Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Festa do Rosário em Resende Costa, 2016

O imenso Ciclo do Rosário aproxima-se do fim de mais um conjunto anual de festividades na região mineira das Vertentes. Neste último fim de semana foi a vez de Resende Costa, primitivo Arraial das Lages, Terra de Inconfidentes, cidade de aprimorado artesanato, sobretudo baseado no algodão, com produção de colchas, tapetes, etc., nas rocas e teares. 

A data é muito tradicional naquele município, desde longa data fixada no primeiro domingo de novembro. Atrai muitos congados da região e de áreas mais distantes. Tem intenso movimento popular de largo, com a Praça do Rosário apinhada de gente e lotada (rua abaixo) de barraqueiros estabelecidos no evento. É uma das festas do Rosário mais fortes da região. 

Não é para menos. Resende Costa, cidade alta da Serra das Vertentes, tem longa e enraizada tradição congadeira. Já teve muitas guardas, sobretudo de catupés e via de regra participa bastante das festividades congêneres em várias comunidades. Em 2016 lá estiveram ternos ou guardas de Coronel Xavier Chaves, de Congonhas, Conselheiro Lafaiete, Carandaí, São João del-Rei/Santa Cruz de Minas, Ritápolis (cidade e distrito da Restinga), Passa Tempo e Cerrado (Desterro de Entre Rios). 

O dia maior foi antecedido por missas diárias na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, seguida de preces do tríduo preparatório, findando com sonorização e show. No sábado, após as celebrações, teve lugar o levantamento dos mastros, no adro. No domingo se destacaram a Missa Sertaneja pela manhã e a Missa Conga à tarde. Nesta, tocou o Moçambique "Nossa Senhora Aparecida", de Passa Tempo, sob o comando do grande mestre, Capitão Luís Maurício. Os congados ao longo do dia tocaram pelo largo e ruas, receberam como de costume, alimentação farta e saborosa, apresentaram-se diante do palco, onde foram agraciados com medalha de honra ao mérito. Houve muita confraternização e espírito de concórdia. A todo tempo notou-se a participação dedicada da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário resende-costense. Após a missa da tarde uma procissão seguiu até a dianteira da Matriz (Nossa Senhora da Penha de França) e retornou ao Rosário, bastante concorrida, com a participação dos congados. Finda a procissão os grupos se despediram, retornando para suas cidades. 

As imagens abaixo foram captadas durante a festa deste ano. Mostram uma ínfima parcela do esplendor desta festividade, da qual é mister tecer elogios e incentivos de continuidade, ao clero que muito apoiou com grande respeito e dedicação, à irmandade, a toda comunidade e aos congadeiros de Resende Costa, que foram os anfitriões das guardas visitantes. 

A Igreja do Rosário testemunha o espírito de irmandade entre congadeiros.

Confraternização de congadeiros de diferentes guardas. 

O terno do Cerrado em marcha pelas ruas de Resende Costa. 

Marujos de Congonhas. 

Rei e Rainha observam a movimentação dos Marujos
"Sereia do Mar", de Congonhas. 

Detalhe do bordado em paetês do quépi de marujos
de Conselheiro Lafaiete: bandeira nacional.

Detalhe de um bastão, do moçambique de Passa Tempo. 

Jovens congadeiros de Resende Costa,
sob a bandeira de São Cosme e São Damião. 

Congado da Restinga de Baixo. 

Moçambiqueiro saúda a bandeira do congado de Ritápolis. 

Capitães do Moçambique Santa Efigênia durante apresentação. 
No comando do congado, o Capitão de Coronel Xavier Chaves
maneja o tamborim.   

Detalhe do capacho na entrada da igreja. 
 
Imagem de Nossa Senhora do Rosário em seu andor,
no adro da igreja durante a Missa Conga. 

Irmandade de Nossa Senhora do Rosário abrindo a procissão. 

Comissão do Divino com o Imperador:
presença de São João del-Rei. 

Um dos mastros da festa, dedicado
a São Cosme e São Damião. 

Cartaz da Festa do Rosário.
Resende Costa, 2016. 

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotografias: Iago C.S. Passarelli, 07/11/2016

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Festa do Rosário em Prados, 2016

Desta vez foi Prados a comemorar Nossa Senhora do Rosário com as danças congadeiras. Tem festa em honra a esta invocação mariana em muitos lugares entre setembro e novembro, embora outubro seja especialmente nominado "Mês do Rosário" e o dia específico da santa seja 07 de outubro. Esta extensão temporal dos festejos vem a calhar para as guardas de congado pois torna possível que viajem para muitas localidades nesse período para participar de várias festas. Dentro dessa perspectiva, no último domingo, dia 16, o congado de Prados recepcionou os visitantes de Resende Costa, Coronel Xavier Chaves, Conceição da Barra de Minas e São João del-Rei, que se irmanaram no mesmo objetivo laudatório.

Desde já se diga de passagem que o cenário encanta aos olhos e estimula a contemplação: um belo casario histórico evocador da arquitetura do ciclo do ouro, muito bem cuidado, ruas limpas, o povo prestigiando nas esquinas, calçadas, alpendres, varandas, sacadas, no adro da igreja... a festa envolve o pradense e o visitante.

