Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Finados no Quicumbi

Em geral, nos cemitérios como um todo, o dia primeiro de novembro é o de maior movimentação no ano em razão do feriado de Finados. O fluxo de visitantes é enorme. É gente que vem relembrar os entes queridos, rezar pelas almas, limpar e enfeitar as lápides. 

Em São João del-Rei e cidades vizinhas em todos os campos santos se observa o mesmo. Mas ora tomemos por foco o Cemitério Municipal, no Bairro das Fábricas, popularmente conhecido por Quicumbi. Devido ao seu maior tamanho e número de sepultados, naturalmente acolhe mais devotos e visitantes.

Já na entrada há um imenso burburinho de gente entrando e saindo e ambulantes vendendo flores e velas, refrigerantes e água mineral, picolés e sorvetes. Muitos carros e motocicletas em marcha lenta em frente, à procura de estacionamento. Muita gente chega de bicicleta. 

Dá para notar a presença de um frade ofertando à venda terços e cd's de música religiosa; alguns evangélicos distribuem folhetos; umbandistas ao fundo do cemitério acendem suas velas de cores e fazem pequenas entregas. O território do sagrado é nítido para diferentes correntes religiosas. Há uma missa muito concorrida que acontece no corredor de entrada, sob uma tenda ali instalada a propósito. No túmulo da Jovem Desconhecia transcorre o culto popular de sua alma, tida como milagrosa. É claramente o túmulo mais visitado e tem inclusive um velário próprio, tantos os que ali acendem seus pedidos. 

Na capelinha central sempre tem quem esteja a balbuciar orações, passando contas do terço entre os dedos, enquanto lê uma prece em um papel de corrente religiosa que deixam sobre o pequeno altar. 

Na sua lateral, o velário, não cabe mais velas, que geram muito calor em volta, que derrete a parafina num caldo grosso e fumacento. É difícil chegar perto, tantos são os devotos ali acumulados. 

Fileiras e mais fileiras de túmulos e carreiras de gavetas se sucedem até o fundo, palmilhadas por parentes, familiares e amigos, saudosos, em prece. Deixam flores aqui e ali, lavam ou varrem lápides, lustram uma cera sobre uma pedra. Gente se encontra, conversa, mata saudades, recorda, lamenta, chora junto. 

Lá na retaguarda, junto ao ossuário geral, aos pés de um cruzeiro o povo de terreiro arreia suas firmezas e oferendas, deixa algumas imagens, garrafas de cachaça e charutos. O Quicumbi acolhe a todos. É democrático, popular e ecumênico. Todos os anos é assim, amém!



1-3 - Devotos e visitantes no túmulo da Jovem Desconhecida. 

4- Aspecto geral do Cemitério Municipal.
 
5- Vista externa do Cemitério Municipal com a presença de vendedores.
A mata vestigial no morro ao fundo é área da nascente do minúsculo
Córrego do Quicumbi, hoje canalizado.
 


Créditos

- Texto e fotografias (02/11/2016): Ulisses Passarelli

Notas 

- Revisão em 18/03/2025

sábado, 29 de março de 2014

Encomendação das Almas em Conceição da Barra de Minas

Seja pelo amor de Deus!!! Reza lá três pai-nosso... Misericórdia. Pelas almas, para os mortos, a matraca bate a partir da meia-noite na segunda e sexta-feira da quaresma. No frescor da noite outonal, ruas desertas e silenciosas, um grupo de fiéis com seus instrumentos musicais (tuba, clarineta, trompete, trombone), vem rezar e cantar pelos falecidos em tons contemplativos e tétricos, mas em belíssima melodia, desde o portão do cemitério até o da matriz, parando em encruzas, capelas e passinhos. No caminho, debulham contas dos terços, relembram os que partiram para a outra dimensão. 

Sr."Vicente Cristino" e "Lico", com ajuda de alguns companheiros e vários devotos mantém firme a tradição da encomendação das almas em Conceição da Barra de Minas, onde ocorre desde longa data, sendo conservada fielmente e com muito respeito. 

