Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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terça-feira, 15 de março de 2016

A Morte do Quilombola

Segue o registro de mais um conto popular, desta feita na modalidade "causo", narrando a passagem de um escravizado fugido, de idade avançada. Paralelo à sabedoria do homem simples, a nota maior é a reflexão sobre a salvação da alma. Foi relatado em São João del-Rei, como sendo muito antigo... 

*  *  *

Diz que foi no tempo do cativeiro, a cento e tantos anos atrás... Certo padre em longa jornada, ao passar à cavalo em um ermo de serra, beirando umas grotas, avistou uma tapera e nela um velho fugitivo das correntes do cativeiro. O quilombola estava em agonia de morte. O padre imaginou que não haveria outra oportunidade e querendo salvar a alma do quilombola, pediu para ele: 

_ Fala: "Jesus, Maria e José!"

Mas o moribundo já muito idoso, pleno em humildade, simplório ao extremo, só conseguiu com dificuldade dizer: 

_ "Cará na maromba tá que nem fubá..."

Tantas vezes o sacerdote pediu ao preto idoso que falasse o nome de Jesus, tantas ele repetia a mesma frase, refletindo sua única ambição, que nem sequer tinha força física para cumprir: colher cará [1] na maromba, um cercado improvisado com varas, pois o alimento estava no ponto da colheita, sequinho, igual fubá. 

E assim entregou-se à morte. O padre, certamente, entendeu que apesar de não ter dito o nome do Salvador aquela alma estaria salva pela misericórdia do Pai, em virtude das agruras que a vida lhe proporcionou e a pureza que conservou consigo. 

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Informante: Aluísio dos Santos, São João del-Rei, jan./1994.

Notas 

- Cará: conhecido por cará-do-ar, cará-de-cerca ou cará-de-pedra é uma planta trepadeira que produz tubérculos comestíveis. Pertence ao gênero Discorea. 
- Revisão: 09/05/2025. 

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Tradições acerca do gato

O gato na cultura popular é o símbolo da esperteza e da rapidez, mas também é entendido como uma criatura sonsa e traiçoeira, capaz de repentinamente mudar de gênio, de calmo para agressivo.

Acreditam alguns congadeiros em São João del-Rei/MG, que o tamborim, se revestido por couro de gato terá uma força muito maior que se fosse com o de boi, garantindo ao capitão que o usa, sagacidade no vencimento das demandas. O gato então é citado num ponto de catupé um tanto provocativo, coligido mesmo nesta cidade, em 1992:

"Eu quero vê!
Eu quero vê!
O pulo do gato, 
caxinguele-lê!"

O sentido é o seguinte: quem canta propõe um desafio ao terno visitante que chega em terra alheia sem a devida humildade _ quem pula melhor, com maior desenvoltura no congado? O "gato" é o congadeiro da terra, de casa, anfitrião; o "caxinguelê" é o congadeiro de fora, do mato, que não é do lugar, que veio de fora. O caxinguelê ou serelepe é um roedor extremamente ágil em seus movimentos.

No campo da crendice é assaz conhecido que gato preto dá azar a quem o ver atravessando o caminho adiante do observador. Igualmente difundido que o gato teria sete vidas, ou seja a faculdade de resistir à morte extraordinariamente. O povo também acredita que o gato transmita bronquite ou mais acertadamente a asma. Por isto não recomendam o contato muito próximo com o animal. Deixar o gato dormir na cama junto com a pessoa facilitaria essa transmissão. No mais há quem coma gatos, reputado como um bom tira-gosto, mas segundo se diz, não se deve chupar seus ossos como se faz com a carne de galinha, por exemplo, posto que a pessoa ficaria com "chieira" igual ao gato, ou seja, com o peito cheio, congestionado, gerando um som semelhante ao ronronado.

A figura do gato como animal doméstico propiciou o surgimento da crença que ele é um animal que teria uma ligação com o mal, o capeta. Talvez esta ideia tenha surgido de sua astúcia, dissimulação, tocaias, enfim, técnicas de sua própria natureza que objetivam sucesso na caça de suas presas naturais. Mas fato é que o povo interpreta estes atributos como sinais negativos [1]

No causo abaixo, de fundo anedótico, esta fama aflora e serve de motivo para o desenrolar da narrativa. Mais uma tradição popular corrente em São João del-Rei. Desta mesma cidade segue ainda uma versão da fábula assaz conhecida "O Pulo do Gato", que também reflete a esperteza do animal. 


O padre ludibriado pelo sacristão

Conta-se que um certo padre criava muitos gatos e o sacristão era encarregado de alimentá-los, mas o fazia muito a contragosto, pois odiava o serviço e mais ainda aqueles animais. Não via a hora de se livrar deles, que lotavam a casa paroquial. 

Fazia de tudo para convencer o sacerdote a acabar com os bichanos, mas sem êxito. Assim sendo, adotou nova estratégia e passou a afirmar que o gato não era bicho de bem, não era de Deus, mas do demônio. Mas o padre não acreditava e mantinha sua criação. 

Certa ocasião o padre precisou fazer uma longa e demorada viagem e deixou a gataiada [2] a cargo do sacristão como de costume. Era exatamente o que ele esperava...Todo dia, o sacristão aproveitando a ausência do vigário, juntava os gatos num cômodo pequeno, todo fechado e começava a gritar forte: "cruz, credo!", "cruz, credo!", "cruz, credo!" E enquanto gritava, batia violentamente com um chicote nos bichos que ficavam apavoradíssimos. Assim fez por vários dias. 

O padre então voltou da viagem e veio logo saber de seus queridos gatos. O sacristão de imediato falou que tinha avisado que os gatos eram do diabo. O vigário desacreditando, supondo uma bobagem, ouviu do sacristão que era só eles ouvirem a expressão "cruz, credo" [3] que fugiam apavorados... O padre quis tirar a prova e o juntou os gatos; o sacristão logo gritou: "cruz, credo!" Os gatos já condicionados pelo mal trato, se desesperaram e fugiram apavorados por todos os lados, miando em tom de desespero. E o padre, crente que o sacristão tinha razão, livrou-se dos gatos, para alegria de seu ajudante.

O pulo do gato

A onça admirava muito o gato por sua grande habilidade em dar saltos. Foi conversar com ele sobre isto e pediu que ele ensinasse a pular de todo jeito, pois precisava dessa habilidade para as suas caçadas. O gato, gentilmente, ensinou.