Prados surgiu das bateias, almocafres, carumbés, das grupiaras e cascalheiras, do trabalho aurífero, por volta de 1704. Tricentenária, pois, se sintoniza com Tiradentes e com São João del-Rei para compor um conjunto de cidades históricas das Vertentes, as três coetâneas, com pouca diferença de data, alvo de discussões infindáveis entre os especialistas.

Do êxito dessa festa também se deve boa percentagem à dedicação dos congadeiros daquele município, que mobilizando a comunidade tem se esforçado intensamente para manter a tradição, desde que foi retomada no começo da década passada, posto que havia paralisado.

E, outro tanto, se deve ao pároco, Padre Dirceu de Oliveira Medeiros, entusiasta consciente do valor da cultura popular, cujo apoio e respeito que nutre aos grupos culturais bem serviria de modelo a ser seguido por todo o clero.

Curiosamente nessa cidade a festa se desenvolve no seu dia maior na parte da manhã; um tanto original, posto que noutros lugares é à tarde. O modelo agrada posto que logo após o almoço libera os congadeiros para retorno às suas casas, sendo bem menos cansativo, poupa-os do imenso calor da tarde que se verifica nessa quadra do ano e ainda do risco de chuvas pesadas pegarem a procissão de surpresa no meio da rua.

Assim sendo, logo após a missa matutina, de caráter festivo, muito concorrida, na imponente Matriz de Imaculada Conceição, cada congado agrupado no extenso adro, adentra cantando e dançando na nave da igreja, sem pressa, desenvolvendo sua louvação e lá dentro, recebe do sacerdote a bênção e é aspergido por água benta, sob aplausos dos fiéis. Saem pela porta lateral e de volta ao adro se organizam em cortejo. Neste ano observou-se todos os catupés na dianteira e o moçambique atrás, na retaguarda, como de costume, fechando. Cruciferário na frente, ao meio, porta-lanternas abrindo cada ala da procissão, que segue para a bucólica Igreja do Rosário, levando os andores de São Benedito e de Nossa Senhora do Rosário, sob os cantares e tambores.

Serpenteando pelas antigas ruas, dos imponentes casarões os moradores apreciam, aplaudem, fotografam. Por toda parte se nota a alegria e a fé das pessoas, rezando com seus terços na mão, passando contas e mais contas, balbuciando ave-marias na intensão de...

A chegada ao adro do rosário é especialmente festiva e o sino anuncia efusivamente a entrada do cortejo. Dois mastros estão ali fincados, estampado no alto São Benedito e a Senhora do Rosário. Deles parte ornamentação até a igreja. Os congados lotam o adro e o povo junto a ouvi-los. Cada terno faz sua saudação e adentra o templo com toda fé e respeito, expressa na plenitude de sua musicalidade. As imagens também dão entrada e a palavra sacerdotal enaltece a santidade e parabeniza os esforços conjuntos em prol da comemoração. O incentivo é algo essencial. 

Findas as passagens de cada um na igreja, seguem para o almoço coletivo no pátio da escola próxima, preparado com o carinho de costume por uma equipe de cozinheiras, que por fim recebem a gratidão dos versos e beijam as bandeiras de cada guarda. 

Os congadeiros se confraternizam e despedem, "até para o ano, se Deus quiser!"

Prados é uma cidade que se tornou afamada por seu patrimônio cultural. Também pelo artesanato, de que é um centro muito significativo. As peças em madeira, os típicos bichos entalhados, são muito primorosos. O trabalho em couro vem de longa data - selaria, produção de calçados. O carnaval se agiganta em animação pelos desfiles e pelo tão arraigado boi-mofado. As festas religiosas transcorrem com brilhantismo. A música é uma marca da cidade, sobretudo por sua afamada corporação musical. Pelo Natal até o Dia de Reis, é a vez das folias, seja a local, seja a distrital das Folhas Largas, tão antiga. A Ponta do Morro, onde termina a Serra de São José está logo ali, com uma riqueza natural notável. História, cultura, hospitalidade. Muito se poderia apontar de Prados, cidade que merece ser conhecida e preservada em todos os sentidos de seu rico manancial. 

Igreja de Nossa Senhora do Rosário enfeitada e com mastros,
 no dia maior de sua festividade. Prados. 

Capitão de moçambique saúda capitão de catupé: respeito e consideração
são premissas na Festa do Rosário. 

Congado de Resende Costa. 

Congadeiros de Prados no adro da Matriz da Conceição. 

Capitão do congado de Coronel Xavier Chaves.

Congadeiros diante do andor de São Benedito. 

Congadeiro se persigna diante da imagem de São Benedito.
Sanfoneiro e capitão da guarda de Conceição da Barra de Minas. 

Rei e Rainha no adro do Rosário. Prados. 
Detalhe do mastro de São Benedito. 

O sino anuncia, congrega, festeja... Torre da Matriz de Prados. 

Pessoas observam da balaustrada do adro do Rosário
a chegada da procissão.

