Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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domingo, 14 de janeiro de 2018

Romaria dos foliões

Aconteceu neste final de semana em Aparecida / SP (13 e 14 de janeiro) a 15ª edição do Encontro Nacional de Companhias de Reis. Mesmo sendo totalmente fora da área geográfica focada por este blog, o assunto mereceu atenção em razão do crescente interesse participativo de folias do Campo das Vertentes. O evento tem elevado potencial para ampliar o seu desenvolvimento e o interesse turístico, como aconteceu com a Festa de São Benedito (em abril), naquela cidade do Vale do Paraíba [1]. 

Já o encontro de folias é relativamente recente; contudo, é tradicional a visita das folias de diversas regiões a Aparecida, de forma aleatória em outras épocas do ano. O encontro congrega esta atividade espontânea e dá-lhe impulso. O presente texto não objetiva descrever a festa como faz este blog de costume acerca dos eventos que comenta. A tônica é outra: é indispensável pontuar que no encontro de Aparecida os foliões de Santos Reis são legitimamente romeiros; não é um encontro como os outros. As companhias reiseiras empreendem a viagem que é esperada e planejada o ano todo, atravessando o sul mineiro e as gargantas escarpadas da Mantiqueira, via Cruzeiro ou Piquete. Em Aparecida visitam a Igreja de São Benedito e o Santuário Nacional; cantam pelas ruas, praças, comércio, presépios. Costumam inclusive se hospedar.


Folias atravessam a passarela entre as catedrais antiga e nova,
cantando os reis. Em primeiro plano uma companhia mineira,
de Santana de Pirapama. 

A participação inclui uma troca significativa de experiências com outras folias: cantar e ouvir, ensinar e aprender. Grupo a grupo, os mestres expõem o seu saber, absorvido por outros que os observam, evoluindo na prática, compartilhamento e vivência. Tanto mais, o encontro é oportuno aos foliões na aquisição de novos instrumentos musicais nas lojas locais; medalhas de santos, imagens, terços e outros objetos sagrados, que fazem parte de seu universo ritualístico e de seu cabedal de crenças.

Além desses aspectos gerais alguns detalhes chamam a atenção. Talvez o mais proeminente e digno de parabenização seja a entrada conjunta das folias de Reis no Santuário Nacional, após um concorrido cortejo desde a Catedral velha, via passarela. Os demais visitantes, outros romeiros que não são das folias, demonstram entusiasmo e curiosidade, prestigiando os grupos com salvas de palmas, ou proliferando sua imagem por incontáveis fotografias e filmagens.


Aspergindo água benta sobre as folias que deixam o Santuário 
após a celebração da missa.
 

Essa recepção se reveste da maior importância para os grupos enquanto estímulo à sua continuidade, reconhecimento de seu valor cultural e essência religiosa e ainda pelo prestígio que lhes confere a visibilidade ante a atenção midiática e através da imensa assistência.

Grupo de Pastorinhas de Sete Lagoas/MG adentra o Santuário.

Destaca-se também a Procissão de Santos Reis, que conta com um andor de ornamentação primorosa e a participação de vários grupos de folias em cortejo. O encontro de Aparecida proporciona a ambientação de uma romaria aos foliões. O contexto transcende o de outros encontros. 

Finalizando, registra-se a presença no encontro da "Embaixada do Bom Pastor", folia de Reis oriunda de São João del-Rei, da comunidade do Bom Pastor, Bairro de Matosinhos, sob o comando do experiente Mestre "Didinho" (Geraldo Domingos Resende).


Bandeireiro e bandeira da folia de Cordisburgo/MG.
Presença de retratos 3 x 4 e fita com inscrição, configurando graças
alcançadas (ex-votos).

Bandeira de uma folia de Alfenas/MG.
Os nós nas fitas indicam pedidos de devotos. 

Observando a cantoria da folia de Nova Resende/MG.

Folia de Itaguara/MG atravessando a passarela. 

Palhaços ou marungos, de Machado e Santo Antônio do Monte/MG
entrando abraçados no Santuário em gesto de irmandade e respeito.

Prestigiando a entrada das folias no Santuário:
jovens marungos de Ibirité/MG.

Um dos pitorescos mascarados da folia de Juruaia/MG,
assemelhando-se a uma Catirina.

Um dos palhaços da folia de Serrania/MG.
Ao fundo, público prestigiando a saída das folias do Santuário. 

Agradecendo uma oferta, os foliões de uma companhia de Barrinha/SP
cantam para devotas que seguram sua bandeira. 

No grande presépio dos jardins do Santuário Nacional, folieiros de Sete Lagoas / MG
respeitosamente reverenciam após o canto ritual.
 

Folia de São Tomé das Letras/MG cantando no presépio da praça da catedral
antiga. Os marungos, de joelho, suspendem a máscara. 

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.

- Fotografias: Iago C.S. Passarelli, 13/01/2018.

Notas 

[1] Em tal festa, uma multidão de romeiros desembarca no Santuário Nacional, incluindo um número enorme de congados, sobretudo mineiros e inclusive do Campo das Vertentes, em demanda para a igreja do popularíssimo santo. Essa Festa de São Benedito já é centenária, firmada na tradição.

- Agradecimentos especiais ao folclorista Affonso Furtado e ao pesquisador de música Daniel William Dias Nascimento, que possibilitaram nossa presença nesse festejo. 

