Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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sexta-feira, 25 de julho de 2014

A crendice da transmutação

No passado havia a crença da transmutação, cuja essência era a possibilidade de, em situações tais, uma forma de vida se transformar em outra. A biologia revela a impossibilidade deste acontecimento. Chegou-se a teorizar o assunto como se fora científico, justificando por este artifício o surgimento de bichos na "carne morta" [1]: os devoradores gerando podridão, nada mais seriam que carne transformada em larva. 

Claro que a evolução da ciência derrubou por terra semelhante crença, ao provar cabalmente, que as larvas surgiram de ovos depositados por moscas, atraídas pelo cheiro da carne em putrefação. Num experimento, se a carne for isolada das moscas por uma tela-mosquiteiro, não surgem as larvas.

Mas a crença da transmutação, tão propalada pelos alquimistas, persistiu nos meios folclóricos. Nos anos noventa uma sexagenária em Santa Cruz de Minas, dizia que crina de cavalo, cortada e atirada num córrego de águas ferruginosas, teria o poder de se transformar em serpentes depois de um certo prazo.

Numa postagem anterior, o Folclore das Cobras - parte 1, foi descrita a mudança da raiz da guaipeva em serpente.

Decerto a mais popular das transmutações é a do morcego, muito popular aqui em São João del-Rei na década de 1970 e ainda ouvida por aí: o morcego é um rato, que depois de velho cria asa e perde a cauda. Escrevendo sobre a vizinha cidade de São Tiago, a Professora Ermínia Resende também aludiu a esta transformação imaginativa: "há muita crença de que morcego é rato velho". De fato é uma crendice de expansão geográfica bem mais larga, mostra-nos Hitoshi Nomura, posto que conhecida em terras paulistas e outras. Monteiro Lobato aproveitou-a no conto 'Os negros': “Mal entramos, morcegos ás dezenas, assustados com a luz, debandaram ás tontas, em voejos surdos. _ Macacos me lambam se isto aqui não é o quartel-general de todos os ratos de asas deste e dos mundos vizinhos”. 

O morcego é animal considerado tenebroso, cuja figura é vinculada ao sombrio, ao mal, associação de imagens ao seu hábito de vida. Contudo, nos terreiros de umbanda o povo reconhece o Exu Morcego, entidade da linha esquerda, muito prestigiado. 

Em verdade, o morcego desperta relativamente poucas crendices, quiçá pela repulsa que o homem nutre por ele. É devido aos seus hábitos e aspecto, sobretudo, pela hematofagia, característica de um número limitado de espécies. Obviamente a temida transmissão da hidrofobia contribui para esta aversão.

Morcegos em repouso numa mangueira em São João del-Rei.

Referências 

LOBATO, Monteiro. Negrinha. 22.ed. São Paulo: Brasiliense, 1982. p.51. 

NOMURA, Hitoshi. Os mamíferos no folclore. Mossoró: Fundação Vingt-un Rosado, 1996. Coleção Mossoroense, n.890, série C, 146p. Verbetes: Morcego e Vampiro.

RESENDE, Ermínia de Carvalho Caputo. Acaso são estes os sítios formosos? Brasília: Estações, 2008. 211p. p.72-74.

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografia: Maria Aparecida de Salles, 25/07/2011.

Notas 

[1] Carne morta: expressão indicativa de carne exangue. O sangue é símbolo vital. Carne ainda com sangue é "carne viva", expressão coloquial, consagrada pelo uso.  

Revisão: 30/07/2025. 

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Cobra de Duas Cabeças e Cobra Cega

Animal terrestre de hábitos subterrâneos, cujo nome é um duplo equívoco: não é cobra (embora pareça uma), nem tem duas cabeças. Tem uma só, mas o extremo caudal é rombudo, assemelhando-se grosso modo a uma cabeça, daí seu batismo. Recebem este nome um réptil da família anfisbenidae, Leposternon microcephalum - também chamado cobra-cega - e um anfíbio da família caeciliidae, Siphonops annulatus – outrossim conhecido por minhocão [1], dentre outros congêneres, todos frequentemente confundidos nos meios populares.

Mas ao povo pouco importa estes detalhes zoológicos: estes animais passam por serpentes e como tais são tratados. Estão sujeitos aos mesmos tabus e crendices, desenvolvendo medo e repulsa, como sói acontecer com as cobras em geral. SANTOS (1981), referindo-se ao anfíbio afirmou: "ao inofensivo bicharoco empresta o povo propósitos perversos e crê num sem-número de malefícios que ele é capaz de engendrar". O mesmo autor cita várias crendices que recaem sobre o réptil.

Mas em especial pode-se indicar alguns detalhes correntes nesta região: a cobra de duas cabeças goza de má fama nos meios populares, porque se crê que não é sua mordida ou picada que mata, mas sim a “baba” (saliva), que se molhar alguém tem efeito mais terrível que o veneno das cobras verdadeiras. Por isto a matam. Na verdade só morde se ostensivamente molestada. É ainda mal querida pelas galerias que abre sob a terra, que, segundo os agricultores, alojam posteriormente formigueiros. Da mesma sorte por vezes invade as galerias das formigas-cabeçudas (formigas saúvas ou formigas de roça). Daí seus sinônimos populares Brasil afora, tais como rei das formigas, mãe do formigueiro e mãe de saúva. 

A cobra-cega é visada pelos pescadores, que a trespassam em anzol para isca.

A cobra de duas cabeças é animal votivo do orixá Oxumaré. A ferramenta desse orixá é uma cobra de ferro.

Não obstante a repulsa que de imediato causam pelo aspecto serpentiforme, esses habitantes subterrâneos merecem ser preservados posto que tem seu papel na cadeia biológica, contribuindo para o equilíbrio da cadeia alimentar.

Cobra de duas cabeças: à esquerda, o réptil anfisbenídeo; à direita, o anfíbio cecilídeo.
São João del-Rei/MG. 


Referências

SANTOS, Eurico. Anfíbios e Répteis: vida e costumes. 3.ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1981. 263p.il.

Créditos

- Texto e fotos: Ulisses Passarelli.