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotografias: Iago C.S. Passarelli, 16/10/2016

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Congado de Resende Costa


Apresentação do congado "Santa Efigênia" (catupé), 
de Resende Costa, durante a Festa do Rosário de Ibituruna, em 30/06/2013. 

"Bateu na porta, mamãe,
vai ver quem é.
É um negro velho, mamãe,
do rosário é"


Notas e Créditos

* Vídeo, texto e acervo: Ulisses Passarelli

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Folia de Pastorinhos num encontro reiseiro


Fragmento de uma apresentação da Folia de Pastorinhos,
 de Ribeirão de Santo Antônio (Resende Costa/MG), num ginásio,
durante encontro de folias naquela cidade, a 30/01/2010. 


Notas e Créditos

* Texto e acervo: Ulisses Passarelli
** Vídeo: Cida  Salles

sábado, 13 de setembro de 2014

Santa Efigênia, santa milagrosa

O que sabemos de Santa Efigênia procede da "Legenda Áurea", trabalho hagiográfico da Idade Média, devido ao Arcebispo de Gênova, o dominicano Giacomo de Varazze. 

Esta santa foi uma princesa africana do primeiro século do cristianismo, da Núbia (atual Etiópia), ao nordeste daquele continente. Era filha do Rei Eggipus e da Rainha Eufenisa. Seu país era considerado politeísta e pagão aos olhos do cristianismo. Foi então, que poucos anos após a crucificação de Jesus, o Apóstolo São Mateus, acompanhado de dois discípulos, fez pregações em Noba, capital daquele reino. Não teve grande êxito, mas a Princesa Efigênia converteu-se fortemente ao cristianismo. Por esta razão foi condenada à morte na fogueira, mas salvou-se milagrosamente deste terrível sacrifício, fato que fez com que outras pessoas se convertessem. Fundou um mosteiro para virgens. Mais tarde, com a morte de seu pai, o trono foi assumido pelo tio Hirtacus, que o usurpou do irmão de Efigênia, Efrônio, herdeiro legítimo. Pondo-se a desejá-la e persegui-la, o tio ateou fogo ao convento, mas novamente, por forças milagrosas o fogo não a vitimou: apagando-se no convento, reacendeu misteriosamente no castelo de Hirtacus, colocando-o em fuga e pondo fim ao seu governo. Efigênia viveu e faleceu em absoluto estado de graça, sendo festejada a 21 de setembro.

Seu nome teria origem grega, significando "nascida forte". Em  latim, "Ephigenia", e em português também grafada como Ifigênia e, popularmente, “Santa Figêna”. 

Uma antiga tradição a considera santa carmelita, sem contudo haver um embasamento convincente. Em razão disto é comum sua imagem mostrá-la com vestes na cor daquela ordem religiosa. Segura nas mãos uma casinha saindo fogo pelas janelas e porta, ou na dianteira, representação simbólica de sua história acima narrada. 

GAIO SOBRINHO (1997) registrou uma narrativa de lamentável cunho racista, contra a qual se manifestou contrariamente, tal qual este Blog também se posta contra toda forma de racismo. Segundo o dito autor, "conta-se, sem fundamento, que Ifigênia era branca e muito formosa. Por despertar a cobiça de muitos pretendentes, rogou a Deus que lhe mudasse a fisionomia. Tornou-se, então, negra e de olhos esbugalhados, como a vemos na imagem." Sobre tal discriminação o notável autor escreveu e com ele comungamos: "Fora o conteúdo racista que transparece neste particular, com certeza inverídico, e que denuncio, cabe-me acrescentar que feiura não é sinônimo de negritude, muito pelo contrário". 

Existe representação hagiográfica desta santa como uma mulher branca, exemplificada por uma fotografia anexa nesta postagem. 

Sendo preta, foi desde longa data tomada como padroeira dos escravizados e por conseguinte de suas expressões culturais. O viajante austríaco Johann Baptiste Emmanuel Pohl assistiu ao congo de Traíras (atual Niquelândia, em Goiás) num festejo em honra a esta santa, no ano de 1819. 

Em Barbacena/MG tem igreja própria e nomina um bairro, local de festa congadeira. É cantada e recantada pela guarda de marujos local. Nestas festas encontram-se mastros dedicados a ela, como todo ano se via no Bairro São Geraldo, em São João del-Rei. Igualmente, em Passa Tempo, oeste do Estado. Os congados a louvam: 

“Viva meu São Benedito! 
Viva Santa Santa Efigênia! 
Viva a Senhora do Rosário 
e Maria Madalena!” 
(Marinheiros, Passos, 1997)

“Esse toco é meu, 
querem me tomar ...
minha Santa Efigênia 
vai me ajudar!” 
(Catupé, São João del-Rei, Bairro São Dimas, Capitão Zé Camilo, 1994). 

