Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Ianduti

Ianduti ou nhanduti é um certo tipo de renda de muitas possibilidades combinatórias geométricas, bastante delicada, com uma trama que imita uma teia de aranha, literalmente tradução de seu nome, que é de origem indígena (iandu = aranha), muito embora a técnica seja européia. É feita sobre um quadro cheio de preguinhos, o bastidor (tear para rendas).

Também chamada renda-sol ou ainda renda-tenerife, teria vindo para a América de Tenerife (Arquipélago das Canárias). No Paraguai ganhou o batismo com o nome indígena e esparramou-se por distantes áreas geográficas.

O viajante inglês John Mawe, que por aqui passou em 1809, escreveu: “As senhoras de São João del-Rei gostam muito de fazer renda, e são consideradas mais cuidadosas com coisas domésticas dos que as das outras cidades”



Bastidor e ianduti. Trabalho da são-joanense Luíza dos Santos. 


Notas e Créditos

* Fotografias e texto: Ulisses Passarelli

Referências Bibliográficas

MAWE, John. Viagens ao interior do Brasil, principalmente aos distritos do ouro e dos diamantes: 1809-1810. 

Referências na Internet 

Como fazer Nhanduti ou Renda Tenerife: http://www.youtube.com/watch?v=5Vg-DkVN2nY (acesso em 20/11/2013, 5h)

domingo, 17 de novembro de 2013

São Gonçalo Garcia

(Ofereço atenciosamente ao professor Gaio, mestre da história são-joanense)

São Gonçalo Garcia foi nascido em 1556, em Baçaim, na Índia. Seu pai era português e a mãe indiana. Foi irmão leigo franciscano. Em 1597, na cidade de Nagasaki, no Japão, foram crucificados 26 cristãos (“Mártires do Japão”), em missão religiosa comandada pelo espanhol São Pedro Batista. Dentre eles, Gonçalo, que depois de muito humilhado teve o coração trespassado por duas setas ou lanças, a 05 de fevereiro daquele ano. Foi canonizado em 1862, pelo Papa Pio IX. 

Retábulo no altar-mor da Igreja de São Gonçalo Garcia. São João del-Rei/MG.

Imagem de S.Gonçalo Garcia,
São João del-Rei.
Em São João del-Rei a "Irmandade de São Francisco de Assis e São Gonçalo Garcia" foi fundada na Igreja Matriz do Pilar em data incerta do século XVIII e já no ano de 1759 recebia terras. O patrimônio foi doado em 1775 por Joaquim Ferreira Veiga. A construção da capela própria iniciou-se, segundo Augusto Viegas, citando Lima Júnior, em 1786, ano da provisão que deu autorização para edificá-la. As obras se arrastaram por longos anos. Em 1790 Antônio José Quintino de Assunção foi pago pela escultura da imagem do padroeiro. Em 1794, Manoel Izidoro fez trabalhos no camarim do trono desta capela. Muito modesta, inicialmente não tinha torre, o que se percebe em uma antiga ilustração assinada por Huascar; mas há notícias de uma "nova torre" construída em 1826-7, obra do mestre pedreiro Cândido José da Silva, do lado esquerdo do frontispício. Sua simplicidade foi alvo de severas críticas do exigente Burton quando de sua passagem pela cidade. Seu aspecto primitivo foi alterado completamente. A Câmara Municipal consignou um conto de réis para sua reforma em 1877, informou o primeiro número do jornal local, Arauto de Minas, de 08 de março daquele ano. Sua edição n.4, do mesmo ano, fala em reedificação da capela. As obras tiveram longa duração e o atual frontispício (com uma torre única, central e projetada adiante da fachada) foi concluído em 1903. A escadaria de acesso data de 1915. Cumpre ainda informar que o nome inicial do sodalício foi alterado, ganhando o título de "Episcopal Confraria" em 1850, por um pedido do definidor Padre José Maria Xavier ao Arcebispo de Mariana, Dom Frei Manuel da Cruz. 

Procissão do Imperador Perpétuo passa diante da Igreja de São Gonçalo Garcia, 
durante a Festa do Divino de São João del-Rei. Foto: Cida Salles, 10/06/2011.   