- Revisão: 27/10/2024.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Folia de Ritápolis

Em data incerta dos setecentos surgiu a povoação de Santa Rita do Rio Abaixo. BARREIROS (1976) estimou que tenha surgido na terceira década do século XVIII. Emancipou-se de São João del-Rei em 1962, por força da lei nº 2.764, de 30 de dezembro sob o novo nome de Ritápolis. 

A cidade de Ritápolis, no trecho médio do vale do Rio das Mortes, Campo das Vertentes de Minas Gerais, conserva ainda seu grupo de folia de Reis e de São Sebastião (*), com excelente qualidade da composição dos verso. A folia traz a experiência dos irmãos Marinho na liderança. O vídeo a seguir lincado retrata um pequeno trecho de sua apresentação durante o 17º Encontro de Folias de Mercês de Água Limpa (antiga Capelinha), distrito de São Tiago/MG, no dia 31 de janeiro de 2016.  





Notas e Créditos

* Além da folia da sede do município, Ritápolis também possui grupos tradicionais na zona rural, como o da Restinga de Cima e o da Restinga de Baixo. Noutros tempos, também as teve no Ramos, Glória, Penedo e Prainha. Congados tem na sede municipal e na Restinga. Queimas de judas na cidade e distritos. Em Ritápolis é muito tradicional o Enterro do Zé Pereira, no último dia de carnaval. 
**Texto, vídeo, edição e acervo: Ulisses Passarelli
*** Referência bibliográfica: BARREIROS, Eduardo Canabrava. As Vilas del-Rei e a Cidadania de Tiradentes. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1976. 128p. 

domingo, 29 de janeiro de 2017

Encontro de Folias da Capelinha

Janeiro se faz por derradeiro e com ele encerra-se o período de ação das folias. Em verdade, a jornada de visita às casas concluiu-se no dia de São Sebastião (20 de janeiro). Contudo, os dois finais de semana seguintes do mês propiciam a participação das companhias em encontros de folias e festas religiosas ainda dedicadas ao mesmo santo, nos subúrbios e vilas. 

Temos dito e vivenciado que a manutenção das folias passa por grandes dificuldades que as põe em risco. Não é sem motivos que numericamente tem diminuído muito e ainda, que muitos grupos em si minguaram o número de componentes. Em essência ou no geral pouco atrai a atenção participativa dos jovens. Pelo menos na região das Vertentes... Aqui a faixa etária de participação é bem mais elevada, de meia-idade para terceira idade. Isto põe uma sombra no mecanismo de transmissão do saber. Em outras áreas do estado a realidade é diferente e existem locais que o jovem e a criança aderem sem maiores dificuldades e sobretudo se aproximam da função de marungo (*), que acaba lhes sendo especialmente atrativa. 

Lamúrias à parte, ainda podemos regozijar com o retorno às ruas desde dezembro último de duas folias que estavam paralisadas a alguns anos: a de César de Pina e a da Caieira ("Embaixada Santa"), de São João del-Rei, ambas graças a esforços de antigos participantes. 

Folia "Embaixada Santa", em jornada de visita a casas com a bandeira de São Sebastião. 

Hoje acontece em Mercês de Água Limpa (São Tiago/MG), a antiga e popular "Capelinha", um dos mais significativos encontros regionais de folias. Desde cedo os grupos chegam com bandeiras de Reis e de São Sebastião e eventualmente do Divino Espírito Santo, de vasta área do Campo das Vertentes e do Oeste de Minas. Já em sua décima oitava edição, firmou-se como um evento sólido, graças sobretudo aos esforços de coordenação do senhor Jorge Geraldo Canaan, popularmente conhecido por "Jorginho" _ justiça lhe seja feita _ pessoa afeita à cultura e que trata as folias com imensurável respeito e carinho, motivo natural que tornou o Encontro de Capelinha tão concorrido. Obviamente que isto só foi possível graças ao apoio forte da comunidade local, a parceria com o poder público e aos patrocinadores. Em conjunto construíram um encontro atrativo e firme, de uma formatação que deixa as folias muito à vontade. 

O curto vídeo abaixo lincado é uma montagem com fotografias do Encontro da Capelinha do ano passado. Em efêmeros fragmentos revela um pouco do encanto proporcionado pelas folias e a força do evento em foco. O áudio colhido na ocasião procede da folia de Desterro de Entre Rios. 


Notas e Créditos

* Marungo: personagem mascarado das folias, de caráter cômico. Também conhecido por palhaço, bastião, matias, alferes, guarda, másca e outros nomes, conforme a região.
**Texto e vídeo: Ulisses Passarelli
*** Fotografia: Maria Aparecida de Salles, 12/01/2017

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Encontro de folias na Restinga

Estamos em plena temporada das folias. Pela região das Vertentes os diversos grupos ativos estão em jornada de visita às casas, capelas, grutas e cruzeiros. O prazo expira no dia do "Santo Mártir Guerreiro", titulação ofertada livremente pelo povo ao queridíssimo São Sebastião, festejado oficialmente a 20 de janeiro. Contudo, em razão de haverem muitas festas dedicadas a ele em várias comunidades, devido à coincidência das datas e pela própria necessidade logística, em algumas capelas a festa recai sobre o primeiro ou segundo domingo subsequente. 

