeu ajuda. Numa variante fragmentada, originária de Antônio Carlos, município vizinho, por informação de Maria Aparecida de Salles (2014), a essência é a mesma mas o desenrolar varia: não aparece o nome dos irmãos, apenas se diz que o mais novo é que pediu mais bênção que dinheiro; ao longo dos três caminhos, sentindo fome, os irmãos depararam com um campo de melancias maduras, que eram mágicas e gritavam: "_ me pega! Me pega! Me pega!" O ganancioso (mais velho), pegou a maior e foi atacado por um enxame furioso de abelhas que o pôs em debandada; o do meio pegou a média, mas só o mais jovem conseguiu comer, por ter pego a menor. Neste caso as melancias que falam se ligam ao ciclo da natureza denunciante, em específico, denunciando a ganância. 

Revisado em 11/02/2025

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Calango-tango: parte 3

Linha do Bicharão: um calango diferente

A cantoria do calango, que pode ou não ser dançado, é muito disseminada no interior mineiro e bem conhecida no Campo das Vertentes. Foi alvo de dois textos neste blog, intitulados "Calango-tango".

Dentre as modalidades, uma muito específica é o "Calango dos Bichos", que enumera de 1 a 25 os animais do popular Jogo do Bicho, considerado contravenção no país [1]. Neste blog já foi transcrito um exemplar e ora segue este outro, oriundo de Santa Rita do Ibitipoca, informado de memória.

Como outras versões, faltam alguns números (20 e 23), e outros números tem o bicho original trocado, devido ao eventual lapso da memória (19 é pavão e não peru, que é o 20). Entretanto, seja como for, é um exemplar muito significativo deste gênero poético-musical, que carrega no enunciado o sabor da versificação popular e da pronúncia interiorana.

Senhor me dá licença,
d'eu começar minha coleção,
eu agora vou cantar 
na minha linha do bicharão. 

Número 1 deu n'avestruz,
acompanhando de vão em vão;
número 2 deu na águia,
caiu no chapadão. 

Número 3 deu no burro,
quando não é marcha é trotão;
número 4 na borboleta,
voando de vão em vão. 

O 5 é o cachorro, 
tem apelido de cão;
o 6 deu na cabra,
que dá leite pros pagão. 

O 7 deu carneiro,
que de Deus tem a benção;
o 8 o camelo,
que pega peso no chão. 

O 9 na cobra,
que é bicho da maldição;
o número 10 no coelho,
pastando capim-melão. 

O 11 no cavalo,
que dá sela e dá silhão;
0 12 no elefante
que na tromba traz argolão. 

O 13 deu no galo,
que tem espora, mas não é pião;
o 14 deu no gato,
destampando o caldeirão. 

O número 15 no jacaré,
nadando no ribeirão;
o 16 no leão,
que é o rei do bicharão. 

O 17 deu no macaco
que pulou do galho no chão,
o 18 deu no porco,
cozido no caldeirão. 

O 19 deu peru, 
arrastando a asa no chão;
(falta o 20: peru)

O 21 deu no touro,
puxando carretão;
o 22 deu na tigre [2],
só pega às traição.

(falta o 23: urso)
o 24 no veado,
correndo no chapadão. 

25 deu na vaca,
terminei minha coleção. 

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli. 
- Informante: Júlio Prudente de Oliveira,1996.  

Notas 

[1] Em razão da ilegalidade, a repressão ao jogo do bicho é muito antiga. Há mais de um século a imprensa são-joanense elogiava o Dr. Vieira Marques, de Belo Horizonte, chefe das polícias, pela ordem expedida aos delegados distritais, no sentido de que perseguissem o jogo do bicho (Fonte: jornal A Tribuna, n.49, 13/06/1915, São João del-Rei. Acervo: Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida).

[2] Na tigre: a expressão no feminino é tradicional entre as vozes populares. No meio caipira a palavra tigre é por vezes sinônimo de onça, o que não corresponde naturalmente aos ensinamentos da zoologia. Mas o costume dessa denominação é antigo. Já Diogo de Vasconcelos escrevera sobre a onça preta, variedade melânica da pintada (jaguar), chamando-a de "onça tigre": "é preta, como o tigre, e tem de ordinário da cabeça à extremidade da cauda, de dez a dezesseis palmos de comprido, o tronco varado, peitos e quartos largos; a forma é a de um gato e serve-se das unhas retráteis como um anzol para chegarem a presa à boca, com a qual a despedaçam; é a mais formidável de todas as feras por sua agilidade, e arteira de modo que, com a dissimulação, assalta a todos os animais; seus urros são medonhos; habita as grandes matas e serras fragosas; nutre-se de toda a espécie de carnes, ama com preferência o gado vacum e cavalar. Atrai as presas por meio da imitação, fingindo o pio do macuco ou do inhambu ou de qualquer ave que pretende apoderar-se." (VASCONCELOS, Diogo Pereira Ribeiro de. Breve descrição geográfica, física e política da Capitania de Minas Gerais. Belo Horizonte: Sistema Estadual de Planejamento/Fundação João Pinheiro/Centro de Estudos Históricos e Culturais, 1994. Coleção Mineiriana, Série Clássicos. 188p. p.68).

- Para saber mais sobre calango veja neste blog: 


- Revisão: 05/06/2025.