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Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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domingo, 17 de novembro de 2013

São Gonçalo Garcia

(Ofereço atenciosamente ao professor Gaio, mestre da história são-joanense)

São Gonçalo Garcia foi nascido em 1556, em Baçaim, na Índia. Seu pai era português e a mãe indiana. Foi irmão leigo franciscano. Em 1597, na cidade de Nagasaki, no Japão, foram crucificados 26 cristãos (“Mártires do Japão”), em missão religiosa comandada pelo espanhol São Pedro Batista. Dentre eles, Gonçalo, que depois de muito humilhado teve o coração trespassado por duas setas ou lanças, a 05 de fevereiro daquele ano. Foi canonizado em 1862, pelo Papa Pio IX. 

Retábulo no altar-mor da Igreja de São Gonçalo Garcia. São João del-Rei/MG.

Imagem de S.Gonçalo Garcia,
São João del-Rei.
Em São João del-Rei a "Irmandade de São Francisco de Assis e São Gonçalo Garcia" foi fundada na Igreja Matriz do Pilar em data incerta do século XVIII e já no ano de 1759 recebia terras. O patrimônio foi doado em 1775 por Joaquim Ferreira Veiga. A construção da capela própria iniciou-se, segundo Augusto Viegas, citando Lima Júnior, em 1786, ano da provisão que deu autorização para edificá-la. As obras se arrastaram por longos anos. Em 1790 Antônio José Quintino de Assunção foi pago pela escultura da imagem do padroeiro. Em 1794, Manoel Izidoro fez trabalhos no camarim do trono desta capela. Muito modesta, inicialmente não tinha torre, o que se percebe em uma antiga ilustração assinada por Huascar; mas há notícias de uma "nova torre" construída em 1826-7, obra do mestre pedreiro Cândido José da Silva, do lado esquerdo do frontispício. Sua simplicidade foi alvo de severas críticas do exigente Burton quando de sua passagem pela cidade. Seu aspecto primitivo foi alterado completamente. A Câmara Municipal consignou um conto de réis para sua reforma em 1877, informou o primeiro número do jornal local, Arauto de Minas, de 08 de março daquele ano. Sua edição n.4, do mesmo ano, fala em reedificação da capela. As obras tiveram longa duração e o atual frontispício (com uma torre única, central e projetada adiante da fachada) foi concluído em 1903. A escadaria de acesso data de 1915. Cumpre ainda informar que o nome inicial do sodalício foi alterado, ganhando o título de "Episcopal Confraria" em 1850, por um pedido do definidor Padre José Maria Xavier ao Arcebispo de Mariana, Dom Frei Manuel da Cruz. 

Procissão do Imperador Perpétuo passa diante da Igreja de São Gonçalo Garcia, 
durante a Festa do Divino de São João del-Rei. Foto: Cida Salles, 10/06/2011.   

É alcunhada "Igreja dos Militares", onde se venera Santa Joana d’Arc (*), sua padroeira. Contém também imagens de outros santos patronos dos militares ou ligados culturalmente ao militarismo: Santo Expedito, São Judas Tadeu, Santo Antônio de Pádua. Diante dela há o Monumento aos Expedicionários e a própria igreja é bem próxima à área sede do 11º BI Mont.Regimento Tiradentes, gloriosa unidade de montanhismo do Exército Brasileiro, que muito orgulha esta cidade.

Santa Joana d'Arc. Imagem da Igreja de São Gonçalo Garcia. São João del-Rei. 

No sistema colonial de divisão de classes, esta irmandade congregava os homens pardos, impedidos que eram de entrarem para ordem franciscana, que só admitia brancos. Teve pretensões de libertação dos escravos. Requereu em 24/11/1772 à Rainha D. Maria I o privilégio de libertar escravos confrades mediante paga.  O traje é um hábito um pouco mais curto que o dos terceiros franciscanos. Por isto mesmo são apelidados ironicamente de “meias caídas”, segundo Gaio Sobrinho. O dia deste santo é 05 de fevereiro mas nesta cidade festejam-no em julho. Além do orago, merece destaque no lugar a veneração a São Judas Tadeu (hoje mais tênue, desde que foi construída sua igreja, no Bairro Caieira), Santo Expedito (com fervorosa festa em abril), Santa Luzia (em dezembro), São Frei Galvão e Santa Joana d’Arc


Quadros com fotografias ex-votivas. Hall da sacristia. Igreja de São Gonçalo Garcia. São João del-Rei. 

Realizava-se outrora nesta igreja a curiosa “Procissão dos Mártires”, que diz Antônio Gaio Sobrinho, era, “mais ou menos, uma réplica da procissão de cinzas dos franciscanos.” Era bizarra, cheia de andores e alegorias, da qual o autor nos brinda com interessante citação de alguns detalhes no seu "Visita à Colonial cidade de São João del-Rei".

Nossa Senhora do Amparo.
Igreja de São Gonçalo Garcia.
São João del-Rei. 