Passaram dias de aulas até que a lição chegou ao fim. A onça, muito astuta, resolveu armar um bote para pegar e devorar o gato, achando que já sabia de tudo e usando um dos saltos aprendidos com ele. Esperou de tocaia e pulou sobre o gato, com um habilidoso salto mortal. O gato, com extrema agilidade deu uma pirueta espetacular para trás e a onça perdendo o golpe que dera, ficou boquiaberta. Sem ter o que fazer, disse:

_ Ôh, compadre gato, que salto maravilhoso! Esse você não me ensinou...
_ Se eu te ensinasse esse pulo, você me comia!

Assim o gato se foi, deixando a lição que nem tudo a gente ensina...



Grafite inspirado em gatos, pintado sobre parede externa de residência à
Rua Alexina Pinto, na Bela Vista, em São João del-Rei. 03/07/2016. 

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.

Notas 

[1] Estas características despertaram também sua aproximação a alguns terreiros. Nalgumas quimbandas e umbandas o gato é animal votivo dos exus. Há vinte e poucos anos tivemos oportunidade de ver uma caveira de gato no interior de uma casa de força, de um desses terreiros, no Bairro São Dimas em São João del-Rei, como firmeza da linha esquerda. Um ponto cantado alude a esta aproximação:

"Exu ganhou um gato, 
mas não quis comer sozinho, 
dividiu com os camaradas,
pedacinho por pedacinho!
Aí chegou, seu Lucifer,
e a Pombogira,
era homem, era mulher..."

[2] Gataiada: muitos gatos. O sufixo "ada" na formação de um vocabulário popular é sempre de efeito superlativo: "chuvarada" (muita chuva), "dinheirada" (muito dinheiro), "peixaiada" (muitos peixes), etc. 
[3] Cruz, credo!: expressão popular de natureza exorcisória, esconjuro, fórmula verbal de catarse.

- Informantes: José Camilo da Silva, Bairro São Dimas, São João del-Rei, 1992 (caso do padre; ponto do gato com caxinguelê), Luís Santana, Bairro São Dimas, São João del-Rei, 1995 (fábula do pulo do gato). 
- Revisão: 26/10/2025. 
- Leia neste blog outros contos tematizados na suposta negatividade do gato, clicando nos links abaixo:

O GATO MALDITO: UM CONTO DO DEMÔNIO LOGRADO

UM CONTO POPULAR DE FIM TRÁGICO



sábado, 29 de novembro de 2014

Duas lendas da Lagoa dos Cordões

Na margem do Rio das Mortes, ao longo de sua várzea, formam-se algumas lagoas nos rebaixamentos, anualmente renovadas pela invasão das águas fluviais da cheia do rio. Em Santa Cruz de Minas algumas aparentemente menos significativas não receberam nomes próprios; mas outras, por peculiaridades específicas, foram nominadas: Lagoa do Cará (nome de várias espécies de peixes ciclídeos), Lagoa Vermelha, Lagoa Comprida, Lagoa do Cascalho e Lagoa dos Cordões (ou dos Sete Cordões), esta, a maior e mais profunda.

As margens da Lagoa dos Cordões eram pontos de lazer, sempre frequente de se ver banhistas e pescadores. Também difundida no meio popular duas narrativas assombradas para aquelas águas, além das tradicionais estórias do caboclo-d'água, que dizem surgir ali também.

Vejamos, resumidamente, as duas lendas: 

A Noiva Encantada

Dizem que, vez por outra, alguém vê, de repente, uma noiva andando cabisbaixa na beirada da Lagoa do Cordões. É logo reconhecida por seu vestido branco matrimonial. Sua fisionomia expressa tristeza e em breve desaparece como uma bruma matutina. 

Narra-se que, certa feita, fazem muitos anos, uma jovem fora obrigada pela família a se casar com um homem que não gostava de jeito nenhum. Muito contrariada, fugiu correndo do altar e no auge do desespero atirou-se na Lagoa dos Cordões, onde morreu afogada. 

Sua alma infeliz vagueia por lá, entre água e terra, entre dois mundos, aparecendo eventualmente como se pedisse socorro através de sua tristeza.  

Tropa do Além

O povo acredita que nas margens da Lagoa dos Cordões, a altas horas da noite, aconteça uma assombrosa manifestação: ouve-se ao longe cavalos relinchando, muitos, e um intenso tropel, e um homem a gritar como que campeando os animais.

Os cavalos se aproximam e se reconhece pelo aumento da nitidez do barulho a sua chegada, cada vez mais marcante. O corpo então arrepia, anunciando que aquilo é coisa de outro mundo...

E surge a visagem: uma tropa de cerca de quarenta cavalos, absolutamente brancos, tangidos pela alma de um só peão, que brada tocando animais fantasmagóricos.

 Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.

Notas 

- Informante: diversos, Santa Cruz de Minas, 1994.
- Revisão: 13/10/2025. 

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O Lençol da Falecida

Antigamente, nos enterros de roça, não usavam caixão, como hoje. Quando morria alguém nos sítios e localidades humildes, um parente ou amigo mandava um mensageiro sair às pressas até um carapina para encomendar um caixão. Pela noite os homens trabalhavam na banca - faziam o caixão e o revestiam de pano roxo e galão amarelo ou dourado. O defunto vinha da zona rural de padiola, espécie de estrado improvisado sobre varais de madeira, coberto por um lençol, sempre branco. 

Na entrada da cidade ou vila onde houvesse cemitério, os fabricantes do caixão estavam esperando com o macabro produto de seu trabalho. Ali o cortejo fúnebre parava e transferiam o corpo respeitosamente para o caixão. A padiola era jogada fora no mato e o falecido entrava na área urbana mais bem posicionado no caixão. 

Ocorreu certa vez, fazem muito anos, que na zona rural de Bias Fortes faleceu uma mulher já madura de idade, por nome ... Naquele dia um cavaleiro tinha ido à cidade e voltava já tarde para a roça, fora de hora, se guiando pelo caminho graças ao clarão da lua cheia. 

Em dado ponto do caminho, próximo à casa da falecida, viu um lençol branco estendido no chão do caminho. Estranhou... Foi chegando perto, o lençol alçou voo, rente ao solo, caminho afora, aparentemente lento. Mas o homem era abusado. Queria tirar a limpo aquele caso misterioso: impôs galope à montaria e tanto mais corria, mais rápido o lençol voava tremulando. A ideia do cavaleiro era açoitar o lençol.

Emparelhado à casa donde saíra a falecida, o lençol desceu morro abaixo e pairou na frente da porta da cozinha. Ali, como que por encanto desapareceu, deixando estupefato o cavaleiro, que enfim se certificou que o lençol não era uma brincadeira de algum gaiato que o puxava amarrado a um cordão, mas sim, uma aparição sinistra da alma daquela mulher que morrera e que ainda não fora encaminhada para a salvação.