É alcunhada "Igreja dos Militares", onde se venera Santa Joana d’Arc (*), sua padroeira. Contém também imagens de outros santos patronos dos militares ou ligados culturalmente ao militarismo: Santo Expedito, São Judas Tadeu, Santo Antônio de Pádua. Diante dela há o Monumento aos Expedicionários e a própria igreja é bem próxima à área sede do 11º BI Mont.Regimento Tiradentes, gloriosa unidade de montanhismo do Exército Brasileiro, que muito orgulha esta cidade.

Santa Joana d'Arc. Imagem da Igreja de São Gonçalo Garcia. São João del-Rei. 

No sistema colonial de divisão de classes, esta irmandade congregava os homens pardos, impedidos que eram de entrarem para ordem franciscana, que só admitia brancos. Teve pretensões de libertação dos escravos. Requereu em 24/11/1772 à Rainha D. Maria I o privilégio de libertar escravos confrades mediante paga.  O traje é um hábito um pouco mais curto que o dos terceiros franciscanos. Por isto mesmo são apelidados ironicamente de “meias caídas”, segundo Gaio Sobrinho. O dia deste santo é 05 de fevereiro mas nesta cidade festejam-no em julho. Além do orago, merece destaque no lugar a veneração a São Judas Tadeu (hoje mais tênue, desde que foi construída sua igreja, no Bairro Caieira), Santo Expedito (com fervorosa festa em abril), Santa Luzia (em dezembro), São Frei Galvão e Santa Joana d’Arc


Quadros com fotografias ex-votivas. Hall da sacristia. Igreja de São Gonçalo Garcia. São João del-Rei. 

Realizava-se outrora nesta igreja a curiosa “Procissão dos Mártires”, que diz Antônio Gaio Sobrinho, era, “mais ou menos, uma réplica da procissão de cinzas dos franciscanos.” Era bizarra, cheia de andores e alegorias, da qual o autor nos brinda com interessante citação de alguns detalhes no seu "Visita à Colonial cidade de São João del-Rei".

Nossa Senhora do Amparo.
Igreja de São Gonçalo Garcia.
São João del-Rei. 

Houve também o costume local da Rasoura de Nossa Senhora do Amparo, todo primeiro domingo de cada mês. Sua imagem ficou conhecida por isso como “Imagem da Rasoura”. Rasoura é uma pequena procissão circunscrita aos limites físicos da igreja (dentro do adro) ou caminhando apenas pela praça fronteira ou quarteirão que lhe rodeia. Na época da escravidão esta invocação mariana era uma das clamadas pelos cativos, esperançosos de seu amparo espiritual. 

É mister referir que atrás da igreja há o cemitério próprio. Nele havia outrora a tétrica inscrição em latim: “hodie mihi cras tibi” que se pode traduzir, “hoje para mim, amanhã para ti”. 

A devoção a São Gonçalo Garcia é por assim dizer rara. Poucas são as notícias. Há igrejas setecentistas deste orago em Penedo/AL, Vitória/ES e Rio de Janeiro/RJ (Rua da Alfândega, junto com São Jorge). Em Pernambuco colonial conheceu-se também esta devoção. No Recife os festejos ganhavam cunho popular na Igreja do Livramento, onde ficava sua imagem. Os negros e índios tomavam participação ativa, com suas danças folclóricas de quicumbis e caboclinhos, e o cortejo se agigantava com muitas alegorias, carros triunfais e música. 




Referências bibliográficas

- BURTON, Richard Francis. Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho
- CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. 2.ed. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1982. 2v. 
- GAIO SOBRINHO, Antônio. Sanjoanidades. São João del-Rei: A Voz do Lenheiro, 1996. 104 p.il. 
GAIO SOBRINHO, Antônio. Santos Negros Estrangeiros. São João del-Rei: [s.n.], 1997. 153p.il.
GAIO SOBRINHO, Antônio. Visita à Colonial Cidade São João del-Rei. São João del-Rei: [s.n.], 2001. 
GAIO SOBRINHO, Antônio. São João del-Rey 300 anos de históriasSão João del-Rei: [s.n.], 2006.
- PEREIRA, Kleide Ferreira do Amaral. Revivescência de Cultos Pagãos nos Antigos Cultos aos Santos Nacionais Portugueses. Revista Brasileira de Folclore, Rio de Janeiro, MEC / Dep. de Assuntos Culturais / CDFB, n.35, jan.abr.1973. p. 33-44. 
- TINHORÃO, José Ramos. As Festas no Brasil Colonial. São Paulo: 34, 2000. 176p.il. 
- VIEGAS, Augusto. Notícias de São João del-Rei. 3.ed. Belo Horizonte: [s.n], 1959.


