O povo usa como processo empírico de cura, um número imenso de vegetais sob a forma de chás (decocção), infusões, esfregaço, unguentos ... Algumas pessoas se especializam na identificação das espécies medicinais. São os raizeiros, extratores de raízes curativas, coletores de folhas medicinais, sementes e cascas capazes de aliviar um mal, buscando no mato, pelos cerrados e florestas. Mas há também o hábito de plantar no quintal algumas espécies, por assim dizer domesticadas, tais como marcela, erva-cidreira, losna, pariparoba, confrei e outras. Uma farmácia na horta.
Este saber no país mescla influências das nossas grandes etnias formadoras e se transmite por várias gerações através da oralidade. Ainda achamos nos recônditos povoados senhoras que afirmam ter criado os filhos só com o chá da horta, as ervas do mato, sem tê-los levado ao médico. Certamente que não recomendamos semelhante prática, sempre temerosa, inclusive pelo risco de se usar plantas desconhecidas, vegetais tóxicos ou confundir espécies. Não é aconselhado o uso das plantas aqui citadas guiando-se apenas pelas informações escritas ou fotografias pelos eventuais riscos à saúde.
Contudo, o indicativo de uso popular deve ser coligido com atenção e merece cuidado e estudo, pois já tem revelado para a ciência farmacológica importantes princípios ativos, hoje usados na homeopatia e alopatia, com atividade industrial e comercial.
Em todas as regiões nacionais reside este costume tão arraigado. Esta página, além de citações eventuais, já dedicou outras postagens ao tema:
Remédios de Macaia e
Remédios do Zé Maria. Para além, algumas espécies tem o aspecto votivo, ou seja, tem uso religioso diversificado, sob a forma de banhos energéticos, defumações, bate-folhas e outros métodos, costumeiros sobretudo nos terreiros de religiões de matriz africana.
Para exemplificar e prosseguir no registro desta tradição popular, segue uma breve lista de algumas receitas populares regionais, a título de registro etnográfico.
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Chapéu de couro: infusão das folhas para problemas renais / banho energético, linha dos boiadeiros. |
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Língua de tucano: fervura com uma pitada de sal de cozinha, em gargarejo contra amigdalite. |
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Carqueja: chá ou esfregaço em água para combater má digestão e reduzir resíduos metabólicos no sangue/ banho energético do Orixá Omolu. |
01- Expectorante (para aliviar peito cheio e tirar catarro sanguinolento): ferver junto cardo-santo, melão de São Caetano, chá-cravo (= alfavaca), um limão partido em cruz e 3 brotos de assa-peixe. Beber pouco a pouco, por vários dias [1].
02- Dor de dente: mastigar raiz do carapiá (caá-piá) sobre o dente afetado [2].
03- Para os rins (contra cistite, retenção urinária, dor no ato da micção): chá de folha de abacate [3].
04- Para abaixar pressão: tomar diariamente chá de folha de chuchu com broto de ameixa amarela (= nêspera).
05- Contra gripe: chá de folha de amora vermelha com limão rosa (= limão cravo ou limão capeta).
06- Contra sarampo e contra tosse: chá de flores de sabugueiro. O sabugueiro é uma erva de Omolu.
07- Contra tosse e falta de expectoração: fervura de flores de barbácia com leite, tomando bem quente.
08- Contra friagem de estômago: tomar morno chá de erva são joão (a planta inteira). Erva de São João é uma erva de Xangô.
09- Contra dor de estômago e azias frequentes: macerar flores de capuchinho (= flor de chagas) e beber com leite.
10- Contra gripe: chás de elevante (= alevante; branco ou roxo) ou de erva-terrestre (= erva-pedestre)[4].
11- Contra cólicas digestivas e gases: chás de poejo (branco ou roxo), manjerona, funcho, erva-doce (= canelinha), manjericão (branco e roxo).
12- Contra problemas cardíacos e hipertensão: chás de milindro e manjericão roxo.
13- Inflamações uterinas e das vias urinárias: pedaços do caule de cervejinha do campo, em infusão num copo de água, bebendo-se por nove dias [5].
14- Contra resfriado: “leite queimado” – açúcar caramelado ao fogo num canecão, sobre o qual se despeja leite, deixando-se ferver, quando então se adiciona três folhas de alfavaca e uma pitada de canela em pó. Beber bem quente e não apanhar friagem de jeito nenhum senão “estopora” (sofre choque térmico) [6].
15- Contra feridas: chá com treze flores de capuchicho (= flor de chagas)
16- Para os rins: ferver raiz anil do campo (= conta roxa) [7].
17- Para curar feridas de pele: tomar com parcimônia e fervura de folhas de muchoco com caroba. O mesmo preparo serve para se banhar as feridas.
