Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




Mostrando postagens com marcador Ex-votos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ex-votos. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 9 de junho de 2015

Festa de Tiradentes

A Mesorregião Campos das Vertentes é abundante em festas religiosas e nelas o povo manifesta sua cultura. Na Microrregião de São João del-Rei, algumas se destacam pelo aspecto de romaria que conseguiram adquirir ao longo de muitos anos de desenvolvimento, elevando-se a devoção a um grau de extrema popularidade. Isto faz com que, não um grande público, mas sim uma multidão, encha a igreja em festa e seus arredores.

Como tal poder-se-ia listar de imediato a Festa de Nossa Senhora do Livramento (na zona rural de Prados), que acontece no último domingo de junho; a Festa de Nossa Senhora do Rosário (em Resende Costa), no primeiro domingo de novembro, e os grandes jubileus: de Santa Rita de Cássia (em Ritápolis), o de Nossa Senhora de Nazaré (em Nazareno), o do Senhor Bom Jesus de Matosinhos e o do Divino Espírito Santo (ambos no Santuário de Matosinhos, em São João del-Rei) e por fim o da Santíssima Trindade (em Tiradentes). Estas são certamente as maiores festas religiosas regionais.

Cinquenta dias após a Páscoa é a grande festa de Pentecostes. Pois bem. O domingo seguinte a Pentecostes é o dedicado à Santíssima Trindade, que merece na cidade de Tiradentes uma grande festa jubilar centrada no santuário desta invocação, que remonta ao ano de 1776. Popularmente o povo a chama "Festa de Tiradentes", o que a estranhos pode soar como um evento dedicado ao Alferes Joaquim José da Silva Xavier, mas não é nada disso. Esta grande comemoração é concretizada em grande parte devido aos esforços e dedicação da Arquiconfraria da Santíssima Trindade.

A devoção é muito antiga e enraizada e tem sua base calcada em lendas populares, que este blog já registrou. Construído sob o regime de romarias, o jubileu é uma ocasião que movimenta um número enorme de devotos que demandam de toda a redondeza em prece aos pés "da santa", como habitualmente se referem à Santíssima Trindade. É comum o tratamento no feminino: "ela (a Santíssima Trindade) me deu uma graça de cura!" Apesar da referência no gênero feminino a representação material é por uma imagem de feição masculina marcante: um senhor de farta barba branca, olhar sério, sentado num trono, trajado em vestes sacerdotais, tiara papal, um Divino em forma de pomba aplicado no peito e mãos espalmadas em atitude de imposição, de bênção. Uma longa fita atada em seu punho vai até os fiéis em imensa fila, que nela beijam e se persignam pedindo a graça.

O Santuário da Santíssima Trindade é uma igreja setecentista, munida de amplo adro gramado e com os anos recebeu melhoramentos e benfeitorias para bem servir aos romeiros.

É comum a presença de gente vindo a pé de localidades vizinhas. De São João del-Rei e Santa Cruz de Minas, por exemplo, caminham pela "Estrada Velha" (Estrada Real), beirando a Serra de São José, muitas vezes de madrugada, para alcançar a primeira missa, na alvorada. Quantas vezes, fui com meus pais nessa caminhada ainda na infância! Juntava-se uma turma familiar, com tios e primos, levando alguma sacola com uma merenda. A saída era entre 2 e 3 horas, com um frio medonho, e muita poeira. A luz elétrica cessava logo após a última casa de Santa Cruz e em toda a beirada de serra vinha-se no escuro total e com muita poeira. Via-se muitos grupos de pessoas fazendo a mesma jornada, romaria de várias famílias. Na chegada, uma breve parada junto ao chafariz para lavar a poeira das mãos e do rosto e reabilitar as energias com um cafezinho. E logo, assistir a missa das 5 horas, que terminava com o dia clareando.

Esta tradição diminuiu sensivelmente por conta do intenso fluxo de veículo na estrada nesse período, gerando nos romeiros a pé o temor de atropelamento, que aliás já aconteceu. Da mesma forma existe atualmente o medo de assaltos. Era muito comum o romeiro vir à pé de São João e voltar de trem, pegando a maria fumaça que até o começo da década de 1980 rodava de hora em hora nessa festa, por assim dizer, sempre lotada e costumava parar em Chagas Dória para os desembarques. Os jornais antigos de São João del-Rei registram com frequência notícias dos horários ferroviários especiais para servir a esta festa (*). Muitos romeiros vinham ou ainda vem de outras localidades vizinhas a pé ou a cavalo, ou mesmo de bicicleta, mas atualmente o maior volume é por meio de veículos automotores.

A poeira intensa na estrada que vem de São João, de uns anos para cá foi amenizada por caminhões pipa que pulverizam água sobre ela, no trecho do Morro da Mandioca. Já a subida pelo Morro do Pacu não tem mais poeira, posto que pavimentada por paralelepípedos.

