Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Lenheiro e São José: nossas serras, nossas lendas...

(Ofereço com imensa gratidão e admiração 
ao amigo Luiz Antônio Sacramento Miranda,
grande conhecedor de nossa história e tradições, 
lutador pela preservação das serras)


Nas Serra do Lenheiro e na de São José acharam farto ouro a três séculos. E nos ribeiros que delas brotam e escorrem para o Rio das Mortes também reluziu nas bateias o fulvo metal. Os descobertos suscitaram a cobiça de aventureiros que para esta região do centro-sul mineiro se deslocaram atraídos pelo sonho do enriquecimento. Daí surgiram as localidades primitivas desde São João del-Rei até Prados.

A faina do ouro imprimiu fortes marcas na cultura local, eivada de tradições a respeito, lendas, costumes. Nesta postagem, a título meramente ilustrativo, são brevemente expostas algumas destas narrativas populares, marcas antigas do saber popular. São impressões da alma mineira, fruto de sua relação com o ambiente, marcas do tempo... O ouro formou um ciclo cultural.

Não apenas do ouro, mas a própria vivência do homem mineiro com as montanhas contribuiu para construir uma complexa espiritualidade, uma relação quase mágica com as serras, respeitosa e mística, estendendo-se ao seu entorno. As estórias de antanho como que norteiam a conduta frente à natureza, evidenciam os limites do homem frente a força maior da natureza e dos encantados. A aparição de luzes misteriosas sobre os rochedos ainda mete temor em muitos. É a mãe do ouro passando...

Ambas as serras são áreas de proteção ambiental: a do Lenheiro por mecanismo de tombamento e pelo Parque Ecológico Municipal; a de São José pela APA e pela REVS Libélulas. São áreas de elevado interesse para a preservação.

Serra do Lenheiro e arredores: São João del-Rei

A febre do ouro fez uma avalanche de aventureiros convergir para as minas, afoitos em garimpar. Escravos sofreram terrivelmente sob o chicote do feitor, metidos nas grupiaras (= guapiaras), bêtas úmidas e perigosas. Ali muitos morreram. Acredita-se que as almas de muitos, assassinados ou que tiveram mortes trágicas, fruto de desabamentos, incêndios, etc., ainda estejam vagando nas serras onde trabalharam. Sobretudo as almas dos malvados senhores, sinhás, capatazes, feitores, capitães do mato, que assassinaram e cobiçaram as riquezas, viraram almas penadas e hoje assombram e trazem mal agouro às ruínas e grotões. Algumas são como guardiães de um dado lugar, donde se extraiu uma pequena fortuna, que a dita alma vigia ciumentamente como se ainda lhe fora servir para algo. Apegada ao material, não se deu ainda conta da sua inutilidade no mundo espiritual. Por vezes fazem aparições colocando viandantes em fuga espavorida. São comuns casos de ruídos misteriosos nos caminhos da serra, sensações de arrepios desagradáveis nas grotas ou de estar sendo seguido nas trilhas ou simplesmente vigiado. Impressões intangíveis. Visão fugaz de vultos. Vozes humanas indefinidas a conversar entre si, sem que ninguém esteja por perto. Gemidos e choros a gungunar na vastidão. Pelos lados das Três Praias, Cachoeirinha, Azulão, Arambinga, por toda parte enfim, correm estes causos. 

A Gruta do Caititu no complexo do Lenheiro é um lugar também referido como assombrado, porque aí se castigavam os escravos e ainda aí, eles faziam oferendas às entidades espirituais. 

A ciência não explica neste sentido, senão mesmo confunde ainda mais e inclusive, renega todos estes fatos. Pertencem sem dúvidas ou favores ao folclore. Cumpre notar que o espiritismo e a umbanda buscam explicar tais fatos. Mas não entraremos neste campo por fugir aos objetivos textuais. 

Muitos homens morreram soterrados na faina de escavar pedras atrás do ouro. Dizem-no irmão do quartzo [1]. Por isto os garimpeiros ao achar seus cristais, continuavam escavando deduzindo que o ouro estava próximo. Cegos pela cobiça se esqueciam da segurança e um desmoronamento os consumia. Sua alma ficava presa ali, sem alcançar descanso e passava a assombrar, como que espantando os intrusos que vem roubar-lhe a riqueza, de que ainda supõe ser dono. A avidez extrapola a morte e persiste além-túmulo. Fala-se assim de uma voz misteriosa que teria prevenido outrora um desabamento no Tanque, perto da Igreja do Carmo, mas a insistência fez descumprir o alerta divino e o desabamento teria matado trezentos escravos e muitos feitores. Aliás, dizem, sob a Igreja do Carmo corre, vindo da serra, um rio subterrâneo, repleto do melhor ouro. 

Nas Três Praias há no barranco um túnel surpreendente furado pelos escravos. Acreditam que era uma saída secreta para fugas, desembocando onde hoje se ergue a Igreja de São João Bosco. Contudo um exame do lugar indica que o túnel tem poucos metros de extensão, que está a merecer uma proteção específica.

Um dos contrafortes da Serra do Lenheiro recebe o nome específico de "Serra de Santo Antônio", uma montanha bastante íngreme e pedregosa. O nome tem origem lendária. Três trilhas passam nas imediações e delas alguns caminhantes dizem ter visto uma aparição da imagem do santo naquela elevação, daí o nome que lhe deram, sobretudo na sua parte mais inacessível, onde há uma loca de pedra, que dizem ser a gruta do santo. Tanto mais, outros não avistam a imagem, mas pegadas na areia, de uma sandália franciscana. Supõe ser do próprio santo. Outra lenda local, bem menos amena, narra que indivíduos abusados, atrevidos com a religião, desrespeitosos, já se viram perseguidos por um caixão roxo, que desce escorregando do alto da serra em direção ao incauto, que naturalmente se põe em debandada.

No Ribeirão São Francisco Xavier, na Serra do Lenheiro perto do Tanque dos Quilombolas, onde as lavadeiras tem ponto de lavar roupas, no caminho que segue para a Arambinga, surge por vezes uma bruaca [2] abarrotada de ouro, algo de encher as vistas. Quem caminha em sua direção, tem a surpresa de vê-la desaparecer de súbito. Se insistem em pegá-la na reaparição, toma-se a surra de um reio [3] invisível.

Contam os apanhadores de lenha, que quando iam buscá-la na Serra do Tronco (contraforte do Lenheiro), onde há uma grande mata, ouviam o ruído característico de um lenhador no seu interior, trabalhando com o machado. Mas ao aproximar-se do local de onde vinha o barulho das machadadas, qual era a surpresa ao verem a inexistência de árvores cortadas e muito menos do lenhador. A mata continuava serena, apenas com seus sons naturais. O lenhador é mais um assombro. 

Ao pé do Morro das Almas, também no Lenheiro, num mato ralo que tem um brejal dentro (nascente do Córrego do Areão), narram que três homens campeando uma vaca tresmalhada, viram quando ela se ocultou no dito mato. De qualquer ponto a avistavam mas qual não foi sua surpresa quando ela desapareceu simplesmente, do nada, sem ter fugido do mato. É como se ali houvesse um portal invisível que levou o animal para outra dimensão.

A Porteira Pesada ficou famosa por bater sozinha, três vezes à meia-noite, ao meio-dia e às três da tarde. Por vezes trava sem ter qualquer espécie de trinco, não abrindo de forma alguma. De repente abre de uma só vez, na maior facilidade. É temida pelos cavaleiros, por causa de seus mistérios.

Serra de Santo Antônio: contraforte da Serra do Lenheiro.
São João del-Rei/MG, 06/03/2010.  

