Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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domingo, 22 de fevereiro de 2026

Bloco do Boi, Conceição da Barra de Minas

 

O município de Conceição da Barra de Minas situa-se no trecho médio do vale do Rio das Mortes, Microrregião de São João del-Rei, Mesorregião Campo das Vertentes, com cerca de 2.576 pessoas como população estimada (IBGE, 2026). O núcleo urbano que originou a cidade foi o povoado da Boa Vista, implantado ao longo de um caminho antigo, possivelmente o próprio eixo do Caminho Geral do Sertão. Com a criação da capela primitiva, na qual se cultuava Nossa Senhora da Conceição, desde 1725, a povoação foi aos poucos se consolidando (Sobrinho, 1990). A área atual é de 173,014 km2, tendo se emancipado de São João del-Rei em 1962. Seu território marginal ao Rio das Mortes foi entrecortado pela Ferrovia Oeste de Minas desde 1881, cujos trilhos foram erradicados em 1984. Na produção agrícola se destacam o milho, a cana e o feijão; na pecuária, a o gado bovino leiteiro.

Entre as tradições populares merece especial atenção a Festa de Nossa Senhora do Rosário, na qual o congado local (catupé) recepciona vários grupos visitantes, em outubro. Em dezembro e janeiro é corrente a prática da folia de Reis e folia de São Sebastião; no período quaresmal, a encomendação das almas [1] e na Semana Santa acontecem diversas cerimônias católicas de grande relevância, culminando com a Procissão do Enterro, na qual os farricocos [2] mascarados se apresentam batendo matracas. Em tempos passados, durante a Festa do Rosário também acontecia a dança do quimbete (Sobrinho, 1990), uma espécie de batuque, de procedência banto. A banda de música é uma tradição cultural muito arraigada.

O carnaval concepcionense segue as linhas gerais da folia momesca de outras cidades do Campo das vertentes. Para os limites desta postagem o foco recai sobre o Bloco do Boi, que na atualidade faz a abertura do pré-carnaval. Abre-se um parêntese para reafirmar o afamado conceito de animação do pré-carnaval de Conceição da Barra de Minas.

A descrição que se segue é baseada na observação in loco, da saída na via principal, Centro da cidade, desde as imediações da Prefeitura Municipal até o Largo da Igreja Matriz, do Bloco do Boi, na noite de 29 de janeiro de 2026, quando, pouco após as 21 horas, ocorreu seu desfile.

Em essência é um rancho de boi, bastante simplificado na estrutura: apenas o boi, que segue na dianteira, ao som de uma charanga de metais que lhe acompanha. Detalhando, o boi é do tipo “de montar”, ou seja, é aberto por cima, de modo que o dançante que lhe dá movimento o adentra como se o cavalgasse e, portanto, permanece com o corpo exposto da cintura para cima, e tampado dentro do boi, da cintura para baixo. A estrutura atual é de vergalhões de ferro, cobertos de tecido, mas no passado era um balaio de taquara. Na traseira do boi, sob a armação, vai escondida uma garrafa plástica cheia de areia, amarrada na estrutura, que funciona como contrapeso, para contrabalançar o peso da cabeça do boi, que é formada por uma caveira de animal, enfeitada. O “couro” do boi é de tecido estampado (florido), com um babado enfeitado por sequência de fitas de cetim pendentes, de diversas cores.

A charanga é formada por músicos locais, não a banda completa, mas contém trompetes, trombones, saxofone, tarol e bumbo. Durante todo o desfile tocam apenas marchinhas carnavalescas.

Pessoas diversas, fantasiadas ou não, alegremente acompanham o bloco na retaguarda da charanga, cantarolando as conhecidas marchinhas e dançando balanceado ao seu ritmo.

Em Conceição da Barra de Minas não foi observado nesta ocasião as típicas correrias que os bois habitualmente provocam. Por assim dizer, é um boi tranquilo, de dança calma, airoso, com movimentos delicados. Alguns avanços e recuos simulam um início de ataque, mas na verdade o boi só encosta a cabeça de leve na pessoa, muito mais cumprimentando-a que propriamente atacando.

Em diálogo com o funcionário da Prefeitura, Anselmo Ananias, atual organizador do Bloco e quem conduz a alegoria do Boi, narrou que participa há cerca de dez anos. Anteriormente o Bloco foi fundado há aproximadamente 40 anos por “Cicinho Torresmo”, de início ligado ao Bairro Santo Antônio. Mais tarde o Bloco foi vinculado ao bairro Alto do Cristo, época que segundo o informante teria recebido apoio de Maria Naura. Em sua narrativa, esses esforços entre organizadores e apoiadores visam não deixar o Boi desaparecer. Relatou também que o Bloco do Boi sempre foi do jeito como ainda se processa, com a banda de marchinhas e o boi de cavalgar. As únicas diferenças é que no passado era mais concorrido, com mais gente prestigiando e havia a figura de um Toureiro.





Referências

IBGE. Portal Cidades: Conceição da Barra de Minas. 2026. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/conceicao-da-barra-de-minas/panorama  Acesso em 22 fev. 2026.

SOBRINHO, Antônio Gaio. Memórias de Conceição da Barra de Minas. Belo Horizonte: Imprensa Universitária, 1990. 253p. il.  

Créditos

- Texto, fotografias e vídeo: Ulisses Passarelli.  

Notas

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Festa do Rosário em Conceição da Barra de Minas, 2016

O imenso ciclo de festas congadeiras em honra ao rosário continua na região e pelas vizinhanças. Este fim de semana, dia 23 de outubro, foi a vez da comunidade de Conceição da Barra de Minas, comemorar seu dia maior (*).

Precedido de um tríduo, nesse dia a praça diante da histórica igreja estava com ampla movimentação de concepcionenses e visitantes, reinando a concórdia e a boa ordem do ar festivo. O mastro demarcava no largo o espaço do sagrado, sinalizando o domínio da cultura popular nesse festejo. De seu topo pendiam cordões floridos descendo do quadro do registro. A beleza singela desse elemento simboliza para o dançante o marco do início dos festejos e o elemento telúrico que carreia graças do infinito ao plano terrestre: 

"Lá do céu tá caíno fulô!
lá do céu tá caíno fulô!"
Lá do céu, cá na terra,
Ôh... tá caíno fulô!"

Fulô é corruptela de flor e mais que isso, é sinônimo e "eufemismo" de graça. Graça gasta eufemismo? O congadeiro tem sua poesia própria. 

