Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Festa de São Sebastião em Emboabas

Esses lugares recônditos de Minas! Quanta beleza guardam... Depois de longas estradas de terra, de vários morros transpostos, da contemplação da paisagem natural convidativa, se alcança um povoado, uma vila ou uma pequena cidade. Nela há riquezas culturais, pérolas humanas, belezas arquitetônicas, saberes... hospitalidade; história a ser garimpada. E nós outros fazemos vista grossa... Por que?

Assim é Emboabas, distrito de São João del-Rei, 35 km ao sul da sede municipal, surgido nos princípios do século XVIII ao longo de uma estrada variante que ligava o Caminho Velho ao Caminho Novo. Por esta variante passou certa vez o Imperador do Brasil. Consta que Dom Pedro pousou numa fazenda alguns quilômetros abaixo de Emboabas. O lugar, não à toa, é conhecido por Pouso Real, região montanhosa e aprazível. 

Outrora o nome do distrito era São Francisco do Onça, de origem setecentista. Há mesmo um fluxo d'água que banha o lugar chamado Ribeirão do Onça. O topônimo lamentavelmente foi alterado pelo Decreto nº 1.058, de 31/12/1943 passando a se chamar Emboabas. A história contudo não consignou nada que ligasse a localidade aos emboabas ou à contenda que levou seu nome, a Guerra dos Emboabas. Aparentemente o nome Emboabas é despropositado e melhor o fariam se retomassem o topônimo original, ligado à identidade do lugar. Ainda hoje, muitos e muitos chamam aquela vila de Onça, sempre no masculino, mostrando a força felina deste nome resistente. 

Emboabas guarda ainda na memória dos mais idosos lembranças da santa do lugar: Sá Luíza da Cananéia. Santa na língua do povo, que considera Sá Luíza uma virtuosa e taumaturga, tal como Nhá Chica, outra são-joanense, esta já na condição oficial de Beata, ora em processo de canonização. Segundo narram (*), Sá Luíza já idosa, toda primeira sexta-feira de cada mês, partia à pé até São João del-Rei (45 km desde Cananéia!), estrada de terra, pé no chão (sem calçados), de vestido comprido e mangas longas, lenço atado à cabeça, terço na mão, para assistir missa na Igreja de São Francisco de Assis. Sá Luíza tomou à frente a tarefa de edificação da Igreja do Sagrado Coração de Jesus na Cananéia. Morreu queimada em sua casinha perto da igreja. Reservados alguns detalhes, a essência dessa narrativa, foi registrada por meio de outro informante por SACRAMENTO (2017), antes que esse blog o fizesse, que ora tão somente corroboramos por nova informante. Isto demonstra que ainda palpita a memória popular acerca de Sá Luíza, no aguardo de um movimento, um estudo substancial, algo que a resgate do passado, antes que o tempo leve consigo os que a conheceram pessoalmente. Sá Luíza bem merecia estar no patamar de Nhá Chica, pois assim como ela foi um ícone do sagrado, tal e qual naqueles idos da primeira metade do século XX também o fora Manuelina de Coqueiros, pras bandas de Entre Rios. Mulheres Sagradas de Minas! 

Cercado por sítios e fazendas, nada mais natural que a devoção a São Sebastião florescesse em Emboabas, pois via de regra é queridíssimo na zona rural, protetor da atividade agropecuária, posto que é guardião contra a fome, a peste e a guerra. Naturalmente, por estas prerrogativas sagradas, guarnece plantios e criações de desastres, doenças e outros revertérios, que trariam a escassez dos mantimentos. Contudo, as mudanças diversas e as dificuldades, esmaeceram este festejo, que a cerca de doze anos não acontecia. Os esforços da paróquia, da comunidade e notadamente dos festeiros, possibilitaram o retorno da festa. 

Década e pouco atrás numa dessas festas no Emboabas, veio num ônibus de São João del-Rei o congado do Capitão Raimundo Camilo (do Bairro São Dimas) e duas folias de São Sebastião: a do Bairro da Fábricas, à época sob a chefia do folião "Tião Domingos" e a do Bairro Guarda-mor, do folião "João Matias". Os grupos na ocasião dançaram e cantaram pelo largo, animando bastante a festa. 

A festa de 2018 foi iniciada com tríduo preparatório no dia 25, contando com várias atividades religiosas: caminhada luminosa, celebrações, procissão. O dia maior, domingo, 28, principiou com alvorada festiva, apresentação de folia de São Sebastião na igreja, no largo e em visita a casas, missa na matriz, almoço festivo, leilão de gado e de prendas, procissão. Além do som mecânico, no palco da festa aconteceram shows e no largo algumas barracas animavam os visitantes.