Serra de São José e arredores: São João del-Rei, Santa Cruz de Minas, Tiradentes, Prados e Coronel Xavier Chaves

A Lagoa do Canjica em Tiradentes, com histórias e estórias de riquezas incomensuráveis, palco de farta mineração, é hoje um terrível aterro e brejo residual com várias plantas de taboa. Infelizmente não foi preservada.

Os moradores locais contam uma lenda etiológica sobre ela, que diz que a princípio, era apenas um fio d’água. Dois portugueses, vindos de sua terra natal, onde estavam a penar, sonhando enriquecer com as preciosidades da colônia, prometeram a Santo Antônio que se achassem riquezas minerais no novo mundo, a primeira delas seria ofertada ao taumaturgo. Chegando à beira da água passaram a bateia e logo recolheram ouro que passava de quilo. Lembraram-se da promessa. Os gananciosos concluíram entre si que era ouro demais para um santo só, que enfim estava lá no céu e não precisava daquilo, porque não tinha onde gastar, etc., e que a próxima bateiada seria dele, sem dúvidas. Continuaram a faiscar. Mais meio quilo. Era muito ainda para o santo e mais uma vez adiaram a oferta. Já com os alforjes repletos do rico metal e protelando a parcela prometida a quantidades cada vez menores e inatingíveis, foram surpreendidos por um tremor repentino de terra. Um estrondo medonho tomou conta do lugar; a terra se fendeu e os engoliu num gigantesco buraco, donde brotou de súbito muita água formando uma lagoa, na qual desapareceram para sempre os gananciosos garimpeiros. Assim surgiu a Lagoa do Canjica . 

Seu curioso nome, atestam, é uma analogia ao milho de fazer canjica, pois o ouro que aí se achava era em numerosíssimas pepitas, tão grandes como aqueles grãos.

Outra lenda interessante é a de que o padroeiro de Tiradentes não aceitou a mudança da sua capela primitiva. Quando fizeram a atual matriz setecentista e transladaram processionalmente a sua imagem, o santo lisboeta, uma vez entronizado no novo altar, num mistério, desapareceu sozinho e reapareceu na capela velha. Trouxeram-no e mais uma vez Santo Antônio retornou ao altar original. Teimava em não aceitar a nova capela e foram esgotados os esforços para mantê-lo onde queriam. Até que um dos fiéis teve a ideia de trazer da velha ermida para a nova igreja, uma grande pedra escavada que ali ficava. A partir daí o santo aceitou e não desapareceu mais [4]. 

Essa pedra meio que sobrenatural é uma preciosidade que está na grama do adro da capela do Canjica ainda hoje. É como uma pia circular, escavada num grande bloco rochoso, terminando numa bica. Tal peça prestava-se no ciclo do ouro à lavagem das areias auríferas. Como ela podem também serem vistas outras duas: uma na Fazenda do Pombal (onde nasceu o alferes Tiradentes) e outra no porão do Museu Padre Toledo, nessa cidade. No contexto lendário o artefato é considerado sagrado ou misterioso. Pertence ao santo. 

Essa lenda não é exclusividade tiradentina. O sumiço de uma imagem de santo da capela nova para reaparecer na capela velha ou no lugar primitivo, onde sua imagem foi encontrada primeiro, até que este ou aquele fato se concretize para interromper a onda de teimosia, consagrando o novo lugar perante os olhos do santo (e não diante dos rituais oficiais do catolicismo) é a essência, o cerne de muitas lendas congêneres, espalhadas Minas Gerais afora e mesmo noutras partes do Brasil. Existem muitas versões envolvendo ora Santo Antônio ora a Virgem do Rosário e ainda outros santos. Em Portugal é conhecida e decerto de lá a trouxeram.

Na Estrada do Areal, indo de Santa Cruz de Minas para a Serra de São José, via Chuveirinho, vê-se logo uma propriedade bem próximo à serra, à esquerda de quem sobe, que pertenceu até meados do século XX aos religiosos salesianos, por isto mesmo alcunhada “Chácara dos Padres”. Dizem-na assombrada pela alma de "Padre Cristófaro", sacerdote que aí teria morado e falecido.

Toda a área defronte a ela de pastagens e valos remanescentes do período minerador, a grande depressão onde nasce o Córrego de Dona Antônia e imediatamente além, no Serrote é área narrada como mal assombrada. O povo sabe de estórias arrepiantes de aparições fantasmagóricas. 

Nesse interior pode ser visto também uma área mais recentemente terraplanada que serviria a instalação de um cemitério para Santa Cruz de Minas, chegando a se construir no que seria sua frente, duas colunas de cimento que seguravam o portão; este em si, e mais uns muros de placa de cimento, tudo hoje destruído exceto as colunas. Contam os moradores que o lugar também tem um misterioso assombro, pois que jamais conseguiram fazer daí um cemitério de fato, haja vista que sempre algo dava errado, as máquinas quebravam, algo emperrava, etc. Falam que era por causa da alma de antigo feitor, que teria sido muito mal com os escravos da Fazenda do Córrego, chegando a matá-los e a enterrá-los clandestinamente justo neste local do cemitério, como se fossem pagãos. Era conhecido por "Quincas". Sua alma teria assombrado a região por muito tempo, desde o Córrego de Dona Antônia ao sopé da serra, até que às custas de trabalhos espirituais foi retirada dali para a prisão no umbral. 

Na Serra de São José é bem conhecida a Cruz do Carteiro, feita de tosca e velha madeira sobre um monte de pedras, que cresce cada vez mais posto que os caminheiros tem o costume de por uma pedra nova, cada vez que por ela passam, contando mais uma oração em sufrágio daquela alma ali morta, ou das almas em geral, costume ancestral, vindo da antiguidade clássica, trazido na herança dos colonizadores. Flores são postas junto à cruz. O tal carteiro, dizem, foi um mensageiro da Inconfidência Mineira, que levando uma mensagem secreta dos inconfidentes de São José del-Rei (atual Tiradentes) aos do Arraial da Laje (atual Resende Costa), não teria chegado ao seu destino, pois foi aí assassinado. Desconhecemos documento comprobatório deste fato, que é contudo atestado pela tradição oral. Um velho folder da Secretaria de Cultura e Turismo de Tiradentes informava que “em 1823, esta cruz já lá existia há muito tempo e já não se sabia quem lá havia morrido.” 

Na Lagoa dos Cordões falam de uma noiva misteriosa, visagem, que a horas mortas caminha lentamente junto à margem, triste, cabisbaixa, o vestido nupcial meio estragado. De repente desaparece. É um fantasma. Fora uma moça feliz e distinta, cujos pais lhe obrigaram em tempos de antanho, a um casamento infeliz, arranjado. Desesperada, ainda na porta da igreja, fugiu correndo e na fuga atroz caiu na funda lagoa onde se afogou. Sua alma ainda ronda o lugar. 

Em tal coleção d’água, como no rio e noutras lagoas vizinhas e até mais além, no Jacarandá e do outro lado do rio, junto à Casa da Pedra, comentam acerca do pavoroso caboclo d’água, ser aquático monstruoso, que agarra banhistas incautos pela perna com suas mãos fortes, peludas, de garras afiadas, cascorentas, para o fundo das águas, donde nunca mais o cadáver submerge, posto que devorado. Vira canoas, pegando-as no bico da proa, sem grande esforço, pois sua força é descomunal. Um canoeiro se salvou por ter um facão no barco, com o qual decepou sua mão horrenda, que caiu na torrente. Outras vezes bota meio corpo para fora d’água, mostrando o busto moreno e robusto, de fisionomia desfigurada.