A novena preparatória é movimentada, mas nos últimos dias o fluxo aumenta muito. No largo diante do santuário, na rua que lhe segue e mesmo na lateral do templo, externamente, muitas barracas dividem espaço no comércio de gêneros alimentícios, roupas (sobretudo de inverno), utensílios, ferramentas, brinquedos, diversos. Cumprida a parte religiosa, o visitante acorre às barracas e no comércio ambulante faz suas compras. Isto também faz parte da característica desta festa. Muita gente junta um dinheiro ao longo dos meses que lhe antecedem para justamente comprar algo interessante nessas barracas. Nas horas de pico o movimento de ir e vir de pessoas é enorme e chega a ser difícil transitar entre as barracas.

Dentre tantos produtos um muito típico, embora hoje bem menos abundante nesse festejo é a mexerica-pocã (ponkan). Eram vendidas em enfieiras. Hoje em redinhas de nylon amarelo.

A gaiatice popular não tardou alcunhar este jubileu de “Festa do RPM”. Sigla um tanto irônica, mas antes brincalhona que pejorativa, que resume algumas características que se via noutros tempos no Jubileu da Santíssima Trindade, de Tiradentes: Romaria, Poeira, Mexerica.

Alguns momentos do jubileu em especial merecem destaque. No Domingo da Santíssima Trindade, a missa das 10 horas, celebrada pelo bispo, com a parte musical a cargo da centenária e respeitada Orquestra Ramalho, de Tiradentes; a Procissão de São Vicente de Paulo, que sobe entre as barracas partindo da Matriz de Santo Antônio ao Santuário, que já a muitos anos vem sendo musicada pela Banda de Música Municipal Santa Cecília, de São João del-Rei, sob a batuta do competente Sr. José Antônio da Costa; a solene e grandiosa Procissão da Santíssima Trindade, que reúne uma multidão imensa de tiradentinos e visitantes; e, por fim, o concorrido leilão de gado.

Também merece uma especial atenção, sobretudo de quem tem um olhar mais investigativo nas questões etnográficas, a "Sala dos Milagres", onde se concentra um grande número de ex-votos variados, atestando graças alcançadas pelos fiéis. Outro ponto de especial interesse é o velário ao seu lado, no qual ardem dezenas de velas, sobretudo de cera, elevando súplicas e gratidões.

Seria muito interessante e útil o desenvolvimento de uma pesquisa a fundo do passado desta festa, e talvez já exista. Pequenos fragmentos visíveis em jornais antigos publicados em São João del-Rei, além de atestarem o imenso fluxo de fiéis são-joanenses para Tiradentes durante esta festa e sobretudo falando acerca do grande número de trens especiais para atender aos romeiros, também deixam ver nas entrelinhas algumas informações que a princípio sugerem que a estrutura festiva do passado pode ter tido uma certa similitude com o antigo Jubileu do Divino de Matosinhos. A título breve de exemplo, em 1883, descobriu a pesquisa séria do Sr. Kleber do Sacramento Adão (**), houve em Tiradentes a cavalhada durante o jubileu. Pois bem: no ano seguinte, a cavalhada aconteceu na festa de Matosinhos, graças aos esforços de Herculano de Assis Carvalho.

Na verdade a festa abarcava um grande número de cargos/personagens, que permitiam a participação de várias pessoas em diferentes e estratégicas funções. A esse respeito, vale conferir a relação seguinte[1], excluída a longa lista de nomes dos mordomos e juízes, estes, sempre aos casais:

Pauta dos Mesários da Confraria da Santíssima Trindade para o anno de 1927
Império: Imperador, Imperatriz, Alferes da Bandeira, Pagem do Estoque, Procurador dos Pobres, Esmoler-mor;
Mesa Administrativa: Presidente, Vice-Presidente, Secretário, Síndico, Procurador; Irmã Presidente, Irmã Vice-presidente, Vigário do Culto Divino, Vigária (sic) do Culto Divino, Mestra Assistente, Irmã Enfermeira, Zeladoras;
Juízes e Juízas: do Divino Espírito Santo ..., Senhor Bom Jesus de Matosinhos..., Nossa Senhora das Dores..., São José..., São João da Matta..., Nossa Senhora do Carmo..., Santo Antônio..., Menino Jesus...
Mordomos ...
João Trindade Nascimento - Secretário - 31/12/27

A maioria destes cargos tem procedência portuguesa e sobretudo açoriana. Surgem assim igualmente nas Festas do Divino Brasil afora e por extensão nesta da Santíssima Trindade de Tiradentes. Notar inclusive a presença de cargos consagrados ao Divino Espírito Santo e Senhor de Matosinhos[2]e até um imperador, aliás um sacerdote, o Padre João Theodorico Vellozo. 

Fica pois a sugestão à pesquisa, diga-se de passagem, tentadora. As antigas notícias jornalísticas e outras fontes documentais poderão mesmo comprovar que o Jubileu da Santíssima Trindade era muito parecido às antigas festas de Matosinhos? Talvez, umas e outras tenham de fato sofrido grandes mudanças ao longo dos anos ...


Aspecto do Santuário da Santíssima Trindade durante uma celebração. 
Uma parte da fila de fiéis para beijar a imagem da Santíssima Trindade. 

Barracas. 