Referências na Web

Wikipédia (acesso em 17/11/2003, 17:35h)


Notas e Créditos

* Já se encontrava publicada esta postagem, quando a 10/12/2013 localizei uma interessante notícia sobre Santa Joana d'Arc: trata-se de um registro de sua festa no Largo do Rosário que dá conta de uma missa campal, procissão muito concorrida, como parte das comemorações da páscoa dos militares. Os soldados carregaram o andor durante todo o trajeto. Frei Orlando Alvares fez o sermão à entrada, falando da vida da mártir (Fonte: jornal O Correio, São João del-Rei, n.859, 08/05/1941, acervo da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida). É santa muito querida nos terreiros das religiões de matriz africana, sua imagem é frequente nos congás, tida como santa guerreira, muito forte, habitualmente sincretizada com Ogum Iara, ordenança de Oxum. Em São João del-Rei houve na década de 1990 um grupo de moçambique bate-paus na Rua do Ouro (Bairro Alto das Mercês), do Capitão Tadeu Nascimento de Sousa, que se denominava “Mãe Joana D’Arc”, aliás, o mesmo nome do terreiro ao qual estava ligado, já que seus participantes eram filhos espirituais daquela casa.
** Sobre Frei Orlando ver também:
- Aspectos folclóricos: neste blog, em  A Batina do Padre tem Dendê 
- Aspectos biográficos e históricos: no Blog de São João del-Rei (um trabalho de pesquisa fidedigno, da maior importância, efetivado pelo culto Sr. Francisco Braga). 
*** Texto e fotos (salvo indicação em contrário): Ulisses Passarelli, 17/11/2013.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

São Gonçalo do Amarante


Santo dominicano português, natural de Arriconha (Tagilde, Vizela), onde nasceu em 1187. Faleceu na cidade portuguesa de Amarante, falecido em 1262 e beatificado em 1561. Seu dia é 10 de janeiro. Construiu com a graça de Deus em mutirão com o povo uma célebre ponte de pedra sobre o Rio Tâmega em Amarante.

É considerado casamenteiro, sobretudo das solteironas. Neste sentido há esta pitoresca pilhéria, abaixo transcrita a partir de um antigo jornal de São João del-Rei, "O Erro":

"porque motivo a senhorinha H. da rua de S.Francisco só anda com meninas bonitas? Será mesmo por abnegação ou para ver si beleza é moléstia contagiosa? ... Qual, minha flor; agora só muita devoção a S. Gonçalo do Amarante!..."

Tem uma igreja barroca na vila que leva o seu nome, no distrito homônimo (ex Caburu), em São João del-Rei. Localmente é festejado em julho, junto com o Sagrado Coração de Jesus, contando com novena, alvorada, missa festiva, procissão, sermão, bênção do Santíssimo Sacramento, leilão de prendas, queima de fogos, quermesse, banda de música. 

Um outra igreja regional dedicada a este santo está situada em Ibituruna, donde é padroeiro. Sua capela é citada desde 1749 ou 1769, conforme a fonte. Porém a capela primitiva deu lugar à atual (que aparece na foto abaixo) em 1932, segundo o jornal Folha Nova. Ibituruna pertenceu a São João del-Rei até 1922, passando então ao município de Bom Sucesso do qual emancipou-se em 01/03/1963.

Igreja de São Gonçalo do Amarante, Ibituruna/MG. 
Foto: Iago C.S. Passarelli, 30/06/2013. 

Tem duas iconografias distintas: numa representam-no como sacerdote, com batina preta e chapéu eclesiástico ou com hábito dominicano; noutra, como camponês de Portugal, tocando viola. 

Detalhe do trono, no retábulo da Igreja de São Gonçalo do Amarante no distrito homônimo em São João del-Rei, vendo-se os anjos recortados na madeira, abrindo a cortina que permite a aparição do santo, uma solução estética rara nesta região. Foto: Iago C.S. Passarelli, 13/10/2013.