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli
- Informante: José Cândido de Salles, Santa Cruz de Minas, setembro/2000.

Notas 

- Obs.: o causo do lençol branco que voa, simbolizando uma alma, tem difusão além da área desta narrativa. Na estrada do Caburu, por exemplo, em São João del-Rei, quase chegando na vila de São Gonçalo do Amarante, existe, à beira da estrada, à direita de quem vai para aquele distrito, uma antiquíssima passagem de uma velha cava, caminho de outrora, trilhado por cavaleiros, boiadeiros e tropeiros. Ali existe a "Porteira da Volta", com fama de assombrada, onde, dizem, os incautos são perseguidos por um lençol esvoaçante (inf.: Dorival Caim de Paula, outubro/2014). Esta cava é parte do caminho antigo de São João a São Gonçalo, via Águas Gerais e possivelmente um trecho do Caminho Geral do Sertão, contemporâneo do movimento sertanista. 

- Revisão: 08/04/2026. 

terça-feira, 11 de novembro de 2014

A lição da miserável

Ela era muito sovina. A fulana se comportava como uma mulher usurária, que não aceitava dar nada a ninguém; "garrafinha", como se diz. Nem ao seu cachorro de estimação deixava uma migalha. O que o pobre animal angariava era apenas um pouco de comida que comia às escondidas de sua dona, além do que catava de comer pelas ruas. 

Certa ocasião a mulher estava amassando angu para comer e o seu cão muito magro, logo abaixo da mesa, babava e fazia expressão de muita fome, com os olhos esbugalhados na direção do prato. Mas sua dona não percebia nem compadecia. Amassava o angu mecanicamente, olhando para fora pela janela. 

Quando enfim voltou os olhos ao prato, se assustou muito: ela deu um salto para trás e deixou cair o garfo... O prato estava banhado de sangue! Como um aviso divino para frear seu mau hábito de mesquinharia, os olhos do cachorro tinham saltado fora das órbitas para dentro do prato, de tanta vontade de comer, e a mulher os havia amassado junto com o angu...  

O vira-latas. 

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografia: Iago C.S. Passarelli, 2014.
- Informante: Elvira Andrade de Salles, Santa Cruz de Minas, 1995.

Notas 


- Revisão: 03/02/2026. 
- Obs.: outra narrativa colhida na região assemelha-se a esta ao envolver um dono mesquinho e o cachorro de estimação, com um aviso sobrenatural, que partiu do próprio animal. Leia em:

LUGAR ONDE O CACHORRO FALOU


sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Causos sobre vacas

Nesta postagem expõe-se dois curiosos causos envolvendo vacas.

O primeiro é uma transcrição jornalística [1] de matéria publicada em São João del-Rei, 112 anos atrás. Teria acontecido no distrito de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno. A grafia foi atualizada. Narra o castigo divino que caiu sobre um sitiante que usurpou a vaca de outro. É explicitamente o reflexo do pensamento da cultura popular acerca da justiça divina. Estórias assim se repetem como exemplo moralizante, uma lição, e como tal, assumem finalidade quase catequética.

O segundo causo é anedótico e se passa com uma Folia de Reis rural, que rumou à casa de um potentado político do sertão, um "coronel", como se dizia outrora, título não militar, de cunho honorífico, aplicado a ricos comerciantes e latifundiários, em geral poderosos e violentos, impondo seu domínio pela força de armas na mão de capangas. Sabe-se que essa narrativa em pequenas variantes aparece noutras regiões [2].  

Detalhe de uma pintura popular sobre um latão de leite de 50 litros.
São Miguel do Cajuru (São João del-Rei/MG).

1- "Deu-se há dias neste distrito um fato, que muito tem impressionado esta população. Eis o caso: um sitiante vizinho foi a casa de outro e lá, com extrema brutalidade, insultou-o muito, insultou a própria família do mesmo, contando com o gênio excessivamente pacifico do insultado. Tudo isto fez por causa de uma vaca que dizia ser sua e que afinal de contas não era. Ao retirar-se garboso, tocando a vaca que dizia ser sua, o fazendeiro insultado disse-lhe apenas estas palavras: "a vaca não é sua mas pode levá-la que Deus cobrará por mim." Em tal hora essas palavras foram ditas que os anjos disseram _ "amém". Dois dias depois disso, sem chuva alguma, céu claro e sem nuvem, estronda um corisco e cai uma faísca no meio do gado do sitiante, e dessa feita, morreram seis vacas, das melhores. O sitiante vai mudar o gado de pasto e outra rês cai num desbarrancado. Dias depois morrem mais duas vacas atoladas, quase em frente à casa do sitiante usurpador. A providência cobrando as injúrias lançadas à família do outro! E assim vai o bruto pagando, e com juros a vaca tirada. Este fato verdadeiro e real muito nos tem impressionado aqui."

Fotomontagem contendo recorte do jornal O Combate,
n.154, 01/03/1902, que narrou o causo da vaca no distrito. 

2- Aí por esses ermos entre montanhas, foi há muito tempo, que uma Folia de Reis, simplória, própria das roças, estava em jornada por léguas, visitando sitiantes e fazendeiros, tendo à frente sua bandeira sagrada. A bandeira era muito humilde, feita de um pequeno pedaço de pano vermelho, já surrado pelo tempo, com alguns enfeites e o registro (estampa) dos Santos Reis. Vinha presa numa vareta de bambu, pela qual o bandeireiro a carregava respeitosamente. Iam de visita à casa de um "coronel", onde todo ano passavam com a folia e pousavam. Ele gostava demais e se sentia muito ofendido se sua casa não fosse visitada. Como era muito bravo e influente, ninguém ousava desagradá-lo, como manda-chuva do sertão que era. Deu-se, que o calor cruel e o cansaço da longa caminhada os fez prostrar sob uma frondosa árvore no meio de um pasto. Tinham almoçado de pouco e não teve jeito... Amontoaram os instrumentos junto ao tronco e puseram a bandeira por cima para abençoar, como de costume. Deitaram na grama mesmo, se acomodando como deu. Cochilaram. Por ali pastavam umas reses e não é que, com o paradeiro dos folieiros, naquele mormaço, foram se aproximando e uma vaca mais afoita, atiçada pelo pano da bandeira balançando a ponta ao vento, meteu-lhe a boca e começou a comer a bandeira da folia. Quase no fim, ao puxá-la com os dentes, a vareta de segurar derrubou os instrumentos e foi aquela barulhada de pandeiro rolando, caixa tombando, cavaquinho estatelado na macega. Os folieiros acordaram assustados e um gritou: "a vaca  tá comendo a bandeira!" e correu para acudir, mas como só estava uma ponta de fora, ainda fez cabo de guerra com a vaca, mas ela levou a melhor e acabou engolindo tudo. Só sobrou o pauzinho de segurar, ou melhor, o bambu, com umas fitinhas desbotadas na ponta. Entreolhando-se decepcionados e preocupadíssimos, logo se puseram a discutir o que fazer, ante tão embaraçosa situação: "vamos embora para casa", diziam uns; "não, vamos ao coronel assim mesmo, que se faltar lá ele manda até capanga perseguir a gente...", diziam outros. Não havendo consenso, ordenou o folião: "o jeito é ir na fazenda do coronel. Lá não pode faltar... A gente explica com jeitinho." Pois, foram. Na chegada, o homem que estava de espera, olhou espantado para o grupo, dando pela falta da bandeira, situação inimaginável para uma folia... O bandeireiro na dianteira, muito sem graça, cabeça baixa, segurava a vareta com fitas. O mestre, com a viola em punho, sem saber como explicar em seus versos o acontecido, se saiu com este improviso: 