Pelos lados de Prados, falam de uma gruta num paredão da serra vedada de uma porta de ferro travada, quase intransponível. É uma antiga mina, cheia de tesouro, protegido por uma serpente fantástica, sobrenatural e gigantesca. É um vestígio das estórias ibéricas da moura torta, de influência árabe, dos tempos do domínio muçulmano na península ibérica. Segundo outras fontes orais essa porta esquecida fica para os lados das Águas Santas, à meia subida.


Cruz do Carteiro: Serra de São José.
Coronel Xavier Chaves/MG, 28/03/2011.

Considerações finais

Os municípios entrecortados por estas serras tem nas mãos uma riqueza imensurável nas suas montanhas rochosas. Vai muito além das preciosidades ocultas no solo. É a fauna, desde grandes mamíferos até os pequenos insetos, é a vegetação de biomas de mata atlântica, cerrado e campos rupestres; o interesse espeleológico; a arqueologia da mineração; a geodiversidade extraordinária; as nascentes de águas cristalinas, minerais; a paisagem e muito além do evidente, do palpável, tangível, concreto, está o intangível, a riqueza da história e da estória, dos fatos e das lendas. O folclore aqui neste texto foi apenas pincelado. A proteção dessas áreas deve ser total e intensivamente trabalhada. E aliada a isto a educação ambiental e patrimonial deve ser uma premissa nas escolas, em todos os níveis, séries e esferas. O potencial turístico das serras é grande e demanda organização, controle, estruturação e diretrizes, pautadas na segurança do meio e dos visitantes. É riqueza a ser garimpada. E essa cultura serrana é outra riqueza, a ser conhecida, salvaguardada e divulgada. Não há dúvidas. A Serra do Lenheiro e a Serra de São José fazem parte do meio ambiente cultural do Campo das Vertentes.

Créditos
Texto e fotografias: Ulisses Passarelli
Levantamento de conteúdo: Ulisses Passarelli e Luiz Antônio Sacramento Miranda

                                                                              Notas 

Republicado em: 
O Grande Matosinhos, ASMAT, ano 17, n.203, s/d. Jornal Digital. Disponível em: https://www.ograndematosinhos.com.br/historia_regional/23.html  Acesso em 04 abril 2025. 

Notas finais: 

[1] - Para o garimpeiro a presença de veios de quartzo indica a proximidade do ouro escondido. Da mesma forma a “jacutinga” é uma indicadora. Trata-se de um minério mole e esbranquiçado. Por ser claro como as manchas brancas da ave galiforme cracídea chamada jacutinga (Aburria jacutinga) é que ganha este nome. 

[2]- Antiga mala rústica de couro cru, usada pelos tropeiros, atada sobre o lombo dos burros cargueiros. 

[3] - Reio: relho, espécie de chicote de uma só tira de couro. 

[4]- Uma lenda muito parecida em Tiradentes se refere ao desaparecimento e reaparecimento da imagem de São José de Botas, do nicho do Chafariz de São José. Ver: SCHETTINO, Lacyr. Lendas da cidade de Tiradentes. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, Belo Horizonte, 1968. v.13. p.149-160. 
Para conhecer outra versão de lenda de desaparecimento e reaparição de imagem em Tiradentes leia neste blog: Tiradentes/MG: duas lendas religiosas

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Notas sobre o uso das arnicas na cultura popular

O nome arnica refere-se a algumas espécies vegetais da família asteraceae e "significa pele de cordeiro, aludindo ao tato de suas folhas, suaves e peludas". Mas como as asteráceas são muitas, a arnica em questão é outra: no hemisfério setentrional (América do Norte, Europa e Ásia) existe o gênero Arnica, com flores semelhantes à margarida, a que se refere literalmente este nome. São plantas de áreas muito frias e altas, "gênero circumboreal e montanhoso" (WIKIPÉDIA, verbete Arnica).Para o hemisfério sul tivemos o nome cedido para outras asteráceas, em verdade bem diferentes daquelas, especificamente as do gênero Lychnophora, que ultrapassam há três dezenas de espécies (WIKIPÉDIA, verbete Lychnophora)

Seu aspecto morfológico é muito diverso, o uso curativo ou em tratamento fitoterápico pode, talvez, dar a pista do motivo do aproveitamento do nome: possivelmente foi um paralelo de usos, que veio através da colonização portuguesa. 

Na Mesorregião Campo das Vertentes (Centro-sul de Minas Gerais, Brasil), as arnicas são usadas sob a forma de solução alcoólica. Os ramos colhidos são partidos em pequenos pedaços, frescos ou desidratados e inseridos em um frasco contendo álcool etílico líquido. É deixado a "curtir", ou seja, em descanso para extrair a química desejada. 

As espécies usadas podem variar com o costume da região e a disponibilidade. Na Serra de São José  existem as seguintes espécies: Lychnophora blanchetii, Lychnophora columnaris, Lychnophora passerina e Lychnophora uniflora (ALVES & KOLBEK, 2009), também encontradas na Serra do Lenheiro. 

Na prática observa-se que em São João del-Rei e cidades vizinhas que a espécie L.passerina é a que de fato tem utilização popular. Sobre ela já existem estudos da parte química, sendo que pelo menos oito grupos de compostos foram isolados e alguns testes biológicos realizados. A planta tipo da descrição procede do Morro do Itambé e o limite norte de ocorrência é a região de Grão Mogol. Alcança até 1,5 metros de altura e apresenta muita variabilidade, sendo "altamente polimórfica" (SEMIR et al, 2011). 

O uso é externo: o líquido é habitualmente esfregado sobre áreas que sofreram contusão e torção; em locais com dores internas supostamente ligadas às articulações; sobre cortes e feridas _ apesar da ardência que gera momentaneamente _ com o intuito de assepsia; em locais que sofreram picadas e sapecados de insetos (marimbondo, abelha, taturana, mosquitos, carrapatos); arranhado ou mordida de animais; ferimento por espinhos e estacas; após extrair farpas, cacos de vidro ou bichos de pé; para diminuir coceira (prurido). A regra é esfregar a arnica com as palmas das mãos, massageando firme até sentir um aquecimento pela fricção, repetindo-se algumas vezes a operação com novas porções de arnica. Acreditam que o calor gerado faz a arnica entrar na pele e não exatamente secar. Isto garantiria sua eficácia. Por vezes, quando o dolorimento é grande, o povo usa o estratagema de fazer uma compressa com arnica sobre a área afetada. 

O uso interno até o povo desaconselha por considerar a arnica 'muito quente', isto é, tóxica, produzindo efeitos colaterais indesejáveis e prejudiciais. Contudo existem exceções muito parcimoniosas de que a cultura popular se vale: quando de um tombo forte, que se bateu o peito no chão, deixando persistente dor nas costelas, usam pingar três gotas de arnica num miolo de pão e ingerir, ou numa colher cheia de açúcar, molhando-o. Isto se mantém por alguns dias até o alívio. 

Mais que um simples uso homeopático nos meios populares, a arnica tem um caráter de erva sagrada ou votiva. É costume na região colher a arnica na Semana Santa, ocasião de prepará-la para servir ao ano todo, só substituída por outro preparo nas endoenças do ano subsequente. Já por isto, sobem as pessoas às encostas serranas e junto às altas pedreiras a colhem em ramos para uso próprio ou para venda. Diante das igrejas históricas vê-se os vendedores de arnica nessa ocasião, expondo-as em balaios, carriolas, sacos estendidos e bancas, enfeixadas em pequenos molhos. De ordinário, além da arnica, surgem então à venda outras plantas específicas como congonhas, alecrins e manjericão. 