Corre que o santo nas horas de folga tocava sublimemente viola noite adentro para as prostitutas, que encantadas com seu som, deixavam de ir se prostituir, dançando alegre e sadiamente diante do santo. Assim evitava que continuassem no pecado. Por isto é padroeiro dos violeiros, que fazem promessas para ele no sentido de buscar proteção e aprendizado. 

Possui devotos fervorosos que pagam promessas de forma curiosa e inusitada _ dançando: é a Dança de São Gonçalo, sempre de fundo religioso, sendo muito rara nas Vertentes. Tem por aqui duas áreas de ocorrência, uma rumo leste (Bias Fortes,Santana do Garambéu...) e outra a oeste (Lavras, Perdões...). Em Bias Fortes realizava-se nas fazendas e no Arraial do Vermelho um homem (promesseiro) vestia-se de São Gonçalo, mas trazia o rosto coberto. Diante dele dançavam e cantavam. 

"Mandei chamar São Gonçalo,
que viesse a toda pressa!
pra ajudar esses doente,
a cumprir suas promessa. 

São Gonçalo desceu do céu
na folhinha do café, 
pra dançar pra São Gonçalo
há-de ser com muita fé."

Outra estrofe, de Ponte Nova (Bias Fortes), carregada de irreverência, cantada pelo sr.José Maria: 

"Pra dançar pra São Gonçalo
é na folhinha do feijão, 
cura quem tá doente, 
adoece quem tá são..."

No povoado do Brumado de Cima, distrito de São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei), registrei a Folia de São Gonçalo. Sob a coordenação do folião Geraldo Marcelino da Silva, popularmente conhecido por "Geraldo Teixeira", recolhia donativos na zona rural entre os sitiantes para organização da festa do santo na sua igreja própria. A bandeira de sua folia representava o santo sobre uma ponte, alusão a sua obra em Portugal. 

Bandeira da folia de São Gonçalo do Amarante, povoado do Brumado de Cima, 
São João del-Rei. Foto: Ulisses Passarelli, março/1999. 


A Festa de Nossa Senhora das Mercês, observada em Tiradentes no ano de 1999, previa entre os muitos Juízes (as) os de São Gonçalo, constando inclusive seus nomes no programa festivo. 


Referências Bibliográficas

- GUIMARÃES, Geraldo. Considerações sobre Ibituruna. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, n.8, 1995. p.91-103.
- POMPÉIA,  Maria do Rosário. Algumas notas sobre Ibituruna. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, n.8, 1995. p. 104-110.

Referências Hemerográficas

- Folha Nova, São João del-Rei, n.8, 24/04/1932.
- O Erro, São João del-Rei, n.2, 09/07/1933.

Informantes

- José Cândido de Salles, 19/07/1997 (Arraial do Vermelho)
- Elvira Andrade de Salles, 19/07/1997 (canto, originário de Ponte Nova, município de Bias Fortes)
- José Maria do Nascimento, 07/07/2013 (canto, originário de Ponte Nova, município de Bias Fortes)
- Geraldo Marcelino da Silva, março/1999 (sobre a folia do Brumado de Cima)

Notas e Créditos

* Texto: Ulisses Passarelli

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Folclore das Orquídeas

Algumas orquidáceas na tradição popular de São João del-Rei

(ofereço atenciosamente a Luís Cruz, grande defensor de nossa natureza)

As orquidáceas são vegetais superiores, muito evoluídos na escala filogenética. De floração bela, intrigante, aromática, desde longa data são alvejadas pelo homem no afã de tê-las ao alcance do olhos, em cultivo caseiro ou comercial. 

Não apenas a coleta é uma ameaça. A destruição do habitat e as mudanças climáticas, tudo fruto da pressão antrópica, impõe um destino sombrio a estas criações maravilhosas da mãe natureza, carecendo de um vasto trabalho educativo e protecionista. 

Algumas dessas plantas caminham céleres para a rarefação. Há as que tem um papel especial na cultura popular, conforme a região, enveredando para o ramo do folclore, razão pela qual vem neste momento colorir esta página eletrônica, tal como os exóticos dendróbios (Dendrobium nobile) enfeitam, em setembro, o andor do Senhor de Matosinhos. 

