Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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terça-feira, 31 de maio de 2016

Retalhos para a colcha da história - parte 3

Coletânea de notas hemerográficas de São João del-Rei e cercanias (1900-1938)



A história se constrói de pouco em pouco, pedacinho por pedacinho. O pesquisador busca nos documentos as informações desejadas como um garimpeiro remexe as areias e cascalhos. Depois de revirar um grande monte de material aparece algo...

No mesmo sentido é o título desta série de postagens, alusão ao tradicional artesanato de costura de quadrados de retalho de pano para compor uma colcha colorida.

É bem assim esta história que está se esboçando nestas postagens: por alusão é garimpada e costurada a partir de retalhos hemerográficos.

A ideia surgiu a partir de uma pesquisa de uma tema único, ligado ao Bairro de Matosinhos, que rendeu matéria para uma monografia, hoje também convertida em postagens de blog. Mas enquanto anotava a parcimoniosa informação, outras surgiam que se mostravam de interesse e às vezes se revestiam de verve, ou traziam em si mesmas o pitoresco da linguagem de época. Assim, para não perdê-las, aproveitava-se o ensejo para anotá-las. E assim foram rendendo motivos para novas postagens meramente provocativas de pesquisas mais aprofundadas nos temas que afloravam.

Dando, pois, prosseguimento às pesquisas da história regional em velhos jornais publicados nesta cidade, este blog apresenta mais uma remessa selecionada a partir da coleta de assuntos variados. A ideia é tal como o título sugere, compor uma malha de informações.

As notícias se revestem de especial interesse por revelar aspectos simples e cotidianos da vida urbana e em parte rural, que por serem muito próxima ao viver do povo, muitas vezes não vem sob o formato nu e cru, engessado e frio, de um documento formal, fonte indubitável e fundamental da história.

Assim seguem dados da cidade de São João del-Rei (que perfazem a maioria), alguns do seu distrito São Gonçalo do Amarante (ex Caburu e primitivo São Gonçalo do Brumado), além de uma notícia de Tiradentes e outra da Estação de Nazareno (à época abordada, Nazareth, então distrito de São João del-Rei).

Nos trechos em itálico transcrevemos o original com respeito à grafia de época.

As transcrições estão expostas em ordem crescente de data e diante de cada uma consta o jornal de origem, número e data da edição.

"Caixinha" - estação elevatória inaugurada em 1930 para abastecimento de água 
do Bairro Senhor dos Montes, São João del-Rei. A sigla C.M. na fachada indica
a "Câmara Municipal", responsável pela obra à época. Fotografia: 12/08/2013. 

1900:
- “S. Gonçalo Garcia. Não há sanjoannense que desconheça a precariedade dos cofres da Confraria de S. Gonçalo, desta cidade, não há quem ignore as dificuldades com que lucta a administração do templo, e não há quem não deseje a conclusão das obras da Igreja; pois bem, tem todos esses a que nos referimos ensejo de darem um obulo para as obras de S. Gonçalo. O espectaculo de Quinta Feira, amanhã, da Companhia Chilena, com um programma variado cheio de attraentes novidades _ é em beneficio da Igreja de S. Gonçalo. Em beneficio, mesmo, não teem os pessimistas de dizer que o beneficio é dividido com a Igreja e com a Companhia, não; a empreza vendeu o espectaculo por preço razoavel e tudo quanto exceder, é em favor dos cofres da Igreja, tão pobre. Invocamos os sentimentos religiosos e patrioticos do povo e pedimos uma esmola indirecta, dando em troca a diversão de amanhã, Quinta-feira _ ao CIRCO.” (O Combate, n.11, 12/09/1900)

- “Edital. De Ordem do exm. Sr. Dr. Secretario do Interior, faço publico que se acham em concurso, com o prazo de 60 dias, a contar da presente data, as cadeiras de instrucção primaria em seguida declaradas: cadeira mixta do districto de Conceição do Formoso, município de Palmyra, e a do sexo feminino do districto de S. Gonçalo do Brumado, de S.João d’El-Rey. Os exames deverão ser processados de accordo com as instrucções que baixaram com o decreto n.1400 de 6 do corrente mez, perante a directoria da Escola Normal, desta cidade, e os requerimentos de inscripções instruídas com os documentos de que trata o art.  6º, n. I, II, III e IV das mesmas instrucções deverão ser dirigidas ao diretor da mesma escola. Quaesquer esclarecimentos de que necessitarem os candidatos, poderão obtel-os nesta Secretaria, em todos os dias uteis, das 10 horas da manhã á 3 da tarde. Secretaria da Escola Normal de S.João d’El-Rey, em 21 de Agosto de 1900.” (O Combate, n.16, 14/10/1900)

-“S.Gonçalo. Por acto de 7 do corrente, foram nomeados os cidadãos Antonio Francisco de Paula, Luiz Cardoso Rabello e Tobias Raphael dos Santos para subdelegado, 1º e 2º suplentes do districto de S. Gonçalo do Brumado d’este município. Entre as autoridades dimitidas figura o celebre João Barulho, que, pela segunda vez, foi despedido do cargo policial _ por causa de seus máos precedentes de desordeiro conhecido. Foi a este que o Major Pimenta confiou força para ir a S. Gonçalo. Felizmente ele confiou a força ao Barulho, em um dia e no dia seguinte _ rodou Barulho, rodou Pimenta, rodou o resto.” (O Combate, n.25, 15/11/1900).