O congado do senhor Vicente Cirilo Ribeiro ("Vicente Cristino") subiu desde cedo do Bairro São José, que o sedia. O capitão e seus soldados são assaz conhecidos na região toda pela excelência de seu catupé, que tem a bandeira do Rosário, e, mais que isso, pela educação aprimorada, gentileza, forte devoção e espírito de irmandade. É o grande anfitrião, que de braços abertos acolhe a todos. 

Os grupos visitantes vão chegando e são acolhidos no largo: vieram de Prados, de Ritápolis, de Tiradentes e São João del-Rei/Santa Cruz de Minas. O bom café foi servido. 

De retorno, foram acolhido na igreja onde teve vez a celebração de uma animada e bem celebrada missa inculturada, tão propícia a esse evento religioso. A igreja lotada se engalana de fitas e flores; o batuque do congado domina a sonoridade; o Revmo. Pároco Padre Saulo José Alves, prima ao presidir a celebração, pela qualidade evangélica, simpatia e respeito pela cultura. Seu incentivo pode ser sentido o tempo todo e em verdade abre as portas da continuidade da tradição. Com ele segue ao comunidade. Nos vértices do triângulo desse patrimônio imaterial estão o padre, o capitão e o povo; a redor, como num círculo, a Prefeitura, que por meio de sua Secretaria de Cultura é forte apoiadora do evento. Eis a receita do sucesso e a esperança de continuidade. Quem dera em todo lugar fosse assim...

Ao final da missa, uma rasoura antecedeu ao almoço. 

Este foi marcado pela fartura, bom tempero e confraternização, servido numa escola da cidade. 

Após a refeição e os agradecimentos, um cortejo se formou rumo às imediações da Igreja de Santo Antônio, onde o rei e a rainha aguardavam seus súditos, cingidos de capa, coroados, de cetro à mão, com direito à regalia do guarda-sol. Foram saudados e conduzidos ao rosário, onde o padre os recepcionou, agradeceu, abençoou e adentraram ao templo para o ritual da chamada, no meio da tarde.  

Então os congadeiros visitantes começaram a se despedir, "até para o ano, se Deus quiser". Os congadeiros da terra ainda tinham mais função: logo mais, às 18 horas participaram da procissão. 

No rosário o devoto se encontra e realiza. No rosário a cultura fervilha. Este foi o segundo ano consecutivo que Conceição da Barra de Minas festejou com a presença de guardas visitantes, pois antes a festa era limitada ao congado local. 





Fotos 1 a 5 - Mastro de Nossa Senhora do Rosário 
fincado na praça diante da igreja da mesma invocação:
feito de um bambu verde, encimado pelo quadro, 

com cordões floridos como ornamento, demarca o território
sagrado da cultura popular, 

objeto devocional do congadeiro que guarda por ele o maior respeito. 
Foto 6 - A Igreja do Rosário recepciona os congadeiros visitantes. 

Foto 7: o capitão anfitrião: rosário é fé, alegria, união, respeito, cultura. 
Foto 8 - Moçambiqueiros. 
Foto 9 - Exemplar significativo do patrimônio cultural de 
Conceição da Barra de Minas.  

Foto 10 - Congadeiras de Ritápolis. 

Foto 11 - Congado de Conceição da Barra de Minas diante da Igreja do Rosário,
no momento da rasoura. 

Fotos 12 e 13 - Capitão de São João del-Rei saúda o congado de Tiradentes. 
Foto 14 - Congadeiros (as) descem para o almoço. 

Foto 15 - Dentro da cozinha, o capitão de moçambique entoa sua jomba de gratidão
pelo alimento recebido. A equipe de cozinheiras segura a bandeira da guarda. 
Foto 16 - Rei e Rainha visitantes, da cidade de Prados. 
Foto 17 - Reinado na rua, em marcha sob o guarda-sol,
escoltado e acompanhado por congadeiros.
Ao fundo a Igreja de Santo Antônio de Pádua. 


Foto 18 - Missa inculturada na Igreja do Rosário:
congado anfitrião faz animação musical.

 Notas e Créditos

* No mesmo dia aconteceu a Festa do Rosário na comunidade de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno (São João del-Rei), com a participação de sua congada centenária. 
** Texto: Ulisses Passarelli
*** Fotografias: Iago C.S. Passarelli, 23/10/2016

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Festa do Rosário em Prados, 2016

Desta vez foi Prados a comemorar Nossa Senhora do Rosário com as danças congadeiras. Tem festa em honra a esta invocação mariana em muitos lugares entre setembro e novembro, embora outubro seja especialmente nominado "Mês do Rosário" e o dia específico da santa seja 07 de outubro. Esta extensão temporal dos festejos vem a calhar para as guardas de congado pois torna possível que viajem para muitas localidades nesse período para participar de várias festas. Dentro dessa perspectiva, no último domingo, dia 16, o congado de Prados recepcionou os visitantes de Resende Costa, Coronel Xavier Chaves, Conceição da Barra de Minas e São João del-Rei, que se irmanaram no mesmo objetivo laudatório.

Desde já se diga de passagem que o cenário encanta aos olhos e estimula a contemplação: um belo casario histórico evocador da arquitetura do ciclo do ouro, muito bem cuidado, ruas limpas, o povo prestigiando nas esquinas, calçadas, alpendres, varandas, sacadas, no adro da igreja... a festa envolve o pradense e o visitante.

Prados surgiu das bateias, almocafres, carumbés, das grupiaras e cascalheiras, do trabalho aurífero, por volta de 1704. Tricentenária, pois, se sintoniza com Tiradentes e com São João del-Rei para compor um conjunto de cidades históricas das Vertentes, as três coetâneas, com pouca diferença de data, alvo de discussões infindáveis entre os especialistas.

Do êxito dessa festa também se deve boa percentagem à dedicação dos congadeiros daquele município, que mobilizando a comunidade tem se esforçado intensamente para manter a tradição, desde que foi retomada no começo da década passada, posto que havia paralisado.

E, outro tanto, se deve ao pároco, Padre Dirceu de Oliveira Medeiros, entusiasta consciente do valor da cultura popular, cujo apoio e respeito que nutre aos grupos culturais bem serviria de modelo a ser seguido por todo o clero.

Curiosamente nessa cidade a festa se desenvolve no seu dia maior na parte da manhã; um tanto original, posto que noutros lugares é à tarde. O modelo agrada posto que logo após o almoço libera os congadeiros para retorno às suas casas, sendo bem menos cansativo, poupa-os do imenso calor da tarde que se verifica nessa quadra do ano e ainda do risco de chuvas pesadas pegarem a procissão de surpresa no meio da rua.