É o caso abaixo retratado, da Restinga de Baixo, distrito de Ritápolis/MG, cujo festejo é muito tradicional, já documentado por este blog em postagem publicada. Na Restinga a festa conserva muitos elementos típicos, tradicionais, entre os quais um encontro de folias. A companhia local é a anfitriã e encontra no respeitado Mestre Folião Sebastião Ezequiel um baluarte da sua manutenção. Nas imagens abaixo e no vídeo anexo, todos da mesma data, observa-se também a participação da folia da cidade São Tiago, e ainda, a da Colônia José Teodoro (São João del-Rei). 

O encontro é de paz, à sombra das grandes árvores do largo. Cada companhia saúda a bandeira e os foliões da outra e juntos louvam a Deus em seus versos e entoam a veneração ao santo festejado na ocasião. É uma celebração da harmonia, da união e da fé. 




Assista a seguir ao vídeo deste encontro realizado em 24/01/2016:



Notas e Créditos

* Texto, fotografias, edição, vídeo e acervo: Ulisses Passarelli
** Para maiores detalhes leia neste blog: A FESTA DE SÃO SEBASTIÃO NA RESTINGA 

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Procissão do Imperador Perpétuo

O Blog TRADIÇÕES POPULARES DAS VERTENTES apresenta mais um vídeo: a Procissão do Imperador Perpétuo. Ela é parte do Jubileu do Divino de São João del-Rei, que embora centrado no Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, neste momento específico, véspera de Pentecostes, extrapola sua jurisdição eclesiástica e os limites do grande bairro. 

As 17 horas do sábado sai a procissão da Igreja de São Francisco de Assis rumo à de Matosinhos, atualmente atravessando o coração do centro histórico, pela antiga Rua Direita (atual Getúlio Vargas). É aberta por cavaleiros, portando o estandarte do Divino, além de flâmulas e guiões; seguem membros da Irmandade do Santíssimo Sacramento de Matosinhos e outras irmandades convidadas; vem a seguir os fiéis. Vários grupos de folias formam corpo com a procissão. Na sequência é a vez da corte imperial, ricamente trajada; segue o próprio Imperador e, por fim, a liteira carregada por militares, no interior da qual está a imagem do Imperador Perpétuo, Santo Antônio de Pádua. 

A festa, que existe desde 1774, incorporou esta procissão no seu desenvolvimento a partir das primeiras décadas do século XIX, desde que comerciantes da cidade elegeram Santo Antônio de Pádua para o cargo de Imperador Perpétuo (vide link ao fim da postagem). Com isto, todos os anos mudava-se o Imperador Coroado, mas o Perpétuo se mantinha. A procissão desapareceu ao longo dos anos, em data incerta. A própria festa foi paralisada em 1924 e depois voltou noutros moldes, bem tênue. Sofrera os efeitos da romanização católica e ainda a supressão motivada pela invasão de bancas de jogos de azar. Em 1998 a Festa do Divino foi reativada ou melhor, remodelada, com grandes cuidados nos aspectos religiosos e culturais e se mantém ativa e forte. Desde então foi retomada a figura do Imperador Perpétuo e sua procissão, colorida, cheia de fé e musicalidade. 

As folias no longo trajeto se alternam nos toques. A grande maioria é de Folias do Divino da própria cidade e por vezes outras dos municípios vizinhos e no caso específico deste vídeo, observa-se a folia de Coqueiros (Nazareno/MG), a primeira a tocar, que não é do Divino, mas uma folia de Reis e São Sebastião. O vídeo termina no momento de uma breve parada na Gruta do Divino, onde sob a direção do sacerdote se unem em preces e cantos laudatórios ao Espírito Santo. 

A gruta está a meio caminho de Matosinhos. A procissão segue, embora o vídeo não mostre e na empolgante chegada as folias adentram o santuário e cantam durante a missa, cada grupo se responsabilizando por um canto litúrgico na sua própria toada. A seguir ganham um lanche e depois se reúnem em torno do coreto, no adro, para apresentações ao grande público, durante o encontro de folias. 

Assim é o sábado que antecede imediatamente o Pentecostes em São João del-Rei. É o último dia da novena e preparação imediata para o dia maior do grande festejo jubilar em honra ao Paráclito. 

Aspecto geral da chegada da Procissão do Imperador Perpétuo no
Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos. 23/05/2015. 



Créditos 

- Texto, edição do vídeo e acervo: Ulisses Passarelli.
- Vídeo e fotografia: Iago C.S. Passarelli, 23/05/2015.

Notas 

- Para saber mais a respeito leia:

  A PROCISSÃO DO IMPERADOR PERPÉTUO   
  FOLIA DO DIVINO DAS ÁGUAS FÉRREAS 

- Revisão: 08/05/2025.   

sábado, 8 de outubro de 2016

Festa de Nossa Senhora Aparecida em César de Pina

Está em andamento na Capela de Nossa Senhora Aparecida, em César de Pina, distrito de Tiradentes/MG, sua festa anual, no transcurso da novena. Como já aconteceu em outras oportunidades, ora incrementada, ocorrerá um encontro de grupos de folias de Reis hoje à noite. A programação constante em cartaz o revela. No detalhe, em recorte que fizemos do trecho específico do programa, inserimos a seta para destacar o detalhe das folias. 