1906:
- Resolução n.343, de 26 de abril de 1906, da Câmara Municipal, autoriza concessão de pena d’água na região da Bica da Prata: “Fica o Agente Executivo auctorisado a permittir que o cidadão Bernardo Antonio da Paixão derive para sua chácara uma penna d’agua colhida nas sobras das aguas do Padre Faustino” (art.1º), através do seguinte artifício: “o concessionário fará uma pequena caixa, convenientemente cimentada, saindo a penna de um orificio aberto nesta, colocado em plano superior ao da servidão publica.” (art 2º). A Câmara porém se reservava ao direito de... “rehaver essa agua, sem indemnização, caso a julgue necessária para lavagem da futura rede de esgotos” (artigo 3º). (O Repórter, n.14, 13/05/1906)

- "O ilustrado sr. padre Nicoláo Badarioti, muito competente e muito dado ao estudo dos phenomenos scismicos, observou na noite de 10 para 11 do corrente, das 10 para 11 horas, dois tremores de terra, bastante violentos, isto no local onde está situado o colegio, sob a sua competente direcção (*). O mesmo phenomeno foi observado no arraial da Conceição, o que nos foi communicado pelo proprio observador que é homem de inteiro credito." (O Repórter, n.14, 13/05/1906)

- “Interessante e attrahente festa foi, no mesmo genero, no domingo, improvisada pelo revdo. Frei Candido, com os seus meninos, que constituem a associação por ele criada _ Associação da Juventude _ e constou de representação de diversos monólogos, num ligeiro theatrinho, levantado em um dos espaçosos salões da magnifica vivenda dos revdos. Franciscanos. Exhibiram-se os inteligentes meninos: João Adalberto de A. Viegas, João Braga, Marcial Maciel, Paulo Campos, Oscar Pereira, José e Luizinho Rodarte e Henrique de Souza.” (O Repórter, n.26, 05/08/1906)

1907:
- Lei municipal nº152, de 19/12/1906, autoriza várias desapropriações na Biquinha, “desde a casa de José Martins Penna até São Caetano, as quaes se achão fóra do alinhamento, approvado pela Câmara”. A mesma lei prevê para a antiga Rua da Prata (rua Padre José Maria Xavier), desapropriação por utilidade pública do imóvel nº6, de propriedade de Martiniano Ribeiro Bastos e outros, além do nivelamento daquela via. (O Repórter, n.50, 13/01/1907).

- “Theatro. Hoje haverá espectaculo com inauguração do panno de bocca. O trabalho de pintura foi feito pelo hábil e conhecido scenographo Alexandre Poggio, e segundo nos affirmaram, está um trabalho primoroso.” (O Repórter, n.23, 27/06/1907).

1917:
- A Câmara Municipal projetava abrir uma nova via pública interligando a avenida principal à Rua da Misericórdia, sobre o Córrego do Segredo, que seria canalizado. Tal obra despertou questionamento pelo elevado custo aos cofres públicos, julgada desnecessária. Corresponde à atual Avenida Andrade Reis. (A Nota, n.16, 21/05/1917).

- “24 de maio. Passa amanhã o 51 anniversario da batalha de Tuyuty. Em comemoração desta grandiosa data os alumnos do gymnasio S.Antonio formarão com um effectivo de cem alumnos, fazendo uma passeata pela cidade, ás 16 horas.” (A Nota, n.18, 23/05/1917)

- “Gravissimo. Até que afinal o celebre pontilhão da E.F. Oeste na zona das Fabricas vai ser dotado de uma parte de taboas, elegante e solidamente construída, para a passagem exclusiva de pedestres. Esta providencia que vai prestar grandes serviços áquella parte da cidade e que evitará d’ora avante acidentes graves como o sucedido com duas senhoritas que ainda não se restabeleceram, já foi ordenada pelo sr. Dr. Agostinho Porto, sympathico diretor da Oeste, a quem esta cidade deve innumeros favores. Revogamos, pois, o pedido que fizemos a nossa zelosa Câmara: não é mais necessario alli mandar os seus engenheiros, fiscais e trabalhadores acompanhados de maquinas e materiaes. A Oeste vai construir e o povo ficar sossegado, pois o melhoramento virá mesmo para breve, muito breve. E é ao Director da Oeste que enviamos os nossos agradecimentos por mais este serviço prestado á Municipalidade.” (A Nota, n.22, 28/05/1917)

- “S. Gonçalo Garcia. Nesta egreja, celebrar-se-ão, no dia 20 do corrente, os seguintes actos religiosos: ás 9 horas missa com musica; á noite profissão de irmãos, posse da nova mesa, rasoura e Te-Deum.” (A Nota, n.70, 21/07/1917)

1923:
-“Caburú. Realiza se, solemnemente, com a presença dos (... ilegível) da P.M.M. e grande numero de correligionários, a instalação do districto de Caburú, antigo S.Gonçalo do Brumado, a 1º de janeiro de 1924.” (A Tribuna, n.505, 30/12/1923)

1926:
- “Caburú. Por ocasião de uma festa em Caburú, o sr. Affonso Ribeiro Guimarães, enérgica autoridade policial daquele districto, prendeu e fez recolher á cadeia desta cidade a Américo de Oliveira, que estava promovendo desordens e procurando desrespeitar os representantes da lei. Americo de Oliveira esteve detido durante algumas horas, sendo, depois, posto em liberdade por ordem do sr. dr. Archimedes Camisão, integro e activo delegado de policia de S.João del Rey.” (A Tribuna, n.744, 29/04/1926)

- “Escrivão de Caburu. Há já um mez que é serventuário vitalício do officio de escrivão de paz do districto de Caburu o nosso amigo sr. Antonio Jose Alves de Oliveira. O sr. Presidente do Estado, provendo-o naquele posto, investiu um acto plenamente acertado. O sr. Antonio José Alves de Oliveira, além de competente para o cargo, é um dedicado soldado do P.M.M. local.” (A Tribuna, n.780, 02/09/1926)

