Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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sábado, 5 de março de 2016

Assombrações do tempo roxo

"O tempo mudou muito...",  alertam os mais velhos. Nesta frase enigmática que traz em si um suspense, revelam as mudanças de comportamento frente ao que é esperado para cada época, cada tempo, cada circunstância. Assim, nesta quadra do ano, espera-se a penitência e a credulidade à "flor da pele", ou seja, a fé evidente, a crença como fator prioritário.

Mas não tem sido assim. A sociedade é outra. Movida pelo materialismo crescente e o impacto de uma era tecnológica, o homem do interior dia a dia se distancia de suas raízes culturais e é engolido pela avalanche globalizadora. Daqui e dali ecoam como estórias de um passado sempre curioso de se ouvir e imaginar, fragmentos de nossa mitologia mais típica como a que aflora todos os anos na quaresma, por ventura teimando em desaparecer da memória dos mais velhos e de algum lugar mais recôndito.

A Mesorregião Campo das Vertentes, tradicionalista como é, ainda propicia ouvir causos da quaresma assombrosa [1], sobretudo na zona rural [2].

A mula-sem-cabeça [3] segundo se diz, galopa acelerada soltando labaredas. Tarde da noite corre pelas ruas desertas e seu tropel pode ser ouvido. Mas apesar de encantada, se entrar numa via que tem uma igreja, ela nunca ultrapassa esta. Daquele ponto retorna. Se ela entrar numa rua que tem duas igrejas, entre cada extremo que estão, fica presa sem ultrapassá-las, chega numa igreja volta para a outra, até o dia clarear, quando então desencanta e volta a ser mulher, que aparece caída numa beira de calçada, meio tonta ou desmaiada. Assim contam em São João del-Rei e Tiradentes.

Quaresma também é tempo propicio para efetuar o trato com o capeta. Nesse tempo o demônio anda à solta, então aquele indivíduo que ambiciona algo aproveita para a horas mortas, nas encruzilhadas, chamar o diabo e fazer seu pedido, que obterá ao preço de sua alma, que não mais se salvará. Assim, quem quer aprender a tocar um instrumento e não tem o dom, faz um trato musical na Sexta-feira da Paixão, meia-noite. Leva o instrumento para a encruza e logo vem uma galinha com os leitões; depois que se vai aparece um cabrito e, por fim, o próprio capeta aparece sob a forma de homem, vestido de capa preta, e, tomando o instrumento nas mãos, toca-o de forma exímia. A seguir o devolve a seu dono que de imediato já consegue tocá-lo e tal instrumento nunca desafina. Tornou-se um músico virtuoso pelo trato com o maligno. Assim é corrente na memória da cultura popular são-joanense.

Ainda em São João del-Rei é difundida a narrativa de um certo baile acontecido na quaresma. Por ser desrespeitoso, numa época de recolhimento, teve um fato extraordinário. Surgiu um forasteiro muito bem vestido, elegante, charmoso. O estranho era irresistível para as moças. Exímio dançarino, bailou com todas. Foi então, lá pelas tantas, já em horas avançadas, sem ninguém nada cismar e sequer cuidar que era o "tempo roxo", que alguém olhou para os pés do tal dançarino e escandalizado, gritou em alta voz que eram pés de pato. O desespero e a debandada foi geral pois só assim reconheceram que o estranho era o próprio tinhoso. 

Caso idêntico já ouvimos em outras oportunidades, variando apenas que os pés do dançarino eram de bode, ou, noutra versão, de boi. 

Em Santa Cruz de Minas ainda nos anos noventa corria a narrativa acontecida numa certa chácara daquele município, que no lusco-fusco vespertino, de repente, vários porcos roncavam e batiam dentes no terreiro da casa e logo os moradores assustados com o forte barulho, imaginaram que os porcos tinham fugido do chiqueiro e foram verificar. Qual nada! Logo o som misterioso desapareceu, pois de fato os porcos verdadeiros do chiqueiro estavam presos e em silêncio. O ruído era do além, de uma assombração.

Créditos

-Texto: Ulisses Passarelli.

Notas 

[1] Vide a este respeito neste blog: ASSOMBRAÇÕES E PENITÊNCIA
[2] Sobre alguns mitos na zona rural leia: ASSOMBRAÇÕES NO CABURU
[3] Virar mula-sem-cabeça é como receber um castigo perpétuo. O povo acredita que a mulher que se envolve amorosamente com um padre passa a se transformar neste assombro. Outra possibilidade é quando um casal tem uma sequência de sete filhas. A sétima virará mula-sem-cabeça irremediavelmente a não ser que seja batizada pelo nome de "Maria", que então neutralizará a sina.

- Revisão: 15/04/2026. 

domingo, 14 de junho de 2015

Canta, canta, meu surrão!

O picuá e o Homem do Saco

O mineiro, muito desconfiado por natureza, tem receio dos andarilhos. Deduz que possam ter cometido algum delito em terras distantes e fugido, aparecendo localmente como um pobre coitado, pedinte, mas na verdade pode ser um criminoso.

Em vista deste temor logo se ensina às crianças para afastarem-se dele, pois faria mal a elas e em sua figura, mitificou um personagem do imaginário popular chamado Homem do Saco. Numa visão mais ao viés da folclorística, o Homem do Saco é um mito que pertence ao Ciclo da Angústia Infantil. As narrativas o descrevem andrajoso, sujo, cabelo e barbas grandes, ensebados e desgrenhados, olhar sombrio, quase sem vida, andar lento e trôpego, fala pouca ou nenhuma... Jogado sobre os ombros e pendente nas costas, um saco encardido cheio de trastes, no meio dos quais mete crianças teimosas, "rueiras" (que só gostam de ficar fora de casa), desobedientes. Leva a criança no saco, para algum lugar ermo, onde a mata e devora. Eis o mito. E que pavor provoca nos pequeninos! Quando suas peraltices extrapolam, logo surge alguém para falar do tal homem do saco que já vem pegar o pequeno. E logo como que uma sombra se abate sobre o semblante pueril e os ânimos esfriam. Foi então muito fácil personificar o mito na figura do pobre mendigo, ainda que o fato em si só aumente a discriminação. 

