Bem vindo!

Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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segunda-feira, 25 de maio de 2015

Procissão do Imperador Perpétuo 2015

Encerrou ontem o grande jubileu em honra ao Espírito Santo, a tão querida e concorrida Festa do Divino, cuja beleza e valor religioso nunca é demais exaltar. O Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em São João del-Rei, após os dias anteriores de novena, esteve lotado de fiéis nos dois últimos dias, favorecidos por um tempo aberto, embora frio. 

A Procissão do Imperador Perpétuo, no dia 23 do corrente, transcorreu bem na sua travessia pelo Centro Histórico, com certo atraso, verdade o seja, mas animadamente musicada pelas folias presentes, que ao longo de todo longo trajeto se alternaram na cantoria. Como de costume, o cavaleiro foi à frente em abre-alas, com o grande estandarte, ladeado pelos ponteiros, também a cavalo; na charrete veio o Mordomo da Bandeira, Sr. Mário Calçavara, folião respeitado e querido por todos. Muitas bandeiras vermelhas do Paráclito vieram na sequência, seguidas pelas folias, a corte, o Imperador Coroado, sob a umbela e guarnecidos pelos guarda-coroa de espadas em punho, e por fim, a liteira com Santo Antônio, trazida por soldados montanhistas do glorioso 11º B.I. 

O pároco de Matosinhos, ao centro da procissão, vinha com uma nova imagem do Divino em forma de custódia, abençoando os fiéis ao longo do caminho, com muito carisma. 

As casas em geral pelo itinerário foram receptivas, montando altares externos, enfeitando sacadas com toalhas e flores. Destaque para a comunidade da Gruta do Divino (onde aguardava a Folia do Carlão) e a de Santa Clara (onde ingressou o Imperador Eleito), bem como para a travessia Rua Bernardo Guimarães. 

A missa teve grande número de devotos e cada folia fez um canto da celebração.

Por fim, após um café com quitandas, as folias apresentaram-se no coreto para um excelente público. A apresentação contudo foi maculada por problemas de sonorização. 

Para registro segue o nome das folias do Divino presentes: folia das Águas Férreas, do folião Geraldo Elói; folia do Jardim São José ("Folia das Mulheres"), foliã "Lilia"; folia da Rua São João, folião Antônio Ventura (as três do Bairro Tijuco); folia do Guarda-mor, folião João Matias; folia da Colônia José Teodoro, folião "Carlão" (todas estas folias de São João del-Rei) e ainda, uma folia de São Sebastião, vinda de Coqueiros, distrito de Nazareno, do folião Celso Antônio da Silva, aliás, também presente no ano passado. 

O Imperador do Divino e o Pároco. 

Cavaleiros abrem alas. 


Aspecto geral da procissão. 


A cor de Pentecostes invade as ruas da cidade. 

Folia da Rua São João.

A tradicional Folia das Mulheres. 

Folia das Águas Férreas. 

Folia do Guarda-mor na Rua Getúlio Vargas,
primitiva Rua Direita. 

Folia de Coqueiros e ao fundo a Igreja do Rosário,
no centro histórico de São João del-Rei. 

Marungos da folia de Coqueiros. 

Folia da Colônia José Teodoro cantando durante a celebração
no Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos.

A liteira no Santuário. 

Apresentação no coreto.
Nesta fotografia, a Folia do Carlão. 

Café dos folieiros, no Salão da Catequese. 

Último devoto.

Créditos


- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotos: Iago C.S. Passarelli, 23/05/2015.

Notas 

- Revisão: 12/05/2025. 
- Para saber mais sobre esta festa leia também:

DIA MAIOR DO JUBILEU DO DIVINO 2015

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Santo Antônio... de Caltagirone ou de Noto?

Há uns quinhentos anos, nasceu em terras africanas um homem preto, filho de pais muçulmanos, cujo itinerário de vida o conduziu virtuosamente à santidade. O protagonista desta postagem nasceu na cidade de Barca, no nordeste da Líbia, na costa oriental daquele país, região chamada Cirenaica.

De espírito religioso, este islamita foi capturado, escravizado e forçado às galés da Sicília, na costa italiana. Foi vendido a um fazendeiro das imediações da cidade siciliana de Noto, na província de Siracusa. Nos dizeres de Antônio Gaio Sobrinho,

"arrematado por João Landávula, este, ao casaram-se-lhe as filhas, deu-o aos genros como parte do dote. Teve, então, o destino de cuidar dos rebanhos de seus novos senhores, como vaqueiro e retireiro. De boa índole, recebeu de bom grado os ensinamentos cristãos, abjurou o Islamismo e deixou-se batizar tomando o nome de Antônio, por homenagem a Santo Antônio de Lisboa". Devoto do rosário de Nossa Senhora, distinguiu-se pelas virtudes da temperança, penitência, docilidade e trabalho." (SOBRINHO, 1997). 

Consta pela mesma fonte, que era caridoso e dava leite das ovelhas de seu senhor aos pobres e que trabalhava na pastorícia sem reclamar de nada. 

Mais tarde foi alforriado e tornou-se franciscano, ingressando na Ordem dos Frades Seculares. Sem esquecer as orações, dedicou-se então à prática da caridade, dando assistências aos doentes. Por fim tornou-se eremita, em vida contemplativa no deserto. 

Festejado a 14 de março, este milagroso santo não teve o corpo corrompido. Ainda Antônio Gaio Sobrinho, disse: “muitas vezes era surpreendido em êxtase diante do altar, envolto de luz, com o corpo irradiando chamas (...) quando morreu, em 1549, os sinos de todas as igrejas de Noto, na Sicília, puseram-se a tocar sem ninguém que os tangesse.”

Ao que parece, salvo engano, ingressou no mosteiro da cidade siciliana de Caltagirone, na província de Catania. O nome desta cidade é motivo de muitas corruptelas na pronúncia do brasileiro: Calatagirona, Catagerona, Catalgerona, Catalagerona, Cartilagerona, Cartagerona, Catigerol, Catigeró, Categeró (talvez a mais comum), Catigerá, Catigeraba, Catiberá. 

Em razão do acima exposto este santo foi denominado Santo Antônio de Noto, em referência à cidade onde foi escravizado, ou Santo Antônio de Caltagirone, em referência à cidade onde ficava seu mosteiro, depois de alforriado. É ainda conhecido por "Santo Antônio de Cartago".