A valorização ao homem do campo transparecia no próprio programa, que anunciou claramente que a festividade era em honra a São Sebastião (protetor da agricultura) e a Santo Isidoro (protetor do agricultor). Ao término de uma das celebrações o sacerdote abençoou vários saquinhos de sal, que os devotos recolheram para uso, misturando-se ao sal dado ao gado bovino. Ainda se ressalte a bênção de pequenos estandartes destinados aos fazendeiros. 

A retomada dessa festa é uma oportunidade promissora de valorização da comunidade. As possibilidades culturais, que se abrem em leque, possibilitam confraternização e aprendizado. Tanto mais, traz visibilidade ao distrito. Este Blog parabeniza a todos os responsáveis pela iniciativa e faz votos de que prossiga ano após ano. 

1- Igreja Matriz de São Francisco de Assis, Emboabas. 

2- Largo em festa: cruzeiro e barracas festivas. 

3- Casa paroquial de Emboabas, bem cultural digno de preservação. 

4- Folieiros recebem o café da manhã. 

5- Rosquinhas caseiras e café na ciculateira (**): tradição interiorana. 

6- Mastro de São Sebastião no adro da matriz. 

7- Detalhe da imagem de São Sebastião. 

8- Andor de São Sebastião. 

9- Andor de Santo Isidoro, padroeiro dos agricultores. 

10- Folia Embaixada Santa, de São João del-Rei, 
canta o martírio de São Sebastião diante do andor. 

11- A folia visita uma casa. 

12- Antigo frade de pedra, de talha sextavada: 
elemento histórico chantado no Largo da Igreja.

13- Cartaz da Festa de São Sebastião e Santo Isidoro,
Emboabas (São João del-Rei/MG). 30 x 40 cm, papel couché.

Referências Bibliográficas

SACRAMENTO, José Antônio de Ávila. Sá Luíza da Cananéia. InEm Voga, São João del-Rei, n.6, ano 3, dezembro/2017. 

Notas e Créditos

Informante: Sra. Isabel Batista Moreira, moradora do distrito. Descreveu com muita vivacidade e emoção as virtudes de Sá Luíza, pois a conhecera pessoalmente. Este Blog registra a mais sincera gratidão à informante pela presteza e sinceridade do diálogo. 

** Ciculateira: ou chiculateira, possível corruptela de chocolateira, vasilhame metálico de fundo largo e boca em gargalo. Também chamada conforme a localidade de sapona e muxambeta. 
***Texto: Ulisses Passarelli
**** Fotografias: Ulisses Passarelli: 2, 7, 8, 9, 12, 13; Iago C.S. Passarelli: 1, 3, 4, 5, 6; Cida Salles: 10 e 11
***** Obs.: agradecimentos especiais ao festeiro Cláudio Guimarães Pereira, que com muita sensibilidade, convidou e proporcionou a presença da folia no festejo. 

REVISÃO: 09/04/2024

sábado, 19 de novembro de 2016

Folia do Carlão na Restinga


Folia do Divino da Colônia José Teodoro visita a Capela de São Sebastião
da Restinga de Baixo. 24/01/2016. 

Nesta postagem o blog Tradições Populares das Vertentes apresenta mais um vídeo. Nesta oportunidade é possível observar a "Folia do Carlão" adentrando na Capela de São Sebastião, na Restinga de Baixo (Ritápolis/MG), no dia vinte e quatro de janeiro do corrente, durante a festa do padroeiro daquela comunidade rural. Trata-se de um festejo muito tradicional que este blog já registrou numa postagem (vide link ao final desta).

O citado grupo é uma Folia do Divino Espírito Santo e tem por nome oficial "Mensageiros do Paráclito". O cognome é uma referência à alcunha do organizador, o Folião Carlos Leandro de Oliveira. O grupo está sediado na Colônia José Teodoro, zona rural de São João del-Rei e tem se revelado muito ativo, participando de várias festas religiosas, apresentações culturais e jornada de visita às casas dos devotos. Embora sendo uma Folia do Divino, não deixa de cantar para São Sebastião nas ocasiões específicas, como esta, ou para o presépio, na quadra natalina. 

Conta com três embaixadores: Natal, Antônio Francisco dos Santos e Pedro Paulo Ramos, que aparecem nas imagens, embora que especificamente neste vídeo a cantoria esteja à cargo deste último, Pedro, que traz consigo larga experiência. 