Na área do Quadrilátero Ferrífero os congados do tipo 'marujo' sempre a veneram com carinho e respeito. É santa bastante popular: 


"Santa Efigênia,   BIS
ôh, santa milagrosa!
Eu vi o que ela fez...   BIS
Nós viemos louvar!"
(Marujos, Conselheiro Lafaiete, 1995)

Fora deste âmbito, Santa Efigênia é protetora dos sem teto, dos que vivem de aluguel e apegando-se a ela consegue-se adquirir casa própria, narra a crença. Em São João del-Rei é comum as pessoas fazerem uma novena a ela para adquirirem uma habitação própria. É uma aproximação à figuração de sua imagem, com uma casinha ou capela, que carrega numa das mãos.


Imagem de Santa Efigênia, fev.1997.
Igreja de Nossa Senhora do Carmo. São João del-Rei/MG. Acervo da
Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte Carmelo. 


Santa Efigênia em representação iconográfica de mulher branca,
em hábito carmelita. Capela de Nossa Senhora das Vitórias, 2013.
São Sebastião das Vitória (São João del-Rei/MG). 

Bandeira de congado de Resende Costa
representando Santa Efigênia em arte popular. 2012. 

Referências na Web 

Santa Efigênia - Cruz Terra Santa (acesso 13/09/2014, 14:50h)
Ifigênia da Etiópia - Wikipédia (acesso 13/09/2014, 14:50h)
Jacopo de Varazze - Wikipédia (acesso 13/09/2014, 14:50h)

Referências Bibliográficas

- GAIO SOBRINHO, Antônio. Santos negros estrangeiros. São João del-Rei: [s.n.], 1997.
- POHL, Johann Baptiste Emmanuel. Viagem ao interior do Brasil empreendida nos anos de 1817-1821. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1976. 

Créditos

- Texto e fotos: Ulisses Passarelli.

Notas 

- Revisão: 03/12/2024. 

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Uma lenda religiosa: a lagoa amaldiçoada

Baile na Semana Santa

Todo mundo sabe que é falta de respeito muito grande fazer festa na quaresma, quem dirá na Semana Santa, que exige total recolhimento. Há de se fazer abstinência de sexo, jejum de carne, bebida alcoólica e cantoria. Dança... nem pensar! Não se deve xingar, falar palavrões. Ai de quem bater um prego num pau qualquer no dia da Paixão! No Caburu (atual São Gonçalo do Amarante, distrito de São João del-Rei) ouvia dizer que se a criança fizesse arte nesse dia não podia ser repreendida. Só no dia seguinte, ao romper d’Aleluia. Não se varre uma casa nesse período. Não. Não se varre.

Canto, só o da piedade religiosa: benditos, motetos, encomendações de almas, matinas, laudes, vias-sacras...

Pois é. Foi então que a muitos anos, lá naquela roça brava, meio de mundo perdido nos ermos do sertão, um fazendeiro descrente de tudo, isento de fé e respeito, zombeteiro feito ele só, desacreditava todos os tabus quaresmais. Ria dos fiéis. "Isso tudo é bobagem, gente!", dizia.

E pra provar que tanto cuidado não importava em nada, idealizou um bailão na sua fazenda em plena Semana Santa.

Pagou uns músicos que fizeram dificuldade pela data mas acabaram por se render ao dinheiro e saiu por aí afora convidando compadres, vizinhos, parentes e amigos. Uns se persignaram ante o convite – “cruiz-credo! Ond’é que já se viu... É o fim do mundo, sô!”. Outros, sendo da sua laia acharam boa a idéia. Outros mais se fazendo de beatos negaram a princípio mas na hora que o fole gemeu, estavam lá dançando ao ritmo da sanfona.

O baile fervia. O salão estava cheio.  Uns bebiam, outros namoravam. Riso, dança e farra é só o que se via. Alegria sem fim. Nada que fizesse cismar. Nenhum sinal d’outro mundo. Nem o pio lúgubre d'um corujão. Seria mentira enfim tudo que se dizia sobre os assombros daquele tempo?

Meia noite. Hora mágica. Os ponteiros alinharam no doze. O pêndulo do velho carrilhão do canto da sala, herança avoenga, prateava no brilho da luz tênue dos candeeiros.  Pelo compasso da décima segunda badalada a terra tremeu, estremeceu, retumbou: acordou, abriu-se, engoliu toda a fazenda. Um terremoto rachou o chão e nada nem nenhum daqueles pecadores se salvou. Afundou tudo sem deixar rastro e na imensa cratera brotou água, formou grande lagoa, sem fundo, que marca o lugar do aviso celeste. Com Deus não se brinca. 


Reza de saída de uma via-sacra,
São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei/MG), 2009.



Notas e Créditos

* Informante: Aluísio dos Santos, Centro, São João del-Rei/MG, 1992.
** Texto e fotografia: Ulisses Passarelli
*** Obs.: anos mais tarde ouvi a mesma narrativa de outro informante que me dizia que o fato teria acontecido em Resende Costa e a que a tal fazenda pertencia a uma viúva que gostava de promover bailes. Qualquer um que caia ou entre nessa lagoa submerge e desaparece, pois a maldição persiste. Ainda outra versão coligida no distrito são-joanense de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno detalha que a viúva e a filha se salvaram porque tinham um bentinho no pescoço. A tragédia das águas foi antecedida pela aparição do próprio demônio, travestido sob a clássica forma de um belo rapaz dançarino, irresistível às moças... Nesta versão, não se menciona que a lagoa ainda traga os incautos, mas é possível ouvir os gritos das almas próximo ao centro das águas. 