Notas 

[1] Na cidade sul mineira de Ouro Fino o termo "minhocão" ganhou uma acepção lendária, na justificativa de um tremor de terra, supostamente causado por uma minhoca gigante, como se depreende deste excerto: “Foi desse lado, em velho pasto, que ocorreu o célebre minhocão, que assustou o povo e que, na verdade, não passou de uma depressão súbita e violenta do solo causada por corrente de águas subterrâneas.” (LEITE, Aureliano. Ouro Fino de minha meninice. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais. Belo Horizonte, 1964, v.11.p.47-51.)
 
- Para saber mais a respeito da cultura popular desenvolvida em torno das serpentes ver: NOMURA, Hitoshi. Os Répteis no Folclore. Mossoró: Fundação Vingt-un Rosado, 1996. Coleção Mossoroense, série C, v.893. 99p. 
- Leia também neste blog: 

- Revisão: 21/03/2025.  

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Curador

Em São João del-Rei (e arredores) o termo curador é aplicado ao homem que se dedica a curar as pessoas às custas de rezas fortes e remédios do mato. É um conceito paralelo ao de benzedor mas que se distingue por denotar uma maior profundidade na arte da "medicina popular", no conhecimento das simpatias, das preces místicas, mas sem propriamente explicitar uma atividade religiosa de terreiros de religião de matriz africana.

Os curadores tinham fama de feiticeiros, embora não fossem exatamente isto. Recebiam o peso da discriminação e o preconceito que recai sobre esta palavra. Mas eram em geral muito temidos e respeitados por sua força. Suas preces e o conhecimento homeopático em parte se perderam pois os conservavam sigilosamente, por medo de que alguém aprendesse seus segredos e assim os pudesse derrotar. A força da repressão policial até meados do século XX também colaborou para seu desaparecimento.

Ocorre que a atividade de curador era proibida pelo código municipal desta cidade: “inculcar-se curador de enfermidades ou molestias por via do que vulgarmente se chama feitiço. Multa de 30$000 e oito dias de prisão”.

O Mestre Luís Santana me revelara cheio de satisfação e positivo orgulho que seus avós foram curadores famosos: pelo lado materno, Adão Roberto da Silva, natural de Carrancas, residente em São João del-Rei, e pelo lado paterno, Antônio Inocêncio da Caridade, do distrito de São Gonçalo do Amarante (ex-Caburu), curador do Capitão de Congado Vicente Fagundes, o mais célebre dirigente daquela centenária guarda de congo.

Não obstante o presente foco seja os saberes do Campo das Vertentes, o termo curador em verdade é conhecido em outras regiões, até mesmo bem distantes. A título de exemplo servirá um canto do boi de Reis (modalidade reiseira de bumba-meu-boi), que me informou o saudoso Mestre Correia, na capital potiguar:

Cobra verde não me morda,
que aqui não tem curador. 
Nos braços de quem me ama,
eu morro e não sinto a dor.  

Por aqui eram especialmente afamados os “curadores de cobra”. Segundo vozes correntes seriam capazes de salvar uma pessoa que sofreu acidente ofídico só às custas de suas orações e preparos fitoterápicos. Há muitos casos narrados nesse sentido. Porém, quando ao se rezar para curar a picada o curador gaguejar ou misturar as palavras da prece por três vezes é sinal claro que já é tarde, ou seja, a morte é inevitável, narrou um informante da zona rural são-joanense.

É preciso não confundir porém o conceito de curador de cobra com o de "curado de cobra", de que nos fala Saint Hilaire: "Disseram-me que havia na província de Minas e na de São Paulo pessoas que pretendem possuir segredos para preservar da mordedura das cobras mais perigosas, o que se chama curar." 

Por fim vale também dizer que certos curadores detém o conhecimento de orações com que benzem os pastos das fazendas para espantar as cobras. Os legítimos curadores estão quase desaparecidos na atualidade. 

Detalhe de um ex-voto da "Sala dos Milagres" do Santuário da Santíssima Trindade, Tiradentes/MG, desenhado sobre papel, que mostra uma serpente saindo da bota de um trabalhador rural. 25/05/2013. 


Referência Bibliográfica

SÃO JOÃO DEL-REI. Código de Posturas da Câmara Municipal de São João d’El-Rey. Ouro Preto: Província de Minas, 1887. Art.28, parágrafo 2º.

SAINT HILAIRE, Auguste de. Viagens às Nascentes do Rio São Francisco e pela Província de Goiás. Rio de Janeiro: Nacional, 1944. p. 96-7.

 Créditos 

- Texto e fotografia: Ulisses Passarelli.

Notas
 
- Informantes:
José Marcos Oliveira, 24/07/2009, Brumado de Cima (São João del-Rei).
Luís Santana, 25/09/1998, Bairro São Dimas (São João del-Rei).
José dos Santos Correia, 26/10/1997, Vila de Ponta Negra (Natal/RN).

- Para saber mais sobre as tradições acerca das serpentes leia: 
- Revisão: 21/03/2025.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Folclore das Cobras - parte 2

Algumas crendices sobre as serpentes (continuação)

Faz alguns dias que este blog compartilhou o “Folclore das Cobras - parte 1”. Como o assunto é vasto e instigante segue mais material de coleta de campo para alimentar outra postagem. Esta é a segunda parte, continuação do mostruário cultural que a serpente gera na cultura popular. As crenças e superstições recolhidas seguem com breves explicações, sem preocupação analítica, que foge por completo à pretensão deste texto.

Na linguagem popular a serpente surge em várias expressões vulgares, tal como “merda de cobra”, com que designavam em Natal/RN, pelos anos noventa, às pessoas consideradas inúteis. Nas crenças, superstições, tabus, religiosidade, cantares, narrativas, etc., surge a serpente em mil possibilidades, algumas inusitadas. Em 1995, um quiosque na Praia de Itapoã, Salvador/BA, vendia entre suas bebidas alcoólicas habituais e preparadas (aguardente com raízes e sementes), uma cobra em infusão na cachaça. Como essa garrafa estava bem mais vazia que as outras, deduzia-se a popularidade da dose da exótica mistura. O dono do estabelecimento confirmou que a beberagem era muito procurada, porquanto supostamente fortificante e afrodisíaca.

