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Bem vindo!Esta página foi criada para retransmitir as muitas informações que ao longo de anos de pesquisas coletei nesta Mesorregião Campo da Vertentes, do centro-sul mineiro, sobretudo na Microrregião de São João del-Rei, minha terra natal, um polo cultural. A cultura popular será o guia deste blog, que não tem finalidades político-partidárias nem lucrativas, tampouco acadêmicas. Eventualmente temas da história, ecologia e ferrovias serão abordados. Espero que seu conteúdo possa ser útil como documentário das tradições a quantos queiram beber desta fonte e sirva de homenagem e reconhecimento aos nossos mestres do saber, que com grande esforço conservam seus grupos folclóricos, parte significativa de nosso patrimônio imaterial. No rodapé da página inseri link's muito importantes cuja leitura recomendo como essencial: a SALVAGUARDA DO FOLCLORE (da Unesco) e a CARTA DO FOLCLORE BRASILEIRO (da Comissão Nacional de Folclore). Este dois documentos são relevantes orientadores da folclorística. O material de textos, fotos e áudio-visuais que compõe este blog pertencem ao meu acervo, salvo indicação contrária. Ao utilizá-lo para pesquisas, favor respeitar as fontes autorais.


ULISSES PASSARELLI




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sábado, 5 de março de 2016

Assombrações do tempo roxo

"O tempo mudou muito...",  alertam os mais velhos. Nesta frase enigmática que traz em si um suspense, revelam as mudanças de comportamento frente ao que é esperado para cada época, cada tempo, cada circunstância. Assim, nesta quadra do ano, espera-se a penitência e a credulidade à "flor da pele", ou seja, a fé evidente, a crença como fator prioritário.

Mas não tem sido assim. A sociedade é outra. Movida pelo materialismo crescente e o impacto de uma era tecnológica, o homem do interior dia a dia se distancia de suas raízes culturais e é engolido pela avalanche globalizadora. Daqui e dali ecoam como estórias de um passado sempre curioso de se ouvir e imaginar, fragmentos de nossa mitologia mais típica como a que aflora todos os anos na quaresma, por ventura teimando em desaparecer da memória dos mais velhos e de algum lugar mais recôndito.

A Mesorregião Campo das Vertentes, tradicionalista como é, ainda propicia ouvir causos da quaresma assombrosa [1], sobretudo na zona rural [2].

A mula-sem-cabeça [3] segundo se diz, galopa acelerada soltando labaredas. Tarde da noite corre pelas ruas desertas e seu tropel pode ser ouvido. Mas apesar de encantada, se entrar numa via que tem uma igreja, ela nunca ultrapassa esta. Daquele ponto retorna. Se ela entrar numa rua que tem duas igrejas, entre cada extremo que estão, fica presa sem ultrapassá-las, chega numa igreja volta para a outra, até o dia clarear, quando então desencanta e volta a ser mulher, que aparece caída numa beira de calçada, meio tonta ou desmaiada. Assim contam em São João del-Rei e Tiradentes.

Quaresma também é tempo propicio para efetuar o trato com o capeta. Nesse tempo o demônio anda à solta, então aquele indivíduo que ambiciona algo aproveita para a horas mortas, nas encruzilhadas, chamar o diabo e fazer seu pedido, que obterá ao preço de sua alma, que não mais se salvará. Assim, quem quer aprender a tocar um instrumento e não tem o dom, faz um trato musical na Sexta-feira da Paixão, meia-noite. Leva o instrumento para a encruza e logo vem uma galinha com os leitões; depois que se vai aparece um cabrito e, por fim, o próprio capeta aparece sob a forma de homem, vestido de capa preta, e, tomando o instrumento nas mãos, toca-o de forma exímia. A seguir o devolve a seu dono que de imediato já consegue tocá-lo e tal instrumento nunca desafina. Tornou-se um músico virtuoso pelo trato com o maligno. Assim é corrente na memória da cultura popular são-joanense.

Ainda em São João del-Rei é difundida a narrativa de um certo baile acontecido na quaresma. Por ser desrespeitoso, numa época de recolhimento, teve um fato extraordinário. Surgiu um forasteiro muito bem vestido, elegante, charmoso. O estranho era irresistível para as moças. Exímio dançarino, bailou com todas. Foi então, lá pelas tantas, já em horas avançadas, sem ninguém nada cismar e sequer cuidar que era o "tempo roxo", que alguém olhou para os pés do tal dançarino e escandalizado, gritou em alta voz que eram pés de pato. O desespero e a debandada foi geral pois só assim reconheceram que o estranho era o próprio tinhoso. 

Caso idêntico já ouvimos em outras oportunidades, variando apenas que os pés do dançarino eram de bode, ou, noutra versão, de boi. 