Paira, entretanto, uma nuvem sobre a sua identidade. O autor já citado nesta postagem acredita que Santo Antônio de Noto e de Caltagirone são dois diferentes e não o mesmo. Segundo Antônio Gaio Sobrinho, o de Noto faleceu em 1549 e o de Caltagirone em 1515. Entretanto, não encontramos base convincente para esta assertiva e por oras esta postagem considera que se trata do mesmo santo. Seria como o famoso Santo Antônio, o de 13 de junho, "o Casamenteiro", que se festeja com fogueiras votivas: Santo Antônio de Lisboa (onde nasceu, em Portugal) ou Santo Antônio de Pádua (onde morreu, na Itália). 

Sobre sua santidade, há estes relatos: 

"Antônio humilde, dizia que ele não passava de um simples escravo do Senhor Jesus, só Deus tem poder de curar. Impunha as mãos aos enfermos, rezava e Deus curava. Depois de sua morte continuou a fazer muitos milagres. Até hoje temos testemunhas de muitas pessoas que alcançaram grandes graças por intercessão de Santo Antônio de Categeró." (PARÓQUIA NOSSA SENHORA DA EXPECTAÇÃO, 2025).

"Os jesuítas difundiram a devoção a Santo Antônio de Categeró da Itália para o Brasil. Logo muitas igrejas foram dedicadas a ele, e mais de 60 imagens representavam este Santo Africano no final do período barroco. A primeira Fraternidade de Antônio Categeró foi fundada em 1592. No Brasil, Santo Antônio tornou-se um símbolo de conforto para os escravos trazidos da África." (MERICLE, 2025).

"Cinquenta anos após a morte do eremita, seu túmulo foi aberto, em 13 de abril de 1599. Para surpresa geral, seu corpo não havia se decomposto. Estava íntegro como no dia de seu sepultamento. Imediatamente a notícia se espalhou e se iniciaram as narrativas de inúmeros milagres ocorridos por sua intercessão. Uma imagem sua foi esculpida e, posteriormente, encaminhada a uma igreja em que se cultua sua devoção, na África. De lá, atravessou o Atlântico e hoje se encontra na igreja da Paróquia de Nossa Senhora da Anunciação, no bairro Riachuelo, no Rio de Janeiro.

(...)  

A notícia, há algumas décadas, de que Antônio de Categeró figurava na lista dos santos não reconhecidos pelo Vaticano não abalou a fé de seus devotos. Em São Paulo, a Igreja Católica Apostólica Brasileira o assumiu para si. Ergueu-se um templo em sua devoção na Rua Tauandê, Vila Formosa, no final da década de 1950. Em frente ao templo, foi construída uma “gruta dos milagres”. Em janeiro de 1968, uma longa reportagem da Folha de S. Paulo descrevia as peregrinações com números de fiéis que iam de 5 a 15 mil pessoas numa sessão de terça, sexta ou domingo. Hoje, ali também funciona a Casa do Bom Samaritano." (FAUSTINO, 2016)


Existe uma igreja que a ele era dedicada na capital fluminense, ora um templo da Igreja Ortodoxa Antioquiana sob outra dedicação: 

"Houve uma Igreja Santo Antônio de Categeró, no Rio de janeiro/RJ. Como diz na placa afixada: No dia 19 de abril de 1998, Santo Expedito passou a ser o Padroeiro desta paróquia.  E, provavelmente, nesta data também ocorreu a entrega do acervo de Santo Antônio de Categeró,  então existente, entregue na Igreja Nossa Senhora da Anunciação da Mãe de Deus, igreja existente neste mesmo bairro – a Penha." (REVISTA ELETRÔNICA ABC DA SEGURANÇA PÚBLICA, 2025)

Nos tempos do cativeiro, foi padroeiro dos escravizados, junto com Nossa Senhora do Rosário, Santa Efigênia, São Benedito e Santo Elesbão. Em São João del-Rei há uma significativa imagem sua na Igreja do Rosário, que o representa como um homem preto, com hábito de frade. Segura o Menino Jesus ao colo e traz um resplendor prateado à cabeça. 

É destaque também sua imagem na setecentista Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Tiradentes/MG. 

Na Festa do Rosário do Bairro São Geraldo, em São João del-Rei, os congados erguem-lhe um mastro votivo, em cujo extremo, um quadro emoldurado com a pintura de sua efígie, abençoa a praça em festa. Está entre os padroeiros dos congados, reconhecido por muitos capitães que rezam a ele, embora raramente lhe dirijam cantorias: 

“Me ajuda meu Sant’Antônio! 
Sant’Antônio de Catigerá! 
Êh ... Santo Antônio! 
Não me deixa a cangira virá!...” 
(Moçambique, Passa-Tempo / MG, 2001). 

Diz sua oração: 

“Oh, milagroso Santo Antônio de Categeró, / valei-me nesta hora de aflição! / Preciso da vossa ajuda para vencer as lutas do dia a dia / e as forças malignas que procuram tirar-me a paz. / Libertai-me das doenças e de todas as bactérias infecciosas / que querem contaminar o meu corpo colocando-me enfermidades. / Oh, Santo Antônio de Categeró, / estendei as vossas mãos agora mesmo sobre mim, / livrando-me dos desastres, da inveja e de todas as obras malignas. / Oh, Santo Antônio de Categeró, / iluminais os meus passos, a fim de que, / onde quer que eu vá, não encontre empecilhos, / e guiado pela vossa luz me desvie de todas armadilhas preparadas pelos meus adversários. / Oh, Santo Antônio de Categeró, / abençoai a milha família, / o meu pão e a minha casa, / cobrindo-nos com o véu da prosperidade, do amor, da saúde e da felicidade. / Por nosso Senhor Jesus Cristo, na unidade do Espírito Santo. Amém!” (c/aprovação eclesiástica). [1]

No contexto catequético do período escravocrata, o santo, ainda que não oficializado, servia de fonte de inspiração ao pretendido modelo de servidão mansa, sem reação, como um caminho de santidade. Não é pois de espantar sua popularização entre a população escravizada, forçada a absorver novas devoções que não faziam parte de seu panteão original. Isto era bem mais fácil por história, também africana, e pela relativa proximidade étnica. Neste cenário, o culto serviu ao domínio. Contudo, pós abolição, sem focar no aspecto histórico, a devoção se manteve, livremente, por devoção no âmbito da religiosidade popular, como um santo sintonizado com os valores da negritude. 

  
Mastro de "Santo Antônio de Categeró" no Bairro São Geraldo,
São João del-Rei, durante os festejos congadeiros em honra ao rosário. 18/09/2016.