Estivemos em visita à cidade vizinha em missão de pesquisa folclórica e documentação áudio-visual nesta madrugada, em companhia do fotógrafo Guy Veloso, que de Belém (Pará), viaja pelo país registrando em belas imagens as encomendações de vários estados, somando já avultado número de grupos abordados, num trabalho da maior relevância cultural. 

Abaixo seguem alguns flagrantes do ritual nesta noite. 

O grupo de encomendadores estaciona diante de uma capela-passo (passinho) para desenvolver o ritual. 

No adro da Igreja de Santo Antônio entoam seus clamores pelos que se foram...

Diante da Matriz da Imaculada Conceição, no ato da entrega da missão da noite. 

Na penumbra noturna, fiéis rogam preces pelos mortos.

Músicos da encomendação.

Senhoras, rezando terço, cantando, encomendando...
Matraca.

Da esquerda para direita: Guy Veloso, "Vicente Cristino" e Ulisses Passarelli.

* Texto: Ulisses Passarelli
* Fotos: Iago C.S. Passarelli
Para saber mais acesse: Encomendação das Almas: um rito em  louvor aos mortos

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

O Ouro das Almas

O último post abordou as tradições acerca das almas penadas. Aproveitando seu clima, transcrevo um causo que recolhi em 05/01/1994, do saudoso Sr. José Camilo da Silva, natural da zona rural de Resende Costa (Fazenda do Palmital), mas radicado há muitos anos em São João del-Rei, no Bairro São Dimas. Era jongueiro, capitão de congado e folião. É a sua versão que se segue. Porém, coligi outra por assim dizer idêntica, de outro mestre da cultura popular, Sr. Júlio Prudente de Oliveira, dois anos depois. Era natural de Santa Rita do Ibitipoca mas morava fazia bastante tempo em São João del-Rei, no Maquiné [1]

* * *

Um viajante andando por terras distantes pediu pousada numa fazenda. Indicaram-lhe que o único lugar disponível era uma velha casa com fama de mal assombrada. Como não tinha medo de nada foi para lá sem exitar. 

Acomodou-se num canto e lá pelas tantas ouviu no casarão uma voz: "eu caio!" A voz vinha da parte de cima da casa. O homem respondeu: "cai!" E caiu um braço. Ele nem ligou. Novamente ouviu a voz: "Eu caio!" e ele respondeu: "pois, caia!" e caiu outro braço. O viajante não se apavorou com aquilo. Na terceira vez que a voz apareceu ele ficou nervoso: "cai logo tudo de uma vez e me dá sossego!" Então desabou do forro um monte ossos fazendo um barulho medonho. Os ossos foram se juntando e formaram um esqueleto. 

O esqueleto ficou de pé e andou em direção ao homem corajoso. Perguntou o que ele fazia ali, alegando que aquela casa era dele. O homem explicou ao esqueleto que só queria descansar uma noite. O esqueleto impôs uma condição para o viajante permanecer ali: deveria ir até o quintal com ele e desenterrar um barrilzinho. O homem aceitou a condição. 

Os dois foram andando emparelhados para o fundo da horta e junto às bananeiras o homem cavou no lugar que o esqueleto mostrou e ali encontrou um pipote cheio de ouro. 

O esqueleto determinou que o homem doasse parte da quantia para as obras da ordem de Santo Antônio e com outra parte mandasse rezar tantas missas em nome de algumas almas, das quais a própria caveira era uma delas, aparecida nesse aspecto tenebroso. O que sobrasse do ouro podia ficar para ele. 

Assim feito, o esqueleto e as outras almas que assombravam aquela velha fazenda puderam descansar em paz e não apareceram mais. 

Detalhe de uma eça existente na Igreja do Carmo de São João del-Rei/MG


Créditos

- Texto e fotografia (01/06/2013): Ulisses Passarelli.