A mítica das serpentes é imensurável. Sensualmente, na gíria popular, ela é configurada ao próprio membro viril humano, símbolo da fertilidade. Nos sertões do Brasil é corrente entre os violeiros a crença de que se deve deixar uma cobra entre passar pelos dedos como fórmula certeira para se aprender a tocar viola. Grandes e saudosos mestres violeiros como Zé Coco do Riachão (de Mirabela) e Nelson Jacó (de Jequitibá) relataram este costume em documentários.

BARBOSA (1971) registrou algumas curiosas práticas folclóricas acerca das serpentes. Diz por exemplo que quando se vê uma cobra no caminho, dá-se um nó na fralda da camisa ou saia (princípio do amarrilho mágico). Então a cobra fica imóvel até achar-se um porrete para matá-la (p.259). Escreveu sobre a pedra-de-índio:

o chifre do veado-galheiro é cortado em pedacinhos, a que chamam pedras. Esses pedacinhos, são assados em forno; há uma técnica em assá-los, sem que fiquem extremamente torrados. Em seguida, são as pedras colocadas no leite. No caso de mordedura de cobra venenosa, coloca-se a pedra-de-índio no local da picada, passando, antes, saliva sobre a ferida. A pedra gruda-se na ferida, suga o veneno, e só cai depois de absorver todo o veneno. A pedra é, então, colocada dentro de vasilha com leite, onde fica uma hora. Tirada do leite e lavada, está pronta a ser novamente usada. (p.256). 

Outras práticas registradas pelo autor:
 
outra aplicação (do guizo crotálico) que, dizem, é de efeito infalível: nos casos de anúria, coloca se um chocalho de cascavel amarrado na perna, mas em contato com a pele (p.256) pessoa mordida de cobra venenosa coloca, na entrada de sua casa, um galho de imbaúba (p.257).

Na obra de BRANDÃO (2015), lê-se que a população interiorana usa o pau-de-leite ou tiborna (Himatanthus obovatus, (Mull.Arg) Woodson, Apocynaceae) e o pau-paraíba (Simarouba versicolor, A.St.-Hil., Simaroubaceae) como remédios contra acidentes ofídicos. Sobre o primeiro vegetal registrou Richard Burton  (Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho, 1869) o uso das folhas; sobre o segundo, Saint-Hilaire anotando em 1824 sobre as Plantas Usuais dos Brasileiros disse que "os habitantes do sertão consideram sua casca em infusão na cachaça um remédio específico para mordida de serpentes venenosas."

 A cobra hipnotiza a vítima. Por isso não se deve olhar em seus olhos. Assim ela faz com o sapo para comê-lo, pois ele fica inerte, hipnotizado pelo magnetismo do olhar morteiro da serpente. Eis a crença popular ante o olhar fixo do animal. Walt Disney explorou muito bem este detalhe no desenho animado “Mogli, o Menino-Lobo” (Mowgli), quase vitimado por , a grande píton.

Também é clássico o encantamento de serpentes pelos tocadores de flauta no oriente, cena que contribuiu para ambientar narrativas e filmes, compondo um vasto imaginário. Aliás, mundo afora se acha decerto farto material sobre estes seres rastejantes, do qual os exegetas bem comporiam muitas páginas.

*  *  *

- A vingança da cobra: se uma serpente for ferida e não morrer, pior para o homem que a machucou, pois é um ser vingativo. Pacientemente aguarda a hora da revanche, entremeada às moitas do caminho, oculta por detrás das pedras, vigiando com atenção o lugar onde o ofensor costuma passar, na espera do momento certeiro de seu bote fatal. Ela revida também quando lhe fulminam a companheira, pois andam aos casais. Quando se mata uma serpente a outra está sempre por perto, pronta para o bote.

- Tempo de mastiá: é o verão, sobretudo fevereiro e março. É quando as cobras estão muito agitadas e agressivas, correndo campo com o calor à procura de machos para o acasalamento. Mastiá ou machiar é o nome do período de namoro das serpentes (povoado do Brumado de Cima, São João del-Rei/MG).

- Comer um boi: uma crença muito arraigada diz que as grandes serpentes da família boidae, jiboia (Boa constrictor) e sucuri (Eunectes murinus), tem a capacidade de engolir um boi inteiro, deixando de fora só os chifres. Passa então por lento repasto, até que os chifres apodreçam e caiam de sua boca. O fato não procede, posto que exagerado. Elas têm o poder de engolir grandes presas e passar por longo período digestivo, com atividade letárgica, mas não chegam ao ponto de devorar um touro. O povo as teme muito, posto que se alguém for atacado cai em sua constrição até a asfixia e morte. O jornal O Repórter, de São João del-Rei, edições nº9, de 01/04/1906 e nº10, de 08/04/1906, publicados em São João del-Rei, dão uma notícia sob o título de "Horroroso" do ataque de uma cobra gigante a um sitiante no povoado do Caxambu,  que quase o vitimou. A descrição é dramática [1]

- Urutu: Bothrops alternatus (crotalinae), réptil viperídeo temido, pois acredita-se que quando não mata pelo veneno inoculado, sua ação muito forte deixa uma sequela irreversível, donde o ditado, “urutu quando não mata aleija”, tantas vezes ouvido. Para prová-lo, meus parentes maternos, dão o exemplo do “Tio Antoninho”, um Paiva em 3º grau, que foi picado pelo urutu na roça, na paragem da Água Limpa. Foi socorrido e viveu, mas perdeu a visão com o veneno. A cegueira lhe custou pouco depois a morte por atropelamento na BR-265, próximo ao Trevo do Elói, na retaguarda de Matosinhos, em São João del-Rei, devido a um caminhão em alta velocidade. Fatos como este, reforçam a crença popular:

“O meu nome é urutu,
Moro na beira do brejo,
Quando dou minha picada,
Ou eu mato, ou eu aléjo.”
(Trova popular, São João del-Rei, 2010)

- O rastejo: Cascudo [2], baseado em Serpa Pinto (Como atravessei a África, I, 236), informou um canto africano de marcha dos carregadores de Banguela:

A cobra não tem braços,
E não subimos nós,
Não tem pernas,
Que temos braços,
Não tem mãos,
Temos pernas,
E não tem pés;
Temos mãos,
Como sobe ela?
E temos pés?