Notas e Créditos

* Texto, fotografia, vídeo, edição e acervo: Ulisses Passarelli
** Leia também neste blog: A FESTA DE SÃO SEBASTIÃO NA RESTINGA 

domingo, 26 de junho de 2016

A saudosa folia de Santa Cruz de Minas

De forma bem superficial e prática, sem abordar questões históricas, pode-se dizer a título de mera observação prévia, que as folias de São Sebastião no Campo das Vertentes são extensões temporais das folias de Reis, com nova roupagem. 

Fortemente arraigadas a esta área das Minas Gerais, desenvolveram-se com grande aceitação popular em torno da devoção ao Guerreiro da Fé, o Mártir São Sebastião, prestigiado protetor contra, a fome a peste e a guerra. Vencido o Dia de Reis (seis de janeiro), até o dia vinte, circulam em missão. Janeiro é pois o seu tempo. 

A bem da verdade o costume regional atribui a esta folia a mesma ritualística jornadeira de visitar famílias, cantar de porta em porta, saudar aos anfitriões, venerar ao santo estampado em sua bandeira com versos cantados, solicitar em seu nome um donativo e em agradecimento entoar novos versos, que culminam com o pedido de devolução da bandeira e a despedida. A diferença das folias de Reis, de maneira bem sintética é que não visitam presépios, que via de regra a este tempo já foram desfeitos e por conseguinte não cantam aos Reis Magos, a não ser eventualmente se um detalhe inesperado o exigir. Os versos são todos voltados carinhosamente a São Sebastião. Alguns grupos tocam ritmos diferentes para as duas folias, outros não, só mudam os versos e a bandeira. 

Em Santa Cruz de Minas o padroeiro é São Sebastião. Nada mais natural que numa região folieira como esta, encravada entre São João del-Rei e Tiradentes, ambas com forte tradição de folias, que Santa Cruz também as tivesse em alta conta. Nos meados do século XX eram mais comuns e afamou-se o grupo de Miguel Silva e "Lóca", por longos anos. Depois esteve uns tempos desativada e retornou nos anos noventa sob a bandeira do Folião Sebastião Mário e a voz do Embaixador Murilo, experiente, afinado e conhecedor da tradição. Pouco depois Murilo assumiu a folia por completo e a manteve por alguns anos, estando nos dias atuais desativada. 

A igreja do santo na cidade festeja São Sebastião em janeiro com grande concorrência popular em programação intensa e afamadas quermesses, as tradicionais "Barraquinhas do Porto", por longos anos faladas em São João del-Rei como excelentes. Pois bem. Ainda hoje é corriqueiro que no dia maior folias vindas de municípios vizinhos espontaneamente passem pela igreja em diferentes horários ou mesmo participem da procissão. O município tem assim uma vocação, digamos assim, a esta atividade cultural e bem poderia firmar um bom encontro de folias ou mesmo recompor a folia. 

Mas enquanto isto não se concretiza, fiquemos com os acordes saudosos de uma saída da folia local em 1995, quando a treze de janeiro partiram mais uma vez para visitar os devotos em suas casas. 



Notas e Créditos

* Texto, vídeo e acervo: Ulisses Passarelli
** Ver também neste blog: FOLIA DO PORTO

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

A Festa de São Sebastião na Restinga

O dia de São Sebastião caiu este ano em plena quarta-feira (20 de janeiro), induzindo que as comemorações em vários lugares se transferissem para o final de semana seguinte. Tal se deu na Restinga, distrito de Ritápolis/MG, onde aconteceu a tradicional festa em honra a este santo altamente prestigiado nos meios rurais, como protetor dos sitiantes e fazendeiros, com o atributo clássico de proteger contra a fome, a peste e a guerra; guarda espiritual dos rebanhos e plantações, contra a ruína das doenças, desde que se tenha fé nele. É por excelência o santo patrono da agropecuária [1]

A Restinga é dividida em dois grupamentos de casas: um na parte mais alta do terreno foi batizado Restinga de Cima, que conta com uma capela dedicada a Nossa Senhora Aparecida e outro, na baixada, Restinga de Baixo, cujo padroeiro é São Sebastião. Onde fica a sua capela não é na parte mais baixa do povoado, se não mesmo em um platô, com visão panorâmica das elevações em derredor. Já por isto há quem lhe chame "Restinga do Meio", conquanto o nome não pareça tão comum, posto que, ao pé da letra a capela é parte da Restinga de Baixo. Conta ainda com um cemitério aos fundos, e algumas construções em volta, sediando conferência, casa paroquial, escola e um grande reservatório de água. Sítios nas imediações. O entorno é gramado, ao natural e servido pela estrada não pavimentada que vem da Rodovia BR-494 e segue a Resende Costa, com entroncamentos para a Restinga de Cima (esquerda) e para o Penedo (direita). 

