Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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segunda-feira, 3 de abril de 2017

Mascar fumo; cheirar rapé: outras formas de tabagismo

Além do hábito de fumar, o tabagismo encontra outros desdobramentos menos comuns, que costumam gerar curiosidade em muitos, por causa da estranheza que impõe: a prática de mascar fumo e a de cheirar rapé. Ambas, em verdade, estão em ocaso ante a conscientização dos riscos à saúde, que as campanhas veiculam e por força das mudanças de costumes. Ao uso do tabaco este blog dedicou uma postagem. [1]

No passado era comum, sobretudo nas áreas rurais, algumas pessoas carregarem consigo um pedaço (“lasca”) de fumo de rolo e dele cortarem uma pequena porção e lançarem-no à boca. Por longo tempo põe-se a mastigá-lo, lentamente. De tanto em tanto cospem um bocado de saliva, saturada do caldo produzido. O hábito considerado repulsivo por muitos, aparenta origem indígena. Assim como o hábito de fumar, o de mascar também gera seu vício e os praticantes o fazem por muitos e muitos anos de sua vida. Estes garantem que traz benefícios aos dentes, afastando cáries, tanto mais ao intestino, por isentá-lo dos vermes. Portanto, sob este aspecto, é mais um remédio popular. A bem da verdade é um hábito em franco desaparecimento, que apenas sobrevive em lugares recônditos entre pessoas bastante idosas, conforme observação no Campo das Vertentes.

CASCUDO [s.d] dedicou um verbete ao assunto denotando sua origem tupi, difundida em formas e territórios diversos, mas apontou práticas semelhantes "pela Europa do norte, Inglaterra, Holanda". Fez sua aproximação desde a masca do fumo como também de outras folhas, até o atual chiclete. Citando o relato do Padre Antonil [2], atestou sua antiguidade entre nós: "homens há que parece não podem viver sem esse quinto elemento; cachimbando a qualquer hora em casa, e nos cachimbos, mascando as suas folhas, usando de torcidas, e enchendo os narizes deste pó." 

Já o cheirar rapé ainda se encontra, na cidade e nas roças. Também rareou seu uso mas em relação ao marcar fumo é nitidamente mais usado. Rapé é basicamente tabaco torrado reduzido a pó. É acondicionado em pequeninas latas com tampa, para se trazer na algibeira, no bolso da calça, camisa ou paletó. Outrora, quando era um hábito muito arraigado, traziam-no também em pequenas bolsas de couro ou tecido de trama bem fechada, que chamavam 'bocetas' (de bolseta, ou seja, pequena bolsa de guardar objetos, à semelhança de um porta-moedas ou porta-níquel).

O rapé é bastante utilizado nas práticas medicinais e ritualísticas de alguns grupamentos indígenas. Nas cidades, o rapé se adquire em tabacarias. Mas onde as lojas especializadas em artigos para fumantes não existem, o consumidor produz o seu próprio. O modo artesanal é o seguinte: pica-se o fumo de rolo em pedaços bem pequenos, que são a seguir levados a uma frigideira não untada. Ao fogo, o fumo deve ser mexido para não queimar. Deve ser torrado de maneira uniforme. Na sequência, o conteúdo da frigideira é despejado em superfície plana onde é moído por ação do movimento de vai-e-vem de uma garrafa deitada. A seguir o fumo já reduzido a pó é coado para remoção de grânulos maiores, que podem ser novamente submetido à moagem. A substância deve ser bem homogênea.

Cheira-se tomando um pequeno punhado entre a ponta dos dedos polegar e indicador e leva-se a uma narina, aspirando; depois igualmente na outra. Alguns usam tampar uma narina com um dedo enquanto se aspira com a outra. Cheiradores de rapé costumam compartilhar entre si provas de seu produto. Oferecem ao colega: “dá uma cheiradinha no meu rapé, compadre” ou “experimenta este rapé”. Faz parte, como um ritual de compartilhamento e muitos tem prazer nisto.

O rapé induz ao espirro. É muito comum que após cheirar o indivíduo se ponha a espirrar uma ou mais vezes; tanto mais, julga que é melhor o produto, pela qualidade do fumo empregado, mais forte ou mais fraco. Justamente ao espirro atribuem empiricamente o processo de limpeza corporal. Acreditam os usuários que o rapé desobstrui as vias respiratórias e contribui para expectoração.

São especialmente procurados os rapés que possuem acréscimo de certos pós adicionais, produzidos a partir de plantas de uso na medicina popular: umburana, cânfora, eucalipto. A estes dão maior valor como remédio, para combate a alergias respiratórias, rinite e sinusite. Eis a crença popular dos usuários. Para sinusite é especialmente procurado o rapé de girassol, que não leva tabaco. A semente do girassol deve ter a casca quebrada para extração do 'miolo (gérmen) e este é torrado e moído da mesma forma já descrita para o fumo.

Nunca é demais afirmar que este blog não recomenda nenhuma destas práticas pelos efeitos maléficos que o tabaco gera sobre a saúde humana e o vício que produz. Não há comprovação científica da eficácia medicinal do hábito de fumar, mascar fumo ou cheirar rapé, tão pouco dosagem segura para uso. O registro nesta página é de natureza exclusivamente etnográfica, pelo valor folclórico que traz em si.

Um punhado de rapé na latinha e uma lasca de fumo de rolo.
São João del-Rei/MG, 03/04/2017.
 

Referências

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d]. 930p.

Créditos

- Texto e fotografia: Ulisses Passarelli.
Notas 

[1] Leia a neste blog a respeito do fumo:
  FOLCLORE DO TABACO: as múltiplas faces do fumo na cultura popular 

[2] Padre Antonil: pseudônimo de André João Andreoni, jesuíta que publicou em 1711 a obra Cultura e Opulência do Brasil por suas drogas e minas

- Revisado em 10/02/2025.  

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Tradições acerca dos ciganos

Não obstante a característica vida em condição de seminomadismo e da vivência um tanto fechada ao grupo, ficaram algumas heranças culturais dos ciganos em nosso meio popular. Habitualmente não se usa apontar esta ou aquela herança cultural com sendo de influência cigana, como acontece com outras etnias. Suas características identitárias é que marcaram as impressões sociais a seu respeito.

Quando um acampamento cigano se estabelecia nas imediações de uma cidade, logo se via as mulheres com seus vestidos coloridos, longos e rodados com profusão de babados e rendas, a pele de bela cor morena, andarem em grupos pelas ruas convidando os transeuntes à leitura da mão; os homens pelas portas ofertando cordões dourados e tachos reluzentes. Os tachos de cobre dos ciganos gozam da reputação de serem os melhores, sendo por isto valorizados. Por esta qualidade são ambicionados para a produção caseira de doces. 

Outra vertente relevante é a ourivesaria. Faz parte da tradição cigana o habilidoso trabalho com correntes e pingentes, e ainda, o uso dos "dentes de ouro". É grande a procura por serviços de profissionais para aplicações de trabalhos protéticos em liga à base de ouro, sob a forma de coroas totais ou parciais, incrustações (inlay e onlay) e facetas, caracterizando no largo sorriso a ostentação de seu brilhante gosto pelo fulvo metal. 