Notas e Créditos

* Leia também sobre as lendas de surgimento da devoção à Santíssima Trindade em Tiradentes, clicando neste link: TIRADENTES/MG: duas lendas religiosas.
** ADÃO, Kleber do Sacramento. Devoções e diversões em São João del-Rei: um estudo da festa do Bom Jesus de Matosinhos, 1889-1924. Campinas: UNICAMP – Faculdade de Educação Física, 2001. Tese de Doutorado.
*** Por exemplo, O Correio, n.398, 26/05/1934, comenta sobre o movimento de trens partindo de São João del-Rei e da estação de Prados.
**** Texto: Ulisses Passarelli.
***** Fotos: Iago C.S. Passarelli, 31/05/2015.



[1] - Extraída em 2003 de um quadro afixado na parede do vão lateral direito do Santuário da Santíssima Trindade, debaixo da escada que dá acesso à sua imagem. Há também fotos históricas dos romeiros e ainda do mutirão, com vários carros-de-boi, levado a efeito durante a construção da murada do templo, de 13 de junho a 9 de outubro de 1933. Para maiores detalhes sobre este jubileu irmão do são-joanense ver: MAIA, Pedro A., Padre. Peregrinos da Santíssima Trindade. São Paulo: Loyola, 1986.
[2] - O Jubileu do Sr. Bom Jesus de Matosinhos de 2009 teve a visita da imagem da Santíssima Trindade de Tiradentes, a cargo da Arquiconfraria da Santíssima Trindade. Como retribuição o Jubileu da Santíssima Trindade de Tiradentes do ano seguinte contou com a presença da imagem do Senhor de Matosinhos, com o aval das respectivas autoridades eclesiásticas e neste último caso, sob a incumbência dos festeiros do Divino de Matosinhos. 

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

O cabelo na tradição popular

O cabelo é um símbolo de força, a exemplo do hercúleo Sansão bíblico (Livro dos Juízes, capítulo 13 e seguintes), do qual toda força procedia de sua vasta cabeleira. Dalila traiçoeiramente o seduziu, descobriu seu segredo, embriagou-o e cortou seu cabelo. Enfraquecido foi vitimado pelos filisteus. 

O Deuteronômio, no vigésimo primeiro capítulo prescrevia aos hebreus raspar a cabeça e cortar as unhas das prisioneiras de guerra que acaso quisessem tomar por esposas. Era também uma prática de luto. Já o Livro dos Números, no capítulo 6, tratando da lei sobre os nazarenos, determinava aos fiéis que quisessem declarar voto de nazarenato a interdição do corte dos cabelos até o dia da consagração: "a navalha não passará pela sua cabeça" ... "será santo, deixando crescer livremente os cabelos de sua cabeça." (versículo 5). Na Bahia, o período da quaresma trazia interdição ao trato com o cabelo: "Moça não deve aparar cabelo que é para não atrasar o crescimento da cabeleira. nem deve oferecer a cabeleira a santo que tenha sido martirizado. Dizem que fica sujeita a iguais martírios." (VIANA, 1960, p.24). A base portuguesa de alguns costumes ligados ao cabelo foi destacada por Luís da Câmara Cascudo: "pela primeira vez só podia ser cortado por mão de homem. Os cachinhos eram distribuídos às pessoas amigas da família. Os pais usavam como berloques, os cachinhos encastoados em ouro." (...) "ter cabelos no peito é sinônimo de valentia" (p.206). O autor menciona exemplos nas mitologias egípcia e grega. "Foi usadíssima a pena, tida como infamante, de cortar o cabelo às 'mulheres de má vida', expulsando-as da cidade. Essa pena de cortar, aparar, rapar os cabelos constituiu uso legalíssimo e os portugueses o tiveram por intermédio do Código Visigótico." (p.207) (CASCUDO, s/d). 

É muito vasto o folclore do cabelo. Nos folguedos populares é costume alguns personagens usarem tranças postiças, conforme registros dos folcloristas no Nordeste brasileiro e como mostra as fotos abaixo, de folias do Campo das Vertentes, feitas com pelos de cauda de cavalo.

É costume antiquíssimo consagrar o cabelo: deixá-lo crescer e depois cortá-lo como oferenda. Certas tonsuras são específicas de algumas concepções religiosas e etnias. Entre os ex-votos encontram-se mechas entregues nas salas de milagres. Outro exemplo é do cabelo humano especialmente reservado por longo tempo pelo fiel, para ser cortado e ajustado à cabeça dos santos barrocos, fazendo as vezes de cabelo da imagem.

Nos terreiros de umbanda vê-se com frequência a cena das mulheres que estão na gira soltando os cabelos presos antes da incorporação do guia. No geral observa-se que se a médium mantiver o cabelo preso a entidade a influencia fortemente, mas tem dificuldades para incorporar, ficando a pessoa entorpecida pela energia.

O cabelo povoa o imaginário popular servindo de inspiração para composições poéticas de nosso refraneiro e cancioneiro. O saudoso capitão de congado José Camilo da Silva, por volta de 1994 cantava a seguinte sextilha de moçambique, dizendo-a muito antiga, cantada pelo Capitão "Barão", de um grupo de Ritápolis, extinto há décadas:

Maria Colina,
quando te chamar, vem cá,
passa o pente no cabelo,
deixa o cabelo anelar...
No Rio Grande,
deixa o povo sossegar!