A comunidade é muito tradicionalista e guarda desde longa data a tradição do congado, com festejo do Rosário em setembro, quando o catupé local recepciona as guardas visitantes. Mantém igualmente a folia, ora só na de Baixo, ora nas duas Restingas; confluindo sua jornada para o arremate anual nesta festa em questão. Além do grupo da Restinga de Baixo, sob o comando do veterano e respeitadíssimo Mestre Sebastião Ezequiel e de seu seguidor imediato, José Mário, que tem sua própria folia na Restinga de Cima, estiveram também presentes a Folia "Mensageiros do Paráclito", vinda da Colônia do José Teodoro (São João del-Rei), do folião Carlão (Carlos Leandro de Oliveira),  tendo como embaixadores Pedro Paulo Ramos e Antônio Francisco dos Santos; e ainda a folia do Cerrado, bairro de São Tiago, sob o comando e voz de Vanderlei Cardoso. As companhias demonstraram experiência e excelência na qualidade do que apresentaram, executando toadas muito tradicionais, típicas da região, sobretudo das áreas rurais, com cantorias bem fundamentadas em seus versos. 

O povo devoto estava totalmente à vontade no largo gramado. Música mecânica instalada sobre a carroceria de um caminhão, coberto de improviso por um toldo de bambu e lona, animava o ambiente tocando sertanejo nos intervalos de cantoria dos foliões. Gente amiga e aparentada se encontrava por ali, sentando para a prosa debaixo das grandes figueiras bravas. Capela aberta na frente e nas laterais, varrida, florida, pintada de novo. Todo tempo visitantes lhe entram e saem como numa romaria. Os andores de São Sebastião e de Nossa Senhora das Graças estavam enfeitados de rosas vermelhas e uma fita atada aos pés da imagem oferecia ao fiel uma chance para o ósculo. A marca de batom na fita branca da Virgem é prova inconteste do carinho de um beijo na santa. A fita de São Sebastião é vermelha, cor votiva do mártir da fé. 

O cemitério também está aberto e as pessoas o visitam livremente, em oração pelos mortos e em contato com a lembrança de entes queridos. A festa abre uma dimensão de saudade, de reencontro, até mesmo com os que já se foram, ora recordados, porque dali também, noutros tempos, foram partícipes. Ao se visitar o cemitério, simbólica e implicitamente, se insinua e acredita que as almas participam também, acompanhando do plano celeste as festividades queridas. 

Um mastro foi fincado adrede à capela, simples, relativamente baixo, mas tão simbólico com sua estampa dupla, numa face o santo festejado, no outro a Virgem de Fátima. 

Em um canto do largo, um curral reserva prendas ofertadas ao padroeiro: bezerros e leitões. Diante da casa paroquial, uma mesa forrada de toalha expõe outras prendas diversas _ melancia, moranga, abóbora, feijão guardado em garrafa pet (gratidão pelas boas colheitas...), utensílios domésticos, tapetes e colchas que foram tecidos em teares artesanais _ prendas para o leilão em benefício do festejo. O povo então os chama respectivamente "leilão de gado" e "leilão de mesa", uma tradição das festas deste santo. O povo passa olhando, não mexe, não rouba. Respeita. É do santo. Mas já estipula possíveis valores, planejando arrematar. Por vezes, nesses leilões, se arremata objetos baratos; outras vezes bem acima do que realmente valem, porque o bom leiloeiro sabe apregoar incitando o orgulho e o senso de disputa dos candidatos a arrematante, que se empolgam em lances sucessivos visando superar o "rival", o que torna o leilão atraente, animado, alegria do povo. E é assim mesmo, porque pagar mais que vale é prova de fé, posto que subentendido e aceito coletivamente como verdade inconteste, é forma de ajudar a festa e retribuir ao santo as múltiplas benesses recebidas. Essa a lógica do leilão numa festa desse tipo. 

Sai o almoço das folias. Que almoço! Cardápio simples, mas inigualável no sabor. Comida mineiríssima típica. Elogiado ao extremo por quantos o provaram. Confraternização geral, alegria, foliões se misturam independente do grupo que participam. São irmãos imbuídos da mesma missão. Depois cantam no ritual de agradecimento e neste a cozinheira deve segurar a bandeira para ouvir os versos. 