Negócios de barganha e mesmo compra e venda de animais, sobretudo cavalos, é uma das peculiaridades que mais impregnaram a alma popular na caracterização do povo cigano. Criou-se então a imagem do negociante arguto, ativo, cuja esperteza sempre conflui para o lucro do cigano, embora na aparência a outra parte imagine ter lucrado. Esse dom do negócio, da lábia de convencer sobre qualidades de uma montaria que não chega a tanto, fixou-se na mentalidade popular. O povo então diz que "cigano dá manta", expressão que indica que dá prejuízo a quem negocia com ele, mas o sujeito sai pensando que foi bom negócio. Ninguém trapaceia cigano, diz o povo. Essa sagacidade e não propriamente desonestidade fixou-se noutra expressão popular de uso comum: para indicar que uma pessoa é muito esperta diz-se "fulano é um cigano...", mesmo não o sendo. Com igual sentido é a palavra "ciganagem" para indicar negócios confusos, múltiplos, com volta de uma compensação.

A padroeira do povo cigano é Santa Sara Kali. Sua vida é cercada de fatos lendários que a ligam de forma muito próxima ao círculo de parentes de Jesus ou a seus amigos próximos. Elementos espiritualistas intervieram em sua veneração, que assim passou a muitos devotos sem nenhuma ligação direta com os ciganos. Nesse processo de absorção desta devoção, a imagem da santa ganhou nos altares domésticos ou nos terreiros, oferendas tais como flores, frutas, taças de vinho branco, lenços coloridos e velas azuis que a ligam de imediato à imagem da água, com a qual teria grande força. Seus devotos a invocam principalmente no auxílio às questões amorosas e para fortalecer e trazer à tona a clarividência. 

Em algumas correntes doutrinárias de umbanda, uma das sete linhas é a Linha do Oriente. Os guias ciganos teriam um certo vínculo com esta linha por afinidade, sem serem a rigor membros dela. Fato é que constituem uma linha própria de trabalho que reúne os guias ciganos, espíritos de luz que trabalham na direita, com velas amarelas, ou na esquerda, com velas vermelhas. É um padrão genérico observado em São João del-Rei, mas sujeito a peculiaridades e variações doutrinárias conforme o terreiro ou corrente umbandista. Exemplos de alguns pontos difundidos, coligidos nesta cidade: 

"Ôh, Ciganinha,  ôh, Ciganinha
da sandália de pau;
quando ela chega no reino,
faz o bem, desmancha o mal...

Ôh, Ciganinha, puerê;
ôh, Ciganinha, puerá...
quando ela chega no reino,
faz o bem e corta o mal... "

Os pontos narram o poder dos ciganos: 

"Peguei meu facão dourado,
com o cigano eu fui brigar,
quando foi na sexta-feira
na calunga eu fui morar..." [1]

Os ciganos trabalham firme nos descarrego dos males: 

"Cigano dá, cigano tira, 
cigano leva, pras ondas do mar..."

A esperteza dos ciganos ficou consignada nestes versos de terreiro:

"Ganhei uma barraca velha
foi o cigano que me deu;
o que é meu, é do cigano, 
o que é do cigano, não é meu..."

Ficou evidente na tradição sobre os ciganos a grande habilidade em "ler a sorte", ou seja, prever o futuro, mormente a quiromancia e pela cartomancia, o que também passou ao universo do folclore. Nos cantares do povo, uma cantilena chorosa de congado, do notável Capitão José Camilo da Silva, no Bairro São Dimas, em São João del-Rei [2], marcou a habilidade de ler o futuro:

"A cigana leu minha sorte,
tô com sina de morrê...
coração dos outros bate,
só o meu não quer bater, ai, ai!"

O sofrimento desse povo, a poesia popular registrou assim, numa jomba moçambiqueira [3]: 

"A cigana chorou, 
chorou, chorou, chorou!
Sentada na beira do mar, 
chorou, chorou, chorou..."

Sobre suas andanças sem paradeiro fixo, uma narrativa popular busca explicação: Jesus andando no mundo, deparou certa vez com um cigano e pediu pouso. O cigano negou e disse-lhe:" _ Vá andando!" E Cristo exclamou: " _ Pois andando há de viver tu e toda a tua geração..." Por isso os ciganos são um povo nômade [4].

Por fim é mister recordar das ciganas como personagens humanas femininas do folguedo natalino das Pastorinhas, elementos típicos do catolicismo popular, interpretadas por meninas que em verdade não pertencem à etnia cigana. Trajam-se de vestido longo, estampado, de cores vivas, lenço à cabeça, no geral adornado por cordões dourados, batendo pandeiros pequenos e enfeitados de fitas coloridas. Usam sandálias ou tamancos. Os adereços incluem correntões, grandes brincos de argola e medalinhas pendentes no lenço sobre a testa. Cantam anunciando que vão à Belém louvar o Menino Deus, mas sem ter o que comer, pedem esmolas para o pão, estendendo pandeiro de bojo para cima, para ali depositar-se o óbolo. Ocorrência em São João del-Rei (Conjunto IAPI, Bairro das Fábricas, 1992) e Tiradentes (Bairro Vargem de Baixo, 1995; 1996; 1999). Em São João eram duas: uma representando a adulta e outra a Ciganinha; em Tiradentes, quatro.

Ciganas, personagens das Pastorinhas da Vargem de Baixo, Tiradentes.
Apresentação na Igreja da Santíssima Trindade, após a Missa de Natal.
Mestra: Ana de Meneses. Captura de imagem de vídeo de Ulisses Passarelli, 25/12/1995.

O canto das ciganas em São João del-Rei era: 

Refrão: (bisado)
"Ai, ai, ai, amor!
É dia, meu Senhor!
Está chegando a hora
do Divino Redentor!"

Estrofes: 
"Eu sou a cigana,
que vivo a esmolar,
peço uma caridade
pra meus filhos sustentar. 

Tomara que chova,
na cidade de Belém,
para plantar o trigo
e colhê-lo também.

Dai uma esmola
pelo amor de Deus,
que a pobre da cigana
ainda hoje não comeu...

Canta a Ciganinha:

"Seja ouro ou prata, 
seja prata ou cobre,
nós aceitamos tudo,
porque somos muito pobres..."

Cigana e Ciganinha: Pastorinhas, Conjunto IAPI, Bairro das Fábricas, São João del-Rei/MG,
se apresentando no interior da Capela de Nossa Senhora Aparecida da APAE, após a Missa de Natal. 
Print de vídeo de autoria desconhecida, 25/12/1992.


Em Tiradentes, no grupo da Vargem de Baixo:

Refrão: (bisado)
"Nos causa gosto, 
nos causa alegria, 
ver que é nascido 
Filho de Maria!"

Estrofes: (bisadas)
"Dai uma esmola
à pobre cigana, 
pois vós bem sabes
que ela não engana.

Eu peço uma esmola, 
pelo amor de Deus,
que a pobre cigana
hoje não comeu!

Eu peço ao senhor,
que dê-me um vintém,
que a pobre cigana
chegou de Belém!