A ideia central da primeira parte se ajusta muito bem ao teor de um canto infantil brasileiro (São João del-Rei, 2007), mostrando sobejamente “a universalidade dos temas e mesmo de muitas soluções psicológicas” (Cascudo, op.cit., p.146). No canto abaixo o limão só entrou na história para dar rima:

A cobra não tem pé,
A cobra não tem mão,
Como é que a cobra sobe
No pezinho de limão?

- Cachorro ou gato emagrecendo: quando estes animais domésticos principiam um emagrecimento súbito, sem causa aparente, é sinal que comeram uma cobra.

- Amuletos: é muito frequente nos meios populares o uso de chocalho de cascavel ou presas de inoculação de veneno como amuleto, conferindo proteção contra todo mau augúrio, quebranto, espíritos perversos. Geralmente vem condicionados num saquinho de pano ou couro, o patuá, conservado na carteira, no bolso da calça, no bojo da viola, impedindo que desafine. Nas caixas de congado confere o som firme e impede a quebra da estabilidade espiritual do grupo. O capitão de congado Luís Santana informava que se colocar uma presa de cascavel fincada na ponta do bastão de comando, a firmeza deste capitão se torna imensa. Se, porém, o dente riscar o mais leve arranhão em alguém, por acidente ou intenção, abrirá uma ferida incurável na sua pele.



- Cobras no bastão: alguns capitães de congado usam dos volteios naturais do cipó (planta trepadeira) para compor bastões de reger seus grupos culturais. A morfologia serpentiforme evoca a força das florestas, os espíritos da mata, capazes de conferir fortalecimento à sua função de comando (Contagem, Belo Horizonte, Resende Costa, São João del-Rei ...) Nesta última cidade e também em Passos, corre a narrativa de um encontro tenso entre dois congados inimigos no tempo da escravidão. Os capitães tinham no passado uma força espiritual muito grande, como africanos, idosos, “pretos-velhos”, sabedores dos mistérios espirituais: um capitão jogou em direção ao outro o seu bastão de comando que de imediato se transformou em cobra, armando botes contra o inimigo. Aquele por sua vez, tirou o chapéu da cabeça e jogou para cima. No ar o chapéu virou um gavião que em voo rasante e de garras em riste levou a cobra embora. Estas estórias de transmutação recordam uma passagem bíblica entre Deus e Moisés: “O Senhor disse-lhe: “O que tens na mão?” _ “Uma vara”. _ “Joga-a por terra”. Ele jogou-a por terra; e a vara transformou-se numa serpente, de modo que Moisés recuou.” (Ex: 4, 2-3) ou a que é narrada no capítulo 7 do mesmo livro, versículos 8 a 12, com a transformação em cobra das varas de Aarão e dos sábios da corte do faraó, com a vitória hebraica. A ilustração seguinte mostra dois bastões de capitães de congo: 

Bastão do Capitão Jerônimo dos Santos, Passos/MG, 1997.


Bastão do Capitão Canuto Nascimento, Gritador (Prados/MG), 1997.


- Curador de cobra: José Cândido de Salles (1918-2001) narrava o caso de um benzedor extraordinário que havia em Antônio Carlos/MG conhecido pela curiosa alcunha de “Ti'Pai Tudo” (tio), um raizeiro, liberto da escravidão, que era capaz de curar qualquer mal com suas rezas fortes e mezinhas. O benzedor era “turmeiro” (espécie de empreiteiro de uma turma de trabalhadores rurais) e vigiava o trabalho a cavalo, andando de um lado para outro. Certa vez, num mutirão que estava, gritaram no canavial: “acode, gente, o cascavel ofendeu um aqui...” Correu Ti'Pai Tudo ao local e o bicho já estava morto pela pancada de outros trabalhadores. Desceu do cavalo, abriu sua capanga[3], tomou de um cuité[4], onde colocou alguns pós que trazia em vidrinhos tampados com sabugo de milho. Diluiu o preparo e deu a beber à vítima da serpente. Recomendou: “não para de trabalhar, que se o seu sangue esfriar, num tem jeito, você morre”. Assim fez, meio tonto e com dor, mas aos poucos foi se sentindo melhor e curou. A exemplo desta, as narrativas em torno dos “curadores de cobra” são muito comuns. Seriam pessoas dotadas do dom sobrenatural ou do conhecimento de certos preparos homeopáticos, capazes de neutralizar o veneno da serpente sem necessidade de soro antiofídico. É necessário desaconselhar semelhante prática à luz da ciência, mas ela goza ou gozava de grande prestígio popular. Falava-se de vários curadores, em São Gonçalo do Amarante, Coronel Xavier Chaves, Lagoa Dourada e trevo de Resende Costa. Há ainda benzedores com habilidades diversas, uns, conhecedores de velhas rezas sertanejas capazes de afastar as cobras, muito requisitados por fazendeiros e sitiantes para limpar os pastos com suas orações, pois as serpentes trazem prejuízos com perdas para o rebanho; outros há que benzem com fio de crina de cavalo, raspando a pele da pessoa em forma de cruz para retirar espinho de cobra (vide “Folclore das Cobras”, parte 1), única forma possível, se já não for tarde, ou seja, se não tiver se aprofundado muito pelo corpo [5].

- Feitiço com couro de cobra: as “mandingas” feitas com um pedaço do meio do corpo da cobra (torete), ou apenas com sua pele (couro), seriam muito poderosas no fazer o mal ao inimigo, ou ao menos no neutralizar suas forças contrárias. Basta jogar no caminho que a pessoa passa: se pisar ou ultrapassar é o suficiente para ser afetado e daí por diante sua vida toda se desequilibra. Em uma Festa do Rosário em 1996, no Bairro São Dimas, São João del-Rei, um terno de congado visitante, atirarou à espreita, um feitiço desse na ladeira, por onde vinha subindo pouco abaixo o catupé do Capitão Luís Santana, que ficou nervoso, cantando com vigor antes de ultrapassar o obstáculo temido:

Cobra-cipó,
Cobra-corá, [coral]
Chega no beco,
Revira no ar...