Assim sendo, logo após a missa matutina, de caráter festivo, muito concorrida, na imponente Matriz de Imaculada Conceição, cada congado agrupado no extenso adro, adentra cantando e dançando na nave da igreja, sem pressa, desenvolvendo sua louvação e lá dentro, recebe do sacerdote a bênção e é aspergido por água benta, sob aplausos dos fiéis. Saem pela porta lateral e de volta ao adro se organizam em cortejo. Neste ano observou-se todos os catupés na dianteira e o moçambique atrás, na retaguarda, como de costume, fechando. Cruciferário na frente, ao meio, porta-lanternas abrindo cada ala da procissão, que segue para a bucólica Igreja do Rosário, levando os andores de São Benedito e de Nossa Senhora do Rosário, sob os cantares e tambores.

Serpenteando pelas antigas ruas, dos imponentes casarões os moradores apreciam, aplaudem, fotografam. Por toda parte se nota a alegria e a fé das pessoas, rezando com seus terços na mão, passando contas e mais contas, balbuciando ave-marias na intensão de...

A chegada ao adro do rosário é especialmente festiva e o sino anuncia efusivamente a entrada do cortejo. Dois mastros estão ali fincados, estampado no alto São Benedito e a Senhora do Rosário. Deles parte ornamentação até a igreja. Os congados lotam o adro e o povo junto a ouvi-los. Cada terno faz sua saudação e adentra o templo com toda fé e respeito, expressa na plenitude de sua musicalidade. As imagens também dão entrada e a palavra sacerdotal enaltece a santidade e parabeniza os esforços conjuntos em prol da comemoração. O incentivo é algo essencial. 

Findas as passagens de cada um na igreja, seguem para o almoço coletivo no pátio da escola próxima, preparado com o carinho de costume por uma equipe de cozinheiras, que por fim recebem a gratidão dos versos e beijam as bandeiras de cada guarda. 

Os congadeiros se confraternizam e despedem, "até para o ano, se Deus quiser!"

Prados é uma cidade que se tornou afamada por seu patrimônio cultural. Também pelo artesanato, de que é um centro muito significativo. As peças em madeira, os típicos bichos entalhados, são muito primorosos. O trabalho em couro vem de longa data - selaria, produção de calçados. O carnaval se agiganta em animação pelos desfiles e pelo tão arraigado boi-mofado. As festas religiosas transcorrem com brilhantismo. A música é uma marca da cidade, sobretudo por sua afamada corporação musical. Pelo Natal até o Dia de Reis, é a vez das folias, seja a local, seja a distrital das Folhas Largas, tão antiga. A Ponta do Morro, onde termina a Serra de São José está logo ali, com uma riqueza natural notável. História, cultura, hospitalidade. Muito se poderia apontar de Prados, cidade que merece ser conhecida e preservada em todos os sentidos de seu rico manancial. 

Igreja de Nossa Senhora do Rosário enfeitada e com mastros,
 no dia maior de sua festividade. Prados. 

Capitão de moçambique saúda capitão de catupé: respeito e consideração
são premissas na Festa do Rosário. 

Congado de Resende Costa. 

Congadeiros de Prados no adro da Matriz da Conceição. 

Capitão do congado de Coronel Xavier Chaves.

Congadeiros diante do andor de São Benedito. 

Congadeiro se persigna diante da imagem de São Benedito.
Sanfoneiro e capitão da guarda de Conceição da Barra de Minas. 

Rei e Rainha no adro do Rosário. Prados. 
Detalhe do mastro de São Benedito. 

O sino anuncia, congrega, festeja... Torre da Matriz de Prados. 

Pessoas observam da balaustrada do adro do Rosário
a chegada da procissão.

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotografias: Iago C.S. Passarelli, 16/10/2016

domingo, 27 de março de 2016

Cachaça: uma dose de cultura popular


"Aprecie com moderação"! Antes de tudo é sempre útil alertar que este blog registra as práticas de uso de substâncias como remédio não para recomendar seu uso, mas tão somente por seu valor etnográfico. Da mesma forma um texto dedicado à cachaça não é um incentivo ao consumo e somos solidários ao tratamento do alcoolismo. A cachaça aqui figura por seus desdobramentos culturais no campo do folclore brasileiro.

Todo mundo diz e, de fato, a cachaça é a bebida nacional. Aguardente de cana de açúcar, que o povo conhece Brasil afora por várias alcunhas. Em São João del-Rei e municípios vizinhos, por exemplo, é corrente a sinonímia: birinight, branquinha, marvada, canjibrina, moça branca, parati, danada, marafa (o), pinga, uísque de pobre, água que passarinho não bebe, caninha, timbuca. Beber cachaça (e oportunamente outras bebidas) é... : matar a sede, tomar um gole, chamar uma no peito, molhar a palavra, tirar a poeira da garganta, mandar uma pra dentro, lubrificar a goela, tomar uma talagada, afogar as mágoas, bochechar uma, tomar umas canas [1], além de tantas outras expressões pitorescas. O bebedor inveterado desta aguardente é o cachaceiro, pingaiada, pudim de cachaça, bebum, pé inchado. Estar bêbado é estar grog, ficar ruim, mais pra lá que pra cá, noutro mundo, tombando, bebin' ...

Tantas palavras e expressões para indicar algo ou uma situação consequente só revelam sem sombra de dúvidas a sua imensa popularidade.

A história dessa bebida se mescla de forma indelével à história nacional. Nos mais diversos estados, seu uso é tão arraigado que se perde na distância temporal. Há registro, por exemplo, dado por Antônio Gaio Sobrinho (2013, p.38-39), de uma carta do Rei de Portugal ao Ouvidor-geral Valério da Costa e Golveia, datada de 18/11/1715, a qual chegou ao conhecimento da Câmara de São João del-Rei para as providências cabíveis, que diz expressamente:

"Faço saber a vós Ouvidor Geral da Comarca do Rio das Mortes que Eu hei sido informado que nas Minas se tem fabricado muitos Engenhos em que se destilam Agoas Ardentes seguindo-se da multiplicação deles um dano irreparável a meu serviço e real fazenda e ao sossego dos moradores delas pela inquietação que ocasionam nos negros esta bebida, privando-se também do seu serviço as mesmas minas, ocupando-se nos ditos engenhos um inumerável número deles."

Ordena então que não se consinta a instalação de novos engenhos na comarca. Mas a cachaça resistiu à proibição sobre os engenhos. O mesmo autor oferece outro registro interessante no seguinte documento:

"Em 20 de janeiro de 1786 - Registro de uma carta que a Câmara escreveu a José Dias Mama Rosa, morador do Distrito da Conceição, convocando-o a vir prestar contas a respeito do pagamento do Subsídio Literário incidente sobre as águas ardentes" (p.98; grifo do próprio autor)

"Em 31 de dezembro de 1787 - Registro de uma certidão do manifesto das águas ardentes do ano de 1779, onde consta ter-se manifestado pelo rendimento do Subsídio Literário, imposto às mesmas águas ardentes, quarenta e quatro barris de água ardente de oito canadas cada um produzidos no engenho de Dona Maria Leme, da Conceição da Barra." (p.98; grifo do próprio autor)

O local citado é a atual Conceição da Barra de Minas, à época distrito são-joanense. O sobrenome Leme revela uma das mais tradicionais famílias paulistas antigas, ligadas ao movimento do bandeirismo. O sobrenome Mama Rosa batizou uma localidade daquele município.