"Meu senhor dono da casa, 
não repara o que aconteceu: 
dai esmola pra vareta,
que a bandeira a vaca comeu..."


Créditos 

- Texto e fotografia (2013): Ulisses Passarelli.

Notas

- Revisão: 07/08/2025. 
____________________________________________________________

[1] Fonte: O Combate, n.154, 01/03/1902, São João del-Rei. Acervo da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida.

[2] Informante da versão local, transcrita nesta postagem: Sebastião Teodoro da Silva ("Tião Domingos"), 2004, Vila João Lombardi - Bairro das Fábricas, São João del-Rei. Era folião, natural do distrito de Emboabas (in memoriam)

terça-feira, 3 de junho de 2014

Camisa da Felicidade

Conta-se que um rico homem sentia-se infeliz. Buscava conselheiros, que lhe informassem como ser feliz, já que tinha tudo para ter uma boa vida mas vivia deprimido. 

Certo dia foi ter com um sábio curandeiro, que lhe assegurou que bastava sair pelo mundo e quando achasse alguém feliz, trocasse de camisa com esta pessoa, o que decerto seria fácil, pois sempre vestia belas roupas. E saiu pelos caminhos afora. Encontrou um homem e indagou-lhe: "_ és feliz? " a que ele respondeu: "_ sou não senhor, trabalho muito, tenho quase nada..."

Prosseguiu. Viu então uma cabana e ouviu entre batidas de machado, um homem cantarolando enquanto rachava lenha. Imaginou: "esse homem deve ser feliz. Morando nesta choupana, pobre, debaixo desse sol, fazendo serviço bruto e ainda cantando!" Então começaram a conversar. Conversa vai, conversa vem [1], o nobre soltou a pergunta: 

_ O senhor é feliz?
_ Sou muito, graças a Deus. 
_ Então me faz um favor?
_ O que estiver ao meu alcance...
_ Troca de camisa comigo?
_ Ah... ôh, senhor, peça outra coisa que isto eu não posso!

E desabotoou o paletó mostrando o peito nu. Nunca tivera uma camisa em sua vida miserável mas virtuosa. O homem rico, cabisbaixo, entendendo a lição da vida, compadeceu-se e tirando sua própria camisa deu-a ao humilde trabalhador rural e assim descobriu que, o que de fato lhe faltava na vida, era a caridade e o temor a Deus. 

Créditos


- Texto: Ulisses Passarelli.
- Informante: Aluísio dos Santos, São João del-Rei, Centro, julho/1994. 

Notas

[1] Conversa vai, conversa vem: expressão popular para indicar diálogo prolongado sem chegar ao âmago da questão.
- Revisão: 30/03/2026. 

sábado, 22 de março de 2014

O Tatu Assombrado de Nova Cruz

As estórias que o povo conta são muitas vezes educativas. Não é só entretenimento. É orientação, regra, normatização de conduta social e moral. Os tabus, os preceitos, as restrições, ganham memória e força, senão mesmo saem da abstração para a credibilidade sob a forma de narrativas populares. As velhas lendas, contos, causos e mitos passaram por gerações de boca em boca, desde os antigos, ensinando e consolidando um código de posturas informal mas respeitadíssimo. Essas estórias justificam as proibições que não constam nas leis civis. É pelo exemplo que lhe dão a certeza da necessidade do cumprimento.

A tradição cosmopolita dos lugares assombrados, forma uma espécie de área de reserva, um espaço de restrição para se frequentar, plantar, garimpar, coletar, caçar ou pescar. Lugares sagrados ou misteriosos tem esse quê de mistério e em torno deles ou por eles, se constrói uma literatura popular.  

Neste contexto se passa o causo que ora se apresenta.

*  *  *

Na localidade de Nova Cruz, não muito longe dos Fagundes, no município de Antônio Carlos, saíram numa pescaria. Foram para um lugar que tinha fama de assombrado, mas não deram muito crédito e enfim, o dia parecia tão comum... 

Alguns homens montaram nos seus cavalos e foram pescar. Amarraram os animais na beira d'uma capoeira [1], pegaram a trilha no meio do mato e foram até um ribeirão que passava mais embaixo. Nada pescaram, nenhum peixe. 

De repente, já desanimados com a má pescaria, surgiu um grande tatu [2], muito manso, olhando para eles e fazendo sons como chiados. Largaram as varas de pesca, pegaram paus e quiseram matar o bicho, afinal, se não o pescado, ao menos uma caça levariam para não perder a viagem. 

Deram pauladas nele mas não conseguiam acertá-lo, apesar de serem certeiras na sua direção e da incrível proximidade, a apenas um passo, o tatu desviava do golpe e sumia da frente deles. 

Viram que se tratava de uma invisão [3] e ficaram apavorados. Foram embora. Quando chegaram do outro lado do mato, onde haviam amarrado as montarias, lá estava o estranho tatu esperando eles, da mesma forma. 

Mais uma vez deram de porrete no bicho, enfurecidos, batendo em seguida, mas a empreitada foi inútil... Tão misteriosamente quanto aparecera sumiu como que por encanto e os pescadores apavorados partiram às pressas, pois enfim entenderam que ali era um lugar de respeito.

Tatu em cerâmica (cofre). Vale do Jequitinhonha/MG. 

Tatu em pedra-sabão. Congonhas/MG.  

Tatu em papel-maché. Tiradentes/MG. 

Tatu em madeira. São João del-Rei/MG. 