***

Baunilha - nome das orquídeas do gênero Vanilla e da essência aromática extraída dos seus frutos (cápsulas de sementes). A substância principal da baunilha é a vanilina, que confere aroma e sabor característico a bolos, tortas, doces, sorvetes, etc. É usual colher as cápsulas na Sexta-feira da Paixão, cortá-las em forma de cruz, colocar açúcar em seu interior e por a secar. Guarda-se para fazer chá em casos de cólicas muito fortes e para males inexplicáveis. Considera-se abençoada. A mais de um século, um jornal de São João del-Rei anunciava nos seguintes termos um certo conhaque (*): "Cognac de agrião e baunilha - Depositarios Nogueira Sobrinho & Comp. - Rio  - Rua do Acre, 49. Fortificante sem egual. Saboroso e medicinal."

Outra referência digna de registro é a do viajante inglês Richard Burton, que em meados do século XIX, ao passar por São João del-Rei, deixou registrado: 

"Também nos foram mostrados exemplares da baunilha nativa, preparada pelos nossos anfitriões. As vagens são penduradas em uma corda e postas a secar, todos os dias, ao sol e ao ar, mas de maneira a não se tornarem excessivamente secas. Por duas vezes, com um certo intervalo, é aplicado o óleo da "azeitona-da-África", por meio de uma pena. Há quem corte as vagens e salpique dentro delas açúcar e sal. Esse valioso produto é de a muito conhecido no Brasil; uma lei colonial de 1740 proibia seu corte. O autor do poema Caramuru, cuja primeira edição é de 1781, fala sobre ele (Canto 7, es.47): 

"A baunilha nos cipós desponta,
que tem no chocolate a parte sua:
nasce em bainhas, como paus de lacre,
de um suco oleoso, grato o cheiro acre."

Ao passo, porém, que os espanhóis exploravam a "vaynilla" (Epidendron vanilla), mesmo em sua época de ouro e prata, os portugueses, especialmente os paulistas e os mineiros, sistematicamente a negligenciavam, e nossos livros a ignoram. No entanto, a planta cresce em grande parte do Brasil intertropical, e, em certos lugares, perfuma a atmosfera. Parece, portanto, se reproduzir sem a arte. As vagens que nos foram oferecidas em São João eram grandes, carnosas e muito escuras; conservaram durante meses seu cheiro característico."


Bananinha ou dedo-de-moça - micro-orquídea do numeroso grupo dos Pleurothallis, atualmente classificado como Acianthera rupestris. Coletado no dia de Nossa Senhora da Conceição nas pedreiras serranas, é usado para enfeitar presépios. 


Pinheirinho - micro-orquídea do grande grupo das Maxillaria, hoje classificada como Christensonella acicularis. Uso idêntico à anterior. 


Tatu, sumaré ou lanceta do mato - nomes populares dos cirtopódios, em especial aqui do raro Cyrtopodium andersonii. Do extrato dos pseudobulbos o povo faz uma cola rústica (também extraída de outra rara orquídea regional,Catasetum cernuum) e ainda um emplastro de poder cicatrizante. 


Bailarina - qualquer oncídio de flores amarelas. Orquidácea do grupo Oncidium, notadamente Coppensia varicosa, que florindo nesta região entre março e abril, tem suas hastes florais exuberantes usadas na ornamentação de capelas, dispostas em jarras e florais, durante as comemorações dos Passos. 

 


Catiléia - orquídeas epífitas do gênero Cattleya. Sofrem imensamente com a coleta em virtude de sua exuberância. Na região duas espécies nativas são usadas na ornamentação quaresmal dos andores do Senhor dos Passos e capelas: Cattleya loddigesii  e Cattleya walkeriana, abaixo retratadas, nesta sequência. 

                                           

                                   

Referências Bibliográficas

BURTON, Richard Francis. Viagens aos Planaltos do Brasil (1868) . 1º Tomo: do Rio de Janeiro a Morro Velho. Rio de Janeiro: Nacional, 1942. Coleção Brasiliana, série 5a, v. 197.