O Reverendo Robert Walsh, irlandês que na terceira década oitocentista visitou o Brasil, informou sobre a cachaça, a partir de suas observações no Rio de Janeiro, então nossa capital: 

"O povo em geral, e especialmente os negros, toma cachaça, um tipo inferior de rum, destilada da cana-de-açúcar. É uma bebida tão barata e acessível que os estrangeiros, particularmente os marinheiros, são grandes consumidores. Grande parte da má conduta e infortúnio dos alemães e irlandeses origina-se aí, especialmente com relação aos últimos que, quando recebiam rações de comida de má qualidade, intragáveis de se comer, trocavam-nas por cachaça, que os embriagava rapidamente. Ela, porém, não é uma bebida prejudicial oi intragável; no inverno e na estação chuvosa é geralmente considerada como um saudável antídoto contra os efeitos do frio e da chuva." (WALSH, 1985, p.218)

Sua citação apesar de inferiorizá-la em relação ao rum, por outro lado, demonstra a popularidade da cachaça e como ela conquistou as graças dos estrangeiros. 

Escrever sobre a cachaça é um desafio capaz de render um livro substancial. Traçar seu simples panorama cultural numa postagem é uma temeridade, pois sempre faltará muito a se dizer. Mesmo correndo este risco é preciso rememorar que esta bebida se liga ao ciclo econômico da cana de açúcar, sua matéria prima, que teve imensa importância no país. Teve grande vigor desde o século XVII e depois de altos e baixos frente à economia, ainda persevera teimosa Brasil afora ganhando ares mais nobres e já vira produto de exportação. Ao lado dos grandes engenhos estava um alambique, destilando o fermentado da garapa para gerar a cachaça. Em torno do engenho e das plantações de cana estava o trabalhador braçal, desde o regime escravocrata até hoje, desenvolvendo não só o produto em si como também o seu reflexo cultural [2]:

"Põe cana no engenho,
deixa moer!
Meu amor está doente
não sei se é pra morrer...

Põe cana no engenho,
deixa passar!
Meu amor foi embora
não sei se vai voltar..." 


"Mestre Domingos,
que veio fazer aqui?
Vim buscar meia pataca
pra tomar um parati."

O cancioneiro folclórico está repleto de versos que se referem a engenhos, cana, canavial, cachaça. Existe até mesmo uma dança rural chamada engenho-novo.

Interessante relembrar que até mesmo o nome comercial de muitas marcas de cachaça traz a presença cultural: umas trazem sobrenomes familiares (por vezes de longa tradição na produção), outras o de lugares, ainda de sensações ao tomá-la e ainda, algumas até divertidas, pitorescas e irônicas, por vezes inimagináveis, mas que de fato são estratégias de marketing. Não é raro que o próprio rótulo acompanhe essas características e acaba por se tornar uma atração à parte por sua arte e há mesmo quem colecione garrafas de pinga em razão de seus rótulos, alguns bastante criativos que fazem alusão ao complexo cultural desta bebida. 

Existe uma busca frequente pela cachaça de boa qualidade e por força de expressão a mais procurada é a "pinga da roça", assim chamada a de produção caseira, rural, a nível artesanal, conservando um grau de pureza pelo aroma e sabor. A boa qualidade dessa cachaça de produção limitada é tão reconhecida que o consumidor quando a quer no bar de costume, pede ao balconista: "_ traz uma da boa!" Como um código bem conhecido, já se sabe que o freguês quer a pinga da roça. Do lado oposto o apreciador põe a bebida de fatura industrial e ainda aquela que mesmo sendo "da roça", sofreu adulteração por parte de algum comerciante inescrupuloso, que em vista do rendimento do volume e do lucro acresce misturas ao líquido, alterando-o. "Pinga envenenada", dizem, que não raro deixa imensa ressaca após o consumo. Assim reza a cultura popular.

Existe até mesmo um santo protetor: atribui-se a Santo Onofre o papel de guardião do produtor de cachaça e do bebedor. O motivo aparente é apenas o fato de sua iconografia o representar tendo a tiracolo uma cabaça, a guisa de cantil, porque era um ermitão. O povo logo diz que é sua reserva de aguardente. Então, para agradá-lo e alcançar sua graça, diante da imagem oferecem vez por outra um copo que contém a bebida querida. Ao santo também se atribui o poder de trazer fartura então quando o desejo é este, é também usual colocar umas moedas no fundo do copo. Se a necessidade é intensa a imagem é inserida no copo e fica imersa na cachaça. Por isto, às vezes usam de imagens feitas de ligas metálicas em vez de gesso. Pequeninas imagens de Santo Onofre em chumbo são trazidas no bolso ou metidas na carteira. A estampa emoldurada em quadro por vezes é afixada em paredes de certos botequins [3].

Nos terreiros a tradição da cachaça perpassa sobretudo os trabalhos da linha esquerda, como bebida consagrada às entidades exus, seja diretamente usada durante os trabalhos ou nas entregas, nas Casas de Força ou nos pontos de seu domínio espiritual (cemitério, encruzilhada, linha do trem). No geral a cachaça é conhecida por marafa ou marafo no universo cultural dos terreiros. 

Já por esta relação com os exus certas pessoas temem aceitar cachaça da mão de outra pessoa e vai aí certa dose não só de cuidados preventivos mas também de discriminação. Fato é que o povo chama de "pinga temperada" à cachaça que supostamente foi benzida por alguém de terreiro, sendo muito temida como capaz de desarranjar a vida do sujeito que a tomar, que embarca então numa maré de azar e doença, infortúnio e declínio. Nada há nela que a possa identificar como tal, o que a pessoa maldosa teria feito foi apenas alterar a energia da bebida, para o lado maléfico, à custa de supostos poderes sobrenaturais. 

