Algumas crendices sobre as serpentes
“A
serpente era o mais astuto de todos os animais dos campos que o Senhor Deus
tinha formado.”
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Carranca fotografada em São João del-Rei, 1998.
Uma cobra sai de sua boca. Procedência ignorada. |
Assim principia na Bíblia Sagrada, o
terceiro capítulo do livro Gênesis. A narrativa de como a serpente, símbolo do
mal, figuração satânica no ato da criação humana, impregnou profundamente a
mitologia, sobretudo a ocidental. O animal tentador, que corrompeu os planos
que Deus tinha traçado para a humanidade, induzindo a desobediência de Adão e
Eva, foi amaldiçoado pelo próprio Criador: “serás
maldita entre todos os animais e feras dos campos” (Ex.3, 14).
Todo um complexo sistema de crenças
recai de forma cosmopolita sobre as serpentes. Por toda parte onde ela vive
gera no homem uma mescla de sentimentos atávicos, que confluem para compor a
temática de uma série de estórias, crenças, tabus, mitos e lendas. A riqueza
cultural é gigantesca. Nos verbetes “Cobra” e “Serpente”, Luís da Câmara
Cascudo em seu Dicionário do Folclore
Brasileiro, resumiu de forma magistral o poderio imaginário que estes
répteis despertaram nos meios populares, notadamente nas áreas de influência
indígena.
Mas longe está a pretensão deste
pequeno texto de perpassar por estas tradições em análise, revisão ou
coletânea. As palavras acima são meros pretextos para expor algumas informações a seguir, que foram coletadas ao longo da caminhada de pesquisas em São João
del-Rei e arredores _ Campo das Vertentes _ desde a década de 1970, salvo indicação
contrária, e que, ora passo em breve revista.
* * *
- Cobra que
mama: impossível é à serpente fazer a sucção necessária ao ato de mamar, dada a
conformação de seus músculos e articulações da mandíbula. Contudo, uma velha
crença portuguesa esparramou-se pelo Brasil e chegou a esta região,
contrariando os ensinamentos anatômicos. Dizem que foi para os lados de Resende
Costa, que numa antiga fazenda de chão assoalhado, com porão por baixo, onde
tuias de mantimento atraíam ratos, e no seu rastro, uma imensa cobra veio
morar. Tarde da noite, a senhora, cansada da labuta diária, sentava-se numa
velha cadeira onde aleitava sua criança. O pai, sempre dormia mais cedo e
a mãe, esgotada, cochilava no assento. A serpente, conhecedora do horário e
astuta como sempre, saía do porão e passando por um buraco entre as tábuas do
assoalho, vinha sorrateiramente à mãe, que não se dava conta do réptil, devido
ao sono profundo que estava. A cobra, subindo mansamente ao colo maternal,
metia a ponta do rabo na boca do bebê, qual fosse uma chupeta e livrando assim
a mama punha a sugar o leite. Quando fartava-se, voltava ao seu esconderijo,
sorrateira como de costume. A criança pouco a pouco emagrecia, sem se saber a
razão. Um dia, por sortes do destino, o pai acordou e estranhando pelo avançado
da hora, não ter até então a esposa chegado ao quarto, foi à sala, onde viu
estupefato a cena da cobra mamando. Tomou de um porrete e batendo de propósito
o pé no chão fez a cobra largar o seio pelo barulho e sair às pressas, mas
antes que entrasse no buraco da passagem para o porão foi morta a cacetadas. Em São João del-Rei tivemos notícia de estórias de cobra que adentra o curral e mama em vaca.
- Comer cobra: acredita o povo que a
serpente pode servir como alimento humano, desde que ao matá-la se deixe
sangrar totalmente, pendurada, e se corte a partir da cabeça e da ponta da cauda,
um palmo de comprimento de cada lado, eliminando as possibilidades de
envenenamento.
