Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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quarta-feira, 6 de julho de 2016

Notas sobre o uso das arnicas na cultura popular

O nome arnica refere-se a algumas espécies vegetais da família asteraceae e "significa pele de cordeiro, aludindo ao tato de suas folhas, suaves e peludas". Mas como as asteráceas são muitas, a arnica em questão é outra: no hemisfério setentrional (América do Norte, Europa e Ásia) existe o gênero Arnica, com flores semelhantes à margarida, a que se refere literalmente este nome. São plantas de áreas muito frias e altas, "gênero circumboreal e montanhoso" (WIKIPÉDIA, verbete Arnica).Para o hemisfério sul tivemos o nome cedido para outras asteráceas, em verdade bem diferentes daquelas, especificamente as do gênero Lychnophora, que ultrapassam há três dezenas de espécies (WIKIPÉDIA, verbete Lychnophora)

Seu aspecto morfológico é muito diverso, o uso curativo ou em tratamento fitoterápico pode, talvez, dar a pista do motivo do aproveitamento do nome: possivelmente foi um paralelo de usos, que veio através da colonização portuguesa. 

Na Mesorregião Campo das Vertentes (Centro-sul de Minas Gerais, Brasil), as arnicas são usadas sob a forma de solução alcoólica. Os ramos colhidos são partidos em pequenos pedaços, frescos ou desidratados e inseridos em um frasco contendo álcool etílico líquido. É deixado a "curtir", ou seja, em descanso para extrair a química desejada. 

As espécies usadas podem variar com o costume da região e a disponibilidade. Na Serra de São José  existem as seguintes espécies: Lychnophora blanchetii, Lychnophora columnaris, Lychnophora passerina e Lychnophora uniflora (ALVES & KOLBEK, 2009), também encontradas na Serra do Lenheiro. 

Na prática observa-se que em São João del-Rei e cidades vizinhas que a espécie L.passerina é a que de fato tem utilização popular. Sobre ela já existem estudos da parte química, sendo que pelo menos oito grupos de compostos foram isolados e alguns testes biológicos realizados. A planta tipo da descrição procede do Morro do Itambé e o limite norte de ocorrência é a região de Grão Mogol. Alcança até 1,5 metros de altura e apresenta muita variabilidade, sendo "altamente polimórfica" (SEMIR et al, 2011). 

O uso é externo: o líquido é habitualmente esfregado sobre áreas que sofreram contusão e torção; em locais com dores internas supostamente ligadas às articulações; sobre cortes e feridas _ apesar da ardência que gera momentaneamente _ com o intuito de assepsia; em locais que sofreram picadas e sapecados de insetos (marimbondo, abelha, taturana, mosquitos, carrapatos); arranhado ou mordida de animais; ferimento por espinhos e estacas; após extrair farpas, cacos de vidro ou bichos de pé; para diminuir coceira (prurido). A regra é esfregar a arnica com as palmas das mãos, massageando firme até sentir um aquecimento pela fricção, repetindo-se algumas vezes a operação com novas porções de arnica. Acreditam que o calor gerado faz a arnica entrar na pele e não exatamente secar. Isto garantiria sua eficácia. Por vezes, quando o dolorimento é grande, o povo usa o estratagema de fazer uma compressa com arnica sobre a área afetada. 

O uso interno até o povo desaconselha por considerar a arnica 'muito quente', isto é, tóxica, produzindo efeitos colaterais indesejáveis e prejudiciais. Contudo existem exceções muito parcimoniosas de que a cultura popular se vale: quando de um tombo forte, que se bateu o peito no chão, deixando persistente dor nas costelas, usam pingar três gotas de arnica num miolo de pão e ingerir, ou numa colher cheia de açúcar, molhando-o. Isto se mantém por alguns dias até o alívio. 

Mais que um simples uso homeopático nos meios populares, a arnica tem um caráter de erva sagrada ou votiva. É costume na região colher a arnica na Semana Santa, ocasião de prepará-la para servir ao ano todo, só substituída por outro preparo nas endoenças do ano subsequente. Já por isto, sobem as pessoas às encostas serranas e junto às altas pedreiras a colhem em ramos para uso próprio ou para venda. Diante das igrejas históricas vê-se os vendedores de arnica nessa ocasião, expondo-as em balaios, carriolas, sacos estendidos e bancas, enfeixadas em pequenos molhos. De ordinário, além da arnica, surgem então à venda outras plantas específicas como congonhas, alecrins e manjericão. 

Até mesmo os altares são ornados com arnica; e, não bastasse, os andores do Senhor Bom Jesus dos Passos e de Nossa Senhora das Dores. Após as cerimônias, o povo acorre a pegar um raminho desses, tido como bento, sagrado e curativo poderoso. 

Entre os médiuns de alguns terreiros de umbanda e de candomblé, a arnica é considerada uma erva de Oxalá. O roxo de suas flores se evidencia sobretudo na época da Semana Santa e esta é a cor da quaresma, da penitência, do Senhor dos Passos e da Senhora das Dores. Assim as religiões de matriz africana se somaram na contribuição de elementos culturais em torno da arnica. Por conseguinte, o banho com arnica é recomendado para descarrego e firmeza na linha de Oxalá, capaz de trazer ao que crê pacificação e equilíbrio espiritual. Outra possibilidade de uso neste contexto é deixá-la secar por desidratação natural e depois jogá-la em brasas vivas, agindo como um incenso ou defumador, capaz de afastar energias negativas e harmonizar o ambiente.  