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Folclore das Cobras - parte 1

Algumas crendices sobre as serpentes

            “A serpente era o mais astuto de todos os animais dos campos que o Senhor Deus tinha formado.”





Carranca fotografada em
São João del-Rei, 1998.

Uma cobra sai de sua boca.
Procedência ignorada.
 



                   Assim principia na Bíblia Sagrada, o terceiro capítulo do livro Gênesis. A narrativa de como a serpente, símbolo do mal, figuração satânica no ato da criação humana, impregnou profundamente a mitologia, sobretudo a ocidental. O animal tentador, que corrompeu os planos que Deus tinha traçado para a humanidade, induzindo a desobediência de Adão e Eva, foi amaldiçoado pelo próprio Criador: “serás maldita entre todos os animais e feras dos campos” (Ex.3, 14).
            Todo um complexo sistema de crenças recai de forma cosmopolita sobre as serpentes. Por toda parte onde ela vive gera no homem uma mescla de sentimentos atávicos, que confluem para compor a temática de uma série de estórias, crenças, tabus, mitos e lendas. A riqueza cultural é gigantesca. Nos verbetes “Cobra” e “Serpente”, Luís da Câmara Cascudo no Dicionário do Folclore Brasileiro, resumiu de forma magistral o poderio imaginário que estes répteis despertaram nos meios populares, notadamente nas áreas de influência indígena.
            Mas longe está a pretensão deste pequeno texto de perpassar por estas tradições em análise, revisão ou coletânea. As palavras acima são meros pretextos para expor algumas informações a seguir, que foram coletadas ao longo da caminhada de pesquisas em São João del-Rei e arredores _ Campo das Vertentes _ desde a década de 1970, salvo indicação contrária, e que, ora esta postagem passa em breve revista.

*  *  *

- Cobra que mama: impossível é à serpente fazer a sucção necessária ao ato de mamar, dada a conformação de seus músculos e articulações da mandíbula. Contudo, uma velha crença portuguesa esparramou-se pelo Brasil e chegou a esta região, contrariando os ensinamentos anatômicos. Dizem que foi para os lados de Resende Costa, que numa antiga fazenda de chão assoalhado, com porão por baixo, onde tuias de mantimento atraíam ratos, e no seu rastro, uma imensa cobra veio morar. Tarde da noite, a senhora, cansada da labuta diária, sentava-se numa velha cadeira onde aleitava sua criança. O pai, sempre dormia mais cedo e a mãe, esgotada, cochilava no assento. A serpente, conhecedora do horário e astuta como sempre, saía do porão e passando por um buraco entre as tábuas do assoalho, vinha sorrateiramente à mãe, que não se dava conta do réptil, devido ao sono profundo que estava. A cobra, subindo mansamente ao colo maternal, metia a ponta do rabo na boca do bebê, qual fosse uma chupeta e livrando assim a mama punha a sugar o leite. Quando fartava-se, voltava ao seu esconderijo, sorrateira como de costume. A criança pouco a pouco emagrecia, sem se saber a razão. Um dia, por sortes do destino, o pai acordou e estranhando pelo avançado da hora, não ter até então a esposa chegado ao quarto, foi à sala, onde viu estupefato a cena da cobra mamando. Tomou de um porrete e batendo de propósito o pé no chão fez a cobra largar o seio pelo barulho e sair às pressas, mas antes que entrasse no buraco da passagem para o porão foi morta a cacetadas. Em São João del-Rei tivemos notícia de estórias de cobra que adentra o curral e mama em vaca. 

- Comer cobra: acredita o povo que a serpente pode servir como alimento humano, desde que ao matá-la se deixe sangrar totalmente, pendurada, e se corte a partir da cabeça e da ponta da cauda, um palmo de comprimento de cada lado, eliminando as possibilidades de envenenamento.

- Espinho de cobra: o pior veneno da serpente não está na presa mas nas pontas das costelas (espinhos). Se alguém se ferir neles quando de uma carcaça em decomposição, terá uma ferida incurável no local. Se fincar no corpo humano, não pode ser retido facilmente, pois, como se fosse vivo, caminha por dentro dos músculos, gerando dor e mal estar, até chegar ao coração, ponto final da maldita jornada, causando a morte irremediável. Por isto o homem do campo ao matar uma cobra a enterra, para que seus ossos não fiquem expostos. As estórias de feridas incuráveis possivelmente se originem da contaminação bacteriana da punção pelos ossos da cobra. 