Independente de ser um morador de rua, qualquer estranho andando com um bolsa às costas já é alvo de suspeitas e temor por parte do povo interiorano. "Cuidado com esses homem de picuá nas costas...", logo sentenciam. Picuá é um saco pequeno, cuja boca tem uma corda de correr, embainhada, que faz fechar sua entrada e serve também para se pendurar às costas para transporte, à tiracolo ou em diagonal, trespassando o peito. Viajantes sem rumo certo, vindo de terras distantes carregam os poucos pertences no picuá, daí se ter cisma de acudir pedidos de homem com picuá às costas, símbolo de gente suspeita, quiçá de má índole. A roupa boa ou razoável, a higiene e a boa prosa não enganam: homem de picuá nas costas não merece confiança ... É o que reza a cartilha da cultura popular. 

E no afã de ensinar essas coisas aos filhos, netos, sobrinhos, qualquer criança enfim, os mais velhos saíam com narrativas lendárias. Uma delas, assaz conhecida Brasil afora é a do "homem do surrão" (surrão valendo saco ou picuá; bolsa rude), aliás muito antiga. Frade (1986) publicou duas versões do Estado do Rio de Janeiro. Rodrigues (1977) registrou uma versão a mais de um século, com o nome de "A menina dos brincos de ouro", dizendo-a conhecida na Bahia e Maranhão, que em linhas gerais é a seguinte: uma menina ganhou da mãe uns brincos de ouro. Quando ia na fonte se banhar e buscar água numa cabaça, tirava-os e os deixava sobre uma pedra, até que um dia, ao chegar em casa, deu pela falta dos brincos. Havia esquecido na pedra. Com medo da mãe xingar pois era brava, voltou à fonte para buscá-los, mas foi capturada por um velho mal, que a meteu num saco (surrão), costurou a boca do mesmo para ela não fugir e disse-lhe que ganharia dinheiro com ela. De casa em casa, dizia que seu surrão era mágico, que cantava sozinho quando ameaçado de pancadas com o bordão (porrete, bengala, escora do velho). A menina no interior, com medo das batidas do bordão cantava. Então o homem do surrão ganhava algum dinheiro pela apresentação "mística" e partia para outra paragem. A sua fala era a seguinte: 

"Canta, canta, meu surrão, 
senão te meto este bordão."

E a menina muito triste cantava dentro: 

"Neste surrão me meteram,
neste surrão hei de morrer,
por causa duns brincos d'ouro
que na fonte eu deixei."

Ocorre que um dia ele foi levar o surrão para cantar justo na casa da mãe da menina, que reconheceu a voz dela. Usou então do estratagema de agradar ao estranho, dando-lhe de comer e beber com toda hospitalidade e sendo tarde o convenceram a dormir naquela casa. Durante seu sono pesado, abriram o saco, tiraram a menina já muito debilitada e encheram o surrão de excrementos. Logo cedo ele acordou, pegou o surrão, pôs nas costas e se foi. Na primeira casa que parou, mandou o surrão cantar e nenhuma voz saiu. Mandou de novo. Nada de cantar. Meteu o porrete no surrão repetidas vezes até rebentá-lo e o estrume caiu no chão revelando como fora ludibriado, o que o deixou furioso.

Pois bem, também aqui foi conhecido este conto, a que Nina Rodrigues creditava a procedência africana. Tem uma versão local, ouvida em Santa Cruz de Minas [1]. A estória se processa de forma quase idêntica, diferenciando apenas por alguns detalhes. A menina ganhara dos pais uma pulseira de contas de ouro e ao esquecê-la na pedra da fonte, teimou com a mãe e foi buscá-la, apesar da hora já imprópria. Então o restante se processa igual. Apenas os dizeres dos personagens é que mudam. Assim, o homem anuncia: 

"Canta, canta, meu surrão,
meu bordão eu te darei..." [2]

E a criança no saco (surrão) cantava lamuriosamente: 

"Continhas de ouro... vidinha,
que lá na fonte deixei!"

O excremento da versão nordestina com que enchem o saco ao tirar a menina, aqui é expressamente citado como esterco seco, de cavalo.

Referências 

RODRIGUES, (Raimundo) Nina. Os africanos no Brasil. 5.ed. São Paulo: Nacional, 1977. Coleção Brasiliana, v.9. 283p.il. p.191-192.

FRADE, Cáscia. (Coordenação). Cantos do Folclore Fluminense. Rio de Janeiro: Presença / Secretaria de Estado de Ciência e Cultura / Departamento de Cultura / INEPAC / Divisão de Folclore, 1986. 234p. 

 Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.

Notas 

[1] Informante: Maria Aparecida de Salles, 08/06/2015, lembrança fragmentária, de narrativa ouvida na infância por meio de sua mãe, Elvira Andrade de Salles. 
[2] Obs.: outra informante local descreveu o dístico do velho do surrão nessa variante: "Toca, toca, meu surrão, / bom bordão eu te darei..."

- Revisão: 19/07/2025.  

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Assombrações e Penitência

A quaresma começou ...


Vencida a Terça-feira Gorda, concluiu-se mais um ciclo festivo anual. O primeiro é o natalino, que nas tradições populares começa no dia de Nossa Senhora da Conceição (8 de dezembro) e vai até o de Nossa Senhora das Candeias (2 de fevereiro), data limite, já cruzando com as batucadas carnavalescas.

Se o primeiro é o tempo da esperança, o segundo (carnaval) da alegria extravasadora, o terceiro, o quaresmal, iniciado na Quarta-feira de Cinzas, é o período da penitência, do recolhimento. A admoestação voeja em redor dos pecadores, pesando-lhes os abusos cometidos no carnaval, e convida-os sob a imposição da cinza na testa, diante dos altares, a voltar-se ao Criador. 

São dias de penitência todas as sextas-feiras, e ainda e em especial, a Quarta-feira de Cinzas e a Sexta-feira da Paixão.

Na penitência o cristão evita a carne vermelha. Deve substituí-la pelo ovo ou pelo peixe. É tradição muito antiga, inalienável ao fiel tradicionalista. Obviamente a penitência não se resume apenas a esse gesto alimentar.