Consta que houve uma capela inicial em 1975, na qual iniciaram-se as comemorações, próximo à antiga estação. A atual capela veio mais tarde no local atual, em terreno ofertado na década seguinte. 

A prática de folia de Reis em César de Pina é muito tradicional e querida. Marcou época a folia organizada por Raimundo Ferreira da Assunção e Pedro Paulo Ramos, com a participação de vários folieiros da comunidade. O calango também foi querido no local, a típica cantoria desafiadora (*).

O Blog Tradições Populares das Vertentes parabeniza a iniciativa, faz votos que transcorra com êxito e se repita nos anos subsequentes. 

1- Cartaz contendo programa da Festa de Nossa Senhora Aparecida,
César de Pina (Tiradentes/MG), 2016.
Papel Couché, 29,5 x 41,7cm. 

2- Recorte do mesmo cartaz com inserção de seta
na qual destacamos o encontro de Folias de Reis. 

O topônimo homenageia o superintendente ferroviário Augusto Cezar de Pinna, que no começo do século XX supervisionava as atividades da EFOM (Estrada de Ferro Oeste de Minas). Na localidade ainda há um remanescente do período, lamentavelmente em precaríssimo estado de conservação (**), o que sobrou da estação do trem, Ramal das Águas Santas. O prédio aguarda reforma urgente e um uso adequado que garanta preservação e utilidade para a comunidade. O ramal foi  criado em 1910 e durou até 1966. A estação em questão foi estabelecida a 856 metros de altitude, no Km 104,945 inaugurada em 12/10/1923, inicialmente com o nome de Chacrinha, a cerca de 8,6 km de seu ponto de partida, em Chagas Dória, Matosinhos, São João del-Rei, e a apenas cerca 3,3 km do ponto final, em Águas Santas. 

3- Estação Ferroviária de César de Pina, 18/05/2014.

4- Casarão eclético avistado a partir da Estrada das Águas Santas,
em César de Pina, nas imediações da estação. 18/05/2014. A chegada da

estrada de ferro influenciou a arquitetura regional com novas tecnologias 
e estéticas construtivas. 

5- Casarão eclético avistado a partir da Estrada das Águas Santas,
em César de Pina, nas imediações da estação, dado como moradia do agente ferroviário. 18/05/2014. 

A comunidade local, entrecortada pela Rodovia Federal BR-383, tem forte tradição no cultivo de hortaliças, aproveitando os terrenos férteis do vale do Rio Carandaí e suas imediações. A pequena proximidade a São João del-Rei a faz mais interligada a esta cidade que propriamente à sua sede municipal, Tiradentes. De César de Pina se acessa por pitoresca estrada o Balneário de Águas Santas e a Serra de São José, local para apreciação da natureza. Da estrada se vislumbra por ambos os lados propriedades rurais e com seus jardins, hortas e pomares, alguns ainda conservando velhas sedes dignas de preservação arquitetônica. 


6- Folia de César de Pina com a bandeira de São Sebastião
se apresentando no Centro de São João del-Rei em 1995.

7- Folia de César de Pina com a bandeira do Espírito Santo durante o
Jubileu do Divino em Matosinhos, São João del-Rei, 22.05.1999. Foto: João Hipólito. 

Notas e Créditos

* Veja por exemplo neste blog o registro de uma das versões do "Calango do Jogo do Bicho", em:
CALANGO-TANGO: parte 2
** A estação de César de Pina foi restaurada em 2023. 

Texto: Ulisses Passarelli  
Fotografias: 1-6, Ulisses Passarelli; 7- João Hipólito
Revisão em 23/03/2025. 

Referências Bibliográficas

CRUZ, Luiz Antônio; BOAVENTURA, Maria José (org.); GOMES, Márcia Heliane; CRUZ, Suelen Lopes da (pesq.). Memória e Tradições Populares. Tiradentes: Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes, 2016. 112 p.il. p.82.

PRONTUÁRIO GERAL DAS ESTAÇÕES FERROVIÁRIAS, 1945. 2.ed. Belo Horizonte: Departamento de Estatística, 1947.

Referências na Web

Estações Ferroviárias do Brasil. César de Pina (http://www.estacoesferroviarias.com.br/rmv_efom/cesar.htm) - acesso em 10/10/2016

sábado, 16 de julho de 2016

Folia de Reis, Bairro Bom Pastor, São João del-Rei

A folia alvo desta postagem é a do Mestre "Didinho" (Geraldo Domingos Resende"), do Bairro Bom Pastor, no Grande Matosinhos, São João del-Rei. Foi fundada em 1999, a partir da fragmentação da folia do Bairro Pio XII, também em Matosinhos, então do Mestre "Juquinha" (Otávio José Gatti), com a incorporação de outros folieiros, inclusive gente afeita às folias da área do Elvas. Tanto que a música apresentada neste vídeo lincado é a mesma tocada nas folias do Elvas, com resposta dividida e alternada entre duplas, enquanto os outros folieiros não cantam. 

A Folia do Didinho porém executa também sua função em outras toadas. E sob sua voz dá provas de experiência e sabedoria, com versificação muito bem elaborada, capaz de materializar os fundamentos da folia. 

O grupo prossegue em plena atividade anualmente cumprindo a visita às residências na zona urbana e na rural, e participando de encontros, em São João del-Rei e região em três jornadas anuais: Santos Reis, São Sebastião e Divino Espírito Santo, cada qual com sua bandeira e sua música, embora que com os mesmos folieiros.