Até mesmo os altares são ornados com arnica; e, não bastasse, os andores do Senhor Bom Jesus dos Passos e de Nossa Senhora das Dores. Após as cerimônias, o povo acorre a pegar um raminho desses, tido como bento, sagrado e curativo poderoso. 

Entre os médiuns de alguns terreiros de umbanda e de candomblé, a arnica é considerada uma erva de Oxalá. O roxo de suas flores se evidencia sobretudo na época da Semana Santa e esta é a cor da quaresma, da penitência, do Senhor dos Passos e da Senhora das Dores. Assim as religiões de matriz africana se somaram na contribuição de elementos culturais em torno da arnica. Por conseguinte, o banho com arnica é recomendado para descarrego e firmeza na linha de Oxalá, capaz de trazer ao que crê pacificação e equilíbrio espiritual. Outra possibilidade de uso neste contexto é deixá-la secar por desidratação natural e depois jogá-la em brasas vivas, agindo como um incenso ou defumador, capaz de afastar energias negativas e harmonizar o ambiente.  

E tudo isto é algo muito arraigado ao costume popular. Passa de geração em geração como sabedoria do povo. Pois, desde pequena, a criança é levada pelos pais à igreja para as cerimônias tradicionais e na volta tem seu contato com esta cultura; aprende a usar e ensina (transmite). O pescador leva no embornal uma garrafinha com arnica porque pode precisar no mato; as senhoras a tem num canto do armário, sempre de prontidão para acudir a necessidade de um filho traquina ou de um neto serelepe. O umbandista se sintoniza com o sagrado ao banhar-se com uma infusão aquosa de arnica, ou tendo-a seca, a põe no braseiro para gerar o aroma sagrado. O humilde raizeiro ganha seu dinheiro extra graças a esta cultura. 

A arnica por seu valor etnográfico merece uma atenção especial, tanto em termos de proteção enquanto espécie, quanto em termos de estudo das propriedades medicinais. E quando citamos proteção não é mera força de expressão. A lista da flora mineira ameaçada inclui várias espécies de Lychnophora, dentre as quais a nossa arnica, Lychnophora passerina, que por ter área de ocorrência restrita e habitat degradado é considerada espécie vulnerável, segundo critério de classificação da IUCN - União Internacional para Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (COPAM, 1997; FUNDAÇÃO BIODIVERSITAS, 2008). Pelas razões expostas, os habitats regionais merecem toda atenção, seja na Serra de São José seja na Serra do Lenheiro, considerados todos os seus contrafortes. No Lenheiro pode ser encontrada na área oficial de seu Parque Municipal e mesmo fora dele, sugerindo ampliação de sua área para garantir proteção a esta espécie. 

As arnicas locais destas duas serras são típicas da vegetação de campo-rupestre. Surgem nos vãos entre as rochas (quartzito), em solo arenoso (neoquartzarênico), terrenos pedregosos e secos, em regiões de maior altitude e bem específicas. A pressão antrópica sobre elas é intensa, seja por ação destrutiva das queimadas florestais seja da coleta indiscriminada de finalidade comercial. Isto exige o desenvolvimento de ações de caráter educativo, intensificar combate e prevenção às queimadas, fortalecer a fiscalização sobre a área de ocorrência e ainda ampliar os mecanismos formais de proteção ambiental. 

Por fim, como sempre este blog assim procede, é o valor folclórico da medicina popular que interessa a esta página eletrônica. Não recomendamos qualquer forma de uso pelos eventuais riscos à saúde que pode gerar. 

1- Arnica: flor roxa típica na mão comparada a uma rara, de flor branca.
Serra de São José (Tiradentes/MG).  08/03/2016. 

2- Arnica, Lychnophora passerina.
Serra de São José (Tiradentes/MG).  18/03/2015. 

3- Arnica de outra espécie na Serra do Lenheiro.
(São João del-Rei/MG). 01/08/2015. 

4- Arnica de uma terceira espécie.
Serra de São José (Tiradentes/MG). 18/03/2015
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5- Lychnophora uniflora.
Areão, Serra do Lenheiro (São João del-Rei/MG). 09/07/2013. 


Referências 

ALVES, Ruy José Válka, KOLBEK, Jirí. Summit vascular flora of Serra de São José, Minas Gerais, Brazil. 2009. In: Check List: Journal of species lists and distribuition. Disponível em:  http://www.checklist.org.br/getpdf?SL112-08 Acesso em 06 jul. 2016. 

COPAM. Lista das Espécies Ameaçadas de Extinção da Flora do Estado de Minas Gerais. Deliberação 085/1997. Disponível em: http://www.biodiversitas.org.br/florabr/mg-especies-ameacadas.pdf Acesso em 07 jul. 2016. 

FUNDAÇÃO BIODIVERSITAS. Listas Vermelhas das Espécies da Flora e da Fauna Ameaçadas de Extinção em Minas Gerais (2008).  Disponível em: http://www.biodiversitas.org.br/publicacoes/  Acesso em 07 jul. 2016. 

SEMIR, João; REZENDE, Alex Ribeiro; MONGE, Marcelo; LOPES, Noberto Peporine. As arnicas endêmicas das serras do Brasil: uma visão sobre a biologia e química das espécies de Lychnophora (Asteraceae). Ouro Preto: Editora da UFOP, 2011. Disponível em: https://www.repositorio.ufop.br/items/ca8a6eb0-e9d2-4f93-97c6-2dbdc404434e/full  Acesso em 07 abr. 2025. 

WIKIPÉDIA. Arnica. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Arnica  Acesso em 06 jul. 2016. 

WIKIPÉDIA. Lychnophora. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Lychnophora Acesso em 06/07/2016.

Créditos

- Texto e fotografias: Ulisses Passarelli.

Notas

- Agradecimentos ao amigo e companheiro de jornada nas serras, Luiz Antônio Sacramento Miranda, a quem ofereço esta postagem. 
- Revisão: 08/10/2025. 

terça-feira, 28 de junho de 2016

O histórico povoado do Córrego

O povoado do Córrego, velho como o ouro das Minas Gerais, é hoje uma porção urbana de Santa Cruz de Minas, "A Menorzinha do Brasil". Porém, quem vê hoje o Córrego, local aprazível, não imagina talvez sua antiguidade...

Desde os primórdios da exploração aurífera na região é conhecido o topônimo "Córrego", dado a uma pequena localidade, junto ao antiquíssimo caminho que interligava o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar (hoje São João del-Rei) ao Arraial Velho de Santo Antônio (hoje Tiradentes), através do Porto Real da Passagem.

O nome é uma referência ao Córrego de Dona Antônia, um regato que nasce em um boqueirão ao sopé da Serra de São José, em terras brejosas, donde lacrimejam olhos d'água, nascentes que se reúnem e formam o pequeno regato supranominado, que praticamente em linha reta corre por cerca de um quilômetro e duzentos metros e já deságua  na margem direita do Rio das Mortes.

No seu trecho médio é cortado pelo citado caminho, hoje incorporado à denominação Estrada Real. Neste ponto, à montante, ainda existe no mato pequena barragem de concreto armado, que represa sua água e produz uma bica onde era costumeiro reunirem-se as lavadeiras na típica atividade. A memória popular falava do Córrego como local de garimpeiros teimando em faiscar; em ciganos acampados barganhando cavalos, tachos de cobre e cordões de ouro; de carreiros tangendo carros de boi gemedores; tropas de muares indo e vindo. Casos de assombrações eram comuns. Falavam dos mistérios da quaresma velha, da porca misteriosa com os pintinhos; da mula sem cabeça; dos feitores da Fazenda do Córrego como fantasmas que ainda fazem barulho de chicote e de pedras caindo sobre telhados... 