Neste sentido, nas folias e congados o responsável muitas vezes traz num embornal um cachacinha ao dispor do grupo, sempre ofertada com muita moderação, evitando assim propositalmente que bebam de outrem ou no botequim, onde creem exista muita carga ruim, energia negativa, que desarmoniza a companhia reiseira ou o terno do Rosário. Acreditam também que tomar uma pequena dose antes de começar a missão folieira ou congadeira fecha o corpo à entrada de males e perigos e da mesma forma ao encerrar, cortando as demandas para que não sejam levadas para casa, motivo de desequilíbrio para o lar. No mais é corriqueiro afirmar que a pinga tomada ao começar garante a afinação da cantoria, pois logo faz o sujeito pigarrear, retirando eventuais obstruções de muco das cordas vocais para um canto  mais afinado. Nas folias ouvimos muitas vezes que sem essa pinga de abertura, as vozes dos folieiros "não se encontram", ou seja, não se harmonizam no escalonamento da resposta ao verso solista do embaixador. Tantas outras vezes observamos que o folieiro ou congadeiro que não bebe molha a polpa do dedo na pinga [4] e passa na testa em cruz como se fosse uma água benta. Já o vimos também passarem na nuca, nos pulsos e tornozelos, pontos fracos, na intensão de "fechar o corpo". Tanto mais, esfregar pinga no couro da caixa ou tamborim o firma de modo a não rebentar nem desafinar. 

A pinga revela-se capaz de "fechar" não só o corpo como também o objeto à chegada dos maus ares. Protege também objetos como no caso da caixa. Outro exemplo: um veículo que está sempre inexplicavelmente dando prejuízo ao dono sem ser por falta de manutenção ou por estar por demais velho e desgastado, está sendo alvejado por inveja: arruma a roda, estraga o escapamento; conserta a partida, danifica o carburador... É mau olho! Alguém deseja aquele carro e não o pode comprar ou dá por mal empregado a pessoa ter tal bem. O remédio é a cachaça: despeja-se um pouco sobre os pneus, tendo o cuidado de fazer cruzado _ molha-se uma roda da frente da esquerda e a seguir a de trás da direita; depois a da frente da direita e por fim a de trás da esquerda, ou vice-versa, garantia da proteção invisível. 

Não bastasse, cachorro ou gato em casa adoentado, definhando, arrepiado, comendo muito pouco, tristonho, amuado: pinga-se uma dose de cachaça sobre a cabeça do bicho e ele soergue, retoma em um ou dois dias o comportamento normal. Explica-se: ter um animal em casa é bom, diz o povo, porque o mal que viria para o dono se desvia para o animal, que então se ressente. O ato de passar a cachaça em sua cabeça dissolve esse fluido ruim e liberta-o desse terrível sortilégio, sem o devolver ao dono. 

Seja nos bares para servir ao gosto da freguesia seja em casa, é costume também preparar certas garrafas de pinga acrescentando uma porção de ingredientes naturais à bebida pura. Assim, o cipó milhomem adicionado em cavacos à cachaça, além de lhe emprestar um leve sabor amargo, serve segundo a crença de afrodisíaco e para fechar o corpo à entrada de maus fluídos, uma alusão ou alegoria referente ao nome do vegetal, "milhome", "milhomem", "mili-home": mil homens! Também é creditado o poder de rejuvenescimento sexual à pinga com uns pedaços de nó de cachorro, madeira que deixa a aguardente bem avermelhada. A pinga com carqueja diz que é boa para o fígado; com jurubeba também, embora seja mais usual esta no vinho; pinga com semente de sucupira indicam para o estômago e dores articulares. Outras mais não tem indicação medicinal definida na cultura popular mas são saborizadas com freguesia certa: cachaça com pedaços de coco da baía, com cavacos de lascas de sassafrás (que confere um interessante gosto amadeirado e intenso aroma), canela, abacaxi, gengibre, casca de limão (principalmente da variedade taiti), etc. Cada qual feita em dosagem sem exageros para não mascarar por demasiado o sabor original da cachaça, no que reside um certa prática.

Outro remédio folclórico é bochechar com cachaça para aliviar dores de dente. Acreditam também na pinga como vermífugo, daí mais uma alcunha, "mata-bicho":

"Senhora dona da casa,
seus agrado, nem por isso...
quanto tempo eu tô cantando,
nem café, nem mata-bicho!"

Assim resmunga o brincalhão palhaço da folia de Reis ao anfitrião por estar se apresentando há muito tempo e não obstante o riso que desperta (o agrado), não recebeu nada em troca, nem mesmo algo que beber. Assim ouvimos em São João del-Rei, cidade de múltiplas faces culturais.

Em tempo, crê o povo que o mata-bicho é mais eficaz se ingerido em jejum! Aliás, é de se lembrar que um dos sinônimos de lombriga (Ascaris lumbricoides) é "bicha". Sobre o mata-bicho informou Waldemar de Almeida Barbosa que:

"disenteria aguda degenerava quase sempre em ulceração do intestino grosso e gangrena retal. Este era o temido 'mal de bicho', que Gomes Ferreira diagnosticava corretamente e que reparou ser predominante no vale do Rio São Francisco. Sendo melhor prevenir do que curar, ele recomendava limpeza corporal e o banho diário como a melhor defesa, outra defesa estando na dose de aguardente de cachaça, logo pela manhã, como primeira coisa a tomar. Este último hábito sobrevivera em ambos os lados do Atlântico Sul; daí o nome 'mata-bicho', com que é conhecido em Angola como no Brasil." (p.248) (...) "convém frisar que era bem grande o prestígio da pinga como medicamento. Os próprios médicos de Portugal declaravam-na benéfica à saúde e útil na cura de certas enfermidades." (p.249). 

Como não poderia deixar de ser a cachaça tem seu lado profano. Povoa o anedotário fartamente. Por toda parte ouvimos piadas de bêbados. O conto popular mais lendário também tem seus exemplares, sobretudo na assaz conhecida narrativa que Deus criou a cana e o diabo, a cachaça; Aquele fazendo algo doce como o céu, o opositor a bebida que queimava como as caldeiras do inferno, desvirtuando a obra do Senhor.

A pinga é parte acompanhante indispensável de uma parcela da culinária típica. Após a pinga se come algo à base de carne como "tira-gosto". Essa palavra que tantas vezes pronunciamos é a expressão que literalmente se refere a mascarar o queimor da aguardente, o gosto de seu álcool. Há bares especializados em tira-gosto. A via oposta também existe. Então se o apreciador toma um prato de mocotó ou de dobradinha logo diz que seu gosto "pede uma pinga" para acompanhamento. Caso contrário, o sabor parece incompleto... 