Participação no Encontro de Folias de Capelinha - atual Mercês de Água Limpa
(São Tiago/MG). O vídeo mostra o agradecimento pelo almoço. 


Notas e Créditos

* Fotografias: Iago C.S. Passarelli, 26/01/2014
** Vídeo, edição e acervo: Ulisses Passarelli, 31/01/2016

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Marungo da folia de Santo Antônio do Amparo


Palhaço (marungo ou bastião) de folia de Reis, de Santo Antônio do Amparo/MG,
aproveitando o ritmo de calango, se exibe para a assistência no
17º Encontro de Folias de Capelinha, em Mercês de Água Limpa
(São Tiago/MG), 31/01/2016. 

Créditos

- Fotografia, texto, vídeo, edição e acervo: Ulisses Passarelli.

Notas 

- Revisão: 06/06/2025. 

domingo, 10 de abril de 2016

Folia do Carlão em Aparecida


Folia do Divino "Mensageiros do Paráclito", 
da Colônia José Teodoro (São João del-Rei/MG),
 em Aparecida/SP, durante o 12º Encontro Nacional de Companhias de Reis,
a 17/01/2015. Folião: Carlos Leandro de Oliveira; 
Embaixador: Antônio Francisco dos Santos. 

Créditos

- Vídeo e edição: Iago C.S. Passarelli.
- Legenda e acervo: Ulisses Passarelli. 

Notas

- Revisão: 27/12/2025. 

quinta-feira, 10 de março de 2016

Folias de São Sebastião se encontram em São Gonçalo do Amarante


Encontro de folias em São Gonçalo do Amarante (ex-Caburu),
distrito de São João del-Rei, em 25/01/2015. Neste vídeo, 
inicialmente canta a folia da Colônia José Teodoro, deste mesmo município,
do Folião Carlos Leandro de Oliveira, sob a voz do Embaixador 
Antônio Francisco dos Santos. A seguir canta a folia do próprio distrito de
São Gonçalo, do Folião e Embaixador Lourival Amâncio de Paula. 


Créditos

- Vídeo e edição: Iago C.S. Passarelli.
- Legenda e acervo: Ulisses Passarelli.

Notas 

- Revisão: 03/01/2026.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Folia do Carlão em Aparecida

Nesta postagem o Blog TRADIÇÕES POPULARES DAS VERTENTES faz um pequeno registro e homenagem à "Folia do Carlão", da zona rural de São João del-Rei, exatamente da Colônia José Teodoro. O grupo embora também faça a seu tempo cantorias em honra aos Reis Magos e ao Mártir São Sebastião, habitualmente é uma folia do Divino, diga-se de passagem de imensa atividade, circulando até fora da época de costume (da Páscoa a Pentecontes) em apresentações e visitas, senão mesmo viagens, como esta a Aparecida / SP aqui registrada em imagens, com destino ao concorridíssimo Encontro Nacional de Companhias de Reis, como fez em 2015 e 2016. 

A folia visitou também vários povoados da zona rural deste e de outros municípios, tais como São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei), Restinga (Ritápolis), Mercês de Água Limpa (São Tiago), Elvas, Águas Santas, César de Pina e Caixa d'Água da Esperança (Tiradentes), Arame (Lagoa Dourada), Porteira do Paiol (Conceição da Barra de Minas), São Sebastião de Campinas (Dores de Campos), além das cidades de Resende Costa, Coronel Xavier Chaves, Barroso e Santa Cruz de Minas. 

Tal atividade se deve claro à atuação dos animados folieiros, mas sobretudo à dedicação do folião Carlos Leandro de Oliveira, responsável pelo grupo. Nestas fotografias de 2015 e no vídeo anexo aparece no comando da cantoria o experiente Embaixador Antônio Francisco dos Santos. Atualmente, além do Sr. Antônio, outros respeitados embaixadores dividem com ele os momentos de cantoria: Pedro Paulo e Natal. 

Neste princípio de ano, a folia em nova fase de estruturação adotou o nome de "Mensageiros do Paráclito". 

Folia do Carlão tocando no presépio de Aparecida/SP

Folião Carlos Leandro de Oliveira

Embaixador Antônio Francisco dos Santos
Apresentação de fotografias e áudio da folia da 
Colônia José Teodoro. 


Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli
** Folia: Ulisses Passarelli; folião e embaixador: Iago C.S. Passarelli

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

17º Encontro de Folias da Capelinha

Ontem, 31 de janeiro, domingo de sol inclemente, na tradicional Capelinha, oficialmente Mercês de Água Limpa, distrito de São Tiago/MG, realizou-se o 17º Encontro de Folias, coroado de êxito pela excelente organização, grande número de folias de Reis, folias de São Sebastião e até uma folia do Divino, além da ampla assistência que prestigiou o evento do começo ao fim. 