Imagem de Santo Antônio de Caltagirone. Igreja do Rosário, São João del-Rei.
Acervo da Venerável Confraria de Nossa Senhora do Rosário. 11/12/2014.

Existe ainda uma discussão acerca da verdadeira existência deste santo, posta em dúvida por alguns. Há ainda que atribua a difusão de sua devoção a uma dissidência do catolicismo romano. Controvérsias à parte, o santo segue em seu prestígio, querido pelo povo.


Referências 

BETTENCOURT, Estêvão, Dom. Quem é Santo Antônio de Categeró.  Católicos on-line.
Disponível em: http://www.pr.gonet.biz/kb_read.php?num=751  Acesso em 11 dez. 2014

FAUSTINO, Oswaldo. O santo negro Antônio de Categeró. Revista Raça, 20 out. 2020. Disponível em: https://revistaraca.com.br/o-santo-negro-antonio-de-categero/  Acesso em 09 nov. 2025. 

MERICLE, Phillip. Santo Antônio de Cartago (Categeró): 14 de março. Santo do Dia. Disponível em: https://www.traditioninactiondobrasil.org/SOD/245_sd_Ant_Car_3-14.htm  Acesso em 09 nov. 2025. 

PARÓQUIA NOSSA SENHORA DA EXPECTAÇÃO. Devoção a Santo Antônio de Categeró. São Paulo: Freguesia do Ó. Disponível em: https://nossasenhoradoo.com.br/devocional/santo-antonio-de-categero/  Acesso em 09 nov. 2025. 

REVISTA ELETRÔNICA ABC DA SEGURANÇA PÚBLICA. Beato Antônio de Categeró. Disponível em: https://categero.org.br/antigo/?page_id=102  Acesso em 09 nov. 2025. 

SOBRINHO, Antônio Gaio. Santos Negros Estrangeiros. São João del-Rei: [s.n.], 1997. 153p.il. p.35-37. 

WIKIPÉDIA. Verbetes: Antônio de Categeró, Cirenaica, Noto (Itália), Caltagirone (acesso em 07/12/2014, 09:20 h)
https://categero.org.br/antigo/?page_id=102

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografias: Iago C.S. Passarelli.

                                                                             Notas 

[1] Fontes: São João del-Rei, Bairro Tijuco, 1993 - santinho /  impresso em jornal da cidade, classificados, 2001
- Revisão: 09/11/2025. 

sábado, 14 de junho de 2014

Viva Santo Antônio!!!

Cada paróquia festeja seus santos. Alguns nem tão populares possuem um círculo mais restrito de fiéis e só encontram comemoração em poucas capelas. Outros, como São Sebastião, por exemplo, ou Nossa Senhora do Rosário, tem festa esparramada por toda redondeza. Mas feliz mesmo é o devoto de Santo Antônio, que ontem pode se dar ao luxo de escolher onde acompanhar a festa do taumaturgo. Antônio era o nome religioso de Fernando de Bulhões. Nasceu em Lisboa, Portugal, a 15/08/1195 e faleceu em Pádua, Itália, a 13/06/1231. Por isso há quem lhe chame Santo Antônio de Lisboa e outros, Santo Antônio de Pádua.

Em Tiradentes é o padroeiro, com igreja matriz setecentista, artisticamente adornada pela arte barroca. Tem ainda a Capela do Canjica, de que é orago no bairro onde a história conta sobre a mineração aurífera pretérita. A atual Capela do Canjica não corresponde mais à original, pois, segundo se sabe, pelo menos outras duas capelas sob o mesmo orago a antecederam nas imediações, tendo sido demolidas, possivelmente sendo a primeira delas contemporânea dos primeiros tempos da extração de ouro (Velloso, 2013). [1]

Em Conceição da Barra de Minas há também importante templo a ele dedicado, também palco de festas em honra a Santo Antônio. Tal igreja foi edificada em 1854, sob a liderança de “Joaquim José da Matta, proprietário da fazenda Barra. Em 1945, passou ela por uma reforma, tendo nesse ano, recebido uma torre no ângulo lateral direito”. Foi restaurada em 1987. Na capela existe um ex-voto cujo texto se refere ao livramento do construtor de um acidente com carro de boi (Gaio Sobrinho, 1990, p.49-50).

É queridíssimo em Lagoa Dourada e Itutinga, de ambas padroeiro. Sem contar outros pontos de festejos nas comunidades rurais. 

Em São João del-Rei, Santo Antônio goza de festejos variados. Mastros, distribuição de pães bentos, bênçãos, missas, música, procissões, trezenas, novenas, tríduos, quermesse e leilão. São alguns elementos, que variam com o ponto que a festa acontece. Quiçá, o mais tradicional seja o da antiga Rua Santo Antônio, no Bairro Tijuco, onde a histórica capela rococó do século XVIII, incrustada no casario, sedia as comemorações concorridas, graças aos esforços da Venerável Irmandade de Santo Antônio (datada de 1939) e a participação intensiva da comunidade, muito unida e participativa. É de se ver com gosto como as fachadas, a beira das calçadas, os postes, são todos ornados com esmero para passagem da procissão. As barraquinhas de víspora, comes e bebes são muito procuradas. Várias irmandades enviam representantes, participando com suas opas características. O sermão do Padre Geraldo Magela em 2014 foi de uma eloquência esplêndida, enaltecendo os valores deixados pelo santo querido na consolidação da fé cristã. A centenária Banda Theodoro de Faria (de 1902), atuou com toda experiência. 

Para quem preferiu outra festa, pode andar só alguns quarteirões, atravessando a Ponte do Rosário, "Rua da Prata" (Padre José Maria Xavier) e na Igreja de Lourdes, no Largo de São Francisco, encontrou um animadíssimo movimento de devoção ao santo lisboeta. Nessa igreja, aliás, o ano todo, há um intenso movimento de devotos deste santo franciscano e seu velário vive cheio de lumes acesos. Não faz muito, fizeram no jardim fronteiriço uma pequenina ermida para abrigar sua imagem, amplamente visitada. 

Uma capela também o festeja, donde é patrono, em comemorações bastante tradicional, no Albergue Santo Antônio, Bairro das Fábricas. A instituição data de 1912 e prossegue em pleno funcionamento e respeitada atividade de cuidado com os idosos. 