1930:
- “Agua em Senhor dos Montes. Estão de parabéns os habitantes daquelle subúrbio, com a resolução da sua mais justa aspiração. Já chegou lá a água, questão difícil por que vem se batendo de ha muito aquella laboriosa população. É um serviço, que muito recomenda a administração municipal e sabemos que por elle muito se interessava o vereador, sr. João de Almeida Magalhães e o sr. Alfredo Candido, sendo como é, uma das partes mais bellas e altas da cidade, justo é, que para alli a edilidade volte suas vistas, tornando-a habitável, com os contornos necessários para seu desenvolvimento. Aproveitamos o ensejo, para lembrar, respeitosamente, ao sr. agente executivo da Camara Municipal, a conveniência de acentar os canos conductores de agua para aquelle suburbio, na passagem pela ponte do Theatro Municipal em vez de passar de lado da ponte e seguir a parede interna do caes até o logar onde ganha a direcção da rua do Café Republica, passar por baixo da ponte, sair logo na avenida Ruy Barbosa e descer por ella margeando passeio ate o ponto onde saia do caes. Livra assim da má impressão, que causa aos que chegam, e até mesmo a nós, vendo-os amarrados arame e enfeiando o caes. Fazemos esta observação na intenção única de contribuir para o beneficio da cidade, pois sabemos, que para beneficial-a também se acha da melhor boa vontade o sr. agente executivo.”  (A Tribuna, n.1.043. 05/10/1930)

1932:
- “Na Fabrica de Louças (**) - “Fabrica de louças” é a pitoresca denominação que recebeu a praça fronteira a Avenida Cristovão Colombo, banda de Chagas Doria. Pois ali vão ser construidos vários e elegantes prédios que conhecido construtor vendera a prestações. Como o sistema em apreço, já adotado em todos os grandes centros tem dados os melhores resultados, principalmente como elemento, propulsos de dilatação urbana, faremos votos para que aqui tal se dê dentro em breve.” (Folha Nova, n.8, 24/04/1932)

1936:
- Sob a responsabilidade de Hugo Bassi, a Ponte do Porto passa por uma completa obra de reforma, com troca do assoalho e feitura de corrimão. (O Correio, n.502, 23/05/1936).

- A imprensa são-joanense divulga os clamores populares sobre o péssimo estado de conservação da Ponte das Águas Férreas, no Bairro Tijuco, “que dá passagem há todos que chegam ou sahem, via Rio das Mortes”. Esta ponte se situa na principal via do Tijuco, sobre o Córrego das Águas Férreas, tributário da margem esquerda do Lenheiro, pouco acima de sua foz. (A Tribuna, n.1.333, 12/07/1936).

- A imprensa são-joanense divulga o início das obras de construção das duas torres da Igreja de Nossa Senhora do Rosário no centro histórico de São João del-Rei (A Tribuna, n.1.333, 12/07/1936).

1938:
- “Vacinação contra a febre amarela – Segue hoje para o Rio das Mortes a Caravana da “Fundação Rockfeller”. Conforme noticiamos ontem encontra-se na cidade uma caravana da “Fundação Rockfeller”, para o fim de vacinar a população do município, principalmente a população rural, contra a febre amarela silvestre. A população da cidade não está ameaçada pela febre amarela, conforme nos declararam os médicos da Fundação Rockfeller e o dr. Olavo Caldas, chefe do Centro de Saúde de S. João del-Rei. O seu estado sanitário é ótimo e o seu índice de (... ilegível) é zero. As populações dos distritos devem, porem, se precaver contra a febre amarela silvestre, em vista de residirem próximos ás grandes matas, que facilitam a existencia do mosquito transmissor da doença. É bom esclarecer que a vacina é absolutamente indolor e não provoca reação de espécie algumas. Para os demais distritos de S. João vai ser observada a seguinte ordem: Onça, dia 10, de 10 às 16 horas; Cajuru, dia 11, de 10 às 16 horas; Caburú, dia 12, de 10 às 16 horas; Ibitutinga, dia 13, de 10 às 16 horas; Conceição da Barra, dia 14, de 10 às 16 horas.” (Diário do Comércio, n.53, 07/05/1938)

- Foi aberto ao tráfego o ramal do Penedo, da Estrada de Ferro Oeste de Minas, partindo do km110, na parada do Pombal. Antes mero desvio destinado ao embarque de minério vindo daquela localidade, a abertura como ramal foi assaz elogiada e relembrou o velho plano de interligação por via férrea a Resende Costa, lamentavelmente, nunca concretizada. Este ramal teve curta duração, de cerca de uma década. Transpunha o Rio das Mortes por um pontilhão e no lado oposto margeava o seu afluente, o Rio Santo Antônio (Diário do Comércio, n.124, 06/08/1938)

- Um caminhão carregado de lenha caiu na Ponte do Patronato, que afundou com seu peso. (Diário do Comércio, n.124, 06/08/1938). No ano seguinte ela voltou a ser alvejada por certa polêmica em virtude de atrasos nas reformas: a Prefeitura de São João del-Rei executou obras de reparos na ponte sobre o Ribeirão São Francisco Xavier, na Colônia do Bengo, “nas proximidades do Patronato Agricola, na estrada que nos liga a Santa Rita.” (O Correio, edição extra, 07/01/1939)

- “Festa do Rosário – Especial para Tiradentes – Para as festas de N.S. do Rosario, a realizar-se hoje em Tiradentes, correrá um trem especial para aquela cidade, partindo daqui ás 16.40 minutos, regressando ás 21 horas, ao preço de 1$200 rs, ida e volta.” (Diário do Comércio, n.194, 01/11/1938)

- “Capela São Geraldo. Realizou-se com as cerimonias de praxe, o lançamento da pedra fundamental da capela dedicada a S.Geraldo, na estação de Nazaré, em terreno generosamente oferecido pelo sr. Francisco Ernesto de Carvalho. O digno e virtuoso vigário da freguezia revmo. conego Heitor da Trindade organizou a comissão encarregada de levar a bom termo empreendimento merecedor dos mais calorosos louvores, a qual ficou constituída de cidadãos prestigiosos e de elaventado espirito religioso e que saberão, certo, se desobrigar, com firmeza, tenacidade, confiança e fé, da missão que lhes foi confiada. Fazemos os melhores votos para que o povo daquela zona corra pressuroso ao encontro de tão louvável iniciativa.” (O Correio, n.627, 05/11/1938)

Igreja de São Gonçalo Garcia. 17/11/2013.
São João del-Rei/MG.  