- Espinho de
cobra: o pior veneno da serpente não está na presa mas nas pontas das costelas
(espinhos). Se alguém se ferir neles quando de uma carcaça em decomposição,
terá uma ferida incurável no local. Se fincar no corpo humano, não pode ser
retido facilmente, pois, como se fosse vivo, caminha por dentro dos músculos,
gerando dor e mal estar, até chegar ao coração, ponto final da maldita jornada,
causando a morte irremediável. Por isto o homem do campo ao matar uma cobra a
enterra, para que seus ossos não fiquem expostos. As estórias de feridas incuráveis possivelmente se originem da contaminação bacteriana da punção pelos ossos da cobra.
- Chocalho de cascavel: a medonha serpente viperídea Crotalus
durissus pode ter sua idade contada pelo número de anéis de seu guizo: um
para cada ano de vida. A ciência desmente, afirmando que cada anel corresponde
a uma troca de pele, que pode acontecer mais de uma vez por ano. O povo não aceita,
lógico. O chocalho é um aviso de periculosidade que Deus conferiu ao cascavel,
para que alerte pelo som idiofônico aos humanos sobre a iminência do perigo.
Esta crendice é contextualizada na disputa em forma de fábula entre a
letalidade do cascavel com a urutu (Bothrops
alternatus): dizem que as duas nutrem entre si uma inveja _ no tempo que os
bichos falavam elas se encontraram no mato _ urutu logo disse que era pior.
Tinha até um sinal de cruz na testa (daí ser chamada urutu-cruzeiro, devido ao
desenho cruciforme que traz no couro) para atestar a morte que provoca, a que, replicou a cascavel, que que tinha peçonha pior: batia o guizo antes da picada
para que a vítima alertada, se movesse do lugar e assim não caísse sobre a própria cascavel.
- Disputa das
cobras: a crendice popular da primazia de poder das serpentes reflete-se em
versos do nosso folclore. “Dona Josefina”, em 1996, cantava em Barbacena a
seguinte quadra de calango:
Toda cobra carijó
Vive sempre de porfia:
Cascavel anda de rastro,
Caninana de rodia.
A caninana
(Spilotes pullatus), serpente colubrídea de grande porte, é temida por sua
agressividade, formando rodilhas e correndo atrás da vítima, embora a ciência
não lhe atribua o caráter de peçonhenta.
- Lidar com
cobras: valentia e poder sobrenatural teriam aqueles capazes de lidar com
serpentes sem serem molestados. Propalar isto em versos é índice de firmeza
espiritual. Tal acepção impregnou a cultura popular. Uma sextilha cantada no
jongo de roça (canto de trabalho por ocasião dos mutirões de capina agrícola),
me foi dada pelo Sr. Luís Santana em 1995, no Bairro São Dimas, em São João
del-Rei:
Cascavel não me pica,
Tenho boa oração.
Jararaca perigosa,
Esse é meu lenço de mão.
Urutu por ser valente
É bainha do meu facão.
Um fragmento de
calango do mesmo bairro, informado um ano antes, pelo saudoso José Camilo da
Silva, dizia:
Fiz uma cama da onça,
Travesseiro do leão;
Cascavel do olho cinzento
Enrolado em minha mão ...
- Parentesco com
as cobras: sem adentrar na questão hipotética do totemismo, quiçá rastreável neste tema,
em heranças africanas, mas tão somente citar com brevidade, que algumas criações
poéticas do povo colocam o cantador como se fora uma serpente ou como seu
parente, mais um alerta de não ser ofendido pois tem seu próprio “veneno”. Assim cantou num calango em 1999 o mestre “Faixa Preta” (José Francisco Sales), no Bairro Tijuco, aqui nesta
cidade:
Eu sou filho da cobra-gira,
Neto da cobra-corá [coral]
Quero que você me diga
Quem ensinou Deus a rezar...
Presenciei na
Festa do Divino de 2004, no Bairro Matosinhos, a uma demanda curiosa: um catupé daqui cruzou na frente
do moçambique da cidade de Passa Tempo, em tom desafiador:
Cobrinha miúda, eu pego com a mão!