E tudo isto é algo muito arraigado ao costume popular. Passa de geração em geração como sabedoria do povo. Pois, desde pequena, a criança é levada pelos pais à igreja para as cerimônias tradicionais e na volta tem seu contato com esta cultura; aprende a usar e ensina (transmite). O pescador leva no embornal uma garrafinha com arnica porque pode precisar no mato; as senhoras a tem num canto do armário, sempre de prontidão para acudir a necessidade de um filho traquina ou de um neto serelepe. O umbandista se sintoniza com o sagrado ao banhar-se com uma infusão aquosa de arnica, ou tendo-a seca, a põe no braseiro para gerar o aroma sagrado. O humilde raizeiro ganha seu dinheiro extra graças a esta cultura. 

A arnica por seu valor etnográfico merece uma atenção especial, tanto em termos de proteção enquanto espécie, quanto em termos de estudo das propriedades medicinais. E quando citamos proteção não é mera força de expressão. A lista da flora mineira ameaçada inclui várias espécies de Lychnophora, dentre as quais a nossa arnica, Lychnophora passerina, que por ter área de ocorrência restrita e habitat degradado é considerada espécie vulnerável, segundo critério de classificação da IUCN - União Internacional para Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (COPAM, 1997; FUNDAÇÃO BIODIVERSITAS, 2008). Pelas razões expostas, os habitats regionais merecem toda atenção, seja na Serra de São José seja na Serra do Lenheiro, considerados todos os seus contrafortes. No Lenheiro pode ser encontrada na área oficial de seu Parque Municipal e mesmo fora dele, sugerindo ampliação de sua área para garantir proteção a esta espécie. 

As arnicas locais destas duas serras são típicas da vegetação de campo-rupestre. Surgem nos vãos entre as rochas (quartzito), em solo arenoso (neoquartzarênico), terrenos pedregosos e secos, em regiões de maior altitude e bem específicas. A pressão antrópica sobre elas é intensa, seja por ação destrutiva das queimadas florestais seja da coleta indiscriminada de finalidade comercial. Isto exige o desenvolvimento de ações de caráter educativo, intensificar combate e prevenção às queimadas, fortalecer a fiscalização sobre a área de ocorrência e ainda ampliar os mecanismos formais de proteção ambiental. 

Por fim, como sempre este blog assim procede, é o valor folclórico da medicina popular que interessa a esta página eletrônica. Não recomendamos qualquer forma de uso pelos eventuais riscos à saúde que pode gerar. 

1- Arnica: flor roxa típica na mão comparada a uma rara, de flor branca.
Serra de São José (Tiradentes/MG).  08/03/2016. 

2- Arnica, Lychnophora passerina.
Serra de São José (Tiradentes/MG).  18/03/2015. 

3- Arnica de outra espécie na Serra do Lenheiro.
(São João del-Rei/MG). 01/08/2015. 

4- Arnica de uma terceira espécie.
Serra de São José (Tiradentes/MG). 18/03/2015
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5- Lychnophora uniflora.
Areão, Serra do Lenheiro (São João del-Rei/MG). 09/07/2013. 


Referências 

ALVES, Ruy José Válka, KOLBEK, Jirí. Summit vascular flora of Serra de São José, Minas Gerais, Brazil. 2009. In: Check List: Journal of species lists and distribuition. Disponível em:  http://www.checklist.org.br/getpdf?SL112-08 Acesso em 06 jul. 2016. 

COPAM. Lista das Espécies Ameaçadas de Extinção da Flora do Estado de Minas Gerais. Deliberação 085/1997. Disponível em: http://www.biodiversitas.org.br/florabr/mg-especies-ameacadas.pdf Acesso em 07 jul. 2016. 

FUNDAÇÃO BIODIVERSITAS. Listas Vermelhas das Espécies da Flora e da Fauna Ameaçadas de Extinção em Minas Gerais (2008).  Disponível em: http://www.biodiversitas.org.br/publicacoes/  Acesso em 07 jul. 2016. 

SEMIR, João; REZENDE, Alex Ribeiro; MONGE, Marcelo; LOPES, Noberto Peporine. As arnicas endêmicas das serras do Brasil: uma visão sobre a biologia e química das espécies de Lychnophora (Asteraceae). Ouro Preto: Editora da UFOP, 2011. Disponível em: https://www.repositorio.ufop.br/items/ca8a6eb0-e9d2-4f93-97c6-2dbdc404434e/full  Acesso em 07 abr. 2025. 

WIKIPÉDIA. Arnica. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Arnica  Acesso em 06 jul. 2016. 

WIKIPÉDIA. Lychnophora. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Lychnophora Acesso em 06/07/2016.

Créditos

- Texto e fotografias: Ulisses Passarelli.