O evento comprovou mais uma vez solidez e confiabilidade. Este sucesso deve-se em parte à fama que Capelinha goza de ter tido sempre folias de alta qualidade musical, aliás, como também acontece com localidade rurais vizinhas (Coqueiros, Bananal, Capão das Flores, Manteiga...); outro tanto compete à receptividade do povo do lugar, amante das folias, hospitaleiro; tanto mais à equipe organizadora do encontro, dedicada aos afazeres, e, indubitavelmente à experiente coordenação de Jorge Geraldo Canaan, em geral conhecido por "Jorginho", que não mede esforços para promover o encontro com todo esmero e respeito aos grupos. Portador de perene simpatia, Jorginho recepciona foliões e folieiros em pleno espírito fraternal, deixando todos os grupos muito à vontade no encontro.

A percepção desta realidade não é mera reflexão desta página, mas parece que veio pronta nos versos cantados pelo folião de Passa Tempo:

"Se não fosse essa união,
essa festa não saía..."

Os grupos visitantes chegaram pela manhã, recebendo o tradicional café com pão e quitandas; na sequência visitaram a comunidade, cantando pelas ruas afora, residências, estabelecimentos comerciais, igrejas. Depois se recolheram para o almoço carregado da delícia do tempero mineiro. Na parte da tarde se concentraram na praça para as apresentações no palco, sempre enaltecidas por palmas e palavras de valorização do locutor. Os grupos ao cantar se despedem, mas nem todos se vão, permanecendo para assistir as outras apresentações. O largo esteve lotado, todos aglomerados à sombra de árvores e casario. 

Muitas folias estiveram presentes ao encontro, vindas do próprio município e ainda de Coqueiros (Nazareno), São João del-Rei, Ritápolis, Resende Costa, Desterro de Entre Rios, Passa Tempo, Oliveira, Carmo da Mata, Itaguara, Bom Sucesso, Santo Antônio do Amparo, Lavras. Ou seja: do Campo das Vertentes e do Oeste de Minas, como numa circunferência tendo Capelinha por fulcro, a maioria dos municípios circunvizinhos mandaram representações, por vezes mais de uma. 

Positivamente foi possível observar uma boa quantidade de jovens participando como palhaços de folia (bastião, marungo), esperança de futuro. 

No mais é o olhar perscrutando a participação popular: em cada esquina pessoas em bate-papo dialogam com alegria; alguns senhores se animam com uma folia de ritmo mais agitado e esboçam passos de dança; um pai passa de mãos dadas com um filho saltitante _ em seu rosto uma máscara de papelão imita a dos bastiões _ uma senhora retoca o batom sentada na beira da calçada observando-se pelo espelho que enfeita seu chapéu de folieira; um tocador de cavaquinho aproveita o intervalo para enrolar um cigarro de palha; crianças correm para lá e para cá, bebendo refrigerante e chupando picolé; o comércio fatura seu extra, vendendo para os visitantes; gente curiosa se achega comentando o canto da anunciação que um embaixador fez com grande fundamento, ou louvores ao mártir São Sebastião entoados por outro com maestria; alguém num canto da praça rememora com seu compadre os tempos de criança, quando a fazenda de seu pai recebia as folias pondo em alvoroço os moradores; cavaleiros passam pela praça, perneira e chapéu de aba larga compõe sua figura; uma folia canta para os Reis no presépio da igreja e devotos assistem atentos; uma dona joga farelo de fubá na calçada e os pássaros descem para granjear, amarelando o passeio; outras folias trocam convites para um próximo encontro... intercâmbios... amizades... aprendizado... esperanças de um retorno no ano vindouro: 

"A bandeira vai embora
a saudade vai ficando;
se Deus me permitir
voltarei no outro ano..."
(Folia de Reis de Passa Tempo/MG)

Bastião da Folia do povoado do Manteiga,
São Tiago. 

Marungo de uma folia de Santo Antônio do Amparo. 

Marungos de Lavras, da folia
"Estrela do Amanhã". 

Cartaz do encontro afixado no interior de um
estabelecimento comercial do lugar. 
  
Folia de Desterro de Entre Rios, observando-se os participantes
figurando os Reis Magos. 

Equipe da cozinha beija a bandeira da Folia de Reis de
São João del-Rei, do Bairro Bom Pastor. É ritual típico do
agradecimento do alimento dado às folias. 

Igreja de Nossa Senhora das Mercês, a padroeira de Mercês de Água Limpa

Jorginho Canaan recepciona membros da folia
 de Desterro de Entre Rios. 
  
Na sombra da árvore se aglomeram para assistir às apresentações

Palco do encontro no momento da apresentação da folia
 "Nossa Senhora da Penha de França", de Resende Costa. 
  
O marungo faz brincadeiras adiante da folia
de Santo Antônio do Amparo. 

Uma das folias da cidade de São Tiago. 

Canários comendo farelo de fubá na praça da igreja. 