Cobrinha miúda, eu pego com a mão ...
Na voz do
Capitão Luís Maurício a resposta veio certeira e imediata:
Eu sou cascavel dos brejos,
Da beirada do olho cinzento.
Quando eu dou minha picada
Não adianta gritar: São Bento!
- Na medicina
popular: a banha (gordura) da sucuri (Eunectes
murinus, boidae), conservada num vidro, serve de remédio ao reumatismo,
bastando-se dissolver uma porção no café quente para beber. Uma quadrinha cantada no catupé do Bairro São Dimas, em São João del-Rei, do Capitão Luís Santana (1995) cita a imensa serpente, com o sentido provocativo da perda de congadeiro do terno por força de demanda:
"Mestre carreiro,
me conta como é que foi:
na várzea leve,
sucuri laçou seu boi..."
- A origem do
veneno: a peçonha das serpentes é benéfica no sentido que Deus as criou para
que tirem o “mal ar”, convertendo-o em veneno, ou seja, as toxinas, fluidos,
elementos que causam doenças e acometimentos espirituais pelo ar contaminado.
Estas substâncias as serpentes absorveriam pela pele e depois seriam
transformadas (quimicamente) em peçonha. Assim purificam o ar.
- O veneno da
cobrinha: duas crenças curiosas são correntes por aqui _ a jovem serpente logo
ao nascer do ovo não possui veneno algum. A mãe cobra então a engole, sem
mastigar. Ilesa, a cobrinha vai passando viva por seu sistema digestivo, até
então ser parida direto, isto é, sem intermédio de ovo. Nessa passagem por
dentro da mãe é que adquiri desta o veneno. A outra crendice diz que o réptil
jovem oferece mais perigo à vida que o adulto pois seu veneno é concentrado
e mais forte, pois nunca foi diluído em outras picadas.
- O ardido da
picada das vespas: a ferroada das vespas dói tanto porque nos transmite uma
pequena parcela do veneno das cobras, não suficiente para matar. Assim me
informou “Tião Abelha” em Santa Cruz de Minas em fevereiro de 1998. Isto
porque, quando uma serpente morre, as vespas pousam sobre ela e chupam
(absorvem...) seu veneno, bebendo seu sangue talhado (coagulado). Nesta
terrível reciclagem duas espécies se sobrepujam: o marimbondo-pólvinha (de pólvora,
alusão ao queimor da ferroada) e a abelha caga-fogo.
- A raiz da
guaipeva: atestou-me um trabalhador rural originário de Santa Rita do
Ibitipoca, em 1996, o saudoso Sr. Júlio Prudente de Oliveira, grande
conhecedor da cultura popular, que, certos feiticeiros, “cumba do papo amarelo”,
isto é, grande conhecedores das artes mágicas, dos mistérios do além, tem o
conhecimento de uma certa oração forte, inconfessável, capaz de, pronunciada adequadamente
à Sexta-feira da Paixão, meia-noite (zero hora), fazer uma transformação extraordinária: tendo o feiticeiro cavado fundo ao pé da árvore chamada guaipeva e
segurando uma de suas raízes pretas, a força das palavras mágicas da reza brava
teriam a capacidade de convertê-la em serpente, uma perigosa jaracuçu (Bothrops jararacussu, viperidae). Ela se
enrola no braço do sujeito e lhe confere fortaleza espiritual invencível. Em
segundos a cobra misteriosa se enrijece, voltando a ser pau, mera raiz. Cortada em pedacinhos trazidos escondidos na algibeira, no bolso, livra o sujeito de qualquer demanda espiritual de inimigos, tornando-o invencível.
- Outra
transmutação: cabelos humanos jogados em águas paradas, ferruginosas, podem se converter em serpentes, conforme ouvi e década e meia, em Santa Cruz de Minas,
de minha sogra, sra. Elvira Andrade de Salles. Esta crença parece remeter ao verme conhecido por "crina de cavalo" (ordem Gordioidea), que tem movimentos serpentiformes e aspecto de um fio de cabelo.