Ainda na primeira metade dos anos noventa do século passado, o Córrego era entendido pela população de Santa Cruz de Minas como um bairro limitado entre a Rua Osvaldo Lustosa e a fonte de água ("Bica do Lorinho") no princípio da Serra de São José (no Serrote), onde fica a última residência. Era então um conjunto de poucas casas pequenas e algumas chácaras, além da sede da Fazenda do Córrego, construção do princípio dos setecentos. A atividade econômica local se limitava à produção de mel, de leite e de verduras e a criação de porcos.

Nos dias atuais o Córrego ampliou bastante o número de casas, a partir da fragmentação de suas chácaras. O incremento ao turismo como atividade econômica importante contribuiu para abertura de várias oficinas e lojas de artesanato, inclusive a fabricação de móveis rústicos e de madeira de demolição. Conta também com bares e pousada [1].

O Córrego na Guerra dos Emboabas

Sua primeira citação procede da época da Guerra dos Emboabas. No relato de uma testemunha do conflito e seu combatente, o Sargento-mor José Álvares de Oliveira, é informado que durante a contenda, os paulistas, vindos das minas do Rio das Velhas (Caeté, Sabará) se aglomeraram justamente no Córrego em 1708 [2]:

(...) "contínuas tropas de paulistas que chegavam a este distrito, retirados dos emboabas daquelas partes do Rio das Velhas (...) desabalaram para este Rio das Mortes e juntos onde chamam o Córrego, lugar da outra parte do rio, que fica entre as duas vilas" (p.104)

Foi a partir do Córrego que os paulistas divididos em grupamentos ("mangas") se acoitaram pelos matos quando souberam que uma grande tropa inimiga estava de chegada. Um destes grupos, fugindo do Córrego, foi emboscado no célebre episódio do Capão da Traição, possivelmente na região do Pombal, rio abaixo. 

O Córrego no conflito de divisas entre São João del-Rei e Tiradentes

O Córrego foi incluso no território de São João del-Rei quando foi definida sua sesmaria patrimonial por ordem do Governador da Capitania, em 16 de agosto de 1714, medindo duas léguas em quadra, como se pode perceber do croqui ilustrativo fornecido por BARREIROS (1976, p.39).

Esta jurisdição porém duraria pouco. A criação da vila vizinha de São José del-Rei (atual Tiradentes), em 1718, despertaria conflitos de território com São João del-Rei desde o princípio. Sua segunda sesmaria patrimonial, de 28 de março de 1718 define o território da nova vila com meia légua em circunferência com pião no centro da vila. Com isto houve justo na área do Córrego uma ligeira sobreposição à sesmaria de São João del-Rei, tomando-lhe o Córrego, como mostra croqui ilustrativo fornecido por BARREIROS (1976, p.52), que afirma: "fica bem evidente que o povoado do Córrego passou a integrar a sesmaria patrimonial da vila de São José, na ligeira interpenetração na sesmaria da vila de São João, em virtude da curvatura da linha limite" (p.53).

Em 1719, a demarcação oficial de oito de fevereiro, definiu o Córrego de Dona Antônia como divisa, por ordem do Ouvidor Geral, informa ainda BARREIROS (1976, p.69):

"(...) mandou o Ouvidor Geral continuar a mediçam hindo para a parte do Corrigo, (...) mandou o dito Ouvidor Geral fazer disso exame, e achando ser na forma que o haviam informado, mandou que o Corrigo chamado de D. Antonia o qual vem pelas fraldas do dito morro (Serra de São José) entrar no dito Rio das Mortes foçe marco, e divida para esta parte do Corrigo na mediçam e demarcaçam da dita Villa de Sam Joseph..."

Esta divisa prevaleceria até o fim de 1755, quando, a 17 de dezembro, o Ouvidor Geral  da Comarca do Rio das Mortes, Francisco José Pinto de Mendonça determinou novos limites entre as duas vilas pelo Rio das Mortes, ficando as terras da margem esquerda com São João del-Rei e as da direita com São José del-Rei (Tiradentes). Assim o povoado do Córrego se fixava fora da área de conflito territorial, na jurisdição de São José (BARREIROS, 1976, p.100).

Porém, novamente, as divisas seriam mexidas na área do Córrego. BARBOSA (2008), informa que a lei nº2.242, de 26/06/1876, anexou ao termo de São João del-Rei a Vargem do Porto e o Córrego. Já a lei nº2.938, de 23/09/1882, restabeleceu as antigas divisas em São João del-Rei e Tiradentes, que ainda permanecem, exceção feita à região do núcleo colonial dos migrantes italianos, que era de Tiradentes e passou a São João del-Rei no final do século XIX (Colônia do Giarola e vizinhanças).

Descoberta de ouro no Córrego

É sabido que ouro foi descoberto também no Córrego e aí houve muita atividade mineradora. O Sargento-Mor José Matol, participante da Guerra dos Emboabas, relatou em 1740 [3]:

"Nesta (Vila de São João del-Rei), e na de S.José, e seus termos se lavra até o presente por terra, e pelo mesmo rio das Mortes, e suas margens, e se tem topado em diferentes tempos com boas pintas, e grandes manchas; porque de outra parte do rio, aonde chamam o Córrego, que também é descoberto desde o princípio destas minas, se tem dado várias catas de grandes conventos, como também por mato dentro da Vila de S.José, e ainda na mesma Vila com boas e ricas Guapiaras." (o grifo é nosso)

A parte grifada acima revela a antiguidade da descoberta do ouro no Córrego: desde o princípio destas minas (do Rio das Mortes); isto quer dizer primeira década do século XVIII, pois o ouro em Tiradentes foi descoberto em 1702, em São João del-Rei e Prados em 1704, gerando o fluxo de aventureiros na região, que obviamente redundou nos descobertos do Córrego.

VELLOSO (1920) em matéria de jornal informou que em 01 de fevereiro de 1723, o governador D. Lourenço de Almeida nomeou Francisco Ferraz de Souza, Domingos Xavier Fernandes (avô de Tiradentes) e José da Rocha Antão, respectivamente, Provedores dos Reais Quintos dos distritos de Prados, Mato Dentro ou Bichinho e Córrego, do termo da vila de São José e em 02 de julho do mesmo ano, passando pela vila, deu a Manoel da Silva Lobo o cargo de Capitão da Companhia de Ordenança do Distrito do Córrego, informa ainda Herculano Velloso. Para esse autor, a "povoação do Córrego, que foi, pelas suas ricas lavras, um dos mais importantes destritos, nos tempos coloniaes, do Rio das Mortes."

Mas quanto a ser distrito importante, ressalte-se, enquanto a mineração prevaleceu. Com a decadência da exploração mineral o povoado perdeu importância na região. VALE (1985) informa que em 1830 o número de fogos no arraial do Córrego era de trinta e dois. A palavra "fogos" significa lares, onde existe um fogão para fazer o alimento de uma família. Portanto, 32 fogos equivale a 32 casas. Para se ter melhor noção do que representava esse tamanho, compare-se com outros arraiais do mesmo termo naquele remoto ano: Bichinho tinha 33, Resende Costa (então chamada Lage), 53; São João Batista (atual Morro do Ferro), 15; Desterro, 15; Passa Tempo, 119; Cláudio, 99; Lagoa Dourada, 86; Ritápolis (então Santa Rita do Rio Abaixo), 39; Prados, 84; e por fim, a própria Tiradentes, à época vila de São José, 158 casas. 

Toda a área do Córrego desde suas nascentes e as imediações do Serrote e daí ao Morro do Bom Despacho foi extensamente explorada em busca de riquezas minerais. Ainda é possível ver na encosta da Serra de São José em Santa Cruz de Minas muitos vestígios da atividade humana mineradora, estruturas de valor arqueológico e histórico tais como cascalheiras, monturos, betas, socavões, grupiaras _ nas quais o braço do homem escravizado trabalhou arduamente. 