Referências Hemerográficas

Jornais editados em São João del-Rei; acervo da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d’Almeida, desta cidade

Notas e Créditos

* Colégio: Liceu São Luis, situado no km 139 da EFOM (Estrada de Ferro Oeste de Minas), extinta e erradicada Linha do Sertão, do qual só restam ruínas. O citado padre aparece em várias notícias estudando tais fenômenos naturais. Os tremores eram recorrentes na região, até Bom Sucesso. O arraial da Conceição citado na nota jornalística é a atual cidade de Conceição da Barra de Minas. 
** Fábrica de Louças era o cognome da área urbana oficialmente denominada Praça Pedro Paulo, desde 1901. A este respeito ver: PRAÇA PEDRO PAULO ANTIGAMENTE  
*** Texto e fotografias: Ulisses Passarelli
****Leia também as postagens anteriores, sob o mesmo título: 



terça-feira, 1 de março de 2016

Retalhos para a colcha da história - parte 2

Coletânea de notas hemerográficas de São João del-Rei e cercanias (1900-1948)

O que foi dito como introdução à primeira parte desta postagem (acesso por link ao final deste post) serve exatamente a esta segunda parte. Portanto, por questão de praticidade, para não repetir as palavras, vamos direto à exposição da nova coletânea de notícias avulsas e independentes. É recomendada a leitura das notas de rodapé, que contém alguns comentários sobre as notícias.

Poço do Olho d'Água no Ribeirão São Francisco Xavier,
Serra do Lenheiro, São João del-Rei/MG

1900:
- Reforma na Igreja das Mercês – “Estão muito adeantados os reparos que, na Igreja das Mercês, estão sendo feitos pela actual Mesa Administrativa. O forro já está decorado, tendo sido estampado um retrato da Virgem das Mercês, ladeado pelos seus servos S.Pedro Nolasco e S.Raymundo Nonato. As obras restantes prosseguem.” (O Combate, n.10, 05/09/1900)

1901:
- “Praça Pedro Paulo – A Camara Municipal, reconhecendo os relevantes serviços prestados pelo illustre Coronel Pedro Paulo da Fonseca Galvão, em sua sessão, do 28 do passado, deu o nome do benemerito militar, á Praça, que se estende, da ponte das Officinas[1] ao Ribeirão d’Água Limpa. Foi um acto de justiça. Apresentamos ao Coronel Pedro Paulo os nossos parabéns.” (O Combate, n.76, 03/07/1901)

- “Mercado Municipal – Dentre as medidas redundantes em economia ao Thesouro Municipal, está o arrendamento do nosso Mercado e sabemos que está no animo da nossa Municipalidade por em hasta publica o arrendamento d’aquelle edifício publico. Ultimamente a fiscalização do Mercado Municipal tem ficado bastante despendiosa para os Cofres Publicos municipaes e por esse motivo quer e pretende a Camara arrendal-o e para isso estão sendo estudadas as bazes respectivas.” (O Combate, n.104, 21/09/1901)

- Hotel Oeste de Minas[2] (anúncio): “Attenção – Hotel Oeste de Minas – Valentim e Santos Martinelli – aposentos arejados, salões, bilhares, parques, banheiros, duchas e carro para conducção de hospedes, isto gratis. Não aceitam tuberculosos. Diarias: adultos...7$000 Creanças e creados pagarão um preço razoável, na occasião combinado. As famílias ou grande numero de pessoas gozarao do abatimento que sera convencionado. S.João d’El-Rey”. (O Combate, n.128, 30/11/1901)

1905:
- “Quaresma – Ao que consta, ouviremos, pela Quaresma e semana santa, o Stabat Mater de Rossini, o de Calvo, o de Pergolesi e o de nosso inolvidável conterrâneo Presciliano Silva; as missas e credos de Giorza, de Salvi e de Bellini; e, na sexta-feira maior, a majestosa composição de L.Perozi: Ceia e Morte de Christo. É uma excelente nova para os amantes da boa musica, nada sendo preciso accrescentar acerca do desempenho reservado a taes composições, que está confiado á orchestra do maestro Ribeiro Bastos.” (O Repórter, n.2, 05/02/1905)

- “Relógio – Já sahiu da Europa um excelente regulador, que a Mesa da Irmandade do Sacramento, com auxilio da Camara, destina a nossa egreja Matriz, em substituição ao velho relógio que, pelo seu incessante trabalhar, já tem as molas principaes estragadas, regulando mal.” (O Repórter, n.2, 05/02/1905)

1906:
- Reforma do Mercado– “Estão muito adeantadas as obras, que estão sendo realisadas no Mercado Municipal e destinadas a receberem a nova grade de ferro, que a Camara manda colocar ali, levando mais esse acto para o activo de seus serviços a esta cidade e no Municipio.” (O Repórter, n.25, 29/07/1906) [3]