Notas e Créditos

* O Repórter, n.32, 16/09/1906, São João del-Rei. Fonte: site da Biblioteca Municipal Baptista Caetano de Almeida
** Texto e fotografias: Ulisses Passarelli

domingo, 10 de novembro de 2013

Festa na Canela

O Ciclo do Rosário se encerra nas Vertentes

Terminou neste domingo, dia 10 de novembro, a festa de Nossa Senhora do Rosário no povoado são-joanense da Canela, após concorrida novena que contou com a participação de diversos corais de igrejas rurais da região. De fato, a presença de fiéis foi muito intensa. 

O largo do povoado, dominado pelo campo do tradicional time do "Vila Nova", teve ao seu redor instaladas as barracas de comes e bebes e parque de diversões, mudando por uns dias a pacata vida do lugar. No salão houve um animado baile no sábado à noite, que varou a madrugada no forró que fez a alegria dos moradores e visitantes. 

Domingo, dia maior, logo cedo, os festeiros já estavam na luta: enquanto uma turma cuidava de limpar o largo, outra já corria para preparar o alimento para os congadeiros. 

Pouco a pouco o movimento foi crescendo com a chegada dos habitantes e de gente dos sítios e outros povoados. No alto do cruzeiro, onde está a escola do lugar, algumas pessoas esperavam a chegada do congado do capitão Pedro Noberto da Silva - a guarda de congo "Nossa Senhora do Rosário", do distrito de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, Terra de Nhá Chica. 

O grupo chegou de ônibus pelas 11 e pouco da manhã, debaixo do espoucar de foguetes que lhes deram as boas vindas. Apesar do luto pela perda do antigo capitão "Dezinho", manifestado nos lacinhos de fita preta presos no ombro esquerdo de cada dançante, o grupo esteve extraordinário como de costume. 

Visitou o mastro, a igreja e várias casas da Canela, nesta ordem. A seguir o intervalo do almoço, farto e saboroso, bem à moda mineira. 

A celebração da santa missa se deu às 13 horas, seguida do recolhimento dos reis e rainhas, sempre numerosos nesta região do município. Como reza a tradição, cabe à 1ª coroa oferecer o almoço; à 2ª o café. A ambas não se dispensa ainda o envelope com oferta pecuniária à festa, entregue no ato da chamada. As demais coroas só tem obrigação com a oferta na chamada. Os mouros, claro, cumpriram seu papel, botando a gurizada a correr e lutando espadas para descoroar o reinado. 

A chamada teve a parte sonora a cargo da visitante "Corporação Musical Aquiles Rios", a banda de música do também distrito são-joanense São Sebastião da Vitória, mais um demonstrativo da pujança cultural deste município. Também tocou na procissão, que contou com os andores de São José e de Nossa Senhora do Rosário. 

Por fim coube ao congo entregar o reinado, já com o cansaço pesando às costas, mas é parte da missão. 

O povo em burburinho tomou conta do lugar, animada e devotamente. Esta festa na Canela se repete desde 1996, embora que historicamente se saiba que a cerca de sessenta anos houve um grupo próprio de congo no povoado, que pela oralidade, pode ter sido tão ou mais antigo que o grupo do Rio das Mortes, haja vista correr notícia, não confirmada ainda, que a Canela era um quilombo e o primeiro congo da região começou neste lugar. Veja abaixo algumas cenas retratadas nesta festa.






Aspectos da festa no Canela - de cima para baixo: andor do Rosário, saudação ao cruzeiro, visita a uma casa, mastro do rosário (verso), capitão Pedro, toalha do altar e capela do Rosário com largo em festa. 

* * *
Sobre este festejo veja o vídeo: Festa na Canela

* * *
Fotos e texto: Ulisses Passarelli

sábado, 9 de novembro de 2013

A Banda do Senhor Américo




Banda de Música Santa Terezinha do distrito de São Gonçalo do Amarante (à época da foto, possivelmente 1941, chamava-se Caburu), São João del-Rei/MG.

Foto de autor não identificado, gentilmente cedida para reprodução por Ednei Sebastião de Oliveira, de acervo familiar. 