Tatu em madeira. Prados/MG. 
Tatu em madeira. Artesão Mário Alves. 06/11/2017.
São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei/MG)

Notas e Créditos

[1] - Capoeira: pequena floresta, mata, capão.
[2] - Tatu: mamíferos da ordem cingulata, família dasypodidae, restritos ao continente americano.
[3] - Invisão: termo popular - visão de um espectro, fantasma, assombro.

* Texto e acervo de peças artesanais: Ulisses Passarelli
** Fotografias: Iago C.S. Passarelli
*** Informante: Elvira Andrade de Salles, Santa Cruz de Minas, 08/09/1999.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

O Ouro das Almas

O último post abordou as tradições acerca das almas penadas. Aproveitando seu clima, transcrevo um causo que recolhi em 05/01/1994, do saudoso Sr. José Camilo da Silva, natural da zona rural de Resende Costa (Fazenda do Palmital), mas radicado há muitos anos em São João del-Rei, no Bairro São Dimas. Era jongueiro, capitão de congado e folião. É a sua versão que se segue. Porém, coligi outra por assim dizer idêntica, de outro mestre da cultura popular, Sr. Júlio Prudente de Oliveira, dois anos depois. Era natural de Santa Rita do Ibitipoca mas morava fazia bastante tempo em São João del-Rei, no Maquiné [1]

* * *

Um viajante andando por terras distantes pediu pousada numa fazenda. Indicaram-lhe que o único lugar disponível era uma velha casa com fama de mal assombrada. Como não tinha medo de nada foi para lá sem exitar. 

Acomodou-se num canto e lá pelas tantas ouviu no casarão uma voz: "eu caio!" A voz vinha da parte de cima da casa. O homem respondeu: "cai!" E caiu um braço. Ele nem ligou. Novamente ouviu a voz: "Eu caio!" e ele respondeu: "pois, caia!" e caiu outro braço. O viajante não se apavorou com aquilo. Na terceira vez que a voz apareceu ele ficou nervoso: "cai logo tudo de uma vez e me dá sossego!" Então desabou do forro um monte ossos fazendo um barulho medonho. Os ossos foram se juntando e formaram um esqueleto. 

O esqueleto ficou de pé e andou em direção ao homem corajoso. Perguntou o que ele fazia ali, alegando que aquela casa era dele. O homem explicou ao esqueleto que só queria descansar uma noite. O esqueleto impôs uma condição para o viajante permanecer ali: deveria ir até o quintal com ele e desenterrar um barrilzinho. O homem aceitou a condição. 

Os dois foram andando emparelhados para o fundo da horta e junto às bananeiras o homem cavou no lugar que o esqueleto mostrou e ali encontrou um pipote cheio de ouro. 

O esqueleto determinou que o homem doasse parte da quantia para as obras da ordem de Santo Antônio e com outra parte mandasse rezar tantas missas em nome de algumas almas, das quais a própria caveira era uma delas, aparecida nesse aspecto tenebroso. O que sobrasse do ouro podia ficar para ele. 

Assim feito, o esqueleto e as outras almas que assombravam aquela velha fazenda puderam descansar em paz e não apareceram mais. 

Detalhe de uma eça existente na Igreja do Carmo de São João del-Rei/MG


Créditos

- Texto e fotografia (01/06/2013): Ulisses Passarelli.

Notas

[1] Além destas duas versões, Antônio Gaio Sobrinho também sugere a existência deste causo em Conceição da Barra de Minas, senão vejamos: "(...) na Fazenda da Fortaleza, onde ao desventurado viajante que nela passasse a noite, por certo, lhe aconteceria os piores sobressaltos, mistérios do além, que não lhe deixariam dormir. Sucediam-lhe, noite adentro, lancinantes gemidos que repetiam pavorosos gritos dizendo: "eu caio! eu caio!" E se o infeliz respondesse: "pode cair", despencavam do teto, a cada vez, pernas, cabeças, braços... um horror!" (etc.) (Memórias Sentimentais de Conceição da Barra de Minas. São João del-Rei: UFSJ, 2014. 230p.il. p.155). 

- Revisão: 24/12/2025. 

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Alma Penada

Como conceito genérico, a expressão "alma penada" se aplica a qualquer assombração não identificada; assombro inespecífico; visão, vulto, visagem, "invisão", espectro, espírito que vaga sem rumo. 

Percebe-se, que apesar de ser aplicável a influência doutrinária católica da existência do purgatório, como um local de penúria, no sentido da purificação, há ao mesmo tempo, uma peculiaridade neste conceito dentro da cultura popular: as almas do purgatório estão presas nele, não podem sair... Para elas rezam o ano todo, encomendam matraqueando na quaresma, preces de missas lhes são dirigidas, velas iluminam o seu resgate via São Miguel Arcanjo e Nossa Senhora do Carmo, os intercessores mais requisitados nestes casos. 

A alma penada ao contrário, não está presa no limbo ou no umbral: perambula sem rumo. Não está no céu, nem no inferno, tampouco no purgatório. Não foi embora. Permanece no nosso mundo, invisível (senão por assombrosas e eventuais aparições...), se recusando a partir porque não aceitou a morte, ou  foi impedida de ir pois não foi justiçada, ou ainda porque cometeu um tipo de crime que só depois de desvendado garantirá sua libertação deste mundo; ou, ainda, se deixou uma dívida, que, por caridade, deve ser paga porque alguém terreno em nome do devedor morto. 

Por vezes a alma penada tem ainda uma missão a cumprir e como não pode falar nem escrever como os viventes, para pedir ajuda, fica presa a um lugar chamando a atenção como pode, para ser percebida e talvez interpelada por algum corajoso _ daí os barulhos inexplicáveis, de corrente de arrasto, portas batendo sem terem sido fechadas, sons de torneiras abertas estando de fato vedadas, luzes que se acendem sozinhas, barulhos de passos, sensação de ter alguém perto nos observando mas não tem ninguém, calafrios sem motivo aparente, friagem no ar mesmo estando calor. Medo. É a alma penada que está por perto...

O conceito de alma penada ganha aos poucos complexidade e se mitifica. No folclore corresponde em certa medida ao egum das religiões de matriz africana. Como um mito a alma penada fica no vasto rol dos fantasmas com finalidades educativas, pois se atinge esta condição por uma punição às leis sagradas transgredidas. É a exemplaridade.  E ainda: como um alerta aos incautos _ não se deve sair a horas mortas de casa pois se pode tornar um alvo de alguma alma penada, que o segue de volta até a casa, fazendo daí sua moradia; para as crianças que abusam na desobediência querendo ir a algum lugar que não podem, logo os pais o dizem: "não vai não, menino, que lá tem alma penada"... 