- “Nuvem de gafanhotos – Como em Juiz de Fora, no mesmo dia 9, segundo telegramma transmitido dessa cidade para a imprensa carioca, seguindo o mesmo rumo de norte a sul, cerca de 2 horas da tarde, atravessou aqui uma grande nuvem de gafanhotos, em certos pontos tão intensa que conseguiu encobrir os raios solares. Alguns eram de tamanho nunca aqui visto, não deixando de causar um certo temor na população. Felizmente a travessia dos terríveis insectos foi de uma hora, mais ou menos.” (O Repórter, n.37, 14/10/1906)

1907:
- “Ramal de Pitanguy – Por estes três meses, diz telegrama do snr. Dr. Chagas Doria ao snr. Ministro da Viação, deverá ser inaugurado o ramal de Pitanguy, melhoramento importante, que, desde muito tempo, está a reclamar a sympathica cidade sertaneja.” (O Repórter, n.22, 23/06/1907)[4]

- Problemas sanitários – “O dr. F. Catão realmente precisa de tomar um destes trens, mas não para se ir de vez, mas para voltar o mais breve possível, e trazer em sua companhia gente que nos ajude a fazer reclamações contra a agua suja, a praia [5] suja, o matadouro sujo, as ruas sujas que temos nesta hospitaleira, e salubre cidade.” (O Grypho, n.10, 24/11/1907)

1917:
- “Chuva Providencial – Parece que alguém lá das alturas, attendendo ás reclamações do povo, delle condoeu-se e mandou, no segundo dia de festas em Mattosinhos, uma chuvinha miúda incumbida de aplacar o pó que era barbaro e inclemente. Ninguém lá de cima tem obrigação de mitigar os soffrimentos dos que estão cá em baixo; compete somente á Câmara mandar irrigar o Largo de Mattosinhos e trazer-lhe uma capina em regra, porque só ela tira proventos do povo com pesados impostos e taxas absurdas. Os negócios de nossa Câmara vão de mal a pior. É o povo queixar-se ao bispo.” (A Nota, n.24, 30/05/1917)[6]

- “Apparecem os gafanhotos – Lá pelos lados de Aguas Santas e nas imediações do estribo do Brighentti, começam a aparecer densas nuvens de gafanhotos, pondo em polvorosa o pessoal por onde passam os bandos dos danninhos insectos. Quem nos trouxe a noticia affirma-nos que durante a passagem dos terríveis orthopteros nota-se uma escuridão qual a da noite; afirma-nos mais o nosso informante que o espectaculo é medonho e quem o presencia tem a impressão perfeita do barulho de uma hélice de aeroplano em franca rotação. É bem provável que, devido a nossa cidade achar-se nas proximidades onde os gafanhotos estão aparecendo tenhamos dentro em breve de observar também tão terrível espectaculo. Caso apareça tão terrível flagello entre nós, como providenciará a nossa Câmara? É ir-se preparando desde já...” (A Nota, n.25, 31/05/1917)[7]

- “Voluntários de manobras – No quartel do 51º batalhão de Caçadores encerrou-se hontem a inscripção para o voluntariado de manobras. A mocidade de S.João d’El-Rey acaba de dar mais uma prova de seu nunca desmedido civismo. Alistaram-se 213 voluntarios, dos quaes 202 foram considerados aptos, 9 julgados incapazes e 2 não compareceram á inspecção medica. Podemos dizer com orgulho que S.João d’El-Rey é a cidade de Minas que maior numero de reservista tem dado ao exercito; com o contingente de agora esse numero attinge acerca de quatrocentos homens.” (A Nota, n.70, 21/07/1917)[8]

1923:
- Aquisição de terreno – a Resolução Municipal nº481, de 31/03/1923, autoriza o executivo à compra de um terreno, “por quantia não excedente á da compra effectuada ao sr. Francisco Messias da Silveira, a parte pertencente a d. Ermelinda da Silveira Milward no immóvel chamado “Olhos de Agua”, junto ás vertentes da represa velha do abastecimento desta cidade.” (A Tribuna, n.468, 15/04/1923)[9]

1926:
- “Estação de Caburu – É justo salientarmos nesta folha os constantes esforços com que contribuiu para a construção da estação de Caburu o sr. cel. Antônio Balbino de Sousa. Aquelle nosso prezado amigo desdobrou-se em boa vontade e atividade para a consecução do importante “desideratum”, tornando-se, portanto, merecedor dos mais effusivos louvores.” ( A Tribuna, n.751, 28/05/1926)[10]

- Escola distritais – a lei municipal nº496, de 27/11/1926, autoriza a criação de uma escola noturna na Colônia José Teodoro e outra em “Nazareth”, atual cidade de Nazareno. (A Tribuna, n.814, 30/12/1926)[11]

- Estrada de Turvo – por força da lei municipal nº497, de 27/11/1926, a Câmara Municipal de São João del-Rei autorizou a despesa de 10:000$000 (dez contos de réis), como subvenção parcelada para o exercício financeiro do ano seguinte, para construção da estrada de automóveis interligando esta cidade a Turvo, atual Andrelândia, no Sul de Minas Gerais. (A Tribuna, n.814, 30/12/1926)

1932:
- Festa no Albergue – “Encerraram-se com a procissão de domingo último, dedicada a S.José, as tradicionais festividades que se realisam na Capela do Albergue Santo Antonio. O préstito religioso de domingo esteve brilhante, comparecendo elevado numero de fieis. A banda do 11º R.I. abrilhantou todas as festividades, quer aos tríduos, quer a procissão. De ordem da Prefeitura foi iluminado o morro do Albergue, oferecendo este agradável impressão”. (Folha Nova, n.8, 24/04/1932)[12]