O povo acredita que não fazendo penitência na quaresma ou cometendo abusos em horas impróprias na rua, entregando-se à jogatina ou à bebedeira, aos bailes e cantorias, se tornará alvo fácil dos espíritos do mal, que surgem sob os mais diferentes aspectos. Alguns, por sinal, bastante curiosos. 

Assim, na região, ouve-se falar do pinto pelado, uma aparição demoníaca de um pintinho misterioso, desacompanhado de sua mãe, piando sem parar, implume, imortal, arrepiante... [1]

Tanto mais aparecerá ao incauto a porca com os pintinhos, uma assombração que surge na quaresma, tanto mais a horas mortas, pelos caminhos e encruzilhadas. A disparidade se evidencia no nome do espectro, com mães trocadas. Assim pode surgir também como a galinha com os leitões. Um canto de calango alude a este assombro [2]

“Calango tango, 
no calango dessidão, 
nunca vi cantá calango 
Sexta-feira da Paixão... 
vem a Porca com os Pintinho 
e a Galinha com os leitão!” 

São bichos fantasmagóricos, de outro mundo. Não são animais do mundo físico... Em São Paulo corre um mito equivalente, a “porca dos sete leitões” (Araújo, 1967). E assim a velha quaresma era povoada dos mais estranhos seres sobrenaturais, tais como o saci-pererê com suas traquinagens, a mula-sem-cabeça chispando fogo, o lobisomem, ameaçador, com sua dentaria aguçada. A modernidade baniu o sobrenatural. A incredulidade é o assombro hodierno. 

De volta à penitência é de se lembrar nesse tempo de pouca chuva, que outrora era usual a Procissão da Penitência, destinada a redimir as faltas da comunidade, para que Deus, num ato de perdão, cesse um determinado flagelo - seca, enchente, peste, fome, etc. Procede-se de ordinário em horários de calor, por longas extensões, estradas ruins, justamente para aumentar o grau de dificuldade, como um explícito sacrifício penitencial.

Uma dessas procissões de antanho, partiu da primitiva Capela de Nossa Senhora do Bom Despacho, na Serra de São José, desde longa data demolida. Num tempo de seca a procissão seguiu para Tiradentes (antiga São José del-Rei), levando a imagem do Senhor dos Passos até a Matriz de Santo Antônio. Ocorre que naquele caso específico a irmandade também se transladou e nunca mais voltou à pequena capela em questão, que terminou em ruínas (Santos Filho, 1996). 

Bem menos dramático e, contudo, mais anedótico ou caricato, é o causo de uma procissão da penitência, também para atrair chuva. Contava-se [3], que em um tempo de calor implacável, o padre dissera em sermão, do púlpito aos fiéis, que a culpa da seca era deles, por causa do acúmulo de pecados. Deus estava bravo. Daí, só tinha um jeito: fazer penitência! Marcou a data e a hora, 15 horas _ 3 da tarde _ sol no calor máximo. O sacerdote foi na sombra durante toda a procissão, protegido pelo pálio. Todos os demais torrando no calor. No momento de um canto religioso, após o refrão, o padre entrou em voz solista, no ritmo da música, dando ordem para soltar os fogos de artifício, mas mudando os versos para provocar o sacristão, com quem andava meio enraivecido, porque ele fizera beberagem do vinho eclesiástico: 

"Seu sacristão, 
solte essas bomba, 
vocês vai no sol,
eu vou na sombra..."

Na virada da estrofe o sacristão não deixou por menos e no mesmo tom retrucou em reclamação aos abusos do padre: 

"É isso mesmo 
que vancê tá dizêno,
nóis que trabáia,
você vai comendo..."

Lanterna de procissão. São João del-Rei/MG. 

Referências

SANTOS FILHO, Olinto Rodrigues dos. A Capela do Bom Despacho do Córrego - memória histórica.  Inconfidências. Tiradentes: Sociedade Amigos de Tiradentes, ano1, n.6, jul./1996. p.3. 

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Foto: Iago C.S. Passarelli. 

Notas 

[1] Informante: Elvira Andrade de Salles, Santa Cruz de Minas, 1996.
[2] Informante: idem, referindo-se a uma cantoria da zona rural de Bias Fortes, informada em 1997. 
[3] Informante: Aluísio dos Santos, São João del-Rei, 1994. Avô materno do autor desta postagem. 

- Revisão: 24/06/2026. 

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Desgraça pelada

Este título execrável, mas fiel à tradição popular, refere-se a um ser mitológico, de aparência horrenda, não fazendo outro mal senão o choque emocional ao vê-lo. A lição pela visão; o aviso sobrenatural da necessidade de se mudar um comportamento ignóbil.

Aparece aos que xingam muito por algo de pouca importância, queixando-se repetitivamente da vida: “isto é uma desgraça!”, ou seja, falta da graça divina. É um contraponto aos que positivamente dizem por qualquer coisa: "graças a Deus!". Por isto, as senhoras devotas repreendem quem usa esta expressão maldita. 

A forma de aparição, ainda recordo claramente de tê-la ouvido descrita na adolescência, de minha bisavó materna, Luíza dos Santos: surge com aspecto de uma mulher magérrima, seca mesmo, altíssima, vestida de branco, de faces lanhadas por rugas e marcadas por um olhar sombrio, de olheiras profundas, desprovido de vitalidade [1]. Um dos lugares de sua eventual aparição era o pontilhão que ladeava a atual Gruta do Divino em São João del-Rei, na saída da “Linha do Sertão” da estação ferroviária. Lamentavelmente o pontilhão foi demolido e os trilhos retirados. Nos seus lugares construíram-se, respectivamente, a Ponte Padre Tortoriello (fim da Rua Antônio Rocha) e um calçadão (da Avenida Leite de Castro). O assombro sumiu com a modernidade. 

A segunda forma de aparição, anotei-a de um fazendeiro das redondezas do Rio do Peixe, imediações de São Tiago, dizendo tê-la visto na parada do Pessegueiro, na velha estrada de terra, quando esperava o ônibus. De longe tinha aparência normal, conquanto fosse soturna. Parecia uma mulher de verdade. Chegando junto dela, notou que não tinha rosto e na verdade, em seu lugar havia um buraco escuro. Então, desapareceu como fumaça no ar, ante o espanto e a sensação gélida no corpo do observador.