Notas

- Agradecimentos ao amigo e companheiro de jornada nas serras, Luiz Antônio Sacramento Miranda, a quem ofereço esta postagem. 
- Revisão: 08/10/2025. 

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Brumado

Ofereço como homenagem e gratidão à memória dos foliões Geraldo Teixeira e Vico, e  ao casal amigo José Marcos e Maria José, mestres do saber.


            Existem várias localidades com o nome de Brumado. Bruma é neblina, serração, névoa. Brumado é o lugar que tem muitas brumas, nevoeiro. Estas palavras revestem-se de uma poesia natural e revelam um ponto do distrito de São Gonçalo do Amarante, em São João del-Rei, com um bucolismo bem condizente com sua paisagem neblinada no outono e no inverno. No entanto, a palavra Brumado comporta mais uma interpretação, aliás, bem distinta: diz-se do lugar que rompeu as expectativas de ser produtivo em ouro - o minerador foi embromado; topou com um lugar no qual aparentemente encontraria riquezas no solo, mas os achados minerais de fato foram ínfimos. Tal lugar, é um brumado. 

            A própria vila de São Gonçalo do Amarante chamou-se em sua origem São Gonçalo do Brumado. Perdido o topônimo original permaneceu contudo o termo em epígrafe em uso noutros pontos distritais, a saber:

- Brumadinho: pesqueiro na foz do Ribeirão do Brumado com o Rio das Mortes, acerca do km 122 da antiga Ferrovia Oeste de Minas, “Linha do Sertão”. Tem duas ou três fazendas próximas;
- Brumado: povoação próxima à vila de São Gonçalo, com dois agrupamentos de residências - em um vale bem definido por morros altos (“Brumado de Cima”) e outro junto ao baixio que serve de leito ao ribeiro supracitado (“Brumado de Baixo”).

            No passado oitocentista o coração desse lugar estava na Fazenda do Brumado, uma antiga construção rural, ainda de pé, que reunia escravaria para trabalhos de plantação, cria e lavra. Vestígios da senzala são visíveis em alicerces de pedra e ainda se percebe sinais do represamento de um dos afluentes do Ribeirão do Brumado, destinado a trabalhos de mineração. A passagem de sucessivas gerações e donos imprimiu mudanças arquitetônicas na construção e divisões territoriais que fizeram surgir sítios e chácaras em derredor, portanto, o núcleo embrionário desse povoado.

            O meio de vida pouco difere de outras localidades são-joanenses e porque não dizer regionais, com uma pequena produção agrícola e pecuária de subsistência, alcançada por métodos tradicionais de produção, o que diante do quadro econômico imperativo do século XX não abriu perspectivas para seus moradores, que na maior parte se mudaram para a cidade. Alguns lidam com o artesanato, para inteirar a renda da família.

O êxodo rural era inevitável e suas sequelas são bem conhecidas na roça e na cidade. De cerca de quinze casas no Brumado de Cima, apenas três tem moradores fixos. As demais são ocupadas em alguns dias da semana ou só nos fins de semana. A situação do Brumado de Baixo é a mesma: de uma dezena de casas só três tem ocupação permanente, segundo observação pessoal em julho de 2009.  

Para quem ficou no Brumado, além do trabalho de subsistência no cultivo e criatório como já dito, o caminho também é prestar serviço para sítios e fazendas da região em trabalhos de capinar plantações, roçar pastos, manutenção de benfeitorias (moinhos, currais, cercas, silos, valos d’água, muros de pedra), paga a diária do trabalhador por cerca de 40 a 50% do valor do trabalhador autônomo na cidade. Não resta dúvida que tal situação serve de absoluto desestímulo à permanência do homem no campo.

Outros fatores pesam a favor do êxodo. A escola local fechou as portas e hoje jaz abandonada em meio do mato e de poços de água. As poucas crianças tem agora que se deslocar à vila de São Gonçalo do Amarante ou ao arraial da Trindade, ambos a uma légua de distância [1]. Ainda assim só se pode contar com o ensino fundamental, sendo depois obrigadas a recorrer à cidade para continuidade do estudo.

As estradas são via de regra ruins. A luz elétrica chegou por volta de 2004 segundo dizem os moradores. Não há linha fixa de transporte coletivo. É necessário pegar o ônibus da Trindade ou o de São Gonçalo, com pontos de parada bem distantes.

Uma tradição local que se encontra desaparecida é a das folias, grupos folclóricos ali rastreáveis apenas por notícias orais. Na década de 1960 a folia de Geraldo Marcelino Vieira, popularmente conhecido por “Geraldo Teixeira”, folião afamado do Brumado de Cima marcou época e manteve a prática folieira. Como é usual na região, seu grupo cumpria jornada anual para os Santos Reis Magos (Folia de Reis) e para o mártir São Sebastião (Folia de São Sebastião), mas também, para o Espírito Santo Paráclito (Folia do Divino) e ainda, algo que é uma exceção, para o santo violeiro, São Gonçalo do Amarante. Esta última é uma das raríssimas Folias de São Gonçalo do Amarante de que se tem notícias.