Notas

[1] Além destas duas versões, Antônio Gaio Sobrinho também sugere a existência deste causo em Conceição da Barra de Minas, senão vejamos: "(...) na Fazenda da Fortaleza, onde ao desventurado viajante que nela passasse a noite, por certo, lhe aconteceria os piores sobressaltos, mistérios do além, que não lhe deixariam dormir. Sucediam-lhe, noite adentro, lancinantes gemidos que repetiam pavorosos gritos dizendo: "eu caio! eu caio!" E se o infeliz respondesse: "pode cair", despencavam do teto, a cada vez, pernas, cabeças, braços... um horror!" (etc.) (Memórias Sentimentais de Conceição da Barra de Minas. São João del-Rei: UFSJ, 2014. 230p.il. p.155). 

- Revisão: 24/12/2025. 

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Alma Penada

Como conceito genérico, a expressão "alma penada" se aplica a qualquer assombração não identificada; assombro inespecífico; visão, vulto, visagem, "invisão", espectro, espírito que vaga sem rumo. 

Percebe-se, que apesar de ser aplicável a influência doutrinária católica da existência do purgatório, como um local de penúria, no sentido da purificação, há ao mesmo tempo, uma peculiaridade neste conceito dentro da cultura popular: as almas do purgatório estão presas nele, não podem sair... Para elas rezam o ano todo, encomendam matraqueando na quaresma, preces de missas lhes são dirigidas, velas iluminam o seu resgate via São Miguel Arcanjo e Nossa Senhora do Carmo, os intercessores mais requisitados nestes casos. 

A alma penada ao contrário, não está presa no limbo ou no umbral: perambula sem rumo. Não está no céu, nem no inferno, tampouco no purgatório. Não foi embora. Permanece no nosso mundo, invisível (senão por assombrosas e eventuais aparições...), se recusando a partir porque não aceitou a morte, ou  foi impedida de ir pois não foi justiçada, ou ainda porque cometeu um tipo de crime que só depois de desvendado garantirá sua libertação deste mundo; ou, ainda, se deixou uma dívida, que, por caridade, deve ser paga porque alguém terreno em nome do devedor morto. 

Por vezes a alma penada tem ainda uma missão a cumprir e como não pode falar nem escrever como os viventes, para pedir ajuda, fica presa a um lugar chamando a atenção como pode, para ser percebida e talvez interpelada por algum corajoso _ daí os barulhos inexplicáveis, de corrente de arrasto, portas batendo sem terem sido fechadas, sons de torneiras abertas estando de fato vedadas, luzes que se acendem sozinhas, barulhos de passos, sensação de ter alguém perto nos observando mas não tem ninguém, calafrios sem motivo aparente, friagem no ar mesmo estando calor. Medo. É a alma penada que está por perto...

O conceito de alma penada ganha aos poucos complexidade e se mitifica. No folclore corresponde em certa medida ao egum das religiões de matriz africana. Como um mito a alma penada fica no vasto rol dos fantasmas com finalidades educativas, pois se atinge esta condição por uma punição às leis sagradas transgredidas. É a exemplaridade.  E ainda: como um alerta aos incautos _ não se deve sair a horas mortas de casa pois se pode tornar um alvo de alguma alma penada, que o segue de volta até a casa, fazendo daí sua moradia; para as crianças que abusam na desobediência querendo ir a algum lugar que não podem, logo os pais o dizem: "não vai não, menino, que lá tem alma penada"... 

Visto assim a alma penada é um ser em sofrimento, carecendo de socorro, que por vezes deseja e busca. Outras porém, eivadas de maldade, se aproveitam desta sina para apavorar, só pelo prazer que isto lhes traz. Daí o perigo que representam, perturbando o cotidiano.

Tais são os conceitos reinantes na cultura popular dos Campos das Vertentes, de espíritos vagando sem rumo e descanso porque na vida terrena a pessoa da qual desencarnou, deixou na Terra uma missão incompleta ou uma dívida espiritual. Então sua alma penará até que alguém complete a missão ou pague sua dívida. Só então descansará. 