1938:
- “Missa dos Alfaiates - A comissão de alfaiates encarregada de promover a missa em honra à S.Geraldo, o protetor da classe, pede-nos avisemos que por falta de sacerdote não pode ser celebrada hoje, dia do milagroso santo, ficando por isso transferida para amanhã, ás 7 horas na Igreja Matriz. A referida comissão faz um apêlo para que todos os alfaiates compareçam a esse ato religioso, afim de ganharem graças para o constante progredir religioso desta tão numerosa classe operária.” (Diário do Comércio, n.181, 16/10/1938)[13]

- “Nova rodovia de S.João del-Rei á Barbacena – As empresas de transporte desta cidade, estando á frente o Expresso S.João e o fazendeiro Abel Carlos Moreira Campos, do distrito de Padre Brito, projetaram a construção de uma linha rodoviária, ligando o distrito de S. Francisco do Onça ao Ponto Chique, quilometro 27 da estrada de Ibertioga, ficando desse modo S.João del-Rei ligada a Barbacena por uma nova via, num percurso de 80 quilometros certos. Essa rodovia destina-se principalmente ao tráfego de caminhões pesados e de ônibus com as rampas em gráca necessários a tais transportes.” (Diário do Comércio, n.212, 23/11/1938)

1948:
- “De Prados - Natal dos pobres - Consoante o costume, realizou-se nesta cidade, a 25 de dezembro, o já tradicional almoço ajantarado oferecido pelas exmas. familias aos pobres da localidade. Devido ao mau tempo reinante, essa interessante refeição coletiva não teve a mesma concorrência dos anos anteriores, tendo dela participado uns 200 pobres. As respeitáveis irmãs de caridade da Santa Casa serviram o almoço, com a cooperação de distintas jovens do nosso escol social.” (Diário do Comércio, nº2.975, 04/01/1948)

Placa indicativa improvisada no distrito de Emboabas (ex São Francisco do Onça)
indicando o entroncamento para Ponto Chique. 

Referências Hemerográficas

Jornais editados em São João del-Rei; acervo da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d’Almeida, desta cidade
Referência Bibliográfica

Prontuário Geral das Estações Ferroviárias, 1945. 2.ed. Belo Horizonte: Departamento de Estatística, 1947.
VIEGAS, Augusto. Notícia de São João del-Rei. 3.ed. Belo Horizonte: [s.n.], 1959.

Notas e Créditos

*Texto, pesquisa e fotografias: Ulisses Passarelli
** Leia também neste blog a primeira parte desta postagem como mais notícias históricas:



[1] - Ponte das Officinas: o sentido exato não está claro e pode se referir a duas pontes: 1- havia uma ponte sobre o Córrego do Lenheiro interligando a Rua Antônio Rocha à Paulo Freitas, em frente às oficinas da Estrada de Ferro Oeste de Minas. Esta ponte não existe mais. Ficava exatamente entre as atuais pontes Inácio Zózimo de Castro e Monsenhor Tortoriello; 2- pequeno pontilhão da via férrea sobre o Córrego da Tabatinga, na saída da estação, entrada do Bairro São Judas Tadeu (antiga Caieira). É possivelmente a esta ponte que se refere o texto, pois dela à Ponte do Ribeirão da Água Limpa ainda hoje é o logradouro conhecido por Praça Pedro Paulo, popularmente, “PPP”, outrora chamada “Estrada da Tabatinga”. Era o caminho antigo de acesso a Matosinhos.
[2] - O Hotel Oeste de Minas sofreu terrível incêndio em 1919, que representou o seu fim. O prédio, contudo, construção muito sólida, foi mantido e hoje em excelente estado de conservação, sedia o CESC (Centro Social e Cultural), do 11º BI, Regimento Tiradentes, do Exército Brasileiro.
[3] - O mercado naquele tempo ficava exatamente ao lado da Prefeitura Municipal, no terreno onde mais tarde foi construído o Fórum, prédio que hoje serve à Câmara Municipal.
[4] - O ramal referido era um trecho de via férrea de cerca de 45 km, que interligava a cidade de Pitangui à “Linha do Sertão” da Estrada de Ferro Oeste de Minas, com a qual se encontrava exatamente na Estação de Velho de Taipa, km 436,928. A inauguração se deu em 23/11/1907.
[5] - Praia: nome corriqueiro que os são-joanenses dão ao Córrego do Lenheiro, que entrecorta a cidade.
[6] - Tradicionalmente, desde o século XVIII, eram três dias de festejos subsequentes: Domingo de Pentecostes consagrado ao Divino Espírito Santo, segunda-feira (o segundo dia), consagrado ao Senhor Bom Jesus de Matosinhos e a terça a Nossa Senhora da Lapa.
[7] - Até 1930 a Câmara Municipal congregava todos os poderes. Um dos vereadores era escolhido para ser o agente executivo, cargo que corresponde ao atual de prefeito. Daí, em todas estas notícias antigas, os pedidos de providências e as referências a autorizações, sempre partem da Câmara. Somente com o Estado Novo de Getúlio Vargas se estabelece o regime de prefeituras, separando o executivo do legislativo.
[8] - Notar que este fato ocorre no período coincidente com o da 1ª Guerra Mundial.
[9] - Ainda hoje a região do Olho d’Água, no Ribeirão São Francisco Xavier, em área do Parque Ecológico Municipal da Serra do Lenheiro, é fornecedora de água para abastecimento público.
[10] - Este Sr. Antônio Balbino de Sousa, foi Imperador da Festa do Divino no ano de 1923, salvo caso de engano por se tratar de um homônimo. A este respeito veja a postagem: AS FESTAS DE 1923. Estação de Caburu: ficava no distrito são-joanense de São Gonçalo do Amarante, ex Caburu. Esta notícia é intrigante pela data (1926), porque consta que a estação deste distrito só foi inaugurada quatro anos depois, em 1930 (A Tribuna, n.1.012, 16/02/1930), com o nome de Mestre Ventura. Seria a mesma plataforma férrea? Antigos moradores de São Gonçalo referem-se a uma primitiva parada do trem no km 123, contudo, a Estação de Mestre Ventura ficava no km 127,137. Seriam as mesmas plataformas de embarque e desembarque? Ou a inaugurada em 1926 era a parada do Km 123, depois substituída pela estação de 1930 no km 127? Para aumentar a controvérsia, o “Prontuário Geral das Estações Ferroviárias”, referenciado nesta postagem, dá para a Estação de Mestre Ventura a data de 07/09/1931... Seria ainda uma remodelação daquela de 1930? Eis um campo aberto a pesquisas de confirmação. A estação foi demolida após a erradicação dos trilhos e dela só restam vestígios das pedras da plataforma e a caixa d’água.
[11] - Nazareno emancipou-se de São João del-Rei em 1953. A escola da colônia não existe a muito tempo e está arruinada.  
[12] - A Capela de Santo Antônio, do Albergue Santo Antônio, nos limites entre a Rua Frei Cândido e Praça Dom Silvério, no Bairro das Fábricas, data de 1912.
[13] - Outra notícia da Festa de São Geraldo promovida por alfaiates surge no jornal A Tribuna, n.692, de 25/10/1925, que diz que o santo é “protetor da laboriosa classe”. Daria motivo para um oportuno estudo a hipótese da construção da capela deste santo no alto do morro que ganhou seu nome, ter sido ou não sob a influência ou iniciativa dos alfaiates, haja vista estar nos limites do Bairro das Fábricas, onde se situavam várias fábricas de tecidos, estabelecidas a partir do final do século XIX. Afirmou Augusto Viegas que a Capela de São Geraldo foi “erigida em 1914, graças principalmente aos esforços de Lúcio Justino de Andrade, modesto operário” (p.262). Qual a real importância que o estabelecimento das tecelagens teve na urbanização daquela área da cidade?