O grande Bairro Matosinhos, possui uma comunidade chamada Vila Santo Antônio, onde, no Salão Comunitário consagrado a este santo, na beira da linha férrea, as festas acontecem com grande animação e já se fixa no calendário de eventos deste bairro tão festeiro. Usa-se fincar um mastro para o santo e em alguns anos houve apresentações de congado. É mister lembrar que a grande Paróquia do Senhor Bom Jesus de Matosinhos possui na zona rural uma capela consagrada a Santo Antônio, no povoado do Carvoeiro, cujos festejos tradicionais acontecerão no mês vindouro [2]. Sobre a capela do Carvoeiro, consta que: 

"Em 1919 a imagem de Santo Antônio foi encontrada por Sr Firmino Antônio de Paula, no município do Ribeirão do Elvas (Pitangueiras). Sr Firmino construiu então um Cruzeiro e um imédia de adobo para se celebrar as primeiras missas campais, no ano de 1929, pelo então padre de Ibertioga, padre Gustavo. O mesmo padre foi o primeiro a celebrar na Igreja construída pela comunidade no ano de 1939. Padre Bernardino Siqueira, padre de Tiradentes, continuou a celebrar as missas naquela Comunidade. Nesta época a Igreja era alcançável somente a cavalo ou a pé. Posteriormente padres Salesianos continuaram a dar assistência, até que se tornou uma comunidade da Paróquia de Matosinhos. Em 1957, sob a administração dos irmãos Levinho e Alcindo Vital, foi construída a nova Igreja que se conserva até hoje. Atualmente, devido à emigração dos antigos moradores para a cidade, a Comunidade ficou despovoada, mantendo somente a missa e a procissão nas festividades." (São João del-Rei, 2014). 

 Na Colônia do Marçal, Igreja da Imaculada Conceição, a festa de Santo Antônio assume dimensão ampla, o que é praticamente uma redundância considerando o tamanho do adro e do templo. Não era para menos. O povo devotíssimo da Colônia acorre para os eventos litúrgicos em peso e depois de concorrida procissão, se confraterniza no adro e barracão de festas. Também não falta um mastro em honra a este santo, devidamente enfeitado. Registre-se o zelo de seu pároco, Padre Antônio Claret Albino. 

 Noutra colônia, a do Bengo, no alto de uma colina, desde 1905, a Capela de Santo Antônio, obra do insigne sr. "Emídio do Bengo" (Emygdio Apollinario dos Passos Moraes) e colaboradores sedia uma tradicional festa que reúne a população rural das cercanias, chegando à pé, a cavalo, de motocicleta, bicicleta ou carro. Fazem trinta anos, na tardinha ou boca da noite, ainda víamos romeiros em grupos vindo em caminhada pela beira da linha do Trem do Sertão desde a Avenida Leite de Castro rumo a esta capelinha para os festejos, até as imediações da Banqueta, de onde, deixado o leito ferroviário, subiam por uma trilha campo afora até a capela. 

E por fim não poderia deixar de mencionar ainda que brevemente a tradicionalíssima festa do distrito de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno, donde é padroeiro e movimenta toda a população local e ainda congrega os moradores dos povoados vizinhos. É festa queridíssima e agora ganha a partir de 2014, mais um acréscimo importante: hoje, 14 de junho, é o dia consagrado à Beata Nhá Chica (Francisca Paula de Jesus), gloriosa filha daquela terra. Um duplo padroado, comemorado em dias subsequentes.

Santo Antônio de Pádua é o santo mais popular do catolicismo no Brasil. Seu dom extraordinário de missionário pregador, cultura de largo alcance, a humildade imensa e os milagres incontestes e inumeráveis, levando-o a uma canonização quase imediata ao falecimento, transformaram-no em um modelo de santidade e sabedoria. Em torno de Santo Antônio um rico folclore se edificou. 


Capela de Santo Antônio do Canjica.
Tiradentes / MG, 17/07/2004.
 



Capela de Santo Antônio e sua imagem no Bairro Tijuco;
Banda Theodoro de Faria durante a Festa de Santo Antônio.

São João del-Rei/MG, 13/06/2014. 


Em vista póstero-lateral tomada em fevereiro de 2004,
a Capela de Santo Antônio do Bengo, São João del-Rei.

Programa da Festa de Santo Antônio.
Impresso em papel-jornal, 21,5 x 31,5cm.
Joaquim Murtinho (Congonhas/MG), 1992.

Capela de Santo Antônio vinculada ao Albergue Santo Antônio,
local de animadas festas anuais. 31/01/2025. 

Capela de Santo Antônio. Povoado do Carvoeiro. 
São João del-Rei/MG, 09/07/2013. 

Igreja Matriz de Santo Antônio, Itutinga/MG, 09/08/2019. 

Bolo de Santo Antônio, elemento típico da culinária de Itutinga/MG. 
29/01/2020. 

Mastro de Santo Antônio, diante da Igreja Matriz de Santo Antônio,
Ibertioga/MG, 16/06/2025. 


Igreja Matriz de Santo Antônio e um dos painéis pintados, representando o milagre de Santo Antônio em Rimini (Itália, ano 1227), quando os peixes puseram a cabeça fora da água para ouvir sua pregação. Lagoa Dourada, 24/10/2021. 



Festa de Santo Antônio, Bairro Matosinhos. 13/06/2015. 


Festa de Santo Antônio no distrito de Santo Antônio do Rio das Mortes Pequeno
São João del-Rei, com presença da Banda "Lira do Oriente Santa Cecília". 13/06/2017. 




Cartaz da Festa de Santo Antônio da Serra, na comunidades Águas Gerais (Bairro Tijuco) e
Serra do Lenheiro, São João del-Rei. 2019. 

Cartaz da Festa de Santo Antônio no povoado do Carvoeiro, 2019. 

Referências

GAIO SOBRINHO, Antônio. Memórias de Conceição da Barra de Minas. Belo Horizonte: Imprensa Universitária, 1990. 253 p. il. 

 SÃO JOÃO DEL-REI. Capela de Santo Antônio – Carvoeiro. Inventário de Patrimônio Cultural. Secretaria Municipal de Cultura e Turismo/Prefeitrura Municipal; Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural, 2014. 33 p. il.

 VELLOSO, Herculano. Ligeiras memórias sobre a Vila de São José nos tempos coloniais. 3.ed.Tiradentes: Instituto Histórico e Geográfico, 2013. 108p.


Créditos


- Texto e fotografias: Ulisses Passarelli.