Outro grupo local do Brumado de Cima foi a folia do sr. Flávio Francisco Alves, carinhosamente conhecido por “Vico”, que teve uma Folia de São José cuja arrecadação e anúncio se voltavam para a Igreja de São José Operário, no bairro Tijuco, na sede municipal.

Uma tradição ainda forte nessa região é a da medicina popular. O uso da fitoterapia é o remédio de todas as horas. Com a senhora Maria José da Silva Oliveira, a conhecida e dedicada rainha de congado “Maria da Pinta”, moradora local, colhi relevante receituário popular em 25 de julho de 2009:

Infusões alcoólicas: (para friccionar na área afetada)

1-         Cravo-defunto com arruda: sinusite;
2-         Melão de São Caetano: picada de insetos;
3-         Caldo de mandioca: creme dermatológico;
4-         Carobinha: sarna;
5-         Camboatá com capim-gordura: mialgia, reumatismo, coluna, joelho, juntas;
6-         Folha de mandioca com cuité do campo: coluna;
7-         Caroço de abacate ralado: coluna, reumatismo.

Fortificante:
-          uma talha (fatia larga) de marmelada;
-          um frasco de Biotônico Fontoura;
-         dois ovos de pata / codorna;
-          uma lata de leite condensado;
-          três colheres de mel.
Bate tudo no liquidificador e acondiciona em vidro esterilizado na geladeira. Tomar uma colher por dia.

Bronquite:
1- Receita popular: mamão grande, verde. Cortar uma tampa e deixar a semente. Põe dentro uma cebola média ralada, três colheres de mel, meio copo de açúcar mascavo, quatro ramos de hortelã, um punhado de flor de mamão de corda (macho), um punhado de flor de laranjeira e de limão, meia dúzia de flor de fruta do lobo, uma mão cheia de folhas de alevante e poejo. Tampar com a tampa do próprio mamão, prendendo-a com palito. Por numa forma de bolo levar em forno quente até escorrer caldo. Coar e por em vidro esterilizado.

2- Simpatia: pegar um ovo de galinha preta e na Sexta-feira da Paixão abrir um tampo e cuspir dentro dele. Colocá-lo dentro de uma meia preta e pendurar em cima do fogão à lenha, onde pega fumaça.

3- Simpatia: cuspir na boca de um peixe vivo e soltá-lo no rio para levar embora a bronquite.

4- Simpatia: trocar dinheiro do bolso por uma esmola de equivalente valor, que tenha sido coletada pelos meninos, que na Semana Santa, batem matraca na porta das igrejas e pedem ofertas para a para a cera do Santo Sepulcro. Na hora de trocar tem que pedir ao menino da igreja que o faça “pelo amor de Deus”. Com esse dinheiro comprar algo comestível para a criança com bronquite e deixá-la comer à vontade. O que sobrar do alimento jogar no Córrego do Lenheiro de cima da Ponte do Rosário na hora da passagem da Procissão do Enterro e dali acompanhar até o fim aquele piedoso cortejo.

Maria disse-me ainda que era costume no passado os pais darem banho de sangue de tatu nas crianças para lhes fortalecer a saúde e retirar o risco de contrair lepra. E por falar em banhos, para o descarrego ensinou-me o de folhas da congonha conhecida por ticongô, ou ainda da planta chamada solidônia, capazes de, se fervidas e convertidas depois de mornas em banhos, retirar todo mal olhado, forças negativas, maré de azar.

Seu esposo, José Marcos de Oliveira é um artista no manuseio da madeira, fazendo bons trabalhos artesanais de peças importantes na lida rural, incluindo pilões de tempero, cabos de facas, cachimbos, canzis para carros de bois e outras produções. O casal forma ainda uma boa dupla de cantadores de calango e modas.

A vida simples no Brumado reserva muito saber além da tranquilidade. Esquecido por sucessivas administrações, pelejando por melhorias, vê a cada dia seus moradores buscarem melhores possibilidades na cidade. [2]

Mas o conhecimento popular ainda persevera na memória coletiva, resistindo ao desaparecimento. Falta-nos ainda valorizá-lo devidamente e quiçá não possa ser uma fonte de recursos para os moradores.  

Brumado de Cima e ao fundo a Serra do Lenheiro,
São João del-Rei/MG, 24/07/2009.

Bandeira da Folia de São Gonçalo do Amarante, 
que houve no Brumado de Cima. Março/1999.
 
Créditos

- Texto e fotografia: Ulisses Passarelli. 
Notas

[1] Observação tomada em 2009. Anos após, as escolas da Trindade e por fim a do Caburu (São Gonçalo do Amarante) também foram fechadas, esta última em 2025. Com isto, estudantes distritais obrigatoriamente se deslocam agora para a zona urbana. 

[2] Uma capela foi inaugurada no Brumado de Cima em 2025, dedicada a Nossa Senhora da Conceição. Em junho de 2026, moradores estavam preocupados com estado de conservação da ponte sobre o Córrego do Brumado de Cima, no acesso a São Gonçalo do Amarante e cidade, com riscos para veículos pesados. 

Revisão: 01/07/2026. 

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Azeites

Segundo o verbete dicionarizado, originalmente azeite é o nome do óleo extraído da azeitona (oliva), fruto da oliveira. Por extensão, a palavra se aplica a outros óleos. O termo procede do árabe, azzait (LELLO e LELLO, 1970). 