O tratamento dos cabelos se faz na medicina popular com ervas específicas. Para cabelos ressecados, quebradiços, usam esfregar um unguento à base de mel, com babosa ou polpa de abacate; para fraqueza das raízes, com queda, o banho da infusão das folhas do jaborandi [1] (tem o falso e o verdadeiro, este mais eficaz), vegetal que medra nas matas de galeria e capoeiras, e do murici-branco, dos cerrados. O tratamento de piolhos procede-se com um banho de vinagre e aplicação de macerado de erva de Santa Maria (mastruz). Se a infestação é muito forte e não melhora, procede-se à simpatia de pegar três piolhos e colocar dentro de uma caixinha de fósforos e despachar numa encruzilhada, pedindo para levar embora esses parasitas. Em pouco tempo a pessoa se vê livre deles. O tratamento de caspas faz-se com sumo de limão aplicado nos cabelos. Este blog apenas registra o costume popular, mas não aconselha tais práticas, que podem eventualmente prejudicar a saúde.

Para cortar o cabelo algumas pessoas observam a fase da lua, conforme o resultado pretendido: cortá-los na cheia, preserva a vitalidade habitual; na lua nova, não há influência; na minguante o crescimento será lento e tende a ralear a cabeleira; na lua crescente o cabelo se avoluma e cresce rápido. Assim reza a crendice, conforme práticas populares em São João del-Rei.

Na crendice popular o cabelo guarda a essência carnal da pessoa. Por isto, em concepção anímica, feitiços feitos em seus fios atingem por conseguinte a própria pessoa a quem o cabelo pertencia. A partir deste princípio, por temor, muitos não cortam o cabelo em qualquer barbearia ou então, pedem ao profissional o favor de recolher as aparas e embrulhar. A pessoa então leva consigo para dispensar onde melhor convier. Sobre a antiguidade de tal crença, vale de exemplo a citação de um caso de devassa religiosa do século XVIII, que consta em processo no Arquivo da Cúria de Mariana: em 1765 "Paula Almeida, bastarda, e Antônio Martins Pereira" foram presos e condenados à excomunhão maior por "'incesto, por cognação espiritual', já que estavam ligados pelo compadrio, mas, sobretudo, por causa das práticas de 'feitiçaria ou embustices' quando 'cortaram o cabelo de uma negra benguela e jogaram no córrego onde se fez um redemoinho'" (RESENDE, 2005, p.21).

Há quem queime os cabelos cortados, por praticidade, mas os crédulos invalidam esta ação dizendo-a geradora de “cabeça quente”. A pessoa fica nervosa, agitada, com cefaleia, sem motivo aparente. Recomenda-se assim jogar todo resíduo do corte numa moita de bananeira, para ficar com a “cabeça fresca”.

Alguns homens não gostam de cortar o cabelo com mulheres, supondo que a mão feminina sobre a cabeça masculina representa dali por diante um domínio, ou seja, o homem enfraquecido passará a ser subjugado pelas mulheres, decerto uma sobrevivência hodierna do mito de Sansão.

Trança em palhaço de folias de Reis: 
São Sebastião da Vitória (São João del-Rei), 27/01/2014.  
   
Trança em palhaço de folias de Reis: 
Conceição da Barra de Minas. 27/01/2014.

Trança em caboclo da Guarda Divino Espírito Santo,
Bairro Nova Cintra, Belo Horizonte/MG. 27/04/2014.

Senhor dos Passos, com belos cabelos cacheados.
Passinho da Rua Padre José Maria Xavier,
São João del-Rei/MG, 17/04/2014.

Murici-branco. Chapadão, Serra de São José.
Tiradentes/MG, 31/05/2014.


Jaborandi-verdadeiro. Brumado de Cima (São João del-Rei/MG).
Mata ciliar de um córrego local,11/07/2015. 

Jaborandi-falso. Pombal (São João del-Rei/MG).
Mata ciliar do Rio das Mortes, 12/04/2014. 


Mecha de cabelo ofertada na 'Sala dos Milagres', como ex-voto.
Santuário da Santíssima Trindade, Tiradentes/MG. 14/06/2014. 

Referências

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d. 930p. 

RESENDE, Maria Leônia Chaves de. Devassas gentílicas: inquisição dos índios na Minas Gerais colonial. In: RESENDE, Maria Leônia Chaves de; BRÜGGER, Sílvia Maria Jardim (Orgs.) Caminhos Gerais: estudos históricos sobre Minas (séc. XVIII-XIX). São João del-Rei: UFSJ, 2005. 204p. p.9-48

VIANA, Hildegardes. Festas de santos e santos festejados. Salvador: Livraria Progresso Editora, 1960. 71p. 