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Crispim & Crispiniano

Crispim e Crispiniano são santos irmãos, gêmeos, romanos, nobres, festejados a 25 de outubro. Fizeram pregações na França, onde foram martirizados, em Soissons, no ano 285/6 (certas fontes dizem 287), por decapitação, no império de Diocleciano, sob as ordens Maximiano Hércules. REZENDE (1970) descreve detalhes do longo martírio nas mãos de Ricciovaro, ministro de Maximiano, entre açoites, punções dolorosas sob as unhas e tentativas frustadas de matá-los em fervura e por afogamento. Sua vida só finda ao terem as cabeças decepadas.

Antônio Gaio Sobrinho, atendendo gentilmente a um pedido meu, em comunicação pessoal, passou-me proveitosas informações desses santos, das quais ora transcrevo o seguinte:


suas cabeças foram levadas para a Igreja de São Lourenço, em Roma, enquanto os seus corpos teriam permanecido em Soissons, onde mais tarde, pelo século VI, lhes foi erguida pelos sapateiros, uma igreja. Igual irmandade, em 1560-1572, lhes construiu também uma igreja em Lisboa”. (...) Sua ligação com os sapateiros é, segundo consta, porque, para não sobrecarregarem os fiéis com a despesa de sua alimentação, trabalhavam durante as horas vagas, como sapateiros. (...) Atribui-se a um possível milagre destes santos o tradicional costume de se colocarem na chaminé, em vésperas de Natal, os sapatinhos das crianças para receberem presentes. O costume surgiu quando, numa véspera de Natal, eles, perseguidos por bárbaros, se refugiaram num casebre rural, onde vivia uma pobre viúva com duas crianças, descalças, porque até seus tamanquinhos haviam sido utilizados para acender o fogão para preparar-lhes uma humilde refeição, inclusive com a pouca matula que eles mesmo traziam consigo. De madrugada, antes que a viúva se levantasse, eles já haviam tomado estrada. Quando a mulher se levantou e se aproximou da chaminé (...) ficou maravilhada ao ver ali dois pares de sapatinhos que os dois irmãos santos, durante a noite fizeram para as crianças. E mais, os sapatinhos estavam cheios de moedas de ouro." 


São considerados protetores dos sapateiros, segundo tradição medieval. REZENDE (1970) informou que de sua tenda de sapateiro, os gêmeos convertiam a população posto terem grande freguesia:


"faziam da sua banca de trabalho uma cátedra evangélica, e com tal persuasão pregavam, que, duarnte quarenta anos de apostolado amável e insinuante, fizeram toda aquela gente desertar os templos pagãos, deitar por terra os ídolos, convertendo-se à adoração do verdadeiro Deus toda a cidade e redondeza." (p.195)


Em São João del-Rei, os sapateiros festejavam esses gêmeos. O jornal O Repórter, n.39, de 28/10/1906, publicou uma nota dizendo: 


“Um grupo de rapazes desta cidade, officiaes de sapateiro, desde annos atraz crearam aqui a festa de S.Chrispim, padroeiro da classe, e este anno ella cresceu de brilho e solemnidade. Constou a festa, realizada no dia 25 [de outubro], na Matriz, de missa com musica e á tarde Te Deum Laudamus, tendo funcionado uma esplendida orchestra organizada com profissionaes de um e outro côro; isto é, de musicos da Orchestra Ribeiro Bastos e da Lyra Sanjoannense, todos sapateiros”. 


Uma outra notícia desta festa é oferecida por outro jornal desta cidade, A Tribuna, n.692, de 25/10/1925:


Agora, são os sapateiros que vão homenagear o seu padroeiro, estando programmatizados para hoje, consagrado a S.Crispim e S.Crispiniano, diversos actos religiosos, que serão encerrados com uma luzente procissão e um solemne  "Te Deum Laudamus". 