É um mito educativo, que impõe medo para se regular a boa fala, evitando-se os palavrões, resmungos e xingamentos hereges. 

Entre dois membros de terreiros de matriz religiosa africana, em Santa Cruz de Minas (2001), encontrei sua descrição como de um espírito de característica feminina, maligno, muito atrasado, desprovido de luz e doutrina, habitante dos lugares de imundície, como chiqueiros, valas de esgoto, depósitos de lixo. Diz que nos galinheiros gosta de comer fezes de galinha. Se compraz em fazer o mal, prejudicar pelo prazer de ver a infelicidade alheia. Se torna um encosto, que acompanha o indivíduo com muita obstinação, estragando sua vida. Sua força é infernal. Tem a esperteza de uma raposa, não sendo fácil ver-se livre dela quando escolhe sua vítima. Por vezes se gasta anos para esta obsessora cair numa armadilha que a aprisione ou afaste.

Em atitude de possessão, faz a pessoa assenhoreada rosnar, ranger os dentes, retorcer, descabelar-se. Dá tenebrosas gargalhadas e xinga muito. Seu olhar é medonho como de um cão raivoso. Os guias de luz, em respeito, chamam-lhe “aquela mulher”, evitando dizer seu nome, que como está explícito é tão triste que indica exclusão de qualquer graça de Deus, que é em última análise, a pior desgraça que pode acontecer.

Neste sentido, confluindo na lógica da cultura popular, o adjetivo "pelada" parece apontar simbolicamente para algo que se subentende desregrado, fora do padrão. Em outra possibilidade, pelada pode indicar descoberta da graça celeste, desnuda de iluminação. Em Santa Cruz de Minas ouvia dizer do pinto pelado, uma assombração que surge aos incautos e pecadores, aparição demoníaca em forma de pequeno galináceo depenado [2]. Noutro contexto, mas em significado que parece-me estar em paralelo, chamamos "pelada" ao futebol de improviso, partida esportiva na qual vale trocar de time, jogar sem juiz, não importa o tamanho do campo ou da bola, a largura do gol, etc. um futebol "sem regras", despido de regulamentos. 

Por fim é preciso lembrar que o povo, por razões ignotas, talvez pela toxicidade elevada, chama ainda de desgraça pelada (ou dedinho de sapo) a uma espécie de vegetal, que nasce sobre a poeira e lodo acumulado nas lajes das casas e telhados.

Desgraça pelada, planta crassulássea do gênero Kalanchoe,
 flagrada na cobertura de um residência em São João del-Rei.


Créditos

- Texto e fotografia: Ulisses Passarelli. 

Notas 

- Revisado em 17/01/2025
[1] Um mito que se equipara em certa medida a esta aparência é o da "Maria Engomada", que, segundo Saul Martins, é uma "aparição frequente no Sul de Minas, de mulher alta e magra, que estica e afina à medida que é reparada, sobretudo por crianças." In: Folclore em Minas Gerais. 2.ed. Belo Horizonte: Imprensa Universitária / UFMG, 1991. 126p. p.29-30. 
[2] Sobre aparição fantasmagórica em forma de pinto, ver também a estória do Gaspar na postagem lincada a seguir: MAIS UM "CAUSO" DE PESCADOR 

domingo, 11 de maio de 2014

Caboclo d'água

Muitas vezes temos lido e ouvido falar sobre o mito do caboclo d'água em referência ao Rio São Francisco, onde é muito conhecido e temido. É propalado, que as figuras de proa chamadas carrancas, são postas nas embarcações para afugentá-lo.

Engana-se porém aquele que o supõe exclusivo daquelas águas. Em vários locais do estado o mito é conhecido, a exemplo do sul de Minas (Rio Sapucaí), região central (Rio do Carmo) e no nosso Campo das Vertentes (Rio das Mortes).

É um ser mitológico das águas doces, que vive submerso. Vez por outra se deixa avistar numa margem, ou só mantém o busto para fora do líquido, em atitude de observação dos arredores; ou ainda, põe apenas a mão para fora, peluda, forte e munida de garras. Descrevem-no como uma criatura arredia, sorrateira e de grande força física. Tem a fisionomia marcante, medonha, de olhar profundo, sisudo. Seus gestos são rápidos. Sua tez lembra a dos índios, daí a referência a ser um caboclo. Em menor parcela alguns o chamam de "negro d'água".

Puxa canoas pelo bico da proa, fazendo-as afundar, ou pega a perna de banhistas incautos e os leva para as profundezas, donde jamais retornam.

Existem vários relatos de sua presença nesta região, sobretudo nas lagoas que existem entre Santa Cruz de Minas e Tiradentes, ou ainda, no rio, imediações das paragens do Sutil, Casa da Pedra, Jacarandá e Viturina. 

Populares destas duas cidades, dizem que ele seria o responsável pelos afogamentos repentinos, sem causa aparente, por vezes, de bons nadadores, que contudo, não resistem à sua tração para o fundo. Por isto não se deve nadar nos lugares onde já foi avistado ou ocorreram estes acidentes. Em qualquer local onde se entra na água, convém respeitar: "dá licença!", se diz ao tocar nas águas, respeitando seu dono, o misterioso caboclo. Pescadores costumam ofertar-lhe fumo como agrado para evitarem ataque: joga-se um pedaço nas águas ou se deixa no barranco do rio, bem perto da torrente, ao pé de uma árvore.

Uma narrativa ouvida em São João del-Rei a cerca de uma década, falava de dois pescadores num barco apoitado num remanso rio abaixo, sobre um poção. De repente a canoa envergou como se um grande jaú tivesse ferrado uma das linhas de pesca, mas para espanto deles, uma mão vigorosa e cabeluda saía do rio e cravara suas unhas aguçadas na madeira da ponta da pequena embarcação forçando seu afundamento, que só não se concretizou porque um dos pescadores, num gesto instintivo, bateu-lhe de facão, provocando o corte e queda do membro na água.

Lagoa do Sutil, em São João del-Rei:
um dos lugares citados como ponto de aparição do Caboclo d'Água. 