Eu peço ao senhor,
que dê-me um tostão,
que a pobre cigana
hoje não tem pão!"

Personagem comum noutras versões do Brasil. Ocorrem em reisados congêneres, nos quais as ciganas folclóricas são as personagens centrais, como por exemplo, no Baile-pastoril das Ciganas. Essa presença reiseira representa um eco do passado, um esforço catequético simbolizado em personagens figurados. (PASSARELLI, 2022). 

Fica assim marcado neste post as tradições regionais que se construíram sobre os ciganos, impressões sentidas pela população que não é cigana, mas que no processo reinterpretação folclórica, criou uma série de tradições que aludem e rememoram os ciganos, senão mesmo e de alguma forma os homenageia, talvez por reconhecer o heroísmo de sua saga, a dor das perseguições e discriminações que já sofreram. 

Mulheres fantasiadas de ciganas no antigo carnaval de São João del-Rei.
Autor e data desconhecidos. Fonte: arquivo Secretaria Municipal de Cultura e Turismo. 

Referências 

PASSARELLI, Ulisses. Reisados Brasileiros: origem e tipologia. Tiradentes: Aquarius, 2022. 
Santa Sara Kali. In: Wikipédia, http://pt.wikipedia.org/wiki/Santa_Sara_Kali (acesso em 25/02/2015, 07h 55min)

Notas 

[1] No linguajar específico existe a "calunga-pequena" (campo santo) e a "calunga-grande" (mar). Calunga é pois o cemitério. O Capitão de Congado Luís Santana, de São João del-Rei, certa feita por mim interpelado porque o mar também era chamado de calunga, respondeu-me tristonho: "meu filho, quer cemitério maior que o mar?! Olha quanta gente afundou nos barcos e as caveiras estão lá no fundo... quanto escravo morreu sobre o mar nos navios negreiros... o mar é um cemitério, é calunga sim!"
[2] Coletado em 1994. Outros grupos da região também cantam esta quadra.
[3] Moçambiques de Perdões, Santo Antônio do Amparo, São João del-Rei, Ibituruna/MG. 
[4] Informante: Aluísio dos Santos, São João del-Rei, 1996.

- Sobre os ciganos ver como leitura indispensável:

DORNAS FILHO, João. Ciganos em Minas Gerais. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, Belo Horizonte, v.3, 1948.

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.]. 930p. Verbete: Ciganos.

- Revisão: 07/07/2025.
Créditos

-Texto e foto: Ulisses Passarelli. 

sábado, 8 de novembro de 2014

O folclore dos dentes - parte 5

Os dentes na medicina popular


Contra as patologias da boca o elemento popular se vale muitas vezes de práticas empíricas, passadas por gerações através da força da oralidade e da demonstração. O uso está sujeito ao regionalismo e pode-se arriscar, de certa forma, uma generalização de seu uso a nível cosmopolita. Não raro andam de braços dados com fórmulas religiosas, orações e benzeduras.

É mister enumerar algumas “vias de administração”, digamos assim, por analogia: chás, bochechos, gargarejos, aplicações de substâncias, sinapismos e emprego de sumos. As anotações procedem da região de São João del-Rei, salvo indicação em contrário.

- Chás:

Chama-se assim, no linguajar coloquial, ao produto da decocção de folhas, ramos, raízes, sementes, cascas e flores. Os “chás” são usadíssimos por seus efeitos medicamentosos esperados.

A decocção é uma técnica de preparo que consiste em se por a ferver geralmente em água os materiais básicos de que se quer extrair a parte solúvel, produzindo o chá. Ingerido por via oral, deve fazer efeito por via sistêmica, através da corrente sanguínea, até chegar ao local afetado, agindo de dentro para fora. São bebidos mornos ou frios.

A título de exemplo pode-se enumerar os chás de alho roxo, o de gengibre e o de trançagem (gênero Plantago, família Plantaginaceae) com raiz de salsa de tempero (gênero Petroselinum, família Apiaceae), ao qual se atribui valor anti-inflamatório. 

- Bochechos:

Técnica muito mais usada para os males orais que os chás. No geral se faz uma decocção e se bochecha com ela em vez de engolir, fazendo-o passar sob pressão por entre os dentes, banhando os tecidos da boca. A contração da musculatura impele o líquido e depois de algum tempo se cospe. A ação é portanto, local, tópica.

São usados tanto para dor dentária como para afecções das mucosas, tais como úlceras traumáticas, aftas, estomatites em geral. Gozam de popularidade na região de São João del-Rei os seguintes bochechos contra gengivites, estomatites, alveolites, periodontites, pericoronarites e ulcerações bucais: água extraída do tronco da bananeira; fervura de brotos de goiabeira; decocto de folhas de batata-doce; decocto de três a quatro plantas inteiras de língua de tucano (gênero Eryngium, família Apiaceae), bochechando-se morno, com uma pitada de sal de cozinha diluído.

No Rio Grande do Norte existe a prática de bochechos de água morna com vinagre, sal de cozinha (NaCl), alho e limão. Do mesmo estado, informes dão conta de alguns bochechos com substâncias puras, tais como água gelada, álcool etílico de uso doméstico (prática condenável, de alto risco) ou cachaça. O uso desta última parece ser generalizado no país, diga-se de passagem, não apenas como bochecho. 

- Gargarejos:

Equivalem aos bochechos, com a diferença de se fazer a solução passar abundantemente na orofaringe (garganta) em vez de se fazer apenas, ou de forma predominante, na cavidade bucal. Inclinando a cabeça para trás, a saída forçada de ar dos pulmões a propósito move o líquido em borbulhas.

Gargarejos (“gargulejos”, em corruptela) na verdade são usados para problemas de garganta como simples irritações resultantes de tosses, alergias e gripes, mas também nos casos amigdalite (muito procurada a já citada língua de tucano com sal) e faringites.

As anotações locais apontam para o uso da casca da romã (fruto da romanzeira, Punica granatum, Lythraceae) e das folhas da amora-branca (Rubus imperialis, Rosaceae). 

- Aplicação de substâncias:

Também é um uso tópico, mas se diferencia por ser bastante localizado, apenas sobre a área afetada. A literatura registra algumas substâncias curiosas neste mister.

O exemplo mais contundente que se pode citar nas Vertentes é o do cravo da Índia, mastigado pelo dente afetado, de tal forma que seu sumo escorra dentro da cavidade cariosa, o que seria capaz de aliviar a dor. Tal prática se vale na verdade do eugenol, um óleo presente no cravo, de largo uso odontológico e de conhecidos efeitos terapêuticos. A técnica de mordê-lo porém pode induzir queimaduras na mucosa devido à alta concentração.

Ainda mais uma vez confrontando com o Rio Grande do Norte, a sabedoria popular papa-jerimum ensina o uso da seiva leitosa do avelóes (dedo do cão) e da umburana, que parariam muito rápido com a dor de dentes se aplicadas sobre, pelo extraordinário poder que dizem ter de partir o dente ao meio ou fazê-lo em pedaços! Em absoluto, desaconselhamos tal prática. 

