Bem vindo!
Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.
ULISSES PASSARELLI
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sábado, 5 de março de 2016
Assombrações do tempo roxo
domingo, 14 de junho de 2015
Canta, canta, meu surrão!
FRADE, Cáscia. (Coordenação). Cantos do Folclore Fluminense. Rio de Janeiro: Presença / Secretaria de Estado de Ciência e Cultura / Departamento de Cultura / INEPAC / Divisão de Folclore, 1986. 234p.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
Assombrações e Penitência
| Lanterna de procissão. São João del-Rei/MG. |
sexta-feira, 30 de maio de 2014
Desgraça pelada
Aparece aos que xingam muito por algo de pouca importância, queixando-se repetitivamente da vida: “isto é uma desgraça!”, ou seja, falta da graça divina. É um contraponto aos que positivamente dizem por qualquer coisa: "graças a Deus!". Por isto, as senhoras devotas repreendem quem usa esta expressão maldita.
Neste sentido, confluindo na lógica da cultura popular, o adjetivo "pelada" parece apontar simbolicamente para algo que se subentende desregrado, fora do padrão. Em outra possibilidade, pelada pode indicar descoberta da graça celeste, desnuda de iluminação. Em Santa Cruz de Minas ouvia dizer do pinto pelado, uma assombração que surge aos incautos e pecadores, aparição demoníaca em forma de pequeno galináceo depenado [2]. Noutro contexto, mas em significado que parece-me estar em paralelo, chamamos "pelada" ao futebol de improviso, partida esportiva na qual vale trocar de time, jogar sem juiz, não importa o tamanho do campo ou da bola, a largura do gol, etc. um futebol "sem regras", despido de regulamentos.
| Desgraça pelada, planta crassulássea do gênero Kalanchoe, flagrada na cobertura de um residência em São João del-Rei. |
domingo, 11 de maio de 2014
Caboclo d'água
Engana-se porém aquele que o supõe exclusivo daquelas águas. Em vários locais do estado o mito é conhecido, a exemplo do sul de Minas (Rio Sapucaí), região central (Rio do Carmo) e no nosso Campo das Vertentes (Rio das Mortes).
É um ser mitológico das águas doces, que vive submerso. Vez por outra se deixa avistar numa margem, ou só mantém o busto para fora do líquido, em atitude de observação dos arredores; ou ainda, põe apenas a mão para fora, peluda, forte e munida de garras. Descrevem-no como uma criatura arredia, sorrateira e de grande força física. Tem a fisionomia marcante, medonha, de olhar profundo, sisudo. Seus gestos são rápidos. Sua tez lembra a dos índios, daí a referência a ser um caboclo. Em menor parcela alguns o chamam de "negro d'água".
Puxa canoas pelo bico da proa, fazendo-as afundar, ou pega a perna de banhistas incautos e os leva para as profundezas, donde jamais retornam.
Existem vários relatos de sua presença nesta região, sobretudo nas lagoas que existem entre Santa Cruz de Minas e Tiradentes, ou ainda, no rio, imediações das paragens do Sutil, Casa da Pedra, Jacarandá e Viturina.
Populares destas duas cidades, dizem que ele seria o responsável pelos afogamentos repentinos, sem causa aparente, por vezes, de bons nadadores, que contudo, não resistem à sua tração para o fundo. Por isto não se deve nadar nos lugares onde já foi avistado ou ocorreram estes acidentes. Em qualquer local onde se entra na água, convém respeitar: "dá licença!", se diz ao tocar nas águas, respeitando seu dono, o misterioso caboclo. Pescadores costumam ofertar-lhe fumo como agrado para evitarem ataque: joga-se um pedaço nas águas ou se deixa no barranco do rio, bem perto da torrente, ao pé de uma árvore.
Uma narrativa ouvida em São João del-Rei a cerca de uma década, falava de dois pescadores num barco apoitado num remanso rio abaixo, sobre um poção. De repente a canoa envergou como se um grande jaú tivesse ferrado uma das linhas de pesca, mas para espanto deles, uma mão vigorosa e cabeluda saía do rio e cravara suas unhas aguçadas na madeira da ponta da pequena embarcação forçando seu afundamento, que só não se concretizou porque um dos pescadores, num gesto instintivo, bateu-lhe de facão, provocando o corte e queda do membro na água.
| Lagoa do Sutil, em São João del-Rei: um dos lugares citados como ponto de aparição do Caboclo d'Água. |
quinta-feira, 13 de março de 2014
Mãe do Ouro, Boitatá e Luzinha
É sobretudo nas áreas que beiram as serras onde foi farto o trabalho mineral que prosperam estas narrativas, desde São João até Prados, pela espinha dorsal pétrea da Serra de São José, ladeando Santa Cruz de Minas, Águas Santas,Tiradentes e Vitoriano Veloso ("Bichinho"), além de parte do município de Coronel Xavier Chaves. Muito frequentes são estes relatos ao longo da Serra do Lenheiro, 100% são-joanense. Mesmo no seu entorno, como no pedregoso povoado do Fé, beirando a Serra do Julião, registrei-as a anos, da boca do saudoso folião "Luis Candinho": luz misteriosa, boitatá, mãe do ouro.