Achegam-se para debaixo da árvore grande. O mestre do lugar convoca. Encontro das bandeiras, ritual de saudação de uma folia à bandeira da outra e na sequência aos foliões. Momento de paz e união. Os devotos dessas comunidades amam as folias. Juntam em volta para ouvir os versos e apreciar os acordes da sanfona, o dedilhado das cordas, a afinação do requinta, a sintonia da resposta. 

A sineta tocada à porta da sacristia é um sinal imperativo. A missa vai começar. Folias param, o povo mobiliza-se para o templo. O relógio marca 14 horas. Padre Nélio José dos Santos, sempre tão eloquente, sabe como celebrar conservando a atenção de todos e com palavras evangelizadoras que invadem o âmago. Seu apoio às tradições é valoroso e indispensável e o temos visto desde muitos anos com aplausos. O coral local cantou no coro da igreja, exímio, se valendo de melodias de músicas sertanejas, o que muito agrada aos fiéis. 

Na sequência, a partir das 15 horas e trinta minutos, transcorreu o leilão de prendas. Primeiro o de mesa. Enquanto as folias voltaram a cantar no largo e os presentes em burburinho a conversar, a comer e beber pelas barracas instaladas, os leiloeiros transitavam entre eles gritando o preço das prendas e pedindo novos lances. Nesse meio tempo passa um homem vendendo peças artesanais de couro trançado: talas, relhos, chaveiros, cinturões, bainhas de canivete. A freguesia está ali, muitos cavaleiros presentes, de chapelão à cabeça, botas e perneiras. Num canto do lugar, violeiros cantam uma moda qualquer e logo atraem seu público específico; crianças correm e brincam numa liberdade imensa, gramado afora, sem riscos, sem obstáculos. O gramado, aliás, daqui e dali se ponteia de forte amarelo, dos canários da terra, pássaros canoros de beleza ímpar. 

Daí a pouco os leiloeiros começam a passar com galinhas peiadas [2] e o leilão esquenta. Já mais um tanto e começa o berreiro dos porcos e passam carregando leitões e por fim as pessoas rodeiam o curral para avaliar os bezerros e dar seus lances, momento mais intenso da disputa dos arrematantes. 

Findo o leilão o padre convida ao microfone os fiéis ao início da procissão e o sino da capela reitera o chamado com seus repiques insistentes. O cruciferário toma a dianteira. Duas filas logo se formam. Andores vão no meio e folias atrás, alternando cantoria. Rodeiam o cemitério, circulam pelo lugar, tornam por baixo. Não é itinerário longo, mas concorrido e devoto. Uns poucos foguetes espocam e seu eco se amplia na imensidão de morros. Na chegada os andores entram de marcha à ré, como é de costume. O sacerdote dá a bênção final e a capela se irrompe em vivas a São Sebastião. As folias cantam sua despedida na nave do templo e o povo despe os andores de suas flores, que levadas aos lares são certamente dádivas que adentram nas famílias. 

Despedidas à vista. Sai um carro, vai-se um caminhante, um cavaleiro parte, uma motocicleta zoa pela estrada. O largo pouco a pouco esvazia. Barracas se desfazem. Alguém varre a capela e uma zeladora cerra as portas. O compromisso com o sagrado foi cumprido mais uma vez. O equilíbrio das forças terrenas e celestes está garantido de novo para aquela comunidade, como uma aliança inquebrantável, anualmente renovada. A fome não assolará, já que os rebanhos e roçados estão abençoados. Agora é voltar ao trabalho, com a certeza da vitória que só a fé garante... Té logo, cumpadre, vai com Deus!

Andor de São Sebastião na Restinga:
um ramo de oliveira se abre como uma umbrela
e a fita vermelha serve ao beijo dos devotos. 

Bandeireiro da folia da Colônia do José Teodoro
em respeitosa atitude durante a cantoria de veneração.
 
 
Folia da Colônia do José Teodoro (São João del-Rei), chegando na
Capela de São Sebastião da Restinga de Baixo. 

Folia do Cerrado, de São Tiago, faz sua adoração dentro da capela. 

Sanfoneiro da folia da Restinga. 

Foliões Zé Mário (esquerda), da Restinga de Cima e Sebastião Ezequiel (direita), da Restinga de Baixo, ícones da tradição folieira na região, observam atentamente a cantoria das folias visitantes.
 
Senhoras observam a cantoria folieira. 

O povo se aglomera debaixo da imensa figueira para assistir o Encontro das Bandeiras. 

Vendedor de artefatos de couro. 

O leiloeiro apregoa um porco.  