Dentre outras cantorias, fez a coreografia de meia-lua, cruzou algumas vezes o bastão por cima, cobriu o pedaço de cobra com seu tamborim e depois, descobriu e chutou o feitiço com o pé esquerdo para a sarjeta da rua, limpando seu caminho. E saiu vitorioso rumo à capelinha, entoando uma alusão da traição humana ao semelhante:

O galo cantou,
Eu chamei Jesus,
Carneiro respondeu
Que morreu na cruz...

- A cobra e a mulher: consumado o pecado original, Deus disse à serpente e a Eva: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela.” (Gen: 3, 15). A influência dessa passagem bíblica, marcou crendices que se desenvolveram no seio popular, dentre as quais as ligadas à gravidez e a menstruação, tão bem estudadas por Cascudo [6]. Nestas circunstâncias se a mulher cruzar o caminho com a cobra, a serpente morrerá, da mesma sorte se nela esbarrar. Noutra vertente, está uma lenda dos índios maués, sobre a origem do guaraná, descrita na Literatura Oral no Brasil, no qual a virgem engravidou “por ter sido tocada na perna por uma cobrinha”. (Cascudo, op.cit.p.100).

- Expressões populares: o palavreado regional se recheia de variadas formas de expressar, verdadeira riqueza cultural. Envolvendo as cobras é de se citar algumas por aqui correntes: “agora que a cobra vai fumar” (sentido: agora que começa a vingança, a virada, a mudança real de situação), “cobra!” (sentido: xingamento contra uma pessoa falsa; traidora!), “ninho de cobras” (sentido: espaço de convívio social ou trabalho onde se reúnem muitas pessoas dissimuladas); “cobrão” (sentido: pessoa sabida, sagaz); “cobra criada” (sentido: indivíduo que conhece muito sobre um certo assunto; experiente); “cascavel de quatro ventas” (sentido: pejorativo, pessoa com nariz muito largo, alusão a um cascavel com as fossetas loreais muito próximas das narinas); “cobra que não anda, não engole sapo” (sentido: quem não se esforça não alcança os objetivos). Deste último registro eis uma cantoria congadeira dos catupés de Santa Cruz de Minas e São João del-Rei, ainda hoje entoada, por adaptação de uma marchinha carnavalesca:

Vamos, Maria, vamos,
Vamos bater um papo[7];
Que a cobra que não anda,
Não engole sapo...

- Cobras e santos: a mitologia das cobras se reforça na iconografia de alguns santos que figuram serpentes, traiçoeiras ou fugidias, tais como Nossa Senhora da Conceição e Nossa Senhora das Graças, que pisa sobre uma serpente e Nossa Senhora da Penha, que livra um homem de ser picado (algumas estampas que vi substituem a cobra pelo jacaré prestes a morder). Porém é em São Bento que se encontra a expressão maior de devoção protetiva contra as serpentes. Antes de entrar no mato se deve pedir licença (respeito às forças mateiras) e rezar a São Bento para se livrar das cobras e em geral qualquer bicho ofensivo por picada. Existem várias fórmulas de chamá-lo, como ensalmos, mas em geral, se ver a cobra basta gritar pelo nome de São Bento que ela ficará misteriosamente imobilizada. No sincretismo religioso afro-brasileiro, São Bento foi aproximado a Odé, patrono dos animais perigosos da floresta. Odé é considerado por algumas vertentes de terreiro como forma idosa do Orixá Oxóssi, este, sempre jovial, agitado; Odé, ao contrário, velho, austero, rigoroso na doutrina. Ambos comandam os trabalhos dos caboclos (almas dos índios), segundo alguns preceitos umbandistas. Em versões do candomblé Odé é um título, com o sentido de caçador, aplicado ao Orixá Oxóssi. Eis um canto de Moçambique, gravado de um grupo que houve na Rua do Ouro, em São João del-Rei, em 1997:

_ No caminho da Cachoeira,
_ Viva, meu São Bento!
_ Eu vi a cobra caninana ...
_ Viva, meu São Bento!

- O tabu da coral: as cobras que mesclam as cores vivas vermelho, preto e branco, de que existem várias espécies, com e sem peçonha (elapidae e colubridae, respectivamente), chamadas coletivamente “cobra-coral”, não devem nunca serem mortas. São votivas dos caboclos, guias espirituais da mata, espíritos indígenas da umbanda que voltam à Terra para cumprir afazeres espirituais benéficos. A coral é do caboclo, como revela o ponto de terreiro abaixo, muito difundido. Avistá-la é bom sinal. Quer dizer que um caboclo está por perto ajudando. Reza-se a ele, pedindo que leve o mal e traga o bem, a saúde, a fartura, a proteção. Assim a cobra leva e traz, configurando a ambiguidade deste ser exotérico.

A coral é sua cinta,  {BIS}
Não me mate essa cobra  {BIS}
A jiboia é sua laça,
Não machuque a coral
Que zoa, que zoa, que zoa-êh!  {BIS}
Que zoa, que zoa, que zoa-êh!   {BIS}
Caboclo mora nas matas!
Caboclo mora nas matas!”       

Eis uma pequena parcela do universo das serpentes, que tendo passado por diversas mitologias chegou aos nossos dias, nas figurações do Caduceu de Mercúrio, do Bordão de Asclépio, chegando aos símbolos da medicina e da odontologia; nas crenças atuais da cultura popular, aqui brevemente pinceladas; na cobra de ferro símbolo de Oxumaré; no mito indígena da boiúna e do boitatá, e pelo imenso setentrião brasileiro, nas estórias da cobra-norato. Quando se mergulha em seu estudo o sistema se inverte: a cobra é que nos toca a flauta e nós nos tornamos encantados pela serpente.

Créditos

- Texto e fotografias (1997): Ulisses Passarelli.

Notas 

- Capitães citados: Passos - Jerônimo dos Santos; Gritador - Canuto Nascimento. 
- Obs.: leia também a primeira parte deste texto: FOLCLORE DAS COBRAS - parte 1  
- Revisão em 30/05/2025. 

Referências Bibliográficas

BARBOSA, Waldemar de Almeida. A decadência das minas e a fuga da mineração. Belo Horizonte: Centro de Estudos Mineiros, 1971. 264p.

BRANDÃO, Maria das Graças Lins. Plantas úteis de Minas Gerais e Goiás na obra dos naturalistas. Belo Horizonte: Museu de História Natural e Jardim Botânico / Universidade Federal de Minas Gerais, 2015. 110p.il. p.81-82.