- Chocalho de cascavel: a medonha serpente viperídea Crotalus durissus pode ter sua idade contada pelo número de anéis de seu guizo: um para cada ano de vida. A ciência desmente, afirmando que cada anel corresponde a uma troca de pele, que pode acontecer mais de uma vez por ano. O povo não aceita, lógico. O chocalho é um aviso de periculosidade que Deus conferiu ao cascavel, para que alerte pelo som idiofônico aos humanos sobre a iminência do perigo. Esta crendice é contextualizada na disputa em forma de fábula entre a letalidade do cascavel com a urutu (Bothrops alternatus): dizem que as duas nutrem entre si uma inveja _ no tempo que os bichos falavam elas se encontraram no mato _ urutu logo disse que era pior. Tinha até um sinal de cruz na testa (daí ser chamada urutu-cruzeiro, devido ao desenho cruciforme que traz no couro) para atestar a morte que provoca, a que, replicou a cascavel, que que tinha peçonha pior: batia o guizo antes da picada para que a vítima alertada, se movesse do lugar e assim não caísse sobre a própria cascavel.

- Disputa das cobras: a crendice popular da primazia de poder das serpentes reflete-se em versos do nosso folclore. “Dona Josefina”, em 1996, cantava em Barbacena a seguinte quadra de calango:

Toda cobra carijó
Vive sempre de porfia:
Cascavel anda de rastro,
Caninana de rodia.

A caninana (Spilotes pullatus), serpente colubrídea de grande porte, é temida por sua agressividade, formando rodilhas e correndo atrás da vítima, embora a ciência não lhe atribua o caráter de peçonhenta.

- Lidar com cobras: valentia e poder sobrenatural teriam aqueles capazes de lidar com serpentes sem serem molestados. Propalar isto em versos é índice de firmeza espiritual. Tal acepção impregnou a cultura popular. Uma sextilha cantada no jongo de roça (canto de trabalho por ocasião dos mutirões de capina agrícola), informado pelo Sr. Luís Santana em 1995, no Bairro São Dimas, em São João del-Rei:

Cascavel não me pica,
Tenho boa oração.
Jararaca perigosa,
Esse é meu lenço de mão.
Urutu por ser valente
É bainha do meu facão.

Um fragmento de calango do mesmo bairro, informado um ano antes, pelo saudoso José Camilo da Silva, dizia:
Fiz uma cama da onça,
Travesseiro do leão;
Cascavel do olho cinzento
Enrolado em minha mão ...

- Parentesco com as cobras: sem adentrar na questão hipotética do totemismo, quiçá rastreável neste tema, em heranças africanas, mas tão somente citar com brevidade, que algumas criações poéticas do povo colocam o cantador como se fosse uma serpente ou como seu parente, mais um alerta de não ser ofendido pois tem seu próprio “veneno”. Assim cantou em um calango em 1999, o mestre “Faixa Preta” (José Francisco Sales), natural do distrito de São Gonçalo do Amarante:

Eu sou filho da cobra-gira,
Neto da cobra-corá [coral]
Quero que você me diga
Quem ensinou Deus a rezar...

Na Festa do Divino de 2004, no Bairro Matosinhos, aconteceu uma demanda curiosa: um catupé de São João del-Rei cruzou na frente do moçambique da cidade de Passa Tempo, em tom desafiador:

Cobrinha miúda, eu pego com a mão!
Cobrinha miúda, eu pego com a mão ...

Na voz do Capitão Luís Maurício a resposta veio certeira e imediata:

Eu sou cascavel dos brejos,
Da beirada do olho cinzento.
Quando eu dou minha picada
Não adianta gritar: São Bento!

- Na medicina popular: a banha (gordura) da sucuri (Eunectes murinus, boidae), conservada em um vidro, serve de remédio ao reumatismo, bastando-se dissolver uma porção no café quente para beber. Uma quadrinha cantada no catupé do Bairro São Dimas, em São João del-Rei, do Capitão Luís Santana (1995) cita a imensa serpente, com o sentido provocativo da perda de um congadeiro do terno por força de demanda:

"Mestre carreiro,
me conta como é que foi:
na várzea leve, 
sucuri laçou seu boi..."

- A origem do veneno: a peçonha das serpentes é benéfica no sentido que Deus as criou para que tirem o “mal ar”, convertendo-o em veneno, ou seja, as toxinas, fluidos, elementos que causam doenças e acometimentos espirituais pelo ar contaminado. Estas substâncias as serpentes absorveriam pela pele e depois seriam transformadas (quimicamente) em peçonha. Assim purificam o ar.

- O veneno da cobrinha: duas crenças curiosas são correntes _ a jovem serpente logo ao nascer do ovo (ovípara) não possui veneno algum. A mãe cobra então a engole, sem mastigar. Ilesa, a cobrinha vai passando viva por seu sistema digestivo, até então ser parida direto, isto é, sem intermédio de ovo (vivípara). Nessa passagem por dentro da mãe é que adquiri desta o veneno. A outra crendice diz que o réptil jovem oferece mais perigo à vida que o adulto pois seu veneno é concentrado e mais forte, pois nunca foi diluído em outras picadas.

- O ardido da picada das vespas: a ferroada das vespas dói tanto porque nos transmite uma pequena parcela do veneno das cobras, não suficiente para matar. Assim informou “Tião Abelha” em Santa Cruz de Minas, em fevereiro de 1998. Isto porque, quando uma serpente morre, as vespas pousam sobre ela e chupam (absorvem...) seu veneno, bebendo seu sangue talhado (coagulado). Nesta terrível reciclagem duas espécies se sobrepujam: o marimbondo-pólvinha (de pólvora, alusão ao queimor da ferroada) e a abelha caga-fogo.