- Sinapismo:

O sinapismo é uma espécie de emplastro que se prende à pele por meio de um pano e que, à distância, teria o poder de agir sobre uma parte afetada do corpo.

Um exemplo: uma mistura de alho macerado com azeite de oliva é posta em contato com a pele do braço do mesmo lado do dente afetado. A seguir é coberta por algodão. Sobre o algodão vai casca de laranja. Segurando o conjunto, um pano envolve tudo e se ata por um nó.

Em São João del-Rei, uma senhora que usou tal sinapismo na adolescência, relatou que a dor de dente continuou mas passava despercebida porque a do braço foi pior, graças à grande ardência gerada na pele. 

- Emprego de sumos:

Certos vegetais são aplicados de forma natural, extraindo-lhe o sumo das folhas e raízes por maceração. Este produto é aplicado sobre a área: raiz de gengibre, folha de saião (Kalanchoe brasiliensis), folha de losna, folha de hortelã, folha de laranjeira.

Não se engole. Teriam valor também contra halitose, naturalmente pela aromatização.

* * *

Com esta postagem encerra-se a série “O folclore dos dentes”, adaptação de uma monografia empoeirada, esboçada em 1995, inicialmente datilografada, depois digitada e concluída em 1997. A essência etnográfica da pesquisa foi disponibilizada neste blog. Foram abolidos os elos entre capítulos, as considerações já superadas, as revisões bibliográficas e os elementos biológicos do dente.

Nesta unidade o foco da atenção recaiu sobre métodos da medicina caseira adotados para remediar problemas da saúde bucal. Todas as vezes que este blog aborda questões desta natureza, alerta, como agora reitera, que o registro é de natureza cultural e a prática é desaconselhada pelos eventuais riscos que pode trazer à saúde. O uso de substâncias vegetais como medicamento demanda pesquisa científica aprofundada.

Língua de tucano, São João del-Rei/MG. 

Créditos 

-Texto e fotografia: Ulisses Passarelli.

Notas 

- Leia também as postagens anteriores desta série:




- Revisão: 13/04/2026. 

terça-feira, 23 de setembro de 2014

O folclore dos dentes - parte 4


Os dentes na poesia popular

A música e o canto estão profundamente agregados à vida humana e o brasileiro não foge à Os povos formadores eram muito afeitos ao canto e à dança: "filho de raças cantadeiras e dançarinas o brasileiro, instintivamente, possui simpatias naturais para essa atividade inseparável de sua alegria. Canto e dança  são as expressões de sua alegria plena. É a forma de uma comunicação mais rápida, unânime e completa dentro do país." (CASCUDO, 1984).

De fato não seria compreensível que os dentes, que tanto significam no panorama da cultura popular, ficassem de fora da poesia cantada ou recitada no Brasil. Um estudo neste sentido nos estados revelaria precioso material folclórico.

Em virtude da imensidão que tal pesquisa representaria, não obstante sua relevância, ora limita-se esta página a expor uma pequena coleção de versos populares que recolhemos em São João del-Rei na década de 1990, salvo indicação em contrário. 

Figuram os dentes em peças soltas do cancioneiro folclórico: 

"Eu tô doente, morena!
Doente, eu tô, morena!
Com uma dor de dente, morena!
Vou no doutor, ôh!

Eu tô doente, morena!
Doente, eu tô, morena!
Com uma dor de dente, morena!
Tô! E tô! E tô!"

"Tô" é corruptela comum de "estou", por contração, assim como "doutor" é pronunciado "dotô". Correm variações destes versos. Algumas manifestações culturais de congado, do tipo catupé, os absorveram e assim, congadeiros de São João del-Rei e Santa Cruz de Minas os cantam. Ainda entre congados tem-se outros exemplos, mesmo nos catupés dessas cidades [1]

"Dentin' de ôro...
Dentin' de ôro, adornado de marfim!
Nêgo véio gosta de toco, 
morena gosta de mim, ai, ai!"

No congo do distrito de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno é corrente esta cantiga em ritmo de caixa corrida, uma homenagem ao reinado: 

"Ela é bonitinha,
ela é engraçadinha,
tem dentin' de ôro,
ô, senhora rainha!"

O uso do dente de ouro foi muito comum. Nos tempos idos era representativo de fartura, ostentação de posses. Depois, elemento estético, favorecido pela abundância em Minas Gerais e excelência do metal nobre para trabalhos protéticos. Coroas, facetas e incrustações usando o nobre metal marcaram época e se disseminaram. Alguns povos ciganos ainda o conservam o hábito de usar ouro nos dentes, a tal ponto de ser-lhes característico nesta região, daí, o povo dizer, que, quando alguém tem vários dentes com aplicação de ouro, "parece um cigano". Não é de espantar que o tema do dente de ouro marcasse a poesia folclórica. 

Houve mesmo um facínora dos sertões alcunhado "Dentinho de Ouro", de quem disse o folclorista que "não conheço versos narrando as aventuras dos criminosos do sul do país, um Dente de Ouro, com o romance de menotti Del Picchia (S. Paulo, 1923)" (CASCUDO, 1982, p.15); no entanto, dele colhemos fragmentos de um romance: duas quadras originárias de Bias Fortes, na Zona da Mata mineira, mas região de intercâmbio cultural com o Campo das Vertentes, dada a proximidade física. 

"Num sabe o que aconteceu,
lá na zona do sertão:
mataram Dentin' de Ôro,
era o rei dos valentão!

No dedo dele tinha
um anel tão grande!
Tinha um anel de ôro,
com duas pintas de sangue..."

Ainda mais um exemplo, como uma quadrinha de amor procedente do Elvas (Tiradentes/MG) [2]

"Você está rindo pra mim
vi seus dentes lumiar.
Os meus eram de ouro,
eu arranquei para te dar."

Nas brincadeiras infantis o dente também é lembrado, como neste terceto, uma estronice recitada ainda nos anos 1970:
,
"Vicente Cachorro-quente,
caiu na enchente,
quebrou dois dentes!"

Os dentes deixaram uma forte influência na criação cultural do povo. Em muitas direções pode ser rastreada, com contribuições em todos os estados da federação. Nessa região, de velha colonização desde o ciclo do ouro pela força bandeirante e emboaba, não poderia ficar de fora. Na próxima parte do "Folclore dos Dentes" serão abordadas as ações curativas sobre as afecções dentárias. 

Incrustação em ouro entre os incisivos centrais.
São João del-Rei/MG. 

Referências

CASCUDO, Luís da Câmara. Flor de romances trágicos. 2.ed. Natal: Fund. José Augusto; Rio de Janeiro: Ed. Cátedra, 1982.189p.

CASCUDO, Luís da Câmara. Literatura Oral no Brasil. 3.ed. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Ed.USP, 1984. 435p. p.37. 

Créditos

-Texto: Ulisses Passarelli
- Fotografia: Iago C.S. Passarelli, 2014

Notas 

[1] Esta quadra do "dentinho de ouro" tem esta variante como trova, informada em Santa Cruz de Minas, pela Sra. Elvira Andrade de Salles (c.1997):

"Tenho o meu dentin' de ôro,
adornado de marfim;
os moço nasceu pras moça, 
as moça nasceu pra mim."