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli
- Fotografias: Iago Christino Salles Passarelli (palhaços; jaborandi-verdadeiro); Ulisses Passarelli (Sr. dos Passos, jaborandi-falso, murici, ex-voto)

Notas

[1] Um anúncio do antigo jornal O Repórter, n.23, de 27/06/1907, publicado em São João del-Rei, dizia expressamente: "A JABORANDINA é a locção mais preferida pelos freguezes do Salão Santos; extingue por completo a caspa; á venda neste salão." Acervo da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida.
- Revisão e acréscimos: 25/12/2025. 

sábado, 28 de setembro de 2013

Ex-votos de Matosinhos

Existe um costume de natureza religiosa e mais especificamente de caráter votivo, que é o ato de ofertar nas igrejas, cruzeiros, grutas devocionais ou outro ambiente sagrado, um determinado objeto que simbolize ou represente uma memória de determinada graça alcançada. São os chamados ex-votos. Sua ocorrência é notada em muitos lugares, via de regra considerada como uma prática tradicional. Assim, por exemplo, passando por Conceição da Barra de Minas nas primeiras décadas do século XIX, o francês Saint-Hilaire comentou sobre os ex-votos do lugar: "Parece que há muita devoção à Virgem da Conceição, pois existe na sua igreja grande número de pequenos quadros, que representam curas operadas milagrosamente por sua intercessão." 

Em razão de muitos ex-votos serem pintados sobre pequenas pranchas de madeira, corre o sinônimo "tábua de milagre", uma referência aos quadros pendentes nas sacristias e salas de milagres, que expõe artisticamente representações pictóricas, que ilustram a forma como uma determinada graça aconteceu. No geral elas atendem aos preceitos da arte popular e trazem na base da pintura uma inscrição de letreiro com informações sobre o acontecimento pintado. Afora o aspecto estritamente da crença, seu estudo e preservação são de grande importância, não só pelo valor artístico explícito, mas também pelo aspecto intangível da cultura que o contextualiza. Os ex-votos pintados são outrossim, significativos documentos que revelam vestimenta, mobiliário, ambiente, costumes, gestos, comportamentos de seus retratados, testemunhando parte da coletividade de sua época. No entanto, apesar do enfoque aqui manifestado sobre as pinturas ex-votivas, é preciso alertar que há muitas outras formas de ex-votos além dos pintados, feitos de uma diversidade de materiais conforme a necessidade. Não é objetivo desta postagem sua análise e classificação.

Em São João del-Rei existem diversos exemplares, desde os que estão lotados no acervo do Museu Regional até aqueles que permaneceram em ambiente sagrado. Do distrito de Emboabas, antigo São Francisco do Onça, procede esta notícia jornalística, da época da demolição da primitiva igreja para substituição pela nova, em 1938: 

S. Francisco de Assis do Onça (do correspondente). Continua em construção a matriz deste distrito, tendo sido demolida toda a parte velha. Foi encontrado debaixo do altar-mor curiosíssimo quadro de madeira, pintado a óleo, com os seguintes dizeres: "Milagre que fez S. Francisco de Assis do Onça a D. Delfina Maria de S. José, que estando seu irmão Gabriel Fernandes do Nascimento muito enfermo de huma febre pôdre apegando-se com o dicto Santo de que logo foi alcançando milhoras, até que de todo livre da referida molestia expoz esta memoria na hera de 1823".

No mesmo município, no Bairro Matosinhos, a "Sala dos Milagres" congrega vários desses ex-votos, dignos de nota, em diversos estilos, alguns do século XVIII e XIX. Outros são dos novecentos e até mais recentes, entre pinturas, desenhos, fotografias, objetos (sobretudo peças de cera). Guardam um grande valor etnográfico e se alinham perfeitamente com outros exemplares ex-votivos dos centros de romaria. São reveladores da ligação entre o homem e o mundo sagrado, testemunhas concretas da fé do povo, provas materiais que buscam atestar as graças alcançadas pela força da fé, fortalecendo o prestígio das invocações aos santos. 

Como exemplo dessas peças seguem as fotografias abaixo: 

Transcrição: "Antonio Carlos de Resende sofreu  uma grande Pneumonia, que o Senhor Bom Jesus de Mattosinho 
o salvou por um milagre. No anno de 1896." 

 Ex-voto do século XVIII, que mostra um homem sendo milagrosamente salvo
 de um afogamento por obra do Senhor de Matosinhos. 

Ex-voto de 1887 dedicado a Nossa Senhora da Conceição pela cura de feridas advindas de uma queda, 
sofrida por uma mãe e seu filho. Santuário de Matosinhos. 

Referências Bibliográficas

SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem às Nascentes do Rio São Francisco e pela Província de Goiás. Rio de Janeiro: Nacional, 1944. 343p. p.128. Coleção Brasiliana, Série 5ª, v.68.  

Referência Hemerográfica

Diário do Comércio, São João del-Rei, n.75, 02/06/1938 (Acervo da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida)

Créditos

- Texto e pesquisa: Ulisses Passarelli
- Fotografias: Iago C.S. Passarelli, 2013.