Em Santa Cruz de Minas ainda nos anos noventa corria a narrativa acontecida numa certa chácara daquele município, que no lusco-fusco vespertino, de repente, vários porcos roncavam e batiam dentes no terreiro da casa e logo os moradores assustados com o forte barulho, imaginaram que os porcos tinham fugido do chiqueiro e foram verificar. Qual nada! Logo o som misterioso desapareceu, pois de fato os porcos verdadeiros do chiqueiro estavam presos e em silêncio. O ruído era do além, de uma assombração.

Créditos

-Texto: Ulisses Passarelli.

Notas 

[1] Vide a este respeito neste blog: ASSOMBRAÇÕES E PENITÊNCIA
[2] Sobre alguns mitos na zona rural leia: ASSOMBRAÇÕES NO CABURU
[3] Virar mula-sem-cabeça é como receber um castigo perpétuo. O povo acredita que a mulher que se envolve amorosamente com um padre passa a se transformar neste assombro. Outra possibilidade é quando um casal tem uma sequência de sete filhas. A sétima virará mula-sem-cabeça irremediavelmente a não ser que seja batizada pelo nome de "Maria", que então neutralizará a sina.

- Revisão: 15/04/2026. 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Assombrações e Penitência

A quaresma começou ...


Vencida a Terça-feira Gorda, concluiu-se mais um ciclo festivo anual. O primeiro é o natalino, que nas tradições populares começa no dia de Nossa Senhora da Conceição (8 de dezembro) e vai até o de Nossa Senhora das Candeias (2 de fevereiro), data limite, já cruzando com as batucadas carnavalescas.

Se o primeiro é o tempo da esperança, o segundo (carnaval) da alegria extravasadora, o terceiro, o quaresmal, iniciado na Quarta-feira de Cinzas, é o período da penitência, do recolhimento. A admoestação voeja em redor dos pecadores, pesando-lhes os abusos cometidos no carnaval, e convida-os sob a imposição da cinza na testa, diante dos altares, a voltar-se ao Criador. 

São dias de penitência todas as sextas-feiras, e ainda e em especial, a Quarta-feira de Cinzas e a Sexta-feira da Paixão.

Na penitência o cristão evita a carne vermelha. Deve substituí-la pelo ovo ou pelo peixe. É tradição muito antiga, inalienável ao fiel tradicionalista. Obviamente a penitência não se resume apenas a esse gesto alimentar.

O povo acredita que não fazendo penitência na quaresma ou cometendo abusos em horas impróprias na rua, entregando-se à jogatina ou à bebedeira, aos bailes e cantorias, se tornará alvo fácil dos espíritos do mal, que surgem sob os mais diferentes aspectos. Alguns, por sinal, bastante curiosos. 

Assim, na região, ouve-se falar do pinto pelado, uma aparição demoníaca de um pintinho misterioso, desacompanhado de sua mãe, piando sem parar, implume, imortal, arrepiante... [1]

Tanto mais aparecerá ao incauto a porca com os pintinhos, uma assombração que surge na quaresma, tanto mais a horas mortas, pelos caminhos e encruzilhadas. A disparidade se evidencia no nome do espectro, com mães trocadas. Assim pode surgir também como a galinha com os leitões. Um canto de calango alude a este assombro [2]: 

“Calango tango, 
no calango dessidão, 
nunca vi cantá calango 
Sexta-feira da Paixão... 
vem a Porca com os Pintinho 
e a Galinha com os leitão!” 

São bichos fantasmagóricos, de outro mundo. Não são animais do mundo físico... Em São Paulo corre um mito equivalente, a “porca dos sete leitões” (Araújo, 1967). E assim a velha quaresma era povoada dos mais estranhos seres sobrenaturais, tais como o saci-pererê com suas traquinagens, a mula-sem-cabeça chispando fogo, o lobisomem, ameaçador, com sua dentaria aguçada. A modernidade baniu o sobrenatural. A incredulidade é o assombro hodierno. 

De volta à penitência é de se lembrar nesse tempo de pouca chuva, que outrora era usual a Procissão da Penitência, destinada a redimir as faltas da comunidade, para que Deus, num ato de perdão, cesse um determinado flagelo - seca, enchente, peste, fome, etc. Procede-se de ordinário em horários de calor, por longas extensões, estradas ruins, justamente para aumentar o grau de dificuldade, como um explícito sacrifício penitencial.

Uma dessas procissões de antanho, partiu da primitiva Capela de Nossa Senhora do Bom Despacho, na Serra de São José, desde longa data demolida. Num tempo de seca a procissão seguiu para Tiradentes (antiga São José del-Rei), levando a imagem do Senhor dos Passos até a Matriz de Santo Antônio. Ocorre que naquele caso específico a irmandade também se transladou e nunca mais voltou à pequena capela em questão, que terminou em ruínas (Santos Filho, 1996). 