Leilão de galinhas. 

O leilão de gado é muito concorrido. 

Mesa de prendas.

Cruciferário abre a procissão.  

Passagem do andor de São Sebastião acompanhado por folias.
 
Fogueteiros saúdam a chegada da procissão. 

Chegada da procissão. No extremo esquerdo da fotografia se observa
o mastro de São Sebastião. 

Créditos

Texto e fotografias: Ulisses Passarelli.
 

Notas 

[1] No ano anterior este blog divulgou outra festa rural dedicada a São Sebastião, no distrito de São Gonçalo do Amarante (São João del-Rei). Leia clicando no link: CABURU FESTEJA SÃO SEBASTIÃO
[2] Peiada: que tem os pés atados por peias (cordão ou embira, que amarra um pé no outro para impedir a fuga de um animal correndo). Não confundir com pejada: prenha, grávida. Vocabulário típico dos meios rurais. 

- Revisão em: 28/07/2026. 


quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

São Sebastião e São Benedito: festa em São João del-Rei

São João del-Rei, cidade pródiga em festividades, prepara-se no Bairro de Matosinhos para a realização de mais uma comemoração em honra ao "Santo Mártir Guerreiro", São Sebastião, na Avenida Santos Dumont, co-festejado com "Binidito Santo", o São Benedito (*).

A comemoração se realiza desde o ano de 2001 e conta com a participação das folias de São Sebastião e congados, além do levantamento de mastros. 

A comunidade local é um importante centro de promoção dos valores da conscientização contra o racismo e a discriminação. O movimento de inculturação afro-brasileira local é bastante significativa. No cartaz abaixo anexado como fotografia pode-se avaliar maiores detalhes do evento. 


Cartaz em papel-couché, 40 x 60cm. 

Notas e Créditos

* As expressões entre aspas são habituais nos versos de folia e congado na região das Vertentes para se referir a estes santos.
** Texto: Ulisses Passarelli
*** Leia também: OUTRAS DEVOÇÕES E FESTAS 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

São Sebastião: mártir, guerreiro e taumaturgo

Quantos e quantos nesse imenso país se chamam SEBASTIÃO, porque a mãe ou ou pai quis homenagear o querido santo de ontem? O mártir glorioso, membro do exército romano no tempo de Diocleciano, que ousou desafiar a fé politeísta por um único Deus e Salvador é festejado a 20 de janeiro. A colonização portuguesa plantou no Brasil a devoção fortíssima a esse querido protetor que se enraizou na zona rural com muito vigor e também na urbana, afamado, aclamado e invocado como protetor contra os males da peste, fome e guerra. 

Nas Vertentes, região de colonização tricentenária, a fé depositada neste santo é considerável e ainda hoje suas festas são concorridas e muito animadas, com celebrações acompanhadas por multidões de devotos, grandiosas procissões e movimento de largo, com as tradicionais barraquinhas. É tradicional a presença de uma banda de música e de uma folia de São Sebastião

A imagem de São Sebastião, em tocante martírio, comove a devoção popular. Não obstante o sofrimento, o rosto estampado reflete serenidade e esperança. É o santo capaz de prevenir a devastação dos campos de cultivo (o que geraria a fome), de guardar das doenças que grassam a humanidade, de proteger das guerras que ceifam vidas...  Militar, guerreiro e cristão, atado numa árvore na mata, junto às forças da natureza, inspirou o devocionário do povo e o sincretismo religioso com o orixá Oxóssi.   

No reflexo de tais atributos e peculiaridades, irradiou-se toda a tradição acerca deste milagroso santo, um dos mais populares do catolicismo. Doar um porquinho, bezerro ou frango, ou mantimentos, cereais, para seu leilão, segundo a crença popular, livra o sitiante de todo prejuízo e garante a saúde do rebanho, a boa safra e a fartura da mesa. Uma fita ou flor de sua bandeira de folia, se doada a um devoto pelo folião, é guardada carinhosamente por tempo ilimitado, pois carrega em si uma bênção perene. 

A todos que se identificam com esta devoção tão marcante, fica dedicada esta humilde postagem, que se cala ante as fotografias abaixo, bem mais eloquentes.  

1- Devoto em São Sebastião da Vitória (São João del-Rei/MG), 2014.

2- Bandeira e bandeireiro da folia das Águas Santas (Tiradentes/MG), jan.1995.

3- Entremeada aos congadeiros na Procissão do Rosário, uma devota conduz respeitosamente
a imagem de São Sebastião. Restinga do Meio (Ritápolis/MG). Set.1996.
4- Procissão de São Sebastião, Santa Cruz de Minas/MG, 20/01/2015.