                                                                           Notas 

- O conjunto da Sala dos Milagres do acervo do Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em São João del-Rei, foi incluído na lista de bens protegidos pela municipalidade (Decreto nº 11.558, 16/12/2024), graças ao mecanismo de Inventário de Patrimônio Cultural (IPAC / 2022 -  Conjunto de ex-votos do Santuário do Sr. Bom Jesus de Matosinhos): Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural / Secretaria Municipal de Cultura e Turismo / Prefeitura Municipal. 
- Revisão: 11/04/2025. 
- Sobre este tema, leia também:

Dois ex-votos centenário da Terra de Nhá-Chica
Ex-votos
Ainda dos ex-votos

sábado, 25 de maio de 2013

Ex-votos em São Gonçalo do Amarante


Na postagem anterior comentava-se sobre as "marcas da fé". Em si ela é abstrata; mas para muitos, em certas circunstâncias críticas, a fé transborda em sinais... Marcas concretas estão afixadas por exemplo nos quadros ex-votivos ou tábuas de milagres, de que existem vários exemplares em diversas igrejas, tanto mais, nos centros de romaria. 

Ex-voto é um objeto depositado em um lugar tido como sagrado para dar testemunho público e perene de uma graça alcançada. É o atestado de um milagre reconhecido pelo povo. É a prova material da fé popular na intervenção divina, quando os recursos da Terra se tornam impotentes. Por esta razão, o cômodo de uma igreja onde se reúnem exemplares de ex-votos é popularmente chamado "Sala dos Milagres". 

Eles revelam formas variadas, tais como quadros (pintados, desenhados, manuscritos, datilografados e em tempos atuais, textos digitalizados, incluindo ou não fotografias), roupas, peças em cera ou madeira representando partes do corpo, mechas de cabelo, objetos variados, aparelhos ortopédicos, fotografias, dentre outros. 

Alguns lugares reúnem uma imensa quantidade de ex-votos, a exemplo de Aparecida-SP, que vale a pena conhecer e admirar a riqueza etnográfica ali exposta, o testemunho palpável da fé popular. Em Congonhas/MG o seu imenso manancial foi estudado e ganhou importante publicação a respeito [1]

Mas por aqui também eles existem. Os mais destacados estão nos santuários do Senhor Bom Jesus de Matosinhos (São João del-Rei) e o da Santíssima Trindade (Tiradentes). Porém, nas capelas rurais, nas sacristias, em igrejas não tão movimentadas também estão eles certificando o ocorrido em prol de uma saúde combalida, cancros curados, pústulas vazadas, cistos que sumiram, acidentes terríveis dos quais se foi salvo, proteção em catástrofes, etc. Como registram o limiar da estabilidade da vida tem o povo um profundo respeito por eles. 

No campo do folclore e da etnografia eles têm um especial interesse, reveladores que são de arte, técnicas de composição, meios de representatividade de sentimentos, ancestralidade, visão da interação do ser humano com o além. 

Ora este blog traz quatro fotografias de ex-votos observados em 2009 em São Gonçalo do Amarante, distrito de São João del-Rei. Nota-se neles a simplicidade da composição e a sinceridade do objetivo, agradecendo por crianças salvas e pernas socorridas. 

Neste aspecto em especial gera um interesse específico posto que no Brasil, São Gonçalo do Amarante é um santo normalmente tido como patrono dos violeiros, ou noutras localidades, também como protetor de viúvas e vítimas de enchentes (Jequitibá/MG). Porém no ex-Caburu, atual São Gonçalo do Amarante, o santo português tem um destaque na cura de feridas nas pernas, membros com perda de mobilidade, questões ósseas, o que remete a sua veneração diretamente à origem ibérica. É exatamente esta a atribuição típica conferida ao santo na sua cidade de origem, Amarante, margeando o Rio Tâmega, em Portugal, onde é o patrono dos ossos [2]

Esta intrigante coincidência, instiga a pesquisa historiográfica sobre as origens e povoamento do distrito são-joanense, ainda por se traçar.


Texto: (ex-voto da direita) "Os pais de Júlio César Alves agradecem a São Gonçalo do Amarante a graça alcançada em favor de seu filho, pois ele usava botas ortopédicas e hoje encontra-se curado." 26 de julho de 1987".  Notar a veste da criança reproduzindo a da imagem do santo padroeiro.
(ex-voto da esquerda): sem referências.


Texto: "Maria da Conceição de Carvalho, agradece uma graça de sua filha, Carmem Isabel Alves Guimarães, a cura de um quisto que foi operado quatro vezes e com a graça de São Gonçalo do Amarante e Nossa Senhora e ao Santíssimo Sacramento ela se encontra curada. 30/08/83."


Texto: (ex-voto da esquerda): "Uma graça alcançada a São Gonçalo de uma perna entrevada. JEN.  Carmen." Obs.: JEN. = José Eugênio Neto.
(ex-voto da direita): "Milagre de São Gonçalo a Alipio R. Fer.ra" [Alípio Rodrigues Ferreira]


Texto: "Um devoto AC.S agradece a São Gonçalo uma graça alcançada pela cura de suas 'pernas' e oferece a fotografia em cumprimento de promessa. São João del-Rei". 


 Créditos

- Texto e fotografias: Ulisses Passarelli.

Notas 

[1] Promessa e Milagre no Santuário do Bom Jesus de Matosinhos Congonhas do Campo Minas Gerais. Brasília: Pró-Memória, 1981. 154p.il.
[2] DIAMANTINO, Dêniston. A Dança de São Gonçalo. 10 jan. 2021. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=STrQnSYBWuI&t=1s. Belo Horizonte: Opará Documentários, déc.1990. 