Notas e Créditos 

* Texto e fotografia (06/09/2009) : Ulisses Passarelli

quinta-feira, 13 de março de 2014

Mãe do Ouro, Boitatá e Luzinha

São João del-Rei, antiga cidade colonial, filha do ciclo do ouro, conserva muitas crenças no seu rico folclore. Nesse período de quaresma no qual se prega o recolhimento, os rumores de assombros tomam conta do imaginário popular. Não é raro ouvirmos falar de mitos luminosos, relampejantes, irradiando temerosa luz no céu, emissores de maus augúrios ou indicando riquezas escondidas. 

É sobretudo nas áreas que beiram as serras onde foi farto o trabalho mineral que prosperam estas narrativas, desde São João até Prados, pela espinha dorsal pétrea da Serra de São José, ladeando Santa Cruz de Minas, Águas Santas,Tiradentes e Vitoriano Veloso ("Bichinho"), além de parte do município de Coronel Xavier Chaves. Muito frequentes são estes relatos ao longo da Serra do Lenheiro, 100% são-joanense. Mesmo no seu entorno, como no pedregoso povoado do , beirando a Serra do Julião, registrei-as a anos, da boca do saudoso folião "Luis Candinho": luz misteriosa, boitatá, mãe do ouro.


Os mitos ígneos, como o nome indica são os do fogo, cujo clarão amarelo-laranja-vermelho evoca o tom dourado, luzidio, do ouro. Cascudo em seu dicionário cita um antigo ditado popular que afirma: “onde está o fogo está o ouro.”

Eis o princípio folclórico da mãe do ouro. Descrevem-na como uma bola ou aro de fogo, que se desloca pelo ar próximo à serra, ora célere, ora vagarosa, nítida, brilhante, áurea, afogueada. Pode parar no ar ou de súbito mudar de rumo. Na sua passagem vai largando fagulhas, que dizem ser fios de ouro. Quem procurar o rastro de sua passagem os encontrará. Por isso, quando a avistam, costumam dizer: “me dá um cabelo, mãe do ouro!” ou “me dá um fiapo do seu cabelo, madrinha!”, esperando pela queda das ditas fagulhas. Assim ensinou-me no Córrego, dona Elvira Andrade de Salles, nos idos dos anos 90 em Santa Cruz de Minas, local de muitas aparições.

É assombrada. Se adentrar numa casa, só sai às custas de reza forte. Se tocar em alguém a morte será fulminante. Se perseguir, escapa-se riscando no chão o signo de Salomão (estrela de cinco pontas), rodeado por um círculo e dentro se deve postar. Ela respeita, desvia-se e vai embora. Na passagem sobre as pedras serranas, choca-se contra elas, causando grande estrondo. É ali que está o ouro farto.

Sobre esse mito tão falado Brasil afora, escreveu Richard Burton, quando de sua visita a São João del-Rei, em 1868:

"Um raio em forma de bola, como que penetrou na Igreja de Stralaund derrubou uma das abas do telhado (...) Estas bolas de fogo são uma forma freqüente que o raio toma no Brasil como na África Oriental e merece cuidadosa atenção. Vi muitas vezes em São Paulo o fluido elétrico subindo a sudeste do céu e, na altura de 60º projetar uma quantidade de globos, como um monstruoso candelabro romano. Muitas vezes caem sobre as casas (etc., p.203). (...) Mãe do Ouro é um gênio encantado que protege os tesouros virgens. É antes extravagante que maldosa, mas às vezes faz um assassíniozinho" (p.224).

É um mito muito tradicional. Num velho jornal de São João del-Rei apareceu este escrito sobre ela:

"_ Já vi a Mãe do Ouro, olhe, o sr. está vendo alli aquele alto onde teve uma bandeira da companhia geographica? (Referia-se a um signal geodessico da commissão geographica). Pois alli, muitas vezes, de noite, quando eu ia da cidade para São Gonçalo (do Amarante) eu vi a Mãe do Ouro.
_ Viste talvez alguma alma do outro mundo.
_ Não senhor. A luz da alma do outro mundo apparece como uma espécie de vela accesa, isso eu já tenho visto também; mas o que vi alli era uma especie de labareda grande, furta-côr, movendo-se como se estivesse dansando."

Ouvi falar, por informação do sr. Luís Santana (fevereiro/1993), que na Colônia do Recondengo, em São João del-Rei, durante um baile, quando a festa lá ia animada, uns rapazes zombaram ao ver a mãe do ouro passar radiante no alto de um morro: "_ nós aqui na luz de lampião, porque que ela não vem aqui clarear em vez de iluminar o mato?" De repente ela mudou de rumo e entrou pelo salão de baile. A mãe do ouro deu giros rasantes sobre a cabeça do povo incauto, que fugiu espavorido por portas e janelas. Era o aviso sobrenatural daquele abuso. Ficou então parada lá dentro, flutuando no centro. Só saiu do salão depois que umas senhoras rezaram um terço.

Meu saudoso tio em 1º grau pelo lado paterno, Sérgio Passarelli, contou-me, ainda nos anos 80, que, muitos anos antes, deparou-se com uma mãe do ouro, cara a cara, noite-tarde, na esquina da Avenida Leite de Castro com a Rua Engenheiro Paes Leme, que ladeia a Escola Estadual Aureliano Pimentel. Disse-me que ela pairava lindamente pouco acima do calçamento de pedras, desfilando lenta com seu brilho encantador mas tétrico. Fugiu espavorido, de bicicleta. 


Um dos informantes, Sérgio Passarelli, na bicicleta pasteleira, em antiga foto de data e autor não identificados, na Avenida Leite de Castro, em São João del-Rei, quando ainda se viam os trilhos da EFOM. 
Foto de álbum familiar, cortesia de Maria do Carmo Passarelli. 