- A raiz da guaipeva: atestou um trabalhador rural originário de Santa Rita do Ibitipoca, em 1996, o saudoso Sr. Júlio Prudente de Oliveira, grande conhecedor da cultura popular, que, certos feiticeiros, “cumba do papo amarelo”, isto é, grande conhecedores das artes mágicas, dos mistérios do além, tem o conhecimento de uma certa oração forte, inconfessável, capaz de, pronunciada adequadamente à Sexta-feira da Paixão, meia-noite (zero hora), fazer uma transformação extraordinária: tendo o feiticeiro cavado fundo ao pé da árvore chamada guaipeva e segurando uma de suas raízes pretas, a força das palavras mágicas da reza brava teriam a capacidade de convertê-la em serpente, uma perigosa jaracuçu (Bothrops jararacussu, viperidae). Ela se enrola no braço do sujeito e lhe confere fortaleza espiritual invencível. Em segundos a cobra misteriosa se enrijece, voltando a ser pau, mera raiz. Cortada em pedacinhos trazidos escondidos na algibeira, no bolso, livra o sujeito de qualquer demanda espiritual de inimigos, tornando-o invencível.

- Outra transmutação: cabelos humanos jogados em águas paradas, ferruginosas, podem se converter em serpentes, conforme narrou a Sra. Elvira Andrade de Salles, em Santa Cruz de Minas. Esta crença parece remeter ao verme conhecido por "crina de cavalo" (ordem Gordioidea), que tem movimentos serpentiformes e aspecto de um fio de cabelo. 

- Como afastar as cobras: existem várias receitas. Uma delas, um benzedor de São João del-Rei ensinou há três décadas: rezar para João Congo, um preto velho cujo espírito afastaria as serpentes. Outro benzedor são-joanense, do Bairro Senhor dos Montes, relatou, ainda este ano, que se deve fazer uma cruz com dois paus parcialmente queimados, restos de fogueira (tição), ficando o vertical com a ponta tostada para o lado do mato, onde manterá as cobras. Outra fórmula ensina queimar pneus ou outra borracha no arredor da casa. O cheiro da fumaça espanta as cobras. Andar com dente de alho no bolso também serve para o mesmo propósito. E ainda, dizia Aluísio dos Santos, os caçadores outrora amarravam um patuá no pescoço dos cães de caça com um cordão. O patuá era um saquinho feito com couro de lobo, costurado nas margens de modo a não perder o conteúdo, que era uma substância chamada “sublimato corrosivo” (cloreto de mercúrio, veneno potente), cujo vapor, exalado por sublimação, espantaria qualquer serpente da frente do cachorro e de seu dono [1]. É o princípio do contra-veneno, ou que, “um veneno combate o outro veneno”. Nesta acepção, a citada Dona Elvira dizia em fevereiro de 1998 que onde não há recurso, o que se pode fazer para salvar um ofendido por serpente é matar a cobrar, cortar um pedaço do meio de seu corpo (torete) e aplicar sobre o local da picada. Isto absorveria o veneno, salvando a pessoa.

- Briga da cobra com o lagarto: o teiú ou tejo (Tupinambis teguixin), grande lagarto teídeo, por ser muito territorialista, quando vê seu espaço invadido por uma serpente, trava corajosamente com ela uma luta, dando-lhe fortes chicotadas com a cauda. Se um bote da cobra lhe atinge, corre desenfreado pela mata. Mas não está fugindo. É uma retirada estratégica. Procura por uma árvore chamada cafezinho-do-campo, árvore-de-lagarto ou guaçatonga (Casearia sylvestris / Salicaceae), cuja raiz escava e morde tirando lascas. Mastiga e engole seu sumo. A raiz o cura do veneno da cobra e imuniza-o. Então, corre célere de volta ao campo de batalha, onde, às rabanadas, termina por vencer a cobra, matando-a.

- Atropelar cobra: ao ver uma serpente atravessando uma estrada deve-se evitar ao máximo atropelá-la, pois do contrário, o veículo dali por diante, como se acometido por uma maldição, passa a ter diversos problemas mecânicos inexplicáveis, ou como diz o povo, "se a roda passar na cobra, o carro vai quebrando em seguida..."

- Veneno na folha: outra crendice são-joanense (Bairro Senhor dos Montes) diz que a serpente antes de adentrar na água, morde uma folha verde de algum ramo da margem. Sobre esta folha deixa depositado seu veneno. Ao sair do córrego, lagoa ou rio, volta ao ramo verde e bebe o próprio veneno, sorvendo-o de volta ao seu corpo. Informante: Luiz Antônio Sacramento Miranda. 


*  *  *

Estas são algumas crendices pertinentes ao vasto folclore das cobras. Porém outras mais permeiam a cultura do povo. A devoção a São Bento, protetor contra picadas é um exemplo. Mas isto é assunto para outra página...