[2] Gentilmente cedida por Luthéro Castorino da Silva, de São João del-Rei, a quem o Blog agradece.
 
- Revisão: 17/01/2026.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

O folclore dos dentes - parte 3

Vocabulário popular da odontologia

O universo popular da cultura informal, do linguajar diário, criou um vasto vocabulário em torno da dentição e de certas práticas clínicas odontológicas. Ele mostra um modo muito especial de visualizar as relações de saúde do homem com respeito aos dentes, constituindo uma curiosa forma de nomenclatura, algumas vezes extensiva até a quem trabalha na área. 

Não é nada técnico, oficial nem científico, tampouco desrespeitoso. É folclore, vivo e alegre, perspicaz nas observações, registrando ora com humor ora com uma pitada de sofrimento a realidade do problema da saúde bucal, que em parte ainda atinge lamentavelmente uma parcela significativa do país. 

Os termos foram recolhidos por longos anos de vivência clínica em São João del-Rei e Santa Cruz de Minas. Foram preservados de maneira anônima em velha anotação de pesquisa. 

Guia de tentos e dentes. São João del-Rei, 2007. 

Banguela (o) – desdentado, total ou parcial. Termo pejorativo que remete aos benguelas, etnia africana, bantos de Angola escravizados no Brasil. Tinham o costume de limar os dentes gradativamente desde muito cedo, de tal forma que em idade avançada eram minúsculos, por questões que consideravam estéticas e talvez rituais. Por analogia, quem tinha dentes pequenos ou faltantes eram equiparados aos benguelas. Eram embarcados ao Brasil pelos traficantes de escravos no porto de São Filipe de Benguela, possessão portuguesa em Angola. 

Beque – sorriso falho quando só aparecem os caninos (ou algum pré-molar), quando os incisivos já foram extraídos. Termo absorvido do futebol. 

Bloco – coroa total metálica.

Boca de latrina – expressão pejorativa: sujeito acometido por intensa halitose.

Boqueira – queilite angular. Lesão nas comissuras labiais (ângulos da boca) associada à perda da dimensão vertical e infecção fúngica.

Boticão – “buticão”, fórceps. Instrumento usado para extrair dentes.

Cabresto – mentoneira, aparelho usado em ortodontia e ortopedia funcional dos maxilares. Analogia ao equipamento de couro e metal usado na cabeça dos animais de carga e montaria.

Caco – foco residual ou resto radicular. Remanescente dental inaproveitável, extremamente destruído pela cárie e doença periodontal.

Chapa – 1- Dentadura. 2- Radiografia. “Bater uma chapa” (radiografar).

Chumbinho – amálgama.

Cobra caolha – amálgama aplicado numa única fóssula oclusal de pré-molar inferior. Ver: olho de cobra.

Cocada – prótese total removível ainda em confecção, na fase de prova dos dentes em cera. 

Curativo – capeamento pulpar; restauração provisória. 

Dentadura – Prótese total removível. Denominação consagrada pelo uso, inclusive no linguajar profissional.

Dentão – dente excepcionalmente grande; caso de macrodontia.

Dente crescido – caso de pericementite: inflamação aguda no periodonto, ao redor do cemento, causando incômoda e dolorosa sensação de extrusão dentária.

Dente da frente – incisivo.

Dente de cavalo – dente anterior grande e de ângulos nítidos; incisivo proeminente.

Dente de leite – dente decíduo. Denominação consagrada pelo uso, inclusive no linguajar profissional. Sua tonalidade muito branca lembra a do leite[1].

Dente de mandioca – dentes anteriores superiores muito brancos, grandes, de tamanho e forma muito parecidos, com pouca distinção morfológica entre incisivos centrais e laterais [2].

Dente de traíra – dente afiado, pontiagudo, como do peixe traíra (gênero Hoplias, família erythrinidae).

Dente do juízo – terceiro molar.

Dente do siso – ou apenas, “siso”; terceiro molar. Denominação consagrada pelo uso, inclusive no linguajar profissional. O mesmo que “dente do juízo”, nome dado devido ao período que estes dentes erupcionam (“nascem”), em torno de 18-21 anos de idade em média, quando o jovem atinge a maioridade [3].

Dente inflamado – literalmente, dente acometido por pulpite. O povo adota este conceito por extensão para outras situações clínicas dolorosas, tais como: pericementite, abscessos (crônicos ou agudos) e osteíte.

Dente mole – elemento dentário com mobilidade, gerada pela perda patológica de implantação óssea.

Dente podre – dente extensamente destruído por lesão cariosa. Geralmente é resultado de uma cárie aguda e, por vezes, rampante.

Dentucinho – 1- criança com dentição mista (“fase do patinho feio”), na qual os dentes permanentes parecem ser grandes em relação ao tamanho da face infantil, ainda em crescimento. Dentes com diastema (afastamento com falta de ponto de contato entre elementos contíguos). 2- diminutivo de dentuço.

Dentuço – pessoa com os dentes anteriores grandes. Dentudo. É sempre de uso zombeteiro, especialmente aplicado aos portadores de protrusão maxilar.

Distraí – corruptela comum de extrair. Exodontia, avulsão cirúrgica.

Dor de dente – odontalgia. Diz-se dos sintomas de pulpites e lesões ósseas periapicais (junto ao ápice da raiz dentária).

Estrelinha – amálgama, para as crianças.

Goleiro - incisivo inferior remanescente. 

Heróis da resistência – últimos dentes remanescentes em uma boca edêntula em sua quase totalidade. Não raro restam apenas os dentes anteriores inferiores.

Limpa-trilho – diz-se quando os incisivos mediais superiores são muito protrusos. Analogia à forte peça de ferro que os trens a vapor antigos, as maria-fumaça, tem na frente, a fim de tirar objetos dos trilhos, para evitar acidentes por descarrilamento da locomotiva.

Limpeza – procedimento de profilaxia dental: raspagem de cálculos, remoção de manchas, polimento dentário – indistintamente.

Marfim – 1- esmalte dentário. 2- resina de uso odontológico estético.

Massinha – cimento de óxido de zinco e eugenol usado em restaurações provisórias e capeamentos (diretos e indiretos).

Mata-cobra – articulador de garfo ou charneira, usado para montagem de modelos de gesso em laboratório.

Mau hálito – halitose.

Nervo do dente – a polpa dentária e não especificamente as suas terminações nervosas.

Obturar – de forma indevida é sinônimo de restaurar. Obturar é tampar, fechar. Restaurar é restituir forma, função e estética.

Olho de cobra - amálgama aplicado nas duas fóssulas oclusais de pré-molar inferior. Ver: cobra caolha.

Panela – os molares. Também se diz das amplas cavidades cariosas que acometem estes dentes.

Pé do dente – região cervical da coroa (próximo à gengiva) e colo do dente. É comum o paciente queixar-se da dor nesta área nos casos de recessão gengival e abrasão local do tecido dentário.