De uso antiquíssimo na humanidade, nos meios populares o azeite verdadeiro, ou seja, o de oliva, é conhecido por azeite-doce. Além do uso culinário normal, sobretudo para temperos de saladas, além de outros usos na cozinha, é muito adotado na cultura popular na composição de remédios. Tomar a medida de uma colher das de sopa cheia de azeite puro resolveria o intestino preso numa constipação; um cálice de azeite bebido após uma ressaca curaria os efeitos sintomáticos da bebida alcoólica.

Outro "azeite" muito conhecido é o de dendê, óleo espesso e forte extraído dos frutos de uma palmeira de origem africana, o dendezeiro (Elaeis guineensis), aclimatada no Brasil. O azeite de dendê (epô  pupá ou epó pùpà, em iorubá, literalmente, "azeite vermelho") tem pequeno uso na culinária típica regional e liga-se mais ao uso ritual na cozinha de santo, ou seja na produção de alimentos que serão oferecidos aos orixás e demais entidades em sessões religiosas nos terreiros de matriz africana, além do uso em algum ritos. O dendê dá um azeite considerado "quente", ou seja, forte, calórico, capaz de atrapalhar o organismo não habituado ao seu consumo, gerando diarreia e intoxicação. Por isto seu uso deve ser moderado. Nos terreiros o dendê funciona fortemente com um axé de ativação, uma energia para ajudar na realização do que está sendo pedido no ato religioso. 

O azeite de mamona não é comestível. Tem uso medicinal na cultura popular, na produção de unguentos, ou puro, em fricções, às quais se atribui o poder de arrefecer doenças de pele. Uma massa de farinha de mandioca pura (branca, não torrada), azeite de mamona e maceração das minúsculas folhas de parentalha (= paretária), teria propriedades de, se aplicada como emplasto sobre a pele por meia hora pelo menos, puxar do interior do corpo o processo inflamatório e a friagem. Quem usa tal emplastro deve a seguir ter a parte coberta por um pano branco ou faixa, justa ao local e guardar repouso.

Também é usado para iluminação, ardendo como combustível em lamparinas, candeias e candeeiros. Segundo Sobrinho (2010), na ata da sessão nº31 da Câmara de Vereadores de São João del-Rei, datada de 13/07/1854, cuidaram os edis da iluminação pública urbana, pelo que "foram colocados vários lampiões de azeite em diversos locais da cidade, como no sobrado novo de João Antônio da Silva Mourão" (atual sede do Museu Regional).

Empregado outrossim como lubrificante pelos carreiros, que trazem na lateral do carro de bois um reservatório (azeiteira) feito de chifre de boi, cheio desse azeite, para de tanto em tanto passar nas cantadeiras, o que diminui o atrito excessivo entre eixo e cocão e assim prevenindo o desgaste das peças.

A produção do azeite de mamona é artesanal, extraído após maceração e fervura das sementes.

Estes são os azeites conhecidos no Campo das Vertentes, embora noutras regiões surjam outros óleos como tais conhecidos: para o norte do Brasil foi muito usado o azeite de peixe-boi, extraído do mamífero hoje ameaçado de extinção; no Pantanal, o azeite de peixe, tirado de caldeirões que lamentavelmente fervem miríades de lambaris.

Por fim não é demais lembrar que as receitas etnográficas aqui registradas, de uso entre os remédios do povo, são fórmulas folclóricas e não científicas, não sendo portanto recomendado seu uso pelos eventuais riscos que podem trazer à saúde.

Azeiteira artesanal produzida do aproveitamento de um recipiente (lata)
de óleo de soja. São João del-Rei, 1999.  

Azeiteira artesanal feita com chifre de boi e tampa em couro,
usada em carro de bois. Tiradentes, 2013. 

Referências 

LELLO, José ; LELLO, Edgar. Dicionário Prático Ilustrado. Porto: Lello & Irmão, 1970. 3v. 

SOBRINHO, Antônio Gaio. São João del-Rei através de documentos. São João del-Rei: UFSJ, 2010. 260p. p.135.

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografias: Iago C.S. Passarelli.

Notas
- Revisão: 24/09/2025. 

sábado, 8 de novembro de 2014

O folclore dos dentes - parte 5

Os dentes na medicina popular


Contra as patologias da boca o elemento popular se vale muitas vezes de práticas empíricas, passadas por gerações através da força da oralidade e da demonstração. O uso está sujeito ao regionalismo e pode-se arriscar, de certa forma, uma generalização de seu uso a nível cosmopolita. Não raro andam de braços dados com fórmulas religiosas, orações e benzeduras.

É mister enumerar algumas “vias de administração”, digamos assim, por analogia: chás, bochechos, gargarejos, aplicações de substâncias, sinapismos e emprego de sumos. As anotações procedem da região de São João del-Rei, salvo indicação em contrário.

- Chás:

Chama-se assim, no linguajar coloquial, ao produto da decocção de folhas, ramos, raízes, sementes, cascas e flores. Os “chás” são usadíssimos por seus efeitos medicamentosos esperados.