Noutros tempos, quando dos mutirões de capina das roças, os trabalhadores ao concluir a tarefa e entregar o resultado na mão do proprietário da terra por meio do ritual de "entrega da bandeira", recebiam deste cachaça em fartura para comemoração da conclusão dos serviços. Em oposição, quando um fazendeiro ou sitiante não cuidava das plantações capinando-as nem permitia que em suas terras ocorressem os mutirões, se acaso chegasse o natal e a roça ainda não estava carpida, colocavam no meio dela às escondidas e em retaliação, um boneco de trapos chamado "joão do mato". Esse boneco tinha de ordinário uma garrafa de pinga ao seu lado e uma enxada velha em frangalhos. A simbologia no caso está claramente apontando para a preguiça, marcada pela bebida e pela ferramenta inútil. 

Nos pousos de boiadeiros, carreiros, mascates e tropeiros não faltava a pinguinha regando a boa prosa, a lembrança dos causos de assombração, das confusões por uma mulher faceira ao fim de um baile, a saudade de uma festa num arraial. No embornal do pescador vai a garrafinha. Quando se bate laje, os trabalhadores por fim ganham um "pão de sal" (pão francês) recheado de molho de carne moída ou de salsichas e café... e cachaça. Se não tiver não valeu a laje. Xingam, praguejam. Muitos o dizem, carregam as latas de concreto por causa da pinga que ganharão ao final. 

A pinga aquece espantando o frio nas montanhas de Minas, quando a neblina as encobre. Se a geada assola os campos e o retireiro tem de vir de madrugadinha ao curral esgotar uma vaca na ordenha, logo toma uma que é para "cortar a friagem". 

No verão, se uma chuva forte surpreende, para não deixar resfriar se toma uma cachaça...

Em tudo e por tudo a pinga é uma bebida incomum. Cambiando entre o sagrado e profano, entre a apreciação e o vício, entre a finalidade econômica e o simples prazer, ela constituiu o núcleo de um intrincado universo cultural. Sempre alguém lembrará um uso antigo, dos tempos do vovô, ou um emprego inusitado lá pras bandas de minha terra, quiçá de uma moda de viola que lhe decante as qualidades e desgraças, uma décima, uns versinhos do cancioneiro. E como na cultura popular cabe ao homem a fama de cachaceiro, e, uma vez bêbado, se mete em arruaças e vira alvo de comentários mordazes e admoestações, talvez por vingança da crítica feminina e dos conselhos do sacerdote, ou apenas por pilhéria, compõe peças assim [5]: 

"Quem quiser que o povo
devoto seja,
bota um boteco,
na porta da igreja...

As mocinha solteira 
de opinião,
debaixo da cama
tem seu garrafão...

As mulher casada 
que tem seus marido,
não bebe na vista,
mas bebe escondido...

O padre também 
com sua coroa, 
eu vi lá na venda
bebendo da boa...

Eu não falo mais 
pra não agravar,
mulher pra cachaça,
parece gambá..."  

1- Montagem com garrafas e copos descartáveis no calçadão
da Avenida Leite de Castro, São João del-Rei, comemorativa
do Dia Nacional da Cachaça. 13/09/2014. 

2- Inscrição "Troco por Pinga" na lateral de um veículo parado em
uma rua de São João del-Rei. 22/02/2016.

 
3- Garrafa de cachaça revestida de trançado de palha
e cuias para bebê-la. São João del-Rei, 04/11/2014.

 
4- Garrafa de aguardente com copo, posto em oferenda junto
a uma árvore na Serra do Lenheiro, São João del-Rei. 28/04/2017.
 

5- Acréscimo de lascas de sassafrás na cachaça.
Adquirida no Mercado Municipal de São João del-Rei, 14/05/2017.

 
6- Canela-sassafrás, Brumado de Cima (São João del-Rei), 11/07/2015:
lascas da sua madeira são tradicionalmente usadas para aromatizar e saborizar
a cachaça. 

7- Canela-sassafrás, Brumado de Cima (São João del-Rei), 11/07/2015:
lascas da madeira são tradicionalmente usadas para aromatizar e saborizar
a cachaça. 

8- Sucupira, Brumado de Cima (São João del-Rei), 12/07/2015:
as sementes são tradicionalmente usadas para aromatizar e saborizar
a cachaça. 

9- Sucupira, Brumado de Cima (São João del-Rei), 12/07/2015:
as sementes são tradicionalmente usadas para aromatizar e saborizar
a cachaça. 

10- Antigo quadro contendo estampa de Santo Onofre. 
Distrito de São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei/MG). 
11/10/2015. 

Créditos

- texto: Ulisses Passarelli. 
- fotografias 1, 2, 4 e 5: Ulisses Passarelli; fotografia 3, 6-9 : Iago C.S. Passarelli.


                                                                             Notas 

[1] Observar atentamente que a expressão popular "tomar umas canas" indica beber cachaça e "tomar cana" é estar preso, ir para a cadeia, "entrar em cana". O sentido contextual contribui para a interpretação.

[2] Informante: Elvira Andrade de Salles, 1998, Santa Cruz de Minas.

[3] No complexo sincretismo religioso afro-brasileiro, Santo Onofre em algumas concepções se alinha  sincreticamente com Ossãe, orixá das matas, senhor das folhas, das ervas medicinais e plantas sagradas, a quem se pede licença antes de colher qualquer vegetal com este objetivo.

[4] Frisamos o detalhe da polpa do dedo, pois habitualmente não se molha a unha, que supõem cruzar as energias, dando efeito negativo, contrário ao esperado. 

[5] Informante: Aluísio dos Santos, São João del-Rei, Centro, 1996. Dado pelo próprio como muito antigo. Quadras são cantadas bisadas a cada dois versos.

- Texto ampliado e com acréscimo de fotografias em 21/05/2017.

- Revisão: 15/05/2025. 

Referências Bibliográficas

BARBOSA, Waldemar de Almeida. A decadência das minas e a fuga da mineração. Belo Horizonte: Centro de Estudos Mineiros, 1971. 264p. 

SOBRINHO, Antônio Gaio. Fontes históricas de São João del-Rei. São João del-Rei: UFSJ, 2013. 154p. 

WALSH, Robert. Notícias do Brasil: 1828-1829. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Ed. USP, 1985. p.222. 

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Virgem da Conceição: uma devoção histórica

Nossa Senhora da Conceição é um dos títulos mais populares e significativos dados à Virgem Maria, cuja festa litúrgica a 08 de dezembro, já se comemora desde pelo menos o século VIII. Tal sua intensidade que em 1476 o Papa Sisto IV definiu sua comemoração como festa universal da Igreja. 

Nos idos tempos coloniais no Brasil, Nossa Senhora da Conceição era o título mariano sob o qual a Virgem Maria era com muita frequência invocada para a proteção da casa grande, do senhorio, da sede da propriedade, em contraponto a Nossa Senhora do Rosário, protetora da senzala, dos escravizados. 