Perereca – prótese parcial removível muco-suportada, sem grampos fundidos e eventualmente com grampos improvisados com fios ortodônticos. Pelo suporte deficiente, “salta” da boca, daí “perereca” - o que pula.

Pilão – molar. O termo se aproxima da etimologia inicial, pois que, molar vem de , a pedra de moer, donde surgem as palavras moinho, moagem, moleiro, moenda. Pilão é o artefato de rocha ou madeira, usado primitivamente para moer, por vias manuais e não por mecanismo mecânico. O molar é o dente responsável pela moagem do alimento.

Piorréia – “periodontose”; periodontite avançada. Lesão do periodonto quando o dente já apresenta franca mobilidade, muito tártaro, sangramento gengival, tecido de granulação, alteração das características anatômicas da região peridental.

Pivô  - pivot, coroa com espiga. Coroa unitária com pino intracanal integrado à própria coroa, cimentado em conjunto. Em grande parte substituído pelo sistema de núcleo metálico fundido cimentado antes da coroa propriamente dita, num sistema mais eficiente.

Platina – amálgama. O povo supõe que o amálgama seja feito por platina, talvez porque no passado sua liga recebia pequenos percentuais deste metal raro e precioso.

Presa – canino. Terceiro dente da bateria anterior, imediatamente após os incisivos.

Quisto – cisto.

Rancá – extrair dente; exodontia.

Ratinho – pessoa com dentes semelhantes aos de um rato. Se o dente é pequeno dizem “ratinho”, se grande e protruso, “ratão”.

Rôti – Roach, PPR (prótese parcial removível), sistema a grampos fundidos, geralmente em liga de cromo-cobalto.

Sapinho – candidíase oral, principalmente em crianças. Lesão esbranquiçada e sangrante, causada pela infecção fúngica por Candida albicans.

Sorriso cento e um – diz-se que alguém tem este sorriso quando falta um único incisivo na bateria anterior. É uma aproximação bem humorada com a matemática: 101 é formado pelos algarismos um, zero e um; como na boca – um dente, sem dente, outro dente ...

Sorriso de piano – arco dentário com elementos de tamanho e forma próximas, tendo o aspecto nitidamente quadrilátero. A monotonia da composição gerou a analogia com o teclado de um piano.

Sorriso mil e um – faz-se pelo mesmo princípio do cento e um, porém quando faltam dois incisivos vizinhos um do outro.

 Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografia: Iago C.S. Passarelli, 2014.  

Notas 

- Revisão: 31/12/2025.
- Leia também:

O folclore dos dentes - parte 1
O folclore dos dentes - parte 2



[1] - Na gíria futebolística, sobretudo no futebol informal, infanto-juvenil, “dente de leite” é o jogador muito ruim, que é posto em campo só para complementar o número regimental de jogadores, sendo excluído das jogadas importantes.
[2] - As crianças de São João del-Rei costumam brincar com a casca da mandioca (Manihot utilissima, euforbiaceae), utilizando a parte interna (muito branca), cortada à faca pelas bordas, onde se faz entalhes que imitam dentes pela forma. Curvam em forma de arco dentário e alojam esta “dentadura de mandioca” no vestíbulo bucal, mantendo-a presa pela musculatura do lábio superior e bochechas.
[3] - No interior potiguar, em 1996, em Santo Antônio (do Salto da Onça) e Caicó (nas comunidades rurais de Laginhas e Sabugi), o terceiro molar é chamado de "quexá" ou “dente quêro”. 

quarta-feira, 11 de junho de 2014

O folclore dos dentes - parte 2

Troca da dentição

A substituição dos dentes decíduos (dentes de leite) pelos permanentes é uma fase natural do desenvolvimento da dentição humana, que merece muita atenção da população. Há mães que pegam os dentes de leite de seus filhos e encastoam em metal para confecção de pingentes, presos por correntinhas ao pescoço à guisa de amuleto ou mera lembrança da infância. 

Outras tratam a troca de dentição com um ritual de arremesso. Consiste em pegar o dente decíduo extraído ou naturalmente esfoliado e jogá-lo sobre o telhado da casa, com o cuidado fundamental de atirá-lo por sobre o ombro, sem olhar para trás, para não ver onde cairá. No ato do arremesso enuncia-se em voz alta uma fórmula versificada, que em folclorística classifica-se como um ensalmo. Um dos mais difundidos no Brasil é o seguinte: 

"Mourão, mourão:
toma teu dente podre,
dê cá o meu são."

Há muitas variações destes versos. Na visão popular o ritual garante a erupção de um dente permanente sadio. Câmara Cascudo diz que "a tradição nos veio de Portugal, onde existe, com muitas variantes na fórmula, mas imutável no sentido." Forneceu a bibliografia portuguesa sobre o assunto. Eduardo Campos transcreveu exemplos portugueses deste ensalmo: 

"Telhado, telhadão:
toma lá meu dente podre
e dê cá o meu são."
(Alentejo)

"Palheirinha, palheirão:
tome lá este dente podre
e dê cá um são."
(Vale-do-Lobo e Idanha-a-Nova)

"Cinza, cinzão:
toma lá este dente podre
dá cá um são."
(Castelo Branco)

Há notícias de tal costume no Brasil já no século XIX [1]. Das coletas em pesquisa de campo, vale referenciar Pouso Alegre, no sul de Minas Gerais, com esta versão (1988): 

"Andorinha, andorinhão:
toma lá este dente podre
e me dá um dente são."

Em Santa Cruz de Minas, no centro-sul do Estado (1994):

"Telhado, telhado: 
toma meu dente podre,
me dá um dente são."

Em São João del-Rei, igualmente, ou sob a forma variante, "Telhadinho, telhadão"

Ainda em Santa Cruz de Minas um outro ensalmo foi colhido, mas com um rito que se distingue dos demais de arremesso, pelo detalhe de o dente de leite arrancado ser introduzido em um pedaço de pão ou de angu e assim ofertado a um cachorro, que o devora, sob o recitativo da seguinte fórmula:

"Cão, cão:
toma este dente podre,
me dá um dente são." 

Analisando a tradição, Luís da Câmara Cascudo esclareceu que o cuidado de não olhar para trás é um vestígio cerimonial das iniciações gregas. Mostrou sua difusão e completou que neste processo de transferência de moléstia ao dente de leite, não se deve olhar onde o mesmo caiu, sob pena de nascer outro defeituoso, pois há crença de que a desobediência a este preceito "reconduz os poderes maléficos quem pretendera abandonar". Lembrou ainda sobre a citação ao mourão numa das fórmulas: "Mourão é a pedra que divide do lume a pilheira, onde estão as cinzas. Prende-se ao culto larário e à sugestão de objetos sólidos, compactos, inabaláveis."

Dentro desta linha de pensamento, por analogias e associações, quem carrega consigo uma semente de mucunã ou olho de boi (Mucuna urens), terá boa dentição, porque a semente é rija. Um dente de jacaré, a pinça de um pitu, o ferrão de uma aranha-caranguejeira ou um dente de cachorro levados dentro de saquinhos pendurados ao pescoço ou presos a cordões, colares de caroços de azeitona, possibilitam a quem os carrega ter dentes fortes, duros, bem brancos e assim dão para as crianças levarem, para os novos dentes saírem sadios. Em São João del-Rei a receita prevista é carregar uma fava de Santo Inácio, assim denominada a semente do guapuruvu (Schizolobium parahyba), 

Dentes no cocar de um congadeiro da guarda de caboclos "Divino Espírito Santo",
do Bairro Nova Cintra, Belo Horizonte/MG. 