A decocção é uma técnica de preparo que consiste em se por a ferver geralmente em água os materiais básicos de que se quer extrair a parte solúvel, produzindo o chá. Ingerido por via oral, deve fazer efeito por via sistêmica, através da corrente sanguínea, até chegar ao local afetado, agindo de dentro para fora. São bebidos mornos ou frios.

A título de exemplo pode-se enumerar os chás de alho roxo, o de gengibre e o de trançagem (gênero Plantago, família Plantaginaceae) com raiz de salsa de tempero (gênero Petroselinum, família Apiaceae), ao qual se atribui valor anti-inflamatório. 

- Bochechos:

Técnica muito mais usada para os males orais que os chás. No geral se faz uma decocção e se bochecha com ela em vez de engolir, fazendo-o passar sob pressão por entre os dentes, banhando os tecidos da boca. A contração da musculatura impele o líquido e depois de algum tempo se cospe. A ação é portanto, local, tópica.

São usados tanto para dor dentária como para afecções das mucosas, tais como úlceras traumáticas, aftas, estomatites em geral. Gozam de popularidade na região de São João del-Rei os seguintes bochechos contra gengivites, estomatites, alveolites, periodontites, pericoronarites e ulcerações bucais: água extraída do tronco da bananeira; fervura de brotos de goiabeira; decocto de folhas de batata-doce; decocto de três a quatro plantas inteiras de língua de tucano (gênero Eryngium, família Apiaceae), bochechando-se morno, com uma pitada de sal de cozinha diluído.

No Rio Grande do Norte existe a prática de bochechos de água morna com vinagre, sal de cozinha (NaCl), alho e limão. Do mesmo estado, informes dão conta de alguns bochechos com substâncias puras, tais como água gelada, álcool etílico de uso doméstico (prática condenável, de alto risco) ou cachaça. O uso desta última parece ser generalizado no país, diga-se de passagem, não apenas como bochecho. 

- Gargarejos:

Equivalem aos bochechos, com a diferença de se fazer a solução passar abundantemente na orofaringe (garganta) em vez de se fazer apenas, ou de forma predominante, na cavidade bucal. Inclinando a cabeça para trás, a saída forçada de ar dos pulmões a propósito move o líquido em borbulhas.

Gargarejos (“gargulejos”, em corruptela) na verdade são usados para problemas de garganta como simples irritações resultantes de tosses, alergias e gripes, mas também nos casos amigdalite (muito procurada a já citada língua de tucano com sal) e faringites.

As anotações locais apontam para o uso da casca da romã (fruto da romanzeira, Punica granatum, Lythraceae) e das folhas da amora-branca (Rubus imperialis, Rosaceae). 

- Aplicação de substâncias:

Também é um uso tópico, mas se diferencia por ser bastante localizado, apenas sobre a área afetada. A literatura registra algumas substâncias curiosas neste mister.

O exemplo mais contundente que se pode citar nas Vertentes é o do cravo da Índia, mastigado pelo dente afetado, de tal forma que seu sumo escorra dentro da cavidade cariosa, o que seria capaz de aliviar a dor. Tal prática se vale na verdade do eugenol, um óleo presente no cravo, de largo uso odontológico e de conhecidos efeitos terapêuticos. A técnica de mordê-lo porém pode induzir queimaduras na mucosa devido à alta concentração.

Ainda mais uma vez confrontando com o Rio Grande do Norte, a sabedoria popular papa-jerimum ensina o uso da seiva leitosa do avelóes (dedo do cão) e da umburana, que parariam muito rápido com a dor de dentes se aplicadas sobre, pelo extraordinário poder que dizem ter de partir o dente ao meio ou fazê-lo em pedaços! Em absoluto, desaconselhamos tal prática. 

- Sinapismo:

O sinapismo é uma espécie de emplastro que se prende à pele por meio de um pano e que, à distância, teria o poder de agir sobre uma parte afetada do corpo.

Um exemplo: uma mistura de alho macerado com azeite de oliva é posta em contato com a pele do braço do mesmo lado do dente afetado. A seguir é coberta por algodão. Sobre o algodão vai casca de laranja. Segurando o conjunto, um pano envolve tudo e se ata por um nó.

Em São João del-Rei, uma senhora que usou tal sinapismo na adolescência, relatou que a dor de dente continuou mas passava despercebida porque a do braço foi pior, graças à grande ardência gerada na pele. 

- Emprego de sumos:

Certos vegetais são aplicados de forma natural, extraindo-lhe o sumo das folhas e raízes por maceração. Este produto é aplicado sobre a área: raiz de gengibre, folha de saião (Kalanchoe brasiliensis), folha de losna, folha de hortelã, folha de laranjeira.

Não se engole. Teriam valor também contra halitose, naturalmente pela aromatização.

* * *

Com esta postagem encerra-se a série “O folclore dos dentes”, adaptação de uma monografia empoeirada, esboçada em 1995, inicialmente datilografada, depois digitada e concluída em 1997. A essência etnográfica da pesquisa foi disponibilizada neste blog. Foram abolidos os elos entre capítulos, as considerações já superadas, as revisões bibliográficas e os elementos biológicos do dente.