A raiz de tal devoção estava em Portugal. O povo já nutria pela Virgem da Conceição uma acentuada devoção e a levaram para o território colonial muito cedo, conforme apareceu no Brasil quinhentista. Em 1646 o Rei Dom João IV dedicou o reino português e a esta devoção. Assim sendo, nos dizeres de Megale (1986) em quem nos baseamos... "em todo o território lusitano, assim como em suas colônias, a festa da Conceição de Maria tornou-se oficial e obrigatória". Quando o Brasil se tornou independente, ainda segundo esta autora, Dom Pedro I a proclamou Padroeira do Império Brasileiro [1]. A expressão devocional ganhou mais impulso e direção com a proclamação do Dogma da Imaculada Conceição pelo Papa Pio IX em 1854. 

No Estado de Minas Gerais é muito frequente a existência de igrejas e capelas a ela consagradas, quando não apenas um nicho ou altar lateral. Assim, na tradicionalista região Campo das Vertentes não poderia ser diferente. Em São João del-Rei já em 29/03/1713 se obtinha uma provisão do Bispo do Rio de Janeiro, Dom Francisco de São Jerônimo, para edificação de uma capela desta invocação no Matola (proximidades de onde hoje está o 11º BI de Montanha, Regimento Tiradentes), em terras do Mestre de Campo Ambrósio Caldeira Brant, portanto, ainda na fase de arraial, pois a elevação à vila só se daria em dezembro daquele ano, informa Cintra (1982). Este autor nos concede outras informações acerca desta capela: em 1731 numa passagem curiosa aos olhos atuais, o Vigário da Vara, Alexandre Marques Vale, comparece à Câmara a 11 de julho para reaver o sino da dita capela, sequestrado pelos vereadores, que enfim lhe devolveram a peça sacra; a 03/03/1736 nela casou-se o famoso contratador de diamantes Felisberto Caldeira Brant, com Branca de Almeida Pires. Felisberto era filho do proprietário Ambrósio Caldeira Brant; a 25/10/1765 uma provisão concede ao Capitão-mor Manuel Antunes Nogueira autorização para prosseguir em uso desta capela, que pretendia, junto com sua esposa, Rita Luísa Vitória de Bustamante, converter da condição de ermida particular em capela pública, concretizado na década seguinte. A Casa dos Brant foi a sede provisória da primeira Câmara de Vereadores e nela permaneceu funcionando por alguns anos. 

Esta primitiva capela já não existe desde longa data. Um registro importante de Gaio Sobrinho (2010), possivelmente referente a esta mesma construção, é este:

"ATA SES 28: EM 12 DE JANEIRO DE 1840 - Leu-se um requerimento do cidadão João Ribeiro Bastos (encarregado das chaves da Capela de Nossa Senhora da Conceição) dizendo: a qual ameaçava ruína onde já não podia haver imagem por chover dentro e que como a mesma fazia parte dos próprios da Câmara, resolvesse a mesma o que lhe parecesse acertado. Posto em discussão, deliberou a Câmara que se remeta ao fiscal para mandar demolir a dita capela no caso de ameaçar ruína fazendo arrematar o (madeirame), inteligenciando-se previamente com o Reverendo Vigário da Vara quanto à demolição."

Segundo reza a tradição, a imagem desta capela se encontra em oratório na sacristia da Igreja de São Francisco de Assis nesta cidade, informou o "Piedosas e Solenes Tradições de Nossa Terra", excelente trabalho realizado pela Equipe de Liturgia da Catedral do Pilar. As festividades em São João del-Rei tradicionalmente acontecem na Igreja de São Francisco de Assis, replicando que no Brasil os franciscanos tiveram um papel fundamental na difusão da devoção à Virgem da Conceição. Naquele majestoso templo, transcorre sua solene novena e festa, com toda toda pompa, fé e musicalidade inerente às comemorações religiosas no Centro Histórico da cidade. A parte musical está a cargo da Orquestra Ribeiro Bastos, que executa obras sacras do Padre José Maria Xavier, de Carlos dos Passos Andrade e de Francisco Manuel da Silva, segundo a mesma fonte bibliográfica. Já é parte da tradição a alvorada festiva às seis da manhã, com toques de sinos, espocar de fogos de artifício e tocata da Banda Municipal Santa Cecília.

Sabe-se que no passado já existiu em Matosinhos um festejo dedicado à Imaculada Conceição [2].

Outro ponto de comemorações na cidade é na Igreja Matriz de São José Operário, no Bairro Tijuco, onde existe fervorosa devoção à Imaculada Conceição, haja vista que em 1938, foi construída naquele exato local uma capela primitiva em honra a Nossa Senhora da Conceição, que, contudo, teve por ordem episcopal de Dom Helvécio Gomes de Oliveira seu orago alterado para São José, pois segundo dizeres do prelado a cidade já tinha várias igrejas dedicadas a Maria, como informa Viegas (1959). Assim foi feito mas a devoção permaneceu. A forma de comemoração variou ao longo dos anos em forma e intensidade, chegando mesmo ao caso específico de 2006, quando conforme observamos in loco, houve uma tentativa isolada de aproximá-la aos valores da cultura popular, com levantamento de seu mastro e a presença de vários congados. Houve reinado. Tudo foi possível graças aos esforços extraordinários da então festeira Maria Inês dos Santos Zim ("Lilia Sanfoneira"), a conhecida Mestra de Folia de Reis e Folia do Divino [3].

Ainda em São João del-Rei merece pleno destaque a existência da Igreja Matriz da Imaculada Conceição, na Colônia do Marçal, surgida a partir de uma capelinha primitiva erigida pelos colonos italianos, que deu lugar a uma igreja maior no início dos anos setenta. A obra de edificação da nova igreja demorou muitos anos, se entendendo por várias etapas. É mister enaltecer os esforços do atual pároco, Padre Antônio Claret Albino, que conduziu grandes melhoramentos na estrutura daquele templo, enriquecendo seus aspectos arquitetônicos e funcionais, bem como, trazendo estrutura ao adro. As festas da padroeira da Colônia são célebres ocasiões de fé, confraternização e congregação do povo católico da área do antigo núcleo colonial são-joanense. O movimento de barraquinhas também é afamado. 

É padroeira de Conceição da Barra de Minas, cujos primórdios devocionais remontam a 1724, ano da petição de licença para edificação da primitiva capela (Gaio Sobrinho, 1990). A igreja matriz é uma joia arquitetônica e artística e foi elevada a santuário diocesano em 13/06/2003. A partir daí a Festa da Conceição ganhou foro de jubileu naquela cidade. 

Também é padroeira da cidade de Prados, onde a devoção se estabeleceu provavelmente a partir de 1715, contando com imponente matriz e animadas e solenes festividades anuais (Vale, 1985). 