A alma penada pode contudo aparecer com a aparência de um ser humano. Mas só se tornará visível a alguém de grande força espiritual, mediunidade e coragem. A este fará verbalmente o pedido para completar o serviço. Então ganha o dom da fala. Surgirá com o aspecto que tinha em vida, aparente ilusão das roupas de costumes, objetos, trejeitos, deformidades. Então, neste momento mágico, revela o que está lhe travando a partida e clama por socorro: o vivente por caridade faz o que a alma penada deixou pendente e uma vez cumprido a alma se liberta, deixa de ser assombrada e quem lhe ajudou receberá benesses. 

Narro por fim um causo que ilustra bem esse folclore das almas penadas. Ouvi-o em São João del-Rei. Versa sobre uma das figuras mais respeitadas da religiosidade popular que já passaram por esta tricentenária urbe: o senhor "Emídio do Bengo"(*), que deixou seu nome escrito em nossa história pela força da caridade e retilínea conduta, tratando do padecimento de muitos com remédios homeopáticos e preces. 


* * *

Conta-se que certa feita, numa noite tempestuosa, Emídio ouviu bater à sua porta, na Colônia do Bengo. Estranhou a circunstância mas como era muito solícito e procurado foi atender. Era um estranho, que não se identificou. Disse-lhe: 

_ o senhor é seu Emídio... tem coragem?
_ Sou. Tenho. 
_ Pega enxadão e pá e me acompanha por favor. 
_ Um  momento...
_ No caminho vão tentar nos atrapalhar. Senhor tenha fé e coragem que nada vai lhe acontecer, disse-lhe o forasteiro. 

Subiram por uma trilha escura no mato. Caminho acima, o homem ia célere adiante de "seu" Emídio do Bengo. Começaram a jogar-lhes pedras. Emídio reclamou do perigo. O tal lhe respondeu que avisara que tentariam atrapalhar, mas que não temesse porque nenhum calhau lhe acertaria. E zuniam as pedradas muito próximas e intensas, mas nenhuma atingiu seu Emídio. 

No topo de uma colina, sobranceira ao vale do Rio das Mortes, em plena colônia de imigrantes italianos, disse o sorumbático homem, sempre mantendo meia distância: 

_ Seu Emídio, por favor, cava aqui que eu não posso. 

Ele obediente e atento escavou, até que a ferramenta tiniu numa peça cerâmica. 

_ Achou. Tira com cuidado. 

Era uma botija, cheia de ouro. "_ Por este dinheiro eu morri", disse-lhe o homem. Orientou-lhe que com ele fizesse ali mesmo uma igreja em honra a Santo Antônio de Pádua e mandasse rezar tantas missas pela alma de fulano de tal. Com o restante fizesse como bem entendesse. No instante que o corajoso Emídio do Bengo olhou para a botija que tinha nas mãos e voltou os olhos ao estranho, ele já tinha desaparecido para sempre. 

Diz a narrativa que assim foi feito. O homem misterioso, que era na verdade uma alma penada, nunca mais foi visto. A sobra do ouro seu Emídio empregou para a caridade. 

Capela de Santo Antônio do Bengo, em São João del-Rei, citada neste texto.
 Construída em 1905, graças aos esforços do memorável sr. Emídio do Bengo. 

Notas e Créditos

* Cognome de Emygdio Apollinário dos Passos Moraes (1876-1958). Sobre ele ver: OLIVEIRA, Dyleini Moraes Silva de et all. Centenário da Capela de Santo Antônio do Bengo: a fé de seu fundador, a fé de sua comunidade. São João del-Rei: [s.n.], 2005
** Texto e fotografia: Ulisses Passarelli 
*** Informante do causo de Sr.Emídio: Aluísio dos Santos, 1993.

domingo, 3 de novembro de 2013

Finados

Finou-se Finados, mas não se findou no coração de quem ama. Mais uma vez os campos santos estiveram repletos de saudosos visitantes, em burburinho nos portões, na calçada fronteiriça, junto aos ambulantes que neste dia oferecem à venda velas e flores. 