Nesta unidade o foco da atenção recaiu sobre métodos da medicina caseira adotados para remediar problemas da saúde bucal. Todas as vezes que este blog aborda questões desta natureza, alerta, como agora reitera, que o registro é de natureza cultural e a prática é desaconselhada pelos eventuais riscos que pode trazer à saúde. O uso de substâncias vegetais como medicamento demanda pesquisa científica aprofundada.

Língua de tucano, São João del-Rei/MG. 

Créditos 

-Texto e fotografia: Ulisses Passarelli.

Notas 

- Leia também as postagens anteriores desta série:




- Revisão: 13/04/2026. 

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Chá da horta, o remédio de todo dia

O povo usa como processo empírico de cura, um número imenso de vegetais sob a forma de chás (decocção), infusões, esfregaço, unguentos ... Algumas pessoas se especializam na identificação das espécies medicinais. São os raizeiros, extratores de raízes curativas, coletores de folhas medicinais, sementes e cascas capazes de aliviar um mal, buscando no mato, pelos cerrados e florestas. Mas há também o hábito de plantar no quintal algumas espécies, por assim dizer domesticadas, tais como marcela, erva-cidreira, losna, pariparoba, confrei e outras.  Uma farmácia na horta. 

Este saber no país mescla influências das nossas grandes etnias formadoras e se transmite por várias gerações através da oralidade. Ainda achamos nos recônditos povoados senhoras que afirmam ter criado os filhos só com o chá da horta, as ervas do mato, sem tê-los levado ao médico. Certamente que não recomendamos semelhante prática, sempre temerosa, inclusive pelo risco de se usar plantas desconhecidas, vegetais tóxicos ou confundir espécies. Não é aconselhado o uso das plantas aqui citadas guiando-se apenas pelas informações escritas ou fotografias pelos eventuais riscos à saúde. 

Contudo, o indicativo de uso popular deve ser coligido com atenção e merece cuidado e estudo, pois já tem revelado para a ciência farmacológica importantes princípios ativos, hoje usados na homeopatia e alopatia, com atividade industrial e comercial.

Em todas as regiões nacionais reside este costume tão arraigado. Esta página, além de citações eventuais, já dedicou outras postagens ao tema: Remédios de Macaia e Remédios do Zé Maria. Para além, algumas espécies tem o aspecto votivo, ou seja, tem uso religioso diversificado, sob a forma de banhos energéticos, defumações, bate-folhas e outros métodos, costumeiros sobretudo nos terreiros de religiões de matriz africana. 

Para exemplificar e prosseguir no registro desta tradição popular, segue uma breve lista de algumas receitas populares regionais, a título de registro etnográfico.

Chapéu de couro:
infusão das folhas para problemas renais / banho energético, linha dos boiadeiros.

Língua de tucano:
fervura com uma pitada de sal de cozinha, em gargarejo contra amigdalite.

Carqueja:
chá ou esfregaço em água para combater má digestão e reduzir resíduos metabólicos no sangue/
banho energético do Orixá Omolu.
 

01- Expectorante (para aliviar peito cheio e tirar catarro sanguinolento): ferver junto cardo-santo, melão de São Caetano, chá-cravo (= alfavaca), um limão partido em cruz e 3 brotos de assa-peixe. Beber pouco a pouco, por vários dias [1].

02- Dor de dente: mastigar raiz do carapiá (caá-piá) sobre o dente afetado [2].

03- Para os rins (contra cistite, retenção urinária, dor no ato da micção): chá de folha de abacate [3].

04- Para abaixar pressão: tomar diariamente chá de folha de chuchu com broto de ameixa amarela (= nêspera).

05- Contra gripe: chá de folha de amora vermelha com limão rosa (= limão cravo ou limão capeta).

06- Contra sarampo e contra tosse: chá de flores de sabugueiro. O sabugueiro é uma erva de Omolu. 

07- Contra tosse e falta de expectoração: fervura de flores de barbácia com leite, tomando bem quente.

08- Contra friagem de estômago: tomar morno chá de erva são joão (a planta inteira). Erva de São João é uma erva de Xangô. 

09- Contra dor de estômago e azias frequentes: macerar flores de capuchinho (= flor de chagas) e beber com leite.

10- Contra gripe: chás de elevante (= alevante; branco ou roxo) ou de erva-terrestre (= erva-pedestre)[4].

11- Contra cólicas digestivas e gases: chás de poejo (branco ou roxo), manjerona, funcho, erva-doce (= canelinha), manjericão (branco e roxo).

12- Contra problemas cardíacos e hipertensão: chás de milindro e manjericão roxo.

13- Inflamações uterinas e das vias urinárias: pedaços do caule de cervejinha do campo, em infusão num copo de água, bebendo-se por nove dias [5]. 

14- Contra resfriado: “leite queimado” – açúcar caramelado ao fogo num canecão, sobre o qual se despeja leite, deixando-se ferver, quando então se adiciona três folhas de alfavaca e uma pitada de canela em pó. Beber bem quente e não apanhar friagem de jeito nenhum senão “estopora” (sofre choque térmico) [6]. 