O responsável era o sr. Américo Honório de Oliveira, que aparece no recorte da esquerda, empunhando um bombardino. O regente era o sr. Secundo de Paula (foto em recorte à direita, segurando uma clarineta). 
A lista de componentes visíveis na foto, na ordem da esquerda para a direita é a seguinte, tal como transcrito de um papel manuscrito que os conserva, com as características alcunhas que tanto sabor dão às tradições interioranas: 

- Américo
- Antônio Fagundes
- Camilo
- Zé Rosa
- Geraldo Coração
- Gonçalo
- Modesto
- Mariinha
- Camundá
- Celina
- Dadada
- Aristides
- Joaquim Mendes
- Mauricinho
- Chiquito
- Dejanir
- Euclides
- Sílvio
- Secundo
- Eunice
- Maurício
- Nonô da Carmelita
- Zé Tobias
- Otacílio
- Zé Américo
- Neusa
- Aparecida

Desta lista ressalvo o nome de Antônio Fagundes, que foi um memorável capitão de congo do lugar; o de "Camundá", (menino que aparece só o rosto ao fundo e centro da fotografia, junto ao muro), aludindo a uma etnia africana que foi escravizada no Brasil, e as mulheres, que eram cantoras do coro de orquestra. 

Esta banda teve fim com o falecimento do sr. Américo, em 1967, e subsequente venda dos instrumentos para uma banda de Conceição da Barra de Minas no ano seguinte, pelo filho do proprietário, o sr. Euclides Honório, pai de meu informante e cedente da foto. 

* Texto: Ulisses Passarelli

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Antigo Congado de Matosinhos


As fotos abaixo, mostram o congado do Bairro Matosinhos, São João del-Rei, durante a Festa do Rosário, no Bairro São Dimas (década de 1980 ?), nesta mesma cidade. São foto de autor não identificado, anexadas ao acervo do Encontro Congadeiro nas Vertentes, gentilmente cedidas pela Sra. Celina Batalha, a quem este blog agradece. 

Quanto aos capitães: o primeiro capitão desta guarda de catupé foi o capitão "Zé Tita", na década de 1960 e como último capitão, "Chico da Sá Inês", ou "Chico Zacarias", que pode ser visto no recorte fotográfico abaixo, que fiz a partir da mesma fonte de origem. 



 Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografias: oferta Celina Batalha, acervo do Encontro Congadeiro nas Vertentes.

Notas 

- Para ver outras imagens e informações deste grupo clique nos links abaixo: 


- Revisão: 02/06/2025. 

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Mais uma da Mãe de São Pedro...

(estória dos tempos que Jesus andava pelo mundo)

Diz que quando Jesus fazia pregações, ficou certa vez hospedado na casa da mãe de São Pedro. Ela era uma velha muito ruim, invejosa dos poderes do Mestre, feiticeira maligna e fofoqueira. A megera ofereceu para Cristo dormir um quarto escuro, úmido, cheio de mofo, deixando para ele deitar somente uma esteira rasgada, estirada no chão frio. Humildemente ele aceitou. 

No outro dia, cedo, chegou naquela casa uma mulher vizinha, trazendo no colo seu filhinho. Estava nervosa, porque a criança tinha engasgado com um espinho de peixe, preso à sua garganta. Veio pedir ao Messias que benzesse. 

Jesus então benzendo o menino, aproveitou a oportunidade para criticar a hospitalidade da mãe de São Pedro, rezando assim: 

"Homem bom, mulher má, 
quarto escuro, esteira rôta, 
São Brás: tira esse mal da boca!"

A criança deu uma tosse e expeliu longe o espinho. 

Senhor Bom Jesus de Matosinhos em seu andor, durante a procissão em São João del-Rei, a 14/09/2013. 

* Texto: Ulisses Passarelli
** Foto: Iago C.S. Passarelli
*** Informante: Aluísio dos Santos, 24/03/2000.

Leia também as seguintes estórias: 


segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Ensalmos

Sob o nome de ensalmo, diferentemente das definições dos verbetes, conhecem os folcloristas pequenas orações versificadas, geralmente em quadras, de enunciação ritmada e grande popularidade, dada sua simplicidade em decorar e creditada eficácia.

As pequeninas preces da religiosidade popular, fáceis de se ensinar às crianças, servem para vários momentos da vida, até para adentrar no mato, ficando-se livre da peçonha dos ofídios pelas graças de São Bento: 

São Bento, água benta, 
Jesus Cristo no altar;
tira as cobras do caminho
pro filho de Deus passar. 