Alguns fazem peregrinação, uma espécie de via-sacra, porque tem um parente num cemitério, um amigo noutro. No mais, a devoção às almas estimula as visitas. Uns cuidam de arrancar matos dos monturos de terra, outros mais de lustrar um pedra tumular. O cheiro de parafina queimando toma o ar, de mescla ao aroma das flores de monsenhor, crisântemo e cravo-defunto. Cruzes simplórias e esquecidas, ferrugentas, por ventura são lembradas neste dia. Assim como na terra dos vivos, também na dos mortos há construções abastadas, embora que o destino comum seja inevitável. Mas o carinho com os falecidos é uma premissa ética e religiosa, ensina a Bíblia Sagrada, através do Livro de Tobias. 

Dentre tantos túmulos, em São João del-Rei, merecem destaque o do ex-Presidente da República, Tancredo de Almeida Neves, que recebe uma grande quantidade de visitantes, inclusive de turistas e em especial uma sepultura que é a mais querida de todas, a da Jovem Desconhecida, no Cemitério Municipal ("Cemitério do Quicumbi"). 

Túmulo da Jovem Desconhecida em setembro de 1998.

O caso policial misterioso nunca foi elucidado. Uma mulher jovem foi encontrada no matagal em 1970 em estado de decomposição. Não foi identificada. O crime chocou a então pacata sociedade são-joanense. O povo lhe atribuiu o poder do milagre e logo condecorou o seu espírito com a fama de taumaturgo. A visitação ao túmulo, ora renovado, é muito grande e sobre ele sempre há flores, velas, pedidos e orações, manuscritas ou impressas. 

Créditos

- Texto e fotografia: Ulisses Passarelli. 

Notas

- Revisão: 26/05/2025. 

sábado, 27 de abril de 2013

Caixinhas das Almas

Memórias e informações históricas sobre os painéis do purgatório
 e as caixas de coleta em favor das almas


Hoje me veio à lembrança momentos da infância, nos quais entrava nalgum bar de São João del-Rei para comprar balas e doces e via na parede uma pequena caixa para depositar ofertas em benefício das almas. Tais óbolos eram recolhidos periodicamente por um zelador ou irmão das almas e destinados a celebrações em sufrágio das almas do purgatório. 

Caixa das Almas, Bairro Tijuco, São João del-Rei/MG, no interior de um bar na localidade Buraquinho.

Muitos anos mais tarde pude compreender melhor o velho costume. De origem portuguesa, adaptado à realidade brasileira, era em sua origem uma composição em painel onde se pintava uma cena representativa do sofrimento das almas em chamas, ardendo no purgatório. Chamavam-lhe "alminhas". Apelando para tal comoção, naturalmente reflexiva sobre nosso próprio futuro, estava o painel ligado a um cofre onde o fiel depositava seu dinheiro, crendo que serviria às missas em favor das almas, único refrigério possível para elas.

 Painel das Almas. Forro do hall de entrada da sacristia da Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, 
São João del-Rei. Pintura do século XVIII, atribuída a Manoel Vítor de Jesus. 

Em sua passagem por Minas Gerais na segunda década do século XIX, Saint-Hilaire registrou em Rio Preto, na Zona da Mata: "Na extremidade que termina a povoação há uma cruz, e, segundo o costume, um tronco com um quadro que representa as almas do purgatório."

Melo Morais Filho, certificou no fim do mesmo século: " ninguém há por aí que não tenha visto à porta de certas igrejas, dentro de tabernas e, nas ex-províncias do Brasil, em várias boticas, a caixinha das almas, com figuras pintadas ao alto, brancas e negras, com olhos de brasa e boca de fogo, levantando os braços no meio de labaredas vermelhas, listradas de amarelo..."