15- Contra feridas: chá com treze flores de capuchicho (= flor de chagas)

16- Para os rins: ferver raiz anil do campo (= conta roxa) [7].

17- Para curar feridas de pele: tomar com parcimônia e fervura de folhas de muchoco com caroba. O mesmo preparo serve para se banhar as feridas.

18- Contra contusões e torções: raiz de gelol ou vique em preparado alcóolico tem o mesmo valor da arnica e da cânfora nas dores musculares. (Leva o nome de produtos farmacêuticos comerciais, devido à semelhança do cheiro. Tem duas variedades, distinguíveis pela cor das flores, brancas ou rosas);

19- Anti-anêmico: quina-cruzeiro (= quina de barranco): por a raiz no vinho branco seco e curtir por três dias. Tomar um cálice por dia.

20- Contra malária: beber infusão de casca de quina rosa.

21- Para os rins: raiz de jurubeba do cupim (= velame do cupim ou velaminho). Usado da mesma forma que a quina-cruzeiro.

22- Dores de estômago: bardana. Cortar pedaços da folha e mergulhá-las em um copo de água – ir tomando aos poucos e completando o volume da água. 

23- Para os rins: bunda de mucama (capiçoba) - comer as folhas em forma de salada.

24- Pneumonia: fumo bravo fervido, que também serve de expectorante.

25- Para gripe: fervura de geribão (ou gervão).

26- Para os rins: jurubeba de árvore – infusão em água da fruta é usada para problemas renais sob forma diluidíssima por ser tóxica. Usar com muita parcimônia. 

27- Para doenças uterinas: artimijo (corruptela de artemísia), fervido.

28- Distúrbios menstruais e disenteria de animais: fervura de raiz preta.

29- Cólicas: ferve-se agoniada (toda a planta).

30- Problemas renais: chás de conta de lágrimas de Nossa Senhora e de cabelo de milho.

31- Assa-peixe: seu broto junto com a raiz do geribão, fervido e adoçado, serve para dor torácica;[8]

32- Goiaba: a folha fervida controla diarreia;

33- Sabão-gentio: lavar a cabeça com uma fervura de suas folhas combate a caspa (usar morno);

34- Uva do mato: tomada morna e sem açúcar tem função sobre os rins;

35- Jurubeba do cupim: abre apetite. Colocá-la de molho numa garrafa de vinho branco e depois de curtido tomar uma colher das de sopa antes das refeições;

36- Carne de vaca: suas folhas servem em banho morno para aliviar as varizes altas;

37- Insulina de folha: combate o diabetes, tomando-se frio, um pouco por vez, sempre pela manhã;

38- Cipó-sete-sangrias: regula pressão arterial tomado frio. Em alta dose é calmante;

39- Muchoco: sua casca usa-se em banho para curar feridas (uso morno);

40- Murici do campo: para urina solta e criança que urina na cama. Tomar frio e sem açúcar;

41- Garça do brejo: para reumatismo (flor e folhas). Após cozimento e acréscimo de sal, aplica-se como compressa quente sobre o local afetado;

42- Paliatária ou paretária: diurético (usado frio). Também serve para o fim da menstruação (frio e sem açúcar);

43- Congonha-douradinha: diurético (fria e adoçada) e para resfriado fazendo suar (ingerida quente, estando o doente sob as cobertas);

44- Arnica: posta dentro da pinga ou de álcool, serve para aliviar contusões;

45- Cipó-prata / Cipó-cabeludo / Congonha-de-bugre (ou Congonha-bugre): ferver os três juntos, coar e tomar frio para problemas renais e de vias urinárias;

46- Cipó de São João: para dores musculares, fervido com sal. Banhar quente o local da mialgia.

Cânfora ou alcanfor ("arcanfô", na pronúncia informal):
extrato alcoólico para esfregaço contra contusões.
 

Alevante ou elevante: chás para gripes e prostrações. 

Cervejinha do campo:
deixada de molho na água, é usada para inflamações urinárias. 

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografias: Iago C.S. Passarelli.

Notas

- Informantes:

[1] - Dalvina Maria de Jesus (“Vina”), Santa Cruz de Minas, 2009. 
[2] - Maria José da Silva Nascimento, Brumado de Cima (São João del-Rei, 2012).
[3] - Elvira Andrade de Salles (Santa Cruz de Minas, 21/09/1996) - receitas 03 a 09.
[4] - Luís Santana, Bairro São Dimas, São João del-Rei, 1996 - receitas 10 a 12.
[5] - Carlos Lúcio Pereira, São João del-Rei, 2005.
[6] - Aluísio dos Santos, Bairro Centro, São João del-Rei, 1991 - receitas 14 e 15. 
[7] - Luís Pereira dos Santos, 2005, Povoado da Candonga (Tiradentes) - receitas 16 a 30.
[8] - Luís Antônio Sacramento Miranda, Bairro Senhor dos Montes, São João del-Rei, 2005 -receitas 31 a 46 (por sua vez, colheu as informações de José Cipriano Neto). 

- Este blog agradece a todos os informantes a gentileza deste conteúdo cedido. 
- Revisão: 28/11/2025.