Segundo o jornal A Tribuna, em Curralinho de Prados, inaugurou-se a 8 de dezembro de 1918 a Capela da Conceição, graças aos esforços do Sr. Evaristo de Paula Resende. Houve missa, celebrada pelo vigário, Cônego A. Cardoso. Tocou a Banda de Música Santa Cecília, de Resende Costa, sob a regência do Maestro Capitão Christovão Gonçalvez Pinto. 

A são-joanense, Francisca Paula de Jesus, a Beata Nhá Chica (1810-1895), batizada na primitiva Capela de Santo Antônio, no distrito de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, era devotíssima da Virgem da Conceição, devoção que ajudou a difundir na cidade sul-mineira de Baependi, onde se radicou desde jovem, operando ali, no nome santo da Imaculada Conceição, muitas obras de caridade e preces em favor de muitos desvalidos e desorientados. Nhá Chica é considerada a construtora da igreja desta invocação em Baependi.

Nos terreiros o dia 08 de dezembro é comemorado com grande respeito e fortes expressões devocionais. Umbandistas e certas nações de candomblé festejam neste dia a Oxum, a doce orixá das águas das fontes e cachoeiras, que tem sincretismo com Nossa Senhora da Conceição [4]. É comum os médiuns se dirigirem às cascatas neste dia, ou às minas onde brota a mais límpida água, e fazerem aí rituais com cantos e oferendas, de ervas votivas (erva doce, camomila, girassol, etc), velas (amarelas), flores amarelas (rosas, crisântemos, alamanda e outras), frutos (sobretudo, melão amarelo) e doces (quindim). É típico a lavagem das guias e colares nas águas neste dia, propícias a descarregá-las de tudo quanto de negativo acumularam e a energizá-las da mais pura força sagrada. Banhar-se nestas águas neste dia é um preceito. Em muito terreiros é neste dia que os filhos de santo já devidamente preparados são batizados em plena natureza, nos poços das quedas d'água, ou realiza-se o rito do amaci.

Em alguns cantos uma alusão a este rito das águas persevera em cantos populares, como este, que coligimos em 1996 em Barbacena:

"Nossa Senhora da Penha
é madrinha de João,
eu também sou afilhado
da Virgem da Conceição."

Por fim é bom lembrar que o povo nutre grande confiança numa oração em especial dedicada a Maria, o Ofício da Imaculada Conceição, conjunto de versos para canto ou recitação, bastante prestigiados, que mesmo de origem remota no século XV ainda persevera no seio popular como oração poderosa de louvor, que a crença atribui o poder de combater todos os males.


Referências na Internet

Imaculada Conceição. In: Wikipedia, https://pt.wikipedia.org/wiki/Imaculada_Concei%C3%A7%C3%A3o (acesso em 03/01/2016, 07:42h)

Ofício da Imaculada Conceição. In: Wikipedia, https://pt.wikipedia.org/wiki/Of%C3%ADcio_da_Imaculada_Concei%C3%A7%C3%A3o (acesso em 09/01/2016, 14:40h)

Ofício da Imaculada Conceição. In: Salve Rainha, http://www.salverainha.com.br/Oficio_de_Nossa_Senhora.html (acesso em 09/01/2016 14:42h)


Referências Hemerográficas

A Tribuna, n.183, 02/01/1918, São João del-Rei. Acervo da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida.

Referências Bibliográficas

GAIO SOBRINHO, Antônio. São João del-Rei através de documentos. São João del-Rei: UFSJ, 2010. 260p. p.134.

GAIO SOBRINHO, Antônio. Memórias de Conceição da Barra de Minas. São João del-Rei: ASCOM, 1990. 253p.

CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. 2.ed. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1982. 2v. 

MEGALE, Nilza Botelho. 112 Invocações da Virgem Maria no Brasil: história, folclore e iconografia. Petrópolis: Vozes, 1986. 376p. p. 111-115.

VALE, Dario Cardoso. Memória Histórica de Prados. Belo Horizonte: [s.n.], 1985. p. 124 e ss.

VIEGAS, Augusto. Notícia de São João del-Rei. 3.ed. Belo Horizonte: [s.n.], 1959. 273p. p. 267-268.

PIEDOSAS e solenes tradições de nossa terra: novenas, tríduo, setenário, quinquena e meses. São João del-Rei: SEGRAC, 1997. v.2. p.230-246. 

Igreja Matriz da Imaculada Conceição em junho de 1999.
Bairro Colônia do Marçal, São João del-Rei/MG.
No adro, adiante da igreja um mastro dedicado a Santo Antônio.
 
Igreja Matriz da Imaculada Conceição em fevereiro de 2016.
Bairro Colônia do Marçal, São João del-Rei/MG.
Notar em relação à fotografia anterior, a edificação da torre, cúpula central, adro calçado, palmeiras,
pintura nova, dentre outros melhoramentos.    

Nossa Senhora da Imaculada Conceição,
imagem do acervo da Venerável Ordem Terceira de São Francisco de Assis,
em exposição pública à veneração dos fiéis na Igreja de São Francisco de Assis
durante a Visitação das Igrejas, na Quinta-feira de Trevas (Semana Santa).
São João del-Rei, 2014. 


Créditos

-Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografias: Ulisses Passarelli (igreja, 1999 e 2016); Iago C.S. Passarelli (imagem da santa, 2014).

Notas 

[1] Só bem mais tarde, com o advento do regime republicano perde o posto de padroeira do Brasil para Nossa Senhora Aparecida... Título este aliás que se refere a uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, aparecida nas águas do Rio Paraíba do Sul. "Nossa Senhora da Conceição Aparecida". De forma semelhante o título de Nossa Senhora da Lapa se refere originalmente a uma imagem de Nossa Senhora da Conceição encontrada numa lapa (gruta) em Portugal. "Nossa Senhora da Conceição da Lapa".
[2] Ver: FESTA DA IMACULADA CONCEIÇÃO DE 1923
[3] Os esforços da festeira foram porém de certa forma de encontro às origens deste templo. Consta que quando de sua fundação, o Capitão de Congo José Francisco, à frente de sua guarda de congado, sediada na Rua São João (Bairro Tijuco), tocava pelas ruas angariando recursos para a obra de edificação. A este respeito vide a postagem:
[4] Em contrapartida Iemanjá, considerada no Brasil Senhora das Águas Salgadas, é festejada a 02 de fevereiro, dia de Nossa Senhora das Candeias ou de Nossa Senhora dos Navegantes. Em algumas linhas / nações a variação do sincretismo inverte estas comemorações de datas.

- Revisão: 10/05/2026.