Rodrigues de Carvalho, no clássico "Cancioneiro do Norte" registrou a composição popular paraibana intitulada "Frei Serafim", composta por dez estrofes de seis versos, rima ABCBDB, sem indicação de data, procedência e autoria. A última estrofe menciona expressamente a caixa das almas: 

"A santa caixa das almas,
perto do cruzeiro, tem;
cada qual dê sua esmola,
que eu também dou meu vintém.
Bendito, louvado seja, 
o santo cruzeiro. Amém." 

Aqui mesmo em São João del-Rei houve em tempos coloniais um Oratório das Almas, construção do século XVIII há muito inexistente, que ficava no Largo da Prainha (Praça Dr. Antônio Vieira), bem no centro da cidade, que nada mais devia ser que uma alminha à moda portuguesa. 

Porém, com o passar dos anos houve mudanças e se desvincularam os painéis representativos das caixas de coleta, dessacralizando o conjunto. Na Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, em São João del-Rei/MG, ainda se vê dois painéis que mostram bem a concepção barroca (no sentido da dramaticidade) do sofrimento após a morte: figuras humanas de mãos postas clamam preces em pleno sofrimento ígneo. 

Detalhe central de medalhão frontal ao altar de São Miguel e Almas, 
Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, São João del-Rei

Mas além do aspecto propriamente piedoso, existe uma outra natureza nessas ofertas. O povo se habituou a ofertar moedas até nos pés dos cruzeiros e nas capelas de cemitério, por vezes de forma exposta (não depositada em caixas), sem preocupação aparente de desvio da esmola, ciente que, se deu às almas, a elas pertence. Caso alguém roube ficará com o pecado. Elas já viram sua verdadeira intensão e garantirão fartura em sua vida terrena. É o outro lado do costume, denotando uma relação de ordem mais devocional e de troca. Depositar uma esmola no cofre das almas durante sete segundas-feiras seguidas (dia votivo das almas), acompanhado de ave-maria e pai-nosso, garante ao devoto que sua carteira não falte dinheiro. Traz fartura. É uma simpatia divulgada aqui em São João del-Rei, conforme anotei em 2009.

As caixas tradicionais são pintadas de verde, cor votiva da Irmandade de São Miguel e Almas, e costumam trazer inscrições referentes ao objetivo ou a sigla S.M. (São Miguel), do santo guardião e condutor das almas noutro mundo, o espiritual. 

Essas caixas podem ser compreendidas como elementos da cultura popular. Renato Almeida ensinou que "o folclore não é o que o povo aceita, mas sobretudo o que utiliza". A tendência já visível ruma para o fim das caixas externas em estabelecimentos e sua permanência exclusiva no interior das igrejas, distanciando de vez o costume de suas origens e readequando os comportamentos dos fiéis, processo de inspiração romanizadora. 

Caixa das Almas flagrada numa coluna do Mercado Municipal de São João del-Rei.


Cofre das Almas, Capela do Jequitibá.
Catas Altas da Noruega. Foto: André Vieira Colombo, jan.2025. 


Referências bibliográficas

ALMEIDA, Renato. Vivência e Projeção do Folclore. Rio de Janeiro: Agir, 1971. 161p. p.50.
CARVALHO, Rodrigues de. Cancioneiro do Norte. 3.ed. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1967. 411p. p.184-186. Tiragem facsimilar, João Pessoa, Biblioteca Paraibana, out./1995. 
MORAIS FILHO. Alexandre José de Melo. Festas e Tradições Populares do Brasil. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.] 562p. p.270-1.
SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem às Nascentes do Rio São Francisco e pela província de Goiás. Rio de Janeiro: Nacional, 1944. 343p. p.52. 

Créditos

- Texto e fotografias (ano 2000): Ulisses Passarelli. 

Notas

- Revisão e acréscimo de fotografias (Capela do Jequitibá): 12/12/2025. 

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Folclore das Almas

Neste Dia de Finados, esta postagem traz à tona algumas tradições sobre as almas, ainda correntes em São João del-Rei e região de entorno imediato, mas que em verdade se fazem cosmopolitas, em cada região com variações específicas. Mero compilado memorialístico do vasto Folclore das Almas, com alguns breves comentários, revela algumas concepções populares, que tem vida independente das doutrinas cristãs formais das igrejas.