Tanta gente idônea, inimiga da mentira, fala da mãe do ouro, em narrativas e com testemunhos tão verossímeis, que agente titubeia em não crer nesse espectro. Foi refletindo nisto e vendo a anos um documentário televisivo sobre o assunto, gravado no interior de São Paulo (não recordo a cidade), onde a chamam “mãe do diabo”, que tomei conhecimento sobre a realidade do assunto: ela existe de fato, mas não é sobrenatural. É um fenômeno físico-metereológico raríssimo, que só ocorre em situações atmosféricas muito especiais, favorecidas pelas condições magnéticas e iônicas encontráveis próximo às pedreiras. É eletricamente carregada, como um relâmpago, só que em forma esferoidal (em vez de ter forma de faísca, corisco). Por isto lhe chamam os estudiosos raio-bola ou raio-globular.

Eis que os populares não passaram de fato por mentirosos, como dizem os céticos e aqueles outros que desprezam a cultura do povo. Folclórico no caso é a interpretação que lhe dão.

Na área serrana do distrito são-joanense de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, Terra de Nhá Chica, é referida com maior frequência.      
                    
Esta ideia de dar às coisas uma mãe espiritual ("ci") é de influência indígena. Ficou em nossa cultura popular. Fala-se assim, aqui mesmo em São João del-Rei de seres tais como mãe da cachoeira, mãe da mata, mãe da pedreira, mãe da chuva, mãe da lua (personificada num pássaro, o urutau – Nyctibius griseus), mãe do corpo (endométrio, camada interna do útero), etc. Na sua Geografia dos Mitos, Cascudo ensinou: 

(...) "É um ser feminino, a Mãe, Ci. Acreditavam os índios que tudo no mundo, vegetal, animal, mineral, possui sua criadora, protetora e guiadora eterna. Tem a Mãe do vento, das pedras, dos frutos, de cada tipo de peixe, de insetos, de aves, árvores, estrelas, vermes, cobras, fantasmas. Há a mãe da mandioca como há a mãe da coceira. Tudo tem Mãe e esta gerou seus filhos sem a necessidade do elemento viril. Todos os indígenas sabem de cor a Mãe disto e daquilo mas ninguém sabe o nome do Pai." (etc.)


Outras luzes explicáveis pela ciência aparecem nas serras sob o manto dos temores: o fogo-de-santelmo e o fogo-fátuo.

O primeiro (= fogo-de-Elias, fogo-de-Hermes, fogo-de-Santa Helena, fogo-de-São Nicolau, fogo-de-São Pedro) é um fenômeno físico-elétrico, devido ao poder das pontas, capacidade de escoar cargas nas extremidades, até ao extremo de, em condições específicas, com descargas lentas, aparecer como um eflúvio luminoso. Pode surgir nas torres de igrejas. Nas pontas dos mastros dos navios, por ocasião dos ares das tormentas, costuma aparecer o clarão e por vezes, sobre a superfície das ondas. Os navegantes portugueses atribuíam o fenômeno a um sinal positivo de seu protetor, São Pedro Elmo ou Telmo, cujo nome simplificavam para Santo Elmo, ou, adequando à sua pronúncia, Sant’Elmo. Era dominicano, espanhol, do séc. XIII, festejado a 15 de abril. Pela crendice o clarão indicava nos navios a sua visita livrando os marujos do naufrágio. Por isto era recebido com alegria. Para os italianos contudo era Santo Erasmo ou Frei Pedro Gonçalvez.  

No nordeste do país estes clarões inspiraram mitos como o joão galafuz (Pernambuco, Sergipe) e a alamoa (Fernando de Noronha). No interior, como aqui por exemplo, aparece como um clarão nas pontas dos galhos e às vezes clareia uma árvore inteira, fazendo nítido o seu contorno; animais, pessoas, tendas, podem se tornar com debrum azulado, silhueta luminosa e emitir estalidos de descarga. Está claro que tudo isto é inevitavelmente taxado de assombração.

Meu pai, David Passarelli, testemunhou-me um fenômeno deste. Foi numa noite tempestuosa na década de 1960. Voltando de jipe da Mina do Germinal, para os lados de Nazareno, junto com um amigo, avistaram um clarão numa árvore de topo de morro, na beira da estrada de terra. A mescla de medo e curiosidade, ofuscando a cautela, fê-los parar o veículo. O estranho clarão irradiava da árvore, como se dela emanasse, permitindo ver até as pontas mais fininhas dos galhos. Logo fugiram aturdidos daquela árvore fantasmagórica. Era na verdade um fogo de santelmo.

O bem mais conhecido fogo-fátuo, é um fenômeno físico-químico, no qual a matéria orgânica em decomposição (paus podres, cadáveres), exala gazes de fosforeto de hidrogênio, que em contato com o oxigênio da atmosfera, em condições tais, entra em combustão espontânea. O fogo azulado que emite ganha o nome de luzinha em nossa Serra do Lenheiro, comentado na Bocaina, Arambinga e outras áreas, por trás do Bairro Senhor dos Montes: Cunha, Porteira Pesada, Buião, Pasto dos Carrapatos, Córrego Seco, Cruz do Zé Poeta, Ribeirão, Olho d’Água, Três Praias e Garganta do Diabo

As chamas inconstantes, bruxuleando em movimentos serpentiformes, deram ainda motivo a outro mito nesta mesma região, o boitatá, de origem indígena: “mboi” = cobra + “tata” = fogo. A “cobra de fogo” ou “que expele fogo” é um ser fantástico, protetor dos campos, que persegue os incendiários. O povo pronuncia corriqueiramente sob a corruptela batatá, batatal ou batatão. 

A mitologia brasileira é um universo cultural extraordinário de riqueza e encantamento que bem está a merecer um olhar mais acurado por parte dos estudiosos de nossa cultura popular. 

               
Referências Bibliográficas

BURTON, Richard Francis. Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho (1867). Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1976.
CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d]. 930pil.
CASCUDO, Luís da Câmara. Geografia dos Mitos Brasileiros. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1983. 345p.
NOSSAS RIQUEZAS: a Serra do Lenheiro. O Resistente, n.421, 19-21/09/1901, São João del-Rei.
PASSARELLI, Ulisses. Notas sobre o distrito de São Gonçalo do Amarante. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, n.10, 2002. p.87-125.


Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli 

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Assombrações no Caburu

São Gonçalo do Amarante: estórias do passado


A vida simples do meio rural calcou seu alicerce num ambiente religioso e recatado, essencialmente conservador e respeitoso dos valores sagrados de sua crença, que possibilitou a preservação de várias concepções lendárias e mitológicas. Um modo peculiar de entender as forças sobrenaturais que se contrapõe ao ceticismo dos tempos hodiernos. 

Anos atrás no povoado do Fé, na área geográfica distrital de São Gonçalo do Amarante, em São João del-Rei / MG, eu já havia coletado diversas narrativas populares com o saudoso mestre folião Luís Candido Gonçalvez sobre aparições misteriosas. Aqueles espectros foram registrados num texto de minha autoria [1].

Mais recentemente (12/06/2010), outro mestre de folia de Reis e também capitão de congo, Lourival Amâncio de Paula, carinhosamente conhecido por "Vavá", na vila de São Gonçalo do Amarante, cabeça do distrito em análise, prestou-me gentilmente informações sobre esses antigos fantasmas que a modernidade vai banindo para os confins do mundo. Conforme o próprio informante me disse, após a chegada da energia elétrica em São Gonçalo (ex-Caburu), a cerca de meio século, as assombrações desapareceram.

Passo-as agora em breve revista.

*  *  *

- Lobisomem: é um problema ligado ao apadrinhamento [2]. Aparece como um porco agigantado, que bate orelhas, estala os dentes e corre atrás das pessoas. Se o porcão morder alguém que sobreviva, a vítima também passa a virar lobisomem. 

- Mula-sem-cabeça: era uma senhora idosa que se transformava no bicho assombrado. Logo que virava mula ia no cruzeiro e dava três voltas em redor e depois corria endoidecida pela vila, soltando chispas de fogo até que voltava ao dito cruzeiro, dava mais três voltas e retornava à sua forma humana, voltando à sua casa, fatigada e confusa. 

- Homem de Branco: surgia de uma casa na Travessa Cava Funda, como um homem claro de trajes impecáveis, terno completo, calçado preto lustroso, cabelo liso e bem penteado para trás. Chegou à porta de um certo morador e forçou a entrada, desaparecendo de súbito, como de costume. 

- Cavalo de Três Pés: assombro que vinha lá das bandas do rio (das Mortes), onde morreu um padre. Sua alma vinha montada nele, desde o Morro do Vinte e Três (referência ao km 123 da Ferrovia Oeste de Minas) até a entrada do Caburu, onde apiava para descansar sobre uma pedra. Dali vinha pela rua afora e desaparecia no bambuzal que existia na travessa (é um caminho velho, hoje Rua Valdomiro Geraldo de Paula, ex-festeiro do rosário). A passagem da misteriosa montaria era reconhecida no dia seguinte pela característica pegada que deixava.

- Corrente: vinha misteriosamente de arrasto pela Rua da Pinguela e subia até a Rua do Meio, fazendo barulho tétrico caminho afora. Nenhum ser humano a puxava. 

- Saci-pererê: um morador local deparou-se com ele sobre um moirão, moleque de boné vermelho, fumador de cachimbo, de um pé só, que assobiava uma mazurquinha. Não o importunou. Mas um outro homem desse lugar, no beco de pedra, levou do saci duas lambadas de relho nas pernas. Ainda se conta de fulano de tal, que vinha da Rua do Posto de um teimoso jogo de baralho em plena quaresma, quando viu o saci assobiando no barranco. Foi o que lhe bastou de alerta sobre seu pecado, emendando daí por diante.

*  *  *

As antigas assombrações tinham no ambiente comunitário o poder regulador dos excessos, aparecendo aos desobedientes da regra religiosa e aos abusados, descrentes. Para não ser afetado o homem deveria ser devoto de fato e levar uma vida criteriosa dentro dos preceitos sociais e religiosos.

Além do aspecto educativo compunham as assombrações, como numa peça de quebra-cabeças, a imagem do contexto cultural do lugar onde era vivenciada, qual sua alma, reveladora de uma profunda espiritualidade. 

Lamentável hoje ver deveras o vazio halloween sobrepujar nossa rica mitologia, apenas tracejada nesta postagem. 

Felizmente ainda persevera ao menos na memória dos antigos mestres do saber, como o nosso Vavá, esforçado guardião da memória da vila de São Gonçalo do Amarante, a quem rendo homenagem e gratidão. 

Cruz de Via-sacra, à beira da estrada que vai para o Mestre Ventura.
Notas Finais


[1] - Conferir: Notas sobre o Distrito de São Gonçalo do Amarante. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, v.10, 2002. 180p.il.
[2] - O padrinho que tem relações sexuais com o (a) afilhado (a) passa a virar lobisomem como castigo. Certo rapaz que virava lobisomem quando foi se casar, na véspera, se transformou e correu atrás da própria noiva, que no momento estava experimentando o vestido e naturalmente desconhecia o fato. Desesperada correu como pode até conseguir se por a salvo, mas no limite extremo do perigo o assombroso animal ainda conseguiu morder a orla do vestido. No dia seguinte, na hora do casamento, surgiu o noivo já normal, e na hora do seu “sim”, a moça viu entre os dentes do rapaz fiapos de seu vestido e desesperada negou-lhe o casamento, fugindo às pressas de sua presença.  

Notas e Créditos 

* Texto: Ulisses Passarelli
** Foto: Iago C.S.Passarelli, 09/10/2011.
*** Informante da lenda do lobisomem, nota de fim nº2: sr. Sebastião Quirino da Silva, 13/06/10, Povoado do Brumado de Cima, no mesmo distrito, a quem deixo especial agradecimento. 

sábado, 4 de agosto de 2012

Saci-pererê: mito ou espírito?


É possível que o Saci-Pererê seja nosso mito mais conhecido. Ente brincalhão, de aspecto inconfundível, de uma perna só, pitando cachimbo, saltitando, barrete rubro à cabeça, negro, risonho e traquina. É a forma descritiva popularíssima. 

Aqui e ali tem características singulares, que tendem a ser anuladas ou diminuídas pelo efeito da mídia, que veicula um Saci padronizado, igualando suas peculiaridades em todo o Brasil e levando-o para onde não era conhecido. Além da TV há o efeito das “pesquisas” escolares no Mês do Folclore (agosto), imprimindo nas crianças um Saci muitas vezes diferente daquele conhecido naquela comunidade. É um campo para os estudos de folk-comunicação. 