Seguem alguns exemplos coligidos em São João del-Rei e Santa Cruz de Minas / MG, alguns difundidos em outras regiões. 

1) laudatório: 
Viva Santana,
Senhor São Joaquim,
Viva o Menino Deus,
Senhor do Bonfim!

2)  exorcístico/para viagem:
Retira-te, inimigo!
Nesta estrada eu entro
Meu corpo, minha alma
É do Santíssimo Sacramento!

3) para se deitar e levantar: 
Com Deus me deito,
Com Deus me levanto,
Na graça de Deus,
Divino Espírito Santo!

4) para abençoar o lar ou saudar um templo:
4.1) Esta casa tem quatro canto
Cada canto tem um santo;
São Marcos, São Lucas, São Mateus,
Nossa Senhora com todos os seus!

4.2) Esta casa tem quatro cantos,
Cada canto tem um santo
E no meio tem a luz
Do Divino Espírito Santo!

5) para rogar inteligência:
Divino Espírito Santo,
Fonte de toda ciência:
Derramai sobre mim
A vossa inteligência!

6) para sair de casa:
6.1) Estrela da Guia
Estrela do Oriente,
Guia os meus passos
Daqui para frente!

6.2) Estrela do Céu,
estrela do meu Pai,
guia os meus passos
nos caminhos onde vai!

6.3) Os anjos cantam no céu,
A Jesus Cristo adora. 
Bendita seja a hora,
que vou por esse caminho afora. 

Imagem do Divino Espírito Santo, montado sobre uma custódia, num modelo iconográfico tradicional.
Igreja do Carmo, São João del-Rei/MG. 

* Informantes: Santa Cruz de Minas, Bairro Córrego - Elvira Andrade de Salles (1998): 1 e 6.3; São João del-Rei, Centro - Luíza dos Santos: 5 (década de 1970); Aluísio dos Santos ("Ló", anos noventa): 3, 4.2 e o ensalmo de São Bento; Édila Santos Passarelli (década de 1980): 2, 4.1; Bairro Araçá, Maria do Rosário Neves ("Dona Preta", 2009): 6.1, 6.2.
** Texto e foto:Ulisses Passarelli

domingo, 3 de novembro de 2013

Finados

Finou-se Finados, mas não se findou no coração de quem ama. Mais uma vez os campos santos estiveram repletos de saudosos visitantes, em burburinho nos portões, na calçada fronteiriça, junto aos ambulantes que neste dia oferecem à venda velas e flores. 

Alguns fazem peregrinação, uma espécie de via-sacra, porque tem um parente num cemitério, um amigo noutro. No mais, a devoção às almas estimula as visitas. Uns cuidam de arrancar matos dos monturos de terra, outros mais de lustrar um pedra tumular. O cheiro de parafina queimando toma o ar, de mescla ao aroma das flores de monsenhor, crisântemo e cravo-defunto. Cruzes simplórias e esquecidas, ferrugentas, por ventura são lembradas neste dia. Assim como na terra dos vivos, também na dos mortos há construções abastadas, embora que o destino comum seja inevitável. Mas o carinho com os falecidos é uma premissa ética e religiosa, ensina a Bíblia Sagrada, através do Livro de Tobias. 

Dentre tantos túmulos, em São João del-Rei, merecem destaque o do ex-Presidente da República, Tancredo de Almeida Neves, que recebe uma grande quantidade de visitantes, inclusive de turistas e em especial uma sepultura que é a mais querida de todas, a da Jovem Desconhecida, no Cemitério Municipal ("Cemitério do Quicumbi"). 

Túmulo da Jovem Desconhecida em setembro de 1998.

O caso policial misterioso nunca foi elucidado. Uma mulher jovem foi encontrada no matagal em 1970 em estado de decomposição. Não foi identificada. O crime chocou a então pacata sociedade são-joanense. O povo lhe atribuiu o poder do milagre e logo condecorou o seu espírito com a fama de taumaturgo. A visitação ao túmulo, ora renovado, é muito grande e sobre ele sempre há flores, velas, pedidos e orações, manuscritas ou impressas. 

Créditos

- Texto e fotografia: Ulisses Passarelli. 

Notas

- Revisão: 26/05/2025.