5- Uma oferta à bandeira da Folia do Sr. João Matias, na Festa de São Sebastião,
diante da Catedral Basílica de N.S.do Pilar, em São João del-Rei. 20/01/2014. 

6- A Folia "Embaixada Santa", do Bairro Araçá, São João del-Rei, agradece
o alimento que recebeu durante a Festa de São Sebastião em Santa Cruz de Minas. 20/01/2013.
7- Folia de Coqueiros (Nazareno/MG), durante o XV Encontro de Folias de Reis
de Mercês de Água Limpa (São Tiago/MG). Na camisa dos participantes vem escrito
"Vai da boa vontade". 26/01/2014. 

8- Folia de São Sebastião da Vitória (São João del-Rei), durante o XV Encontro de Folias de Reis
de Mercês de Água Limpa (São Tiago/MG). 26/01/2014. 

* Texto: Ulisses Passarelli
** Fotos: 1-3, Ulisses Passarelli; 4-8, Iago C.S. Passarelli

quinta-feira, 27 de março de 2014

Um hino para São Sebastião

Para esta postagem foi selecionado um interessante exemplar de um hino da cultura popular consagrado a São Sebastião, informado como uma peça cantada por folia. Não obstante algumas possíveis alterações geradas pela transmissão oral ao longo dos anos, a estrutura geral está preservada, dando legitimidade à composição. 
Mestre João Matias com a bandeira da
Folia de São Sebastião. São João del-Rei.

São Sebastião é um santo
é da beira do mar,
nos livre meu santo,
de todo mal do ar.

Mártir São Sebastião
é um santo dessa terra,
nos livre meu santo,
de todo mal de guerra.

Mártir São Sebastião
é um santo dessa luz,
nos livre meu santo,
de todo mal de Jesus.

Mártir São Sebastião
é um santo dessa hora,
nos livre meu santo,
de todo mal de aurora.




São Sebastião é um santo
e com o poder de São Raimundo,
nos dê felicidade 
e tira os mal do mundo. 

Meu São Sebastião 
da beira do mar,
com a língua cortada
com a sua espada, 
vem me ajudar!

Notas e Créditos

* Informante: Elvira Andrade de Salles, Santa Cruz de Minas, 1995
** Fotografia: Iago C.S. Passarelli, 20/01/2014.
*** Texto e acervo: Ulisses Passarelli

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Festa de São Sebastião: São João del-Rei

Alguns aspectos do último dia do festejo do Santo Mártir Guerreiro, o querido e glorioso São Sebastião, na Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar em São João del-Rei, neste dia 20 de janeiro de 2014. 

1- Banda Theodoro de Faria diante da catedral em festa.

2- A tricentenária imagem de São Sebastião em seu andor. 

3- Diante do casario histórico passa a procissão com suas lanternas e irmandades. 
4- O pálio com a relíquia sagrada.



5- Folia de São Sebastião do Mestre João Matias, do Bairro Guarda-mor. 

6- Fiéis acompanham atentamente a cantoria folieira. 

* Obs.: Para saber mais detalhes vide: São João del-Rei está em festa. Viva São Sebastião!   
** Texto: Ulisses Passarelli
*** Fotos: 3 e 6, Ulisses Passarelli; demais, Iago C.S. Passarelli, 20/01/2014. 
**** Notícias do ano de 1902 indicam que nessa festa naquele na Igreja do Pilar, tocou a Orquestra Ribeiro Bastos e a "banda do 28, graciosamente cedida pelo sr. coronel commandante" (Fonte: jornal O Combate, n.143, 22/01/1902, site da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida, São João del-Rei)

domingo, 12 de janeiro de 2014

Está chegando a festa de São Sebastião

Ainda hoje se realizam na Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, em São João del-Rei, os festejos de São Sebastião. É uma festa muito tradicional com novena, celebrações e procissão no dia maior. Terão começo amanhã as novenas do glorioso Martyr S. Sebastião cujas festividades se realisarão com toda pompa no dia 20 do corrente”, anunciava há um século o jornal são-joanense O Zuavo

Um aspecto cultural típico é dado pela folia de São Sebastião do mestre "João Matias" (João Batista do Nascimento), do Bairro Guarda-mor [1], que comparece, desde alguns anos, cantando nos intervalos da banda de música durante a procissão. Sobre a antiguidade desta comemoração na cidade, na fonte bibliográfica da própria catedral consta que vem desde 1719, por então determinação do Senado da Câmara. A imagem é ainda supostamente mais antiga, pois diz a tradição oral, que foi resgatada da capelinha incendiada durante a Guerra dos Emboabas (1707-1709). As músicas tocadas pela bicentenária Orquestra Lira Sanjoanense no evento revelam a capacidade extraordinária de nossos compositores sacros e músicos. [2]

Em outros pontos do município este santo também é festejado, na zona urbana, a exemplo da Capela do Bonfim, ou rural, tal como nos distritos são-joanenses de Emboabas e São Gonçalo do Amarante.