Notas 

[1] Alguns moradores locais guardam na memória o local onde houve uma dessas capelas anteriores, no alto de um pequeno morro nos fundos da atual capela de Santa Edwirges, entre o Canjica e o Cuiabá. Perscrutamos a região à procura de seus vestígios, mas os mesmo desapareceram, assim como estão sumindo as cascalheiras e escavações dos antigos mineiros nas suas cercanias, ainda (parcamente) visíveis, posto que tratores estão ali abrindo ruas e fazendo terraplenagens para loteamento, na febre de valorização urbana desta cidade, destruindo um dos mais importantes sítios históricos, por ser aí o seu berço. A Lagoa do Canjica com histórias e estórias de riquezas incomensuráveis infelizmente não foi preservada. Naquelas imediações existe uma igreja dedicada a Santo Antônio conhecida como Capela do Canjica. Curioso é sua data festiva. Habitualmente os santos são festejados na data de sua morte, considerando-se a simbologia de que morrem para a vida material (terrena), para nascerem para a espiritual (celeste). Assim o Santo Antônio é festejado a 13 de junho, em lembrança de seu falecimento nesse dia. Mas como Tiradentes tem uma matriz consagrada a ele, festejando-o já nessa data, acharam por bem festejá-lo no Canjica, na data de seu nascimento, 15 de agosto, uma notória exceção (pesquisa de campo realizada no ano de 2004).

[2] A Paróquia do Menino Jesus de Praga, criada em 16/09/2022, sediada no Bairro Pio XII, absorveu a gestão eclesiástica da Capela do Carvoeiro desde então. Sobre sua criação, ver: 


- Revisão, ampliação textual e de fontes, acréscimo de fotografias: 26/06/2026. 

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

A Primeira Festa de Santo Antônio em Matosinhos

Dentre as muitas devoções católicas que se festejam no Bairro Matosinhos, em São João del-Rei/MG, figura também a de Santo Antônio de Pádua, que já foi alvo de comentários neste blog. Porém a presente postagem traz à lume uma notícia veiculada pelo órgão de imprensa são-joanense, Acção Social. Seu texto menciona que a primeira festa dedicada a esse santo no bairro aconteceu em 1928. Eis sua transcrição (respeitada grafia da época), seguida de fotomontagem da matéria:

Mattozinhos
Celebraram-se aqui  no domingo passado, as solemnidades em honra a S. Antonio na egreja de Bom Jesus. Foi pela primeira vez que o grande thaumaturgo recebeu aqui homenagens do povo (... ilegível).
Houve grande numero de comunhões nesse dia e de tarde percorreu a vasta praça deste pittoresco logar uma (...) procissão. Subiu á sagrada tribuna o Rev. Pe. fr. Cherobin cheffe (?) do Gymnasio Sto.Antonio, que em palavras bem escolhidas nos mostrou o grande santo como modelo de vida pura com Jesus Christo. A banda de musica do 11 Regimento abrilhantou a procissão e o leilão, que foram muito concorridos. (ilegível) eclesiástica approvou a mesa recém-eleita para o anno vindouro.

Foto1: notícia da Festa de Santo Antônio.

O texto revela a simplicidade da programação, nada excepcional, com procissão, leilão e sermão; destaque para as comunhões, comum nas notícias de festas religiosas deste período. Elementos enriquecidos com a música da banda militar, que ainda hoje traz vasto e ativo trabalho cultural. A popularidade do santo garantia a continuidade da festa, visível na aprovação eclesiástica dos festeiros do ano seguinte. 

Foto 2: Santo Antônio na liteira. 

Sabe-se que em um passado bem mais remoto, um século antes, Santo Antônio dava à festa pentecostal de Matosinhos um ar muito pitoresco com sua eleição para o cargo de Imperador Perpétuo da Festa do Divino. Como tal era o principal protagonista de uma procissão que descia da Igreja de São Francisco de Assis rumo à de Matosinhos, quando a imagem do taumaturgo vinha em movimentos pendulares dentro de uma liteira, com grande acompanhamento de fiéis. Mais detalhes sobre este assunto estão em outra postagem neste blog. Este item foi resgatado na reativação da Festa do Divino de 1998. Prossegue até os dias atuais a Procissão do Imperador Perpétuo, sendo o santo também festejado no seu salão comunitário na Vila Santo Antônio (parte do bairro) e na capela rural da qual é orago, no povoado do Carvoeiro, dentro da mesma paróquia e município.

Foto 3: Capela de Santo Antônio do Carvoeiro, 09/07/2013. 

Referência

Acção Social, n. 422, 21 jun. 1928. Acervo Digital Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida, São João del-Rei.

Créditos

- Texto, fotomontagem 1, efeito artístico da fotografia 2, fotografia 3: Ulisses Passarelli.
- Fotografia 2: Iago C.S. Passarelli.
Notas

- Infelizmente, a má qualidade da fotodigitalização disponível no acervo digital deste jornal, dificulta ou mesmo impede a leitura de alguns trechos da matéria. 
- Revisão: 10/04/2025. 
- A Capela do Carvoeiro foi incluída formalmente na lista de bens protegidos em nível municipal  (Decreto nº 11.558, 16/12/2024, São João del-Rei), graças à aprovação e validação do Inventário de Patrimônio Cultural (IPAC/2018, Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural / Secretaria Municipal de Cultura e Turismo / Prefeitura Municipal). Mudou de jurisdição eclesiástica: passou a pertencer à nova Paróquia do Menino Jesus de Praga, com matriz no Bairro Pio XII, criada em junho e instalada em setembro de 2022, tendo como primeiro pároco o Padre Odair José de Carvalho. Fonte: 

SILVEIRA, Lucas. Paróquia Menino Jesus de Praga é instalada na Diocese. Diocese de São João del-Rei, 19 set. 2022. Disponível em: https://diocesedesaojoaodelrei.com.br/paroquia-menino-jesus-de-praga-e-instalada-na-diocese/  Acesso em 10 abr. 2025. 

sexta-feira, 21 de junho de 2013

As Festas Juninas e os Três Santos

Considerações Gerais sobre as Festas de Inverno

Há um santo para cada dia e um dia para todos os santos. Cada qual com sua particularidade comemorativa, mais ou menos popular, por vezes muito querido numa região e completamente desconhecido noutra área. Mas no Brasil, de uma forma toda especial, três santos festejados em junho se destacam por sua expressão devocional parametrizada pelos padrões dos valores rurais.