Revisão: 04/08/2025. 

sábado, 6 de abril de 2013

Dois ex-votos centenários da terra de Nhá Chica

Em muitas igrejas, alguns cruzeiros, oratórios e sobretudo nos pontos de romaria, é possível encontrar representações de natureza material indicando uma graça alcançada. Esta representação se chama ex-voto. É a atestação concreta de um milagre alcançado. Nos grandes centros religiosos eles se reúnem em geral, num cômodo específico anexo à igreja popularmente chamado "Sala dos Milagres", onde podem ser vistos em grande número e variedade de tipos. Nos casos menores os ex-votos costumam ficar na sacristia ou em alguma outra dependência, como é o caso dos quadros abaixo, da igreja de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, sede de um dos distritos de São João del-Rei / MG, que fotografei em 15/11/1998. 

TEXTO: "Milagre que fez o glorioso Martyr S.Sebastião a Antônio Sabino da Silva e Francisco Onofre da Silva que no passar o rio grande p.ª o outro lado do porto do Belchior a canôa tornou a direção da correntesa que vai despejar na cachoeira abaixo e perdeu os remos aí que se lembraram do mesmo santo a canoa parou fora da correntesa e prenderam a (... trecho ilegível) mandam estampar o presente. Rio das Mortes 15 de novembro de 1905." (sic)

TEXTO: "Milagre que fêz Nossa Senhora a Pedro Sabino que estando trabalhando armando uma casa quando assentava o pontalete cahiu de cabeça para baixo e não soffreu a quèda graças a mesma Senhora e por lembrança manda estampar o prezente. Rio das Mortes 24 de agosto de 1910." (sic)


O confronto estilístico dos quadros acima sugere se tratar de um mesmo pintor, suspeita que ganha força na fórmula idêntica de abrir e encerrar seu enunciado.

O estudo dos ex-votos é de grande interesse para a folclorística e a etnografia e está ainda incipiente. A preservação dessas peças religiosas é da maior importância, pois fazem parte do conjunto patrimonial do templo e por conseguinte, são elementos palpáveis da religiosidade e da fé populares.


Notas e Créditos


* Texto e fotos (15/11/1998)
**Veja mais sobre este assunto em:

Ex-votos
Ainda dos ex-votos ...

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Ex-votos em Matosinhos

 Não é objeto dessas breves linhas, estudar os ex-votos, mas tão somente comentar algo acerca de sua presença em Matosinhos.

Ex-voto é um objeto ofertado para atestar uma graça alcançada. O fiel que recebeu o “milagre” agradece deixando este objeto, como sinal comprobatório da intervenção divina. Há quem considere também como forma de ex-voto, as ações tomadas pelo devoto para agradecer a graça. Mas consideramos este posicionamento por demais genérico, abarcando todas as formas. É mais adequado enquanto objeto de estudo enquadrá-las como um pagamento convencional de promessa, sem considerá-las de caráter ex-votivo. O ex-voto verdadeiro é material e permanece por tempo indeterminado como uma comprovação de uma graça alcançada. 

São conhecidos em várias partes do mundo, inclusive Portugal, de onde plausivelmente recebemos o costume de sua confecção. No Brasil, da mesma forma, em diversas regiões podem ser vistos e têm sido relatados. Os centros de romaria são pródigos em ex-votos.

Talvez o mais antigo ex-voto que cita a invocação do Senhor Bom Jesus de Matosinhos em São João del-Rei, seja o que está hoje no Museu Regional do IPHAN, desta cidade. É proveniente da Igreja do Carmo. É anterior à construção da capela de Matosinhos e prova que a devoção já andava por aqui. Seu texto diz:

" Mgre. q. fez o Sr. JESUS de Mathosinhos e a Sra. do Carmo a Anto. escravo de Joze da Costa de Gouvea que estando trabalhando na cata lhe cayio E~u banco de terra eficando em terrado atte os peitos quando o tirarão tinha Eua perna quebrada em varias ptes. e apegandoce com o do. Sr. e sua May Sma. ficou sem lezão alguâ. 177o."

            Em grafia atualizada: 

“Milagre que fez o Senhor Jesus de Matosinhos e a Senhora do Carmo a Antônio, escravo de José da Costa de Gouveia, que estando trabalhando na cata [de ouro] lhe caiu um banco de terra, ficando enterrado até os peitos. Quando o tiraram tinha uma perna quebrada em várias partes e apegando-se com o dito Senhor e sua Mãe Santíssima ficou sem lesão alguma. 1770”.

              A análise dos ex-votos compreende um estudo à parte, não planejado para este trabalho.

            Entre os ex-votos da Igreja de Matosinhos existe um que mostra um carro de bois carregado de lenha passando sobre duas crianças, nas imediações da igreja, na atual Avenida Sete de Setembro. Data de 1909. É um registro de uma importante atividade econômica daquele tempo [1].


Um dos quadros de ex-voto ou tábua votiva, do
Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos. 