Visto assim a alma penada é um ser em sofrimento, carecendo de socorro, que por vezes deseja e busca. Outras porém, eivadas de maldade, se aproveitam desta sina para apavorar, só pelo prazer que isto lhes traz. Daí o perigo que representam, perturbando o cotidiano.

Tais são os conceitos reinantes na cultura popular dos Campos das Vertentes, de espíritos vagando sem rumo e descanso porque na vida terrena a pessoa da qual desencarnou, deixou na Terra uma missão incompleta ou uma dívida espiritual. Então sua alma penará até que alguém complete a missão ou pague sua dívida. Só então descansará. 

A alma penada pode contudo aparecer com a aparência de um ser humano. Mas só se tornará visível a alguém de grande força espiritual, mediunidade e coragem. A este fará verbalmente o pedido para completar o serviço. Então ganha o dom da fala. Surgirá com o aspecto que tinha em vida, aparente ilusão das roupas de costumes, objetos, trejeitos, deformidades. Então, neste momento mágico, revela o que está lhe travando a partida e clama por socorro: o vivente por caridade faz o que a alma penada deixou pendente e uma vez cumprido a alma se liberta, deixa de ser assombrada e quem lhe ajudou receberá benesses. 

Narro por fim um causo que ilustra bem esse folclore das almas penadas. Ouvi-o em São João del-Rei. Versa sobre uma das figuras mais respeitadas da religiosidade popular que já passaram por esta tricentenária urbe: o senhor "Emídio do Bengo"(*), que deixou seu nome escrito em nossa história pela força da caridade e retilínea conduta, tratando do padecimento de muitos com remédios homeopáticos e preces. 


* * *

Conta-se que certa feita, numa noite tempestuosa, Emídio ouviu bater à sua porta, na Colônia do Bengo. Estranhou a circunstância mas como era muito solícito e procurado foi atender. Era um estranho, que não se identificou. Disse-lhe: 

_ o senhor é seu Emídio... tem coragem?
_ Sou. Tenho. 
_ Pega enxadão e pá e me acompanha por favor. 
_ Um  momento...
_ No caminho vão tentar nos atrapalhar. Senhor tenha fé e coragem que nada vai lhe acontecer, disse-lhe o forasteiro. 

Subiram por uma trilha escura no mato. Caminho acima, o homem ia célere adiante de "seu" Emídio do Bengo. Começaram a jogar-lhes pedras. Emídio reclamou do perigo. O tal lhe respondeu que avisara que tentariam atrapalhar, mas que não temesse porque nenhum calhau lhe acertaria. E zuniam as pedradas muito próximas e intensas, mas nenhuma atingiu seu Emídio. 

No topo de uma colina, sobranceira ao vale do Rio das Mortes, em plena colônia de imigrantes italianos, disse o sorumbático homem, sempre mantendo meia distância: 

_ Seu Emídio, por favor, cava aqui que eu não posso. 

Ele obediente e atento escavou, até que a ferramenta tiniu numa peça cerâmica. 

_ Achou. Tira com cuidado. 

Era uma botija, cheia de ouro. "_ Por este dinheiro eu morri", disse-lhe o homem. Orientou-lhe que com ele fizesse ali mesmo uma igreja em honra a Santo Antônio de Pádua e mandasse rezar tantas missas pela alma de fulano de tal. Com o restante fizesse como bem entendesse. No instante que o corajoso Emídio do Bengo olhou para a botija que tinha nas mãos e voltou os olhos ao estranho, ele já tinha desaparecido para sempre. 

Diz a narrativa que assim foi feito. O homem misterioso, que era na verdade uma alma penada, nunca mais foi visto. A sobra do ouro seu Emídio empregou para a caridade. 

Capela de Santo Antônio do Bengo, em São João del-Rei, citada neste texto.
 Construída em 1905, graças aos esforços do memorável sr. Emídio do Bengo. 

Notas e Créditos

* Cognome de Emygdio Apollinário dos Passos Moraes (1876-1958). Sobre ele ver: OLIVEIRA, Dyleini Moraes Silva de et all. Centenário da Capela de Santo Antônio do Bengo: a fé de seu fundador, a fé de sua comunidade. São João del-Rei: [s.n.], 2005
** Texto e fotografia: Ulisses Passarelli 
*** Informante do causo de Sr.Emídio: Aluísio dos Santos, 1993.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Mais uma da Mãe de São Pedro...

(estória dos tempos que Jesus andava pelo mundo)

Diz que quando Jesus fazia pregações, ficou certa vez hospedado na casa da mãe de São Pedro. Ela era uma velha muito ruim, invejosa dos poderes do Mestre, feiticeira maligna e fofoqueira. A megera ofereceu para Cristo dormir um quarto escuro, úmido, cheio de mofo, deixando para ele deitar somente uma esteira rasgada, estirada no chão frio. Humildemente ele aceitou. 

No outro dia, cedo, chegou naquela casa uma mulher vizinha, trazendo no colo seu filhinho. Estava nervosa, porque a criança tinha engasgado com um espinho de peixe, preso à sua garganta. Veio pedir ao Messias que benzesse. 

Jesus então benzendo o menino, aproveitou a oportunidade para criticar a hospitalidade da mãe de São Pedro, rezando assim: 

"Homem bom, mulher má, 
quarto escuro, esteira rôta, 
São Brás: tira esse mal da boca!"

A criança deu uma tosse e expeliu longe o espinho. 

Senhor Bom Jesus de Matosinhos em seu andor, durante a procissão em São João del-Rei, a 14/09/2013. 

* Texto: Ulisses Passarelli
** Foto: Iago C.S. Passarelli
*** Informante: Aluísio dos Santos, 24/03/2000.

Leia também as seguintes estórias: 


quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Dois Causos de Matosinhos

(Oferecimento: com gratidão a José Cláudio Henriques)  

           1- LUGAR ONDE O CACHORRO FALOU 

Dizem que fica na beira do Córrego da Água Limpa, limite do Grande Matosinhos. Logo se vê que foi um fato passado há muito tempo, quando suas águas ainda eram limpas... Lá pras bandas do lugar chamado Ouro Preto, onde os viajantes John Luccock e Robert Walsh comentaram no século XIX, de um velho dique – benfeitoria dos serviços de mineração de ouro – rompido pela força de uma enxurrada. Ali, na Fazenda Velha, diz que morou um rico senhor, dos mais miseráveis que já se viu.