A Fazenda do Córrego

É uma construção histórica, ainda existente, que se celebrizou por ser moradia do rico minerador Marçal Casado Rotier, que no princípio dos setecentos empreendeu por força de seus muitos escravos, intenso trabalho de exploração mineral na Serra de São José e além, rumo à várzea que ganharia seu nome, hoje Colônia do Marçal. 

De descendência franco-portuguesa, Marçal nasceu em Lisboa e veio ao Brasil com alguns irmãos. Foi juiz ordinário em São João del-Rei (1719) e benfeitor da edificação da Matriz de Tiradentes. Informa ainda GUIMARÃES (1996, p.108 e ss.), que Marçal pelo acontecimento da sedição militar da capital (Vila Rica, hoje Ouro Preto) enviou ajuda ao governador. Arrematou em hasta pública a construção da Ponte do Porto, que teria ficado pronta em 1735 [4] e a fez sobre o Rio das Mortes, ficando com o direito de cobrança do pedágio de sua transposição. A obra foi muito importante pois interligava as duas importantes vilas coloniais del-Rei, São João e São José, o que antes era feito por travessia embarcada. Também foi provedor da Irmandade do Santíssimo de São José del-Rei.

Marçal faleceu em 1767 e foi sepultado na Matriz de Santo Antônio em Tiradentes. 

A Capela do Bom Despacho

Após o primeiro trecho da Serra de São José conhecido por Serrote [5], a encosta seguinte é conhecida por "Morro do Bom Despacho", nome que prevalece até a área da famosa cachoeira à margem da Estrada Real, por isto mesmo batizada "Cachoeira do Bom Despacho", em área territorial de Santa Cruz de Minas. 

A razão do nome se prende a uma devoção de procedência portuguesa, Nossa Senhora do Bom Despacho, que teve nessa encosta uma primitiva capelinha a ela dedicada. MEGALE (1986, pp.68 e 69) informou ser:

"antiga e rara invocação da Senhora do Bom Despacho existente em algumas igrejas de Minas Gerais, principalmente nas zonas de mineração, foi provavelmente trazida pelos frades agostinianos (...) o título fora dado à Virgem Santíssima porque foi no "despacho" da Encarnação que se viu o prestígio de Maria perante Deus (...) Foi, pois, a encarnação do Verbo Divino um dos grandes despachos que os pecadores alcançaram a seu favor."

Não se conhecem dados exatos sobre a data de fundação da capela, atribuída a Marçal Casado Rotier.

SANTOS FILHO (1996) escreveu que na referida capela "em 1721, um morador do local, João de Oliveira, juntamente com outros moradores não nomeados no documento, fizeram uma petição ao visitador do bispado do Rio de Janeiro para erigir uma irmandade religiosa 'do Sr. dos Passos pela mmª. devoção que tem a imagem deste Senhor pella haverem mandado buscar...' A 2 de outubro de 1721, Gaspar Ribeiro Pereira, tesoureiro do bispado do Rio de Janeiro, expede o documento de criação da Irmandade dos Passos."

Em 1727 a imagem do Senhor dos Passos foi transladada da Capela do Bom Despacho para a Matriz de Santo Antônio em Tiradentes, esclareceu o mesmo autor, numa procissão da penitência durante uma estiagem e nunca mais voltou. A irmandade logo se transferiu também. 

A despeito deste fato a capelinha do Córrego continuou em atividade religiosa e servindo a sepultamentos de escravizados; mas no começo do século seguinte entrou em franca decadência e em 1832, diz ainda Olinto Filho, a Irmandade do Santíssimo mandou recolher os materiais religiosos da ermida da serra. Obviamente, que sem acervo religioso o prédio foi abandonado e entrou em ruína. Foi assim que o diplomata inglês Richard Francis Burton a viu em 1868: 

"Passamos por muitas chácaras, agora em ruínas, relembrando os
dias de opulência de São João. Um lugar celebrado fica a cerca de duas milhas
da ponte, à margem direita do rio e na estrada de oeste, que vai para Lagoa
Dourada. O lugar deserto é hoje chamado Vargem de Marçal Casado Rotier,
um franco-português, e tem sido falado como a futura capital do Brasil.
À esquerda, ergue-se a Serra do Córrego, prolongamento suleste
da Serra de São José: a massa irregular de calcário e arenito ainda conserva,
segundo dizem, ouro e cristal de rocha. Em seu sopé, fica uma arruinada
povoação de cabanas miseráveis e belas árvores frutíferas, e, mais adiante, a
capela de Nossa Sra. do Bom Despacho. A igrejinha era bem tratada, quando
o ouro abundava no córrego e havia pomposas festividades anuais; nos
últimos quinze anos, caiu em ruínas." (BURTON, 1976). 

Relatos orais de antigos moradores do Córrego e de outros locais de Santa Cruz de Minas dão conta que aventureiros, iludidos com a crença de que havia ouro escondido nas paredes da igrejinha e seu assoalho, começaram a saqueá-la: escavaram o piso, esburacaram as paredes, remexeram os túmulos, tudo à busca de riqueza. Assim as paredes caíram e com elas o telhado, até ser destruída ao rés do chão (CRUZ, 2016; RESENDE e FREITAS, 2017).

Procissão das Almas

Narra o folclore do lugar que tarde da noite, a horas mortas, se ouvia na antiga estrada do Córrego, ainda não pavimentada, poeirenta e escura, uma ladainha de pessoas passando em prece. Nitidamente se percebia que se tratava de uma atividade religiosa. Vindos da cidade, rumo ao Córrego e mais além, na serra, passavam os penitentes em reza.

Porém, quando se chegava à janela para vê-los passar, nada se avistava, ninguém, a não ser o sopro de um vento gelado e misterioso que levantava poeira; ou então, segundo outros, via-se muita gente fluida como fumaça, imagem fantasmagórica e fugidia que desaparecia de repente, e assim se esvaía o murmurinho de vozes. Eram as almas penadas suplicando salvação, em cortejo procissional.

Epílogo (por enquanto... por encanto!)

Essas almas brumosas em procissão, para onde iriam? Fugidias, penosas, sofredoras... Talvez buscar despacho deste mundo (onde ainda estão presas) junto a Nossa Senhora, nas pedreiras da serra! Iriam para o perdido cemitério do Bom Despacho, que aguarda escavações arqueológicas? Não se sabe... A cultura popular não o diz; apenas sugere. E essa memória permanece. O povo ainda hoje chama o local da inconspícua ruína da capela de "cemitério" e a elevação onde está de "Morro do Bom Despacho", mesmo já passado um século de seu aniquilamento. O lugar ainda é usado como ambiente ecumênico, de diversas expressões devocionais, que se estendem além, em direção às cachoeiras serranas do município. 

Não bastasse o topônimo, quem anda por lá vê, porventura, restos queimados de velas brancas, sinal votivo às almas, bem onde houve o cemitério. Que coisa extraordinária essa memória do povo, resquícios, vestígios de um história semiregistrada, mal registrada ou não registrada. Testemunhos!

O Córrego foi lugar de tudo isto: de rezadeiras, feitores, garimpeiros, soldados das companhias de ordenança tomando conta do ouro de Sua Majestade; pretos a carregar carumbés; capatazes que zelavam pela Fazenda do Córrego; oleiros em movimento de amassar barro para fazer adobe; carreiros com vara de ferrão a clamar por seus bois de carro; tropeiros tangendo mulas que carregavam bruacas e jacás cheios de mercadorias, acompanhando o tinir do cincerro da égua madrinheira; ciganas a ler a mão; lenhadores carregando feixes de paus; paulistas praguejando emboabas e carregando de pólvora velhos bacamartes e clavinas. 