Notas e Créditos

* Texto e fotografias: Ulisses Passarelli

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

A Festa de São Sebastião na Restinga

O dia de São Sebastião caiu este ano em plena quarta-feira (20 de janeiro), induzindo que as comemorações em vários lugares se transferissem para o final de semana seguinte. Tal se deu na Restinga, distrito de Ritápolis/MG, onde aconteceu a tradicional festa em honra a este santo altamente prestigiado nos meios rurais, como protetor dos sitiantes e fazendeiros, com o atributo clássico de proteger contra a fome, a peste e a guerra; guarda espiritual dos rebanhos e plantações, contra a ruína das doenças, desde que se tenha fé nele. É por excelência o santo patrono da agropecuária [1]

A Restinga é dividida em dois grupamentos de casas: um na parte mais alta do terreno foi batizado Restinga de Cima, que conta com uma capela dedicada a Nossa Senhora Aparecida e outro, na baixada, Restinga de Baixo, cujo padroeiro é São Sebastião. Onde fica a sua capela não é na parte mais baixa do povoado, se não mesmo em um platô, com visão panorâmica das elevações em derredor. Já por isto há quem lhe chame "Restinga do Meio", conquanto o nome não pareça tão comum, posto que, ao pé da letra a capela é parte da Restinga de Baixo. Conta ainda com um cemitério aos fundos, e algumas construções em volta, sediando conferência, casa paroquial, escola e um grande reservatório de água. Sítios nas imediações. O entorno é gramado, ao natural e servido pela estrada não pavimentada que vem da Rodovia BR-494 e segue a Resende Costa, com entroncamentos para a Restinga de Cima (esquerda) e para o Penedo (direita). 

A comunidade é muito tradicionalista e guarda desde longa data a tradição do congado, com festejo do Rosário em setembro, quando o catupé local recepciona as guardas visitantes. Mantém igualmente a folia, ora só na de Baixo, ora nas duas Restingas; confluindo sua jornada para o arremate anual nesta festa em questão. Além do grupo da Restinga de Baixo, sob o comando do veterano e respeitadíssimo Mestre Sebastião Ezequiel e de seu seguidor imediato, José Mário, que tem sua própria folia na Restinga de Cima, estiveram também presentes a Folia "Mensageiros do Paráclito", vinda da Colônia do José Teodoro (São João del-Rei), do folião Carlão (Carlos Leandro de Oliveira),  tendo como embaixadores Pedro Paulo Ramos e Antônio Francisco dos Santos; e ainda a folia do Cerrado, bairro de São Tiago, sob o comando e voz de Vanderlei Cardoso. As companhias demonstraram experiência e excelência na qualidade do que apresentaram, executando toadas muito tradicionais, típicas da região, sobretudo das áreas rurais, com cantorias bem fundamentadas em seus versos. 

O povo devoto estava totalmente à vontade no largo gramado. Música mecânica instalada sobre a carroceria de um caminhão, coberto de improviso por um toldo de bambu e lona, animava o ambiente tocando sertanejo nos intervalos de cantoria dos foliões. Gente amiga e aparentada se encontrava por ali, sentando para a prosa debaixo das grandes figueiras bravas. Capela aberta na frente e nas laterais, varrida, florida, pintada de novo. Todo tempo visitantes lhe entram e saem como numa romaria. Os andores de São Sebastião e de Nossa Senhora das Graças estavam enfeitados de rosas vermelhas e uma fita atada aos pés da imagem oferecia ao fiel uma chance para o ósculo. A marca de batom na fita branca da Virgem é prova inconteste do carinho de um beijo na santa. A fita de São Sebastião é vermelha, cor votiva do mártir da fé. 

O cemitério também está aberto e as pessoas o visitam livremente, em oração pelos mortos e em contato com a lembrança de entes queridos. A festa abre uma dimensão de saudade, de reencontro, até mesmo com os que já se foram, ora recordados, porque dali também, noutros tempos, foram partícipes. Ao se visitar o cemitério, simbólica e implicitamente, se insinua e acredita que as almas participam também, acompanhando do plano celeste as festividades queridas. 

Um mastro foi fincado adrede à capela, simples, relativamente baixo, mas tão simbólico com sua estampa dupla, numa face o santo festejado, no outro a Virgem de Fátima. 

Em um canto do largo, um curral reserva prendas ofertadas ao padroeiro: bezerros e leitões. Diante da casa paroquial, uma mesa forrada de toalha expõe outras prendas diversas _ melancia, moranga, abóbora, feijão guardado em garrafa pet (gratidão pelas boas colheitas...), utensílios domésticos, tapetes e colchas que foram tecidos em teares artesanais _ prendas para o leilão em benefício do festejo. O povo então os chama respectivamente "leilão de gado" e "leilão de mesa", uma tradição das festas deste santo. O povo passa olhando, não mexe, não rouba. Respeita. É do santo. Mas já estipula possíveis valores, planejando arrematar. Por vezes, nesses leilões, se arremata objetos baratos; outras vezes bem acima do que realmente valem, porque o bom leiloeiro sabe apregoar incitando o orgulho e o senso de disputa dos candidatos a arrematante, que se empolgam em lances sucessivos visando superar o "rival", o que torna o leilão atraente, animado, alegria do povo. E é assim mesmo, porque pagar mais que vale é prova de fé, posto que subentendido e aceito coletivamente como verdade inconteste, é forma de ajudar a festa e retribuir ao santo as múltiplas benesses recebidas. Essa a lógica do leilão numa festa desse tipo. 

Sai o almoço das folias. Que almoço! Cardápio simples, mas inigualável no sabor. Comida mineiríssima típica. Elogiado ao extremo por quantos o provaram. Confraternização geral, alegria, foliões se misturam independente do grupo que participam. São irmãos imbuídos da mesma missão. Depois cantam no ritual de agradecimento e neste a cozinheira deve segurar a bandeira para ouvir os versos. 