Referências 

CAMPOS, Eduardo. Folclore do Nordeste. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1960. 183.p.

CASCUDO, Luís da Câmara. Meleagro: pesquisa do catimbó e notas de magia branca no Brasil. 2.ed. Rio de Janeiro: Agir, 1978. 208p.

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d]. 930p.

PAIVA, Melquíades Pinto, CAMPOS, Eduardo. Fauna do Nordeste do Brasil: conhecimento científico e popular. Fortaleza: Banco do Nordeste, 1995. 274p. 

STUDART, Guilherme.  Usos e superstições. In: SERAINE, Florival. Antologia do Folclore Cearense. 2.ed. Fortaleza: UFC, 1983. 356p. 

 Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografia: Iago C.S. Passarelli, 27/04/2014. 

Notas 

- Anotado no Pará em 1889. Conferir em: NERY, Frederico José de Sant'Anna. Folclore Brasileiro. 2.ed. Recife: FUNDAJ/Massangana, 1992. 235p.il. p.72. 

- Revisão: 27/12/2025. 

terça-feira, 15 de abril de 2014

O folclore dos dentes - parte 1

Odontologia Mística - levantamento bibliográfico e notas de campo

"A velha tapanhumas escutou a voz do filho no longe cinzado e se espantou. Macunaíma apareceu de cara amarrada e falou pra ela: 
_ Mãe, sonhei que caiu meu dente.
_ Isso é morte de parente, comentou a velha.
_ Bem que sei. A senhora vive mais um sol só."
(Mário de Andrade, Macunaíma: o herói sem nenhum caráter)

Guia de dentes no capitão de congado Luís Bento Silva.
Guarda de Marujos N.S. do Rosário e Sta.Efigênia, Congonhas/MG, 01/11/1998.

A religiosidade popular e a mística fazem parte da vida diária das ações humanas, das profissões e até da lúdica, de boa parte da população, notadamente das comunidades socialmente mais sacrificadas... Frei Francisco van der Poel demonstrou bem o quão arraigado está a religiosidade na vida do povo, dizendo-a "a riqueza dos pobres" (POEL, 1998). 

Os dentes não escaparam desta realidade. Com efeito a "odontologia" popular não está isenta de influências desta natureza. Os dentes, sobretudo, são os maiores merecedores de rezas e benzeções dirigidas à boca. Correm crenças, fazem simpatias. O próprio elemento dentário, creem, tem, energias protetoras místicas e é usado como amuleto. Sonhar com dente é indício frequente de mal agouro. A epígrafe deste texto, embora de origem literária, é baseada em crença vigente, que a genialidade de Mário de Andrade soube aproveitar em sua rapsódia, onde também incluiu outra passagem inerente ao folclore da odontologia: Macunaíma gemia com as dores incômodas causadas pelo "sapinho" (candidíase), que afetara-lhe a boca, após envolver-se com três prostitutas. Curou-se porque seu irmão, Maanape, roubou a chave do sacrário e entregou-lhe para que a chupasse. 

Câmara Cascudo esclareceu sobre o uso da chave do sacrário nos rituais do catimbó (CASCUDO, 1978). Vale também a chave comum, devidamente preparada, simbolizando-a. É usada como amuleto. Em São João del-Rei o uso da chave do sacrário goza de grande prestígio, quando se consegue um sacristão amigo que a empresta por umas horas para compor rituais populares, para abrir caminho, fechar o corpo contra malefícios, curar sapinho passando-a em cruz sobre a boca. 

Em outra obra, o mesmo folclorista esclareceu que os dentes "são amuletos possuidores de potência mágica defensiva contra o maléfico, mau-olhado, maus ares" (CASCUDO, s/d). Os dentes aparecem com frequência entre os variados pingentes que compõe os balangandãs das baianas. Em 27 exemplares analisados, havia nada menos que 42 dentes nas pencas (LODY, 1988).

É muito comum o uso de um dente unitário (ou garra, com o mesmo objetivo) encastoado e preso a um cordão para se pendurar ao pescoço. A função estética _ o uso como adorno _ é secundária. O motivo primário, gerador do uso é a pretendida proteção contra males, aliada à garantia de uma dentição sólida. Se for dente de jacaré ou quelícera de aranha-caranguejeira, afasta a pessoa que o usa da ofensa por essas espécies, além de alcançar proteção contra a dor dentária (CASCUDO, 1978). É um amuleto

Em Santa Cruz de Minas (em 1994) observei um cordão que prendia medalhas de santos junto a um dente de anta. Usava-se para por ao pescoço durante as doenças debilitantes, que causam astenia, prostração, para dar forças, pois a anta (Tapirus terrestris) é um animal forte. É a presença da magia simpática

Na vizinha São João del-Rei os mandingueiros mais antigos e afamados punham um dente da serpente cascavel (exatamente a presa inoculadora de peçonha) trespassado na ponta de um bastão, por meio de orifício. Tal bastão, uma vez preparado em sessões rituais, passava a ter fortes poderes; tinha firmeza. O dente da cobra se tocasse alguém, mesmo que não furasse, gerava no local do toque, em pouco tempo, uma ferida incurável. Os velhos capitães de congados sabiam desses mistérios. Num caso desta natureza, o dente funciona como talismã

Carrancas e máscaras de palhaços de folias de reis ostentam grandes dentes escancarados, mecanismo de afastar o mal, indicando uma ferocidade de defesa maior que a do atacante. 

Dentes gigantes em máscaras de palhaços de folias de Reis. 
Encontro em Ribeirão Preto/SP, 2011. 

Mas existem também as enfiadas de dentes: vários exemplares trespassados em cordão compondo colares, rosários de dentes, como há os rosários de garras, com as mesmas funções. São as guias

O sonho com os dentes se reveste de importante simbolismo. Em São João del-Rei a crença geral é de que prediz aproximação da morte na família ou de parente ou amigo muito próximo, mormente se na imagem aparecem cariados, podres ou bambos (com mobilidade). 

Um manual nos ensina que o sonho quando mostra dentes apodrecidos é indicativo de enfermidade; dentes que caem, doença grave; que nascem, aumento na família; dente belos, prosperidade; sendo arrancados, pequenos prejuízos; sujos, boas notícias; postiços, perseguição de inimigo; de ouro ou chumbado, sorte no jogo. Sonhar que se consulta um dentista é traição; que se é um dentista, são questões por dinheiro; que se extrai um dente do sonhador, dificuldades (NEHUAY, s/d).

Os dentes surgem nos mitos e lendas. Quando alguém é perseguido pela bestial mula-sem-cabeça para se livrar de seu ataque deve esconder as unhas e os dentes para que a criatura fantástica não os veja (AZEVEDO, 1986).