Bem menos dramático e, contudo, mais anedótico ou caricato, é o causo de uma procissão da penitência, também para atrair chuva. Contava-se [3], que em um tempo de calor implacável, o padre dissera em sermão, do púlpito aos fiéis, que a culpa da seca era deles, por causa do acúmulo de pecados. Deus estava bravo. Daí, só tinha um jeito: fazer penitência! Marcou a data e a hora, 15 horas _ 3 da tarde _ sol no calor máximo. O sacerdote foi na sombra durante toda a procissão, protegido pelo pálio. Todos os demais torrando no calor. No momento de um canto religioso, após o refrão, o padre entrou em voz solista, no ritmo da música, dando ordem para soltar os fogos de artifício, mas mudando os versos para provocar o sacristão, com quem andava meio enraivecido, porque ele fizera beberagem do vinho eclesiástico: 

"Seu sacristão, 
solte essas bomba, 
vocês vai no sol,
eu vou na sombra..."

Na virada da estrofe o sacristão não deixou por menos e no mesmo tom retrucou em reclamação aos abusos do padre: 

"É isso mesmo 
que vancê tá dizêno,
nóis que trabáia,
você vai comendo..."

Lanterna de procissão. São João del-Rei/MG. 

Referências

SANTOS FILHO, Olinto Rodrigues dos. A Capela do Bom Despacho do Córrego - memória histórica.  Inconfidências. Tiradentes: Sociedade Amigos de Tiradentes, ano1, n.6, jul./1996. p.3. 

Créditos

- Texto: Ulisses Passarelli.
- Foto: Iago C.S. Passarelli. 

Notas 

[1] Informante: Elvira Andrade de Salles, Santa Cruz de Minas, 1996.
[2] Informante: idem, referindo-se a uma cantoria da zona rural de Bias Fortes, informada em 1997. 
[3] Informante: Aluísio dos Santos, São João del-Rei, 1994. Avô materno do autor desta postagem. 

- Revisão: 24/06/2026. 

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Cava, lugar assombrado

Cava é um corte em um morro ou barranco dando continuidade a uma estrada vicinal, não pavimentada, para evitar um desvio. Rasgada na terra a enxadão e picareta, é sempre rudimentar, esburacada, barrenta, deslizante. Atravessar uma cava exige cuidados nas preces, pois é lugar fatídico.

Nas festas de roça, um congado só passa por uma cava depois de se benzer na entrada, com cantos, rezas e a coreografia de meia-lua. Do contrário, o grupo desafina a cantoria, rebenta couro de caixa, rompe corda de viola, o capitão esquece os versos, congadeiro desentende, tem dor de cabeça, canseira incontrolável, até desmaia.

Ficou afamado a mais de meio século o Capitão Barnabé, de um catupé do povoado da Cachoeira, distrito de Coronel Xavier Chaves. Dizem, que ele deixava uma mandinga preparada numa cava, por baixo de uma raiz da árvore do óleo-vermelho, que aflorava sobre a poeira. Seu alvo era o outro catupé do município, um congado do Bairro Tanque, hoje Vila Fátima. Quando o capitão supostamente rival passasse por ela, seria afetado (*). Corria estória que “Barnabé” era endiabrado e tinha parte com o capeta. Chegando numa porteira, pulava-a até mesmo estando de costas para ela, numa rapidez de admirar. Já do outro lado abria a porteira para seu congado passar. Para desviarem do trabalho bravo de Barnabé era preciso passar pelo campo afora, sem entrar na cava, saindo da estrada...

Nas estórias sobrenaturais é o lugar místico mais propício à aparição de espectros e acontecimentos estranhos. Nela  fazem feitiços perigosos. Se o sujeito não tiver anjo da guarda firme e não souber rezas fortes, não se dá bem.

É nas cavas que a montaria empaca misteriosamente... por mais que o cavaleiro fustigue o animal com o chicote ele se recusa a seguir adiante (porque está enxergando uma invisão, visagem, assombro: o espírito guardião da cava). A tropa ao passar por ela, pode se desorganizar, pela desorientação da égua madrinheira, que vai à frente; pode rebentar uma correia de sustentação de carga, ou os cargueiros começarem a brigar. O carro de bois trava, geme dobrado, sai fumaça no cocão, quebra canzil. A boiada estoura; o sensitivo passa mal... Cava é assim.


Cava antiga e abandonada nas Três Praias, São João del-Rei. 

Notas 

* O capitão da guarda de Coronel Xavier Chaves na primeira metade do século XX era "Romualdo", depois substituído por "Carioca".

                                                                            Créditos

Informantes: diversos, sobretudo saudosos capitães de congado de São João del-Rei: Altamiro Ponciano, José Camilo da Silva e Luís Santana.

Texto e fotografia (2003): Ulisses Passarelli.

Revisão: 31/03/2025.