As almas se configuram como uma categoria de espíritos em torno dos quais se construiu um complexo mitológico e devocional interativo, de difícil separação. São espíritos ainda humanizados, mais ou menos com suas características sentimentais e psicológicas. Não alcançaram a santidade elevada daquelas agraciadas com a canonização, nem as propriedades fluídicas de força das entidades espirituais dos terreiros, como os guias. Estão em nível intermediário e como tal, estão acessíveis às preces dos fiéis da religiosidade popular. 

As almas podem se apresentar aos vivos em visões mais ou menos fugazes e turvas, ou com grande clareza, a depender da mediunidade da pessoa, ou da necessidade extremada de se comunicar. Ora surgem como uma fumaça ou um vulto mal definido ora com um formato humano, embora logicamente incorpóreas. Assim conservam a fisionomia que tinham quando encarnadas e se apresentam visualmente com as vestimentas, trejeitos e até simulação de objetos pelos quais eram conhecidos. Desta forma são vistas nos sonhos ou mesmo em aparições a qualquer hora, diante da pessoa escolhida. 

Quando não são vistas se fazem anunciar por sons que produzem especificamente para chamar a atenção, como de água saindo de uma torneira que está fechada, baldes e vasilhas domésticas caindo, algo se arrastando, passos dentro de casa, sons de pequenas pedras rolando telhado abaixo, luzes que se acendem sozinhas sem ninguém tocar o interruptor. Animais as avistam normalmente e acusam sua presença pelo olhar espantado ou alegre _ quando conhecida _ e emitem seu latido, miado, relincho... 

Outra forma de se apresentar é pelo cheiro característico de vela queimando, ou melhor, fumegando, quando termina o pavio, mas sem que ninguém no local esteja com vela alguma acesa. 

Aí vem a sensação de arrepio, um ar frio ao redor da pessoa visitada pelo “morto”, o zumbido no ouvido prenunciador de uma mensagem do além, que virá em palavras audíveis ou em um simples entendimento mental. A pele esfria. A alma está ali, lado a lado com a pessoa. Começa abrição de boca, seguidamente: são muitos os bocejos, inexplicáveis, sem que se esteja com sono. Por vezes um leve tremor ou uma contração repentina do ombro, um "saculejo", como se diz. O povo diz intuitivamente: “passa morte, que estou forte!”

Isto é no cotidiano, posto a licença de uma alma vir em breve visita, mostrar alguma coisa que está acontecendo sem que a pessoa o saiba, ou para pedir algo a um vivo: algum feito que faltou em sua encarnação e que se não for cumprido prejudica a caminhada celestial daquele espírito. Trava sua evolução. A dívida espiritual prossegue além-túmulo no cumprimento da justiça divina. Daí correrem estórias de tesouros enterrados, de corpos assassinados e ocultos que foram descobertos pela força de uma visão reveladora, gerada pela alma envolvida que necessita disso ou daquilo para seu socorro próprio.

Toda segunda-feira é dia das almas. Seis horas da tarde (18 horas) é sempre seu tempo. A vela para elas é a branca, de parafina, cera ou espermacete. 

No dia de finados as almas tem licença para vir aos cemitérios e aguardar junto aos túmulos as visitas dos entes queridos. A acorrida aos campos santos é geral pelos humanos, na ânsia de uma proximidade fugaz ou por simples hábito. Em São João del-Rei merece destaque a visita ao túmulo da Jovem Desconhecida, no Cemitério do Quicumbi, à qual se atribui o título de taumaturga. Tal sepultamento trata-se de um caso policial misterioso, nunca foi elucidado. Uma mulher jovem foi encontrada no matagal em 1970, em estado de decomposição. Não foi identificada. O crime chocou a então pacata sociedade são-joanense. O povo lhe atribuiu o poder do milagre e logo condecorou o seu espírito com a fama de taumaturgo. A visitação ao túmulo, intensificado a cada Finados, é muito grande e sobre ele sempre há flores, velas, pedidos e orações, manuscritas ou impressas. 