      O ganancioso fazendeiro gostava de uma caçada e tinha seu cachorrinho fiel, que sofria de uma fome crônica, visível na sua magreza. Era pele e osso, como se diz.

      Certa feita o sovina caçou gordas codornas – seu prato predileto – e mandou uma escravizada cozinheira prepará-las. Mãe Maria as fazia como ninguém. Seu tempero dava água na boca. Serviu-lhe. Se lambuzava no comer, deliciando-se com o pitéu. E o pobre cão de caça, varado de fome, debaixo da mesa, babando, língua de fora, ofegante, olhos estatelados, rosnava de fome como que a implorar uma migalha, que o garrafinha recusava lhe dar. Não fosse Mãe Maria que vez por outra às escondidas lhe dava algo, já teria morrido à míngua. Nem sequer os ossos reservava ao cachorro. Guardava-os para torrar, moer e fazer farinha, que punha sobre o feijão. E o cão, vendo que nem sequer lhe restavam os ossos, arranjou voz e falou: “_ ô patrão: mas nem os ossos?”

      O homem desmaiou de susto. Acudiram. Ao acordar tratou fartamente do cão. Dizem que depois daquela lição inesperada melhorou de caráter, deixando de ser tão munheca para beneficiar os necessitados. E o local ficou conhecido como "O lugar onde o cachorro falou".

Confluência do Córrego do Cala-boca (direita da foto) no Ribeirão da Água Limpa (esquerda da foto), 
em cujas proximidades teria se passado a estória acima narrada. 
São João del-Rei/MG.  

     2 - O CALA-BOCA

Este é o curioso nome de um córrego que também limita o Grande Matosinhos. Deságua no Ribeirão da Água Limpa. Sua história ou estória está ligada a um triste assassinato. Foi nos idos da escravidão. Havia uma grande fazenda por lá, com muitos escravizados e dentre eles uma mulher de uma beleza primorosa. O senhor tinha por ela uma espécie de capricho, um xodó, desejando-a e abusava sexualmente dela, à força e sob ameaças.

O caso se arrastava há bom tempo, até que um dia a esposa do fazendeiro – a sinhá – descobriu a safadeza do marido, por meio da candonga de uma preta que não gostava da tal mulher preferida. Revoltada, não pensou duas vezes. Logo que o marido saiu a cavalo para resolver um negócio, chamou um feitor – mal como o diabo – mandou que ele levasse a escravizada para um grotão bem deserto e lá matasse a infeliz. E deu-lhe ordem de silêncio absoluto e que voltasse diante dela para informar o resultado. Assim foi feito.

A sinhá satisfeita e vingada diante do feitor, determinou-lhe que calasse a boca, sem jamais contar o fato. Do contrário, daria um jeito de eliminá-lo também.

Voltou o marido e já maquinando no caminho seus desejos secretos, foi logo à procura de satisfazer-se com a escravizada, como de costume. Não a encontrou. Mandou capatazes e feitores procurá-la. Viram os urubus na capoeira e lá acharam seu corpo. Forçou explicações com os empregados e notando o nervosismo do feitor assassino, arrancou-lhe na marra a confissão. Ele clamava que obedecera a uma ordem da patroa, que pedira para ele calar a boca sob pena de morte. Duplamente revoltado, contam, o sinhô deu uma surra na sinhá, ajuntou os seus pertences, pôs sobre um animal cargueiro e mandou devolver ao sogro. E como na briga de dois sempre lucra um terceiro, satanás foi quem ganhou... quatro almas: a do casal, a do feitor e a da delatora fofoqueira.

Placa na BR-265 nos arredores de São João del-Rei/MG. 

Créditos

Pesquisa, texto e fotografias (2013): Ulisses Passarelli.
Informante: Aluísio dos Santos (São João del-Rei/MG), 1999. 

Notas 

I- Pequeno glossário de termos populares vigentes em São João del-Rei e aproveitados no texto: 

- Candonga: africanismo banto, que significa fofoca, intriga, futrica, fuxico, mexerico, calúnia. 
- Capoeira: pequena mata. Floresta minúscula.
- Garrafinha: sovina, usurário, mesquinho. 
- Munheca: o mesmo que garrafinha. “Munheca de samambaia”.
- Pele e osso: expressão indicativa de extrema caquexia. Magreza.
- Urubu: abutre, ave catartídea que devora cadáveres. Carniceiro.
- Varado: "magro como se fosse uma vara"; magérrimo ou apenas com muita fome.
Na marra: forçadamente; sob imposição. 
Mal como o diabo: expressão que intensifica o adjetivo da maldade; muito mal; ruim em demasia. 

II-  Por uma gentileza do pesquisador e escritor são-joanense José Cláudio Henriques, este texto foi originalmente publicado no jornal: O Grande Matosinhos, n.13, nov.2000, São João del-Rei, ASMAT, p.2.

III- as notas de rodapé, as fotografias e o glossário não fazem parte da publicação original em jornal. 

IV- Sobre a rede fluvial do Bairro Matosinhos, leia também: ÁGUAS FLUVIAIS  

V- Revisão: 04/04/2025.

                                              Referências bibliográficas

LUCCOCK, John. Notas sobre o Rio de Janeiro e partes Meridionais do Brasil: 1808-1818. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1975.

WALSH, Robert. Notícias do Brasil em 1829-1829. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985.  

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Criança Perdida

Numa enorme fazenda nos ermos do interior, uma pequena criança, filha do fazendeiro, brincando no terreiro como de sempre, longe dos olhos tutelares, saiu andando sem rumo pelo mato e se perdeu. Na boca da noite [1] não tinha voltado.

          O desespero se apossou dos pais. Saíram à sua procura, luzes à mão, junto com os empregados da fazenda. Foram mata adentro, beira-córrego, nas grotas, brejos, cerrados. Noite inteirinha... nada!

          A estrela d’alva já anunciava o novo dia, que se abriu em clarão. A busca incessante parecia fracassada. Já sem esperanças, temerosos da criança ter sido atacada por uma cobra ou onça, foram surpreendidos com a chegada da mesma sozinha, no terreiro da fazenda.

           Todos em prantos foram a ela, abraçando-a intensamente. Era visível o seu cansaço. A criança não soube dizer por onde esteve. Apenas afirmava que uma moça muito bonita a trouxera em casa e que agora queria dormir.

              Os de casa se indagaram por muito tempo que moça seria aquela. Quem era a benfeitora?

         Num domingo foram à missa dominical na capela do povoado. A criança puxou insistentemente o vestido da mãe, dizendo: “_ mãe, mãe... Olha lá a moça que me trouxe em casa!”. A progenitora, cheia de ansiedade para conhecer e agradecer à bendita mulher, ficou pálida e surpresa, tomada de emoção, quando a criança, apontando para o altar, mostrou-lhe a imagem de Nossa Senhora.