Houve também o costume local da Rasoura de Nossa Senhora do Amparo, todo primeiro domingo de cada mês. Sua imagem ficou conhecida por isso como “Imagem da Rasoura”. Rasoura é uma pequena procissão circunscrita aos limites físicos da igreja (dentro do adro) ou caminhando apenas pela praça fronteira ou quarteirão que lhe rodeia. Na época da escravidão esta invocação mariana era uma das clamadas pelos cativos, esperançosos de seu amparo espiritual. 

É mister referir que atrás da igreja há o cemitério próprio. Nele havia outrora a tétrica inscrição em latim: “hodie mihi cras tibi” que se pode traduzir, “hoje para mim, amanhã para ti”. 

A devoção a São Gonçalo Garcia é por assim dizer rara. Poucas são as notícias. Há igrejas setecentistas deste orago em Penedo/AL, Vitória/ES e Rio de Janeiro/RJ (Rua da Alfândega, junto com São Jorge). Em Pernambuco colonial conheceu-se também esta devoção. No Recife os festejos ganhavam cunho popular na Igreja do Livramento, onde ficava sua imagem. Os negros e índios tomavam participação ativa, com suas danças folclóricas de quicumbis e caboclinhos, e o cortejo se agigantava com muitas alegorias, carros triunfais e música. 




Referências bibliográficas

- BURTON, Richard Francis. Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho
- CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. 2.ed. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1982. 2v. 
- GAIO SOBRINHO, Antônio. Sanjoanidades. São João del-Rei: A Voz do Lenheiro, 1996. 104 p.il. 
GAIO SOBRINHO, Antônio. Santos Negros Estrangeiros. São João del-Rei: [s.n.], 1997. 153p.il.
GAIO SOBRINHO, Antônio. Visita à Colonial Cidade São João del-Rei. São João del-Rei: [s.n.], 2001. 
GAIO SOBRINHO, Antônio. São João del-Rey 300 anos de históriasSão João del-Rei: [s.n.], 2006.
- PEREIRA, Kleide Ferreira do Amaral. Revivescência de Cultos Pagãos nos Antigos Cultos aos Santos Nacionais Portugueses. Revista Brasileira de Folclore, Rio de Janeiro, MEC / Dep. de Assuntos Culturais / CDFB, n.35, jan.abr.1973. p. 33-44. 
- TINHORÃO, José Ramos. As Festas no Brasil Colonial. São Paulo: 34, 2000. 176p.il. 
- VIEGAS, Augusto. Notícias de São João del-Rei. 3.ed. Belo Horizonte: [s.n], 1959.


Referências na Web

Wikipédia (acesso em 17/11/2003, 17:35h)


Notas e Créditos

* Já se encontrava publicada esta postagem, quando a 10/12/2013 localizei uma interessante notícia sobre Santa Joana d'Arc: trata-se de um registro de sua festa no Largo do Rosário que dá conta de uma missa campal, procissão muito concorrida, como parte das comemorações da páscoa dos militares. Os soldados carregaram o andor durante todo o trajeto. Frei Orlando Alvares fez o sermão à entrada, falando da vida da mártir (Fonte: jornal O Correio, São João del-Rei, n.859, 08/05/1941, acervo da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida). É santa muito querida nos terreiros das religiões de matriz africana, sua imagem é frequente nos congás, tida como santa guerreira, muito forte, habitualmente sincretizada com Ogum Iara, ordenança de Oxum. Em São João del-Rei houve na década de 1990 um grupo de moçambique bate-paus na Rua do Ouro (Bairro Alto das Mercês), do Capitão Tadeu Nascimento de Sousa, que se denominava “Mãe Joana D’Arc”, aliás, o mesmo nome do terreiro ao qual estava ligado, já que seus participantes eram filhos espirituais daquela casa.
** Sobre Frei Orlando ver também:
- Aspectos folclóricos: neste blog, em  A Batina do Padre tem Dendê 
- Aspectos biográficos e históricos: no Blog de São João del-Rei (um trabalho de pesquisa fidedigno, da maior importância, efetivado pelo culto Sr. Francisco Braga). 
*** Texto e fotos (salvo indicação em contrário): Ulisses Passarelli, 17/11/2013.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

A Batina do Padre tem Dendê...

Apontamentos de crenças populares sobre sacerdotes católicos


A crença popular atribuiu aos sacerdotes católicos uma força tão excepcional, que ultrapassa a esfera da vida terrena, para o pós morte. O santo sacrifício da missa e todos os sacramentos ministrados pelo padre são encarados nos meios folclóricos como muito abstratos e são dignos de um respeito imensurável: 

"A batina do padre tem dendê;
ai, se tem, eu quero vê!"

O canto congadeiro difundido nesta região alude à concepção geral do mistério (daí a palavra africana "dendê"), que envolve o sacerdote, identificado no seu paramento típico e sagrado. Muitas vezes o padre sem a batina é tido como "sem força", posto que despido da sua veste sagrada. Dizem em São João del-Rei que os padres de hoje não tem a força dos antigos porque andam pelas ruas em trajes comuns, sem batina.