Sobre esse mito tão falado Brasil afora, escreveu Richard Burton, quando de sua visita a São João del-Rei, em 1868:
É um mito muito tradicional. Num velho jornal de São João del-Rei apareceu este escrito sobre ela:
Meu saudoso tio em 1º grau pelo lado paterno, Sérgio Passarelli, contou-me, ainda nos anos 80, que, muitos anos antes, deparou-se com uma mãe do ouro, cara a cara, noite-tarde, na esquina da Avenida Leite de Castro com a Rua Engenheiro Paes Leme, que ladeia a Escola Estadual Aureliano Pimentel. Disse-me que ela pairava lindamente pouco acima do calçamento de pedras, desfilando lenta com seu brilho encantador mas tétrico. Fugiu espavorido, de bicicleta.
Tanta gente idônea, inimiga da mentira, fala da mãe do ouro, em narrativas e com testemunhos tão verossímeis, que agente titubeia em não crer nesse espectro. Foi refletindo nisto e vendo a anos um documentário televisivo sobre o assunto, gravado no interior de São Paulo (não recordo a cidade), onde a chamam “mãe do diabo”, que tomei conhecimento sobre a realidade do assunto: ela existe de fato, mas não é sobrenatural. É um fenômeno físico-metereológico raríssimo, que só ocorre em situações atmosféricas muito especiais, favorecidas pelas condições magnéticas e iônicas encontráveis próximo às pedreiras. É eletricamente carregada, como um relâmpago, só que em forma esferoidal (em vez de ter forma de faísca, corisco). Por isto lhe chamam os estudiosos raio-bola ou raio-globular.
(...) "É um ser feminino, a Mãe, Ci. Acreditavam os índios que tudo no mundo, vegetal, animal, mineral, possui sua criadora, protetora e guiadora eterna. Tem a Mãe do vento, das pedras, dos frutos, de cada tipo de peixe, de insetos, de aves, árvores, estrelas, vermes, cobras, fantasmas. Há a mãe da mandioca como há a mãe da coceira. Tudo tem Mãe e esta gerou seus filhos sem a necessidade do elemento viril. Todos os indígenas sabem de cor a Mãe disto e daquilo mas ninguém sabe o nome do Pai." (etc.)
Outras luzes explicáveis pela ciência aparecem nas serras sob o manto dos temores: o fogo-de-santelmo e o fogo-fátuo.
No nordeste do país estes clarões inspiraram mitos como o joão galafuz (Pernambuco, Sergipe) e a alamoa (Fernando de Noronha). No interior, como aqui por exemplo, aparece como um clarão nas pontas dos galhos e às vezes clareia uma árvore inteira, fazendo nítido o seu contorno; animais, pessoas, tendas, podem se tornar com debrum azulado, silhueta luminosa e emitir estalidos de descarga. Está claro que tudo isto é inevitavelmente taxado de assombração.
Meu pai, David Passarelli, testemunhou-me um fenômeno deste. Foi numa noite tempestuosa na década de 1960. Voltando de jipe da Mina do Germinal, para os lados de Nazareno, junto com um amigo, avistaram um clarão numa árvore de topo de morro, na beira da estrada de terra. A mescla de medo e curiosidade, ofuscando a cautela, fê-los parar o veículo. O estranho clarão irradiava da árvore, como se dela emanasse, permitindo ver até as pontas mais fininhas dos galhos. Logo fugiram aturdidos daquela árvore fantasmagórica. Era na verdade um fogo de santelmo.
As chamas inconstantes, bruxuleando em movimentos serpentiformes, deram ainda motivo a outro mito nesta mesma região, o boitatá, de origem indígena: “mboi” = cobra + “tata” = fogo. A “cobra de fogo” ou “que expele fogo” é um ser fantástico, protetor dos campos, que persegue os incendiários. O povo pronuncia corriqueiramente sob a corruptela batatá, batatal ou batatão.
A mitologia brasileira é um universo cultural extraordinário de riqueza e encantamento que bem está a merecer um olhar mais acurado por parte dos estudiosos de nossa cultura popular.
BURTON, Richard Francis. Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho (1867). Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1976.
CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d]. 930pil.
CASCUDO, Luís da Câmara. Geografia dos Mitos Brasileiros. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1983. 345p.
NOSSAS RIQUEZAS: a Serra do Lenheiro. O Resistente, n.421, 19-21/09/1901, São João del-Rei.
PASSARELLI, Ulisses. Notas sobre o distrito de São Gonçalo do Amarante. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, n.10, 2002. p.87-125.
* Texto: Ulisses Passarelli
quarta-feira, 21 de novembro de 2012
Assombrações no Caburu
Notas e Créditos
sábado, 4 de agosto de 2012
Saci-pererê: mito ou espírito?
*** Leia também outra postagem que contém notícias sobre este mito:
ASSOMBRAÇÕES NO CABURU