Uma lenda etiológica sobre o tamanduá, justifica que este animal come formigas devido à falta de dentes. Quando os animais foram criados por Cadjurucré, com cinza da fogueira noturna, o criador formidável, já cansado de tanto fazer bichos, na derradeira noite de trabalho, criou o tamanduá. Quando ia terminá-lo veio a madrugada e a fogueira se apagou. Sem ter como terminá-lo, por não haver mais cinza, recorreu ao espírito para completá-lo, pois ainda faltava a língua e os dentes. O espírito pegou uma varinha fina, pôs na boca do bicho à guisa de língua e despachou-o, pois o dia vinha raiando. O tamanduá retrucou: _ mas que vou comer se não tenho dentes? O espírito respondeu-lhe: _ vais comer formigas! (PAIVA e CAMPOS, 1995). 

Reza-se contra dor de dentes. Nas rezas a padroeira dos dentistas e dos sofredores de odontalgias é lembrada: Santa Apolônia. Luís da Câmara Cascudo, citou uma oração desta natureza, de Augusto Severo/RN: 

"Estava senhora Santa Pelonha em sua cadeira de ouro sentada com a mão posta no queixo e passa Nosso Senhor Jesus Cristo. Perguntou: _ que dói, Pelonha? _ um dente, Senhor! _ pois, Pelonha, do sul ao norte, do nascente ao poente, ficará esta criatura livre e sã e salva de dor de dente, pontada, nevralgia, estalecido e força de sangue". (Completa-se com Pai Nosso e Ave Maria às Chagas de Cristo) (CASCUDO, 1978, p.157)

Também sob a forma de ensalmos clamam por Santa Apolônia, como estes exemplos que recolhi em Santa Cruz de Minas (maio/1998): 

Estava Santa Pelonha
sentada na pedra fria,
curando dor de dente
com uma ave-maria.

Encontrei Santa Pelonha
sentada na pedra fria,
que benza essa dor de dente
entre uma ave-maria. 

As lesões causadas por fungos chamadas candidíase, vulgarmente "sapinho", merecem atenção dos benzedores. Causam incômodos principalmente em crianças e na esperança de melhoras recorrem às benzeções. Em Passos/MG (jul./1997): "Jesus Cristo quando veio de Roma, o quê que trouxe de lá? Trouxe água da fonte e ramo do monte, que há de curar (fulano...) deste mal de sapinho."

Esta oração é polivalente. Serve para várias doenças que os benzedores sabem identificar, bastando substituir a palavra "sapinho" pelo nome do malefício: há de curar fulano deste mal de... simioto, espinhela caída, ar das vistas, quebrante, vento virado, lombriga assustada, nervo torto, veia magoada, carne ofendida, osso rendido, junta desconjuntada... 

Uma benzeção anotada em São João del-Rei (set./1998), diz:

"Quando Deus andava pelo mundo, encontrou São Pedro sentado na pedra se lastimando.
_ Que tens, Pedro, que tanto lastima assim?
_ Dor de dente, Senhor!
_ Se for pus, vaza; se for bicho, morra!"

Quando diz "vaza" o benzedor marca com a digital do polegar direito uma cruz sobre a pele em cima do dente afetado. Ao dizer, "morra", marca outra cruz, da mesma forma. Vaza e morra são pronunciados de forma enfática, imperativa. Repete-se três vezes a fórmula e por fim se completa com a prece de um Pai Nosso e uma Ave Maria.

Outra benzeção de Passos: 

Três e três, seis, e três nove.
Noves fora!
Assim como noves fora,
o sapinho da boca da criança
há-se sair fora!
Sai de três vez,
sai de seis, sai de nove
e sai de tudo de uma vez!

Nossa Senhora Aparecida:
assim como esse ramo seca, 
o sapinho da boca da criança há de secar!

O benzedor risca no ar cruzes sobre a boca da criança, usando de um pequeno ramo verde. O ramo é posto a secar no sol e ninguém deve tocá-lo além do benzedor, ou pegará a moléstia. Quando o vegetal secar o sapinho terá secado. Completa-se com uma oração de Pai Nosso e três Ave-Marias. É um exemplo de ensalmo numérico

Outra forma de curar o sapinho é passar a ponta do cabelo da madrinha três vezes na boca afetada (SELEÇÃO, 1995). Em São João del-Rei, segundo informação de 1996, a receita desta simpatia é passar a barra da saia da madrinha em vez do cabelo. 

No Rio Grande do Norte o costume é passar algodão no dente acometido por um mal e colocá-lo no oco de uma árvore. Vai-se embora do lugar sem olhar para trás. Quem pegar ou tocar pega o mal (CASCUDO, 1978). É o conhecido processo de transferência do mal, neste exemplo, uma moléstia, rito usadíssimo na medicina popular. 

A pena da asa do bacurau se esfrega contra o dente tira-lhe a dor (CASCUDO, s/d; ARAÚJO, 1981). Bacuraus são várias espécies de aves noturnas (ordem caprimulgiformes, família caprimulgidae), outrossim conhecidas por curiango, curumbamba, curibamba, noitibó e mede-léguas. 

O misticismo em torno dos dentes e a religiosidade que os cerca são pontos marcantes da cultura popular. Por diversas culturas se pode rastrear seus sinais. 

Referências 

ARAÚJO, Iaperi Soares de. A medicina popular. Natal: UFRN, 1981. 132p. 

AZEVEDO, Ricardo. Monstrengos de nossa terra: seleção de mitos populares. São Paulo: FTD, 1986. 

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d]. 930p.

CASCUDO, Luís da Câmara. Meleagro: pesquisa de catimbó e notas de magia branca no Brasil. 2.ed. Rio de Janeiro: Agir, 1978. 208p. 

LODY, Raul Giovanni. Pencas de balangandãs da Bahia: um estudo etnográfico das jóias-amuletos. Rio de Janeiro: FUNARTE/INF, 1988. 167p.il.

NEHUAY, Pandjah. Manual dos sonhos: interpretação dos sonhos conforme os mais célebres cabalitas antigos e modernos. 17ed. Rio de Janeiro: Espiritualista, [s.d]. 172p.

PAIVA, Melquíades Pinto, CAMPOS, Eduardo. Fauna do Nordeste do Brasil: conhecimento científico e popular. Fortaleza: Banco do Nordeste, 1995. 274p. p.215-6.

POEL, Francisco van der. Frei. Religiosidade popular: a riqueza dos pobres. Carranca, Belo Horizonte, Comissão Mineira de Folclore, n.34, p.5, jun./1998. 

SELEÇÃO das melhores rezas e simpatias que o povo escolheu. São Paulo: Thirê, 1995. 95p. p.69 e 71. 

Créditos

- Informantes: Santa Cruz de Minas: Elvira Andrade de Salles; Passos: Manoel Teodoro do Nascimento; São João del-Rei: Luís Santana.

-Texto e fotografias: Ulisses Passarelli.

Notas

- Agradecimentos e oferecimento: a Arthur Cláudio da Costa Moreira, pelo incentivo na retomada deste trabalho.

- Revisão: 28/12/2025.