18- Contra contusões e torções: raiz de gelol ou vique em preparado alcóolico tem o mesmo valor da arnica e da cânfora nas dores musculares. (Leva o nome de produtos farmacêuticos comerciais, devido à semelhança do cheiro. Tem duas variedades, distinguíveis pela cor das flores, brancas ou rosas);
19- Anti-anêmico: quina-cruzeiro (= quina de barranco): por a raiz no vinho branco seco e curtir por três dias. Tomar um cálice por dia.
20- Contra malária: beber infusão de casca de quina rosa.
21- Para os rins: raiz de jurubeba do cupim (= velame do cupim ou velaminho). Usado da mesma forma que a quina-cruzeiro.
22- Dores de estômago: bardana. Cortar pedaços da folha e mergulhá-las em um copo de água – ir tomando aos poucos e completando o volume da água.
23- Para os rins: bunda de mucama (capiçoba) - comer as folhas em forma de salada.
24- Pneumonia: fumo bravo fervido, que também serve de expectorante.
25- Para gripe: fervura de geribão (ou gervão).
26- Para os rins: jurubeba de árvore – infusão em água da fruta é usada para problemas renais sob forma diluidíssima por ser tóxica. Usar com muita parcimônia.
27- Para doenças uterinas:
artimijo (corruptela de artemísia), fervido.
28- Distúrbios menstruais e disenteria de animais: fervura de raiz preta.
29- Cólicas: ferve-se agoniada (toda a planta).
30- Problemas renais: chás de conta de lágrimas de Nossa Senhora e de cabelo de milho.
31- Assa-peixe: seu broto junto com a raiz do geribão, fervido e adoçado, serve para dor torácica;[8]
32- Goiaba: a folha fervida controla diarreia;
33- Sabão-gentio: lavar a cabeça com uma fervura de suas folhas combate a caspa (usar morno);
34- Uva do mato: tomada morna e sem açúcar tem função sobre os rins;
35- Jurubeba do cupim: abre apetite. Colocá-la de molho numa garrafa de vinho branco e depois de curtido tomar uma colher das de sopa antes das refeições;
36- Carne de vaca: suas folhas servem em banho morno para aliviar as varizes altas;
37- Insulina de folha: combate o diabetes, tomando-se frio, um pouco por vez, sempre pela manhã;
38- Cipó-sete-sangrias: regula pressão arterial tomado frio. Em alta dose é calmante;
39- Muchoco: sua casca usa-se em banho para curar feridas (uso morno);
40- Murici do campo: para urina solta e criança que urina na cama. Tomar frio e sem açúcar;
41- Garça do brejo: para reumatismo (flor e folhas). Após cozimento e acréscimo de sal, aplica-se como compressa quente sobre o local afetado;
42- Paliatária ou paretária: diurético (usado frio). Também serve para o fim da menstruação (frio e sem açúcar);
43- Congonha-douradinha: diurético (fria e adoçada) e para resfriado fazendo suar (ingerida quente, estando o doente sob as cobertas);
44- Arnica: posta dentro da pinga ou de álcool, serve para aliviar contusões;
45- Cipó-prata / Cipó-cabeludo / Congonha-de-bugre (ou Congonha-bugre): ferver os três juntos, coar e tomar frio para problemas renais e de vias urinárias;
46- Cipó de São João: para dores musculares, fervido com sal. Banhar quente o local da mialgia.
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Cânfora ou alcanfor ("arcanfô", na pronúncia informal): extrato alcoólico para esfregaço contra contusões. |
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| Alevante ou elevante: chás para gripes e prostrações. |
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Cervejinha do campo: deixada de molho na água, é usada para inflamações urinárias. |
- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografias: Iago C.S. Passarelli.
Notas
- Informantes:
[1] - Dalvina Maria de Jesus (“Vina”), Santa Cruz de Minas, 2009.
[2] - Maria José da Silva Nascimento, Brumado de Cima (São João del-Rei, 2012).
[3] - Elvira Andrade de Salles (Santa Cruz de Minas, 21/09/1996) - receitas 03 a 09.
[4] - Luís Santana, Bairro São Dimas, São João del-Rei, 1996 - receitas 10 a 12.
[5] - Carlos Lúcio Pereira, São João del-Rei, 2005.
[6] - Aluísio dos Santos, Bairro Centro, São João del-Rei, 1991 - receitas 14 e 15.
[7] - Luís Pereira dos Santos, 2005, Povoado da Candonga (Tiradentes) - receitas 16 a 30.
[8] - Luís Antônio Sacramento Miranda, Bairro Senhor dos Montes, São João del-Rei, 2005 -receitas 31 a 46 (por sua vez, colheu as informações de José Cipriano Neto).
- Este blog agradece a todos os informantes a gentileza deste conteúdo cedido.
- Revisão: 28/11/2025.