Essas almas encantadas simbolizam todo esse povo que do passado construiu uma história, como os artesãos de hoje prosseguem fazendo essa construção dinâmica. 




Antiga casa no Córrego, testemunha material da antiguidade do lugar. Década de 1990.

Boqueirão onde estão as nascentes do Córrego de Dona Antônia. 29/09/2013.
 
Bica no trecho médio do Córrego de Dona Antônia. Março/2004.
 
Lixo no leito do Córrego de Dona Antônia, pouco abaixo da bica. Setembro/2004. 

Confluência do Córrego de Dona Antônio no Rio das Mortes. Março/2004.  

Vista da cidade de Santa Cruz de Minas (esquerda) e da Serra de São José (direita); linha azul - traçado aproximado do Córrego de Dona Antônia, desaguando no Rio das Mortes; linha vermelha - área aproximada do antigo povoado do Córrego. Marcação e captura de imagens: Ulisses Passarelli, 16/07/2024, 21h 48min. Altura de visão: 4,21 km. Fonte: Google Earth. 

Imagem de Nossa Senhora do Bom Despacho, do antigo Arraial do Córrego, 
fotografada em Tiradentes. Segundo o Historiador Olinto Rodrigues a fotografia é de 1943
e a imagem desapareceu da Matriz de Santo Antônio entre 1966 e 1970.
Fonte: livro "Relíquias da Terra do Ouro", de Edgar Cerqueira Falcão,1946.
Disponível em: Facebook


Detalhe da arte e escrita do Livro de Compromisso da Irmandade de Senhor dos Passos, 
da Capela do Bom Despacho do Córrego, acervo transferido para a igreja Matriz de Santo
Antônio em Tiradentes, na primeira metade do século XIX. 
Fonte: CRUZ, 2016. 

Referências Bibliográficas

BARBOSA, José Víctor. S. João d'El-Rey atravez suas ephemerides. São João del-Rei: Imprimax,  2008 (fac-símile ed. Casa Assis, 1930). 46p.il.

BARREIROS, Eduardo Canabrava. As Vilas del-Rei e a cidadania de Tiradentes. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1976. 128p.

BRITO, Francisco Tavares de. Itinerario Geographico. Sevilha: Officina de Antonio da Sylva, 1732. 26 p. 

BURTON, Richard Francis. Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho. Trad. de David Jardim Júnior. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1976.

CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. 2.ed. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1982. 2v. 

CRUZ, Luiz Antônio da. Serra de São José: Educação Patrimonial Escola Estadual Amélia Passos/
Santa Cruz de Minas-MG. Tiradentes: Mandala Produção, 2016. 

DANGELO, André (org.) Origens Históricas de São João del-Rei. Belo Horizonte: BDMG Cultural, 2006. 127p. 

GUIMARÃES, Geraldo. São João del-Rei: século XVIII - história sumária. São João del-Rei: [s.n.], 1996. 147p.

MEGALE, Nilza Botelho. 112 Invocações da Virgem Maria no Brasil: história, folclore e iconografia. 2.ed. Petrópolis: Vozes, 1986.

RESENDE, Betânia Nascimento, FREITAS, Lígia Cristina (Org.). Minha cidade, minha identidade. Santa Cruz de Minas: Mandala Produção/Prefeitura Municipal, 2017. 80p. 

SANTOS FILHO, Olinto Rodrigues dos. A Capela do Bom Despacho do Córrego: memória histórica. Inconfidências. Tiradentes: SAT, julho/1996, n.6.

VALE, Dario Cardoso. Memória Histórica de PradosBelo Horizonte: [s.n.], 1985.

VELLOSO, Herculano. O Tiradentes é Sanjoanense? O São João d'El-Rey, n.08, 06/05/1920. 

Créditos

Texto, fotografias e acervo: Ulisses Passarelli.

Notas 

[1] Em 03/02/2024, foi inaugurado no Córrego, Avenida Ministro Gabriel Passos, nº 2.082, o Museu da Cutelaria "Fio das Gerais", sob curadoria de Luciano Chaves, cuteleiro profissional com mais de três décadas de vivência na cutelaria. É o primeiro e atualmente único museu de Santa Cruz de Minas, que se desponta com um potencial imenso para crescimento, sendo um lugar educativo e prático, ideal para que no futuro formalmente funcione como ponto de cultura e espaço de memória. Possui um acervo muito significativo, cuja diversidade vai desde peças do Ciclo do Ouro, do cangaço e do tropeirismo à cutelaria contemporânea, dentre outras. Está aberto às visitações e já se tornou uma referência neste tema, inclusive por conta das peças de valor histórico, técnico e estético de seu acervo. Para saber mais a respeito, acessar os links seguintes: 



[2] "História do distrito do Rio das Mortes, sua descrição, descobrimento das suas minas, casos nele acontecidos entre paulistas e emboabas e criação das suas vilas", Sargento-mor José Álvares de Oliveira, 1750-1751. (in DANGELO: 2006)

[3] "Notícia que dá a R.P.Diogo Oliveira, o sargento-mor José Matol sobre os descobrimentos do Famoso Rio das Mortes", Sargento-mor José Matol, 1740.  (in DANGELO: 2006)

[4] A ponte sobre o Rio das Mortes teve construção licenciada em 1730 pela Câmara de São João del-Rei e o arrematante da obra foi o rico minerador Marçal Casado Rotier, que a teria concluído em 1735 (CINTRA, 1982; GUIMARÃES, 1996). A obra de Francisco Tavares de Brito a menciona em funcionamento: “Entra-se na Villa de S. João del Rey no Rio das mortes. (...) Logo que se sahe de Villa de S. João se passa em Canoa o Rio das mortes (se não quer passar pela ponte, de que se paga quarenta reis)” (BRITO, 1732, p.5). Portanto, o tráfego foi liberado antes da sua conclusão, ou a data do fim da obra está equivocada, tendo o término sido antes.

[5] Serrote: o mesmo que serrota, ou seja, pequena serra, pedreira grande que em seu conjunto aparenta ser uma serra de proporção menor que a circunvizinha. 

Revisão e acréscimos: 16/07/2024 e 14/04/2025.  

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Notas sobre o uso das congonhas na cultura popular

O imenso interior brasileiro, sujeito que foi à hibridação cultural de várias etnias, desde data imemorial se valeu da química das plantas na medicina popular buscando a cura, tratamento ou alívio de muitas doenças. A natureza vasta e rica forneceu desde sempre a matéria prima. Em Minas Gerais não seria diferente. Vasconcelos (1994), no princípio do século XX já aludia ao uso dos vegetais como remédio pelo povo mineiro: "Os empíricos pelos sertões da capitania não curam com as drogas das boticas, senão com raízes vegetais, e avançam idades a que não chegam os habitantes das cidades e vilas." (p. 67)

Dentre tantas plantas medicinais estão as congonhas, que gozam de imenso prestígio. Por toda a região centro-sul do estado de Minas Gerais está presente o seu uso, aliás, muito arraigado. Sobretudo, nas áreas serranas do Lenheiro e São José, alguns moradores das cercanias as coletam tradicionalmente, a partir das comunidades do entorno. Colher congonha na Semana Santa é uma tradição muito forte, para guardá-la, desidratada, para uso ao longo do ano, supondo-a abençoada. Os molhos de ramas com folhas, colhidos na natureza, são amarrados e deixados a secar, pendentes em algum canto alto. Quando necessário, retiram-se algumas folhas para a decocção, infusão ou para moer e coar o pó com água fervente.