Santo Antônio de Pádua (ou de Lisboa), São João Batista e São Pedro Apóstolo tornaram-se muito populares de norte a sul, com festas praticamente contíguas e de tão sintonizadas, constituíram um ciclo festivo que chamamos junino

Uma constante nestas festas é o costume de soltar fogos de artifício, alcançando em alguns locais uma prática ostensiva, entre espadas de fogo, rojões, busca-pés, traques, estalinhos, peido-alemão, espanta-coió, bombinhas, etc. No final do século XIX, Manoel Messias do Nascimento Brito obtinha da Câmara Municipal de São João del-Rei licença para instalar uma fábrica de foguetes, conforme anunciava um antigo jornal da cidade (S.JOÃO DEL-REI, 1899). Outro jornal local, igualmente do acervo da Biblioteca Municipal Baptista Caetano d'Almeida, anunciava a venda de fogos de artifício para as festas de junho no comércio desta urbe: “Para os festejos de Santo Antônio, São João e São Pedro grande variedade no BAZAR JAPONEZ. Rua Municipal, 5 – preços especiaes para quantidade.” (A TRIBUNA, 1925).

Tal a sua força cíclica, que os festejos desse período em muitos lugares estenderam-se julho adentro, com aspectos similares, mas com os santos meio de lado, nas já comuns festas julinas. Mas que não crie ilusão esta extensão de datas como sendo coisa recente. Um precioso informante, o senhor Luís Santana (nascido em 1926), natural do povoado do Pombal, em São João del-Rei/MG, narrava que na primeira metade do século XX já havia um período longo de festividades rurais naquele povoado, começando no dia da Santa Cruz, dia 03 de maio (data da primeira fogueira e de erguer os mastros) e ia até o dia de Santana (26 de julho), data da última fogueira e de descer os mastros juninos[1]. Alceu Maynard de Araújo já apontava essa tendência de as festas de Santa Cruz serem praticamente um prenúncio das festas juninas na cultura caipira (ARAÚJO, 1964).

Esses mastros de junho muitas vezes vem enfeitados de frutas, conforme observado em Passos, no sudoeste mineiro (1997), ou de flores do cipó de São João (Pyrostegia venusta, bignoniaceae), como era usado em São João del-Rei e Bias Fortes (1999). No norte do Brasil são enfeitados com ramos, flores, frutos e alimentos. São sinais vestigiais de fitolatria, dizem uns pesquisadores, mas outros apostam apenas no simbolismo da pujança alimentar desses festejos, que acontecem quando no campo, findas as colheitas, a lavoura descansa até o replantio[2].

O cronista inglês Richard Francis Burton, no ano de 1867, passando pelo Caminho Novo na Serra da Mantiqueira, nos arredores de Barbacena, entre esta e Juiz de Fora, notou: “Retiro é um grupo de palhoças habitadas por negros que tinham hasteado um mastro de São João, e um santo também negro” (BURTON, 1976).

Ainda o mesmo autor, assim se expressou conforme o linguajar e visão estrangeira de sua época sobre as festas juninas de 1867:

“(...) os habitantes reúnem-se nas cidades paroquiais, vindos de todas as direções; cada lugar tem sua fogueira, desfile de bandas e as pessoas ficam sentadas toda a noite e hasteiam, alegremente, o “Mastro de São João” (...) A animada festa é mais agradável na roça do que na cidade, onde o bimbalhar dos sinos e as explosões das girândolas começam antes do amanhecer. A gente fica surdo com os ridículos foguetes, e os moleques, isto é, os negrinhos, tornam as ruas supinamente desagradáveis, lançando busca-pés, que fazem tudo o que podem para queimar as pernas das pessoas” (BURTON, 1976).

O devocionário popular enxergou em Santo Antônio o casamenteiro. O taumaturgo lisboeta é festejado a 13 de junho, antecedido por treze dias de rezas preparatórias (trezena). Seu festejo via de regra contém celebrações nas igrejas, procissões, levantamento de mastros, arraiais com fogueiras e brincadeiras, como o pau de sebo e o leitão ensebado, quadrilhas, comes e bebes típicos nas barraquinhas enfeitadas de folhas de coqueiro e pita, soltura de balões, bailes à sanfona. É o santo mais popular do cristianismo e sua oração mais conhecida é o responsório, conhecidíssimo no Brasil e Portugal, com alguns variantes, como esta são-joanense (1998):

Quem milagres quer achar
Aplaca a fúria do mar,
Contra os males e o demônio,
Tira os presos da prisão,
Busque logo a Santo Antônio
Os doentes torna sãos 
Que aí há de encontrar.
E faz achar.

Sem respeitar qualquer anos
Socorre a qualquer idade,
Abone esta verdade
Os cidadãos paduanos.


Uma antiga procissão de Santo Antônio no Caburu, atual distrito de São Gonçalo do Amarante 
(São João del-Rei/MG). Data e autor não identificados. 
Fotos gentilmente cedidas por João Bosco Alves.

Cartaz de divulgação, contendo programa da Festa de Santo Antônio, 2019,
comunidade rural do Carvoeiro, distrito Sede,
São João del-Rei/MG. Impresso em papel-couché; não medido.  


Cartaz de divulgação, contendo programa da Festa de Santo Antônio, 1992,
distrito de Joaquim Murtinho, Congonhas/MG.
Destaque para o ritual de levantamento dos mastros a partir da casa dos mordomos, com cortejo; 
 comidas típicas, fogueira, quadrilha, presença de banda de música.
Impresso em papel-jornal; medidas: 
21,5 x 31,5cm.


São João Batista [3] vem na mesma linha de festejos, mas a 24 de junho, sendo em muitos lugares a festa mais importante do ciclo junino. Sua noite é tida por mágica, propícia a vários sortilégios. Quase correspondendo ao solstício de inverno do hemisfério sul é dita a noite mais fria do ano, o que nem sempre se concretiza. A água de 23 para 24, antes do raiar deste, é benta nas fontes, rios e córregos[4]. Em garrafas e potes a água é recolhida para fazer remédios o ano todo, para se beber pouco a pouco, para banhar uma ferida ou o corpo todo, banindo males e doenças. Em muitos lugares, noite tardia, é usual a procissão da lavagem do santo, quando a imagem é levada ao rio e banhada ante o canto de benditos e rezas. O carvão ou tição da fogueira joanina é bento, conservado para o ano todo riscar cruzes e estrelas protetivas nas portas, muros e porteiras. Jogado no terreiro durante uma tempestade, amansa a tormenta, previne o raio fulminante. 