            Um deles mostra um caso peculiar para a época: uma mulher negra, moribunda, no leito – uma cama com baldaquim, verdadeiro luxo, quase que exclusivo das mulheres brancas de boa posse.

            Dizem os rumores que o número de ex-votos antigos era bem maior e que na época da demolição da igreja primitiva vários deles teriam desaparecido. Os quadros mais antigos atualmente expostos são réplicas fotocopiadas. Os originais por questão de segurança estão junto ao acervo do Museu de Arte Sacra da cidade.

            Importante ressaltar a inclusão recente de novos ex-votos à Sala dos Milagres, demonstrando que o costume de fazê-los não se perdeu, embora o estilo e a matéria-prima sejam outros.

            Sobre a predominância de tipos, pode-se constatar que em tempos mais remotos os quadros pintados eram as formas preferidas, o que aliás ocorre com outros acervos. Ou pelo menos, eles foram os que resistiram à ação do tempo. A facilidade atual dos meios fotográficos fez com que os ex-votos contendo retratos se tornassem frequentes.

            Os ex-votos de madeira esculpida representando partes humanas não foram encontrados, ao contrário do que se nota em vários santuários, capelas e cruzeiros de beira de estrada. As peças em cera os substituem por completo, sendo obviamente de acesso mais fácil e custo menor, alcançando o mesmo objetivo.

            Importante, por fim registrar, que o Padre José Raimundo da Costa, com grande sensibilidade cultural, reformou a sala que hoje serve para expor essas peças sacras e ela tem estado aberta à visitação [2].

Créditos

- Fotografia e texto: Ulisses Passarelli. 

   Notas  

- Revisão: 19/07/2025.                                                            


[1]  No começo do século XX, na área da Ponte do Porto, fazia-se embarque de lenha. Os paus cortados desciam o rio até a base da ponte, acondicionados em jangadas, donde eram levados para a venda na cidade, através de carros de boi e burros cargueiros, num tempo que não havia fogões à gás. Um anúncio a propósito: “Lenha picada. Entrega-se em carroças a domicilio. Para encommendas nas seguintes casas: Silva & Bastos, João Teixeira e Lopes & Filho” (A Opinião, n. 19, 11/09/1909, S. João del-Rei).
[2] O conjunto de ex-votos do Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos foi formalmente reconhecido como Patrimônio Cultural do município por mecanismo de inventário (IPAC/2022 - Listagem consolidada no Decreto Municipal 11.558, 16/12/2024). 

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Oração a Nossa Senhora da Lapa

Virgem da Lapa [1]

Ó Maria Santíssima, Virgem Pura, descendente da realeza de Davi, Mãe de Nosso Redentor e Messias Jesus; Mãe da Humanidade, que tantos venerandos e piedosos títulos recebeste de teus filhos: sob o título de Nossa Senhora da Lapa te invoco, clamando humildemente que ouças minha prece. Com respeito e veneração, ó Imperatriz do Universo, te louvo e agradeço por tantos auxílios que me tens concedido. A ti rezo, Nossa Senhora da Lapa, pedindo tua proteção contra a miséria material e espiritual, as doenças, os desastres e tudo o que há de maligno. Com as luzes do Espírito Santo, trazei o consolo para minhas aflições. Não me deixes cair em infidelidades ao nosso Criador. Conserva-me fiel à verdade da doutrina de Jesus. Torna-me um verdadeiro e pleno cristão, ciente de meus direitos e deveres. Concede-me também, Virgem da Lapa, a graça especial que te peço (...). Rainha da Lapa, confiante que minha súplica será por ti acolhida com amor maternal, te entrego meus pedidos. Zela por minha família e coloca-me sob tua proteção e sob as bênçãos de Cristo. Amém.

- Revisão: 22/11/2025. 


[1] - Escrita por Ulisses Passarelli, em abril de 2003com aprovação eclesiástica. Parte de um folheto informativo distribuído pela Comissão Organizadora da Festa do Divino no Jubileu do Divino daquele ano, ocasião em que a bicentenária imagem de Nossa Senhora da Lapa, do Santuário Diocesano do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em São João del-Rei/MG, voltou ao seu nicho para a veneração dos fiéis, após longo processo de restauração. A partir de então ela se tornou novamente incorporada às cerimônias religiosas deste grande festejo. O folheto continha também breve histórico da devoção, fotografia da imagem, hino e esta oração.

[2] - Expansão de postagem: no distrito de Antônio Pereira, em Ouro Preto/MG, existe um Monumento Natural Municipal Gruta de Nossa Senhora da Lapa, ponto de romarias instalado no interior de uma caverna. O santuário recebe visitantes e devotos; nele se celebram missas e fiéis depositam ex-votos. Chegou a ter irmandade própria no século XIX. As fotografias seguintes, de Ulisses Passarelli, datadas de 29/06/2025, dão ideia desse santuário. 

Vista externa durante a celebração de uma missa. 

Vista interna do altar do santuário. 

Ex-votos no interior da Gruta. 

Imagem de Nossa Senhora da Lapa, em Antônio Pereira. 

Oração de Nossa Senhora da Lapa, exposta no 
santuário desta invocação, Antônio Pereira.