Congonha é o nome de algumas plantas cujo uso popular é muito disseminado, seja na fitoterapia - principalmente para os rins, sob a forma de chás. Sampaio (1987) explicou a etmologia: "CONGONHA: corr. Congõi, o que sustenta ou alimenta; é a erva-mate, variedade (Ilex congonha). Minas, Bahia."

O chá de congonha é de uso costumeiro, daí sua analogia ao mate. Em muitos casos é de uso diário. O consumo com finalidade medicinal é bem mais eventual. Burton (1942), em meados do século XIX, viajando por São João del-Rei e Lagoa Dourada, rumo a Morro Velho, passou por Congonhas em 1867 e anotou:

"Congonhas é chamada 'do Campo', para se distinguir de Congonhas de Sabará (1). O nome é comum no Brasil, sendo aplicado pelos tropeiros e viajantes a muitos lugares onde são encontradas as diversas variedades de iliciáceas, da qual a mais valiosa é o mate (Ilex paraguayensis) (2) (...) A palavra brasileira congonha é genérica, abrangendo todos os arbustos dos quais se faz "o chá do Paraguai". É também especificamente aplicado ao Ilex congonha, comum em Minas e no Paraná. O chimarrão de congonha é a única infusão bebida sem açúcar. A caraúna é uma congonha de qualidade inferior."

Entretanto, Brandão (2018), posiciona as congonhas do gênero Ilex na família Aquifoliaceae, mencionando a Ilex paraguariensis (chá mate), segundo a qual, o uso estimulante graças à presença de cafeína, foi aprendido com a cultura indígena, e menciona também a presença de "substâncias fenólicas com atividade antioxidante". Relata a ausência de estudos com a espécie Ilex dumosa, que supomos se tratar da congonha-amargosa, caúna ou caraúna. 

Buzatti (s/d), baseando-se no autor supracitado, deduziu: "É provável, portanto, que antes do aparecimento do café, a congonha tenha sido a bebida do dia-a-dia dos tropeiros e viajantes."

O uso é in natura, da folha verde, colhida de imediato, se não, dela seca: colhidas as folhas, são postas à desidratação sobre uma peneira, ou caso não estejam desfolhadas, se for apanhado o ramo, amarra-se em feixe e se pendura à secagem por vários dias. Depois de seca se faz o chá fervido. Existe outra forma de uso: as folhas secas são torradas, moídas e misturadas ao pó de café, com o qual é coada conjuntamente e bebida. Café com congonha tem um gosto muito peculiar. É bastante usado na zona rural, acompanhado das famosas quitandas, considerado como iguaria e remédio.

O povo distingue algumas variedades de congonha, dando preferência a esta ou aquela conforme o destino medicamentoso pretendido. As mais populares são a congonha-bugre, congonha de bugre ou apenas bugre (3) e a congonha bate-caixa, de folhas grandes, coriáceas, que percutidas uma contra a outra produzem um som inesperado, motivo do nome. É também alcunhada de forma bem humorada de "congonha-mijona", uma referência ao alto poder diurético a ela supostamente atribuído. Quem bebe congonha, urina muito ("mija", conforme o vocabulário popular), com alta frequência e volume, uma urina bem límpida e sem odor intenso. Mas também existe a congonha-amargosa, preferida para as questões hepáticas; a congonha-serrinha, de folhas pequenas e de bordas picotadas, como os dentes de um serrote, preferida para o estômago; a congonha-douradinha, de folhas miúdas, que secas ganham uma tonalidade amarelada e produzem um chá bem amarelo, procurada para limpeza de canais urinários, sendo predileta pelos homens para questões de próstata. A douradinha também tem uso em alguns terreiros, como erva votiva à orixá Oxum. 

Há quem considere outros tipos de plantas como variedades de congonha. Tal acontece com a caroba (ou carobinha do campo), a ticongô e a caraúna. A caroba é procurada sobretudo como depurativo. A ticongô não é para ingestão. É uma congonha buscada para banhos de descarrego, na linha africana, ou seja, dos pretos velhos, tradição de alguns terreiros de umbanda para firmeza dos trabalhos dos "vovôs" e "vovós", como habitualmente se diz. 

Esta planta nomina a famosa cidade histórica mineira de Congonhas, célebre pelas obras do artista Antônio Francisco Lisboa, o "Aleijadinho". Outra invocação à planta é o nome da cidade de Congonhal, no sul de Minas Gerais.

Conforme este blog sempre alerta nos casos de "medicina popular", os registros de uso relatados nesta página eletrônica tem valor meramente cultural, como relato etnográfico. Não recomendamos o uso, ou consumo, que depende de estudos específicos, devido a possíveis riscos à saúde.

01-Congonha Bate-caixa (Palicourea coreacea, rubiaceae).
Serra de São José, Santa Cruz de Minas, 30/11/2009.

02- Congonha bugre (Rudgea viburnoides, rubiaceae) alojando um ninho
 de saíra da mata (Hemithraupis ruficapilla, thraupidaeSão João del-Rei, 14/10/2013.  

 A

B
03 A e B- Congonha-serrinha. São João del-Rei. 14/05/2016. 

04- Ticongô, já desidratado, para banhos de descarrego.
São João del-Rei, 16/05/2015.  


04- Congonha-amargosa, vendida na Sexta-feira da Paixão
diante da Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar,
juntamente com outras ervas medicinais e aromáticas.
São João del-Rei, 25/03/2016. 

05- Congonha-douradinha: folhas desidratadas e chá.
São João del-Rei, 24/03/2026. 

Referências Bibliográficas

BRANDÃO, Maria das Graças Lins. Plantas úteis e medicinais na obra de Frei Vellozo. Belo Horizonte: 3i Ed., 2018. 104 p.il. p. 43. 

BURTON, Richard Francis. Viagens aos Planaltos do Brasil (1868) . 1º Tomo: do Rio de Janeiro a Morro Velho. Rio de Janeiro: Nacional, 1942. Coleção Brasiliana, série 5a, v. 197, p. 188.

BUZATTI, Dauro José. Viagem as Minas dos Cataguases. Contagem: Fundação Mariana Resende Costa, [s.d.]. 123 p. p. 107.

SAMPAIO, Teodoro. O Tupi na Geografia Nacional. 5.ed. São Paulo: Nacional; Brasília: INL, 1987. 359 p. p. 225.

VASCONCELOS, Diogo Pereira Ribeiro de. Breve descrição geográfica, física e política da Capitania de Minas Gerais. Estudo crítico por Carla Maria Junho Anastasia; transcrição e pesquisa histórica por Carla Maria Junho Anastasia e Marcelo Cândido da Silva. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, Centro de Estudos Históricos e Culturais, 1994. 188 p. (Coleção Mineiriana. Série Clássicos). 

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli
- Fotografias: 01 e 05 - Ulisses Passarelli; 02, 03 e 04 - Iago C.S. Passarelli

Notas 

1- Congonhas de Sabará: atual cidade de Nova Lima. Ainda hoje é usual, embora não oficial, o topônimo "Congonhas do Campo". Não é caso único de um acréscimo de uso comum ao nome oficial de uma cidade. Por exemplo: "Santo Antônio do Salto da Onça", no Rio Grande do Norte, é oficialmente apenas Santo Antônio e "Aparecida do Norte", em São Paulo, é na verdade apenas Aparecida.
2- O nome oficial  é Ilex paraguariensis, mas o autor defendia a grafia paraguayensis.
3- Bugre era o termo depreciativo aplicado aos indígenas, na acepção de inculto, selvagem. 

- Revisão e acréscimo da fotografia 05: 24/03/2026.