Na Colônia do Marçal, em São João del-Rei era corrente esta simpatia para se fazer no dia de São João ou no de São Pedro (coletada em 1999):

“escreva no papel branco os nomes das pessoas que você gosta e depois enrola esses nomes como se estivesse enrolando um cigarro e coloque num copo com água com os papéis dentro. Tampa o copo com a mão e coloca perto do fogo e reze uma salve-rainha, até chegar ao “mostrai”. Depois coloque debaixo de uma folhagem todos os nomes que estão no copo. No outro dia sem falar com ninguém vai até a folhagem e termine a salve-rainha e fala pra São João e São Pedro com quem você vai se casar e olha o papel que está aberto”.

Um costume assaz interessante que acontecia em São João del-Rei, no Bairro Senhor dos Montes, e em Santa Cruz de Minas, no Bairro Córrego: no dia de São João, tomando-se à mão varas, correias e chicotes, se dava uma surra no tronco das fruteiras, enunciando-se o seguinte ensalmo:

Fogo na fogueira,
Estava para queimar,
O que não deu esse ano,
Para o ano vai dar!

Esta fórmula mágica é um mecanismo de catarse que garante a queda dos ramos doentios, dos frutos secos e “aluados”[5], das flores estéreis, banindo pragas e mau olhado. Então, no ano seguinte o pomar aumenta a produtividade. Eis um elemento claro da força agrária dessa festa.

Cartaz de divulgação, contendo programa da festa de São João Batista, 
Rua São João, São João del-Rei, 1992. 
Impressão em papel-jornal; medidas: 24 x 33cm. 


São Pedro vem por último, protetor das viúvas, com festejo a 29 de junho. Sua festa ultimamente esmaeceu, mas tem as mesmas linhas gerais. É em geral mais forte onde o mar ou os grandes rios tem importância econômica para as comunidades de pescadores, sendo então comuns as procissões marítimas ou fluviais com barcos enfeitados e as puxadas de mastro. São Pedro, tido como o primeiro papa, é o guardião das chaves do céu. São muitos os contos populares que narram suas peripécias apostólicas, colocando-o como um turrão, que faz trapalhadas ante Jesus. A crença indica a mãe de São Pedro como uma verdadeira megera. 

É no dia de São Pedro que o homem do povo toma de um facão ou machadinha e dá piques (talhos) no tronco das mangueiras em sentido perpendicular ou diagonal como método que garante uma melhor produtividade. Naquele talho escorre parte da seiva, num mecanismo de sangria. Ainda é muito frequente esta prática em São João del-Rei e arredores. 

 

                                                   Piques no tronco de uma mangueira, fotos do autor, 2013.

Cartaz de divulgação, contendo programa da festa conjunta de São Pedro e São Paulo,
Capela de N.S. da Saúde, Águas Santas (Tiradentes/MG),
afamada pela boa qualidade das danças de quadrilha. 
Impresso em papel off-set, tamanho 32 x 21,5 cm. 


No Maranhão e Amazônia as festas desses santos são animadas pela presença de numerosos grupos dançantes de bumba-meu-boi / boi-bumbá e os de tambor-de-crioula. No agreste e sertão acorrem os bacamarteiros, os ternos de zabumba. Pelo litoral e agreste são as rodas de coco, improviso ao som ritmado do ganzá; zambê, bambelô. Ainda em 1997 na praia de Caraúbas (Maxaranguape/RN), a capelinha de melão, espécie de pastorinhas do inverno, cantavam não ao Menino Jesus mas a São João Batista.

Vários terreiros de religiões de matriz africana por via sincrética participam do complexo devocional envolvendo estes três santos. Muitos terreiros fazem festas nos seus dias votivos. O sincretismo é variável de uma região para outra, e mesmo com o rito religioso em si, mas via de regra é o seguinte: Santo Antônio se vincula ao Orixá Exu; São João e São Pedro respectivamente ao falangeiro Xangô do Oriente e a qualidade de orixá, Xangô Agodô [6]:

Santo Antônio e meu São Jorge
São dois santos guerreiros,
Santo Antônio firma ponto,
São Jorge firma terreiro.


Outro:

Meu Pai São João Batista é Xangô,
O dono do meu destino até o fim.
Se um dia me faltar, a fé no meu Senhor,
Derruba essas pedreiras sobre mim.

Para o ciclo junino as festas externas às igrejas se climatizam na configuração cenográfica de um ambiente rural, ou pelo menos, supostamente do campo. É uma imagem idealizada, a bem da verdade, meio às avessas, porque, à primeira vista ridiculariza os valores rurais levando ao exagero o aspecto e o comportamento do rurícola. Assim os dançantes da quadrilha, a dança típica dessa quadra do ano, põe roupas com remendos avantajados, chapéus desfiados, calças esgarçadas, rabiscam no rosto cavanhaques e bigodes desgrenhados, cigarrões de palha são adereços indispensáveis. Botinas graúdas favorecem o andar trôpego. As mulheres não ficam para trás com seus vestidos de chita e outras estampas berrantes, fora da moda; tranças postiças, maquiagem exagerada e até por vezes um dente é borrado de preto simulando vasta cárie ou ausência de elemento dentário.

O local das danças é chamado arraial, ou melhor, “arraiá” e ganha nomes próprios: Arraiá do Arranca-unha, Arraiá do Pito Aceso, Arraiá da Vila Mendes, etc. É limpo e enfeitado. De terra batida, gramado ou cimentado, não importa, ganha arcos de bambu, carreiras de bandeirolas e rabiolas coloridas, balões multicores nos cantos, espigas de milho atadas às varas das barraquinhas de vender comida típica do período, sujeita a regionalismo: por aqui, canjica, quentão, broas, pamonhas, curau, pé de moleque, batata doce assada na brasa; no vasto Nordeste onde estas festas alcançam uma dimensão extraordinária e economicamente importantíssima, geradora de fluxo turístico, surge dentre outros a indispensável canjica, o mungunzá, os bolos variados (preto, de milho, de carimã, da moça, etc.). E por aí vai. Nas áreas frias sulinas o consumo do pinhão é querido e o vinho.

A música se faz fartamente presente através da sanfona, ou seu irmão _ acordeon. Outros instrumentos acompanham e marcam: quadrilhas, xotes, baiões, xaxados, forrós, arrasta-pés ...