Na Comunidade São Sebastião e São Benedito, na Avenida Santos Dumont, em Matosinhos, é festejado conjuntamente, mas em outra época, abril, em meio a um forte movimento de inculturação em prol do fim do racismo e discriminação, graças aos esforços locais do grupo "Quilombo São Benedito”, mantido pela comunidade negra local, que também mantém um grupo de congado (catupé). Na festa vão no dia maior, congados e folias, que participam da procissão.


Bandeireira com a guia do Santo Mártir Guerreiro, 
na dianteira folia do Bairro Guarda-mor, São João del-Rei. Anos 1990. 

É o padroeiro de São Sebastião da Vitória, distrito de São João del-Rei, onde a cultura popular se faz sentir sobretudo através do encontro de folias. Inicialmente só participavam as duas locais e a do povoado do Tijuco, meia légua dali rumo oeste, ainda no mesmo município. A partir de 2007 passam a ser convidados grupos de outras localidades.

Cartaz da Festa de São Sebastião, 43 x 30 cm, papel couché, policromado.
São Sebastião da Vitória (São João del-Rei/MG), 2014.

Possui grande festa em Santa Cruz de Minas, donde é padroeiro, com importante novenário e quermesse, com muita atividade religiosa. Todo ano folias de variados bairros de São João del-Rei vão visitar essa matriz e eventualmente ingressam na procissão. Em 2005 vieram do Bairro das Fábricas, do Bom Pastor e da cidade de Coronel Xavier Chaves. A folia local está desativada desde 2003. Também é frequente a folia de César de Pina (Tiradentes/MG) e eventualmente outras. 

São Sebastião no andor, com o tradicional ramo de oliveira
 em sua festa em Conceição da Barra de Minas, jan.1998.  

Suas festividades são também animadas e queridas em Conceição da Barra de Minas, onde a folia do sr. "Vicente Cristino" (Vicente Cirilo Ribeiro) garante a alegria e a musicalidade, sem faltarem os bastiões [3]. Também motiva festas em vários municípios vizinhos, revelando-se um santo de grande popularidade. Folias também se apresentam nessa festa no povoado da Restinga de Baixo, em Ritápolis, incluindo leilões, procissão, missa, enfim, muita tradicionalidade. 

Bastião ou palhaço da folia de Conceição da Barra de Minas revela em sua figura algumas tradições regionais acerca deste personagem: roupa vermelha, simples, de pouco ou nenhum babado ("farda lisa"), máscara de tela e o carregar ou dançar com a bandeira, cena inimaginável noutras paragens. Por aqui o palhaço não tem esta interdição e é o guardião da bandeira. Janeiro de 1998. 

Enfim, São Sebastião é um santo muito querido, festejado na zona urbana e rural, advogado contra a fome, a peste e a guerra, guardião dos rebanhos, protetor da fartura dos campos, também lembrado com carinho e respeito em vários terreiros de matriz religiosa africana, em sincretismo com o orixá Oxóssi, Senhor das Matas, chefe maior das falanges de caboclos, os espíritos de antigos indígenas, segundo crença umbandista. 

Referências Bibliográficas

Piedosas e solenes tradições de nossa terra. São João del-Rei, Paróquia da Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, v.2, 1997.

Referência Hemerográficas

O Zuavo, São João del-Rei, n.19, 10/01/1915.

                                                                         Créditos

Texto e fotografias: Ulisses Passarelli.

Notas

1- A partir de 2019, com o falecimento do Sr. João Matias no ano anterior, este grupo de folias está desativado e a procissão de São Sebastião na Catedral do Pilar não tem mais participação de nenhuma folia. 


3- Para saber mais a respeito das tradições populares envolvendo São Sebastião, leia neste blog:
Santo mártir está na terra 
Palhaços de Folias de Reis: ambiguidade e enigma - parte 1
Palhaços de Folias de Reis: ambiguidade e enigma - parte 2

4- Revisão: 09/04/2025 (com acréscimo de links no texto e informações pontuais).