O Saci tem sido estudado por muitos pesquisadores no Brasil. As referências básicas estão sobretudo em Monteiro Lobato (O Saci-Pererê: resultado de um inquérito), Luís da Câmara Cascudo (Geografia dos Mitos Brasileiros) , José Carlos Rossato (Saci) e Alceu Maynard Araújo (Folclore Nacional). 

Um fato interessante sobre ele ainda pouco explorado é sua relação com a Quimbanda, religião mediúnica. Em certos terreiros de culto são evocados como espíritos “da esquerda”, como uma classe de Exus Intermediários (Batizados), do 2º Ciclo, do grupo dos Exus da Terra. Se quisermos ajustá-los à classificação de Allan Kardec (O Livro dos Espíritos) estariam na Terceira Ordem, a dos Espíritos Imperfeitos, exatamente na Nona Classe, a dos Espíritos Levianos, onde se irmanam Duendes, Diabretes, Gnomos, Trasgos, Silfos, Salamandras. Não haveria pois um Saci, mas uma “Falange dos Sacis” . Em lojas especializadas são vendidas suas imagens em gesso, como de outros espíritos. Não é então o mito, mas a entidade de trabalhos. Segundo outras interpretações, como José Maria Bittencourt (No Reino dos Exus) corresponderia ao Exu Calunga ou Calunguinha. Sua ação é maléfica. Faz artimanhas e pândegas para azucrinar a vida do inimigo a mando de alguém. 

Quando encosta (aproxima-se), informam, o indivíduo fica inquieto, costuma andar de marcha-à-ré, assoviando uma música sem identificação. Um sujeito dançando assim num Congado de São João del-Rei / MG, foi logo justificado por um homem que assistia como obra d'um Saci. Noutra ocasião uma mulher foi vista em manifestação para-normal com estas características e logo houve quem dissesse que lhe fizeram mal nalgum terreiro, pondo-lhe um Saci no encalço. Pode incorporar. Num caso relatado em Santa Cruz de Minas, cidade vizinha, manifestou-se numa mulher à guisa de um Exu, tortuoso e rangendo os dentes, visivelmente raivoso. Confessou ser um Saci, batizado, embora não revelasse o nome de batismo e disse que fora pago para atentar e junto com ele estavam outros Sacis, na faina maligna. Um trabalho forte os expulsou. 

O barrete vermelho é a fonte de sua magia. No Fé, zona rural de São João del-Rei, informaram-me que lhe foi dado pelo “Bruto” (Satanás) . Identificaram sua carapuça com o chapéu cônico pontiagudo do Palhaço das Folias de Reis, considerando que este personagem do tradicional folguedo representa o Capeta. Rossato identificou o inverso em São Paulo sobre a carapuça do Pererê: “Ganhou-o de Deus, para tornar-se invisível aos olhos do Diabo”. Cada região com sua tradição. Retirar-lhe a carapuça, deixa-o como um escravo, posto que seus poderes sobrenaturais se tornam dominados. Então, o saci faz tudo que lhe pedirem em troca da devolução da carapuça. 

Na área urbana de São João del-Rei é especialmente identificado pelo assobio repetitivo e tétrico. No Bairro São Dimas, o Capitão de Congado Luís Santana, informava de dois Sacis que assombravam o local. Um assobiava na parte alta do bairro. Outro respondia na baixa. Providenciou-se um cruzeiro, fincado-o no meio, numa colina. Começou-se a rezar nele, inclusive no Dia da Santa Cruz (03 de maio) e os Sacis sumiram. Anos mais tarde fizeram ao seu lado a Capela do Rosário, onde ocorre a festa dos Congados, anualmente, em outubro. Noutro bairro, o Senhor dos Montes, também aparecia, conforme registrou Luís Antônio Sacramento Miranda, na XI Revista do Instituto Histórico e Geográfico desta cidade (O saci-perêrê na Rua das Viúvas). 

Dizia-me um senhor que o Saci é batizado. Não morreu pagão. Por isso pode entrar na igreja e as crianças abaixo dos sete anos, que tem força mediúnica excepcional, na sua inocência, podem vê-los, graças à “mediunidade aberta” até essa idade. Para umas eles fazem caretas e gatimonhas, com outras, rodeia brincando, alegre e faceiro. Justifica assim porque algumas crianças inexplicavelmente tem crises desobedientes de choro ou lúdica dentro dos templos. 

Dirão que estou afirmando que Saci existe mesmo. Isto depende de como o encaram: se como estudioso, veja-o como um mito, valioso objeto de estudo; se como espiritualista ou portador de folclore, como um espírito. Enfim, a questão do Saci ser mito ou espírito não é menos nem mais complexa que a criação de Sacis em viveiros e chácaras aprazíveis, como mostraram a pouco os noticiários. Pelo sim, pelo não, ele vive ao menos como personalidade popularíssima da nossa cultura.

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
**Obs.: dizia-me em São João del-Rei o Mestre Luís Santana, pelos anos noventa, que o Saci pode ser aprisionado dentro do redemoinho. Para tanto, atira-se sobre o torvelinho um rosário de 15 mistérios e chega dentro de seu círculo uma garrafa aberta. O espírito do saci entra e logo é arrolhado. Torna-se um escravo. Quando se está sem dinheiro, abre-se a garrafa. O espírito dele sai e vai buscar dinheiro. Quando por algum meio chega um dinheiro inesperado, então se fecha de novo a garrafa, conservando-o na prisão. Esta crença é antiga e generalizada. O saci é reconhecido por seu assobio moleque, arrepiando os cabelos e assustando os peregrinos. Dizem que ele assobia... assobia e a pessoa olha daqui e dali, nada vê. De repente ele aparece do nada, empunhando uma flautinha de taboca, tocando-a e depois diz ao viajante que passa na curva do caminho: "o pito pitou, canudo rachou!" Repetindo várias vezes, dá uma gargalhada e foge pulando pro mato, cambeta.
*** Leia também outra postagem que contém notícias sobre este mito:

ASSOMBRAÇÕES NO CABURU