Créditos

- Fotografia e texto: Ulisses Passarelli 

Notas 

- O antigo jornal de São João del-Rei, O Repórter, em sua edição nº28, de 19/08/1906, publicava anúncio do produto SURUCUINA, encontrado em São João del-Rei num estabelecimento comercial que era "depositario, nesta cidade, do afamado, conhecido e maravilhoso remedio", pelo preço de 7$500 o vidro, "poderoso preparado e efficaz contra mordedura de cobras venenosas". (Acervo da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida).
- Revisado em 30/05/2025.


[1] - No mesmo sentido do contra-veneno ouvia-se as crianças dizerem que se uma lagarta-de-fogo (taturana ou tatarana) sapecasse a pele no mato, o remédio seria matá-la a aplicar sobre a queimadura suas vísceras ("tripa") que tirariam todo o veneno, bastando lavar depois.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Congado do Ribeirão, Resende Costa

Nesta postagem foram selecionadas algumas fotografias que retratam o terno de congado "Nossa Senhora do Rosário", sob o comando do Capitão Geraldo Venâncio. Trata-se de um catupé da localidade de Ribeirão de Santo Antônio, distrito de Resende Costa/MG. 

Esse município tem uma tradição congadeira muito forte. Desde longa data várias guardas existiram e se desativaram mas deram formação de saberes que possibilitaram a criação de novos ternos, que até hoje festejam o Rosário, seja visitando municípios vizinhos ou até distantes, ou na própria sede municipal, sempre no primeiro domingo de novembro, constituindo-se na mais concorrida Festa do Rosário da região das Vertentes. 

Certa feita (24/09/1998), o afamado Capitão "Vino" (Valdivino Martiniano Nascimento) cedeu-nos de memória a lista dos congados que Resende Costa já tivera, desde onde sua memória alcançava, do fim dos anos trinta e década de 1940 para cá, principalmente catupés: na cidade, ternos do Izidoro (no Bairro Santo Antônio), do Zé Tomaz (na Rua Nova), do Geraldo Chica, do Antônio Jacaré (Ferreira), do Mário da Vininha, do Dico da Lena, do Zé Macedo, do Euclides Maromba e o dele próprio, Vino, fundado em 1958. Tanto mais, citou outros catupés rurais, no Ribeirão dos Pintos (do João Domingos *) e no Cajuru (do Anésio Alves Ferreira/Milton). Além disto houve na cidade um congo, do João Jacaré, e um cacunda (modalidade de catupé), do Geraldo Macio. Vino relatou ainda que o terno do Ribeirão de Santo Antônio era ao seu tempo comandado pelo Capitão Argilino e só bem mais tarde, depois um interregno passou ao Capitão Geraldo Venâncio. 

Nas fotografias abaixo flagrantes do terno de Ribeirão de Santo Antônio durante a Festa do Rosário na Restinga de Baixo (Ritápolis/MG) e no Bairro São Geraldo, em São João del-Rei.

Congado de Ribeirão de Santo Antônio. 
Festa do Rosário, Restinga de Baixo (Ritápolis/MG).  27/09/1998. 

Congado de Ribeirão de Santo Antônio. Ao meio e adiante, o Capitão Geraldo Venâncio.
Festa do Rosário, Restinga de Baixo (Ritápolis/MG).  27/09/1998.
Rainha do congado do Ribeirão (**)
Festa do Rosário, Restinga de Baixo (Ritápolis/MG).  27/09/1998. 
Reinado de Resende Costa e logo atrás, o congado de Ribeirão de Santo Antônio. 
Festa do Rosário, Bairro São Geraldo, São João del-Rei/MG. 1995. 

Rainha Conga, Rei Congo e Rainha Perpétua, de Resende Costa e logo atrás,
o congado de Ribeirão de Santo Antônio. 

Festa do Rosário, Bairro São Geraldo, São João del-Rei/MG. 1995. 

Congado de Ribeirão de Santo Antônio.
Festa do Rosário, Bairro São Geraldo, São João del-Rei/MG. 18/08/1996. 

Notas e Créditos

* Além de João Domingos, para o congado de Ribeirão dos Pintos a memória popular conservou o nome de José Isidoro, mas consta informação se é o mesmo terno ou outro. O informante, Capitão de Congado Luís Santana, de São João del-Rei, ainda se lembrou de dois cantos, que me informou:

"Óia, a turma do Zé 'zidoro,  BIS
chegô agora!"

"Ai, eu vim de longe,
tô chegâno agora,
com o favor de Deus, 
ai, meu Deus!
e Nossa Senhora!"

** Obs.: as cores adotadas pela Rainha, Sra. Maria de Lourdes Dias, são as cores votivas do rosário - azul (capa) e rosa (vestido). Em São João del-Rei, o saudoso Capitão de Congado Sr. Luís Santana, dizia que as cores de Nossa Senhora do Rosário eram o azul (cor do céu), o rosa (cor da linha celeste do horizonte ao nascente e ao poente, pelo reflexo do sol) e o branco (cor da pureza e das nuvens). Sem dúvidas, uma explicação sublime, uma interpretação poética. 
***Texto, fotografias e acervo: Ulisses Passarelli