Nossa Senhora da Lapa, Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos,
 São João del-Rei/MG.


Notas e Créditos

*Texto: Ulisses Passarelli
** Informante: Aluísio dos Santos, São João del-Rei/MG, jan.1994.
*** Fotografia: Murilo, Master Foto, 2004.



[1] - Boca da noite: o crepúsculo. A expressão popular evoca uma imagem ancestral da noite, como um gigante tenebroso, cheio de mistérios e perigos, que abocanha o dia. 

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Malaquias


Donira Gonçalo Madruga era uma senhora natural de Capela Nova, onde em sua juventude presenciara as festas congadeiras. Radicada desde muito jovem em São João del-Rei contou em meados de 1995 sobre aqueles festejos e ainda um causo, narrativa curiosa acerca de uma criança, que de um estado de calma passou à condição de endiabrada, só porque foi batizada com o nome de Malaquias. Narrou que: um recém-nascido foi levado à pia batismal. No colo da madrinha o padre perguntou qual seria o nome do menino. A mãe respondeu: _ Malaquias. Antes que o padre prosseguisse, o bebê entrou em desespero incontido, remexendo demais. Gritava, esperneava, pulou do colo, rolou no chão e saiu correndo mundo afora sem poder ser alcançado. Desapareceu. Malaquias é nome do capeta, acreditaram. Daí ficou a crença que não se deve batizar uma criança com esse nome...

Curiosamente, em São João del-Rei, uma estrofe de calango, cantada pelo sanfoneiro Luís Carlos Rosa ("Luisinho", 2012), diz expressamente:

"Fui chamado no inferno,
pra cantá com Malaquia,
cantei sexta, cantei sábado,
e domingo até mei' dia.
Quando foi segunda feira
perguntei se ainda queria..."

Mais uma vez o nome hebraico de profeta mensageiro aparece associado ao mal. 

A saudosa Donira, em 1995. 

Créditos

- Texto e fotografia: Ulisses Passarelli.  

                                                                               Notas 

- Revisão: 03/04/2025. 

domingo, 23 de junho de 2013

A reza do velho escravo

Um conto da escravidão

            O escravo idoso vivera muitos anos de intensa labuta naquela fazenda. Humildemente suportou toda espécie de maus tratos e serviços pesados. Agora seu corpo já não permitia semelhante trabalho. Tornou-se então tratador dos cavalos do seu senhor.
            Uma vez no mês arriava a melhor montaria para levar o fazendeiro à missa na capela do arraial. Sempre ia também, mas a pé, andando atrás de seu dono, num andar acelerado para conseguir acompanhar, com muito esforço para superar as dificuldades que a idade e o sofrimento de um corpo judiado já lhe impunham.
            Porém, o escravo nunca entrava na capela. Só o branco podia. Enquanto rezavam sinhôs e sinhás, negro velho dava água ao alazão, afrouxava sua barrigueira para o descanso, escovava seu pelo brilhoso.
            Não obstante a distância com que era tratado e a habitual grosseria, o fazendeiro tinha por aquele escravo em especial uma certa predileção. E uma vez, de retorno d’uma celebração domingueira...

_ Viu só negro, que beleza a reza de branco?
_ Vi não sinhô, que nêgo tava escovando animal.
_ Também você num chega na igreja que lá num é seu lugar. Mas, oh, vô te falá: esses ano tudo você tem sido um escravo bom, num dá trabalho. Muito anos comigo. Vou te dá esse presente: próxima missa vou te permitir entrar na igreja.
_ ô patrão, Deus que pague sua bondade!

            As luas se alternaram. Sóis vieram e se foram. Mês passou.
            O escravo estava ansioso, mas em silêncio como sempre. Afinal como seria que conversavam com Zambi?

_ Nêgo, não esqueci minha promessa que sou homem de palavra. Dá água pro cavalo e vem.
_ Sim, sinhô.

            Fazendeiro ficou soberbo lá nos bancos da frente; escravo, na porta, chapéu esfolado saiu da cabeça e segurado na mão esquerda pendia ao longo do corpo. Encarquilhado pelo tempo ele era uma silhueta sofrida na porta da capelinha. Enquanto o padre engrolava seu latim, o escravo ora olhava o altar ora o chão ora o alto. E vez por outra batia a mão direita no peito, junto ao coração.
            Acabou a missa, caminho de volta poeirento, sol alto, fazendeiro perguntou:

_ Viu que beleza? Num é aquelas cantoria feia de senzala não.
_ Muito bonito sim sinhô. Nêgo gostô. Deus que pague.
_ Mas onde que você tava que num te vi?
_ Lá na porta, nhônhô.
_ Por que não entrou? Não deixei?
_ Porque nêgo ficô sem jeito, né...
_ Como assim?
_ É que num sei rezar como os branco e também porque vassuncê e todos mais tava cum saco nas costa, inté o padre, menorzinho ansim mas tava tamém. Eu olhei pra minhas costas não vi; daí num entrei.
_ Com’é que é? Saco?! Você tá é caducando nêgo, tá muito velho.
_ Verdade patrão, incrusive o do sinhô era dos maió...
_ Arre! Cala a boca. Chega disso. Vamos apertar o passo que sol tá começando a queimar e tô com fome.

            Mas o homem ficou cismado com aquela fala do escravo, estapafúrdia sim, mas parecia sincera.
            No fim da outra missa, o fazendeiro foi na sacristia e narrou o fato ao padre. Ele foi e respondeu:

_ ô meu filho, o seu escravo não está perturbado não, nem zombando. Ele está em estado de graça! Esses sacos que viu em nossas costas são os pecados que estamos carregando! Serve de alerta para nós todos... Pergunta ele, qual reza ele fez porque deve ser muito forte. Temos que aprendê-la. 

            Assim fez.

_ Nêgo, lembra aquele dia que você viu os sacos nas costas dos brancos na missa?
_ Sim, ioiô!
_ O quê que você rezou naquele dia?
_ Nêgo num sabe rezá, né, então oiava lá pra nosso sinhô pregado naquela cruiz grande, batia a mão no peito e falava: sinhô, seu nêgo tá aqui! Sinhô, seu nêgo tá aqui!”

Montagem em memória dos escravos.
Festa do Rosário, Passa Tempo/MG. 21/10/2013.
Notas e Créditos 

*Informante: Aloísio dos Santos, São João del-Rei/MG. Década de 1990. 
** Texto e fotografia: Ulisses Passarelli