- Como afastar
as cobras: existem várias receitas. Uma delas, um benzedor ensinou à minha mãe em São João del-Rei há três décadas: rezar para João Congo, um preto velho cujo espírito afastaria as serpentes. Outro benzedor são-joanense, do Bairro Senhor dos Montes, relatou-me, ainda
este ano, que se deve fazer uma cruz com dois paus parcialmente queimados,
restos de fogueira (tição), ficando o vertical com a ponta tostada para o lado
do mato, onde manterá as cobras. Outra fórmula ensina queimar pneus ou outra
borracha no arredor da casa. O cheiro da fumaça espanta as cobras. Andar com
dente de alho no bolso também serve para o mesmo propósito. E ainda, dizia-me
meu avô materno, Aluísio dos Santos, os caçadores outrora amarravam um patuá no
pescoço dos cães de caça com um cordão. O patuá era um saquinho feito com couro
de lobo, costurado nas margens de modo a não perder o conteúdo, que era uma
substância chamada “sublimato corrosivo” (cloreto de mercúrio, veneno potente),
cujo vapor, exalado por sublimação, espantaria qualquer serpente da frente do
cachorro e de seu dono (*). É o princípio do contra-veneno, ou que, “um veneno
combate o outro veneno”. Nesta acepção, a citada Dona Elvira dizia-me em
fevereiro de 1998 que onde não há recurso, o que se pode fazer para salvar um
ofendido por serpente é matar a cobrar, cortar um pedaço do meio de seu corpo
(torete) e aplicar sobre o local da picada. Isto absorveria o veneno, salvando
a pessoa .
- Briga da cobra
com o lagarto: o teiú ou tejo (Tupinambis
teguixin), grande lagarto teídeo, por ser muito territorialista, quando vê
seu espaço invadido por uma serpente, trava corajosamente com ela uma luta,
dando-lhe fortes chicotadas com a cauda. Se um bote da cobra lhe atinge, corre
desenfreado pela mata. Mas não está fugindo. É uma retirada estratégica. Procura por uma árvore chamada cafezinho-do-campo, árvore-de-lagarto ou guaçatonga (Casearia sylvestris / Salicaceae), cuja raiz
escava e morde tirando lascas. Mastiga e engole seu sumo. A raiz o cura do
veneno da cobra e imuniza-o. Então, corre célere de volta ao campo de batalha, onde, às rabanadas, termina por vencer a cobra, matando-a.
- Atropelar cobra: ao ver uma serpente atravessando uma estrada deve-se evitar ao máximo atropelá-la, pois do contrário, o veículo dali por diante, como se acometido por uma maldição, passa a ter diversos problemas mecânicos inexplicáveis, ou como diz o povo, "se a roda passar na cobra, o carro vai quebrando em seguida..."
- Veneno na folha: outra crendice são-joanense (Bairro Senhor dos Montes) diz que a serpente antes de adentrar na água, morde uma folha verde de algum ramo da margem. Sobre esta folha deixa depositado seu veneno. Ao sair do córrego, lagoa ou rio, volta ao ramo verde e bebe o próprio veneno, sorvendo-o de volta ao seu corpo. Informante: Luiz Antônio Sacramento Miranda.
Estas são
algumas crendices pertinentes ao rico folclore das cobras. Porém outras mais
permeiam a cultura do povo. A devoção a São Bento, protetor contra picadas é um
exemplo. Mas isto é assunto para outra página...
* O antigo jornal de São João del-Rei, O Repórter, em sua edição nº28, de 19/08/1906, publicava anúncio do produto SURUCUINA, encontrado em São João del-Rei num estabelecimento comercial que era "depositario, nesta cidade, do afamado, conhecido e maravilhoso remedio", pelo preço de 7$500 o vidro, "poderoso preparado e efficaz contra mordedura de cobras venenosas". (Acervo da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida).
** Foto e texto: Ulisses Passarelli
Revisado em 21/03/2025