[1]Fonte: acervo da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida. Esta notícia já fora transcrita pelo emérito Professor Antônio Gaio Sobrinho em seu livro Conceição da Barra de Minas: minha terra natal. 2001. p.32-33. 
Charles Bunbury relatou ter visto na década de 1830, um par de botinas feitas da pele da sucuri ou sucuriú (p.73). 

BUNBURY, Charles James Fox. Viagem de um naturalista inglês ao Rio de Janeiro e Minas Gerais: 1833-1835. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: USP, 1981. Coleção Reconquista do Brasil, Nova Série, v.31. 123p.  

[2] - CASCUDO, Luís da Câmara. Literatura Oral no Brasil. 3.ed. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1984. 435p. p.155

[3] - Capanga: pequena bolsa tosca, de couro, que se traz à tiracolo. Embornal de couro. É muito utilizada por pescadores, caçadores, raizeiros e tropeiros para carregar apetrechos úteis no mato. 

[4] - Fruto do cuitezeiro (Crescentia cujete, árvore bignoniaceae), do qual, seco, serrado ao meio, faz-se uma vasilha simples, semelhante a uma tigela, muito usada nos meios rurais. O conteúdo é retirado por raspagem e deve ficar imerso em água bem quente com mistura de cinza de fogão à lenha, até esfriar, como medida para tirar o amargor e eventuais toxinas. Depois basta lavar e usar. 

[5] - Além do curador de cobra, que cuida de quem foi ofendido por serpente, existe o "curado de cobra". O conceito não se confunde, porque curado é aquele que às custas fórmulas mágicas e orações, previne a picada em si mesmo. Auguste de Saint-Hilaire registrou no século XIX sobre a cultura popular: "disseram-me que havia na província de Minas e na de São Paulo pessoas que pretendem possuir segredos para preservar da mordedura das cobras mais perigosas, o que se chama curar." (Viagem às nascentes do Rio São Francisco e pela província de Goiás. Rio de Janeiro: Nacional, 1944. 343p. p.96-7.) Raimundo José  da Cunha Matos também na primeira metade dos oitocentos registrou o curado de cobra, dizendo-os alvo de estórias extraordinárias às quais não dava crédito: "os índios e muitos brasileiros conhecem vegetais e substâncias animais e minerais que, segundo dizem, são poderosos contra venenos. Várias pessoas fazem uma espécie de inoculação do veneno de cobras e a isso chamam "cura"." (Corografia histórica da Província  de Minas Gerais (1837). Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: USP, 1981.v.2. 337p. p.111.).

[6] - CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d].

[7] - Bater papo: expressão do linguajar popular significando conversar, dialogar, trocar uma ideia. É uma velha cantiga carnavalesca adaptada ao ritmo do congado. 

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Folclore das Cobras - parte 1

Algumas crendices sobre as serpentes

            “A serpente era o mais astuto de todos os animais dos campos que o Senhor Deus tinha formado.”





Carranca fotografada em
São João del-Rei, 1998.

Uma cobra sai de sua boca.
Procedência ignorada.
 



                   Assim principia na Bíblia Sagrada, o terceiro capítulo do livro Gênesis. A narrativa de como a serpente, símbolo do mal, figuração satânica no ato da criação humana, impregnou profundamente a mitologia, sobretudo a ocidental. O animal tentador, que corrompeu os planos que Deus tinha traçado para a humanidade, induzindo a desobediência de Adão e Eva, foi amaldiçoado pelo próprio Criador: “serás maldita entre todos os animais e feras dos campos” (Ex.3, 14).
            Todo um complexo sistema de crenças recai de forma cosmopolita sobre as serpentes. Por toda parte onde ela vive gera no homem uma mescla de sentimentos atávicos, que confluem para compor a temática de uma série de estórias, crenças, tabus, mitos e lendas. A riqueza cultural é gigantesca. Nos verbetes “Cobra” e “Serpente”, Luís da Câmara Cascudo no Dicionário do Folclore Brasileiro, resumiu de forma magistral o poderio imaginário que estes répteis despertaram nos meios populares, notadamente nas áreas de influência indígena.
            Mas longe está a pretensão deste pequeno texto de perpassar por estas tradições em análise, revisão ou coletânea. As palavras acima são meros pretextos para expor algumas informações a seguir, que foram coletadas ao longo da caminhada de pesquisas em São João del-Rei e arredores _ Campo das Vertentes _ desde a década de 1970, salvo indicação contrária, e que, ora esta postagem passa em breve revista.

*  *  *

- Cobra que mama: impossível é à serpente fazer a sucção necessária ao ato de mamar, dada a conformação de seus músculos e articulações da mandíbula. Contudo, uma velha crença portuguesa esparramou-se pelo Brasil e chegou a esta região, contrariando os ensinamentos anatômicos. Dizem que foi para os lados de Resende Costa, que numa antiga fazenda de chão assoalhado, com porão por baixo, onde tuias de mantimento atraíam ratos, e no seu rastro, uma imensa cobra veio morar. Tarde da noite, a senhora, cansada da labuta diária, sentava-se numa velha cadeira onde aleitava sua criança. O pai, sempre dormia mais cedo e a mãe, esgotada, cochilava no assento. A serpente, conhecedora do horário e astuta como sempre, saía do porão e passando por um buraco entre as tábuas do assoalho, vinha sorrateiramente à mãe, que não se dava conta do réptil, devido ao sono profundo que estava. A cobra, subindo mansamente ao colo maternal, metia a ponta do rabo na boca do bebê, qual fosse uma chupeta e livrando assim a mama punha a sugar o leite. Quando fartava-se, voltava ao seu esconderijo, sorrateira como de costume. A criança pouco a pouco emagrecia, sem se saber a razão. Um dia, por sortes do destino, o pai acordou e estranhando pelo avançado da hora, não ter até então a esposa chegado ao quarto, foi à sala, onde viu estupefato a cena da cobra mamando. Tomou de um porrete e batendo de propósito o pé no chão fez a cobra largar o seio pelo barulho e sair às pressas, mas antes que entrasse no buraco da passagem para o porão foi morta a cacetadas. Em São João del-Rei tivemos notícia de estórias de cobra que adentra o curral e mama em vaca. 