Em conformidade ao seu comportamento quando encarnado, fidelidade à ordenação sacerdotal, benevolência, retidão de conduta, carisma, dons, caridade e firmeza de ações, o padre goza em vida de um respeito imenso dos fiéis, que o tem como um orientador espiritual, conselheiro, chefe religioso. A alguns se atribui um valor excepcional da eficácia das preces e do poder das palavras. Repassando a vista sobre estes relatos da religiosidade popular rememoramos a mensagem bíblica: "Terás, pois, o sacerdote por santo, porque ele oferece o pão de teu Deus" (Levítico, capítulo 21, versículo 8). Uma crendice arraigada por exemplo é a da "praga de padre", considerada a pior de todas, pois não há quem a expurgue e ainda mais, pode ganhar força cármica, digamos assim, passando para as gerações subsequentes daquela família. Então se acredita no campo do folclore, que se um padre amaldiçoar alguém, a má sorte o acompanhará doravante. A maldição pode gerar uma limitação física que acompanhará os descendentes da vítima, de forma congênita.

Em São João del-Rei, alguns adeptos da umbanda creem que, se quando encarnado, um padre tiver descumprido as regras sacerdotais, poderá eventualmente depois de morrer passar à condição de membro de uma falange de exu catiço, no mundo espiritual, não por punição, mas como um novo caminho evolutivo, já que do ponto de vista sacerdotal cometeu deslizes. O grande rigor de ser uma alma tarefeira de exu lhe impõe a necessidade de mudanças drásticas, que quando encarnado não operacionalizou. Seria algo como uma oportunidade de se redimir, trabalhando intensamente e em contínuo aprendizado. Mas por outro lado, aqueles padres que em vida atuaram exemplarmente, depois de mortos, podem se tornar membros da chamada Linha de Semiromba, compondo sua egrégora para a intermediação de graças e orientações espirituais. 

Este aspecto do padre desencarnado agindo como uma alma capaz de operar graças é frequente na cultura popular. Eis uma notícia jornalística a respeito, coligida em São João del-Rei: “por uma graça alcançada pela alma de Frei Orlando, fará celebrar dia 28 do corrente, ás 6 horas, uma missa em ação de graças, na Igreja de S. Francisco. Iná.” (O Correio, nº2.054, 26/05/1946). Ora corre oficialmente o processo de beatificação desse frei. Mas em 1995, um pai de santo de São João del-Rei, já falecido, dizia-me que depois de dias de uma presença espiritual não identificada, enfim, numa ingira há cerca de meio século, se manifestou em um jovem médium um determinado espírito dizendo-se Frei Orlando e clamava por ajuda, pois sofria do outro lado por dever uma missa às almas, ou seja, foi feito o pedido e dado o valor do costume, mas a missa não foi celebrada. Uma vez que o pai de santo fez conforme seu pedido aquele espírito teve paz para seguir seu progresso espiritual e não se manifestou mais.

Em Nazareno, do túmulo do ‘Padre Heitor’, diz-se que pessoas de muita pureza e fé conseguem extrair um bálsamo miraculoso, espécie de gotas oleosas, que conservam num recipiente de vidro para pingar na água de beber ou passar numa ferida.

Da mesma forma em São Miguel do Cajuru, na sepultura do Padre Afonso Miguel de Andrade. A tradição oral naquele distrito são-joanense é muito forte sobre este padre, correndo várias narrativas sobre o poder de suas preces e graças que sua alma concede.

Um anúncio dos classificados da Gazeta de São João del-Rei, nº648, 29/01/2011, em forma de corrente, rogava a “Frei Silvério” a graça de ter o amado para sempre _ “paixão eterna, amor infinito” _ dizia expressamente.

Em São João del-Rei o túmulo do Cônego Osvaldo Lustosa, nas Mercês, é dos mais visitados da cidade, onde, segundo observação do ano 2000, se encontravam muitas velas acesas, preces manuscritas em folhas extraídas de cadernos e oferendas de flores. Acreditam que seja um taumaturgo. Infelizmente, a remodelação de sua lápide dificultou tais expressões espontâneas da fé popular. 

É corrente também uma grande devoção popular à alma de Padre Vítor (do sul de Minas Gerais, mas que se irradiam até aqui nas Vertentes) e nalguns núcleos espiritualistas clamam curas a Frei Rogério e outros espíritos de antigos religiosos.

Em outras regiões do país também existem tradições populares religiosas em torno de certos padres, como se poderia citar os casos do Padre José Maria, em Natal/RN e em todo o Nordeste, do Padre Cícero Romão Batista e do Frei Damião. Em Belo Horizonte o nome de relevo é Padre Eustáquio, que se irradia até aqui. A título de exemplo (não é um caso isolado), segue fotografia um velho caderno de orações (esquerda), de São João del-Rei, manuscritas e coladas, com um exemplar em destaque (direita) da prece a Padre Eustáquio, datada de 1956.


Créditos

-Texto e fotografia: Ulisses Passarelli.

Notas

- Revisão: 11/09/2025.