A adoção de um patrono para uma classe profissional é um costume enraizado na Idade Média, das corporações de ofício com seus mestres, aprendizes e um santo patrono. A mesma nota supra, por exemplo, dá conta que no dia 16 daquele mês e ano os alfaiates da cidade haviam promovido os festejos de São Geraldo, "protetor da laboriosa classe." (*)

A festa dos gêmeos não é mais realizada. Aliás, já quase não há sapateiros. 

A Igreja canonizou outros quatro santos com o nome de Crispim, além de São Críspulo e Santa Crispina, com os quais não devem ser confundidos. 

Nas religiões de matriz africana são festejados sem nenhuma ligação com os sapateiros mas sim com a infância. No candomblé estão sincretizados com o orixá das crianças e gêmeos, Ibeiji, em paridade a São Cosme e São Damião. Na umbanda são venerados na Falange das Crianças (erês), da Linha de Oxalá

“Cosme e Damião!  
Oi, Doum! 
Crispim, Crispiniano, / 
São os filhos de Ogum!”. 


Foi com esta releitura que a devoção chegou aos dias atuais, voltada para a proteção infantil.

Sua oração consta no tradicional livro de preces espiritualistas “Cruz de Caravaca da Capa Preta” e pede pelas tantas... “união, concórdia e confiança”, graça que teriam alcançado pela intercessão da Virgem Maria. 

Referências Bibliográficas

CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. 2.ed. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1982. 2v.
REZENDE, José Severiano de. O meu flos sactorum. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1971. 258p.


Notas e Créditos

* A ofício de alfaiate tem menção muito antiga em São João del-Rei. Sebastião Cintra informa uma licença  concedida pela Câmara em 26 de março de 1719 a Manoel André, "para abrir sua loja e para exercer seu ofício de alfaiate." 
** Texto: Ulisses Passarelli

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Festa do Rosário no São Geraldo

     Completou-se este final de semana a festa em honra a Nossa Senhora do Rosário no Bairro São Geraldo, em São João del-Rei/MG, transcorrida entre os dias 11 e 14 de julho do corrente.  As reflexões religiosas foram construídas sobre o tema “Maria, modelo de fé, esperança e de caridade” e o lema “virtudes que são sinais de seu amor de mãe, pela humanidade”.
                Os festejos foram precedidos pelo envio dos quadros dos mastros à capela no dia 30 de junho, às 19h e 30 min. E no dia 6 houve o levantamento dos mesmos, pelo Capitão Moacir Santana, 19 horas. Desde a última quinta-feira, com o tríduo preparatório, o clima festivo tomou conta da comunidade, com missas noturnas diárias consagradas aos santos estampados nos quadros de mastros, convidando-se a cada dia um sodalício religioso diferente para participar das celebrações.

Congado do Capitão Moacir deixa o salão 
e as caixas dos marujos de Congonhas retesam o couro ao sol.

                O dia maior, 14 de julho, domingo, principiou com uma barulhenta alvorada de fogos de artifício pelas 6 horas e a partir das oito começaram a chegar as guardas de congado visitantes, que este ano foram: quatro de São João del-Rei, a saber: da Capitua (Capitã) Maria Auxiliadora Mártir, do Capitão Moacir Santana (ambos do Bairro São Dimas), do Capitão Luthéro Castorino da Silva (Solar da Serra, Colônia do Marçal) e do Capitão Lourival Amâncio de Paula (do distrito de São Gonçalo do Amarante). De outros municípios vieram de Santa Cruz de Minas (Guarda São Miguel), Congonhas, Conselheiro Lafaiete e Barroso.
                No Salão Comunitário de São Geraldo os congadeiros receberam o alimento pelo café da manhã e almoço.
                Todos se apresentaram no largo rodeado pelos quatro mastros nas quinas (São Benedito, N.S.do Rosário, Sto.Antônio Catigeró e Sta.Efigênia) e visitaram a Igreja de São Geraldo Magela, onde cantaram respeitosamente seus louvores.

Congadeiros diante da Igreja de São Geraldo Magela.

                No final da manhã um grupo de capoeira da cidade se apresentou na porta do templo demonstrando aprumo no jogo esportivo/dança. Destaques para as linhas de Angola e São Bento.

Apresentação de capoeira.

                Após o almoço os grupos foram divididos em duas frentes de cortejos que se deslocaram pelas imediações no processo de recolhimento do reinado, buscando reis, rainhas, príncipes e princesas, além do Imperador do Divino, que também este presente com a Comissão Organizadora do Jubileu do Espírito Santo do Bairro de Matosinhos, fazendo-lhe escolta. Um cortejo foi para o Araçá e outro para a Bela vista. Ambos se encontraram na praça dos fundos da capela, e seguiram para mesma onde o reinado foi entregue para a missa festiva.
                Finda a missa houve bênção dos congadeiros e saudação à corte.
                Por fim os mastros foram descidos e uma queima de fogos ponto-finalizou o evento.

                Uma nota de destaque e para se fazer justiça, deve ser conferira ao Grupo de Inculturação Afro-descendentes Raízes da Terra e a Associação de Congado Santa Efigênia, ambos do Bairro São Geraldo, que a mais de duas décadas vem se esforçando em prol desse festejo e da defesa dos  valores e direitos do negro em São João del-Rei e região, lutando pelo fim do racismo e discriminação. Com belos estandartes, trajados tipicamente seus integrantes  e ao troar de grandes tambores exibiu seus ritmos com excepcional vigor e mais uma vez firmou sua mensagem de igualdade.

Recorte de um estandarte.

* Texto e fotos: Ulisses Passarelli