- Comer cobra: acredita o povo que a serpente pode servir como alimento humano, desde que ao matá-la se deixe sangrar totalmente, pendurada, e se corte a partir da cabeça e da ponta da cauda, um palmo de comprimento de cada lado, eliminando as possibilidades de envenenamento.

- Espinho de cobra: o pior veneno da serpente não está na presa mas nas pontas das costelas (espinhos). Se alguém se ferir neles quando de uma carcaça em decomposição, terá uma ferida incurável no local. Se fincar no corpo humano, não pode ser retido facilmente, pois, como se fosse vivo, caminha por dentro dos músculos, gerando dor e mal estar, até chegar ao coração, ponto final da maldita jornada, causando a morte irremediável. Por isto o homem do campo ao matar uma cobra a enterra, para que seus ossos não fiquem expostos. As estórias de feridas incuráveis possivelmente se originem da contaminação bacteriana da punção pelos ossos da cobra. 

- Chocalho de cascavel: a medonha serpente viperídea Crotalus durissus pode ter sua idade contada pelo número de anéis de seu guizo: um para cada ano de vida. A ciência desmente, afirmando que cada anel corresponde a uma troca de pele, que pode acontecer mais de uma vez por ano. O povo não aceita, lógico. O chocalho é um aviso de periculosidade que Deus conferiu ao cascavel, para que alerte pelo som idiofônico aos humanos sobre a iminência do perigo. Esta crendice é contextualizada na disputa em forma de fábula entre a letalidade do cascavel com a urutu (Bothrops alternatus): dizem que as duas nutrem entre si uma inveja _ no tempo que os bichos falavam elas se encontraram no mato _ urutu logo disse que era pior. Tinha até um sinal de cruz na testa (daí ser chamada urutu-cruzeiro, devido ao desenho cruciforme que traz no couro) para atestar a morte que provoca, a que, replicou a cascavel, que que tinha peçonha pior: batia o guizo antes da picada para que a vítima alertada, se movesse do lugar e assim não caísse sobre a própria cascavel.

- Disputa das cobras: a crendice popular da primazia de poder das serpentes reflete-se em versos do nosso folclore. “Dona Josefina”, em 1996, cantava em Barbacena a seguinte quadra de calango:

Toda cobra carijó
Vive sempre de porfia:
Cascavel anda de rastro,
Caninana de rodia.

A caninana (Spilotes pullatus), serpente colubrídea de grande porte, é temida por sua agressividade, formando rodilhas e correndo atrás da vítima, embora a ciência não lhe atribua o caráter de peçonhenta.

- Lidar com cobras: valentia e poder sobrenatural teriam aqueles capazes de lidar com serpentes sem serem molestados. Propalar isto em versos é índice de firmeza espiritual. Tal acepção impregnou a cultura popular. Uma sextilha cantada no jongo de roça (canto de trabalho por ocasião dos mutirões de capina agrícola), informado pelo Sr. Luís Santana em 1995, no Bairro São Dimas, em São João del-Rei:

Cascavel não me pica,
Tenho boa oração.
Jararaca perigosa,
Esse é meu lenço de mão.
Urutu por ser valente
É bainha do meu facão.

Um fragmento de calango do mesmo bairro, informado um ano antes, pelo saudoso José Camilo da Silva, dizia:
Fiz uma cama da onça,
Travesseiro do leão;
Cascavel do olho cinzento
Enrolado em minha mão ...

- Parentesco com as cobras: sem adentrar na questão hipotética do totemismo, quiçá rastreável neste tema, em heranças africanas, mas tão somente citar com brevidade, que algumas criações poéticas do povo colocam o cantador como se fosse uma serpente ou como seu parente, mais um alerta de não ser ofendido pois tem seu próprio “veneno”. Assim cantou em um calango em 1999, o mestre “Faixa Preta” (José Francisco Sales), natural do distrito de São Gonçalo do Amarante:

Eu sou filho da cobra-gira,
Neto da cobra-corá [coral]
Quero que você me diga
Quem ensinou Deus a rezar...

Na Festa do Divino de 2004, no Bairro Matosinhos, aconteceu uma demanda curiosa: um catupé de São João del-Rei cruzou na frente do moçambique da cidade de Passa Tempo, em tom desafiador:

Cobrinha miúda, eu pego com a mão!
Cobrinha miúda, eu pego com a mão ...

Na voz do Capitão Luís Maurício a resposta veio certeira e imediata:

Eu sou cascavel dos brejos,
Da beirada do olho cinzento.
Quando eu dou minha picada
Não adianta gritar: São Bento!

- Na medicina popular: a banha (gordura) da sucuri (Eunectes murinus, boidae), conservada em um vidro, serve de remédio ao reumatismo, bastando-se dissolver uma porção no café quente para beber. Uma quadrinha cantada no catupé do Bairro São Dimas, em São João del-Rei, do Capitão Luís Santana (1995) cita a imensa serpente, com o sentido provocativo da perda de um congadeiro do terno por força de demanda:

"Mestre carreiro,
me conta como é que foi:
na várzea leve, 
sucuri laçou seu boi..."

- A origem do veneno: a peçonha das serpentes é benéfica no sentido que Deus as criou para que tirem o “mal ar”, convertendo-o em veneno, ou seja, as toxinas, fluidos, elementos que causam doenças e acometimentos espirituais pelo ar contaminado. Estas substâncias as serpentes absorveriam pela pele e depois seriam transformadas (quimicamente) em peçonha. Assim purificam o ar.

- O veneno da cobrinha: duas crenças curiosas são correntes _ a jovem serpente logo ao nascer do ovo (ovípara) não possui veneno algum. A mãe cobra então a engole, sem mastigar. Ilesa, a cobrinha vai passando viva por seu sistema digestivo, até então ser parida direto, isto é, sem intermédio de ovo (vivípara). Nessa passagem por dentro da mãe é que adquiri desta o veneno. A outra crendice diz que o réptil jovem oferece mais perigo à vida que o adulto pois seu veneno é concentrado e mais forte, pois nunca foi diluído em outras picadas.