Na apresentação das quadrilhas um dos momentos mais aguardados é o casamento caipira (matuto, tabaréu), um entrecho muito apreciado já comentado na postagem sobre as quadrilhas. É bem visível que esta representação é um entremeio dramatizado que foi enxertado nas quadrilhas, não fazia parte do modelo francês original. É uma criação brasileira, e em tamanha sintonia com a quadrilha que com elas compôs um corpo perfeito. Ora, um antigo jornal de São João del-Rei / MG, noticiou há um século esta representação teatral: “casamento do caipira (Nhô) é uma pantomina de successo” (O REPÓRTER, 1912). Seria uma pista? O casamento hilário foi uma representação de palco que rodou Brasil afora, caída nas graças do povo que a manteve no contexto das quadrilhas? É só uma possibilidade, aguardando pesquisa.

Por estas alturas é interessante repensar o significado do universo rural colocado com jocosidade nas festas juninas. Aqueles remendos das roupas, os trejeitos dos dançantes, os babados dos vestidos e toda a irreverência dos arraiais e seus figurantes, seria apenas mero deboche? O corre-corre urbano, a vida na selva de pedra não induz a horas tantas a saudade da paz campesina? A figuração do mundo rural nestas festas e danças parece puramente alegórica. Por fim faz parte da própria identidade destas manifestações. O olhar mais focal pode ser assaz revelador.

Estas festas além de quebrarem a rotina como todas em geral o fazem, podem também ser um oportuno canal de manifestar os valores da ruralidade, ainda que sob a ótica urbana calcada pela ironia, mas isto pode ser um disfarce social. O roceiro ainda vive em cada um de nós? Caso positivo, para manifestá-lo precisamos de uma fantasia e um contexto? Esta ambiguidade é que justifica a “imagem idealizada às avessas”. Toda esta provocação (e não afirmação) visa apenas induzir pesquisas futuras neste ramo, que quiçá podem ser frutíferas.

Referências Bibliográficas

- ARAÚJO, Alceu Maynard. Folclore Nacional. 2.ed. São Paulo: Melhoramentos, 1964.
- BURTON, Richard Francis. Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho (1867). Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EdUSP, 1976.
- CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, [s.d.] 930p.il.
- IHG. Os cronistas viram e disseramRevista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, n.4, 1986. p.55
- LIMA, Rossini Tavares de. Folclore das Festas Cíclicas. São Paulo: Irmãos Vitale, 1971.
- PELLEGRINI FILHO, Américo. 2.ed. Folclore Paulista: calendário & documentário. São Paulo: Cortez/Secretaria Estadual de Cultura, 1985. 240p.il.
- SOBRINHO, Antônio Gaio. São João del-Rei através de documentos. São João del-Rei: UFSJ: 2010. 260p. p.34 e 95. 
           
Referências Hemerográficas

- A Tribuna, n.651, 31/05/1925. São João del-Rei. 
- O Repórter, n.312, 02/05/1912. São João del-Rei. 
- S.João del-Rei, n.6, 04/03/1899. São João del-Rei. 

Informantes (São João del-Rei e Santa Cruz de Minas)

- Aluísio dos Santos (piques nas mangueiras, Centro, São João del-Rei)
- Cláudia Aparecida da Costa (simpatia para casamento, São João del-Rei)
- Elvira Andrade de Salles (surra nas fruteiras, mastros - Santa Cruz de Minas / Bias Fortes)
- José Camilo da Silva (mastros, São João del-Rei)
- Luiz Antônio Sacramento Miranda (surra nas fruteiras - Bairro Senhor dos Montes, São João del-Rei)
- Luís Santana (festas no Pombal, São João del-Rei)
- Luthero Castorino da Silva (responsório, São João del-Rei)

Créditos 

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Fotografias: Ulisses Passarelli (mangueira); procissão de Santo Antônio: autor não identificado, gentilmente cedidas por João Bosco Alves, a quem este blog agradece. 

Notas 
- Revisão: 04/07/2025. 



[1] - Fogueira em agosto, nem pensar! Faz mal, afirmava Luís Santana. Aliás agosto é mês do desgosto, de São Lourenço, senhor dos ventos, que morreu queimado numa grelha, dia 10 de agosto. No dia dele não se pode queimar pastos nem coivaras nos roçados. É a lógica da cultura popular. 
[2] - A origem pagã e agrária destas festas é clara e fartamente documentada por eminentes folcloristas, que sobejamente demonstraram os reais valores das festas rurais: Alceu Maynard Araújo, Américo Pellegrini Filho, Luís da Câmara Cascudo e Rossini Tavares de Lima, referenciados nesta postagem. São de consulta indispensável. Não é plano desta postagem, discorrer sobre o histórico das festas juninas. Para esta finalidade fica como sugestão este vídeo: As origens da festa junina. In: Cortes do Estranha História, 25 jun. 2024. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=y80UgePJzWs  Acesso em 04/07/2025. 
[3] Sobre a antiguidade da Festa de São João Batista em São João del-Rei, uma referência significativa é esta, dada por SOBRINHO (2010): "1719 - REC 168 PG 03 - Por trinta e duas oitavas de ouro que deu ao Pe. Fr. Antônio Xavier de Santa Rosa pelo Sermão da festa de São João de que se lhe passou mandado em 14 de setembro." (p.34). Da mesma fonte do recibo anterior emitido pelos vereadores é este acórdão de vereança: "ACOR 09 PG 69: EM 24 DE JUNHO DE 1799 - Acordaram em ir à Matriz desta Vila digo em ir assistir à Missa conventual na Matriz desta Vila como foi obrigado por ser dia de São João Batista, como de fato foram." (p.95). 
[4] - Dêniston Diamantino produziu um documentário de alta qualidade sobre as tradições juninas no vale do Rio São Francisco, vídeo “São João na Roça” (Opará Vídeos, Belo Horizonte, 2000), de consulta fundamental como fonte fidedigna de pesquisas. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=mc6U1alhO2A&list=RDmc6U1alhO2A&start_radio=1  Acesso em 04/07/2025. 
[5] - Aluado: aquilo ou aquele que pertence à lua. A informante, Elvira Andrade de Salles dizia que a lua sugava a energia do fruto, que assim ficava “aluado”: de crescimento afetado, sem polpa, sem adocicado, com baixo poder nutricional.
[6] - Concepções de um zelador de umbanda e uma ialorixá de candomblé de São João del-Rei. Os pontos foram ouvidos em outros terreiros da cidade, que não os dos informantes, por volta de 2001.