Mas em dias corriqueiros as almas só se manifestam rapidamente por uma concessão superior, ou do contrário, se não se libertaram de suas intensões mundanas tornaram-se penosas, ou seja, vagam sem rumo ou permanecem junto aos tesouros que juntaram em vida como se dele ainda fossem dependentes e guardiãs. E isto representa um sofrimento. São elas que assombram, intimidam em velhos casarões coloniais, em porteiras empenadas que rangem e batem sozinhas, nos antigos cruzeiros diante dos quais estacam mulas-sem-cabeça, bafejando chispas, após desenfreada correria; em porões tenebrosos estão as almas, nas esquinas sombrias, pelas encruzas dos caminhos ermos. 

Se uma alma dessas se mantém no âmbito da vida cotidiana de um ser humano se torna para ele um fardo, prejudica-o, torna-se um obsessor. Não se deve rezar para as almas dentro de casa de forma alguma, nem por alguém muito próximo que partiu, pois sua alma tende a permanecer dentro daquela casa. Rezar para as almas é de fora, "no tempo" (externamente), no quintal. 

A alma penada não está no céu, tampouco no inferno, muito menos no purgatório, limbo ou umbral. Permanece presa na Terra, teimando em permanecer apegada ao material ou impedida de seguir para outro plano por suas transgressões, até que se arrependa. O conceito folclórico de alma penada, ainda que tenha nuances próprias, faz lembrar por analogia o que se chama em alguns terreiros de umbanda, quimbanda e candomblé de egum, mas não é plano deste breve texto enveredar neste paralelo.

Em oposição às almas penadas estão as almas do purgatório, que estão sofrendo por suas faltas, mas que já foram resgatadas do plano terrestre e que, aprisionadas no dito purgatório, dele se libertam para a luz de Deus graças às nossas preces em seu favor, especialmente as intermediadas por São Miguel Arcanjo (“Condutor das Almas”) e Nossa Senhora do Carmo, que são os mais capazes de resgatá-las. Dessas preces se ocupa de forma especial o conhecido rito da Encomendação das Almas.

Dentre as almas do purgatório estão as chamadas “aflitas”, termo empregado àquelas que mais sofrem por estarem mais em profundidade no castigo, com precisão de socorro imediato. Para elas são dirigidas orações dos aflitos terrenos, numa relação de troca, prometida a prece por uma ação movida por elas. Colocar as almas aflitas no encalço de alguém que está, por exemplo, devendo algo, até que venha pagar, dá ao devedor uma tremenda e insuportável aflição: o sujeito fica acelerado, nervoso, ansioso. Não dorme bem, não come direito, tudo dá errado até que se lembre da dívida e pague. Aí o promesseiro terá de pagar a conta com as almas _ velas, rezas, missas em favor de _ ou terá a aflição voltada para si. 

Em outra categoria estão as almas já recuperadas, que tem condições de ajudar os humanos, sem atrapalhar nada em sua vida: são as almas chamadas de benditas, sabidas, entendidas e encaminhadeiras. Por elas pedem os devotos das almas, como se roga a intervenção de um santo. 

Seja como for a concepção popular diz que jamais devemos esquecer os mortos pois ensina-se que em verdade estão vivos na espiritualidade e de lá nos avistam e acompanham, choram por nosso esquecimento e se alegram com nossa boa consideração. Se os esquecermos, também quando lá chegarmos seremos esquecidos pelos da Terra e a penúria da solidão recairá sobre nós.

Cemitério do Caburu. (São Gonçalo do Amarante, distrito de São João del-Rei / MG). 

Créditos

- Texto e fotografia (2011): Ulisses Passarelli.

Notas 

- Sobre as categorias de almas ver também a postagem CAPITÃES DE AREIA.
- Revisão: 25/08/2025.