- O ardido da picada das vespas: a ferroada das vespas dói tanto porque nos transmite uma pequena parcela do veneno das cobras, não suficiente para matar. Assim informou “Tião Abelha” em Santa Cruz de Minas, em fevereiro de 1998. Isto porque, quando uma serpente morre, as vespas pousam sobre ela e chupam (absorvem...) seu veneno, bebendo seu sangue talhado (coagulado). Nesta terrível reciclagem duas espécies se sobrepujam: o marimbondo-pólvinha (de pólvora, alusão ao queimor da ferroada) e a abelha caga-fogo.

- A raiz da guaipeva: atestou um trabalhador rural originário de Santa Rita do Ibitipoca, em 1996, o saudoso Sr. Júlio Prudente de Oliveira, grande conhecedor da cultura popular, que, certos feiticeiros, “cumba do papo amarelo”, isto é, grande conhecedores das artes mágicas, dos mistérios do além, tem o conhecimento de uma certa oração forte, inconfessável, capaz de, pronunciada adequadamente à Sexta-feira da Paixão, meia-noite (zero hora), fazer uma transformação extraordinária: tendo o feiticeiro cavado fundo ao pé da árvore chamada guaipeva e segurando uma de suas raízes pretas, a força das palavras mágicas da reza brava teriam a capacidade de convertê-la em serpente, uma perigosa jaracuçu (Bothrops jararacussu, viperidae). Ela se enrola no braço do sujeito e lhe confere fortaleza espiritual invencível. Em segundos a cobra misteriosa se enrijece, voltando a ser pau, mera raiz. Cortada em pedacinhos trazidos escondidos na algibeira, no bolso, livra o sujeito de qualquer demanda espiritual de inimigos, tornando-o invencível.

- Outra transmutação: cabelos humanos jogados em águas paradas, ferruginosas, podem se converter em serpentes, conforme narrou a Sra. Elvira Andrade de Salles, em Santa Cruz de Minas. Esta crença parece remeter ao verme conhecido por "crina de cavalo" (ordem Gordioidea), que tem movimentos serpentiformes e aspecto de um fio de cabelo. 

- Como afastar as cobras: existem várias receitas. Uma delas, um benzedor de São João del-Rei ensinou há três décadas: rezar para João Congo, um preto velho cujo espírito afastaria as serpentes. Outro benzedor são-joanense, do Bairro Senhor dos Montes, relatou, ainda este ano, que se deve fazer uma cruz com dois paus parcialmente queimados, restos de fogueira (tição), ficando o vertical com a ponta tostada para o lado do mato, onde manterá as cobras. Outra fórmula ensina queimar pneus ou outra borracha no arredor da casa. O cheiro da fumaça espanta as cobras. Andar com dente de alho no bolso também serve para o mesmo propósito. E ainda, dizia Aluísio dos Santos, os caçadores outrora amarravam um patuá no pescoço dos cães de caça com um cordão. O patuá era um saquinho feito com couro de lobo, costurado nas margens de modo a não perder o conteúdo, que era uma substância chamada “sublimato corrosivo” (cloreto de mercúrio, veneno potente), cujo vapor, exalado por sublimação, espantaria qualquer serpente da frente do cachorro e de seu dono [1]. É o princípio do contra-veneno, ou que, “um veneno combate o outro veneno”. Nesta acepção, a citada Dona Elvira dizia em fevereiro de 1998 que onde não há recurso, o que se pode fazer para salvar um ofendido por serpente é matar a cobrar, cortar um pedaço do meio de seu corpo (torete) e aplicar sobre o local da picada. Isto absorveria o veneno, salvando a pessoa.

- Briga da cobra com o lagarto: o teiú ou tejo (Tupinambis teguixin), grande lagarto teídeo, por ser muito territorialista, quando vê seu espaço invadido por uma serpente, trava corajosamente com ela uma luta, dando-lhe fortes chicotadas com a cauda. Se um bote da cobra lhe atinge, corre desenfreado pela mata. Mas não está fugindo. É uma retirada estratégica. Procura por uma árvore chamada cafezinho-do-campo, árvore-de-lagarto ou guaçatonga (Casearia sylvestris / Salicaceae), cuja raiz escava e morde tirando lascas. Mastiga e engole seu sumo. A raiz o cura do veneno da cobra e imuniza-o. Então, corre célere de volta ao campo de batalha, onde, às rabanadas, termina por vencer a cobra, matando-a.

- Atropelar cobra: ao ver uma serpente atravessando uma estrada deve-se evitar ao máximo atropelá-la, pois do contrário, o veículo dali por diante, como se acometido por uma maldição, passa a ter diversos problemas mecânicos inexplicáveis, ou como diz o povo, "se a roda passar na cobra, o carro vai quebrando em seguida..."

- Veneno na folha: outra crendice são-joanense (Bairro Senhor dos Montes) diz que a serpente antes de adentrar na água, morde uma folha verde de algum ramo da margem. Sobre esta folha deixa depositado seu veneno. Ao sair do córrego, lagoa ou rio, volta ao ramo verde e bebe o próprio veneno, sorvendo-o de volta ao seu corpo. Informante: Luiz Antônio Sacramento Miranda. 


*  *  *

Estas são algumas crendices pertinentes ao vasto folclore das cobras. Porém outras mais permeiam a cultura do povo. A devoção a São Bento, protetor contra picadas é um exemplo. Mas isto é assunto para outra página...

Créditos

- Fotografia e texto: Ulisses Passarelli 

Notas 

- O antigo jornal de São João del-Rei, O Repórter, em sua edição nº28, de 19/08/1906, publicava anúncio do produto SURUCUINA, encontrado em São João del-Rei num estabelecimento comercial que era "depositario, nesta cidade, do afamado, conhecido e maravilhoso remedio", pelo preço de 7$500 o vidro, "poderoso preparado e efficaz contra mordedura de cobras venenosas". (Acervo da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida).
- Revisado em 30/05/2025.


[1] - No mesmo sentido do contra-veneno ouvia-se as crianças dizerem que se uma lagarta-de-fogo (taturana ou tatarana) sapecasse a pele no mato, o remédio seria matá-la a aplicar sobre a queimadura suas vísceras ("tripa") que tirariam todo o veneno, bastando lavar depois.