Achegam-se para debaixo da árvore grande. O mestre do lugar convoca. Encontro das bandeiras, ritual de saudação de uma folia à bandeira da outra e na sequência aos foliões. Momento de paz e união. Os devotos dessas comunidades amam as folias. Juntam em volta para ouvir os versos e apreciar os acordes da sanfona, o dedilhado das cordas, a afinação do requinta, a sintonia da resposta. 

A sineta tocada à porta da sacristia é um sinal imperativo. A missa vai começar. Folias param, o povo mobiliza-se para o templo. O relógio marca 14 horas. Padre Nélio José dos Santos, sempre tão eloquente, sabe como celebrar conservando a atenção de todos e com palavras evangelizadoras que invadem o âmago. Seu apoio às tradições é valoroso e indispensável e o temos visto desde muitos anos com aplausos. O coral local cantou no coro da igreja, exímio, se valendo de melodias de músicas sertanejas, o que muito agrada aos fiéis. 

Na sequência, a partir das 15 horas e trinta minutos, transcorreu o leilão de prendas. Primeiro o de mesa. Enquanto as folias voltaram a cantar no largo e os presentes em burburinho a conversar, a comer e beber pelas barracas instaladas, os leiloeiros transitavam entre eles gritando o preço das prendas e pedindo novos lances. Nesse meio tempo passa um homem vendendo peças artesanais de couro trançado: talas, relhos, chaveiros, cinturões, bainhas de canivete. A freguesia está ali, muitos cavaleiros presentes, de chapelão à cabeça, botas e perneiras. Num canto do lugar, violeiros cantam uma moda qualquer e logo atraem seu público específico; crianças correm e brincam numa liberdade imensa, gramado afora, sem riscos, sem obstáculos. O gramado, aliás, daqui e dali se ponteia de forte amarelo, dos canários da terra, pássaros canoros de beleza ímpar. 

Daí a pouco os leiloeiros começam a passar com galinhas peiadas [2] e o leilão esquenta. Já mais um tanto e começa o berreiro dos porcos e passam carregando leitões e por fim as pessoas rodeiam o curral para avaliar os bezerros e dar seus lances, momento mais intenso da disputa dos arrematantes. 

Findo o leilão o padre convida ao microfone os fiéis ao início da procissão e o sino da capela reitera o chamado com seus repiques insistentes. O cruciferário toma a dianteira. Duas filas logo se formam. Andores vão no meio e folias atrás, alternando cantoria. Rodeiam o cemitério, circulam pelo lugar, tornam por baixo. Não é itinerário longo, mas concorrido e devoto. Uns poucos foguetes espocam e seu eco se amplia na imensidão de morros. Na chegada os andores entram de marcha à ré, como é de costume. O sacerdote dá a bênção final e a capela se irrompe em vivas a São Sebastião. As folias cantam sua despedida na nave do templo e o povo despe os andores de suas flores, que levadas aos lares são certamente dádivas que adentram nas famílias. 

Despedidas à vista. Sai um carro, vai-se um caminhante, um cavaleiro parte, uma motocicleta zoa pela estrada. O largo pouco a pouco esvazia. Barracas se desfazem. Alguém varre a capela e uma zeladora cerra as portas. O compromisso com o sagrado foi cumprido mais uma vez. O equilíbrio das forças terrenas e celestes está garantido de novo para aquela comunidade, como uma aliança inquebrantável, anualmente renovada. A fome não assolará, já que os rebanhos e roçados estão abençoados. Agora é voltar ao trabalho, com a certeza da vitória que só a fé garante... Té logo, cumpadre, vai com Deus!

Andor de São Sebastião na Restinga:
um ramo de oliveira se abre como uma umbrela
e a fita vermelha serve ao beijo dos devotos. 

Bandeireiro da folia da Colônia do José Teodoro
em respeitosa atitude durante a cantoria de veneração.
 
 
Folia da Colônia do José Teodoro (São João del-Rei), chegando na
Capela de São Sebastião da Restinga de Baixo. 

Folia do Cerrado, de São Tiago, faz sua adoração dentro da capela. 

Sanfoneiro da folia da Restinga. 

Foliões Zé Mário (esquerda), da Restinga de Cima e Sebastião Ezequiel (direita), da Restinga de Baixo, ícones da tradição folieira na região, observam atentamente a cantoria das folias visitantes.
 
Senhoras observam a cantoria folieira. 

O povo se aglomera debaixo da imensa figueira para assistir o Encontro das Bandeiras. 

Vendedor de artefatos de couro. 

O leiloeiro apregoa um porco.  

Leilão de galinhas. 

O leilão de gado é muito concorrido. 

Mesa de prendas.

Cruciferário abre a procissão.  

Passagem do andor de São Sebastião acompanhado por folias.
 
Fogueteiros saúdam a chegada da procissão. 

Chegada da procissão. No extremo esquerdo da fotografia se observa
o mastro de São Sebastião. 

Créditos

Texto e fotografias: Ulisses Passarelli.
 

Notas 

[1] No ano anterior este blog divulgou outra festa rural dedicada a São Sebastião, no distrito de São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei). Leia clicando no link: CABURU FESTEJA SÃO SEBASTIÃO
[2] Peiada: que tem os pés atados por peias (cordão ou embira, que amarra um pé no outro para impedir a fuga de um animal correndo). Não confundir com pejada: prenha, grávida. Vocabulário típico dos meios rurais. 

- Revisão em: 28/07/2026.